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SALVADOR 462 ANOS – EXALTAÇÕES E CRÍTICA

29/03/2011

Retomo a postagem neste endereço WordPress pelo menos enquanto o portal de A Tarde On Line continuar under attack e sofrendo instabilidade.

Este post dedicado aos 462 anos da Cidade da Bahia, completados hoje, dia 29 de março de 2011, se divide em três partes. Na primeira, o escrivinhador e conselheiro-mor deste blog, zédejesusBarrêto, amargurado com a degradação da “Mãe Preta”, a cidade amada, recorda em prosa poética um bom momento de reencontro com ela. Na segunda parte, o poeta José Carlos Capinan satiriza Salvador quase à maneira de Gregório de Mattos, em poema dedicado ao poeta e jornalista Florisvaldo Mattos. E na terceira parte, Capinan declara seu amor à Cidade da Bahia em letra de música que Roberto Mendes transformou num afoxé, gravado pela cantora Carla Visi.

Salvador por AZIZ

PARTE I

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texto de zédejesusBarrêto

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Queria um texto bonito, afetuoso,

para homenagear a cidade amada,

a Mãe Preta

que faz 462 anos neste 29 de março/2011.

Mas descubro-me sem inspiração.

Talvez pela amargura de vê-la tão

vilipendiada, sofrida, mal-cuidada…

Então optei por um texto que escrevi na primavera de 2008,

logo que retornei de uma viagem de trabalho a África-Angola-Luanda …

com o coração apertado de saudades.

Segue:

*

Chegança

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Sexta.

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Acordo com bem-te-vis e fogo-pagôs saudando o dia

Abro as janelas

O cheiro de mato e maresia me invade

Manhã luminosa de quase primavera-verão

O reflexo do sol nas folhas largas das bananeiras provoca

um verde exuberante

Um brilho intenso se espalha pelo tempo

Aspiro luz numa aragem pura que vem do mar, adiante, tão próximo

Ligo o rádio

Caetano canta Wando, dolente e belo

À noite tem João e violão no TCA

Nos jornais, a viagem derradeira de Waldick, do brega ao paraíso

A caminho do Ilê Opô Afonjá, ouço Mateus Aleluia, sacro-afro-barroco Angola e recôncavo

Na roça do Opô Afonjá, o branco de Oxalá

Silêncio, respeito e paz

O tempo noutra dimensão

Axé! Êpa babá!

Flutuo

No caminho dos Mares

Aprecio as torres das velhas igrejas, mirantes da fé

No ponto do buzu da Jequitaia, um grupo de 20 pessoas …

Homens, mulheres, velhos, jovens, crianças

Todos de branco, da cabeça aos pés

Riam, felizes, soltos, feito anjos

No templo gótico da Senhora dos Mares

madrinha, mulher, rainha –,

elevo-me aos céus

no rastro da intensa luz que clareia a nave vazia pelos vitrais coloridos

Só eu e ela, Mãe!

Sinto-me abençoado.

Subo a Sagrada Colina para agradecer

O padre celebra, no altar florido

O branco predomina

Nos trajes, nos panos litúrgicos, na decoração

O Senhor do Bomfim reluz no dourado que a réstia de sol alumia

Mulheres negras de torços e colares de contas coloridas

quedam-se de joelhos e reverenciam com a cabeça

o poder dos mistérios da fé

Uma brisa forte vinda das lonjuras do mar-além

varre o interior do templo e refresca as almas

Mas não apaga a chama das velas, dos corações dos devotos

O Bomfim me comove

O hino cantado pelo povo me engasga, me faz chorar

Sempre, inexplicável.

Saio da igreja em estado de graça

Fora, nas escadarias, converso, beijo e ganho brindes

das velhinhas que vendem fitas-medidas abençoadas pelo ar purificado

que cobre, perfuma, purifica e passeia na Colina Sagrada.

Dá vontade de comer um filé em Juarez, no antigo Mercado do Ouro…

Ou uma moqueca de carne no Moreira, que está fazendo 70 anos…

Ou o peixe de Lula, no Mini Cacique, da rua Rui Barbosa…

Hum! Gostosuras da Mãe Preta!

O céu está limpo, com nuvens alvas

desenhos de algodão sobre o azul infinito

A visibilidade é tamanha que diviso ao longe, do outro lado do mar

da baía de Todos-os-Santos, Orixás, Voduns, Inquices e Caboclos,

a torre da igrejinha de Vera Cruz, nítida.

O cristalino azul do mar faísca em prateadas escamas

Odoyá!

Olhando pro Atlântico sem fim

penso na vó materna, Angola

Ela nos ensinou o que é dengo, saudade, molejo, mandinga.

Agora sei,

estou chegado.

Aninho-me…

É morno e macio o colo da Mãe Preta, Cidade da Bahia.

*

(zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador)

O texto acima é um trecho do livro ‘Cacimbo – Uma experiência em Angola’ Solisluna Editora, 2010.

O livro ‘Cacimbo’ foi lançado na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, no ano passado. ‘Cacimbo’ aborda, numa prosa quase versejo, as identidades e dessemelhanças entre Luanda e Salvador, cidades fêmeas, irmãs, filhas das águas atlânticas.

Angola é vó da Bahia.

A bença, minha Mãe Preta!

Obs: O livro está à venda, nas livrarias da cidade (Pérola Negra, Cultura, Saraiva, Aeroporto, LPM …

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Salvador não salva ninguém

Mas a Bahia é a Bahia!”

(Gigica do Maciel, pensador de rua, lúcido e louco, filósofo do Pelô)


***

PARTE II

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Canto quase Gregoriano

(fragmentos)

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A Florisvaldo Mattos

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JOSÉ CARLOS CAPINAN

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Então, cidade, como estás em teu moderno estado?

E como nos tem tratado teus convertidos prosélitos?

E teus alcaides, cidade

O que de novo tem praticado?

(Estás ainda tão feia quanto teus brongos, alagados)

Seriam traumas, sequelas, dos tantos que endividaram

Tuas tralhas?

Ou será tua sina divina não teres ninguém que te valha

Vestindo gravata ou saia?

Quem te governa, cidade

É a farófia revolucionária ou a direita canalha?

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II

Desde Tomé que a gente paga pra ver

A utopia prevalecer

E as Coréias proliferando

(E certamente não é que falte fé ao baiano)

Continua ele votando

(Mas não passas de um ex-voto do milagre que o demo vem praticando)

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III

(E de que valem todos os santos

Se pra baixo te ajudam os soteropolitanos?)

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IV

E então, Salvador

Mudaste a cara do Pelô?

Tiraste de lá o povo

Tocas já outro tambor?

Os que antes lá roubavam

Passaram o ponto aos doutores?

Os traficantes trocaram

De drogas e os mercadores

Vendem outras ilusões

E o amor cotado em dólares?

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VIII

Se teus esgotos esgotam

Teus cidadãos pacientes

Pelo menos uma máxima

Aos que vomitam concede

Quem maledicente fala

O repto consente

Se o meio ambiente exala

É inepta ou inapetente

A gerência da cloaca?

(Ela fede abertamente)

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XVI

Que querem teus governantes?

Negócios e, negociantes

Dinheiro, como dantes

Para o terceiro milênio

Convênio com os empreiteiros

E como dantes, dinheiro

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XX

Se aos justos difamas

E alcagüetas

Digam de mim teus ghost writers

Toda maledicência

De mim podes dizer que sou

Teu proxeneta

Já que não podes dizer que sou

Teu poeta

De mim podes dizer que sou

Teu drogado

Já que não podes dizer que sou

Teu advogado

De mim podes dizer que sou

Ressentido

Porque proíbes a esperança

Ao meu partido

Mas deixa ao menos que eu seja

O que o futuro deseja

E o que será a tua estética

Uma nova ética

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José Carlos Capinan. Poemas; antología e inéditos. Salvador: FCJA:Copene,1996.p.99-10

(Um canto quase Gregoriano foi incluído no livro Confissões de Narciso, publicado em 1995)

***

PARTE III

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SALVADOR, SALVADOR

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ROBERTO MENDES e JOSÉ CARLOS CAPINAN

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Luminosa cidade

Espelho no mar

No céu claridade

É bonita de ver

Refletida nos olhos

Do meu amor Salvador

Não deixe o meu amor morrer

Me salve da dor

Se esse amor virar saudade

Negra na cor

Cidade da fé, felicidade

Negro amor

Quero ver nos olhos dela

Tua imagem

O amor quando nos deixa

É um beco sem saída

Me salve da dor

De um beijo de despedida…

Eu vou botar meu coração na mão

Que toca o tambor do teu afoxé

Cidade da fé, felicidade

Me salve da dor

Se esse amor virar saudade…

CAETANO PROVOCA DEBATE SOBRE O PELÔ

19/05/2010

Pedras "cabeça de nego" formam o calçamento do Largo do Pelourinho. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 6.3.2008

Em sua estreia como colunista do Segundo Caderno de O Globo, no domingo 9 de maio, Caetano Veloso retomou a discussão sobre reforma, restauração e abandono do Pelourinho, nome dado à região do Centro Histórico da Cidade da Bahia que fica em torno do Largo do Pelourinho. O artigo, intitulado “Política: o Largo da Ordem” (referência ao largo situado no centro de Curitiba que foi recuperado pelo prefeito Jaime Lerner nos anos 70), teve forte repercussão na Bahia, provocando pronunciamentos de políticos da situação e da oposição. O blog Jeito Baiano participa do debate com um texto de zédejesusbarrêto e reproduz em seguida o próprio artigo de Caetano e depois as reações contrárias do governador Jaques Wagner e do secretário estadual de Cultura, Márcio Meirelles, conforme matérias publicadas no jornal A Tarde, de Salvador.

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O Pelô brega

morre chique

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texto de zédejesusbarrêto*

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Caetano, o Veloso, escreveu sobre a degradação do Pelourinho, ‘pós ACM’. Jaques, o Vagner, rebateu chamando-o de desinformado sobre o plano que ‘a gente está fazendo’ visando a recuperação do sítio, espaço que é ‘Patrimônio da Humanidade’, o mais portentoso conjunto arquitetônico colonial urbano do país. ‘Está fazendo’, ainda. Enquanto isso, o cidadão esperava do governo e da prefeitura cuidados com a manutenção da vida por lá, com respeito aos que ali moram, trabalham e transitam. Baianos ou não. Que se restaure a dignidade do Centro Histórico de Salvador!

Ora, se havia algo errado antes, então transformemos para melhor o projeto de restauração do sítio, que começou a ser pensado nos anos 1960 e a ser implantado na década seguinte, os anos de chumbo, dentro de metas governamentais que visavam a exploração do turismo como fonte de riqueza, aproveitando o potencial histórico da área. Afinal, ali é o umbigo da primeira capital do país. O que foi feito ali, então, não foi pouco nem mera pintura de fachadas como dizem alguns agora.

Vale relembrar que, à época, o Maciel era conhecido como ZBM (Zona de Baixo Meretrício). Pelo Julião não se passava. As ‘famílias’ não subiam a ladeira do Pelô, fazia medo descer a ladeira do Mijo e outras quebradas que dão na Baixa dos Sapateiros. Por risco de morte. Vi brigas, facadas, navalhadas em pleno dia, naquelas ruelas. Era muito lixo e fedor. Os casarões caíam aos pedaços, pardieiros usados como malocas de traficantes, drogados e marginais. Cafetões, rufiões disputavam espaço e controlavam as esquinas, nem a polícia ousava. Degradação humana total. Bêbados, crianças famélicas imundas e cães sarnentos catavam lixo pelas ruas. Qualquer baiano mais vivido sabe disso. Eram poucas as famílias pobres que ali resistiam, sem ter para onde ir, amedrontadas. O Pelô era o brega, a zona dos castelos, das mulheres de ‘vida (nada) fácil’.

Respeitemos a história. A restauração do Centro Histórico, com todos os seus equívocos, foi um avanço, uma redenção naquele instante. O Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural), órgão criado para cuidar do projeto e das obras, era um centro de estudos de excelência, tudo executado em cima de pesquisas, de planejamento, com obras de infraestrutura sustentadas, feitos os levantamentos, casa por casa, ouvindo os moradores. Claro, tudo obedeceu a diretrizes políticas, a ecos de modernidade de uma determinada época. Os militares, que mandavam nos anos 1970, pregavam o ‘milagre’ desenvolvimentista. A exploração do turismo, atividade-vocação de Salvador, apresentava-se como uma panaceia e o Pelourinho recuperado seria a concretização física visível de uma cultura da ‘baianidade’, signo de uma era.

O que foi feito em duas, três décadas no Centro Histórico não foi só pintura de paredes e janelas, isso é discurso de palanque. Fosse isso, tudo teria desabado nos torós de outono. A revitalização do Pelourinho tornou-se um exemplo, foi reconhecida pelo mundo, tornou o Pelô um dos pontos de turismo mais visitados do país, isso é fato. A revitalização, como foi feita, provocou bons e maus resultados, todos sabemos. Como qualquer intervenção urbana, qualquer acontecimento na vida. Pois, se houve equívocos, e houve, foram frutos da mentalidade ‘modernosa’ de uma época. Como há, hoje em dia, muita ‘modernosidade’ discutível, até reprovável. O Pelô ‘turístico’ aconteceu, foi importante num determinado período de nossa história. Debrucemos sobre a experiência real, avaliemos e avancemos! Hoje, a modernidade engajada dos tempos lulistas aponta novos caminhos. Sigamos, então, a construir nossa era, já! Não precisa gastar tempo e energia apagando rastros, rasgando páginas, deletando fotos, criando versões convenientes do que passou. Saímos já do atoleiro, ou apodrecemos no lamaçal do passado. O acontecido é história, parâmetro, que nos orgulha aqui e nos envergonha lá. Lendo sem rancores as páginas escritas, vamos digitar com mais clareza agora. Ação! ‘O nosso tempo é agora!’, diz a sábia Mãe Stella de Oxóssi.

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

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Largo do Pelourinho em 2003. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde – 22.9.2003

Política: o Largo da Ordem

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texto de CAETANO VELOSO

(publicado originalmente em O Globo e reproduzido por A Tarde em 15.5.2010)

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Quando disse a Leminski, no começo dos anos 70, que me encantava a recuperação do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: “Você adora enganações feitas para a classe média”. Respondi que adorava mesmo. Sempre à esquerda, Leminski via limpeza, iluminação, policiamento e restauração de prédios como maquiagem – e olhava com desconfiança meu interesse por Jaime Lerner, o então prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime – e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas não via o Largo da Ordem como enganação. Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia à classe média. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: “Eu sou classe média”. O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria – ou estaria mostrando que já decolara. Era sonhar demais.

Ainda nos 70, os sobrados da área estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados. Lembro duas reações negativas: Candice Bergen e Décio Pignatari. Em ocasiões diferentes, ouvi de ambos: “Parece a Disneylândia”. Eu próprio, diante das tintas plásticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby. Mas a verdade é que, tendo crescido em Santo Amaro, eu não achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, mês de Nossa Senhora da Purificação. Achei que Candice e Décio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. Décio, de Sampa, queria velharia mais “autêntica”. Candice, de Los Angeles, reviu o que expõe a artificialidade de sua terra natal: Disneylândia. Já eu só via o esboço de realização da promessa do Largo da Ordem.

Nos anos 90, toda a região do Pelourinho ganhou o tratamento que eu imaginara utópico em 1972. Há queixas contra os métodos usados para a retirada dos moradores. Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas”. Elas é que mantiveram de pé esse pedaço da cidade. Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em matéria deteriorada, eu me sentia fascinado também pela degradação dos habitantes. A prostituição mais anti-higiênica manteve os sobrados de pé. Casas sem moradores caem. As do Pelô exibiam as marcas da decadência da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.

ACM é um nome que se evita – a não ser que se queira xingá-lo ou adulá-lo. Medir objetivamente seu legado é anátema. Tou fora. Truculento, vingativo, populista, Antonio Carlos Magalhães era o tipo de político de que desejei ver a Bahia e o Brasil livres. Fiz-lhe sempre oposição. Cantei nos comícios de Waldir Pires, que se elegeu governador. Mas Waldir uniu-se com parte da oligarquia rural que odiava ACM desde sempre. O vice de Waldir era um representante dessa oligarquia. Waldir mal esquentou a cadeira: saiu para tentar ser vice na candidatura furada de dr. Ulysses. ACM voltou em glória nas eleições seguintes.

A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas. Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao Centro Histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova autoimagem.

O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime. A explicação dada é que as facilitações oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram são artificiosas. O secretário da Cultura, meu amigo Márcio Meirelles, é o responsável pelo destino da área. Diretor do Bando de Teatro Olodum, Márcio nos deu Ó Paí, Ó!. O elenco que ele reuniu é um espanto de vitalidade. Mas, nesse e em outros espetáculos do grupo, o sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho vinha colorir o ódio a ACM. Eu adorava a peça assim mesmo. Arte é coisa séria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira estão, na verdade, mais sintonizadas com as forças que fizeram possível a recuperação do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.

Depois vieram o Recife Velho, o Centro de São Luís, algo do Centro de São Paulo – e sobretudo veio vindo a Lapa. A iniciativa privada se achegou, a Sala Cecília Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, iluminação, policiamento – e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FH-Lula. O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveitável de ACM – e fazer melhor. Não é saudável fazer com os benefícios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme. Esse privatismo repentino soa suspeito. O abandono do Centro Histórico tem parte no aumento da criminalidade. Política, para mim, é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol – nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.

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Turistas espanhóis assistem a apresentação de Capoeira no Terreiro de Jesus, no Pelourinho. Foto de LÚCIO TÁVORA | Agência A Tarde – 27.3.2009

Wagner diz que críticas de Caetano

decorrem da falta de informação

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texto de BIAGGIO TALENTO

(Agência A Tarde – 13.5.2010)

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O governador Jaques Wagner (PT) entende ter faltado “informação” ao cantor Caetano Veloso ao escrever o artigo publicado na edição de domingo do jornal O Globo criticando o abandono do Pelourinho e atribuindo a situação a uma suposta retaliação ao Centro Histórico pelo governo petista, devido ao fato de a última grande reforma, na década de 1990, ter sido feita pelo falecido governador Antonio Carlos Magalhães.

Pedi que o Márcio (Meirelles, secretário da Cultura do Estado) mandasse para ele o plano que a gente está fazendo de recuperação do Pelourinho – declarou o governador, insinuando que as reformas anteriores não foram bem-feitas.

O problema é que, para fazer bem-feito, demora. Para pintar fachada, é rápido. O plano anterior, ao qual ele se refere, faliu todo, taí o Pelourinho nessa situação – criticou, ponderando o fato de o atual governo ter feito “um trabalho demorado, com assessoria e consultoria internacional” e anunciou que, no dia 3 de junho, vai lançar o Programa de Recuperação do Pelourinho.

O ex-governador Paulo Souto (DEM), vice de ACM durante a primeira grande reforma no Pelourinho, disse que “chega a ser leviana e irresponsável” a declaração de Wagner criticando as intervenções dos governos passados.

Houve todo um trabalho de infraestrutura, com troca das redes elétrica e hidráulica, construção de praças de lazer, uma revitalização completa, fundamental para aumentar o fluxo turístico na cidade – rebateu, apontando que a revitalização de Salvador virou modelo para outros sítios históricos, reforçando a tese de Caetano segundo a qual o abandono do Pelourinho pelo atual governo se deve ao desejo de atacar obra de adversários.

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Trabalho longo

Na visão de Souto, a revitalização de centros históricos é um trabalho longo e persistente, “que depende de vontade política e uma presença forte do governo no local”. E ironizou:

Muita gente famosa passou pelo Pelourinho após a revitalização e adorou: Paul Simon, Michael Jackson, entre outros.

Sem querer polemizar com Caetano, chamando-o diretamente de desinformado, Wagner disse que “cada colunista escreve o que quer”. E apontou como único pecado o suposto fato de o cantor não ter recebido as informações adequadas sobre o que a atual administração está fazendo no Centro Histórico.

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Ladeira do Carmo, ao fundo, vista do Largo do Pelourinho. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 6.3.2008


Meirelles, de Ó Paí, Ó,

reage a artigo de Caetano

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texto de BIAGGIO TALENTO

(Agência A Tarde – 15.5.2010)

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O secretário da Cultura da Bahia, Márcio Meirelles, diretor de teatro (criador da Trilogia do Pelô, da qual faz parte a peça Ó Paí, Ó), entrou na polêmica sobre a situação do Pelourinho iniciada com artigo de Caetano Veloso no jornal O Globo, domingo passado. Em carta, contesta as acusações do cantor, reforçando as declarações do governador Jaques Wagner (PT), segundo as quais Caetano estaria “sem informações” sobre as obras feitas atualmente no Centro Histórico, que os governos passados fizeram apenas “maquiagem” no local, razão pela qual os casarões estariam deteriorados.

Com seu artigo, Caetano involuntariamente pautou a campanha pela sucessão estadual, motivando manifestações dos adversários de Wagner, o ex-governador Paulo Souto (DEM) e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB).

Meirelles refere-se à alusão de Caetano de que nas peças da Trilogia do Pelô havia um “sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho” que “vinha colorir o ódio a ACM (o ex-governador Antonio Carlos Magalhães, que inaugurou a primeira grande reforma em 1992)”. E contesta o cantor, afirmando que “não havia ódio” e sim “indignação por ver um poder truculento promover uma limpeza étnica e social, expulsando os antigos moradores do Pelourinho e entregando as casas, que eles mantiveram de pé, a novos ocupantes”.

O dramaturgo tem uma interpretação diferente também da tese de Caetano sobre a reforma do Pelourinho ser motivadora de intervenções dos governos e da iniciativa privada. Para Meirelles, “diferente do exemplo da Lapa, no Rio, onde o poder público fez sua parte, e a iniciativa privada e a sociedade, as delas, aqui, o governo fez tudo, como um pai/padrasto, ‘com dinheiro numa mão e o chicote na outra’”. Reafirma não ser possível “revitalizar um território urbano sem a força de seus moradores, sem ações articuladas dos três entes federados” e que não seria conveniente “tratar o Pelourinho como uma área isolada, um (im)possível parque temático. A maioria das soluções está no entorno, para onde foram muitas das famílias retiradas da área, ocupantes agora de outras ruínas ou marquises, sobrevivendo do possível”.

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ESPERANDO O BONDE

18/05/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Morávamos na Barra Avenida e poucas famílias tinham carro, na época. A maioria dos seus moradores era de classe média, mas havia também alguns ricos e muitos modestos, que viviam em uma das muitas “avenidas” da cidade. Nós, estudantes, nos encontrávamos no ponto do bonde e entabulávamos conversas que eram interrompidas abruptamente num ponto, com a famosa frase de Imbraim Sued: depois eu conto…

Éramos todos moleques, independente da origem, no bom sentido da palavra, que pongávamos e nos divertíamos no bonde. Havia filhos de comerciantes prósperos, funcionários públicos, mecânicos, operários e até de banqueiro. Não chegava a ser uma democracia sócio-racial, mas sem duvida o bonde socializava. Os abrigos da Sé e do Campo Grande, que reuniam uma multidão de estudantes da rede pública e privada, era uma festa ao meio-dia e no final da tarde, com muita conversa, olhares e namoricos.

No começo dos anos 60 os bondes foram abolidos a pretexto de atrapalhar o trânsito, para dar passagem aos milhares de carros produzidos no país. A popularização do carro privado deveria resolver tudo. Desde então deixamos de ter políticas de transporte público. Foi preciso a Fifa dizer que sem transporte de massa não haveria Copa.

Surge assim o projeto Rede Integrada de Transporte (RIT), gentilmente presenteado à prefeitura pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (Setps), que na primeira etapa deve ligar o aeroporto ao Shopping Iguatemi, correndo pelo canteiro central da Av. Paralela. As etapas seguintes, bem mais complicadas, não têm prazo, nem orçamento. As construtoras e os donos de ônibus têm pressa de cobrar a fatura de R$ 570 milhões prometidos pelo BNDES.

Criou-se, porém, uma polêmica sobre a motorização do sistema. A Setps defende um sistema conhecido pelo nome cifrado de BRT (Bus Rapid Transit). Por outro lado, o governo do Estado, que tem a chave do cofre federal, advoga a adoção do VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos). A decisão, que deveria ser técnica, está dependendo da sucessão senatorial.

O BRT, como o nome indica, é um sistema de “busus” moderninhos trafegando em via segregada, como em Curitiba. O VLT é um bonde articulado muito comum na Europa trafegando no meio das ruas, nos trilhos do antigo bonde, que nunca desapareceram completamente. Tem a vantagem de não poluir e ter uma manutenção baixa. Mas o adjetivo “leve” expressa bem que não é um transporte de massa. É o bonde moderno. Ambos podem servir como redes alimentadoras, transversais, do sistema de metrô, como nas cidades do México, Londres e Nova York.

O vetor de expansão mais forte de Salvador é o norte. Já transbordou para Lauro de Freitas e está chegando a Abrantes, em Camaçari. Nem BRT nem VLT darão conta da demanda de deslocamentos humanos na Região Metropolitana de Salvador (RMS) nos próximos dez anos, quando a região terá seis milhões de habitantes. A RMS tem duplicado de população a cada vinte anos e terá 12 milhões em 2040. As duas alternativas são um paliativo caro e não uma solução

Por que não se faz logo um metrô estruturante dessa expansão na Paralela, prevendo sua extensão até Camaçari? Um metrô de superfície, sem desapropriações, nem galerias subterrâneas, como o da Paralela, não custaria muito mais que um VLT ou BRT. Os vagões estão aí, parados, enferrujando e pagando pedágio. O metrô-tobogã da Bonocô até chegar a Cajazeiras, para que seja viável, demorará mais dez anos.

Com essa solução dispensaríamos a abertura da Via Atlântica e Linha Viva, que provocarão grandes impactos sociais e ambientais e um montão de desapropriações. E o pior, não resolverá nada, pois só induzem a população a comprar mais carros. Temos que deixar de pensar pequeno.

Lembro-me agora das propagandas rimada nos bondes, como a do Rum Creosotado, do Elixir de Nogueira e uma que dizia: “Neste mundo todos são passageiros, menos o cobrador e o motorneiro”. Desconfio que esses também são passageiros do bonde da história. A conversa está muito boa, mas vocês me deem licença, porque um bonde ou um ônibus está chegando… atrasado. Depois eu conto…

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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O URBANISMO HUMANIZANTE

14/05/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de ANILTON SANTOS SILVA*

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É uma concepção de urbanismo bastante debatida e pouco utilizada, não com esse conceito que estou introduzindo, mas decorrente da ideia de devolver a cidade a seus habitantes.

O urbanismo humanizante tem como foco uma relação harmônica e integrada entre a cidade e seus habitantes, o que passa necessariamente pelo combate à exclusão social urbana e políticas públicas eficientes, envolvendo saneamento básico, transporte público coletivo (com a redução do veículo individual que beneficia menos de 30% da população urbana), segurança, saúde, educação, preservação ambiental, enfim tudo que é fundamental para uma vida digna na cidade.

Nesse sentido, por que se pretende gastar bilhões no projeto Salvador Capital Mundial e não se resolve a questão da macrodrenagem da cidade?

É curioso que quando se levantam as questões urbanas, o seu foco principal passa ao largo, ou não é claramente expresso. Por exemplo: por que o capital exerce tanto poder, determinando o ritmo e a estruturação da cidade? Por que não se expõe claramente a raiz dos problemas urbanos?

Marx dizia que iremos sempre conviver com o dilema de educar os educadores e pensadores.

Talvez, a falta dessa prática, ao lado do poder grandioso e estratégico que o capital exerce sobre a cidade, esteja na raiz da questão urbana.

Quando irão reconhecer que a luta pelo direito universal à cidade é uma luta, sobretudo, contra o capital? Afinal quem elege os gestores públicos, não é o capital?

O direito de transformar a cidade é um direito legítimo de todos seus cidadãos. Entretanto, assistimos em Salvador a um conjunto de intervenções propostas que envolve desapropriações de milhões de metros quadrados, das áreas mais valorizadas da cidade, ignorando a participação da sociedade organizada nessa decisão. Portanto, trata-se de uma usurpação do direito universal à cidade.

Há um sentimento de impotência. Dificilmente teremos a capacidade de transformar a nossa cidade em mais humana, pautada pelo urbanismo humanizante, ela vista enquanto uma casa coletiva, cabendo aos seus habitantes (a coletividade) o direito de transformá-la e adequar sua expansão aos recursos tecnológicos, que toda grande cidade requer.

Assim, é imperativo fortalecer AS VOZES DA CIDADE, que se manifestam enquanto movimento livre que emerge da sociedade organizada. Se todos os movimentos não crescerem numa onda tsunami, os cidadãos soteropolitanos serão mais uma vez ignorados e avassalados, como já aconteceu com o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano.

Tenho a impressão que a cidade está fragilizada em termos de uma representação independente, apartidária e sem comprometimento com o capital. Um coração infartado que pede socorro e o que encontra em sua defesa ainda é muito pouco.

Tudo isso tem uma lógica: a maioria dos movimentos sociais da cidade, de esquerda (ainda existe isso?), sempre combateu a estrutura de poder, e com o poder conquistado calou sua voz. Aparentemente não tiveram o que combater ou foram cooptados pela estrutura de poder.

Acontece que a cidadania não tem partido, só uma ideologia – a defesa do cidadão e do direito universal à cidade.

O momento é delicado e não podemos assistir imobilizados a esse avassalamento urbano. É preciso reconhecer que a defesa da cidade é uma responsabilidade de seus habitantes.

Afinal, a quem pertence esta cidade? Ao capital imobiliário? Ao morador que constrói seu imóvel na forma que sua renda permite? Ao invasor, que ocupa ilegalmente o espaço que lhe é possível? Na verdade, a cidade pertence a todos seus moradores.

Tudo isso me faz lembrar uma antiga história de um pastor luterano que disse:

– Vi os judeus serem dizimados e nada fiz; percebo diariamente discriminações de grupos “minoritários” e nada faço. Assim, quando uma dessas mazelas se voltar contra mim, ninguém, absolutamente ninguém, nada fará por mim.

As desapropriações previstas no projeto Salvador Capital Mundial já foram lançadas e irão atingir muita gente. Pensando nisso, e na fábula de Esopo, que citei no último artigo(**), volto a perguntar: quem será o rato que a montanha da cidade pariu?

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*Anilton Santos Silva – Arquiteto/urbanista, demógrafo e consultor

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(**) O artigo citado pelo autor, “Salvador, a montanha e o rato”, publicado originalmente em Opinião do jornal A Tarde, em 8.4.2010, é reproduzido abaixo:


Ilustração de CAU GOMEZ

As tendências recentes de nossa urbanização sinalizam na direção de ampliar a concentração do capital imobiliário

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SALVADOR, A MONTANHA E O RATO

POR UMA NOVA POLÍTICA URBANA

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texto de ANILTON SANTOS SILVA*

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O conjunto de projetos Salvador Capital Mundial, que compreende mobilidade e requalificação urbana, revitalização da orla e outros, transforma a face da cidade, caracterizando uma nova centralidade – Iguatemi/Paralela. Na orla, pressiona a expulsão das ocupações populares face à indicação de implantação de condomínios residenciais para as classes de média e alta renda sem estar embasado no Plano Diretor Urbano ou Lei de Uso e Ocupação do Solo.

Questionam-se as alterações dos índices urbanísticos e dos gabaritos nas áreas de implantação dos projetos, considerando que haverá uma valorização significativa dessas áreas, por conta dos investimentos públicos, porém com agregação de valor capturado pelo capital privado, o que os defensores do projeto ignoram.

Salvador enfrenta tensões críticas na sua ocupação e disputa do espaço urbano, portanto é preciso, antes de realizar essas intervenções, revisar fundamentos conceituais de política urbana que impliquem a eliminação desses conflitos e preparar a cidade do terceiro milênio, a partir dos reais interesses da população.

Toda e qualquer cidade é o “locus” da manifestação do inconformismo da sociedade civil organizada, que expõe um sentimento generalizado de que nem a macroestrutura do poder público nem a do poder privado respondem às necessidades prosaicas da sociedade, em termos de qualidade de vida, equilíbrio social, emocional e satisfação das demandas básicas de sua população. Dessa forma, ela se coloca como o centro estimulador da cultura da solidariedade social, sem a qual nem a economia nem a sociedade caminharão sempre juntas, na busca incessante de um futuro melhor para todos.

A problemática da cidadania é decorrente da cidade desde os tempos da polis grega, na aurora da democracia, quando surgiu a articulação cidade e Estado. Antes de cidadão de um país, somos membros de uma comunidade urbana/municipal, inserida no Estado. Assim, a gestão da cidade deve ser compreendida a partir de seus constantes desafios, que emergem das reivindicações geradas no seio da solidariedade social urbana, sendo o principal deles a crescente demanda por infraestrutura e serviços, normalmente além da real capacidade do poder público em atendê-la, em situações de crescimento acelerado.

Nesse sentido, é preciso compreender que quando lidamos com o crescimento rápido, a questão urbana começa no campo e sem uma política de orientação dos fluxos migratórios não há como neutralizar a expansão acelerada, que combina concentração de pobreza e concentração de riqueza.

No caso de Salvador, a trajetória do crescimento urbano aponta no sentido do aprofundamento da concentração populacional e de pobreza, haja vista que a cidade amplia o seu poder de atração, enquanto o nosso campo cada vez mais libera o seu contingente, considerando a modernização de nossa agricultura, que reduz a absorção de mão-de-obra e induz a população rural a migrar.

As tendências recentes de nossa urbanização, na linha contrária à natureza do nosso crescimento urbano, sinalizam na direção de ampliar a concentração do capital imobiliário, plasmado em investimentos nos condomínios residenciais de luxo, o que é decisivo para a periferização dos mais pobres, quando as intervenções resultam de expulsão e valorização de áreas de ocupações populares (caso da orla).

Salvador realmente precisa de um choque de intervenção e ordenação para orientar o seu crescimento rápido e universalizar o direito à cidade. Todavia, tais ações não devem emergir de um processo sem a participação da sociedade civil e reconhecimento da solidariedade social urbana. Entregar esta responsabilidade à exclusividade do capital imobiliário (as grandes corporações que dominam a ocupação/construção da cidade) é um grande risco de elitizar o espaço urbano.

Imagino que o projeto Salvador Capital Mundial parece uma das fábulas de Esopo que diz: “A montanha rugiu, tremeu e estremeceu, e quando todos esperavam que dela brotasse ouro, ela pariu um rato”. A montanha é a intensa verticalização, que já começou na Paralela, quem será o rato?

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*Anilton Santos Silva – Arquiteto/urbanista, demógrafo e consultor

SISTEMA CICLOVIÁRIO, URGENTE!

10/05/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de ALBENÍSIO FONSECA*

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Em meio à crise de mobilidade urbana gerada pelo excessivo número de automóveis, reduzida expansão de vias, insuficiência e má qualidade do transporte coletivo, e diante da exclusão de parcela significativa de pessoas de baixa renda, sem disponibilidade para pagar a tarifa de ônibus, é urgente a implantação de um sistema cicloviário em Salvador e macrorregião.

Governo e prefeitura dispõem de projetos nesse sentido, mas não demonstram, ainda, a vontade política necessária para contemplar 47% da população que andam a pé ou 7% de bicicleta, pelo menos meio quilômetro diariamente, conforme pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos.

A infraestrutura necessária à implantação de um sistema cicloviário é a que dispende menor custo, pelo poder público, em relação a qualquer outro sistema de transporte. Em tempos de economicidade, a bicicleta conta com fatores importantes como preço, baixa manutenção, consumo zero de combustível e nenhuma emissão de poluentes, além de possibilitar exercício físico com ganho para a saúde do usuário.

A “magrela” é sete vezes mais eficiente que o automóvel. Ou seja, a circulação de carros, por hora, numa faixa de tráfego, comporta 2 mil pessoas; por ônibus, 9 mil; enquanto de bicicletas permite 14 mil pessoas. Não há dúvida que a bicicleta representa uma solução fundamental para o transporte nas cidades. Seja por garantir o direito de ir e vir, seja por liberar a população carente da exclusão territorial e para práticas sócioespaciais ampliadas.

Iniciativas nesse sentido têm sido adotadas com êxito em diversas capitais brasileiras, e em inúmeras cidades em âmbito mundial, mas Salvador permanece na contramão desse processo. Com 2,8 milhões de habitantes, a cidade dispõe de cerca de 16 km de ciclovias destinadas ao uso da bike, em caráter meramente de lazer. E apenas uma ciclofaixa inferior a um quilômetro de extensão. Aracaju, com 520 mil habitantes, tem 80 km; Curitiba, 120 km para uma população de 1,8 milhão. O Rio de Janeiro, 180 km, para 6 milhões de moradores. Mesmo com equívocos no traçado dos acessos, São Paulo inaugurou, esse ano, ciclovia com 14 km paralelos às linhas de trens metropolitanos.

Não se trata meramente de pintar ciclofaixas e ciclovias, mas de dotar o equipamento e seu usuário de um completo plano de mobilidade, com bicicletários e implantação de circuitos especiais, principais e secundários. O sistema requer logística específica e gestão (pública, privada ou mista) que envolvam campanhas de conscientização e proteção, além do estímulo à cadeia de produção e comercialização, incluídos serviços de manutenção e locação.

Há estimativa de 20 mil usuários e dezenas de grupos de passeio organizados, em Salvador, segundo a Associação de Bicicleteiros da Bahia. Para a associação, é preciso haver ciclovias em, no mínimo, três trechos da cidade: São Cristovão/Iguatemi, Iguatemi/Estação da Lapa e Calçada/Paripe.

O ciclista não é um obstáculo nas vias, faz parte do transito, está inserido na legislação. A ele não está conectado apenas o veículo em si, mas um conjunto de acessórios que envolvem equipamentos especiais das indústrias de calçados (tênis), viseiras, luvas, capacete, além de inúmeros adereços para turbinar a bike.

Circulando por ruas, avenidas, bairros e rodovias, mas sem contar com a educação para o transito e um planejamento cicloviário, estão expostos a acidentes na guerra insana do tráfego, com estatística crescente e proporcional à ampliação do número de usuários. Dados de 2008 apontam a ocorrência de 364 acidentes com 16 mortes.

A circulação de bicicletas, em condições de segurança e maior comodidade, para amplo contingente de trabalhadores, é importantíssima nas ligações intermodais. A transversalidade de um sistema cicloviário demonstra inúmeras interfaces. Desde a mobilidade e inclusão territorial à ampliação do universo de utilização e dos calendários desportivo e turístico; estímulo ao empreendedorismo; melhorias na condição de saúde do cidadão; ampliação da consciência ecológica. Tudo isso pode proporcionar, sem dúvida, o advento de uma radical renovação da cultura urbana. Frente à Copa e à Olimpíada, o que falta mesmo?

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*Albenísio Fonseca é jornalista

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NO BANCO DO BUZU

09/05/2010

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Aula de cidadania

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Um ‘rolê’ de buzu, de Vida Nova (bairro de Santo Amaro de Ipitanga) até a Estação da Lapa, em Salvador – via Itinga, São Cristóvão, orla –, de olhos e mente abertos, em horário de tráfego maneiro para que se possa bem apreciar as coisas, é uma aula.

A primeira lição é sobre a relatividade do tempo. O tempo, no volante de um carro, voa. Já dentro de um buzu os minutos se arrastam. São duas horas nesse roteiro, quando se pega um fluxo bom de tráfego. Dá para ler jornal, tirar soneca, trocar prosa, conhecer gente e até meditar… sem agonia.

De olho na janela, a diversidade de paisagens impressiona. Ali, resto de mata, lá roçados que parecem o interior sertanejo, acolá casebres, adiante lixões e invasões que lembram os ‘musseques’ de Luanda (Angola). Rodando mais, passamos por bairros superpovoados e moradas de laje batida e tijolo aparente, vielas espremidas e ruas esburacadas. Há tabuleiros e traquitanas de comércio informal por tudo que é canto. E meninos vagando, vagabundos, desocupados, cães atarantados e muita pobreza.

Movimento! Vida se mexendo de todas as formas. São variadas, múltiplas realidades, cidades dentro da Grande Cidade. Quando se destampa o mar, adiante, hora passada, em Itapuã, parece outra urbe, um outro mundo. Respiram-se novos ares, maresia, mesmo com os passeios esburacados, carências conhecidas.

Uma constatação importante clama: Somos um povo absolutamente mestiço, uma gente mulata, cabocla, mistura de cores e traços. Variados matizes. Nossa população não é em p & b, como querem alguns. Os branquelos são raros e os negões puros, bem poucos. Isso me faz pensar no mestre Cid Teixeira que sempre repete, sem pejo: ‘Somos mulataria!’

Retinto é o motô (motorista), paciente, impassível, atento… a enfrentar muitos buracos no percurso, lama, quebra-molas a rodo, aquele barulhaço aterrador às aceleradas, caminhões parados fechando passagem, carro particular ignorando o fluxo, parado na faixa, mal estacionado, manobrando errado e matracando o ritmo, falta de respeito e de educação geral sobre rodas.

E mais pedestres desastrados, ciclistas (até crianças) e motoqueiros imprudentes, dá até arrepios… Mas, juro, nada perturbou o motô, nem mesmo a quantidade absurda de idoso e ‘carteirante’ que entra pela dianteira; fora os pedintes, os deficientes, os ‘crentes’ pregando a bíblia e vendendo doces, os ex-drogados relatando dramas e arrecadando trocados para a salvação pela fé… Uma festa dentro do buzu que roda e ronca. O papo rola, a vida vai, o tempo corre.

O cobrêro (cobrador) puxa conversa passando o troco, de bem com a vida, pra se distrair, repetindo, no seu jeito baiano de se mostrar gentil: ‘Valeu, broder, obrigado’.

A brisa atlântica varre o bafo humano que vai se impregnando no interior do buzu e o vaivém das ondas atrai os olhares, descansa as vistas. E a vida segue aos trancos e arrancos, parando e seguindo, entrando e saindo, na baralhada do barulho de vozes, ranger de freios, roncar de motores e destinos. Fruição humana.

Nossos governantes deviam, vez ou outra, feito gente, andar de buzu. Faz bem.

Tornar-se-iam mais humanos.

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*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

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Mozart de rua

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Paro numa rua enlameada da periferia e logo sou atraído por um som de uma ‘orquestra’ percussiva. Bato os olhos num garoto mulatinho de seus 10 anos, magrelinho, trajado de bermudinha jeans surrada, camiseta encardida sem mangas e sandálias de dedo meladas.

Seus olhos brilham, como se fosse um anjo, o corpo todo em majestosos movimentos.

Só, junto de um poste, com duas varetas nas mãos servido de baquetas, tira sons incríveis vergastando um tonel velho de lixo, meio virado, com caixas de papelão e um lata velha saindo pela boca. Ele usa cada pedacinho do sonoro tonel – boca, beirada, corpo –, da lata e do papelão para fazer sua música. Sério, bate com segurança como se estivesse estudando, pesquisando, experimentando as variações acústicas, criando repiniques, fraseados sincopados de uma samba-reggae tão baiano!

Seria uma homenagem, uma reencarnação de Neguinho do Samba, minha mãe? Filho de Carlinhos Brown?

Quedo-me a admirá-lo à distância. Ele nem me olha, concentrado, fazendo eco rua afora, solto, liberto, em plena aula, arte pura, apenas umas poucas crianças da mesma idade, sentadas ao chão à distância a apreciá-lo. A rua é sua escola livre, aberta. Sua escolha.

Não quero perturbá-lo, nem com meus pensamentos que, inquietos, perguntam: Terá família? Se frequenta escola, como poderia estar aqui a essa hora, no meio da manhã? E de que adiantaria uma ‘cela’ de aula para ele? Alguém, algum ‘professor’ dessas tais escolas formais compreenderia sua grandeza? Será que comeu um pão com café hoje? Com que sonha aquela cabecinha, além da música? Sua alma é sonora.

Peço que Deus o proteja do mundo das drogas, da violência, dos descaminhos. Imagino-o sentado à frente de uma bateria, diante de mil instrumentos de percussão, acompanhado de sopro, cordas… ou, num palco, diante de um piano de cauda.

Anônimo menino maestro. Um gênio perdido nessa rua de buracos e lama. Desatino de vida! Mais um Mozart assassinado.

Que os céus não permitam!

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zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (mai/2010)

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ESCOLAS ESPREMIDAS

26/04/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de NELSON PRETTO*

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Tenho saudade de uma Salvador dos espaços generosos. Não imagino que o tempo tenha que parar, que o chamado progresso e o avanço do cimento e do asfalto tenham que ser contidos na marra. Mesmo que nestes últimos tempos de chuvas fortes eles tenham dificultado o movimento da água para seu lugar natural, longe de mim pensar em simplesmente voltar para o passado.

Também não quero falar do tempo das praças sem grades, dos chafarizes, fontes de água, casas sem muros ou com eles ainda baixinhos, onde podíamos sentar para prosear e matar o tempo. Para estes temas, os arquitetos, urbanistas, engenheiros, todos os articulistas de várias áreas já vêm escrevendo em A Tarde desde muito.

Quero falar, no entanto, de um espaço que para mim é muito caro: o das escolas.

Nossas escolas encolheram. E muito. Acabaram-se os  amplos campos para o futebol, babas, garrafão ou similares, acabaram as áreas para o tão esperado recreio, também esse espremido entre os poderosos 50 minutos da sequência de aulas. Aulas que normalmente acontecem em salas que, praticamente, mantêm a mesma configuração de muitos anos, quem sabe séculos, e, o que é pior, também elas encolhidas.

São os mesmos móveis, a distribuição das cadeiras, o quadro negro – depois verdes e, nas mais modernas, até digitais –, estes quase todos colocados na frente, para que uma “plateia” de estudantes possa acompanhar as “emissões” dos professores.

No campo de interseção da arquitetura com a educação pouca coisa mudou e Bahia é repleta de experiências nessa área.

De um lado, com a triste proposta de se construir grandes escolas, todas iguaizinhas, replicadas pelo interior do Estado, e ainda por cima com o mesmo nome, antecedido do terrível adjetivo “modelo”. Nada a ver com educação, que precisa mesmo é ir para além dos modelos e caminhar em busca da criação.

De outro lado, tivemos uma rica experiência que não deveria ser esquecida, como a Escola Parque, implantada no bairro da Caixa D’Água por educadores e arquitetos baianos. Idealizada pelo educador Anísio Teixeira em conjunto com o arquiteto Diógenes Rebouças e o engenheiro Hélio Duarte, ali podemos ver, de forma cristalina, uma clara compreensão da importante relação da educação com a arquitetura. Relação essa que nós, da Faculdade de Educação da UFBA, insistimos ser básica para pensarmos a educação no presente e para o futuro.

Tentamos – com sucesso muito pequeno, é bem verdade – uma maior aproximação com a nossa Escola de Arquitetura, para montar um grande projeto para se estudar a relação entre essas duas grandes áreas. Um programa que fosse buscar em Anísio, Diógenes e Hélio inspiração e resgate histórico. Mas que não ficasse só neles. Que fosse também estudar e aprender, por exemplo, com Charles Mackintosh, o arquiteto da Escola de Artes de Glasgow, idealizador de um projeto de escola básica denominado Scotland Street School, hoje belíssimo museu sobre a história da educação na Escócia, onde é possível ver como eram as salas de aula e o funcionamento da escola ao longo dos anos naquele país.

A Escola Parque, pensada por Anísio – que hoje também está aqui em A Tarde na [revista] Muito –, era um conjunto generoso de espaços livres, que incluía, com uma incrível centralidade, um enorme campo de futebol, rodeado de um teatro a la Teatro Castro Alves, uma magnífica biblioteca a la Brasília, um pavilhão para oficinas, repletos de obras de arte de Jenner Augusto, Carybé, Mario Cravo (aliás, como estão esses painéis, alguém sabe?!) e uma ala administrativa com refeitório, padaria e espaço para professores e alunos. Tudo, absolutamente tudo, imerso numa área verde de frondosas mangueiras que, felizmente, ainda lá estão.

Nesse complexo educacional, dizia Anísio, os filhos dos pobres teriam acesso àquilo que os filhos dos ricos têm nas suas casas. Ali estaria sendo formada uma juventude para fazer diferença.

Aqui, num hoje espremido no tempo e no espaço, nossa juventude é deformada para caber, literalmente, nas grades, curriculares e das salas de aulas. Quebrar estas amarras, na busca de uma formação mais ampla, é algo que demanda ações mais corajosas. E isso, não pode mais ser protelado para amanhã.

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*Nelson Pretto – professor da Faculdade de Educação da UFBA – http://www.pretto.info

(artigo publicado originalmente na editoria de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador-BA, em 25.4.2010)

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COPA, ELEIÇÕES E TRAGÉDIA URBANA

13/04/2010

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texto de zédejesusbarrêto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Além de quaisquer estudos, acima de todas as recomendações técnicas e políticas, as intempéries nos apontam urgências.

Fora as prioridades humanas maiores – educação, saúde e segurança públicas , sempre repisadas a cada eleição e muito pouco contempladas, as chuvas deste outono nos sinalizam para grandes projetos/obras emergenciais de modernização de três setores básicos, infraestruturais, sem os quais a possibilidade de realização de uma Copa do Mundo de futebol no país e, mais especificamente, na Bahia, está seriamente comprometida.

São eles: habitação, energia elétrica, telecomunicações e transporte de massa/vias públicas urbanas.

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Moradia

A questão habitacional urbana está exposta e precisa ser encarada sem demagogias. A tragédia desses dias no Rio de Janeiro, e que se repete, a cada ano, a cada tempestade em nossas desordenadas e despreparadas metrópoles, nos põe nus diante do mundo, mesmo mal cobertos por números de crescimento econômico que nos ufanam.

Favelas e invasões em morros e encostas, casebres de sopapo e palafitas à beira de córregos e baixadas sem saneamento significam miséria, marginalidade, doenças, catástrofes e mortes prematuras.

A situação de Salvador, nessa área, é de calamidade. A cidade de um milhão de habitantes em 1970 está com mais de três milhões em 2010. Houve um inchaço descontrolado, sem nenhum planejamento. Não há, a esta altura, como remediar de imediato a insensatez das invasões, muitas delas estimuladas e/ou acobertadas pela politicagem de plantão. Sabemos. Nossos bairros periféricos, todos, são resultado de invasões.

Mas não se pode continuar fechando os olhos a cada novo barraco que se dependura, a cada puxadinho que se levanta perigosamente, a cada riacho que se entope com mais uma viela em cima… Porque, antes de mais nada, é preciso preservar vidas.

Se a cada dia, a cada versão nova de PDDU o poder público e privado acha áreas e espaço para erguer novos espigões, conjuntos, condomínios, projetos… Como não há lugar para se expandir a cidade em bairros populares mais decentes, com morada digna, arruamentos, esgotos, segurança e possibilidade de transporte público próximo e barato? Cajazeiras é exemplo.

Não há dignidade sem moradia.

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Eletricidade

A cada sereno, a cada ventania falta luz em meia banda de Salvador, na quase totalidade dos bairros populares da capital e de todos os municípios vizinhos que integram o que deveria ser a Região Metropolitana. Ponto.

Isso acontece porque o nosso sistema é antiquado, a nossa fiação é velha, boa parte dos postes está corroída, nos bairros se vê um emaranhado de fios e gatos, galhos de árvores antigas arriando sobre a fiação, sobrecargas, mal dimensionamento das linhas e ligações… enfim, um sistema elétrico de terceiro mundo, mesmo.

Mas as tarifas cobradas estão num nível de primeiríssimo mundo e as propagandas nos vendem esse engodo. No entanto, a qualquer apagão de fim de semana, desses a que até já nos acostumamos, de tão rotineiros – por causa de um vento, de um trovão, de uma colisão de carro num poste, de um gato mal feito, de uma gambiarra esticada para o churrasco… Pois, tente ligar para os telefones oferecidos pela Coelba e ouça o que acontece. Sempre. As linhas estão ocupadas, congestionadas, tudo travado e os serviços de manutenção, terceirizados, são de péssima qualidade, ineficazes, pra não dizer incompetentes. Até quando?

Há algum projeto de modernização em vista?

Não, não estamos falando nessa baboseira de ‘banho de luz’, não é isso. É energia para todos de verdade, segura, sem estouro de canelas e pipocos de transformadores, dia sim/dia não, sem gatos, com presteza de atendimento, ligações estáveis. Um serviço dentro dos parâmetros das taxas que nós, consumidores, pagamos. A conta chega em dia.

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Comunicações

O mesmo se pode falar de nossos telefones, de nossas ‘bandas largas’ tão estreitas, das taxas altíssimas que pagamos e dos péssimos serviços de que dispomos. Há milhares e milhares de baianos, da Região Metropolitana de Salvador, sem telefone em casa desde as chuvas passadas, porque a fiação foi danificada e até agora as empresas não deram conta de restaurar os transtornos. Alô Telemar!

Com os ventos mais fortes, em algumas localidades, quase toda hora cai a linha e derruba-se a comunicação via internet, seja qual for a empresa provedora. São as antenas, os satélites, as interferências, a tecnologia falsificada, o quê? Mas pagamos a internet mais cara do mundo, a telefonia mais cara do planeta, sabia?

Domingo passado, as emissoras de rádio baianas ficaram sem linha e sem comunicação, sem retorno até instantes antes de começar a transmissão dos jogos de Bahia e Vitória, ali em Feira e em Camaçari. Quando o jogo é mais distante… então, é um suplício, um sufoco para que se consiga uma transmissão de qualidade, sem interrupções. E os locutores ficam bradando contra a nossa telefonia nos microfones.

Vai ser assim na Copa 2014?

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Transportes

E tem a questão do transporte urbano, tão badalada, tão mais do que urgente numa cidade que está travada de tantos carros particulares, de milhares de motocicletas atarantadas, de avenidas congestionadas, de falta de cumprimento das leis básicas do trânsito, de nenhum ordenamento, sem vias exclusivas, de um sonho pesadelo de metrô que não vai aos trilhos, de trens que descarrilam em bitolas dos anos 50 do século passado, de uma via náutica que não nada, coisa nenhuma…

E tudo se agrava a cada manhã/tarde de rush, a cada chuva fina, cada buraco, cada alagamento, cada acidente na via que não suporta mais o fluxo crescente, e… a Paralela, antes um paraíso, tornou-se um drama diário, um inferno.

Pois bem, que venha a Copa 2014, em boa hora, pois a Fifa já deixou claro que a cidade terá de apresentar um transporte de massa moderno, um fluxo urbano decente do Aeroporto ao Centro para que haja jogos programados na dita praça escolhida como sede.

As verbas já existem, alocadas para tais fins. Até os valores estão definidos, à espera do projeto, pelo PAC da Copa. Dinheiro gordo que faz piscar muitos olhos, balançar muitos interesses. Assunto para muito programa eleitoral, mas a cidade tem pressa.

Salvador quer saber, já, qual o projeto melhor, mais barato para o povão, menos custoso para os cofres públicos e também o mais eficiente.

Seria o VLT, espécie de pequenos/leves trens sobre trilhos ligando o aeroporto à Rótula do Abacaxi, e daí conectando-se com o tal metrô de meia légua até a Lapa?

Bem, as nossas tentativas de projetos urbanos sobre os trilhos, até agora, têm sido pífias. Como exemplos, o VLT dos tempos de MK na prefeitura que não deu em nada; o atual metrô, que já tem 11 anos e não anda, sequer gatinha; e os próprios trens suburbanos, restos da RFFLB dos anos 1950, pobres, inseguros, antiquados e pouco usados. Vez em quando um vagão descarrila, sobre dormentes sem manutenção adequada. Um abacaxi de caroço.

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O BRT, o que é?

A outra alternativa, tida como mais rápida, moderna e de custo mais barato é o chamado BRT-Bus Rapid Transit. São grandes ônibus acoplados, rodando em corredores exclusivos. Esse sistema deu certo em Curitiba, em Bogotá, está sendo implantado em cidades da China, do México e é a novidade na África do Sul para a Copa de junho próximo.

Dizem os técnicos que é muito mais fácil e mais barato de ser implantado, agride menos a paisagem, atende a todos os objetivos de transporte de massa rápido e eficiente, é seguro e sairá com uma tarifa muito mais barata do que qualquer metrô ou VLT. E mais, adequa-se melhor à topografia de vales e cumeadas típica do cabo (geográfico) onde está plantada a cidade.

 

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É assim? Eis a discussão.

Os dois projetos estão em pauta. Há grupos privados interessados de um lado e do outro, pois a grana disponível é boa.

Mas urge que os poderes municipal e estadual sentem-se à mesa, juntos, desarmados, sem querelas eleitoreiras porque o povo quer soluções para seus problemas e não blablablá, ouvindo técnicos, a opinião de estudiosos, as propostas dos grupos interessados… e decidam, já, o que é melhor para a cidade, para o estado, sobretudo para o povo,essa massa que usa e carece de transporte de boa qualidade, há anos.

O debate está aberto, as cartas aí estão.

Não há tempo a perder. A corda está no pescoço, estrangulando. O povo está de língua de fora.

E… a Copa já é amanhã.

 

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*zédejesusbarrêto, jornalista (13abr/2010)

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SALVADOR COMPLETA HOJE 461 ANOS

29/03/2010

Foto de EDUARDO MARTINS | Agência A Tarde – 18.12.2009 | As fotografias utilizadas neste post são fruto da pesquisa feita no arquivo digital de A Tarde pelo diligente colega de redação LUIZ CRISTIANO V. PARAGUASSÚ

Palafitas na Invasão da Pedra Furada, Península de Itapagipe, Cidade Baixa. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde – 3.7.2009

O menino Luca Andrade, de 2 anos, na Praia da Barra. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 27.2.2010

Igreja da Conceição da Praia, aparecendo ao fundo o Elevador Lacerda. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 20.6.2008

Largo do Pelourinho. Foto de LÚCIO TÁVORA | Agência A Tarde – 12.01.2010

Porto da Barra – Em primeiro plano, à direita, o Marco da chegada de Thomé de Souza. O primeiro governador-geral do Brasil desembarcou ali em 29 de Março de 1549. Foto de EDUARDO MARTINS | Agência A Tarde – 18.12.2009

Estátua de Thomé de Souza na Praça Municipal. Foto de EDMAR MELO | Agência A Tarde – 27.4.2006

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São Salvador da Bahia

461 anos da Mãe Preta

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texto de zédejesusbarrêto

(especial para o blog Jeito Baiano)

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Era uma sexta-feira de dia claro, aquele 29 de março de 1549, quando despontou no azul infindo de céu e mar, na entrada norte da Baía de Todos-os-Santos, a armada portuguesa de três naus, duas caravelas e um bergantim com mais de mil pessoas a bordo, sob o comando do fidalgo Thomé de Souza, a serviço do rei D.João III.

Chegavam com uma missão estabelecida, a cumprir: a fundação de uma cidade, porto e fortaleza, planejada para ser (e seria) a primeira capital do Brasil-Colônia, sede do governo, base de toda a administração e do povoamento das terras portuguesas d’além mar recém descobertas nessa costa atlântica da América do Sul.

Tinham embarcado em Lisboa, com a bênção real, em 1º de fevereiro e vinham determinados, sabiam muito bem onde aportar e o que queriam. Entre a tripulação, alguns nobres, seis jesuítas, navegadores, mais de uma centena de artífices – entre pedreiros, carpinteiros, calafates, oleiros, ferreiros, serralheiros, barbeiros, até cirurgiões… –, trabalhadores braçais e degredados, homens fortes jovens e destemidos aventureiros.

Entre eles, destacava-se uma figura especial, pela missão que lhe fora confiada: o mestre de obras Luis Dias, que trazia consigo um esboço traçado em Portugal do que seria “a cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, que foi a Lisboa da América e competiu, como empório, com Goa e Malaca, erguida por ordem régia, pormenorizada e clara” (cito o autor português Luis Silveira, na obra ‘Ensaio de Iconografia das Cidades Portuguesas do Ultramar’).

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Monumento a Thomé de Souza, tendo ao fundo a primeira Casa Legislativa do país, que hoje abriga a Câmara de Vereadores. Foto de ELÓI CORRÊA | Agência A Tarde – 23.3.2007

A Chegada

Thomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil, trazia com ele também, naquele longínquo 29 de março, um roteiro detalhado, por escrito e datado de 17 de dezembro de 1548, do que fazer quando aqui chegasse. Todas as instruções de D. João III em forma de um Regimento.

Como estava previsto, Thomé de Souza desembarcou na enseada de águas mansas do Porto da Barra, onde foi recebido de forma cortês e pacífica por um grupo de algumas dezenas de moradores da Povoação do Pereira (ou Vila Velha) – um aldeamento que se estendia pela costa até o alto da Graça criado por Caramuru (Diogo Álvares Correia), seus amigos tupinambás, e pelo inábil capitão donatário Pereira Coutinho (da capitania hereditária da Bahia) que, à chegada da armada, já havia sido enxotado de lá pelos nativos.

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À frente do grupo receptivo estava o experimentado capitão-cavaleiro da Casa Real, Gramatão Teles, que já fora enviado antes por D. João III no intuito de preparar o ambiente para a chegada da armada real, ao lado de Caramuru – um portuga que aqui naufragou, bem jovem, por volta de 1510, deu na praia, caiu nas graças dos nativos, casou-se com uma filha do chefe tubinambá, estabeleceu-se e tornou-se um pioneiro no comércio ultramarino do Pau Brasil, dando início também ao processo de miscigenação dos baianos/brasileiros.

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O Local

Mas ali, naquele porto tão próximo da entrada norte da baía, não seria o local ideal para a construção da nova cidade – que haveria de ser um porto e fortaleza. Era preciso achar um local mais apropriado, mais protegido, mais estratégico, mais para o interior da baía.

O achado do local exato, hoje a rampa do antigo Mercado Modelo, aquelas águas diante de Igreja da Conceição da Praia, deu-se alguns dias depois do 29 de março de 1549.

Essa data que hoje se comemora, de fato, é a data da chegada de Thomé de Souza com sua armada e não a data da fundação do novo sítio, pois demorou meses até que se erguessem casas e fizessem os arruamentos pioneiros.

Elevador Lacerda, Cidade Baixa e Cidade Alta. Foto de HAROLDO ABRANTES | Agência A TARDE – 18.3.2010

A nova urbe seria, assim, construída bem no alto, no cume do morro, cimo de uma escarpa de mais de 60 metros acima do nível das águas, num local de onde se descortinava o horizonte do mar. O sítio escolhido foi cercado de uma forte paliçada de madeira, para evitar o ataque dos índios, e tudo foi erguido a mão em pedra, barro, cal e madeira, sob a diretriz do ‘arquiteto e engenheiro’ Luis Dias, tal e qual fora traçado em Lisboa.

Poderíamos dizer que o traçado original cercado tinha como limites: a Barroquinha, o rio das Tripas que hoje passa por baixo da Baixa dos Sapateiros, o Taboão e a escarpa, com o marzão batendo nas pedras, lá embaixo, onde hoje é o Comércio (o aterro foi feito bem depois).

Esse foi o traçado original da cidade.

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As Águas

E essa é a história verdadeira desta cidade-mãe que tem como referência o mar, as águas, o azul do céu, a luminosidade do infinito. Vocação de mar.

Cidade Baixa vista da Cidade Alta: Elevador Lacerda, Mercado Modelo e Praça Cairu. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A TARDE – 2.12.2009

Aqui nessa bacia kirimurê (o nome como os nativos tupinambás chamavam o caldeirão de águas da Baía de Todos-os-Santos) de águas limpas, tépidas e plácidas, doces e salgadas, misturadas, deu-se a grande mescla humana de caboclos nativos, negros africanos, brancos europeus… e depois asiáticos, árabes, judeus… todos que aqui aportaram e bem contribuíram com suas crenças, costumes e fazeres para essa nossa baianidade ou baianice, como queiram.

Porque a Bahia é fruto de mistura. Com muito tempero africano, porque tudo que aqui se fez tem o suor dos negros – construções, comida, hábitos, religião, alegrias, manhas…

A Cidade da Bahia tornou-se uma acolhedora mãe-preta (ou mulata) de colo farto e braços sempre abertos para o mundo. Uma cidade das águas, sempre porto e sempre fortaleza.

Como cantam Gerônimo e Vevé Calazans: ‘Nesta cidade todo mundo é d’Oxum’. Oxum, a divindade das águas doces, das nascentes, da fecundidade. Os aqui nascidos trazem em si a força, a luz, o axé das águas. Disso sejamos cientes. E cuidemos.

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O Porto

Durante séculos, Salvador foi o maior entreposto comercial do Atlântico Sul, parada obrigatória dos navegadores que faziam o Caminho das Índias, ida e volta, pelo entorno sul da África. A vida girava em torno do porto. Caravelas, naus de todas as bandeiras, saveiros, mercadorias das índias, novidades da Europa, especiarias, açúcar, fumo, frutas, pescados, a fartura do Recôncavo… E as notícias, as futricas, o sobe e desce dos carregadores, o suor e a sabedoria dos negros. A vida ocorria em função do porto, das águas e dos ventos do mar.

Assim foi se escrevendo a nossa história.

Salvador foi também o ponto mais concorrido da costa brasileira em função do tráfico de escravos africanos – ativo de 1551 à segunda metade dos anos 1800, três séculos desse comércio infame. No início do século XIX a população escrava e afrodescendente era absoluta maioria na cidade. Os negros formigavam pelas ladeiras. Daí ter sido chamada por muitos historiadores europeus de ‘a Roma Negra’ .

A escravidão foi uma ignomínia e deixou nódoas, ainda hoje indeléveis, bem visíveis. Mas, quem sabe, veio da Mãe África também a nossa graça, a nossa diferença, pois a negritude fez de nós uma gente muito especial. Malditas, benditas heranças.

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Sim sinhô, e que os orixás, inquices e voduns, divindades ancestrais, todos os encantados das matas e santos do céu nos guardem e protejam… E conservem sã essa Mãe tão amada e tão prenhe de pecados. Preservem suas coisas boas, quantas! Que ela seja sempre um abrigo de encontro das diversidades, todas. Seja essa a nossa singularidade, tão plural.

Espaço de respeitosa convivência humana, de fortes e igrejas barrocas, sobrados e casebres, terreiros e regaços, palácios e shoppings, modernidades e tradições, tantas traduções, quantos ritmos, cores, cheiros, crenças, sentimentos…

Que as diferenças e dessemelhanças aqui se achem em harmonia, sempre.

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O Espaço

A Salvador de hoje é uma metrópole. Mais de 3 milhões de habitantes. Uma cidade moderna e desigual. Opulenta para uns e injusta para muitos. A mancha urbana espalhou-se sobre toda a grande península, com duas faces: uma voltada para o mar aberto, atlântica; outra para as águas interiores da baía, maré mansa, áreas de mangue, cênica.

Invasão Quilombo, bairro de Paripe, no Subúrbio. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde – 28.9.2009

A velha cidade perdeu, sim, alguns encantos, mas preserva íntimos mistérios. Anda à volta com novos costumes, tormentos.

Sem mais espaço disponível ao tranquilo bem viver, sem ter mais para onde crescer, a histórica cidade enfrenta, aos seus 461 anos, todos os problemas de uma metrópole superpovoada, inchada, sem infraestrutura suficiente para todos os seus filhos e agregados, sem planejamento e pobre de recursos. Com muitos a padecer, por falta do que fazer, por não saber onde morar, por carência do que comer.

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A Pobreza

Cito o grande mestre Cid Teixeira (professor, historiador, escritor, jornalista, radialista e assumido mulato nascido em Salvador em 11 de novembro de 1924) – Entrevista concedida à Revista da Bahia, edição nº 29, de março de 1999, quando se comemoravam os 450 anos da cidade. Com sabedoria, ele disse ao repórter Nestor Mendes Jr.:

A grande tragédia de Salvador é que ela deixou de ter somente pobreza – e pobreza sempre existiu – e passou a ter uma coisa trágica que é a miserabilidade, que é a porta aberta da marginalidade.

Olha, eu não quero achar culpados. Essas coisas não são tão policiais para se indicar alguém e, a partir daí, transformar esse alguém em réu. Mas, realmente, nenhuma cidade do mundo aguenta uma curva de crescimento demográfico como a que incidiu sobre Salvador nos últimos 50 anos. Nenhuma cidade do mundo tem condições de suportar, de absorver o crescimento demográfico que nós tivemos, desordenado em todos os sentidos, seja no sentido físico de sua ocupação do espaço, seja no sentido sociológico do destino da força do trabalho”.

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Merece uma reflexão.

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A Poesia

Cidade amada. Canto meu.

Flocos alvos soltos, de toda forma e tamanho,

brincam de desenho no vazio azul do céu

e me enchem de paz.

Êpa Babá!

O corredor de bambuzal que dá acesso ao aeroporto

é um túnel de Axé do Pai, onde se passa em silêncio

na chegada e na saída, à espera da luz.

Oxalá seja Senhor do Bomfim

Coisas da terra.

As águas da Baía de Todos-os-Santos são mornas, sinuosas

e têm escamas que prateiam seu azul-esverdeado

único, profundamente belo!

Odoiá, rainha dos mares!

No escuro das águas do Dique, do Abaeté,

a princesa faceira dos fios dourados

pede agrados e enfeitiça os homens.

Ora Iêiê ô!

No tacho de azeite dourado,

as ‘bolas de fogo’ recendem a prazeres em chamas.

Senhora dos ventos e dos raios!

Êpa Hei!

Ah, cidade amada da Bahia!

Do branco, azul, dourado e encarnado.

Diante de tanta grandeza,

de tamanho mistério e tamanha beleza

seu filho chora e ora…

Feliz, prostrado.

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(zédejesusbarreto) .

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Texto:

zédejesusbarrêto – jornalista, escrevinhador, filho da Cidade da Bahia.

Mar/2010 (aniversário – 461 anos de Salvador)

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A UTOPIA URBANA DE SALVADOR

29/03/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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Utopia é sinônimo de projeto irrealizável, quase um sonho. Não obstante, a esfera do sonho, da fantasia, antecipa o real; não há realização construída se esta concretude não for em algum momento sonhada, imaginada ou projetada.

Por isso gostei quando ouvi um representante do governo dizer que precisamos TER a nossa utopia urbana. Talvez tenha sido uma afirmação inócua mas toda realidade ocupacional desta metrópole leva `a conclusão de que Salvador não pode mais resolver os seus problemas urbanos dentro dos limites territoriais do município, e deveria lançar mão de terrenos exteriores a este, promover urgentemente um plano diretor metropolitano e adaptar as sedes dos municípios limítrofes ao crescimento acelerado da sede metropolitana.

Seguindo regras universais do urbanismo, empregos devem estar localizados próximos às moradias, pois assim podem-se, digamos todos em coro, minimizar custos e tempo de deslocamento.

Repensando a Região Metropolitana de Salvador (RMS), alguns municípios como Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho e Candeias emergem como geradores de emprego e renda, seja pelas indústrias instaladas, seja pelo setor terciário já desenvolvido com destaque para a localização de empreendimentos de hotelaria na Estrada do Coco e na Linha Verde.

Estes municípios estão na área de influencia da via CIA-Aeroporto, que interliga a baía ao litoral leste. Perpendicular a esta, estudada pela urbanista Maria Elisa Costa, filha de Lúcio, uma nova via denominada “Linha Viva” atravessaria Salvador longitudinalmente, configurando uma espécie de “T”. As duas vias têm natural vocação para o desenvolvimento de atividades urbanas e para o assentamento populacional, podendo abrigar nas suas margens a expansão demográfica metropolitana por muitos anos… Se bem projetadas.

A oportunidade de se agregar sustentabilidade a esse sistema é agora, ao promover a organização de variáveis físicas, econômico-sociais e político-institucionais.

Experiências históricas na direção das utopias urbanas, de Ebenezer Howard a Le Corbusier, não favorecem muito a condição da utopia aplicada ao planejamento urbano. Mas Brasília sim. Há 50 anos, num país que não dominava tecnologias, sonhou-se uma cidade a partir de um sinal gráfico no dizer do célebre urbanista e ela reúne muitas das utopias anteriores.

Ao mesmo tempo em que se afirmou a arquitetura personalíssima de Niemeyer perdeu-se, no plano diretor de Brasília, a oportunidade única de inaugurar e incentivar um modelo de cidade auto-sustentável no país inteiro. Mas não poderiam adivinhar que o automóvel, inquestionável herói da década de 60, quando o Brasil começou a produzi-lo, se transformaria no vilão do século 21 e se tornasse capaz de desestruturar qualquer plano diretor bem intencionado. Oscar e Lúcio estão perdoados.

Poderíamos, agora, aproveitar a oportunidade da “Linha Viva” e da CIA-Aeroporto para desenvolver a nossa utopia urbana : a partir de um modelo paradigmático de tendências mundiais em que é valorizada a mobilidade assim como a ênfase ao transporte publico não poluente, o privilegio do pedestre e do ciclista sobre os automóveis e legislando o solo como uma propriedade estatal, incorporando ideias de urbanistas do passado.

Precisamos dar forma a essas intenções e redesenhar as margens desse T: dimensionar um programa, seguir critérios onde a densidade liquida não exceda 500 habitantes por hectare com uma densidade bruta de 50 mil habitantes por km2 na zona intensamente urbanizada ao longo da faixa das vias onde os terrenos, desapropriados, só poderiam voltar a ser ocupados mediante concessão de uso pelos poderes públicos.

A ocupação obedeceria a uma configuração de zoneamento adaptada a condicionamentos legíferos e geomorfológicos existentes com setores de densidade maior nas centralidades e rarefeita nos extremos, passível de ser atravessada por pedestres em menos de uma hora nos oito rumos da rosa-dos-ventos e permanecendo com os pavimentos térreos vazados.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto

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