Posts Tagged ‘Recôncavo Baiano’

A CIDADE DA BAHIA E O SEU RECÔNCAVO

26/06/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

(publicado originalmente em Opinião do jornal A Tarde, em 26.6.2010)

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Me referi de passagem aqui, em artigo sobre o projeto da ponte ligando Salvador e Itaparica, a uma antevisão do sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto: a Cidade da Bahia e o Recôncavo se encaminhando para configurar a Região Metropolitana de Salvador. O governador do Estado fala hoje da ponte Salvador-Itaparica privilegiando a perspectiva da conexão com Camamu e o “baixo sul” (algum geógrafo, aliás, bem que poderia me explicar: Camamu-Tinharé, para mim, são o alto sul; o baixo sul ficaria para Alcobaça, Prado, Nova Viçosa, etc.). Mas, de modo mais imediato, temos a integração da capital e seu Recôncavo, numa área de cerca de 10 mil km², se não me falha a memória. Aliás, a BR-242, da qual a ponte deverá ser o quilômetro zero, passa por cidades que ficam no coração do Recôncavo. E, por isso, me referi a Costa Pinto – segundo Darcy Ribeiro, a maior e mais genuína vocação de sociólogo que o Brasil já conheceu.

A Cidade do Salvador e o Recôncavo nasceram juntos. Foram siameses. Ou, como diria Joyce, numa palavra-montagem do Finnegans Wake: “siamesmos”. Wanderley Pinho, em sua História Social de Salvador, enfatizava isso. Senhores de engenho tanto viviam nos canaviais quanto na cidade. Membros da Câmara de Salvador moravam em terras do Recôncavo. Escravos trocavam informações, fazendo levantes lá e cá. Terreiros de candomblé surgiram em Salvador, em Itaparica, em Santo Amaro da Purificação, em Cachoeira. Enfim, Salvador e o Recôncavo foram uma entidade integrada durante séculos. Isso só foi mudar muito recentemente. Quando as atividades de prospecção e refino do petróleo se deslocaram para cidades laterais ao miolo afrobarroco do Recôncavo. E, depois, com o Centro Industrial de Aratu e o polo petroquímico de Camaçari, que desviaram as coisas para o Recôncavo Norte, inchando Lauro de Freitas e cercanias.

Mas, antes disso, o que dizia Luiz de Aguiar Costa Pinto? No texto “Recôncavo: Laboratório de uma Experiência Humana”, nosso maior sociólogo (que tem, como seus pares, Milton Santos na geografia e Kátia Mattoso na historiografia) escreveu:

“Dois grandes fatores têm operado no sentido dessa unidade [do Recôncavo]: a Baía de Todos os Santos e a Cidade do Salvador. De fato, quer no plano estritamente geográfico, quer no mais largo sentido ecológico, o golfo tem sido o ponto focal de convergência da vida dos núcleos urbanos que em torno dele se desenvolveram; de outro lado, a Cidade do Salvador, mercado consumidor, centro político-administrativo, porto e porta de passagem dos contatos e relações com o mundo, é ponto dominante na região que margeia a baía e representa, no plano econômico, social e político, o núcleo de onde partem influências aglutinadoras sobre todo o Recôncavo, que tende cada vez mais a se transformar numa grande região metropolitana cercando a sua capital, com a qual mantém laços crescentes de comércio material, social e psicológico”.

O texto de Costa Pinto foi escrito em 1951 e reescrito em 1958. Por essa época, a conexão Salvador-Recôncavo, que vinha de inícios do século 16, começava a se desarticular. Não só pelo petróleo, é bom lembrar, como em nome de uma visão imediatista do processo baiano. Hoje, no entanto, temos a perspectiva de um reatamento. Salvador e o Recôncavo podem voltar a ser siamesmos. Aliás, acho que a nova universidade do Recôncavo poderia sair na frente dessa discussão, promovendo uma ampla releitura de escritos sobre o tema, como os de Costa Pinto e Milton Santos. Geografia e sociologia que ainda têm muito a nos ensinar.

E, aqui, volto ao tema do projeto da construção da ponte Salvador-Itaparica. A ponte pode ser a peça-chave de nossa reintegração física, econômica, social e cultural. O novo elo evolutivo que falta. Hoje, numa foto área, vemos que apenas uma parte do trabalho foi feita. A ponte do Funil faz o Recôncavo chegar a Itaparica. E a foto fica capenga. Falta fazer a outra e maior parte do trabalho. Temos Funil, temos Itaparica, mas cadê a ponte para ligar a ilha e Salvador, para completar o quadro?

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*Antonio Risério – Escritor

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A BAHIA NO NORDESTE

13/06/2010

Ilustração de GENTIL

No meu tempo de aluno, a Bahia e Sergipe formavam o Leste. Até início do século XX, da Bahia para cima tudo era Norte

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texto de EDIVALDO BOAVENTURA*

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Desde que fui funcionário da Sudene que sinto a dificuldade de a Bahia ser plenamente Nordeste. A intensa comunicabilidade entre os estados nordestinos não inclui a Bahia. Se os indicadores econômicos a aproximam da região, a antropologia a diferencia. Ao Recôncavo úmido e negro junta-se a região verde do cacau e do extremo sul. É um cenário bem distinto do nordestino.

A cultura negra, que tanto marca a Bahia, tem aqui a melhor expressão nacional. É a diferença que conta e sou bem mais pela diferença do que pela identidade. Temos bem mais consciência da nossa negritude do que da nordestinidade. O contingente afrodescendente, à semelhança do dendê, dá a cor da Bahia.

A bem da verdade, o soteropolitano não tem nenhum orgulho em ser nordestino. O slogan de um supermercado “orgulho de ser nordestino”, do ponto de vista do marketing, na Bahia, não funcionou.

Temos, sim, um tremendo orgulho místico de sermos baianos com o Dois de Julho, as nossas festas, a nossa culinária, o nosso passado, a nossa música. É preciso não esquecer que já fomos corte!

No meu tempo de aluno, a Bahia e Sergipe formavam o Leste. Anteriormente, até início do século XX, da Bahia para cima tudo era Norte. Gilberto Freyre e depois Celso Furtado formularam a criação social, política e econômica do Nordeste. Embora não participando inteiramente da região, as mais das vezes a usamos politicamente.

A Bahia pertencia à Sudene, mas era Nordeste? O governador ou seu representante frequentava o seu Conselho Deliberativo, uma espécie de pequeno parlamento nordestino. Houve até um superintendente da Sudene baiano, Paulo Souto. Do que eu sei, foi o único dentre muitos em toda a história desse organismo regional.

A participação da Bahia nos demais órgãos regionais tem sido muito reduzida. Quem se lembra de um baiano presidindo o Banco do Nordeste? Além de Oliveira Brito e Aleluia, qual o outro baiano que dirigiu a Chesf, no Recife? E o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas?

A Bahia não é sede de nenhum organismo regional importante. O Banco do Nordeste está suntuosamente instalado em Fortaleza. Aliás, quando da sua criação, no Congresso Nacional, poucos deputados baianos se pronunciaram a favor. Aliomar Baleeiro, por exemplo, foi contra, enquanto outros irmãos nordestinos, cearenses, pernambucanos e paraibanos lutaram pela sua institucionalização.

Em compensação, Recife funciona muito bem como capital regional. Assim procede e tira vantagens da sua liderança. A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), a Sudene e um Tribunal Federal da 5ª Região, dentre outras instituições, localizam-se na capital pernambucana. Além do serviço que prestam, agregam fluxos de emprego e renda. Não obstante as barragens e a hidrelétrica terem sido instaladas no lado baiano do Rio São Francisco, Pernambuco com agressividade empresarial soube carrear muito antes do que nós a força e a energia da hidrelétrica. Pioneiramente, no distrito do Cabo, o governo pernambucano criou um sistema de incentivos fiscais com a energia de Paulo Afonso.

Todavia, historicamente, a Bahia sempre foi Recôncavo e Sertão. A dualidade básica da nossa história. E os sertões de Teodoro Sampaio e Euclides da Cunha nos aproximam da contingência nordestina. Os sertões nordestinos começam em Feira de Santana, que responde ao chamado de Rui Barbosa: “Princesa do Sertão”. Hoje é bem mais rainha do que princesa. À entrada dessa cidade encontra-se o “Portal do Sertão”.

Todo baiano nascido nas interioridades tem orgulho de ser sertanejo (Atenção: o vocábulo interior referente às pessoas é pejorativo, aconselho a não usá-lo). O sentimento de pertença aos sertões é forte. Com mais de 45% do extinto Polígono das Secas, a Bahia possui a maior porção do semiárido nordestino. A dinâmica das migrações sertanejas criou centros populacionais importantes como Vitória da Conquista e Juazeiro. O complexo agricultor Juazeiro-Petrolina foi o Nordeste que deu certo. A pouca consciência nordestina dos baianos é compensada pela força de recriar, interiormente, a Bahia.

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*Edivaldo Boaventura – Educador, ex-secretário de Educação e Cultura do Estado da Bahia, escritor, diretor-geral do jornal A Tarde.

O Professor Edivaldo é pai de outro baiano ilustre, o ator e cantor DANIEL BOAVENTURA

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ENVOLVENTE DA BAÍA VERSUS PONTE

09/03/2010

Foto-montagem de BRUNO AZIZ

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A alternativa visa criar uma opção de acesso à Ilha de Itaparica, desenvolvendo o Recôncavo e evitando impactos sobre Salvador

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Disse em meu último artigo que existiam alternativas mais interessantes e baratas que a Ponte Salvador-Itaparica. Ao contrário do que se diz, aquela ponte não revitalizará o Recôncavo. Concebida como uma saída direta para o sul e oeste, ela o marginalizará. A alternativa aqui apresentada visa criar uma opção de acesso à ilha, desenvolvendo o Recôncavo e evitando impactos sobre Salvador.

Ela seria uma via envolvente da Baía de Todos os Santos que, partindo do COPEC, iria até o CIA e o complexo portuário/naval de Aratu, dali seguindo pela orla da baía ligando este complexo à RELAN, à Usina de Biodiesel, ao Temadre e cruzando o Paraguaçu ao Estaleiro de São Roque. Da ponte a via seguiria para Salinas da Margarida, das mariculturas, e dali até a Ponta do Dendê, aonde, através da Ponte do Canal, chegaria à contracosta de Itaparica. Outro ramo seguiria até o Funil. Uma ponte em São Roque com outras ligações e função já foi cogitada por outrem.

Além da integração de complexos industriais-portuários, esta envolvente seria também uma via de lazer, dando vida a pontos turísticos, como a Baía de Aratu, Museu Freguesia, São Francisco do Conde, e praias de Itapema, Saubara, Cabuçu, Bom Jesus, Monte Cristo, Barra do Paraguaçu, Salinas da Margarida, Encarnação, Mutá e Cações.

A partir dessa estrada se pode chegar, de barco, às ilhas de Maré, dos Frades, Cajaíba, Bom Jesus, Bimbarra, das Fontes, Monte Cristo e aos piscosos espelhos d’água do Iguape e Canal de Itaparica. Por meio de estradas vicinais se pode visitar cidades como Madre de Deus, Santo Amaro, Maragogipe, São Félix e Cachoeira, as vilas de Nagé e Coqueiros, as ruínas de São Francisco do Paraguaçu e Santiago do Iguape. Este é um enorme potencial turístico e cultural inexplorado, que será mais uma vez esquecido e abandonado com a via expressa Salvador/BR-101.

Através da armação de barcos, da pesca, do artesanato, da horti-fruticultura e da culinária, revitalizados pelo turismo, estaríamos desenvolvendo o Recôncavo. Em contraposição, a ponte Salvador–Itaparica e os 66 km de via expressa anunciados não têm em sua margem nenhuma atividade produtiva, de serviços ou cultural.

A estrada proposta está em grande parte feita, dependendo apenas de conexões e benfeitorias. As obras d’arte são poucas. Uma ponte sobre o Subaé (650 m), outra na foz do Paraguaçu (1.800 m) e a Ponte do Canal (3.900 m) entre a Ponta do Dendê e a contracosta de Itaparica. Esta ponte, que tem menos de um terço do comprimento da Salvador-Itaparica, não mergulhará 42 m, não terá vãos de 560 e 285 m e altura de 90 m. Será como a atual do Funil, mas menor que sua sucessora duplicada (5.300 m).

Hoje para se chegar à Fonte da Bica de carro rodamos 290 km e gastamos 3 horas e15 minutos. Com o novo traçado ficará reduzida para 110 km e 1 hora e 15 minutos, a mesma distância e tempo para ir a Sauípe, em uma estrada muito mais interessante. Se considerarmos que os ferryboats saem a cada 50 minutos e levam 40 minutos na travessia, o tempo é 17% menor, fora a espera na fila.

Esta nova via não se destina a expandir a Região Metropolitana de Salvador, onde estão as indústrias e muita terra firme por ocupar, nem escoar a soja do oeste, ou desativar o ferryboat. Destina-se a integrar indústrias e portos metropolitanos, desenvolver o Recôncavo e o turismo, evitar uma avalanche de carros em Salvador e viabilizar o sistema de ferryboats e lanchas regulando a flutuação da demanda responsável por uma frota sucateada, que não atende ao pique do verão e opera deficitária e ociosamente o restante do ano. O ferry poderá ser o fecho de um belo circuito em volta da baía.

A Ponte Rio-Niterói não tirou as barcas da Praça XV, pois seus usuários descobriram que era mais prático chegar ao centro do Rio ou de Niterói de barca do que pagar pedágio, enfrentar um engarrafamento de pelo menos uma hora e meia e não ter onde estacionar. Alternativas existem. Cabe ao governo, ouvida a sociedade, escolher aquela que melhor atenda aos interesses, não só dos usuários do mal gerido ferryboat, como das populações de Salvador e do Recôncavo, que serão beneficiadas ou afetadas com essas obras.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil/Depto. Bahia (IAB-BA)

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O DEBATE SOBRE A PONTE PARA ITAPARICA

09/03/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PEDRO DE ALMEIDA VASCONCELOS*

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A questão principal neste debate não é a de fazer ou não fazer uma ponte para Itaparica, nem a de ser a favor do desenvolvimento e do progresso ou a favor da preservação e do passado.

O grave é que a ideia de fazer a ponte seja apenas um insight, típico das ideias luminosas dos artistas, sem ter nenhuma base a partir de estudos de cenários, de impactos, nem de medidas reguladoras correspondentes. É bom lembrar que já em 1967, quando da elaboração do plano do Centro Industrial de Aratu, o arquiteto Sérgio Bernardes propôs um traçado de uma futura ponte para Itaparica.

Uma série de questões podem ser levantadas:

Qual a prioridade da ponte? Será mais um investimento concentrador na Região Metropolitana em detrimento do interior do Estado? Será em detrimento de investimentos sociais nas quase abandonadas periferias de Salvador (transportes, educação, saúde, segurança, lazer…)?

Qual a previsão do investimento total? Estão prevendo uma ponte suficientemente alta para os petroleiros passarem em direção à refinaria da Petrobras (e as plataformas), ou ela terá um mecanismo de abertura para passagens dos navios?

Quem assumirá os custos: o governo estadual, o governo federal, a iniciativa privada ou uma combinação desses agentes?

Quais os impactos previstos de uma ponte deste porte nas diferentes escalas: em Salvador, na ilha, no Recôncavo? O que acontecerá com a atual população residente na ilha, em sua maioria formada por famílias de baixos rendimentos. Será expulsa do litoral? Qual o fluxo de migrantes previsto? Como ficará o meio ambiente (ver Avenida Paralela…). Como ficará a oferta de infra estrutura para a ilha: de onde virá a água? Como será enfrentada a questão do saneamento? Como ficarão os fluxos de transporte, incluindo os de caminhões e ônibus e seu acesso a Salvador? Poderemos ter, como em Lagos, na Nigéria, pontes com engarrafamentos diários.

Que atividades econômicas serão previstas? Será a ilha um “dormitório” para Salvador? Como ficarão as frágeis finanças municipais? Dependerão de impostos locais e transferências federais?

Como as administrações municipais da ilha serão equipadas para tentar controlar a urbanização futura? Como será controlada ou orientada a especulação imobiliária, se mesmo em Salvador a urbanização é uma combinação de interesses imobiliários e invasões de terrenos, com uma insuficiente atuação estatal?

Quem está pensando e planejando o futuro da Região Metropolitana e do Recôncavo? É necessário diferenciar a elaboração de um projeto executivo de uma ponte de um planejamento de médio de longo prazo para a ilha e o seu entorno.

Essas questões são importantes na medida do recuo atual do planejamento estatal e da participação cidadã, devido, de um lado (apesar da aprovação do Estatuto da Cidade), à ideologia neoliberal, e do outro, da volta de uma visão de “desenvolvimento” progressista, na busca da realização de grandes projetos, o que lembra o período da ditadura militar.

Mas seria bem mais importante, antes, definir a opção por um modelo de urbanização: continuar com a prioridade ao automóvel em detrimento do transporte público, como em Salvador, prevendo novas avenidas paralelas à Avenida Paralela, sem estudos atualizados dos fluxos? A opção de uma urbanização composta de loteamentos e condomínios fechados desconectados, da verticalização acelerada em determinadas áreas, com a destruição dos prédios residenciais em paralelo a uma imensa periferia precarizada e favelizada?

Finalmente, como não há previsão de mudanças sociais profundas, com a construção da ponte, as “elites” e classes médias deverão se implantar no litoral da ilha e uma nova periferia precária surgirá nos fundos dessa nova urbanização. Itaparica será então a nossa futura Niterói (com seu equivalente São Gonçalo e suas favelas atrás)? Ou um novo Corredor da Vitória ao nascente, como a Boa Viagem recifense (e suas favelas atrás)? Ou talvez ainda uma nova Amaralina (com seu equivalente Nordeste atrás)…

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*Pedro de Almeida Vasconcelos Mestre em Urbanismo e Ph.D em Geografia

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A PONTE SALVADOR-ITAPARICA

09/03/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Falei que considerava inevitável o projeto de transposição das águas do Rio de São Francisco. E que, do mesmo modo, considero inevitável a construção de uma ponte ligando Salvador e Itaparica. Acho que, mais cedo ou mais tarde, ela vai acontecer. E que, por isso mesmo, em vez de apenas protestar, é melhor discutir a natureza da intervenção e a espécie de ponte que vamos ter.

Consideremos, antes de mais nada, o salto demográfico de Salvador. Em 1920, a cidade contava com cerca de 280 mil habitantes. Em 1950, se aproximou dos 400 mil. Em 1970, abrigava cerca de um milhão de habitantes. E tomou o rumo da metropolização. O processo foi rápido. Estonteante. Salvador se expandiu loucamente. Expandiu-se por vales antes praticamente desertos. Criou seu sistema de avenidas de vale. Abriu a Avenida Paralela. Avançou para o litoral norte. Anexou e transformou lugarzinhos antes pacatos e mesmo líricos.

Para ver como as coisas estão hoje, basta olhar fotografias aéreas da cidade. As fronteiras da vida urbana, em comparação com a década de 1950, foram alargadas de modo surpreendente. Formidável. Obras quilométricas e caras foram realizadas. Pontes terrestres, digamos assim, como as avenidas de vale e a Paralela. E nada indica que tal processo expansivo irá se congelar. Pelo contrário. Nosso caminho, para o futuro, deverá apresentar expansão e conurbações sucessivas. Entre outras coisas, alcançando Feira de Santana, avançando para o Recôncavo e anexando Itaparica.

Mas é claro que precisamos ter cuidado. Precisamos de planejamento e trabalho. No seu inchamento, a cidade experimentou, ao lado da expansão demográfica, um vasto processo de favelização. E, como isso vai continuar acontecendo, vamos precisar, cada vez mais, tanto de obras de infraestrutura urbana (como a ponte Salvador-Itaparica) quanto de obras de infraestrutura social (como a urbanização de favelas).

Façamos um pequeno exercício de lógica e imaginação (é coisa que faço sempre). Salvador, na década de 1950, exibia, ainda, uma tranquilidade rural. Parecia parada no tempo. No ano 2000, era radicalmente outra. E como será na década de 2050? Vamos imaginar Salvador em 2050? Na segunda metade do século 21? Comparativamente, daqui a algumas décadas, o que hoje é a região metropolitana de Salvador vai aparecer como coisa menor. E a ilha não vai pairar acima desse processo. É nesse contexto que vejo a ponte Salvador-Itaparica como algo inevitável. Vejo que ela virá. Mais cedo – ou mais tarde.

A megacidade vai se configurar tendo Salvador como centro, mas na conurbação com o litoral norte, no avanço em direção a Feira e na integração com o Recôncavo. Ou antes: reintegração. Agora, via BR-324 e Itaparica. Antes, a vinculação Salvador-Recôncavo se dava, principalmente, por caminhos de água. Não tínhamos estradas. Em vez de trens ou automóveis, circulavam saveiros. No futuro, teremos caminhos de água e caminhos de terra.

Esta reintegração Salvador-Recôncavo, desfecho de um vasto processo de urbanização que envolve todo o planeta (na entrada do século 21, pela primeira vez na história da humanidade, a maioria da população da Terra estava vivendo em cidades e não no campo), não deixará de ser, também, uma recomposição ou reconfiguração de nossos processos históricos e culturais. Salvador e o Recôncavo estiveram estreitamente conectados durante séculos. Foram a descoberta e a exploração do petróleo, seguidas pela implantação da indústria petroquímica, que deslocaram o dinamismo do coração barroco do Recôncavo para cidades como Catu, e depois para o litoral norte, fazendo explodir Camaçari e Lauro de Freitas.

Mas, em princípio, nossa região metropolitana seria, lógica e sociologicamente, o Recôncavo, por todos os nossos vínculos históricos, econômicos, sociais e culturais – como bem via, em meados do século passado, um dos mais brilhantes sociólogos brasileiros, o baiano Luiz de Aguiar Costa Pinto. O impressionante, agora, é que a antevisão de Costa Pinto ressuscita. Em novo contexto sócio-técnico. Sob novas luzes. Em meio a outros dramas e traumas sociais. Numa nova realidade urbana. E implica uma ponte. É por isso que a vejo como inevitável. E quero discutir sua concepção, realização e consequências.

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*Antonio Risério – Escritor

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SOBRE VERDES E VERMELHOS

09/03/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de BETE SANTOS*

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Ubiratan Castro, o nosso Bira, profundo conhecedor da história da Bahia, presenteou-nos na última quinta-feira com um instigante texto sobre radicalismo e desenvolvimento, a propósito do debate em torno da ponte Salvador-Itaparica. Como muito bem lembra Bira, com o debate em torno da “ponte” não estamos discutindo apenas a relevância ou não de uma obra de engenharia, a ligar o nada a lugar nenhum (como algumas das nossas históricas intervenções urbanas, inclusive em Salvador). Segundo seu argumento, a construção da ponte se insere no contexto de um projeto de desenvolvimento capaz de imprimir uma outra dinâmica econômica ao Recôncavo. Em sendo assim, essa intervenção precisa ser discutida de forma mais qualificada. De fato, a Baía de Todos os Santos e o Recôncavo sempre se constituíram em local de trabalho produtivo, e o padrão de desenvolvimento implementado no século passado criou descompassos entre uma economia industrial, desenvolvida, e um Recôncavo, bucólico e perdido no passado – a ser preservado ou não, a depender de vínculos afetivos ou interesses econômicos.

Vamos, então, situar o debate propriamente nesse campo. Qual Projeto ou Projetos de Desenvolvimento para a Bahia estão presentes no cenário político estadual e como ou em que medida uma intervenção dessa natureza se insere ou, ao contrário, não adiciona novos elementos ao desenvolvimento regional. Concordo plenamente com Bira quando diz que, na baía do século XXI, tanto nativos como veranistas têm direito aos benefícios do desenvolvimento. Essa é a questão chave. O projeto de desenvolvimento ao qual estamos nos reportando precisa ser explicitado e discutido com Salvador e com o seu Recôncavo. E não se trata apenas de um apelo retórico – comum em tempos de eleição. É preciso que se discuta em que medida essa intervenção e o projeto à qual está associada imprimem uma dinâmica de desenvolvimento regional diferente daquela construída ao longo do século XX. E mais: o que está posto é o desafio de inserção do Recôncavo em um projeto que não reproduza as mazelas do desenvolvimento, concentrado e excludente, que fez de Salvador e sua região um espaço de convivência e conflito entre precariedade e pós-modernidade. Ainda a título de exemplo, o agronegócio no Oeste baiano e o pólo turístico na Linha Verde, embora atraiam investimentos e contribuam com a arrecadação, não podem, do ponto de vista ambiental e também social, ser qualificados como bons exemplos de desenvolvimento.

Mas, então, companheiro, o radicalismo não pode ser visto apenas como uma doença infantil dos que se recusam a amadurecer. Ser radical pode significar, também, tomar as coisas pela raiz, ir ao encontro dos seus fundamentos. Nesse sentido, o radicalismo, hoje, pode e deve ser verde, quando consideramos a necessidade de equacionar a relação predatória que a economia globalizada estabelece com o ambiente e com a natureza, e pode também continuar a ser vermelho, quando consideramos a possibilidade de construção de relações menos assimétricas entre capital e trabalho (sobretudo se não temos, no horizonte, a possibilidade de mudanças estruturais).

Desse modo, a democracia não pode se contrapor ao radicalismo. Esse é o sentido que a proposta de democratização da democracia ou a sua radicalização pode ter. É preciso avançar na criação de fóruns e instâncias qualificadas de debate sobre qual o significado desenvolvimento que queremos, e isso tem um especial significado na Bahia. As forças políticas que estão a frente do governo do estado têm condições políticas e institucionais para travar esse debate. Afinal, qual projeto de desenvolvimento queremos para a Bahia? Como incorporar o Recôncavo nesse processo, como articular tradição e modernidade, sem reproduzir e acirrar desigualdades históricas e criar padrões de desenvolvimento social e ambientalmente insustentáveis? Se não for assim, não teremos feito a diferença. E teremos, não exatamente amadurecido, mas envelhecido – e da forma mais perversa que o desenvolvimento capitalista costuma conceder.

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*Bete Santos é doutora em Sociologia pela Unicamp e pesquisadora do Grupo Águas/CIAGS/NPGA/Escola de Administração – UFBA

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NOTA DO EDITOR – Este texto de Bete Santos comenta o artigo “Radicalismo e desenvolvimento”, de Ubiratan Castro de Araújo, que pode ser lido neste blog no seguinte endereço:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/23/uma-ponte-sobre-o-reconcavo/

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UMA PONTE SOBRE O RECÔNCAVO E ILHAS

23/02/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Um réquiem de João Ubaldo para Itaparica, ameaçada de ser atropelada pela BR 242, provocou uma resposta grotesca e vazia do governo, que macula sua imagem. A reação foi xenofóbica e preconceituosa por ele residir no Rio, e não ser um técnico, senão um intelectual, supostamente amante do atraso.

Assinei o manifesto em solidariedade ao escritor pela tentativa de desqualificá-lo, em defesa da liberdade de opinião e por outras razões que vão mais além dos seus temores.

A ponte, a meu ver, não fará de Itaparica uma extensão de Salvador, tanto quanto a Rio-Niterói não expandiu Niterói, nem desafogou o Rio, que cresce na direção oposta. Itaparica, como Niterói, será apenas um atalho para a BR-101 e BR-242. Continuará como um conjunto de condomínios fechados usados um mês por ano, como o litoral de Lauro de Freitas e Camaçari.

Mesmo porque, a ponte será uma nova Paralela, engarrafada 24 horas por dia, apesar de suas oito pistas, pois o gargalo está na entrada de Salvador. Não será também uma saída para a soja do oeste, pois o nosso porto, mesmo ampliado, não tem condição de operar granéis e tem uma sobrevida de 25 anos. Ela será, sim, uma ponte sobre o Recôncavo e ilhas, cujas estradas serão marginalizadas, o sistema hidroviário e patrimônio abandonados.

Não digo adeus à ilha, que continuará sendo apenas uma passagem, lamento por Salvador, que poderá receber cerca de 60.000 carros e caminhões diários entrando por São Joaquim e cruzando seu centro antigo em direção ao Litoral Norte, onde estão as praias mais badaladas e os principais centros de produção da Região Metropolitana de Salvador – RMS, o Copec e a Ford.

Imaginem o engarrafamento do Américo Simas, da San Martin, da Contorno e do Iguatemi nos dois sentidos. Pela conformação do cabo de S. Antônio, não podemos ter um anel rodoviário, senão um fundo de saco (cul de sac). Para ele, o já congestionado Iguatemi, convergem duas estradas, a BR-324 e a Estrada do Coco/Linha Verde. Agora teremos uma terceira, a BR-242.

Enquanto em todo o mundo se evita a entrada de carros no centro, nós vamos despejar ali uma estrada de oito pistas.

A ponte terá também um impacto enorme sobre a segunda maior baía do mundo. A construção de uma ponte como essa demanda a construção de modelos reduzidos para simulações de marés, ventos e descargas de rios e assim evitar assoriamentos e correntezas indesejáveis. Pequenas obras nos portos de Fortaleza e Recife acabaram com as praias de Iracema e de Olinda. O porto de Suape atraiu tubarões para a praia de Boa Viagem.

Quanto perdeu Recife e perderá Salvador com um monstrengo que já arranca a 35 m de altura, prejudicando a paisagem, a navegação, os esportes náuticos e o turismo?

É inconcebível que se licite um projeto dessa complexidade sem estudos de viabilidade e impactos? Nem eles podem ser feitos em 120 dias.

Ao que tudo indica, o Convite a Manifestação de Interesse é apenas a legitimação do projeto do “Consórcio” já apresentado pelo secretário de Infraestrutura, cujo orçamento inicial é de R$ 2,5 bilhões, mas que poderá ser triplicado com os custos financeiros e operacionais.

É um engano imaginar que o setor privado irá investir na ponte e que ela será paga com o pedágio. Com este projeto e o remake de R$ 1,61 bilhão da Fonte Nova (A Tarde, 30/01) a capacidade de endividamento do Estado fica comprometida por algumas décadas e nós contribuintes pagando o pato.

Caro colega Bira Gordo, li com a atenção seu artigo “Radicalismo e desenvolvimento” do último dia 11/2, por ser V. o mais ilustrado porta-voz da atual administração. Esta falsa oposição entre desenvolvimento e preservação ambiental, assim como a pecha de radicalismo atribuída ao contraditório são coisas dos anos 70.

Confesso que não consegui enquadrar Ubaldo nem eu mesmo em nenhuma de suas categorias – vermelho/comuna, verde de raiva, infantil e senil/saudosista – nem numa fantasmagórica oposição.

Queremos apenas um desenvolvimento sustentável, que não seja só pontes, viadutos, asfalto, mais carros e fumaça. Há alternativas melhores e mais baratas.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil-Depto Bahia e do Crea-BA, membro da Academia de Letras da Bahia

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NOTA DO EDITORPara ficar por dentro deste debate sobre o projeto de uma ponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica, veja abaixo os endereços de três posts do Jeito Baiano. Começando pelo artigo de João Ubaldo Ribeiro, publicado originalmente no jornal A Tarde e que o editor deste blog se orgulha de tê-lo botado na rede mundial, propiciando assim o surgimento do manifesto de apoio ao escritor itaparicano. O manifesto foi transcrito na íntegra em um destes posts e se você quiser subscrevê-lo, o site para isso também está aqui.

Em seguida, veja o artigo de Ubiratan Castro de Araújo, o Bira Gordo, ao qual Paulo Ormindo de Azevedo se refere em seu texto acima.

Artigo de João Ubaldo “Adeus, Itaparica”:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/22/adeus-itaparica-%E2%80%93-por-joao-ubaldo/

Manifesto de apoio a João Ubaldo: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/31/manifesto-de-apoio-a-joao-ubaldo/

Link para a subscrição do manifesto:

http://www.gopetition.com/online/33669.html

Antonio Risério entra no debate: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/21/riserio-entra-no-debate-sobre-a-ponte/

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RADICALISMO E DESENVOLVIMENTO

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texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

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Nos idos tempos de minha juventude, o radicalismo político era indiscutivelmente vermelho, nas suas várias tonalidades; do rubro encarnado do livrinho de pensamentos do presidente Mao até o rosa choque da social-democracia. As velhas tias baianas desenvolveram uma sábia teoria, pela qual comunismo era como surto de sarampo. Era normal na infância e muito perigoso na maturidade! Hoje, o radicalismo mudou de cor. Ele é indiscutivelmente verde, em todas as suas tonalidades; do verde-oliva dos defensores da floresta, ao verde-musgo dos defensores das águas, até o verde claro dos defensores do ar puro e do clima fresco.

Para que meus amigos verdes não fiquem verdes de raiva, devemos reconhecer que o radicalismo é da natureza dos movimentos sociais. Cada movimento existe em função de uma pauta específica, focada em uma questão que assegura a legitimidade e a militância de todos os seus simpatizantes. Por isso os movimentos sociais são sempre maximalistas. Assim é que os governos são de partidos políticos e não de movimentos sociais.

O mais grave é que os radicalismos nunca andam sós. Ao lado do verde infantil, anda o saudosismo senil. Nós todos, pós-sexagenários, sentimos bater em nossas mentes a saudade de nossa própria juventude. “No meu tempo tudo era melhor”. Ai que saudade tenho da Estância Hidromineral de Dias D’Ávila, veraneio de toda a minha infância. Nunca mais os banhos das milagrosas lamas preta e branca, nunca mais a cata de mangaba nos tabuleiros… ai que saudade! Mas nem por isso pretendo destruir o Polo Petroquímico, principal atividade industrial da Bahia. Esta patologia tem hoje um sintoma: a saudade da Itaparica do meu avô! Como diz o povo, amor que fica é amor de Itaparica!

A mais recente manifestação deste encontro de radicalismos é a oposição apaixonada ao projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica. Este não é um projeto rodoviário isolado. Ele faz parte de todo um planejamento do Estado da Bahia para a reativação da Baía de Todos os Santos e seu entorno, o Recôncavo Baiano. Esta baía nunca foi um local bucólico de contemplação e sim um local de trabalho produtivo! O desafio do presente é a restauração do desenvolvimento articulado de toda a baía, com indústria naval, interligação de estradas com o sistema de portos e expansão da indústria automobilística e do Polo Petroquímico.

A baía bucólica é o triste resultado das mudanças econômicas dos anos 60, com o funcionamento da Rio-Bahia e com a implantação da economia do petróleo, que produziram um Recôncavo desenvolvido, chamado Região Metropolitana de Salvador, e um Recôncavo abandonado, chamado de Histórico. Nestes espaços abandonados, ficou uma população pobre, os nativos, sem acesso aos serviços de saúde, educação, sem emprego e sem rendas, indigentes das migalhas dos ricos veranistas e turistas do Recôncavo desenvolvido, que durante algumas semanas no ano, iam descansar as vistas com a pobreza alheia. Na Baía do século XXI, tanto nativos quanto veranistas tem o mesmo direito de acesso aos benefícios do desenvolvimento, pois são todos cidadãos baianos.

O grande remédio contra os radicalismos é a prática da democracia. Que todos os interessados sejam ouvidos! Que se defina a justa medida da preservação da cidade de Itaparica, cidade histórica e estância hidromineral, de modo a protegê-la dos impactos negativos da desfiguração urbana e da implacável especulação imobiliária. Queremos todos que a cidade de Itaparica continue a produzir milagres com a sua “água fina, que faz velha virar menina”.

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*Ubiratan Castro de Araújo – Historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

ENTREVISTA COM ROBERTO MENDES

19/10/2009
ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

NÃO NEGOCIO OS MEUS COSTUMES”

 

por CLARISSA BORGES*

 

O músico, compositor e pesquisador Roberto Mendes é um divulgador da cultura de Santo Amaro da Purificação, município do Recôncavo Baiano. Mais do que isso, personifica os valores e tradições do lugar como alguém que se funde com a própria terra. Essa fusão se traduz na busca da preservação e disseminação da chula em todas as suas vertentes, sua principal contribuição à música brasileira.

Admirado e gravado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, tem em Maria Bethânia sua maior incentivadora e a quem confere o título de “estímulo da minha canção”.

Mas o artista prefere atribuir créditos pelo seu sucesso a chuleiros de Santo Amaro, como Zé do Boi, que lhe garantiram “respaldo para brilhar”. A cultura de sua terra também forneceu material para escrever, com Waldomiro Júnior, o livro Chula – Comportamento Traduzido em Canção.

O apego às raízes não impede, entretanto, que Roberto Mendes busque sonoridades diferentes daquelas originadas no Recôncavo. No disco mais recente, Cidade e Rio, convidou Guinga, Alcione, Lenine, Mário Ulloa, Marco Pereira e Pedro Luiz, sem dispensar a presença de seu parceiro mais constante, Jorge Portugal.

Em entrevista concedida à série Memória da Bahia (publicada aos domingos pelo jornal A Tarde e por A Tarde On Line), Roberto Mendes fala sobre matrizes culturais, sua identificação com a cantora e conterrânea Maria Bethânia e critica a postura do Estado em relação à cultura.

 

Sua identificação com Santo Amaro da Purificação é decisiva na sua música. Como foi a infância no município?

ROBERTO MENDES – Basicamente eu sou santo-amarense. Isso é o que me faz ser eu, o resto é consequência de morar na cidade, de nascer e debruçar na memória e viver 24 horas na memória. Não acredito em futuro, não vejo possibilidade de futuro existir na vida de ninguém. Eu penso o aqui e agora, respaldado na memória. A infância foi muito boa. Santo Amaro é uma cidade extremamente provinciana. O Recôncavo é privilegiado porque, quando houve a falência da monocultura de açúcar, até geograficamente, não teve a possibilidade da invasão da indústria moderna. Faliu a cana-de-açúcar, mas ficou a cultura viva. Poucas regiões do mundo têm essa unidade comportamental que tem o Recôncavo, por não ter essa invasão.

 

Quando a música entrou na sua vida?

RM – Em Santo Amaro, fazia parte do código de postura da cidade o canto orfeônico. Então fazer música em Santo Amaro nunca foi nada de absurdo. O primeiro disco gravado no Brasil, quem gravou? Um santamarense, baiano, nas Casas Edson, em 1902. Gravou uma canção de Xisto Bahia, um lundu, quem gravou foi Manuel Pedro dos Santos. O primeiro samba, que se supõe que foi gravado também, com este comportamento de samba, definido como samba, foi Pelo Telefone, gravado por Dunga, que era criado por Tia Amélia, prima das Ciatas, de Santo Amaro. Então Santo Amaro tem essa herança. A família que tinha dois filhos, um tinha que ser padre, o outro, músico. Na minha, todo mundo tocava.

 

Como era a presença da música na sua família?

RM – Minha irmã, que me criou, estudou música com a leitura mais acadêmica da canção. De certa forma, ela influenciou a mim e a César – meu irmão – a ter noção da razão musical. Mas, logo depois, eu me encontro com outro tipo de música, que é a música orgânica, onde não se exigia tanto do comportamento, e era uma música mais livre, como as chulas, o canto do maculelê, a barquinha, a burrinha, a marujada. Aí você vê exatamente a interferência da língua no canto.

 

Diferente de alguns conterrâneos, você não saiu de Santo Amaro. Por que ficar?

RM – Eu acho que eles saíram para eu poder ficar. Eu não sinto saudade, nunca senti a dor da saudade que eles sentem. No fundo, eu sempre achei perigosa a situação de sair da sua terra e ter que negociar os seus costumes para ter uma boa convivência na terra dos outros. Não gosto da terra dos outros, gosto da minha. Eu posso ir na terra dos outros para levar a minha, em visita, mas não tenho pretensão nenhuma de sair e viver negociando os meus costumes com os costumes alheios. Talvez seja isso que me faz até hoje estar lá.

 

As próximas gerações terão acesso às tradições que você tem preservado? O governo tem cumprido este papel?

RM – Não, o governo não tem interesse nenhum nisso. Primeiro que o governo é totalmente desinformado. O Ministério da Cultura não pode cuidar de arte, fomentando artista nem produto artístico, não tem cabimento. Por outro lado, não pode estar colocando dentro de um avião pessoas, as matrizes de seu País, e mandando fazer lavagem no inferno, sei lá, na França. Isso é uma mediocridade singular. É tornar aquilo que é regra exceção e torná-la folclórica. É incompetência, burrice do Estado, que não sabe nada de cultura. A cultura é para ser preservada, os costumes. O que é cultura, na realidade? Herança de costumes que definem o comportamento de um povo. Qual é o binômio de sustentação de um povo? A maneira de falar, que é o canto, e a culinária. Então isso é a obrigação do Estado.

 

Acredita, então, que a chula não será preservada?

RM – Nós temos a cultura de que o bom sempre está do outro lado do rio. E eu digo isso muito à vontade, porque me considero um grande artista porque consegui brilhar na minha terra, seduzi as minhas matrizes, fiz um dia com que o meu vizinho pedisse silêncio para me escutar. Eu me sinto bem, não porque o jornalista diz sobre mim, porque o jornalista não sabe nada, não é porque o crítico diz, porque o crítico sempre foi equivocado, não sabe nada. Quem me respalda a estar aqui dando entrevista hoje é dizer que eu sou amigo de João do Boi, de Zeca Afonso, chuleiros que me deram essa formação. Não sei se isso será preservado porque os meninos não terão essas matrizes mais, e o Estado cinicamente não preserva isso, ele tem vergonha de mostrar o Brasil real.

 

Maria Bethânia se refere a você como um artista fora do comum. Como surgiu essa relação com ela?

RM – Bethânia é a pessoa que me dá a voz, é o estímulo da minha composição. Eu era menino em Santo Amaro e já tinha Bethânia como uma grande força. Nós tínhamos Caetano, Gil, Bethânia, essa geração, como o grande sustentáculo do pensamento da indústria fonográfica brasileira. Mas Bethânia, mesmo morando no Rio, mesmo vivendo fora, tem uma coisa que me impressiona muito. Ela é provinciana. Ela está no Rio, mas Santo Amaro está dentro da casa dela. Eu não tenho nada contra quem está em outros lugares, querendo o mundo. Eu não tenho é a capacidade de entender isso. E eu entendo mais rápido Bethânia talvez porque Bethânia se permita a esse patamar de entender um provinciano.

 

*Clarissa Borges é repórter da Web TV A Tarde 

 Foto: Abmael Silva | Agência A Tarde  

Veja os vídeos desta entrevista através dos seguintes links:

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257660

 
http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257656

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257654

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257653

 

Agora, uma contribuição do YouTube para esta discussão: samba-chula gravado em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, com Milton Primo tocando a viola machete ao lado de Zé de Lelinha do Samba Chula Filhos da Pitangueira.

 

 

VAPOR DE CACHOEIRA, 190 ANOS

04/10/2009
ILUSTRAÇÃO DE BRUNO AZIZ

ILUSTRAÇÃO: BRUNO AZIZ

por JORGINHO RAMOS*

 

Há 190 anos, exatamente em 4 de outubro de 1819, foi realizada a viagem inaugural do Vapor de Cachoeira, uma revolução tecnológica para a época. Pela primeira vez na América do Sul viajava-se sem a necessidade dos ventos para impulsionar as embarcações.

A proeza foi uma conquista do Marechal de Campo Felisberto Caldeira Brant – mais tarde agraciado com o título de Marquês de Barbacena –, o seu cunhado Pedro Rodrigues Bandeira e Manoel Bento Guimarães. No ano anterior eles tinham recebido de Dom João VI a carta régia que os autorizava a implantar como um “privilégio real” a navegação a vapor. Receberam também a exclusividade na exploração do serviço de navegação na costa da Bahia e em seus rios, por um prazo de 14 anos. Logo, mandaram vir da Inglaterra uma máquina a vapor e adaptaram-na a uma embarcação que mandaram construir no Estaleiro da Preguiça.

O jornal “A Idade d’Ouro do Brasil”, o primeiro a ser publicado em Salvador, defendia o empreendimento afirmando que na Europa “já não mais se fabricam barcos de outra espécie para a navegação dos rios”. E justificava: ”Os rios do Recôncavo desta cidade são todos bordados de altos morros que abafam o vento às embarcações e lhes retarda a viagem. A introdução, pois, dos barcos a vapor será aqui de incalculável proveito e, segundo os avisos anteriormente feitos nesta folha, temos de ver esta introdução muito brevemente”.

Na viagem inaugural entre Salvador e Cachoeira, ponto final de navegabilidade no Rio Paraguaçu, o barco a vapor conduzia as principais autoridades e “pessoas gradas” como o Conde da Ponte, então governador, os empreendedores, magistrados e outros convidados. Saíram de Salvador às 11 da manhã, atravessaram a Baía de Todos os Santos e entraram rio adentro, chegando às oito da noite à Vila de Cachoeira, então em festas. Foi feita em nove horas uma viagem que durava às vezes até cinco dias.

Logo o Vapor de Cachoeira se incorporou à vida baiana, e não só pelo aspecto econômico, com a redução do tempo de viagem entra a Cidade da Bahia e Cachoeira, na época entreposto comercial. O Vapor de Cachoeira e outras embarcações, como os saveiros, eram o principal meio de ligação entre o litoral e o sertão da Bahia. Além de pessoas, transportavam principalmente mercadorias e notícias. Os produtos manufaturados seguiam até Cachoeira e da lá eram levados em tropas de burros – e mais tarde de trem – para abastecer o interior da Bahia. Na rota inversa trazia para a capital a produção dos engenhos de açúcar, de fumo, algodão e tudo mais que o sertão produzisse.

A embarcação original foi destruída anos depois. Alguns dizem que, durante um temporal, foi destroçada em Mont Serrat. Outros, que foi destruída em 1823 por soldados de Madeira de Melo, durante a guerra pela Independência.

Certo mesmo é que a navegação a vapor foi interrompida durante muitos anos. Consta que essa ausência originou os primeiros versos da célebre cantiga popular, como uma ironia dos mestres saveiristas a realçar a excelência dos seus barcos a remo, em contraponto ao barco a vapor. Tornou-se lendário, a inspirar artistas, namorados e cantores nas muitas variações de sua quadrinha mais célebre:

“O Vapor de Cachoeira/ Não navega mais no mar/ Arriba o pano, toca o búzio/ Nós queremos navegar”

É uma evidência de que o Vapor de Cachoeira já tinha sido incorporado à cultura popular e entrado para o folclore. Anos depois, em 1836, a navegação a vapor na Bahia foi reativada e ele renasceu para viver sua fase áurea até a década de 60 do século XX, quando a navegação até Cachoeira foi extinta. Mas está presente até hoje na História do Brasil, na literatura e, principalmente, eternizada na memória do povo.

O aniversário do Vapor de Cachoeira pode ser uma oportunidade não só para se discutir a sua importância histórica e cultural, mas também para divulgar a ideia de que o turismo histórico e sustentável pode ser mais uma opção econômica e social para o Recôncavo. Esperemos que a Rota do Paraguaçu, trecho por onde o Vapor de Cachoeira circulou, possa em breve vir a ser reconhecida pela Unesco como patrimônio da humanidade.

 

*Jorginho Ramos é jornalista, professor, gerente de Jornalismo da TV Educativa

CIDADE HEROICA DO RECÔNCAVO

22/06/2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas | AG. A TARDE | 18.2.2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas Agência A TARDE | 18.2.2009

OLHAR SOBRE CACHOEIRA

por MAÍSA PARANHOS

É impossível subir até a Cruz de São Félix, olhar em direção ao Rio Paraguaçu, para o outro lado de sua margem, sem conter a respiração diante de tanta beleza que emana da paisagem da cidade. Monumento histórico nacional, Cachoeira, no Recôncavo Baiano, jogou um papel importante na luta pela Independência da Bahia. Contam os antigos que as mulheres atravessaram o rio a nado, com punhal entre os dentes, para a expulsão do português colonizador. Daí a denominação de “Cachoeira, a Heroica”.

Quem a mira terá seus sentidos atingidos. Sente-se uma saudade de não sei o quê, uma sensação de pertencimento, uma intimidade que só seria possível com o nosso passado atávico, talvez. Nela, nos reconhecemos. Hoje, é portadora de uma rica vida cultural, tendo sido escolhida para abarcar a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Aonde chegamos, chegam as mudanças necessárias para a própria garantia dos nossos agrupamentos humanos. E assim, acreditamos, os espaços são modificados em função do homem. Tal vem ocorrendo em Cachoeira, possuidora de um calendário muito extenso em festividades e manifestações culturais, destacando-se a Festa da Boa Morte e o São João. Os festejos trazem admiradores e futuros moradores, e consequentes investimentos e empreendimentos.

A própria universidade aportou um contingente populacional maior para o espaço urbano, e é claro que este se modificará. A questão é justamente esta: de que forma este espaço, que é monumento histórico, portanto patrimônio público, vem sofrendo essas modificações? Cachoeira vem sendo tratada com a delicadeza e a importância necessárias? Sendo uma das maiores expressões da arquitetura colonial portuguesa em nosso País, exige um trato peculiar. Por ser uma cidade dona de um acervo cultural imenso, com seus museus e vasta produção artística, necessita de uma administração que dê conta de suas especificidades.

É com tristeza que observamos um desenho urbano se modificando nas encostas dos morros e nas margens dos rios sem o devido planejamento. É com melancolia que vemos seus artistas produzindo em espaços precários enquanto ocorrem construções desordenadas ao longo de seus riachos. É com indignação mesmo que vemos pouca, ou quase nenhuma, participação popular nas decisões que são ali tomadas para o “engrandecimento” cultural da cidade.

Preservar um monumento histórico é criar condições para a sua valorização, inclusive turística, e não transformá-lo em objeto de vitrine, cercada de uma população excluída da preservação daquilo que ela própria constitui. Monumento histórico é coisa viva. O seu sentido é dado no presente por quem o cerca e lhe dá sustentação material e simbólica. Desta forma, Cachoeira está merecendo, com certeza, um olhar mais apurado e efetivo.

Maísa Paranhos é professora de história

E-mail: msparanhos@uol.com.br