Posts Tagged ‘João Ubaldo Ribeiro’

De bola, flores e abandonos

30/05/2010

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texto de zédejesusbarrêto*

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Queria só falar de flores neste final de outono. Ou de bola, apenas, de olho na África do Sul. Queria ouvir o grito de GOOOOL feito um signo sonoro único, universal, chamando a paz, congregando a humanidade, estabelecendo a igualdade humana.

Porque diante da bola somos todos um, iguais, independente de origem, cor, crença, ideologia, sexo, idade, tamanho…

A bola é o signo mais acabado de Deus. Não tem início, não tem fim… plena de mistérios, grávida de encantamentos. Fêmea!

Bola… Alfa e ômega. Universo, planeta terra, útero, cabeça, gota, ponto, grão, quietude e movimento, tudo!

Flores à bola, todas! Rosas, rosas de todos os tons, e orquídeas, cravos, margaridas, jasmins, magnólias, angélicas, gérberas… Flores à bola!

E que venha a Copa, que os olhos se abram para a África. Não com olhos de cobiça. Mas com o sentimento de reencontro com a nossa humanidade. Simples, pó (lodo e amálgama), semente.

Que o milagre da Bola nos permita ver, compreender a humanidade, pensar num novo amanhã… a partir da África-Mãe! Ave, deusa Bola!

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Vistas turvas

O noticiário engajado mostra, os marqueteiros do poder me empurram, o presidente Lula brada convicto e eu até quero acreditar que a pobreza diminuiu de verdade, está mesmo quase que acabando ‘como nunca antes neste país’! Pronto. Que bom que fosse!

Pois ando pelas ruas e praças centrais de minha Cidade da Bahia e tropeço em molambos humanos arriados pelas calçadas, famílias inteiras dormindo sobre papelões na praça dos Mares, de Nazaré, da Piedade, sob marquises e viadutos, numa miséria, num desamparo, num abandono de cortar coração.

Carros, buzus, transeuntes passam lotados, nem olham, parece que nem se dão conta… feito os governantes. Esses não contam, já não fazem parte dos números, das estatísticas… quem sabe nem mais humanos como nós serão.

Viajeiro, passo por cidades menores do interior sertanejo e deparo-me com pedintes pra todo lado, bodegas cheias de cachaceiros desdentados, os posto de saúde abarrotados, meninas barrigudas já com criança nos braços e olhos embaçados, envelhecidas e mal vestidas, jovens perambulando sem ter o que fazer, aquela feira murcha, a desgraceira das drogas desgraçando tudo e, em cada esquina, relato de violência de todo tipo e sem controle, às portas. Balas que matam é o papo, antes da bola e da Copa.

Ah, vejo circulando muito carrão, picapes bonitas rasgando estrada voando na contramão… deve ser a tal ‘nova’ classe média de que tanto falam. Passam tão azoados que nem dá tempo de ver os meninos e meninas na beira da estrada vendendo frutas e bichinhos do mato, pedindo esmolas, molambentos. Lembro-me dos carros-de-boi cantando dolências estrada afora.

Acho que a idade andou me deformando a mente. Ou careço de um daqueles óculos 3D – dos que se usam no cinema pra pessoa ‘entrar na realidade’ – pra que eu possa enxergar direito as coisas.

Tô esperando o horário eleitoral gratuito, em agosto, pra desanuviar. Lá é que a gente vê coisa bonita e o coração ufana!

Crendeuspai! Onde perdi minha esperança?

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Atentado ao Pelô

Desafio qualquer autoridade a, sozinha no seu carrão, estacionar num dos estacionamentos oficiais pagos da área do Pelourinho, à noite. Escuridão total, nem dá pra enxergar os carros, sem uma viv’alma lá dentro, um terror! O serviço é uma porcaria, despreparo e falta de educação na porteira. Insegurança absoluta, um convite aos bandidos, risco total, dá medo de verdade. Inconcebível manter uma grande empresa do ramo (???) prestando aquele (des)serviço. Afugenta qualquer um. Não vão lá, pelamôdedeus!

O jeito é mesmo estacionar nas ruas próximas/distantes: Chile, Misericórdia, Ajuda… onde os malandros assediam e retomar o volante, já mais tarde, é um risco.

Por essas e outras o Pelô está esvaziado, entregue a drogados e traficantes, sobretudo à noite. Cara de abandono. São João vem aí, Copa do Mundo também… É esse o serviço que oferecemos, é assim que queremos chamar as famílias, os turistas para festejar?

Enquanto isso, o ‘projeto de ‘re-re-revitalização do Centro Antigo’ rola, há anos, em blá-blá-blás de gabinetes.

Sinto falta do brado dos movimentos negros baianos: ‘Salvem o Pelô!’ Cadê? Só o mestre Clarindo clama? Quero o ijexá do Gandhy, os tambores do Olodum, o baixo do reggae, os berimbaus angoleiros clamando, gritando em pedido de socorro. O Pelô chora de desamparo.

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Ler é viver

Releio aos poucos e pela terceira vez ‘Viva o Povo Brasileiro’ do baiano João Ubaldo Ribeiro. A cada releitura mais fantástico ainda. É o nosso ‘Cem Anos de Solidão’, a saga latinoamericana do colombiano Gabriel Garcia Marquez.

O texto e a abordagem histórica de Ubaldo, que mais recentemente lançou o belo ‘O Albatroz Azul’, são brasileiros e baianíssimos. E tá rebocado o baiano que não ler. Ubaldo é essencial.

Os versos de Pessoa, a prosa de Ubaldo, os toques de Verissimo, os fraseados de Millor… Quedo-me, diante deles, pequeno.

Mas insisto, aqui e ali, com minhas palavras toscas, letras em garranchos.

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PS: – Elogiável, sob todos os aspectos, a lei do dep. Lobbe Neto (PSDB-SP) sancionada esta semana pelo presidente Lula que prevê a instalação de bibliotecas em todas as escolas públicas e privadas do país, num prazo de 10 anos. Acho o prazo longo, mas… já é um adianto, arre! Sem leitura não saímos desse atoleiro.

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Ói a Copa!

… mas a Copa do Mundo da África tá em cima e, quando a bola rola, a vida quica com ela, gracejante. Só que o mesmo grito de gol, que empolga, entristece. O goleador vibra, o goleiro chora. A vida é uma bola.

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Pensamentando…

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”

(João Guimarães Rosa)

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (26mai/2010)

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UMA PONTE SOBRE O RECÔNCAVO E ILHAS

23/02/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Um réquiem de João Ubaldo para Itaparica, ameaçada de ser atropelada pela BR 242, provocou uma resposta grotesca e vazia do governo, que macula sua imagem. A reação foi xenofóbica e preconceituosa por ele residir no Rio, e não ser um técnico, senão um intelectual, supostamente amante do atraso.

Assinei o manifesto em solidariedade ao escritor pela tentativa de desqualificá-lo, em defesa da liberdade de opinião e por outras razões que vão mais além dos seus temores.

A ponte, a meu ver, não fará de Itaparica uma extensão de Salvador, tanto quanto a Rio-Niterói não expandiu Niterói, nem desafogou o Rio, que cresce na direção oposta. Itaparica, como Niterói, será apenas um atalho para a BR-101 e BR-242. Continuará como um conjunto de condomínios fechados usados um mês por ano, como o litoral de Lauro de Freitas e Camaçari.

Mesmo porque, a ponte será uma nova Paralela, engarrafada 24 horas por dia, apesar de suas oito pistas, pois o gargalo está na entrada de Salvador. Não será também uma saída para a soja do oeste, pois o nosso porto, mesmo ampliado, não tem condição de operar granéis e tem uma sobrevida de 25 anos. Ela será, sim, uma ponte sobre o Recôncavo e ilhas, cujas estradas serão marginalizadas, o sistema hidroviário e patrimônio abandonados.

Não digo adeus à ilha, que continuará sendo apenas uma passagem, lamento por Salvador, que poderá receber cerca de 60.000 carros e caminhões diários entrando por São Joaquim e cruzando seu centro antigo em direção ao Litoral Norte, onde estão as praias mais badaladas e os principais centros de produção da Região Metropolitana de Salvador – RMS, o Copec e a Ford.

Imaginem o engarrafamento do Américo Simas, da San Martin, da Contorno e do Iguatemi nos dois sentidos. Pela conformação do cabo de S. Antônio, não podemos ter um anel rodoviário, senão um fundo de saco (cul de sac). Para ele, o já congestionado Iguatemi, convergem duas estradas, a BR-324 e a Estrada do Coco/Linha Verde. Agora teremos uma terceira, a BR-242.

Enquanto em todo o mundo se evita a entrada de carros no centro, nós vamos despejar ali uma estrada de oito pistas.

A ponte terá também um impacto enorme sobre a segunda maior baía do mundo. A construção de uma ponte como essa demanda a construção de modelos reduzidos para simulações de marés, ventos e descargas de rios e assim evitar assoriamentos e correntezas indesejáveis. Pequenas obras nos portos de Fortaleza e Recife acabaram com as praias de Iracema e de Olinda. O porto de Suape atraiu tubarões para a praia de Boa Viagem.

Quanto perdeu Recife e perderá Salvador com um monstrengo que já arranca a 35 m de altura, prejudicando a paisagem, a navegação, os esportes náuticos e o turismo?

É inconcebível que se licite um projeto dessa complexidade sem estudos de viabilidade e impactos? Nem eles podem ser feitos em 120 dias.

Ao que tudo indica, o Convite a Manifestação de Interesse é apenas a legitimação do projeto do “Consórcio” já apresentado pelo secretário de Infraestrutura, cujo orçamento inicial é de R$ 2,5 bilhões, mas que poderá ser triplicado com os custos financeiros e operacionais.

É um engano imaginar que o setor privado irá investir na ponte e que ela será paga com o pedágio. Com este projeto e o remake de R$ 1,61 bilhão da Fonte Nova (A Tarde, 30/01) a capacidade de endividamento do Estado fica comprometida por algumas décadas e nós contribuintes pagando o pato.

Caro colega Bira Gordo, li com a atenção seu artigo “Radicalismo e desenvolvimento” do último dia 11/2, por ser V. o mais ilustrado porta-voz da atual administração. Esta falsa oposição entre desenvolvimento e preservação ambiental, assim como a pecha de radicalismo atribuída ao contraditório são coisas dos anos 70.

Confesso que não consegui enquadrar Ubaldo nem eu mesmo em nenhuma de suas categorias – vermelho/comuna, verde de raiva, infantil e senil/saudosista – nem numa fantasmagórica oposição.

Queremos apenas um desenvolvimento sustentável, que não seja só pontes, viadutos, asfalto, mais carros e fumaça. Há alternativas melhores e mais baratas.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil-Depto Bahia e do Crea-BA, membro da Academia de Letras da Bahia

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NOTA DO EDITORPara ficar por dentro deste debate sobre o projeto de uma ponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica, veja abaixo os endereços de três posts do Jeito Baiano. Começando pelo artigo de João Ubaldo Ribeiro, publicado originalmente no jornal A Tarde e que o editor deste blog se orgulha de tê-lo botado na rede mundial, propiciando assim o surgimento do manifesto de apoio ao escritor itaparicano. O manifesto foi transcrito na íntegra em um destes posts e se você quiser subscrevê-lo, o site para isso também está aqui.

Em seguida, veja o artigo de Ubiratan Castro de Araújo, o Bira Gordo, ao qual Paulo Ormindo de Azevedo se refere em seu texto acima.

Artigo de João Ubaldo “Adeus, Itaparica”:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/22/adeus-itaparica-%E2%80%93-por-joao-ubaldo/

Manifesto de apoio a João Ubaldo: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/31/manifesto-de-apoio-a-joao-ubaldo/

Link para a subscrição do manifesto:

http://www.gopetition.com/online/33669.html

Antonio Risério entra no debate: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/21/riserio-entra-no-debate-sobre-a-ponte/

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RADICALISMO E DESENVOLVIMENTO

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texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

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Nos idos tempos de minha juventude, o radicalismo político era indiscutivelmente vermelho, nas suas várias tonalidades; do rubro encarnado do livrinho de pensamentos do presidente Mao até o rosa choque da social-democracia. As velhas tias baianas desenvolveram uma sábia teoria, pela qual comunismo era como surto de sarampo. Era normal na infância e muito perigoso na maturidade! Hoje, o radicalismo mudou de cor. Ele é indiscutivelmente verde, em todas as suas tonalidades; do verde-oliva dos defensores da floresta, ao verde-musgo dos defensores das águas, até o verde claro dos defensores do ar puro e do clima fresco.

Para que meus amigos verdes não fiquem verdes de raiva, devemos reconhecer que o radicalismo é da natureza dos movimentos sociais. Cada movimento existe em função de uma pauta específica, focada em uma questão que assegura a legitimidade e a militância de todos os seus simpatizantes. Por isso os movimentos sociais são sempre maximalistas. Assim é que os governos são de partidos políticos e não de movimentos sociais.

O mais grave é que os radicalismos nunca andam sós. Ao lado do verde infantil, anda o saudosismo senil. Nós todos, pós-sexagenários, sentimos bater em nossas mentes a saudade de nossa própria juventude. “No meu tempo tudo era melhor”. Ai que saudade tenho da Estância Hidromineral de Dias D’Ávila, veraneio de toda a minha infância. Nunca mais os banhos das milagrosas lamas preta e branca, nunca mais a cata de mangaba nos tabuleiros… ai que saudade! Mas nem por isso pretendo destruir o Polo Petroquímico, principal atividade industrial da Bahia. Esta patologia tem hoje um sintoma: a saudade da Itaparica do meu avô! Como diz o povo, amor que fica é amor de Itaparica!

A mais recente manifestação deste encontro de radicalismos é a oposição apaixonada ao projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica. Este não é um projeto rodoviário isolado. Ele faz parte de todo um planejamento do Estado da Bahia para a reativação da Baía de Todos os Santos e seu entorno, o Recôncavo Baiano. Esta baía nunca foi um local bucólico de contemplação e sim um local de trabalho produtivo! O desafio do presente é a restauração do desenvolvimento articulado de toda a baía, com indústria naval, interligação de estradas com o sistema de portos e expansão da indústria automobilística e do Polo Petroquímico.

A baía bucólica é o triste resultado das mudanças econômicas dos anos 60, com o funcionamento da Rio-Bahia e com a implantação da economia do petróleo, que produziram um Recôncavo desenvolvido, chamado Região Metropolitana de Salvador, e um Recôncavo abandonado, chamado de Histórico. Nestes espaços abandonados, ficou uma população pobre, os nativos, sem acesso aos serviços de saúde, educação, sem emprego e sem rendas, indigentes das migalhas dos ricos veranistas e turistas do Recôncavo desenvolvido, que durante algumas semanas no ano, iam descansar as vistas com a pobreza alheia. Na Baía do século XXI, tanto nativos quanto veranistas tem o mesmo direito de acesso aos benefícios do desenvolvimento, pois são todos cidadãos baianos.

O grande remédio contra os radicalismos é a prática da democracia. Que todos os interessados sejam ouvidos! Que se defina a justa medida da preservação da cidade de Itaparica, cidade histórica e estância hidromineral, de modo a protegê-la dos impactos negativos da desfiguração urbana e da implacável especulação imobiliária. Queremos todos que a cidade de Itaparica continue a produzir milagres com a sua “água fina, que faz velha virar menina”.

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*Ubiratan Castro de Araújo – Historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

MANIFESTO DE APOIO A JOÃO UBALDO

31/01/2010

O escritor João Ubaldo Ribeiro, passando férias em Itaparica, ligou para o editor-chefe de A Tarde, o também escritor e poeta Florisvaldo Mattos, e anunciou a vontade de estravasar, em artigo especial para o jornal, a sua indignação com o projeto de construção de uma ponte ligando Salvador à Ilha. O artigo “Adeus, Itaparica” foi publicado no espaço de Opinião no dia 22 deste mês de janeiro.

Nesse mesmo dia reproduzi o artigo aqui no blog Jeito Baiano, post este que foi visto em São Paulo por Claudio Leal, repórter da revista digital Terra Magazine. Claudio Leal mobilizou intelectuais e artistas para uma manifestação de solidariedade a João Ubaldo, do que resultou o manifesto “Itaparica: ainda não é adeus”, reproduzido abaixo, e a criação de um site para quem quiser subscrevê-lo on line.

Links para o artigo de João Ubaldo:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/22/adeus-itaparica-%E2%80%93-por-joao-ubaldo/

e para a subscrição do manifesto:

http://www.gopetition.com/online/33669.html

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ITAPARICA: AINDA NÃO É ADEUS

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Abaixo-assinado sobre a construção da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica

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“Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de uma igrejinha venerável por milagre preservada”

(João Ubaldo Ribeiro)

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Os abaixo-assinados, cidadãos brasileiros, encontraram no emocionante e esclarecedor artigo “Adeus, Itaparica” (jornal A Tarde, 22/01/2010), de autoria do escritor João Ubaldo Ribeiro, argumentos consistentes e equilibrados para inaugurar um debate amplo sobre o anteprojeto de construção da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica, anunciado pelo governo do Estado da Bahia. O itaparicano João Ubaldo, cujos romances puseram a Ilha na geografia literária brasileira e universal, é uma voz qualificada para questionar elementos sombrios e outros mais claros do empreendimento, previsto como bilionário para os cofres públicos e incerto para o destino ecológico e econômico da maior ilha marítima do Brasil. O autor de Viva o povo brasileiro não está sozinho em seus questionamentos e nos incorporamos a eles nos seguintes pontos:

1. É dever do governo do Estado da Bahia abrir um abrangente debate público sobre o projeto da Ponte Salvador-Itaparica, cujo edital de parâmetros para a construção foi anunciado pelo secretário de Planejamento, Walter Pinheiro. Entendemos que uma obra dessa dimensão deve ser discutida previamente com o povo baiano em audiências públicas (sobretudo nos municípios de Salvador, Itaparica e Vera Cruz), e não imposta por decisão unilateral do Estado.

2. Lamentamos o anúncio do anteprojeto de uma ponte de 13km sem a realização prévia de um estudo aprofundado de impacto ambiental, histórico e econômico. Representantes da administração estadual alegam vantagens de naturezas diversas, numa polifonia oficial ruidosa e nebulosa quanto às metas do governo. Será a ponte a via tecnicamente mais adequada para melhorar a logística da economia estadual e ao mesmo tempo revigorar a Ilha sem prejudicar suas características?

3. O precário serviço terceirizado de transporte marítimo (ferry-boat) Salvador-Itaparica não é um argumento sólido para justificar a construção de uma ponte faraônica e abracadabrante. Os cidadãos têm direito a um serviço público razoável e eficiente. Cabe ao governo oferecê-lo, como oferecem vários governos ao redor do mundo.

4. Não é clara a prioridade do projeto para o desenvolvimento econômico da Bahia, nem mesmo para o turismo regional. Na capital baiana, há prioridades infra-estruturais gigantescas ainda não atendidas pelo Estado (municipal, estadual e federal), a exemplo da construção do Metrô de Salvador, cujas obras se arrastam, penosamente, há uma década, sem perspectiva de conclusão. Há ainda dezenas de intervenções mais prioritárias, a exemplo da urbanização de áreas periféricas e recuperação de vias de acesso à capital baiana, além de investimentos básicos na própria Ilha e na preservação da Baía.

5. João Ubaldo é irrespondível quando lembra o risco de a intervenção estatal estimular o turismo predatório na Ilha de Itaparica e no entorno da Baía de Todos-os-Santos, com megaempreendimentos agressivos ao meio ambiente e descaracterizadores da singularidade histórica da Bahia. Como enfatiza o escritor, os argumentos governamentais e empresariais apresentados até esse momento prenunciam um “atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História”.

6. Anteprojetos e desenhos da estrutura da Ponte Salvador-Itaparica, divulgados pela mídia baiana, apontam para uma agressão à paisagem da Baía de Todos-os-Santos, um patrimônio ambiental inalienável do povo baiano, talvez o último a salvo da sanha empresarial que avança sobre o meio ambiente de Salvador e do Estado. Em sua visita à Bahia, em 1949, o escritor Albert Camus anotou em seu diário de viagem: “Prefiro essa baía à do Rio, muito espetacular para o meu gosto. Esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia”. A ponte atingirá a medida e a poesia evocada por Camus, já incorporadas à alma dos baianos e dos turistas; sobre as águas calmas e azuladas de Yemanjá vai se erguer um monumento ao empreendedorismo desalmado?

7. Desejamos uma resposta formal do governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner, ao artigo do romancista João Ubaldo Ribeiro e aos baianos. Seria um gesto de delicadeza e compromisso com os princípios democráticos fundadores do seu programa de governo.

ADEUS, ITAPARICA – por JOÃO UBALDO

22/01/2010
Ilustração de BRUNO AZIZ

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de JOÃO UBALDO RIBEIRO

(texto escrito especialmente para o jornal A Tarde)

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Como todos os anos, vim a Itaparica, para passar meu aniversário em minha terra, na casa onde nasci. Casa de meu avô, coronel Ubaldo Osório, que fez pouco mais na vida que amar e defender a ilha e seu povo. De lá para cá, muito se tem perpetrado para destruí-los física ou culturalmente e há nova tentativa em curso. Trata-se da anunciada construção de uma ponte de Salvador para cá. Isso é qualificado, por seus idealizadores, de progresso.

Conheço esse progresso. É o progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles; que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que se alastra por onde quer que estejamos enfurnados, ilhas das quais só se sai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.

Também conheço os argumentos farisaicos dos proponentes da ponte, ávidos sacerdotes de Mamon, autoungidos como empresários socialmente responsáveis. Na verdade, sabem os menos ingênuos, eles se baseiam em premissas inaceitáveis, tais como uma visão imediatista, materialista e comprometida irrestritamente não só com o capital especulativo, que já está pondo as mangas de fora no Recôncavo, como aquele que investe aqui usando os mesmos padrões aplicados em Pago-Pago ou na Jamaica. A cultura e a especificidade locais são violentadas e prostituídas e o progresso chega através do abastardamento de toda a verdadeira riqueza das populações assim atingidas.

As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre a estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa. E confessarão, é claro, pois Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda.

Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História. Quem não é atrasado sabe disso. Para não cometer esse tipo de atentado é que, em Paris, por exemplo, não se permite a abertura de shoppings onde isso possa ferir o comércio de rua tradicional. Tampouco, em Veneza, as gôndolas foram substituídos por modernas lanchas. Num país não submetido a esse estupro sócio-econômico e cultural, os saveiros seriam subsidiados, as antigas profissões, o artesanato e o pequeno comércio também. Exercendo a vocação turística de toda a região, teríamos razão em nos mostrar com tanto orgulho quanto um europeu se mostra a nós. Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis.

Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de alguma igrejinha venerável por milagre preservada, na fala, daqui a pouco perdida, de meus conterrâneos da contracosta,. Sei em que conta me terão os que querem a ponte e não têm como dizer que só estão mesmo é a fim de grana, venha ela de onde vier e como vier. Conheço os polissílabos altissonantes que empregam, sei da sintaxe americanalhada em que suas exposições são redigidas e provavelmente pensadas, como convém a bons colonizados, já ouvi todos os verbos terminados em “izar” com que julgam dar autoridade a seu discurso. É bem possível que a ponte seja mesmo construída, mas, pelo menos, não traio meu velho avô.

DORIVAL CAYMMI, O BUDA BAIANO

17/08/2009
Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

(Há um ano da morte de Dorival Caymmi, vale a pena ler de novo o texto escrito por zédejesusbarrêto ao receber a triste notícia, quando morava em Angola)


por ZÉDEJESUSBARRÊTO


Em Luanda, do outro lado do Atlântico, fico a saber da morte de Dorival Caymmi, aos 94 anos.

Talvez o último dos grandes ícones da tal baianidade, atributo que ele carregava na cor da pele mulata, preservava na pose e na pança de Xangô-rei, no vagar, no dengo e na doçura de seu olhar, de seus gestos, de suas palavras, de seu sorriso.

Caymmi era um gênio.

Nos anos 30, com voz grave e afinada, acompanhado de seu violão dolente já mostrava ao mundo ‘o que é que a baiana tem’.

E no seu rastro de som e molejo vieram todos… Jorge, Carybé, Verger…

Ah! Deve estar uma festança no céu. Jobim ao piano.

Certo dia, numa entrevista, acossado pelos jornalistas que babavam sua genialidade, o maestro Jobim falou:

A música é Caymmi, Caymmi é a música e eu não seria músico se não fosse Caymmi’.

Basta? Tom Jobim!

Não, não basta.

Nos anos 70, entrevistando João Gilberto, o chamado papa da bossa-nova, ele disse:

Tirem os olhos de mim, que eu nada sou além de um tocador de violão.

O gênio se chama Caymmi. Então, vão ouvi-lo, vão entrevistá-lo.

Ele é o mestre, ele é a música’.

João Gilberto!

A última vez que o vi, um buda baiano, de branco, sentado e lento, foi na roça sagrada do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro ketu/nagô de São Gonçalo do Retiro dedicado a Xangô.

Ele era Obá, ministro de Xangô. Como o compadre Jorge. Como o compadre Carybé.

Dormiram na mesma esteira, cabeças sagradas aos Orixá, irmãos todos de Mãe Stella de Oxóssi, sacerdotisa dessa terra-mãe que é hoje a mais africana de todas as cidades, pelo mistério que preserva nos seus candomblés, que, do lado africano do Atlântico já nem se ouve mais falar.

Caymmi era mais do que um músico. Foi um signo.

Um revolucionário, sim senhor! Ele mudou a música brasileira com seu violão de mar.

E projetou a baianidade no mundo, via Carmen Miranda e o cinema americano.

Como escreveu outro baiano, João Ubaldo Ribeiro,

Caymmi era um fazedor de beleza’.

Ia além das canções. Pintor de traços e cores precisas, um grande contador de histórias, proseador, sedutor…

Cantou o povo, o andar, a ginga da gente baiana, o requebro das cadeiras da fêmea, a mistura, o jeito da mulatice, o som das ruas e senzalas, a conversa e a labuta dos homens do mar, do cais, o ir e vir das ondas, os mistérios do reino de Aiocá, o vento na palha dos coqueiros, o balanço das velas dos saveiros, o xaréu, as crenças, o rabo de arraia dos capoeiras, as festanças, o samba no pé e na bunda, a alegria de viver baiana, os tambores nagôs, as mandingas de Angola, os mistério dos caboclos e encantados…

O violão de Caymmi era recôncavo.Dorival - capa LP 101208 FOTO18

Seu canto, maresia, daquela que varre a sujeira e deixa o ar da Cidade da Bahia tão puro e limpo como as nuvens brancas de Oxalá.

Caymmi era luz, azul como o céu e brilhoso como o mar de Todos-os-Santos.

A Bahia inteira, agora, deve curvar-se ao chão perante o Universo e agradecer…

Por ele.

Como agradecemos agora, a Olorum, por ter nos dados a graça de ter nascido no mesmo espaço e no tempo em que viveu o mestre Dorival Caymmi.

Agradeçamos ao Criador pela graça de tê-lo ouvido.

Amém.