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O JEITO BAIANO MUDOU DE ENDEREÇO

19/07/2010

ESTE BLOG MUDOU DE ENDEREÇO E AGORA FAZ PARTE DO PORTAL A TARDE ONLINE:

http://jeitobaiano.atarde.com.br/

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METRÓPOLES E CIBERNÉTICA

25/05/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

  O deslumbramento de ‘navegar’ coletivamente pode superar todas as restrições, socializando as vantagens auferidas pelos poucos que têm acesso à rede apenas em suas máquinas solitárias

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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Num sistema econômico excludente ampliando progressivamente os índices de pobreza, convive-se hoje com um fenômeno típico da pós-modernidade, a chamada era digital, causado pela emergência das novas tecnologias da informação e comunicação (TIC), que excluem mais as pessoas, seja pela pobreza, seja pela resistência à mudança na aceitação dessa nova ordem e no aprendizado de procedimentos que permitam o acesso e contato a ambientes virtuais de conhecimento, ao ciberespaço.

As TIC permitem uma gama diferenciada de aplicações ao urbanismo e destaco duas: a reconquista do espaço urbano ‘perdido’ pelo habitante somada à inclusão digital das populações metropolitanas. Na verdade, a mudança produzida por essas novas práticas implica em mudança na própria natureza do espaço, que não é mais apenas físico, mas virtual, cibernético: um ciberespaço. A socialização do conhecimento pode ser feita em comunidades que podem ser cooptadas também “virtualmente”.

Victor Hugo e Henri Lefebvre, em distintas épocas, também pensaram a cidade como um texto. Seria uma questão dimensional? Se a cidade é um texto, a metrópole pode ser um hipertexto, que, em informática é um protocolo de recuperação de dados via computador que permite aos usuários fazer ligações entre informações através de uma variedade de vias e conexões. Os usuários podem organizar aleatoriamente a informação de um modo que esteja de acordo com as suas próprias necessidades. Se cada cidade já é ou está sendo transformada num banco de dados e sua acessibilidade feita através de um site de busca próprio, é lícito supor-se que quase tudo que é real possa ser feito ao nível digital.

A partir das TIC pode-se mapear e armazenar o conhecimento disseminado em bairros e outros assentamentos dispersos na região, utilizando história oral e outros registros narrativos, iconográficos, uma herança que não deixa marcas e permanece inédita no limbo de uma ecologia cognitiva desconhecida, mas geradora de uma cultura local pertinente e imaginária, cuja referência dota os habitantes de uma identidade que valeria a pena ser reconhecida, armazenada, datada, disseminada e discutida, como é o caso das festas de largo ou algumas práticas do cotidiano que estão a desaparecer.

Qualquer comunidade pode-se colocar diante de telão conectado à Internet e mediado por internautas inteligentes, treinados para a comunicação coletiva e a dinâmica de grupos. Criam-se ambientes e esses mediadores de rede mobilizam pessoas para investigarem juntos os assuntos de seu interesse ao mesmo tempo em que socializam esses assuntos entre os participantes. O deslumbramento de ‘navegar’ coletivamente pode superar todas as restrições, socializando as vantagens auferidas pelos poucos que têm acesso à rede apenas em suas máquinas solitárias.

Na diversidade das cidades está o gérmen de sua própria regeneração. Salvador pode ser considerada uma cidade decadente em muitos aspectos, mas é uma cidade viva, de extrema diversidade cultural, e possui a centelha de que fala Peter Hall, para reacender o seu fogo morto. A lógica do ciberespaço constitui-se num desafio que deve ser aceito pelos urbanistas.

Ermínia Maricato identifica o urbanismo se preparando para enfrentar novos paradigmas e pergunta se esses novos tempos vão repetir o processo de submissão à dominação econômica, política e ideológica inspirada em modelos de além-mar ou se esta nova matriz vai ser gerada pela práxis urbana.

Há 60 anos um grupo de intelectuais criou um movimento que é uma proposta de cidade que se autoproduz a partir dos seus habitantes, vivenciando a valorização do lúdico. A animação do espaço urbano impregnava esse movimento, conhecido como ‘situacionismo’, que inseria a arte nas cidades. Hoje, essa ‘construção de situações’ poderia se configurar em programas de computação capazes de gerar ciber-ambientes, espaços apropriados à vivência digital e real.

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*Lourenço Mueller é arquiteto e urbanista

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ORIXÁS SEGUNDO VILSON CAETANO

07/03/2010

Reproduzo neste post textos sobre os orixás Oxun, Yemanjá e Xangô, de autoria de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR, antropólogo que escreve na coluna de Religião publicada no caderno de classificados do jornal A Tarde. Tenho reproduzido no blog Jeito Baiano alguns dos textos que Vilson Caetano escreve para a coluna Religião, inclusive um sobre outro orixá, Ibeji (gêmeos) que está neste endereço:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/09/ave-bahia-oiaiansa/

Este blog já apresentou também o orixá Iansã, em artigo de CLÉO MARTINS:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/09/ave-bahia-oiaiansa/

Leia mais escritos de Vilson Caetano no blog dele:

http://vilsoncaetanodesousajunior.blogspot.com/

OXUN – Escultura de TATI MORENO instalada no Dique do Tororó, em Salvador-BA. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde

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OXUN


A ARTISTA DO UNIVERSO

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

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Nos primórdios, Oxalá criou os sons, mas tudo continuava ainda confuso. Oxun combinou os diferentes tons. Ela havia acabado de inventar a música.

O culto ao orixá Oxun no Brasil confunde-se com o de Yemanjá, sua mãe. De acordo com o mito, Oxun teria nascido após a imposição das mãos de todos os orixás sobre a sua mãe.

Oxun é o princípio ancestral da maternidade, conceito que nos últimos anos passou a ser contestado por algumas correntes do movimento feminista, mas que ainda goza dentre os africanos valor fundamental. Enquanto alguns ancestrais são chamados de Ye, mãe, Oxun é chamada de Yeye, mamãe. Acredita-se que no momento da divisão dos poderes, enquanto alguns ancestrais brigavam pela terra, outros pelo ferro, Oxun apressou-se e pegou eyn, o ovo. A partir desse fato ela passou a acompanhar todos os acontecimentos.

Oxun está em tudo, pois ela regula tudo que é cíclico. Ela não somente comanda o ciclo menstrual, mas também as estações e o próprio movimento dos planetas. Oxun regula as marés, cuida das crianças e preside desde a fecundação ao amadurecimento dos frutos. A esse principio ancestral são consagradas todas as frutas.

Trinta anos atrás, quando ainda “a cidade de Salvador era um pomar”, no mês de dezembro, por ocasião da festa de Nossa Senhora da Conceição, barracas eram espalhadas em torno da Igreja para celebrar as “frutas do ano”.

Oxun foi a primeira pediatra do Universo. Ela auxiliava as crianças na hora de vir ao mundo ou retornar deste. Oxun assim acompanha os ritos de iniciação no mundo dos antepassados, pois ela está à frente de todos os nascimentos.

Desde cedo se associou esse principio ancestral às águas, Oxun, de fato, é todas as águas, sobretudo o líquido que preenche a placenta.

Na verdade, este princípio comanda “todas as coisas de dentro”. Oxun garante o funcionamento do nosso organismo. Assim, seu domínio vai além do sistema gastro-intestinal. Fato este que a fez desde cedo ser associada à comida. Se diz nos terreiros que Oxun é a dona da panela.

Se a panela representa o mundo, depois de tudo que explicamos, podemos dizer que Oxun dá sentido ao mundo, por isso é atribuída a ela a invenção da linguagem.

Como a costureira, Oxun une partes diferentes e o resultado é a quebra de fronteiras, a mesma observada no mercado.

Falando sobre o mercado, antes mesmo dos anos 60, referencial do momento em que algumas mulheres foram reividicando a sua independência, as sociedades yorubás já conheciam, além de mulheres no mercado de trabalho, sem abrir mão de sua maternidade, a figura da Yalodê, literalmente a “mãe que vai a rua”, ou a mãe que está na rua.

Ainda hoje podemos encontrar a Yalodê entre os yorubás. Trata-se de uma mulher designada pelas outras mulheres para tomar assento em decisões “fora de casa”.

A Yalodê fala no conselho por todas as mulheres e acredita-se que assim foi “desde o princípio do mundo”, quando Oxun foi convidada para acompanhar os orixás caçadores por todos os cantos da terra.

Outra imagem vinculada a Oxun é o pássaro. Verdade é que todas as aves pertencem a Oxun. Oxun cuida do mundo como a galinha cuida dos pintinhos embaixo de suas asas.

As histórias sobre este principio ancestral confundem-se com as histórias sobre a própria cidade de Salvador, cidade beira mar onde se canta em coro que “todo mundo é de Oxun”.

Segundo o Babalorixá Air José, três mulheres de Oxun comandaram a cidade no século passado: Maria Bibiana, Senhora de Oxun; Maria Escolástica, Menininha do Gantois, a Oxun mais cantada pelo mundo afora; e Caetana América Sowzer, a saudosa Yá Caetana Bagbosé.

Mãe Caetana era filha de Felizberto Sowzer, conhecido como Benzinho, que era filho de Júlia Andrade, filha de Tio Bangbose.

Benzinho era filho de Ogun e foi o responsável pela organização do jogo de búzios, conhecido como merindilogun no Brasil, conforme informações de seu neto consanguíneo Air José, filho de Tertuliana Souza, irmã de Yá Caetana.

No terreiro Pilão de Prata, a festa de Oxun realizada neste domingo [7.3.2010] é uma das mais concorridas. A festa é dedicada a Oxun de Mãe Caetana. Nesta comunidade, Oxun recebe o título de Yalê, mãe da casa.

Caetana América Sowzer ainda hoje é referenciada pelas pessoas que tiveram o privilégio de conviver com ela como mestra. Seu pai teria “traduzido” um dos sistemas adivinhatórios africanos mais complexos, mas coube a ela zelar com determinação pelos princípios fundamentais para a consolidação dos elementos civilizatórios negro-africanos no Brasil através da religião dos Orixás.

Mãe Caetana era uma Apetebi – como as esposas dos Babalawo, ela começava a transmitir as histórias sagradas desde cedo às crianças que tomava para criar.

Segundo o Pai Air, Mãe Caetana exigia que alguns momentos rituais, a fim de não se perderem, fossem registrados em cadernos, hoje amarelados.

Mãe Caetana era costureira, gostava de fazer bonecas, adorava artes. Era também músico, tocava violino.

Yá Caetana fez uma brilhante caminhada, como Oxun entendeu cedo que a serenidade vence qualquer guerra e que a simpatia é capaz de transformar qualquer momento em festa e alegria.

Hoje, aquela que foi chamada de Laju omim, olhos d’água, uma nascente, fonte, continua no mundo, agora no céu, certamente compondo a mais bela constelação, brilhando como uma estrela.

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VILSON CAETANO com estatuetas de Ibeji (Cosme e Damião), em sala do Terreiro Pilão de Prata, Boca do Rio, Salvador-BA. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde 24.9.2009

 

 

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YEMANJÁ


A MÃE DOS ORIXÁS

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

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Sem sombra de dúvida, Yemanjá é o orixá mais popular no Brasil e talvez isso valha também para outros países costeiros, ou a beira mar, como Cuba, onde esta é considerada a rainha da ilha pelos santeiros.

Como outros ancestrais nagôs, o culto a tal orixá realizado na cidade de Abeokutá e no rio Ogun sofreu um processo significativo de reinterpretação simbólica no Novo Mundo.

O exemplo mais ilustrativo disso, é a perda de características guerreiras em detrimento da exacerbação de elementos como virgindade, pureza e docilidade, ideais por excelência da figura da Virgem Maria que desde cedo recebeu atributos das deusas africanas, a exemplo de Isis, de quem herdou o título de Mater Dei e de outras deusas gregas e romanas.

Diferente da ideia de humildade e submissão, características esperadas das mulheres pelos gregos como a terra que sustenta o céu, Yemanjá está no começo da criação do Mundo. Acredita-se que ela forma um par criativo com Oxalá. Isso explica a sua profunda relação com o elemento água, cheio de significados na maioria das civilizações.

Por exemplo, algumas mulheres indígenas do litoral se lavavam na praia, pois acreditavam que a espuma do mar as tornava férteis.

Yemanjá é o princípio criativo da fertilidade. Ela está na terra, nos grãos, nos rios, nos mares, em todas as mulheres e em todos os seus filhos, que coparticipam desse poder graças à força conferida pelas Grandes Mães.

As representações desse Orixá, que desde cedo foi associado às sereias, ao longo da história recebeu elementos que lhe afastam da representação africana. Em algumas dessas, para se falar da noção de beleza, se fez uso de características não negras. Desta maneira, a representação da mulher com seios volumosos e formas arredondadas cedeu lugar para a imagem de uma mulher branca, cabelos lisos e corpo magro e esguio.

Não estamos com isso contestando a capacidade de o devoto fazer a sua experiência religiosa nessas representações, mas chamando a atenção para o fato de que as imagens do sagrado vinculam visões de mundo e expressam valores da sociedade que lhe está produzindo o tempo todo. O problema está quando não nos damos conta disso.

Sobre isso, as mulheres do movimento negro iniciaram já há alguns anos uma crítica e tem se avançado muito.

E a sereia? Sempre disse que é o contrário do princípio da Grande Mãe, por tratar-se de seres que carregam a “maldição” de não poderem ter filhos, o contrário de Yemanjá, mãe dos Orixás, a menos daqueles ligados à dinastia de Oyó, como Ogun, Odé, Xangô e Oxun.

Da sereia grega, o símbolo que estabelece melhor diálogo com Yemanjá é a imagem do peixe que como o pássaro, o leque e as águas são considerados “princípios femininos” que não podem ser compreendidos em contraposição a outros.

Dessa maneira, o atributo por excelência da Grande Mãe é a guerra. Segundo um de seus mitos, ela teria ensinado Ogun a forjar as “pencas”, depois transformadas nos famosos balangandãs que, mais do que enfeites, cumprem funções de proteção; depois a espada para defender o seu reino.

Outra história conta como Yemanjá venceu alguns inimigos que marchavam em direção ao seu reino. Ela teria se enfeitado e levantado o seu leque que, em contato com o sol, multiplicou o seu exército.

Sobre a origem dos presentes oferecidos às águas, já explicamos no texto sobre as oferendas. Trata-se de uma prática antiga que pode ser encontrada em várias civilizações. A sua origem está na concepção do valor da troca de presentes com os ancestrais verdadeiros responsáveis pela manutenção das comunidades.

Nos últimos anos grupos ambientalistas têm aberto a discussão sobre o nível de poluição representado pelos presentes a base de produtos não degradáveis, como plásticos, vidros e outros. Claro que o povo de Candomblé não pode ser responsabilizado pela poluição dos mares, talvez isso valha para as indústrias e empreendimentos imobiliários que poluem as águas todos os dias a toda hora.

Temos, todavia, que estarmos atentos àquilo que oferecemos. Afinal, nossos antepassados não conheceram alguns presentes que hoje teimamos em colocar nas águas, e se tivessem conhecido, sem sombra de dúvida não colocariam, pois sabiam que o maior presente são os grãos, as flores e a nossa vida.

Nos terreiros de tradição nagô, diz-se que ela cuida de nossas cabeças e de tudo que se relaciona ao equilíbrio. Nas tradições angola-congo, este princípio é evocado com o nome de Kaia, mas há também tradições que o chamam de Aziri Tobossi, como a jeje.

Mais do que a designação, cada comunidade possui estórias próprias para falar desse ancestral da fertilidade que não pode ser encerrado na concepção da maternidade, afinal, há várias maneiras de conceber.

Vale mesmo não se afastar da ideia de que cada ser vivo que nasce é um ancestral que se faz presente através da constituição de longas famílias. Assim, Yemanjá, Kaya, Aziri Tobossi e mesmo Yara estão em tudo. Talvez no início tal princípio tenha sido associado às águas graças à importância que estas cumpriam nas civilizações responsáveis por tal representação.

O principio de fertilidade está, na verdade, em tudo. Ele garante o equilíbrio das coisas, as mantendo entrelaçadas como escamas, nos fazendo peixes filhos de uma mãe cujo filhos são peixes. Ye/ Omo/ Ejá.

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XANGÔ


AO REI DO MUNDO…

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

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Xangô é rei. É rei no Batuque do Rio Grande do Sul, é rei no Xambá de Pernambuco, estado onde o seu nome é evocado para designar as religiões de matriz africana, é rei nos candomblés nagôs do Recôncavo baiano, é rei no Tambor de Mina no Maranhão e é rei nos candomblés jeje nagô na cidade de Salvador.

Não vamos entrar no mérito de suas histórias, falar sobre os vários mitos, sobre a sua origem, mas sobre o significado da figura do rei para a consolidação de identidades negro-africanas fragmentadas através da escravidão.

Em algumas cantigas, Xangô é reverenciado como rei do mercado, Obá loja e rei do mundo, Obá aiyê. Mercado, coração das sociedades iorubás, onde se alternavam o tempo todo bens materiais com simbólicos.

Verdade é que no Brasil, essa figura foi fundamental no processo de reconstrução e manutenção dos elementos civilizatórios negro-africanos no Novo Mundo. Não poderia ser diferente, manifestação do Divino, a figura do rei representa continuidade, a permanência da grande família africana inclusiva, que com o passar do tempo foi ampliada a fim de agregar novos membros, agora descendentes de portugueses, índios, judeus, ciganos e tantos outros.

O culto a Xangô é assim o culto à continuidade, à descendência, à família mantida viva graças às mulheres e as crianças. Daí a sua relação com os antepassados e o por que de Xangô ser o ancestral mais festejado na sociedade secreta de Egungum ou nos rituais fúnebres, ocasião em que os iniciados levam no pescoço uma conta em sua homenagem.

Ao contrário do que se diz, o culto a Xangô possui relações estreitas com a morte, com o culto aos antepassados, pois ele mesmo representa toda a sua descendência.

Mas de onde surgiu a ideia de que “Xangô tem medo da morte”? Talvez da má compreensão da simbologia do rei, associada a outras leituras.

Explicando: ao contrário do que muitas pessoas afirmam, o elemento de Xangô é a terra. Seu culto rememora as civilizações que desde cedo foram estabelecidas pelos africanos.

Xangô é dono de tudo que existe em cima da terra. Graças a essa relação, desde cedo esse ancestral foi evocado como pedra e tudo que estas significam numa edificação. Desta maneira este princípio ancestral está presente nos corpos celestes.

Essa relação entre as pedras e o corpo é muito antiga e pode ser encontrada em algumas regiões do Mediterrâneo e partes do Continente Africano.

Fogo, assim, e tudo que ele representou para a humanidade, era então obtido através da fricção destes dois corpos. Porém, anterior a esse momento, é bem provável que a humanidade já utilizasse as pedras para reter o calor, aproveitando para conservar os alimentos.

Já demonstramos em outro momento que a temperatura é algo fundamental para os seres vivos. Quando o corpo perde o seu calor, princípio de vitalidade, acredita-se que ele está morto.

Não podemos confundir esse momento com os Antepassados. Estes, como Xangô são muito quente, pois estão vivos, continuam sob as tiras de pano que separam de nossos olhos o mistério da vida e da morte.

Assim, quando evocamos o Rei nos rituais fúnebres, estamos afirmando que acreditamos na nossa ancestralidade e que ela é a garantia de nossa permanência para sempre no mundo.

Quanto ao corpo, devolvemos à terra, pois como já comentamos, dessa devolução depende a continuidade da vida dos que virão. Afinal, tudo não é cíclico? Tudo não é uma manifestação do Sagrado?

A partir dessa explicação podemos pensar várias coisas. É certo que africanos e africanas tinham em mente a concepção de que as pedras deveriam estar juntas para poder produzir calor a fim de manter-se vivas. E assim fizeram.

Assim uma das características do culto ao rei preservada no Brasil foi a presença de muitas pessoas. O culto a Xangô requer muitas pessoas. Como se diz. Xangô adora gente. E o que é o mercado? Nada mais do que indivíduos que rompem suas fronteiras, quebram tabus. O rei também adora festas, comidas, bebidas.

Não foi a toa que quando os africanos organizaram os primeiros afoxés, o rei ia à frente, que digam os maracatus de Pernambuco.

E falando em Maracatu, como não falar da Kalunga, a boneca que diviniza nossos antepassados?

Falando sobre esse ancestral, no Brasil não podemos deixar de mencionar o nome de Tio Bangboxé. Ele teria chegado ao Brasil para ajudar na constituição de alguns terreiros de Candomblé que se formavam na cidade de Salvador no século XIX, onde o culto a Xangô era elemento central.

Fiel à sua missão, Bangboxé Obitikó constituiu no Brasil longa descendência através da família consanguínea que formou e da religiosa que desde cedo constituiu através de suas viagens a Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife.

Ainda hoje membros da família Bangboxe vêm da Nigéria visitar seus descendentes brasileiros.

O Babalorixá Air José lembra com saudade quando há dezesseis anos, sua tia consanguínea e bisneta de Tio Bangboxe passava horas conversando com seus parentes na sua casa, situada à Rua Xisto Bahia.

Da família consanguínea, destacamos a figura de Tia Júlia. Era filha do Tio Bangboxé; e da religiosa, Eugênia Anna dos Santos, a inesquecível Mãe Aninha que cem anos atrás fundou o Ilê Axe Opo Afonjá.

No terreiro fundado por Tia Júlia no Matatu, está à frente ainda hoje Irenea Sowzer, filha de Xangô e última bisneta do Tio Bangboxé. E no Terreiro da Rua Xisto Bahia fundado por Yá Caetana, está Yá Haydee Paim, também de Xangô.

Xangô que é rei, que gosta de coisa bonita e é muito vaidoso. Não no sentido pejorativo que utilizamos a palavra. Vaidade no sentido da autoestima.

O culto a Xangô nos faz olhar para dentro de nós mesmos, nos faz perceber que quando permanecemos unidos como pedras que formam o alicerce de uma construção, somos fortes. Ele ainda nos impulsiona a lutar contra todos aqueles que não se alegram com a nossa alegria. Viva o Rei!!!!

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*Vilson Caetano de Sousa Junior – Antropólogo, doutor em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo, pós-doutoramento em Antropologia pela Unesp

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ARQUITETOS ARTISTAS OU SÓ ARTISTAS?

11/11/2009
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Ilustração: GENTIL

 

por LOURENÇO MUELLER

Esse título seria redundante se toda arquitetura tivesse as qualidades estéticas que a colocam no mesmo patamar da Arte. Neste caso, todo arquiteto seria, naturalmente, um artista.

Infelizmente, a maior parte das edificações das cidades não pode ser considerada obra de arte. Muito ao contrário, são prédios feiosos e alguns deles são, em aparência, duendes ou gnomos de uma floresta de cimento e ferro. Nem gosto de acreditar que sua concepção se originou na mente de pessoas que se diplomaram em arquitetura. E olha que não é por uma questão de baixo custo: alguns desses equívocos ético-estéticos, horizontais ou verticais, estão entre os prédios mais caros da cidade…

Mas o título é o nome de uma exposição de artistas plásticos que são arquitetos, organizada pela diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Solange Araujo, festejando o meio século de existência desta simpática unidade da UFBa. Entre outros eventos ela trouxe também como palestrante o arquiteto Paulo Mendes da Rocha que nos brindou com a poética de seus projetos de teatro e museu na entrada da baía de Vitoria do Espírito Santo: alí sim, uma obra de arte!

Nomes conhecidos como Almandrade,Chico Mazzoni, Jamison Pedra e Juracy Dorea estão ao lado dos homenageados Diógenes Rebouças e Pasqualino Magnavita, o primeiro, urbanista maior, já falecido, e este último uma lenda polivalente da cultura baiana. Terão trabalhos expostos durante o mês de novembro no Museu de Arte Sacra [em Salvador], no átrio da Igreja de Santa Tereza, o prédio em si mesmo uma obra de arte da arquitetura colonial incrustada na meia encosta pela sabedoria dos portugueses, com vernissage na noite do dia 11 [hoje].

Além do fato de que os arquitetos expositores possam ser considerados artistas visuais, seja na pintura, na escultura ou na fotografia, algo comum os aproxima: a cidade.

A percepção desses artistas, figurativa, concreta ou abstrata, pós-impressionista ou pós-moderna, afirma uma noção de cidade embutida nos seus trabalhos, a cidade antiga/contemporânea de Rebouças ou a cidade cultural caricaturada ou disfarçada no cenário sertanejo de Dórea.

No dizer de Eleanor Heartney tentando definir o dogma pós-moderno, sua compreensão de mundo que se baseia na mediação das imagens, nesse estranho novo mundo as obras de arte ressurgem como textos, a história é exposta como mito, o autor morre, a realidade é repudiada como uma convenção antiquada, a linguagem governa e a ideologia se disfarça de verdade.

O que também desponta, embora não em todos os trabalhos, é a busca experimental de apropriação dessa nova linguagem fragmentada no esforço de transformação de arquitetos-urbanistas em cidadãos comuns para poderem se comunicar com o habitante, lidar com o seu desejo e transferi-lo aos planos e projetos do seu métier profissional, na cidade onde nasceram, digo, “estrearam”, como brinca o jocoso ditado da baianidade.

Talvez, e devo consultar Matilde Matos, pudéssemos chamar o evento de um movimento emergente das artes visuais na Bahia, terra de tantas emergências artísticas, uma espécie de urbanismo experimentalista contemporâneo, que poderia incluir outros artistas locais como Bel Borba, Caetano Dias, Gaio, Juarez Paraíso, Maria Adair, Murilo, Ramiro Bernabó e muitos outros não arquitetos que de alguma forma idealizam subjetividades urbanas – e aqui eu me restrinjo à nossa Salvador e aos artistas vivos em franca produção.

Depois que Marcel Duchamp consagrou e foi consagrado pelo urinol e que Andy Warhol se apropriou de uma embalagem – conferindo um status ontológico à arte – a pintura não pode mais se chamar apenas de pintura e os critérios de classificação da obra, um ser-não-ser da arte, “desceram pelo ralo” exponencializando suas complexidades.

Repetindo Guimarães Rosa eu poderia resumir:

O senhor ache e não ache, tudo é e não é…

Assim também o título da exposição pode não ser o mais apropriado mas pode ser o mais insólito.

*Lourenço Mueller é arquiteto e urbanista

muellercosta@gmail.com


RETRATO DE SALVADOR

25/10/2009
Ilustração: GENTIL

Ilustração: GENTIL

por ANTONIO RISÉRIO

 

Quando Antonio Carlos Magalhães decidiu construir o Centro Administrativo na Avenida Paralela, teve gente que achou que ele tinha enlouquecido. “O governador está louco, quer levar o governo pro meio do mato!” – era um dos comentários que então se ouviam. Mas não havia nada de louco na ideia. Era, simplesmente, a primeira vez que se pensava Salvador em termos metropolitanos.

O secretário de Planejamento, na época, era Mário Kertézs. E ele soube escolher com quem trabalhar. Mário procurou Lúcio Costa, o urbanista que projetou Brasília. E Lúcio (embora reclamasse da Paralela, uma avenida bonita, mas desconfigurando, desnecessariamente, o desenho topográfico da região, cortando colinas) fez o traçado da avenida do viaduto de acesso ao Centro. E de todas as avenidas do CAB.

Mais tarde, em meio ao processo de construção dos prédios, entrou em cena, por sugestão de Alex Chacon e Roberto Pinho, o arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé. Era uma dupla, Lúcio-Lelé, pra ninguém botar defeito.

Mas houve reação. Empreiteiros locais se rebelaram logo contra o projeto em pré-moldado de Lelé. Aquilo poderia ser até bonito, mas não seria assim tão lucrativo para eles. A verdade é que Lelé projetava obras nuas, a serem executadas por um sistema nada convencional de construção. Obras difíceis de sofrerem superfaturamento. E empreiteiros costumam não gostar disso. Mas o trabalho foi feito.

Com o CAB, houve um deslocamento do centro comercial da cidade. Na mesma década de 1970, tivemos a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari. Tudo mudou. Surgiram na cidade, inclusive, bairros novos.

Mas quero falar da Avenida Paralela hoje. O que era deserto apresenta agora congestionamentos de trânsito. Pessoas fazem exercícios físicos no canteiro central da avenida. A Paralela, como o CAB, passou a fazer parte de nossa paisagem e de nossas vidas. Mais que isso: a Paralela, hoje, nos oferece um retrato perfeito de Salvador.

A começar pelas construções religiosas. Temos a Igreja da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo. Mas temos, também, um templo evangélico. E diversos terreiros de candomblé, que se concentram na Invasão das Malvinas, também chamada Bairro da Paz. Terreiros pra tudo quanto é gosto, por sinal. E que se declaram de diversas “nações”: angola, ijexá, jeje, keto, etc. Até a umbanda se faz presente, no Centro Espírita Caboclo Tumba Jussara, na 7ª. Travessa Ubatã, número 12.

Vemos, na Avenida Paralela, os extremos reais e vitais desta nossa cidade. A sede administrativa estadual, com todas as suas muitas secretarias, e o comércio de “crack” e cds piratas. O prédio da Odebrecht, as jovens prostitutas e a favela sinuosa, com seus becos quase sempre perigosos. Um bairro confuso, cervejeiro e ruidista como o Imbuí. A revendedora de automóveis de luxo e a oficina furreca, reciclando fuscas. As novas faculdades particulares – que mais sugerem “shopping centers” supostamente pedagógicos – e o analfabetismo. Projeta-se um condomínio caro ao lado de um conjunto habitacional classemediano e perto de barracos precários, que se esforçam para se manter de pé.

Enfim, a Avenida Paralela, hoje, é um retrato concentrado de Salvador. Da vida atual da cidade que, bem ou mal, se metropolizou. Girando entre os camelôs do Iguatemi e os absurdos visuais de Lauro de Freitas, antiga Santo Amaro do Ipitanga.

É um espaço que fervilha e esfervilha, durante todos os dias da semana, entre passarelas, táxis, indigentes, engravatados, policiais, lojas, sobrelojas, sublojas e postos de gasolina, que se revelaram bares da madrugada, com seus cheiros e sons intoleráveis.

Acho que nossos jovens estudiosos e pesquisadores, economistas, sociólogos e antropólogos têm ali um prato feito. Mas não só para “cientistas sociais” – também para jornalistas, cineastas, etc.

Na verdade, a Avenida Paralela se converteu num segmento urbano altamente privilegiado para quem se disponha ao chamado “trabalho de campo”. Para quem queira ver de perto o que é, de fato, Salvador. Ou no que ela se transformou. Porque esta cidade não se resume à praia, nem se circunscreve ao seu centro histórico. É muito mais fragmentada e fragmentária do que nós, com todos os nossos clichês e estereótipos, costumamos imaginar.

A GRANDE E A PEQUENA SALVADOR

21/10/2009
Ilustração: GENTIL

Ilustração: GENTIL

por PAULO ORMINDO DE AZEVEDO

 

Na madrugada é mais visível. São centenas de ônibus e carros que levam e trazem operários e diretores para fazerem funcionar o Copec, o CIA, a Ford, a Refinaria de Mataripe e o Temadre. Fico imaginando quanto custa esta frota rodando e parada e quantas horas perdem seus funcionários diariamente dentro destes veículos, expostos a acidentes. O custo Salvador tem muito a ver com a falta de planejamento.

A Grande Salvador reúne 13 municípios, tem 4.375 km², onde vivem quatro milhões de habitantes e é responsável por metade do PIB do Estado. A Pequena Salvador tem 7,41% desta área, mas é onde se concentra 81% da população da metrópole.

Por aí se pode compreender porque Salvador se transformou em um aglomerado de espigões e favelões, que avança sobre seus últimos verdes. Isto explica também sua pobreza estrutural.

Toda atividade industrial está fora de Salvador e ela é responsável por fornecer habitação, transporte, saneamento, saúde, educação, cultura e lazer a cerca de 1,5 milhão de habitantes que geram riqueza e impostos em benefícios de outros municípios. Só Camaçari tem um PIB de quase metade do de Salvador e muito pouco custo com seu exército de operários.

Por que tanta gente se submete a este sacrifício diário? Porque em municípios como Camaçari, São Francisco do Conde, Simões Filho e Candeias, onde estão as indústrias, não existem conjuntos habitacionais, hospitais, hotéis, escolas, cinema ou teatro de mínima qualidade.

Não fomos capazes, como São Paulo, de criar em torno da capital cidades como Campinas, São José dos Campos e Santos. O que ocorreu aqui não foi por falta de recursos, foi por incapacidade de gestão dos prefeitos locais, inclusive de Salvador, cabeça da região, e omissão do Estado, que deveria planejar e desenvolver políticas metropolitanas de integração.

A Região Metropolitana de Salvador, RMS, foi instituída em 1973 pelo governo militar. A Conder foi criada para planejar e infraestruturar a região, mas falhou e perdeu o foco, sendo transformada em uma empresa para fazer obras em todo o Estado.

A única tentativa de planejamento da RMS, o CIA, só se preocupou com a indústria, visando os incentivos da Sudene. Nenhuma atenção ao transporte, habitação, saneamento, saúde, educação, cultura e turismo. Não se pode resolver nenhum desses problemas dentro dos limites de cada município e partido, senão como políticas de Estado.

Precisamos criar redes de transporte ferroviário e saneamento básico para toda a região, desenvolver uma agricultura voltada para o abastecimento alimentar, criar um mercado de terras baratas para programas habitacionais e aparelhar as cidades da RMS com serviços de qualidade.

Visando o turismo, precisamos dar um tratamento único a nossas praias e à orla da Baía de Todos os Santos. É na solução desses problemas que está a chave para atrair grandes investimentos para uma região privilegiada, com dois grandes portos, terrenos planos, praias ensolaradas e uma baía navegável todo o ano e não destruindo a Mata Atlântica e emparedando as nossas praias.

A questão institucional é um dos nós do problema metropolitano. Em muitas capitais latino-americanas, além dos prefeitos municipais, há um prefeito metropolitano eleito. Esta prefeitura é um degrau para atingir postos mais elevados, como governos provinciais e a presidência da república. Seu titular tem que mostrar eficiência e capacidade de articulação política numa prévia para voos mais altos. Nossa Constituição não prevê isto e o Estatuto da Cidade passou ao largo da questão metropolitana.

Resta a possibilidade de um grande consórcio municipal, que já funciona com sucesso desde os anos 90 no interior de São Paulo e Paraná e começa a ser adotado na Bahia. Em muitos setores, o interior está mais adiantado que a nossa metrópole.

Para discutir estas questões, os movimentos ”A Cidade Também é Nossa” e “Vozes da Cidade” com apoio da Sedur estão convocando a sociedade e autoridades para o seminário “Salvador Metrópole”, a ser realizado na Fundação Luís Eduardo Magalhães entre 17 e 18 de novembro. Salvador precisa pensar grande.

 

*Paulo Ormindo de Azevedo é arquiteto, doutor pela Universidade de Roma, professor titular da Universidade Federal da Bahia, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Depto. da Bahia (IAB-BA)

 

NOTA DO EDITOR – Paulo Ormindo é o autor também de um dos artigos mais acessados deste blog, o “Salvemos Salvador enquanto é tempo”:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/24/salvemos-salvador-enquanto-e-tempo/

RIO URBANO: REVITALIZÁ-LO OU SEPULTÁ-LO?

28/09/2009
  

 

ILUSTRAÇÃO DE CAU GOMEZ

ILUSTRAÇÃO DE CAU GOMEZ

 

por PAULO ORMINDO*

 

Um dos valores das cidades europeias são os rios que as deram origem e vida. Não apenas os grandes rios, como o Tévere, o Sena, ou o Tejo, mas também os pequenos – como disse Fernando Pessoa, “o Tejo não é mais belo que o rio que passa na minha aldeia”. Infelizmente entre nós os rios urbanos se transformaram em cloacas e verdadeiros flagelos pelas inundações e mau cheiro que provocam, não só em Salvador, como em São Paulo ou no trágico vale do Itajaí.

Se isto não ocorre na Europa é porque a partir do século XVIII aqueles rios foram domados com grandes obras hidráulicas, como diques, eclusas, comportas e aquedutos e a criação de redes independentes de esgotos, o que permitiu perenizá-los, regularizar o seu fluxo e manter a qualidade de suas águas, que jorram em belas fontes como em Roma.

Mas muitos desses rios estavam mortos há 30 anos, devido a um modelo de desenvolvimento predador. A luta das populações locais teve como resposta políticas consistentes que permitiram reverter esta tendência e torná-los novamente balneáveis e povoados de peixes. Ao invés de seguir estes exemplos, nossos administradores caminham na contramão, querendo que os nossos rios entrem literalmente pelo cano.  

Na expansão urbana do além-Camurugipe abandonou-se o modelo bem sucedido das avenidas drenantes de vale, para permitir o espontaneismo demagógico do caminho de rato, transformando o chamado Miolo de Salvador, uma área estratégica da cidade, em um favelão, que chega até o fundo dos vales.

Para piorar, se construiu na década de 70 a mole da Paralela, que represou praticamente todos os rios que deságuam na orla atlântica. No ultimo inverno, uma das áreas mais inundadas da cidade foi a Av. Jorge Amado.

Para resolver este cenário gótico, a prefeitura imagina ingenuamente tamponar os nossos rios e jogar o cisco debaixo do tapete com o aval de uma classe média desinformada. Canalizar os rios só irá piorar a situação, pois reduz a seção de sua calha, inviabiliza sua limpeza e a existência de vida, provocando mais inundação e contaminação de nossa baía e praias, além de criar um nicho inexpugnável para roedores, baratas e lacraus. Como interage esta política com o Baía Azul?

Precisamos, ao contrário, perenizar nossos rios com pequenas comportas para podermos repovoá-los de peixes, rebaixar suas margens para aumentar sua vazão durante as cheias e paralelamente cortar todas as ligações de esgoto. Com peixes, nossos rios se auto-regenerarão contribuindo para voltarem a ser balneáveis e livres de mosquitos.

Nos terraços rebaixados do Sena, em Paris, correm pistas de carros, que no verão se transformam em praias artificiais. Mas nas cheias, esses terraços dão vazão rápida às águas, sem que elas atinjam o nível das avenidas. O mesmo esquema está sendo adotado em Seul e poderá, no nosso caso, acabar com os pernilongos e prevenir inundações.

Recentemente o Instituto de Gestão das Águas e Clima (Ingá), com o apoio das associações profissionais, resistiu valentemente às pressões políticas para entubar o Canal do Imbuí, só permitindo a sua cobertura, provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Esta é uma solução provisória, mas um marco definitivo de altivez de um grupo de técnicos de não se dobrar às pressões e cumprir a lei, que deveria estar acima dos interesses circunstanciais.

Canteiro de obras de macro drenagem do Canal do Imbuí, em Salvador. Técnicos do Instituto de Gestão da Águas e Clima (Ingá) impediram o entubamento desse rio, só permitindo a sua cobertura, provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Foto: FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde 3.8.2009

Canteiro de obras de macro drenagem do Canal do Imbuí, em Salvador. Técnicos do Instituto de Gestão da Águas e Clima (Ingá) impediram o entubamento desse rio, só permitindo a sua cobertura, provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Foto: FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde 3.8.2009

Não é possível continuarmos a administrar uma cidade de três milhões de habitantes na base do achismo e de interesses míopes de empreiteiras e imobiliárias. Em definitivo nenhuma dessas obras resolverá sem um master-plan de macro-drenagem de toda a cidade. Plano que se ligará, inevitavelmente, a um projeto viário e este a um de uso do solo.

Em outras palavras, precisamos urgentemente de um plano diretor urbano inteligente, que tenha um mínimo de transparência e tecnicidade e proporcione melhor qualidade de vida para todos. Por que não fazemos a coisa certa desde o início? Por que tanto desperdício? Precisamos dar racionalidade e modernidade a este processo, que no nosso caso é pura improvisação.

 
Foto: FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde 15.8.2006

Foto: FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde 15.8.2006

*Paulo Ormindo é arquiteto, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) – Depto. Bahia. Este artigo foi publicado originalmente na página de Opinião do jornal A Tarde, em 27.9.2009. Paulo Ormindo também é o autor de um dos artigos mais acessados deste blog, “Salvemos Salvador enquanto é tempo”:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/24/salvemos-salvador-enquanto-e-tempo/ 

S.O.S. BAMBUZAL DO AEROPORTO

08/09/2009
FOTO: MARCO AURÉLIO MARTINS | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: MARCO AURÉLIO MARTINS | AGÊNCIA A TARDE

por LUIZ MOTT*

Considero o bambual – ou bambuzal – na entrada do aeroporto de Salvador um dos mais belos e pitorescos cartões postais da Bahia. Não só para os estrangeiros do hemisfério norte, que do frio ar-condicionado do avião de repente mergulham em plena exuberância tropical, como para os brasileiros de todo o país, este fantástico túnel formado por milhares de bambus é visão arrebatadora, espetáculo botânico único no mundo inteiro.

Desafio a apresentarem outro tão belo e majestoso portal de entrada e saída de uma cidade, como este nosso bambual. Os mais ecologistas sentem-se como se tivessem mergulhado em pleno coração da paradisíaca mata atlântica. Os mais viajados são possuídos pela mesma emoção transcendental provocada pelos deslumbrantes arcos e ogivas das catedrais góticas.

Se atentarmos porém que este maravilhoso conjunto botânico-arquitetônico pode ser destruído em minutos com um simples palito de fósforo, ou um cigarro aceso, temos de nos mobilizar para que o bambuzal do aeroporto de Salvador seja imediatamente protegido por todas as leis de preservação ambiental e tombado como patrimônio histórico natural.

Tenho o privilégio de desfrutar tal visão edênica diversas vezes por ano, ao embarcar no nosso Aeroporto Dois de Julho, e por mais de uma vez, vi populares cortando algumas enormes varas de bambu – certamente para usar como decoração nos espaços públicos nas festas juninas, ou para algum fim doméstico.

Noto sempre grande quantidade de folhas e varas secas no chão, também lixo, matéria-prima perigosíssima para incêndios devastadores. Há informação que se repetem os assaltos aos transeuntes – na sua maioria pessoas que trabalham no aeroporto. O riozinho que corre ao lado deste túnel de gramínea bambusácea está tragicamente poluído, sem falar num inoportuno estacionamento de veículos situado à sua margem.

Apresento três soluções urgentes para que este nosso cartão postal não vire cinza:

1] manter um guarda florestal in loco, em tempo integral, para impedir qualquer corte ou dano aos bambus, capacitando-o e instalando extintores e hidrantes para debelar as chamas em caso de incêndio, garantindo igualmente melhor segurança dos transeuntes;

2] que a Superintendência dos Parques e Jardins de Salvador e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Biodiversidade façam avaliação técnica sobre as “condições de saúde” dos bambus, providenciando o plantio regular de novos exemplares, garantindo a remoção sistemática de folhas e galhos secos para evitar incêndios, adubando o terreno para sua melhor sustentação;

3] colocação de placas informativas em locais estratégicos nas entradas e saídas do aeroporto, identificando esta espécie botânica e os cuidados que a população deve ter para evitar danos a este patrimônio da humanidade.

Salvemos o bambuzal do aeroporto, a catedral de Chartres de Salvador!

*Luiz Mott: Professor titular de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, luizmott@oi.com.br

CIDADE HEROICA DO RECÔNCAVO

22/06/2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas | AG. A TARDE | 18.2.2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas Agência A TARDE | 18.2.2009

OLHAR SOBRE CACHOEIRA

por MAÍSA PARANHOS

É impossível subir até a Cruz de São Félix, olhar em direção ao Rio Paraguaçu, para o outro lado de sua margem, sem conter a respiração diante de tanta beleza que emana da paisagem da cidade. Monumento histórico nacional, Cachoeira, no Recôncavo Baiano, jogou um papel importante na luta pela Independência da Bahia. Contam os antigos que as mulheres atravessaram o rio a nado, com punhal entre os dentes, para a expulsão do português colonizador. Daí a denominação de “Cachoeira, a Heroica”.

Quem a mira terá seus sentidos atingidos. Sente-se uma saudade de não sei o quê, uma sensação de pertencimento, uma intimidade que só seria possível com o nosso passado atávico, talvez. Nela, nos reconhecemos. Hoje, é portadora de uma rica vida cultural, tendo sido escolhida para abarcar a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Aonde chegamos, chegam as mudanças necessárias para a própria garantia dos nossos agrupamentos humanos. E assim, acreditamos, os espaços são modificados em função do homem. Tal vem ocorrendo em Cachoeira, possuidora de um calendário muito extenso em festividades e manifestações culturais, destacando-se a Festa da Boa Morte e o São João. Os festejos trazem admiradores e futuros moradores, e consequentes investimentos e empreendimentos.

A própria universidade aportou um contingente populacional maior para o espaço urbano, e é claro que este se modificará. A questão é justamente esta: de que forma este espaço, que é monumento histórico, portanto patrimônio público, vem sofrendo essas modificações? Cachoeira vem sendo tratada com a delicadeza e a importância necessárias? Sendo uma das maiores expressões da arquitetura colonial portuguesa em nosso País, exige um trato peculiar. Por ser uma cidade dona de um acervo cultural imenso, com seus museus e vasta produção artística, necessita de uma administração que dê conta de suas especificidades.

É com tristeza que observamos um desenho urbano se modificando nas encostas dos morros e nas margens dos rios sem o devido planejamento. É com melancolia que vemos seus artistas produzindo em espaços precários enquanto ocorrem construções desordenadas ao longo de seus riachos. É com indignação mesmo que vemos pouca, ou quase nenhuma, participação popular nas decisões que são ali tomadas para o “engrandecimento” cultural da cidade.

Preservar um monumento histórico é criar condições para a sua valorização, inclusive turística, e não transformá-lo em objeto de vitrine, cercada de uma população excluída da preservação daquilo que ela própria constitui. Monumento histórico é coisa viva. O seu sentido é dado no presente por quem o cerca e lhe dá sustentação material e simbólica. Desta forma, Cachoeira está merecendo, com certeza, um olhar mais apurado e efetivo.

Maísa Paranhos é professora de história

E-mail: msparanhos@uol.com.br

BAIANICES – FESTAS JUNINAS

12/06/2009

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MÊS DE FESTAS E DEVOÇÕES

por ZÉDEJESUSBARRÊTO

Junho é dos santos católicos, mês inteiro de festa no Nordeste, tradição do povo. Reza, forró, velas e fogueiras, foguetório e comida farta. Assim sempre foi na Bahia, também Nordeste; o que será amanhã?

O primeiro é Santo Antônio, de Lisboa, de Pádua, o franciscano pregador e erudito, pai dos pobres, uma devoção trazida pelos colonizadores lusos, santo de tantas igrejas, da terça da bênção no São Francisco, da sopa e do pão dos necessitados nos capuchinhos da Piedade, no templo da Barra, o santo casamenteiro, protetor dos guerreiros baianos – a ponto de obter patente e soldo militar –, por isso mesmo identificado nos terreiros como Ogum, o senhor das demandas, entidade da guerra, orixá do ferro e da espada afiada, com ele ninguém pode.

Para Antônio se rezam trezenas nas igrejas e casas dos mais devotos, com altar, incenso, oratórios e ladainhas, areia e folhas de pitanga pelo chão, velas, flores, promessas, vizinhança na sala cheia, meninos pelas janelas, canjica, bolo e amendoim para todos a cada noite de fé e oração para aquele que traz o Menino Jesus no colo, o consolo dos aflitos. Seu dia é 13.

Depois, São João, o Batista, primo de Jesus, aquele que o anunciou como “Filho de Deus” aos homens, depois de batizá-lo no Rio Jordão. O profeta precursor de Cristo e que, por Ele, teve sua cabeça decepada por Herodes e oferecida a Salomé numa bandeja. Está nas escrituras.

Dizem que a relação de São João com as fogueiras vem dos tempos das festas pagãs no solstício de verão para as deusas da fertilidade, tempos de colheita no norte europeu. Nas ações medievais de domínio político do mundo ocidental, a Igreja Católica teria agregado certos costumes dos povos subjugados. São João das fogueiras, dos fogos, o Xangô Menino. Época de balões, chapéu-de-palha, quadrilhas, forró-arrasta-pé, pau-de-sebo, quebra-pote, galinha-gorda, cheiro de pólvora e madeira queimando noite a dentro, licor, quentão e comilança de melar os beiços e dar dor de barriga de tanto milho assado e amendoim cozido no bucho. Tempo de adivinhações, namoro e simpatias, da sanfona de Luiz e o Trio Nordestino. Sua noite é de 23 para 24.

Dia 29, encerrando o ciclo, São Pedro, o mais velho apóstolo de Jesus, o pescador, aquele homem de fé que ergueu a espada em defesa do Mestre, mas em seguida o negou três vezes antes de o galo cantar na noite da paixão, humano como nós, a “Pedra” sobre a qual fundamentou-se a Igreja de Cristo, o primeiro papa de Roma, cidade onde foi crucificado de cabeça para baixo, por não merecer morrer igual a Jesus, o Filho de Deus. Padroeiro dos viúvos, o que carrega as chaves do céu e que manda as chuvas que fertilizam e também alagam a terra. Como João, tem direito a fogueiras nas ruas e baticuns nos terreiros da Bahia.

Salve Antônio, Ogunhê! Viva São João, Kaô Kabiesilé! Ave, São Pedro!

zédejesusbarrêto

FotoBarreto