Archive for the ‘Jeito baiano de fazer música’ Category

PROPOSTA DE REI MOMO PARA 2011

28/02/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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Lazzo I – O Magnífico

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texto de JAIME SODRÉ*

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Como sempre acontece no pós-Carnaval, a promessa é sempre começar a vislumbrar atitudes e mudanças para o próximo, enquanto procuro entender as vazantes de dois rios que parecem não se cruzar: um caudaloso, pensando o Carnaval como uma atividade de negócios; outro pensando este espaço da folia como a oportunidade de expor aos olhos de muitos as suas qualidades culturais, apostando no direito à diversão e estímulo à estima.

Negócios não são maléficos, o comércio também fez parte dos contatos milenares entre os povos, o que fico a meditar é sobre a razão de estes dois rios não se cruzarem.

Patrocínios para uns, negação para outros. Consumidores em maioria, somos esquecidos quando se trata de blocos afros ou personalidades musicais negras em busca da chancela comercial.

Desde o ritual da manhã até o anoitecer estamos lidando com produtos os mais diversos, porém isso não sensibiliza as empresas, nem ao menos uma simples pasta dentifrícia lembra-se que escovamos os dentes, ou não? Sabões, detergentes, desodorantes comprometidos com o asseio e limpeza não patrocinam ao menos a Lavagem de Itapuã, manifestação de asseio físico e espiritual.

No Carnaval o governo atende com um oportuno aparato financeiro aos blocos afros, com o programa Ouro Negro. Em boa hora, mas não basta, necessita-se do recurso privado, até porque ao governo cabe empregar os nossos recursos não só na folia, temos a saúde, escola, segurança, etc., para cuidar.

Mas, enquanto estudava a economia do Carnaval no âmbito da indústria cultural, na boa monografia de Bruna Silva e nos dados sobre os custos dos abadás e similares, elaborado pela professora Lúcia Maria, buscando compreensão e luz, não vi no Carnaval Lazzo Matumbi passar com o seu bloco Coração Rastafári, fundado, em 1998, com o objetivo de criar um espaço para o reggae no Carnaval, apesar de não estar ligado ao “rastafarianismo”. Bloco que saía sem corda e seguindo os conceitos de paz, igualdade e respeito.

Lazzo, dono de uma voz privilegiada, um artista completo, um dos mais e merecidos aclamados cantores da comunidade baiana, não desfilou, problemas com patrocínio, ou de quem não reconhece neste astro uma oportunidade de atrelar os seus produtos a uma estrela ímpar.

Recordo-me um artista negro no Carnaval, o dançarino Sebástian, sobre um trio, recomendando um grande magazine. Aguardo ainda um bom anúncio da nossa (diva) Margareth Menezes, em tempos de Beyoncé. Questionava-me uma mulher afro-descendente não visualizar semelhante, nem em anúncios de absorventes. Será que mulher negra não menstrua? Indagava, satirizando, claro.

Em 1959 o radialista Edmundo Viana e o jornalista Silva Filho colocaram o inigualável Ferreirinha, motorista da Sutursa, como Rei Momo, ficando na função até 1988. Desfilava em carro alegórico do Campo Grande até a Praça Municipal, recebia a chave da cidade e hospedava-se no Hotel da Bahia.

Em 1990 aconteceu o primeiro concurso para a eleição do Rei Momo. Salvador assiste na contemporaneidade a um novo processo de escolha do Rei. Como resultados tivemos o Rei Clarindo Silva, polêmico, inusitado, que seguindo a tradição histórica de adjetivar os reis, recebe o epíteto de Clarindo I, “O Quebrador de Paradigmas”. Foi uma situação interessante, onde se inaugurava a presença do “magro” nos dias “gordos” de Carnaval.

Segue-se Gerônimo, mais avantajado, excelente cantor e compositor, que se registra como Gerônimo I, “O Filho de Oxum”. Até há pouco estávamos sob as ordens régias de Pepeu Gomes I, “O discreto”, magistral guitarrista que não se fez acompanhar da rainha e princesas do Carnaval, ao que me parece.

Ainda seguindo as prerrogativas históricas, “antes que algum aventureiro ponha a mão na coroa carnavalesca”, permitam-me pleitear para 2011 a posse de Lazzo Matumbi I, “O Magnífico”. Requisitos históricos ligados ao Carnaval não lhe faltam, somado ao fato de ser um dos primeiros cantores do Ilê Aiyê e, com certeza, a cor desta cidade é também dele. Porte, elegância e nobreza estão ali.

Espero estar cumprindo a vontade de muitos e, que nós, súditos de vossa majestade, rogamos que aceite concorrer. Em sendo eleito, com aquele vozeirão, cante de cima do trio, para todos: “vem correndo me abraça e me beija”, em tom de reparação.

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*Jaime Sodré – Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social

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PARABÉNS, LUIZ: 25 ANOS DE AXÉ MUSIC

28/02/2010

LUIZ CALDAS toca ao lado de ORLANDO CAMPOS DE SOUZA, o ORLANDO TAPAJÓS, criador do trio elétrico Caetanave no carnaval baiano de 1972. Foto de CÉSAR RASEC - Carnaval 2010 Salvador-Bahia

No Carnaval do ano passado, o jornal A Tarde convidou o cantor e compositor GERÔNIMO, então Rei Momo, para escrever uma coluna diária nas seis edições especiais dedicadas à folia baiana. Este ano o convidado para a mesma tarefa foi LUIZ CALDAS, aproveitando o seu retorno aos centros das atenções sotero-carnavalescas por comemorar 25 anos da Axé Music, movimento inaugurado por ele.

O blog JEITO BAIANO reproduz abaixo os seis muito elogiados textos de Luiz, na ordem em que foram publicados.

Antes, um recado de LUIZ CALDAS:

www.luizcaldas.com.br – “Aqui você saberá tudo sobre mim”.

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SEXTA-FEIRA DE CARNAVAL

Salve a alegria,

salve o Carnaval da Bahia!

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texto de LUIZ CALDAS

(reproduzido de A Tarde de 12 de fevereiro de 2010)

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Para começar o nosso papo-cabeça, em plena folia de momo, nada como dizer que o hit do Carnaval é a não-violência. Em sendo assim, a minha expectativa é que a diversidade musical, aqui batizada por Axé Music, brilhe mais e mais com os nossos astros, que não devem em nada aos demais que também brilham mundo à fora.

Salvador no Verão, especialmente no Carnaval, é um colírio para todos os olhos, sem essa de deixar a lágrima derramar. A ordem é brincar, beijar, abraçar, dançar e ver a beleza dos blocos afros, que pela ancestralidade é matriz de grande parte desta coisa de ser baiano. Como é bonito ver Denny comandando a Timbalada, Vovô desfilando com o mais belo dos belos, que é o Ilê, e os turistas acertando o passo para se tornar um de nós baianos.

Com a homenagem aos 60 anos do trio elétrico, os 25 anos da Axé Music, a presença de Moraes Moreira e tendo Pepeu Gomes como rei momo, o Carnaval de Salvador consegue valorizar a sua história com os olhos no futuro e os pés no chão. Esse modelo de resgate tem que ser mantido, pois os artistas consagrados e os fatos históricos são faróis acessos para a festa ficar bonita. Os artistas consagrados transmitem por meio da sua arte a inspiração para os novos que chegam. São influências boas que só agregam valores.

É impossível falar de trio elétrico sem falar da guitarra baiana, que tem Armandinho o seu maior expoente. Lembro-me que fazíamos batalhas musicais na Castro Alves, eram explosões de acordes e rajadas de notas musicais para todos os gostos. Os dedos dançavam neste instrumento genuinamente baiano, essência do som trieletrizado. Aqui, não poderíamos deixar de citar Renatinho do Tapajós, Pepeu, Missinho e Cacique Jonny, que mandavam ver. Hoje a geração que pinta no pedaço tem David Moraes e Morotó, dentre outros.

Quem for me acompanhar neste Carnaval vai ficar sabendo tudo sobre os grandes clássicos do Jubileu de Prata da Axé Music e sobre a festa. E já que a ordem é irradiar a alegria, vale a pena ouvir o clássico carnavalesco Prefixo de Verão, da Banda Mel.

No mais é esquecer os problemas da vida, pois Carnaval é prazer, é paz e é alegria. Até amanhã!

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Nesta sexta-feira à noite estarei no Pelourinho mandando ver com o meu som. Lembro que este Carnaval é emblemático para mim, pois é o Jubileu de Prata da Axé Music.

Salve Pepeu Gomes, nosso rei momo coroado por Gerônimo, que foi a estrela momesca da festa anterior. Gerônimo mostrou no seu reinado que é possível ser rei e artista ao mesmo tempo.

Tô de olho na Mudança do Garcia, que se consagrou como a mistura da mistura da anarquia e da cultura do Carnaval de Salvador.

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LUIZ CALDAS e banda no palco armado no Largo do Pelourinho. Foto de CÉSAR RASEC - Carnaval 2010 - Salvador-Bahia

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SÁBADO DE CARNAVAL

A chuva lava a tristeza

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texto de LUIZ CALDAS

(reproduzido de A Tarde de 13 de fevereiro de 2010)

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Se eu fosse o prefeito de Salvador, ao invés da chave da cidade, daria uma paleta de ouro para ouvir os solos maravilhosos do nosso Rei Momo Pepeu. Qual o estado brasileiro que tem um dos maiores guitarristas do mundo no comando da folia? Isso só acontece na terra primeira do Brasil. E assim o Carnaval começou oficialmente, com os seus problemas e prazeres irmanados numa confusão organizada por Baco.

E em seguida veio a chuva, que lavou a tristeza e se misturou ao suor e à cerveja, como bem descreveu Caetano em seu frevo clássico.

Mas o começo da folia me fez relembrar a história. Foi quando a fobica original apareceu no Campo Grande com os filhos de um dos criadores a bordo e o Reio Momo. Os 60 anos deste invento maravilhoso que é o trio pareceram simples 60 dias. Uma vibração me dizia que a dupla elétrica Dodô e Osmar estava no meio do povão assistindo a tudo numa só felicidade.

Com o coração pulsando diferente, os olhos lacrimando e a alegria contornando a emoção, confesso que fiquei feliz ao assistir a homenagem que Denny da Timbalada me prestou, se vestindo como eu me vestia e cantando Haja Amor, voltando à época em que inventei a Axé Music. Essa bela apresentação na Barra mostra o lado inofensivo do Carnaval, pois tudo que é feito com o coração soa bem e fica bonito.

E por falar em inofensividade, tive a coragem de pedir a Sandra, minha esposa, o meu vale night, uma santa ideia do amigo Durval, que sabe como poucos fazer um Carnaval irreverente e cheio de inventividade.

E é nessa onda da musicalidade plural da festa que estou com os meus olhos de lince voltados para a turma do rock e do reggae, como Pitty, Retrofoguetes, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, Diamba, Ed Vox e Adão Negro. Essa galera merece tudo de bom, pois seguem os passos dos nossos eternos Raul Seixas e Bob Marley.

Hoje estarei na Barra com o meu trio dos 25 anos da Axé Music homenageando o Trio Tapajós. Orlando Campos é o cara que fez o trio se perpetuar para sempre, pois segurou a onda na época em que os criadores deram um tempo. Orlando é o trio moderno, é a carroceria do passado, do presente e do futuro.

Durante a festa, o meu Olhar de Lança permanece antenado com as coisas que estão acontecendo. Até amanhã!

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XXX

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Um problema de última hora atrasou a apresentação do nosso Rei Momo Pepeu Gomes. Coisas do Carnaval, mas nada capaz de tirar o brilho de sua musicalidade.

Num momento super musical, foi lindo assistir Adelmo Casé ninar o povão com a canção Mimar Você. Isso é que é saber usar bem uma gaita harmônica no lugar certo e na hora certa!

Como a Bahia é o berço do samba, deste o tempo de Tia Ciata, que migrou para o Rio de Janeiro, o gênero fez bonito na avenida. É a força dos nossos bambas e dos “bons malandros” cariocas.

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LUIZ CALDAS canta no Largo do Pelourinho. Foto de CÉSAR RASEC - Carnaval 2010 - Salvador-BA

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DOMINGO DE CARNAVAL

Vamos girar

o nosso calidoscópio cultural

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texto de LUIZ CALDAS

(reproduzido de A Tarde de 14 de fevereiro de 2010)

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O Carnaval de Salvador é um calidoscópio cultural em ebulição. Com inúmeras possibilidades, a festa vem se moldando às pressões do poder econômico, ficando em segundo plano as autênticas manifestações. Quem vem sofrendo com este modelo sustentado pelos mercadores da alegria são as entidades de matriz africana, os blocos de índio e os grupos de samba. Como manter esse calidoscópio em movimento?

Bem, não é fácil atender todos os interesses. Uma saída seria pulverizar os espaços públicos com essas entidades. Temos que ver com carinho especial os blocos que preservam as matrizes africanas, garantindo verbas ao longo do ano, não antes de a festa começar. É inadmissível que esses blocos fiquem agonizando por falta de grana, não tendo condições de confeccionar adereços e fantasias. Dos milhões que são arrecadados em publicidade, nada mais justo do que separar uma fatia e distribuir entre essas entidades, obedecendo a importância histórica de cada um.

O Circuito Batatinha, o Pelourinho, tem conseguido movimentar este calidoscópio. Com uma decoração das mais belas homenageando os 60 anos do trio, o local representa a convergência das manifestações culturais que dão sentido ao Carnaval de Salvador. Na sexta-feira, por exemplo, vi famílias com crianças brincado sem pagar um tostão e na maior paz. Tinha som para todos os gostos, até uma charanga de japoneses. Este é o modelo que deve ser pulverizado nos outros circuitos. O Pelô é o point.

Por sua vez, o outro lado da festa sabe como poucos se movimentar para garantir mais lucratividade, pouco se importando com a cultura de “menor” apelo massivo. Faço coro às palavras do pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia Paulo Miguez, que expõe com detalhes a transformação do capital cultural da festa em capital econômico.

E por falar no Pelô, após minha apresentação, uma fã me perguntou quem era a grande estrela da cena Axé neste Carnaval. Sem pausa para pensar, disse que Ivete Sangalo, Claudinha Leitte, Margareth Menezes, Alinne e Amanda são as musas. Justifico: vejam como elas sabem cativar os foliões e conseguem dar continuidade ao canto Axé Music de maneira especial. E tem mais: arrasam em cima do trio e representam as Isis modernas do Carnaval, ou seja, são simbolicamente as expressões férteis do som carnavalesco mundial, já que a nossa festa atingiu esta condição global.

O Olhar de Lança permanece antenado. Até amanhã!

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XXX

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Armandinho tem razão quando diz que tínhamos influência dos Beatles e Jimi Hendrix e queríamos fazer música com o tempero baiano. Hoje a preocupação é massificar e nada de boas influências.

Vamos ter mais um Carnaval sem encontro de trios na Praça Castro Alves. Pode anotar. E olhe que estamos comemorando os 60 anos deste invento fantástico. A praça é do vazio.

Cena da noite: enquanto tocava, um vendedor ambulante vendia um brinquedo que era lançado para cima e descia girando e cheio de luzes, dançando conforme a minha música.

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Foto de CÉSAR RASEC - Carnaval 2010 - Salvador-Bahia

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SEGUNDA-FEIRA DE CARNAVAL

Um pouco de tudo

faz a alegria reinar

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texto de LUIZ CALDAS

(reproduzido de A Tarde de 15 de fevereiro de 2010)

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Estou emendando o sábado com o domingo e o domingo com hoje, segunda-feira, penúltimo dia da festa. São poucas horas de sono. Digo isso para mostrar que vida de artista puxador de trio não é fácil como se pensa. Entre uma apresentação e outra, o tempo tem que render, uma vez que os compromissos paralelos pululam em alta velocidade. E para tudo funcionar de forma azeitada, um batalhão de profissionais entra em ação. Cordeiros, técnicos de apoio, seguranças, engenheiros de som e luz, músicos e motoristas possibilitam a alegria, não apenas o artista com o seu show.

Algumas horas perdidas do meu sono migraram para a logística da apresentação. Explico: tudo começa com os longos engarrafamentos no entorno dos circuitos, implicando deslocamento antecipado de aproximadamente duas horas. Aí vem a passagem de som e a liberação do trio. Para cada atraso de um minuto de quem está na frente, projeto, não linearmente, mais de cinco minutos para quem vem logo atrás. Como uma bola de nove, os últimos que desfilam acabam pagando pelo atraso dos primeiros.

De tanto assistir este filme, defendo a rotatividade dos horários de desfile. Se hoje um trio ou um bloco sai mais cedo, no Carnaval seguinte ele sairia mais tarde. Só assim, semearemos a democracia do tempo na festa. O atual modelo é bom para poucos. Façamos, então, sorteios de horários.

Outra coisa que poderia contornar esse problema relacionado ao tempo seria a inclusão de mais um circuito, assunto que vem sendo debatido nos últimos anos. Um novo circuito significa pulverização da festa e novas grades de desfile. Este debate tem que continuar.

Não poderia deixar de falar neste espaço do contentamento de Orlando Campos, que viu o seu Tapajós desfilar mais uma vez na avenida. Vestido de branco e com uma cartola prateada na cabeça, o idealizador da carroceria de trio agradeceu ao secretário Márcio Meirelles, ao governador Jaques Wagner, a mim e aos patrocinadores. O Trio Tapajós, sempre é bom reforçar, representa o Carnaval que valoriza o folião pipoca. Ano que vem tem mais Seu Orlando!

Por fim, levanto uma preocupação futura: se o terreno na Graça onde os trios se concentram for vendido, qual seria o espaço alternativo para comportar tantas máquinas da alegria? Pensem e me digam. O terreno em questão é particular.

O Olhar de Lança é a democracia da informação que A TARDE tem proporcionado. Até amanhã!

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A paz é o bálsamo da alegria

A civilidade chegou à festa. No sábado, no circuito Barra/Ondina, presenciei raras cenas de violência. Isso me deixa muito feliz, pois reforça que a paz é o bálsamo da alegria.

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Obrigado pela homenagem Betinho

Recebi das mãos de Betinho o Troféu Band Folia, uma homenagem aos 25 anos da Axé Music. Partilho este momento com todos aqueles que gastam da minha arte. Valeu Betinho!

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A varanda é o camarote 3333

O camarote Expresso 3333, que, em verdade, era a varanda de um apartamento, chamou a minha atenção. Os foliões sempre marcam presença com pérolas traduzidas em criatividade.

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ORLANDO TAPAJÓS e LUIZ CALDAS. Foto de CÉSAR RASEC - Carnaval 2010 - Salvador-BA

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TERÇA-FEIRA DE CARNAVAL

Cenas com retalhos

de abadás e mortalhas

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texto de LUIZ CALDAS

(reproduzido de A Tarde de 16 de fevereiro de 2010)

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Hoje termina a folia. Que pena! Quem ainda não dançou, não ficou com alguém, não beijou, não foi atrás do trio ou não viu o seu artista favorito, corra, pois ainda há tempo. Enquanto você corre em busca dos seus interesses, este escriba extemporâneo continua deixando a sua impressão, que é uma espécie de colcha de retalhos de mortalhas e abadas.

A fobica era pequena. O trio elétrico, hoje, é gigante. E daí? Bem, com a evolução destas máquinas da alegria, cada vez mais larga, alta e comprida, estamos na iminência de assistir a impossibilidade de deslocamento dos trios modernos pelas ruas do centro da cidade. Isso não quer dizer que eu seja contra a evolução, muito pelo contrário, adoro os trios modernos, principalmente pela qualidade do som e pela estética. A discussão aqui é o tamanho. A determinação de um limite máximo, dentro das normas estabelecidas pelos gestores do Carnaval de Salvador, poderia ser uma saída. Não adianta ter um Boeing se a pista de pouso só serve para teco-teco. Já presenciei trios presos em árvores, fiações elétricas e telefônicas. O resultado foi mais engarrafamento e mais atraso no desfile. E quando quebram? Aí é o caos, pois ninguém consegue mais ir e vir.

Quando passei pela Castro Alves na virada de domingo para segunda só toquei frevos que exigiram solos de guitarra baiana. Revivi o tempo do Carnaval trieletrizado. Um belo filme de encontros de trios, história de um passado recente, passou por minha cabeça. Porém a realidade era outra: eu estava sozinho. Os foliões resistentes e a estátua do poeta Castro Alves, esta com um possível olhar soturno, ficaram na esperança de mais um, mais dois ou mais três trios surgirem no topo da Ladeira da Montanha. Ledo engano. O passado é um filme em preto e branco, que, para ser revisitado em cores, urge uma série de ações conjuntas. Enfim, durmo tranquilo, pois a minha guitarra baiana, feita pelo lutier Elifas Santana, cumpriu a sua missão.

A maratona dos cantores de trio encontra guarida nos engarrafamentos na avenida. Parado por horas, o cantor tem que ficar agitando os foliões e haja gogó e repertório. No meu caso não há problema, pois tenho resistência e centenas de canções memorizadas, pois o baile foi a minha escola. Seria racionalizar o tempo dos trios que ficam fazendo shows particulares.

Dos três circuitos que passei tocando, a Barra representa a glamour moderno, o Campo Grande o primo pobre e o Pelô o lugar sagrado onde reina a essência cultural dos baianos.

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A paz do Gandhy ainda ecoa na avenida

O Gandhy é um capítulo a parte no Carnaval. No domingo à noite, no Campo Grande, o tapete branco do afoxé escondeu o asfalto e realçou a nossa tradição com banho de pipoca. A paz reinou ao som do ijexá.

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Reciclagem: a solidariedade de quem brinca

As milhares de latinhas de cerveja descartadas pelos foliões têm um fim garantido: a reciclagem. O lance positivo é a conscientização de quem curte, colaborando com os catadores, dando a lata em mãos.

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Frevo A Praça anima o Campo Grande

Cantei no Campo Grande com o parceiro Tom da Bahia (da dupla Tom e Dito) o frevo A Praça, canção também assinada pelo poeta Antonio Lins, presidente da Fundação Gregório de Mattos.

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Foto de CÉSAR RASEC - Carnaval 2010 - Salvador-Bahia

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QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Levanta e sacode as cinzas

para o ano que vem

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texto de LUIZ CALDAS

(reproduzido de A Tarde de 17 de fevereiro de 2010)

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Chego nesta quarta-feira de cinzas com o desejo utópico de rasgar a máscara que veste o apartheid da alegria que se estabeleceu no Carnaval de Salvador a partir do momento em que o lado lúdico se fez lucro. Ações neste sentido foram lançadas pela Prefeitura, com o Estatuto do Carnaval, e pela Secretaria de Cultura do Governo baiano, com o fortalecimento dos trios para o folião pipoca e o incentivo à cultura plural que a festa traz em si.

Tudo é válido quando se propõe a dar novamente ao povo o Carnaval que sempre lhe pertenceu. A festa tem condições de contemplar os dois interesses (histórico e econômico), não podendo, jamais, ficar refém do poder da grana que alimenta vergonhosamente o apartheid da alegria que aqui está estabelecido.

Ainda nas cinzas que voam ao sabor do vento desta quarta-feira, vi os reclames do amigo Carlinhos Brown, que sentiu na pele o que é ficar no final da fila e desfilar de madrugada para poucos foliões. Imaginemos a cena com um artista que não tem o apoio da mídia. Aí o fim da fila vira de fato o fim do poço. Brown deu até sorte, pois tocou no circuito Barra, hoje o predileto. Se fosse no circuito do Campo Grande a situação seria mais crítica.

Não passou despercebido por mim o trabalho de Aloísio Menezes, que vem conseguindo se posicionar bem na festa. Voz, repertório, qualidade musical e talento não lhe faltam. Quem também mostrou talento foi Juliana Ribeiro, jovem guerreira que desponta na cena do samba.

Sobre os 25 anos da Axé Music, só um lembrete aos desinformados. Quem pensa que a Axé Music é fruto do samba-reggae está totalmente equivocado e quer impor uma falsa história. Nos meus primeiros discos, antes de o samba-reggae ser massificado, gravei as canções Zorra, Salve o Negro Nagô e Minha Princesa. Neguinho do Samba não poderia deixar de fazer parte desta democracia. Está tudo datado e documentado em discos e em impressos.

Fechando, proponho que nos próximos dias, após uma sacudida nas cinzas decantadas nas lembranças de cada um, os atores sociais envolvidos diretamente na festa já podem traçar, em conjunto ou não, um panorama do que aconteceu de positivo e negativo neste ano. É o mínimo que se pode fazer com antecedência para evitar distorções futuras.

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Campanha contra o xixi na rua

Nota zero para a turma que urina na rua. Unidas, as cervejarias que investem na festa deveriam pensar numa campanha educativa, algo como: quem gosta de cerveja não suja a rua com xixi.

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Hino americano na levada do samba-reggae

Ainda repercute a homenagem que prestei a Neguinho do Samba, Jimi Hendrix, Michael Jackson e Barack Obama. O hino americano em solo de guitarra ganhou a levada do samba-reggae.

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A muvuca acabou e já deixa saudade

Acabou! Acabou!… Já estou com saudade da muvuca. Agradeço a todos que acompanharam o meu olhar crítico. Foi uma honra escrever para os milhares de leitores de A TARDE.

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Foto de CÉSAR RASEC - Carnaval 2010 - Salvador-Bahia

MAIS OPINIÕES SOBRE A FOLIA BAIANA

20/02/2010

Veja aqui mais quatro artigos sobre o Carnaval baiano publicados no jornal A Tarde, três deles nas páginas de Opinião.

Recomendo outros cinco textos sobre o mesmo tema que estão em post anterior do Jeito Baiano:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/15/opinioes-sobre-o-carnaval-baiano/

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Imperdíveis também são os textos de zédejesusbarrêto sobre a folia na Cidade da Bahia, contidos nestes dois posts:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/17/fim-de-festa-cinzas-e-carnavalodromo/

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/10/o-carnaval-de-rua-da-bahia/

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E mais o excelente manifesto de Roberto Albergaria em defesa da presença dos jegues na Mudança do Garcia:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/16/a-triste-vitoria-dos-jeguicidas/

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UMA CIDADE PARA

DOIS CARNAVAIS

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texto de DIÓGENES MOURA*

(publicado originalmente no Caderno 2+, de A Tarde, 20.2.2010)

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Na cidade de lá, rainhas, musas e reis cantam e derramam os seus desejos sobre seus fiéis seguidores que, impávidos, transpiram por dentro das suas caras vestes sintéticas, como se o Carnaval unisse o mundo num estado de delírio salvador apenas por sete dias.

Na cidade de cá, famílias inteiras adormecem e acordam nas ruas, também durante os sete dias, para viver nesse mesmo Carnaval a experiência de suas próprias existências.

Os da cidade de lá serão protegidos por cordas e cordeiros. Os da cidade de cá suarão sobre o sol a pino como se fizessem parte de outra civilização.

As duas cidades existem em uma, Salvador. Divididas por um fio navalhado pela ganância, onde os “mais fortes” buscam a vitória com as armas da superficialidade.

Na cidade de cá, a voz da ancestralidade olha e pensa: com quantos carnavais se apaga uma memória?

Do alto dos trios elétricos, os que vivem na cidade de lá – rainhas, musas e reis – não veem quem está na cidade de cá, estendidos sobre o chão: famílias inteiras que vêm dos subúrbios e passam a morar sob pequenas tendas cobertas com pedaços de plásticos pretos ou restos de banners com anúncios fragmentados de um novo e enorme edifício que será erguido bem longe deles, os da cidade de cá, que agora estão entre panelas amassadas, recipientes de plástico e tudo o que for possível cobrir alguma coisa parecida com o que os da cidade de lá chamam de “minha casa”.

O Carnaval de Salvador realmente começa quando essas famílias se assentam no meio das ruas, nas esquinas, em qualquer pedaço de calçada para vender o que for possível para cada um deles. Dormem e acordam ao som do que poderia ser música-tema de suas próprias existências. Ainda capazes de sorrir para o mundo, são rápidos em levantar-se e remexer da cabeça aos pés ao ouvir a canção que os manda descer devagarzinho até o mesmo chão onde passarão quase oito dias sob sol e chuva, para ganhar o que talvez não consigam lucrar durante todo o ano.

Na cidade de lá, rainhas e musas afirmam nas entrevistas que estão “abrindo” o Carnaval baiano. Em nenhuma outra cidade do mundo, abre-se tanto uma única celebração ao mesmo tempo.

Na cidade de cá, a população espera em frente ao mar pelos coletes de identificação para que possam, assim, tomar conta dos que uniformizados com abadás, ou melhor, com horrendas camisetas sintéticas, possam fazer parte da turma de foliões que brincam protegidos por cordas e seguranças.

Sim, eles, os cordeiros e os seguranças que durante o Carnaval esquecem as suas origens, mudam de lado e expulsam impiedosamente os que fazem parte da cidade de cá.

Na cidade de lá, a cantora loira que também deve ser “musa” sugere na letra do seu hino de trabalho Máscaras:

Levanta, sacode, balança, não pode parar/ Se lança, se joga na dança, se deixa levar”.

Tem razão: sem parar e sem pensar é muito mais fácil segui-la.

Na cidade de cá, os cantores dos blocos afros – que surgiram na década de 1970, a partir da ação dos afoxés inseridos no Carnaval baiano desde a década de 1930 – clamam por memória, igualdade e respeito.

Nessa mesma cidade, os Filhos de Ghandy reclamam que três “poderosos” blocos de trio da cidade de lá se uniram para atrapalhar o seu desfile no meio da tarde de terça-feira. Se for real, será a audácia perversa do capitalismo tentando silenciar a voz da ancestralidade:

Vou te comer! Vou te comer! Vou te comer!

Se o Carnaval da cidade de lá privatizar ainda mais o Carnaval das duas cidades, teremos então que comprar um lugar ao sol. E quanto custará um lugar ao sol na maior festa popular do mundo?

Quando o Carnaval começou a crescer a partir da segunda metade da década de 1980 e tomar conta do que então era uma única cidade, Salvador, e o delírio e a violência começaram a se aproximar da, digamos, elite, propondo um diálogo entre os da cidade de lá e os da cidade de cá (os pretos e pobres), imediatamente eles, os da cidade de lá, se organizaram e para se proteger: criaram os camarotes, hoje com seus cines-namoro, suas cartomantes, seus kits-presentes, seus lounges, seus mágicos.

Nunca mais as duas cidades se olhariam nos olhos. No meio do Carnaval da cidade de cá, na Mudança do Garcia, um personagem sem sexo veste-se igual ao personagem que está dentro de uma fotografia de Pierre Verger, feita num dia de folia no início dos anos de 1970, na porta da Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Leva nas mãos uma reprodução da fotografia original e pergunta, em vermelho:

Com quantos carnavais se apaga uma memória?”.

Um homem que passa vestindo uma sunga azul responde:

Basta uma rola para apagar qualquer memória!”.

Simples assim, na língua do povo, o Carnaval.

Alguns passos adiante, entre um grupo de pagode e outro de samba, Michael Jackson tenta cantar Billy Jeans ao lado de uma placa amarela que repete a ira dos evangélicos, atualmente maior que a culpa dos católicos:

O salário do pecador é o inferno”.

Travecas como epígrafes suam entre os jegues e as grandes bolas infláveis que os patrocinadores “enfiaram” no meio de tudo.

Para entrar no Campo Grande, os da cidade de cá que estavam na Mudança do Garcia tiveram que esperar por uma hora sob um sol tanzânico, até que um trio dos da cidade de lá passasse.

Na cidade de cá […] a Praça Castro Alves, hoje desmemorizada e repleta de cadeiras e mesas de plástico alaranjadas e onde o único alento é a Varanda Glauber.

[…] os habitantes da cidade de cá, os que verdadeiramente guardam o segredo de tudo. Apenas eles serão capazes de nos conduzir a uma reflexão shakespeariana sobre o passado, o presente e o futuro da maior festa popular do mundo: sai do chão ou deixa sangrar?

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*Diógenes Moura é escritor, jornalista e curador de Fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo

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A POLÍTICA INAUGURADA

PELO BLOCO AFRO ILÊ AIYÊ

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texto de ARMANDO ALMEIDA*

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É significativa a população que passa a assumir sua negritude a partir do Ilê (1975), que abandona modelos eurocêntricos em nome de uma estética que valoriza origens africanas.

Embora o Ilê seja reconhecidamente um grande marco, inaugurador de uma nova atitude da população negromestiça da Bahia frente ao racismo, ele é comumente ignorado enquanto tal quando se dimensiona politicamente a militância anti-racista contemporânea. Em geral, esta referência é o Movimento Negro Unificado – MNU (1978).

É de se supor que isso seja conseqüência da compreensão da prática política que predomina no senso comum: relega-se a negociação que se desenrola fora do raio delimitado institucionalmente para ela.

A questão racial requer a construção de uma nova sensibilidade, capaz de alterar hábitos e valores impregnados desde a escravidão.

A atitude do Ilê exige uma compreensão mais ampla do fazer político, que vá além dos canais oficiais de negociação política e do âmbito de suas tradicionais instituições. Ela é produto do alargamento do campo de visão da ação política que vem lá da virada dos anos 60, marcada por uma contracultura que incorpora novos atores sociais. Grande diferencial da política na contemporaneidade.

O racismo não está circunscrito a classes, não está apenas no outro, está institucionalizado nas relações cotidianas, inclusive nas do negromestiço – para quem, aliás, o Ilê mais se reporta.

A ação inaugurada pelo Ilê transita fundamentalmente no campo cultural, no campo do simbólico. Ela interfere transformando sentimentos negativos quanto a traços de origem negra, em algo positivo e mobilizador, base para uma nova inserção social do negromestiço brasileiro. O Ilê opera esta mudança de imagem e visibilidade através de uma “estética afirmativa”. Faz revolução fazendo festa.

O orgulho frente às heranças negroafricanas, que distingue a atitude contemporânea de grande parcela desta população, está sutilmente desconstruindo conceitos fundadores de nossas relações sociais, alterando relações de poder pela produção de outros sentidos estéticos.

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*Armando AlmeidaAssessor especial do ministro da Cultura e doutorando em Cultura e Sociedade (Universidade Federal da Bahia)

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MOMO, O ALCAIDE

E O MINISTÉRIO PÚBLICO

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texto de PAULO MIGUEZ*

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Em qualquer lugar do mundo, as comemorações de um evento como os 60 anos do Trio Elétrico mereceriam um tratamento à altura da contribuição que a genial criação de Dodô e Osmar produziu para cultura baiana. Menos aqui, na cidade que viu o Trio nascer.

A rigor, contudo, não há nada de estranho no fato de não termos tido uma programação que, ao longo do ano e durante a folia, celebrasse de múltiplas formas o aniversário do Trio Elétrico. Claro, como poderia ser diferente se a Prefeitura de Salvador, a quem cabe a obrigação de cuidar da festa, insiste em desconhecer que o Carnaval é uma expressão do patrimônio cultural e prefere continuar a tratá-lo apenas como um grande negócio?

O que causa estranheza mesmo é que o Ministério Público, instituição sempre atenta, por exemplo, às agressões ao patrimônio ambiental, não tenha se dado conta que, ao agir irresponsavelmente em relação ao Carnaval, o governo municipal descumpre descaradamente o que estabelece a Constituição Federal quanto às obrigações do poder público relativas ao patrimônio cultural.

Não tenho dúvidas, por exemplo, que uma questão como a ordem dos desfiles nos circuitos da festa, que deveria ter como critério organizador a diversidade das manifestações carnavalescas e não o interesse dos grupos que dominam o negócio da festa, possa ser objeto de uma ação de improbidade administrativa.

Nossa sorte é que o Carnaval, historicamente, tem sabido superar modelos e modismos que pensam ser mais e maiores que ele.

Bons exemplos da rebeldia carnavalesca são, na Bahia, o próprio surgimento do Trio Elétrico, que sessenta anos atrás destroçou o modelo de Carnaval europeizado que então dominava a folia, ou a emergência dos Blocos Afro, que na metade dos anos 1970 renovaram a festa e a cultura baiana no seu conjunto, e no Rio de Janeiro, o ressurgimento, nos últimos anos, dos blocos de rua que, às centenas, se oferecem como alternativa ao enclausuramento midiático das Escolas de Samba.

Mas sorte grande mesmo é que Momo é eterno e alcaides, felizmente, são passageiros.

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*Paulo MiguezProfessor da Universidade Federal da Bahia

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UMA RARA SERPENTINA

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texto de WALTER QUEIROZ JR.*

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Maria colombina foi para o carnaval desejando de todo o coração uma experiência de ternura e poesia em meio a uma festa cada vez mais vazia de afeto… como os arlequins.

No sábado, abriu as janelas em busca de mascarados mas viu apenas gente sem fantasia caminhando para os circuitos da folia. Desceu e foi com eles esperando compartilhar sorrisos e canções.

Para o seu desalento, entretanto só ouviu músicas medíocres, conversas banais, a estupidez zombando da gentileza e um crescente e ensurdecedor barulho agredindo, sem parar, os seus ouvidos.

Percebeu que a sua cidade não se enfeita mais e espantada constatou que a propaganda oficial (burlando o código de trânsito?) são estandartes colocados às margens das grandes avenidas roubando o olhar dos motoristas e dando um péssimo exemplo de anticidadania.

Com vontade de fazer xixi deparou-se com escassos e fétidos banheiros públicos, um flagrante desrespeito, sobretudo às mulheres.

Em meio a multidão, foi sendo imprensada na passagem dos blocos e lutou para não entrar em pânico.

Sua angústia chegou ao auge quando se viu assediada e invadida por beijos de bêbados e tremeu de indignação.

Percebeu, na própria carne, a lamentável perversão da festa que um dia foi de todos e hoje é dominada e comandada por uma elite de negociantes que desdenha do convívio democrático com suas cordas e seus camarotes.

Atingida, por tabela, por um novo gás da polícia, chorando começava a retirar-se quando encontra com um lírico e comovente bloco de palhaços tocando e cantando coisas lindas. Ela adere e pensa:

Nem tudo está perdido!

De repente, uma rara serpentina pousa em seu ombro e ao voltar-se para o autor do inesperado feito, deparou-se com um sorriso encantador. Começava então, outra vez, a mais majestosa das aventuras:

Um grande amor no carnaval!

Enquanto isso a multidão de cidadãos-robôs se embriagava adorando estrelas fabricadas pela grana e repetindo grotescos refrãos que contaminam irresponsavelmente a inocência de nossas crianças.

Ao inferno de vossas precárias consciências, lobos maus!

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*Walter Queiroz Jr.Cantor, compositor, fundador do Bloco do JACU, membro da Confraria dos Saberes

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FIM DE FESTA, CINZAS E CARNAVALÓDROMO

17/02/2010

textos de zédejesusbarrêto

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Sal Picos da Folia

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Da folia, restos, salpicos, sal e picos:

Captei do professor Jorge Portugal, em entrevista na TV, domingo de Carnaval, diante da diversidade estética:

A Bahia é uma encruzilhada étnica’.

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Temos o axé, o pagode, o samba, a chula, o frevo, a marchinha, a salsa, o merengue, o samba-reggae, o reggae, o ijexá, o arrocha, o rock, o sacro, o clássico …

Tudo se ouve, tudo se vê, tudo se mistura. Isso é a Bahia. Assim é o nosso carnaval.

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A grande mídia e os marqueteiros precisam mostrar isso com clareza, sem privilégios.

O que temos de melhor é a cultura, o fazer de nosso povo.

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Axé para a programação da TVE, a cobertura da folia e, sobretudo, o resgate histórico dos 60 anos de trio; o fazer criativo, ano a ano, desse carnaval diverso, único.

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Tem repórter de tevê que se acha mais brilhosa que as estrelas. Menos, menos…

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Foi gostoso e gratificante ver o samba de roda, a chula de terreiro do Recôncavo no pé e no requebro das cadeiras pelas ruas da velha cidade.

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Emoções à flor da pele:

As homenagens das meninas da Banda Didá ao mestre neguinho do Samba, que Deus o tenha no reino da Vossa Glória! Simples e bonito.

E a declaração de respeito e amor do cantor e compositor Durval Lélis, de cima do trio, ao mestre Gilberto Gil, em lágrimas no camarote. O negão merece.

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Valeu o pique do Psirico, o ‘rebolation’ do Parangolé, mas o melhor suingue de banda de pagode continua sendo o do Harmonia do Samba. Encorpado, cheio de sopros, melado de merengue caribenho. Xandy, ex-símbolo sexual, é que tá pocadão.

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Foi ‘massa’ a presença de Moraes Moreira (Novos Baianos) relembrando velhos carnavais, como foi muito bom também rever Luiz Caldas tocando… mas Armandinho é o grande arauto da guitarra baiana, essa maravilhosa invenção de Dodô e Osmar nos anos 1940.

Com ela trieletrizou-se a música baiana que ecoa mundo afora.

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Aqui pra nós…

Os sindicalistas militantes acabaram com a verve histórica da ‘Mudança do Garcia’. O que se viu no tradicional e esperado desfile da segunda-feira foram faixas e cartazes, todos quase iguais, a mesma caligrafia, com reivindicações e palavras de ordem. Nenhuma graça, cadê a criatividade? Nem jegue tem mais. Uma caretice.

Em plena ditadura militar, sob censura, o carlismo em alta… havia irreverência, crítica aos costumes, o couro comia, o humor era ferino, gostoso de ver.

Mas aparelharam a Mudança. Uma pena!

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Tá, ‘Lobo Mau’ pode estimular a pedofilia. E as crianças dançando ‘Todo Enfiado’ ao lado da mamãe? Hum?

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Sobre as nossas ‘divas’:

O melhor de Ivete, no Campo Grande, olhando pro palanque dos políticos: “Ih, hoje tem muita figura pra gente puxar o saco!”

Daniela estava bela com a orquestra sobre o trio, mas os modelitos de roupa sobre o corpo, crendeuspai!

Claudinha Leitte necessita urgente cuidar da afinação. Dói nas oiças, menina.

Margareth tem uma voz bela e poderosa, mas não carece de cantar aos trancos, trupicando na melodia a cada fraseado. Um pouco de ternura, querida, faz bem.

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Já é quarta-feira de cinzas.

Memento homo quia pulvis est et in pulverem reverteris’!

Diz o padre na hora da missa, esfregando a cinza em cruz na testa do desinfeliz, ali prostrado de joelhos, ressaqueado do miserê dos seis dias de furdunço, chamando-o à realidade humana : “lembra-te oh homem, que és pó e ao pó retornarás’!

Começo de quaresma para os católicos praticantes, quarenta dias de resguardo e penitência até a semana-santa, a sexta da paixão de Cristo e o Domingo de Páscoa e ressurreição. Até os terreiros fecham o barraco, em reverência.

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É o começo de ano, pra valer, para os baianos. Acabou-se o carnaval, vamos cair na real.

Ano de Copa do Mundo, na África. Ano de eleições para presidente da República, para governador, senador…

Agenda lotada e quente.

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É hora de tirar a fantasia e começar, já, a desarmar o circo. Desmonte. Urgentemente. Limpar o lixo, aliviar a inhaca das ruas, retirar os ferros e tabiques das avenidas e praças, desfazer os camarotes, recuperar os estragos deixados por todo os circuitos da folia.

Ao trabalho, urgente.

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Vamos limpar os bueiros, as valas, os córregos, capinar as encostas, orientar os moradores de risco… porque as chuvas de março e abril vêm aí, sem aviso prévio, como todos os anos.

…antes que a casa caia!

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O Carnavalódromo:

Um debate à mesa

A cada ano vão se definindo os destinos dos espaços/circuitos do carnaval da cidade. Naturalmente.

O Centro Histórico se consolida como um alternativo das diversidades: folguedos, família, lembranças, reencontros, refresco.

O circuito Osmar (Campo Grande – Praça Castro Alves) é o da diversidade, da espontaneidade, do povão. O espaço dos blocos afro e afoxés, dos carros de som e trios menores, do careta, dos mascarados, dos cordões e batucadas de rua, samba no pé, grupos folclóricos, capoeira, grupos do interior do Estado, manifestações libertárias como os travestidos e a Mudança do Garcia. O imprevisível, a arte popular e a mistura de todas as diferenças. O sem tempo, a liberdade da beleza.

O corredor estreito da Avenida Sete com seus antigos sobrados não suporta o gigantismo e a potência dos super-trios e até inibe ou limita a criação de novas e modernas estruturas de trios mais futuristas. Isso é fato.

Não sei se o circuito Dodô é o futuro. Ou se foi/será apenas uma experiência bem sucedida mas passageira. O carnaval está acabando com a Barra. Isso é fato.

A Barra é, historicamente, um bairro residencial, praieiro e turístico por vocação. Mas, em função do carnaval (e outras manifestações festivas de verão) está perdendo todas as suas características, vem sendo depredado a cada verão. O Farol e o Porto precisam ser preservados. Os moradores da Barra (orla e adjacências), que pagam um IPTU alto, nunca foram consultados sobre esse uso emergencial dos espaços públicos do bairro, um transtorno para a vida da comunidade, para a privacidade dos cidadãos.

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Os grandes blocos e seus trios maravilhosos, que envolvem grandes interesses em parcerias com patrocinadores, canais de tevê, camarotes etc… carecem, há tempo, de um espaço próprio para seu desfile, com toda uma infraestrutura montada para tal. Trata-se de uma indústria de entretenimento, uma ‘fabrica de alegria’.

Isso não significa um retrocesso, mas um avanço. Não significa segregação, ela já existe, escancarada e chocante no circuito Barra-Ondina. Mas um estímulo à diversidade, à criatividade, a novas artes e invenções.

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A criação de um carnavalódromo (estilo sambódromo do Rio) seria uma saída? Por que não a discutimos abertamente com os interessados, os carnavalescos, os donos de trio, de blocos, os patrocinadores, os investidores em camarotes… e mais arquitetos, urbanistas, agentes de turismo, universidades, professores… etc.

O carnaval da Bahia é um assunto importante. Político, urbano, econômico, sócio-antropológico, cultural… É uma vertente da história de nossa gente, sim sinhô.

Nesses tempos de tantos projetos megalomaníacos, pontes, passarelas, intervenções urbanas mirabolantes… não devemos ter medo de discutir o uso do espaço urbano para a nossa maior festa/ manifestação popular, hoje observada e estudada no mundo inteiro.

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Aquele espaço na Boca do Rio, do antigo aeroclube até a ex-sede social do E.C. Bahia é uma boa sugestão para começo de debate, sem pejo, sem ranços.

Um carnavalódromo (ou que outro nome se queira dar) não seria usado apenas nos dias de folia. Seria um equipamento útil também para grandes shows e espetáculos. A cidade ganharia um espaço adequado para grandes eventos. Espaço que funcionaria durante todo o ano, com escolas, oficinas, ginásios para treinamentos e ensaios, museu do carnaval, da música, lojas, cinemas, esportes, piscinas… Uma área diante do mar voltada para atividades náuticas, estudos dos oceanos etc…

Imagino que qualificaria a orla e a cidade, um belo e ambicioso projeto urbano com novas pistas, arborização, uso de energia solar e/ou eólica, preservação das águas, valorização da natureza, integração das comunidades próximas…

A velha e histórica cidade do São Salvador da Bahia agradeceria e sua população mais ainda. O espaço existe e está lá, ocioso, abandonado, sem projetos dignos. Aquela região atlântica ganharia uma valorização estupenda.

Outras vantagens públicas: a organização, o controle, a segurança, a limpeza, menos despesas do poder municipal em reparar os estragos nos espaços urbanos danificados a cada carnaval.

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A pergunta: Um carnavalódromo esvaziaria o carnaval do centro e dos bairros mais ainda do que agora… ou estimularia a criação de novos carnavais, de novas manifestações populares? Não vamos ter medo desse debate. As intervenções urbanas devem ser discutidas e não impostas. É hora de ousar.

O que tem travado essa discussão é o fator político-eleitoreiro. Governadores, prefeitos e candidatos em geral não querem ‘queimar o filme’ propondo mudanças em time que eles acham que ‘está ganhando’. Esse modelito anos 1980 os satisfaz.

Mas estamos em 2010. Uma nova era, pois não?

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A cada carnaval, diante das constatações do modelo superado e das novas exigências do amanhã, prometem discutir a questão do espaço público e das atrações do carnaval. Mas, passa ano e sai ano e nada acontece.

Não é hora de se acoplar um novo projeto de carnaval a essas transformações urbanas previstas para a Copa 2014? A tal parceria público/privada com a palavra.

Alô prefeito? Alô governador? Alô candidatos?

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Deixo para reflexão uns trechos da entrevista do músico, carnavalesco de trio e bloco, e arquiteto Durval Lélis na revista Muito, 14 de fevereiro de 2010, do jornal A Tarde:

Quando se criou o sambódromo, as pessoas diziam que o carnaval de rua ia acabar, e hoje ele está fortíssimo no Rio. É que se dividiu as coisas que atrapalhavam. A rua ficou liberada para os batuqueiros, os homens vestidos de mulher, os pierrots e as colombinas. Isso é democracia. Essa essência do carnaval todo o Brasil tem. Quando a gente vem com as nossas máquinas, a princípio elas enriqueceram a festa, mas chega uma hora que a gente não pode mais evoluir porque as ruas estão limitadas e tem as regras todas.’

O bloco e o camarote já tomaram todos os espaços, a gente não pode produzir outras coisas. Pra produzir tem de ter arquitetura, e para ter arquitetura tem que ter espaço físico’.

Se nosso carnaval já é o maior do mundo, e tende a crescer, de que forma aumentaríamos sem criar transtornos para o poder público? Dando responsabilidade aos interessados, de forma democrática’.

Como vou desfilar com uma alegoria na rua, se tem uma lei que proíbe? Como vou fazer uma águia de 10 metros de altura se tem um fio ali em cima? Se eu quiser investir numa superprodução hollywoodiana não dá para ser na rua. É isso que eu tento explicar há mais de 15 anos e as pessoas ainda não entenderam.’

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A proposta está aí, à mesa, para o debate democrático que a cidade exige.

Quem assume, quem tem medo?

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zédejesusbarrêto é jornalista, escrivinhador e trabalhou durante oito anos na coordenação de comunicação do carnaval da cidade (17fev/2010).

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OPINIÕES SOBRE O CARNAVAL BAIANO

15/02/2010
Ilustração de CAU GOMEZ

Seguem artigos dedicados à festa momesca, especialmente a da Cidade da Bahia, que foram publicados nos últimos dias na página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador.

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ENSAIO SOBRE O TRIO ELÉTRICO

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texto de PAULO COSTA LIMA*

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Pára o carro Olegário!! Não tá vendo que tá andando de banda? Mas Seu Osmar, o carro já quebrou há muito tempo, é o povo que está empurrando!

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O ensaio, como tradição literária, é esforço interpretativo. Mas o que dizer do trio? Tanta espetacularidade requer justificativa? Gostaria de fazer coincidir forma e conteúdo: um breve discurso com três pontas e uma síntese.

A primeira ponta é o frevo. Há uma ligação de umbigo entre trio elétrico e frevo. Dodô e Osmar tiveram a idéia de colocar a tal fubica na rua em 1951. Poucos dias antes, passara por Salvador o Clube Carnavalesco Vassourinhas de Recife, em direção ao Rio.

O frevo traz marcas afro-brasileiras indeléveis. Não tem nada de africano na melodia ou na harmonia, poderia ser tocado até como minueto! Mas os ritmos!!!

As idéias rítmicas impingem aos compassos da Europa acentos e tensões que são tipicamente brasileiros. Imprescindível para o espetáculo. Imagine se funcionaria com valsa? E a malandragem?

Mas aí surge um fino detalhe. E essa é a segunda ponta do argumento.

O carnaval que predominava nas ruas de Salvador até então era o do corso e dos préstitos — o desfile das beldades de elite com fantasias e acenos do alto de carros especialmente preparados para a ocasião. Consta que até ópera italiana rolou no Carnaval. O povo ficava na Barroquinha e na Baixa dos Sapateiros em cordões e afoxés.

Portanto, a presença da fubica, tocando frevo, era uma subversão enorme. E o cerne da subversão era que o frevo colocava como centro das atenções o próprio povo dançando. O corpo que todos têm.

Quem já assistiu à passagem de um trio elétrico trazendo em torno de si todo o repertório humano de um bairro popular saberá do que estou falando. Encantamento total na junção entre música e dança.

O calor e a euforia são tão grandes que alguns tiram a camisa pra rodar por cima da cabeça. Tem casais abraçados, crianças montadas no pescoço dos pais, gente de meia idade, mulheres em grupos, vendedores ambulantes vendendo e dançando, disputa pra ver quem faz a melhor pirueta, e aquele empurrão no meio do bolo… (era assim)

Os ritmos oferecem situações de equilíbrio e desequilíbrio, convocam o gingado — ‘só não vai quem já morreu’.

Portanto, naquela virada de 1951, algo mudava na Bahia do governador Octávio Mangabeira, figura ímpar de nossa vida política. Um ‘momento histórico’ proporcionado pela bolha democrática entre o Estado Novo e a ditadura de 64?

No modelo que daí surge, o espaço público vai ficar mais público. E essa energia vai favorecer uma qualidade musical diferenciada, embalada pelo virtuosismo do frevo, e pela “livre” aventura de botar uma música na boca do povo. Caetano, Tuzé, Moraes, Armandinho… E ecos mais recentes em Brown, Gerônimo e Lelis.

A terceira ponta relembra Manoel José de Carvalho. Para ele, as dinâmicas de rua são construções sociais com enorme peso histórico. Salvador teve 300 anos anteriores de cortejo de rua — com procissões e festas de paróquia.

O aparecimento do trio acaba mobilizando essa memória grupal histórica pela topografia da cidade. O trio se encaixa na dinâmica ancestral construída em torno do andor das procissões. É como se tudo estivesse pronto aguardando sua chegada.

Nos anos seguintes vai ocorrer um processo espetacular (e muito original) de design para a festa, da carroceria de um caminhão até os nossos fulgurantes monstrengos de hoje — grandes palcos ambulantes.

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Síntese: Hoje estamos em outro planeta: cordas, cachês e abadás. E mais: camarotes e celebridades. Ganhou-se em gestão, profissionalização e expansão. Perdemos em participação, diversidade e qualidade musical.

As músicas que ganham a mídia não ficam mais no ouvido durante anos, estão congeladas em sua funcionalidade do perímetro das cordas (raras exceções).

Será que o impulso democrático dos últimos anos, essa bolha que esperamos definitiva, vai ter a força e o discernimento para fazer brotar um outro modelo, com novos (e velhos) valores musicais?

Mais do que questão, uma demanda: multiplicar os ganhos (socializando-os) e potencializar a qualidade/diversidade cultural.

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*Paulo Costa Lima – Compositor, pesquisador-CNPq, professor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Letras da Bahia

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NOVOS REIS, NOVO CARNAVAL

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texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

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No ano de 2008, meu amigo Clarindo Silva foi escolhido Rei Momo. A celeuma foi grande. Um rei momo magro, onde já se viu? Em 2009, o escolhido foi Gerônimo que, apesar de gordinho, nada tem do modelito Ferreirinha: indolente, beberrão e comilão.

Este ano, o novo rei é Pepeu Gomes, um elétrico guitarrista. Estas escolhas marcam a ruptura do carnaval baiano com Baco e suas bacanais. Os novos reis devem ser ativos, produtivos e performáticos.

Esta mudança corresponde às mudanças que, ano a ano, viraram o carnaval de ponta a cabeça. Os carnavais de minha infância eram realmente janelas de alegria e de descontração que se abriam em um quotidiano regulado por uma moralidade religiosa e por todos os freios do conservadorismo.

Imaginem que naquele tempo era impensável um homem ou menino usar roupas coloridas, camisa estampada ou qualquer peça cor de rosa. Certamente ele seria agredido nas ruas com adjetivos nada gentis: fresco, florzinha, Florípedes.

No carnaval valia tudo, tudo era fantasia, com máscara ou sem máscara. Valia até sair travestido de mulher, e mesmo de “nigrinha”.

A liberação dos costumes permitiu que, o ano inteiro, as meninas saíssem da janela e fossem a luta no entre-e-sai e no esfrega-esfrega.

Até na música o carnaval era a salvação. O ano todo ouvia-se Cauby cantando algum drama comovente, tal como “ Conceição” ou com “Tarde fria, sinto frio na alma”. Só no carnaval podia-se ouvir o “Índio quer apito”, a “lambretinha” e a “mulata bossa nova”.

Não leiam mais Bakhtin, o carnaval não é mais a inversão da ordem. O carnaval ganhou e na Bahia é a ordem o ano inteiro! Longe de sumir no quotidiano, o carnaval é a cerimônia frenética e em tempo integral para a celebração da nova ordem. O Olodum tem razão: “Olodum tá hippie, tá pop, tá reggae, tá rock. Olodum pirou de vez!”.

No nosso novo carnaval, Eros expulsou Baco. Em vez de contestar a quaresma católica e afrontar a quarta-feira de cinzas (quase ninguém se lembra dela), o carnaval é o espaço para se vivenciar a saúde, a vitalidade, o prazer do corpo, o que os antigos gregos chamavam de Erótica.

Nesta nova ordem, os mais velhos são rigorosamente excluídos; ou vão para Pelourinho, ou chegam até um protegido camarote, ou ficam em casa assistindo pela TVE. Para nós, o carnaval é o voyeurismo; o prazer de ver os jovens gozarem!

Nesse novo carnaval, o rei Momo deve representar esta vitalidade erótica. Que Exu proteja Pepeu para que ele represente dignamente o seu papel!

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*Ubiratan Castro de Araújo – historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

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UM CARNAVAL SEM CARNAVAL?

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Cena número um: no estúdio da TVE, no Campo Grande, quinta-feira à noite, nove horas, eu e o Prof. Jaime Sodré já nos queixávamos dos não-acontecimentos da primeira noite de carnaval, quando à nossa esquerda, não mais que de repente, irrompeu aquele caminhão de luz, trazendo a dinastia Macedo, Armandinho à frente, e daí em diante foi contada a história do carnaval, através de todas as músicas que fizeram seu sucesso e glória. Pensei: “meu carnaval já está pago”.

Cena número dois: sábado, circuito Barra-Ondina. Os olhos já cansados de verem os mesmos blocos de trio – mudando apenas o cantor – já lá pras duas da manhã, se arregalaram em desmedida alegria quando despontou Luiz Caldas – o verdadeiro inventor dessa nova etapa do nosso carnaval. Vinha comandando o Trio Tapajós, como se um filme tivesse voltado trinta anos na minha memória. De repente, de novo, vejo um senhor de boné levantar-se com alguma dificuldade do andar superior do trio e acenar para mim: Orlando Campos, o homem que modernizou o “caminhão da alegria” e assegurou a festa do povo baiano, quando a festa ainda era de graça. Pensei: “agora já estou devendo ao carnaval”.

Cena número três: já pelas três da manhã, quando tudo parecia encerrado, um mar de gente negra, pobre, misturada – uma massa compacta em bloco que eu ainda não tinha visto até ali, invadiu o circuito da Barra vigiada fortemente pela Polícia e comandada pelo novo “Zumbi do carnaval”, Léo Santana. Parecia um quilombo de alegria vivendo sua apoteose no pedaço da classe média baiana. O Rebolation tomou conta de tudo e arrastou turistas, malandros, patricinhas, periguetes e avulsos, misturando arrocha e pagode numa música só.

Claro que vi também Ivete, Bell Marques, Timbalada, Daniela, e até recebi uma declaração de amor pública de minha ex-aluna Claudinha Leitte.

No dia seguinte soube de uma proposta que deseja privatizar o carnaval, em lugar fechado, com acesso apenas para a classe média alta e os turistas endinheirados. Mais parece uma volta aos bailes de salão, retomando a época do Baiano de Tênis e do Yatch.

Pensei: “vai ser uma festa sem Armandinho, Luiz, Orlando, Ilê, sem rebolation… e sem carnaval!

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*Jorge Portugal – Educador, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO, da TV Brasil

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O CARNAVAL DA DIVERSIDADE

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texto de CLAUDIA CORREIA*

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A Secretaria Municipal da Reparação (Semur-Salvador) lançou a quinta edição do Observatório da Discriminação Racial, em parceria com 30 órgãos e entidades. A intenção é distribuir material, observar e registrar casos de violência contra mulheres, negros, crianças e adolescentes e homossexuais.

Este ano o Observatório amplia sua ação incluindo atos de homofobia, devido às reivindicações do movimento que representa gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais. Uma conquista importante.

A presença de observadores sociais em postos de saúde, postos policiais, no carnaval de bairros e em hospitais de grande porte é uma novidade este ano. Além do posto central da Ladeira de São Bento, serão instalados mais três na Barra, em Ondina e no Campo Grande. O Disque 156 também receberá denúncias.

A ideia do Observatório foi inspirada numa ação do Movimento Negro para detectar situações de racismo durante o carnaval e subsidiar suas reivindicações junto ao poder público. No primeiro ano, foram registradas 128 denúncias de discriminação racial e de violência contra mulheres. Em 2007 o Observatório passou a identificar violações dos direitos da mulher, em parceria com a Superintendência de Políticas para Mulheres da Prefeitura.

Somos uma cidade plural, onde a diversidade enriquece a nossa convivência com os diferentes modos de vida. A intolerância e a violência ameaçam a democracia, violam direitos conquistados.

Os objetivos do Observatório Racial devem ser permanentes, seus resultados devem subsidiar programas de políticas públicas intersetoriais, o estatuto municipal da igualdade racial precisa ser criado, ações judiciais em defesa das vítimas de discriminação devem ser agilizadas, o projeto de lei que criminaliza a homofobia deve ser sancionado.

Assim, não só durante o carnaval, teremos uma política pública de reparação, uma cidade que se orgulha e respeita a diversidade. O Observatório é um passo importante neste processo.

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*Claudia Correia – Assistente social, jornalista, mestre em Planejamento Urbano e Regional

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SOBRE A FESTA

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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A festa é um fenômeno universal. Está presente em todas as épocas, sociedades, povos e culturas. É por isso mesmo que qualquer manual de antropologia sempre traz verbetes sobre cerimônias e rituais. Sobre a relação entre sacrifícios, oferendas e festas. Sobre a festa como parte do rito. Sobre os aspectos não-rituais e não-religiosos da festa. Sobre música e dança.

A festa é um hiato. É uma saída para fora da história. É uma quebra no encadeamento cotidiano das coisas do mundo. É uma suspensão delirante da rotina. É uma abertura, fenda ou brecha na sequência, na linearidade, no fio lógico da vida individual ou coletiva. São muitas, enfim, as definições, as interpretações que os estudiosos nos oferecem do fenômeno trans-histórico e transcultural da festa. Não raro, fazendo-a derivar do sagrado: a origem da festa estaria na religião, em tempos onde não havia uma separação entre festas sagradas e festas profanas.

Mas não vamos enveredar pelo mundo labiríntico das interpretações da festa. Fiquemos em plano mais simples, mais pedestre. O fato é que não há humanidade sem festa. Sem música, dança e canto. O amor da humanidade pelos floreios da voz e os meneios do corpo data de milênios. Sempre esteve presente em todos os cantos e recantos do mundo. Em todas as partes do planeta. Desse amor, nenhum povo ou comunidade escapou, escapa ou deseja escapar.

Bom exemplo disso são os índios que habitavam os trópicos atualmente brasileiros. Quando os europeus começaram a desembarcar aqui, às primeiras luzes do século 16, ficaram impressionados. Os tupis que circulavam pelos litorais brasílicos tinham, basicamente, duas preocupações: a guerra e a festa. Cabia às cunhas produzir o beiju de cada dia da aldeia. Porque os homens, quando não estavam trocando flechas e tacapadas, promoviam bailes. Com uma diferença fundamental. A guerra era empresa exclusivamente masculina. A festa, não. A festa era de todos.

Pero Vaz de Caminha, aliás, conta um episódio maravilhoso, ocorrido num domingo de abril de 1500, ao sol de Porto Seguro. Um grupo de índios dançava perto do rio, “sem se tomarem pelas mãos”. Diogo Dias meteu-se no meio deles e começou a tocar e dançar, fazendo com que todos se dessem as mãos. E assim se foi formando uma roda de dança, uma festa de mãos dadas, ao som da gaita medieval que ele tocava. Foi a dança do encontro. Neste bom sentido, podemos dizer que sim: o Brasil nasceu dançando.

Os africanos dançavam – e muito – na África Negra. E continuaram dançando do lado de cá do Atlântico Sul. De seus ritmos e coreografias nasceu o samba de roda do Recôncavo, que, por sucessivas estilizações, daria no samba raiado do Rio de Janeiro, uma das forças fundamentais da festa brasileira. Com os nagôs, vieram os orixás, descendo do orum para a Terra. Em dia de festa. É para isso que brilham os terreiros. Não há religião sem festa. Sem festa, os deuses não dançam entre os mortais. E os negros contribuíram ainda, aqui, para a articulação entre festa sagrada e profana. Como na festa do Senhor do Bonfim. No reinado de Iemanjá, na festa do Ano Novo, que se irradiou do Rio para todo o litoral do país. No Círio de Nazaré, o “carnaval devoto”, em torno da Virgem, em Belém do Pará.

Nossas grandes festas públicas, rituais coletivos de teatralização da sociedade, nasceram com essa mescla de sagrado e profano. Eram as festas barrocas dos séculos 17 e 18, que conheceram seu esplendor nas cidades do ouro, em Minas Gerais. Procissões de som e brilho, com carros alegóricos, alas disso e daquilo, ruas decoradas, que forneceram o modelo da grande festa pública brasileira. Especialmente, o modelo do carnaval, esplendorosa procissão neobarroca, como no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Mas nem só de grandes ritos coletivos vive a humanidade. Vive, também, de festas corriqueiras, de bailes “funks” a quermesses de cidades do interior. De um extremo a outro, estende-se a festa brasileira. Porque a festa é universal, mas tem seu modo de se manifestar em cada coletividade. E o nosso modo tem a ver com a nossa configuração cultural e formação genética. Com o nosso ambiente. Com o retrato que gostaríamos de fazer de nós mesmos. Com o nosso gregarismo. Com nosso corpo – e nossa alma.

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*Antonio Risério – Escritor

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O CARNAVAL DE RUA DA BAHIA

10/02/2010

Ilustração de SIMANCA

 

Um espetáculo de contradições

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texto de zedejesusbarreto

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O carnaval da Bahia sempre escancarou nas ruas de Salvador as nossas mazelas e delícias. As desigualdades e a alegria de nosso povo.

Uma anotação no diário do cientista Charles Darwin, em fevereiro de 1832, de passagem pela Bahia a bordo do famoso Beagle num domingo de carnaval, dá conta de um grupo de negros pintados de branco fazendo fuzarca nas ruas do Pelourinho, sacaneando e macaqueando os ‘patrões’.

Temos notícia das brincadeiras do corso e muito ‘mela-mela’ nos tempos do Império. Segundo estudos do saudoso Waldeloir Rego, ainda no século XIX já aconteciam os préstitos e desfiles de grandes clubes carnavalescos que perduraram até pouco mais da metade do século XX – como Fantoches da Euterpe, Cavaleiros de Bagdad etc…

Os jornais das primeiras décadas do século XX destacavam na cobertura da folia os desfiles na rua Chile, depois também na avenida Sete, e grandes bailes a fantasia nos clubes, enquanto ‘os pretos saracoteavam na Baixa dos Sapateiros’ (em nota de pé de pagina).

Macaqueávamos o Rio de Janeiro, a capital do país. As famílias colocavam suas cadeiras ao longo da avenida para ver os caretas, as fantasias dos endinheirados, a passagem dos ‘clubes carnavalescos’ com Nelson Maleiro e Gandhy à frente, e também o desfile das Escolas de Samba do Tororó, do Garcia, de Amaralina, da Liberdade…

A madrugada era das ‘lança-perfume Rodouro’, pierrôs e colombinas no salão ao som de marchinhas com orquestra ao vivo. Preto não entrava. O carnaval da negrada pobre (hoje chamada de afrodescendentes) era a batucada de rua, os cordões que saíam dos bairros populares, percussão pura, e alguns afoxés vinculados aos terreiros de candomblé.

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Atrás do Trio Elétrico

Só não vai quem já morreu

O carnaval de rua da Bahia se fez diferente a partir do Trio Elétrico, em 1950. Atrás do som eletrizado de Dodô, Osmar e Themístocles (depois Orlando Tapajós) foi a multidão, encantada. O preto e o branco, pobre e rico, grandes e pequenos, sem distinção, na enriquecedora mistura humana, em busca do prazer, fazendo e distribuindo alegria. Afinal, de que vale essa vida?

Nos anos 1950, com o advento do petróleo, do comércio, da Rio-Bahia, da Universidade, uma nova classe média assalariada e mulata fez-se ouvir, ocupando espaço, criando alternativas de vida e de folia, como os clubes populares (Comercial, Palmeiras da Barra, Periperi…) e ganhando as ruas com novas manifestações de brincadeiras de rua no embalo do trio, já com patrocínios da Fratelli Vitta, da cachaça Jacaré, etc…

A mestiçaria dos bairros populares criou os blocos de índio – Apaches, Comanches, Tupys. A brancalha metida tinha medo das flechadas, dos tacapes nas ruas. Como até hoje os poderosos de plantão temem a Mudança do Garcia e tentam amordaçá-la com a força dos cassetetes ou das ideologias militantes…

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Eu sou negão, sou negão e

meu coração é a liberdade

Outra grande virada no carnaval de rua baiano aconteceu na década de 70, definitivo. No embalo da Tropicália, do eco e da ânsia de liberdade dos anos 60, do aproveitamento do turismo como atividade lucrativa, do amadurecimento do movimento negro, ressurgiram os grandes afoxés, os trios tornaram-se grandes palcos de som e luz em movimento e apareceram os blocos afros – Ilê Aiyê e Badauê, os pioneiros. Black is beautiful!

Se os brancos de classe média tinham instituído entidades exclusivas, onde só podia desfilar gente de pele clara, morador de bairro chique – como Os Internacionais, os Corujas… – os negros também podiam, orgulhosos de sua cor, de seus cabelos, de suas origens. E assim criaram suas entidades, com seus tambores, suas histórias ancestrais, sua baianidade, sim sinhô!

E grandes multidões foram tomando, ano a ano, as ruas da cidade. O poder dos trios mostrava-se grandioso e magnético. O carnaval da Bahia exibia sua nova identidade para o país. Suas diferenças, peculiaridades, sua magia.

E logo começaram as rusgas por espaço na avenida: os grandes blocos, endinheirados, com seus trios privatizados, suas cordas, seguranças ameaçando, tentando esmagar os batuqueiros, afro e afoxés com seus alto decibéis e muito empurra-empurra.

A música iluminada de Gerônimo ‘Eu Sou negão’ é o registro do choque racial, cultural, econômico e social escancarado na rua.

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Fricote de bairro pobre

carimba o estilo ‘axé’

O nome ‘axé music’, criado na década de 80 a partir da reação preconceituosa de grupos de jovens roqueiros brancos aos batuques negros que ecoavam pelos becos e quebradas da cidade é bem a cara desse conflito étnico e cultural que Gerônimo cravou com a lucidez de sabido mulato do recôncavo.

O menino Luiz Caldas (recém-saído do Trio Tapajós, do grande Orlando) estourou no verão com uma música de rua parida de misturas rítmicas bem afrobaianas e uma letrinha ousada (parceria com Paulinho Camafeu), baseada numa brincadeira preconceituosa típica dos guetos da cidade, que dizia:

Nêga do cabelo duro/ que não gosta de pentear/ quando passa na Baixa do Tubo/ o negão começa a gritar/ pega ela aí, pega ela aí… pra quê?’ …

O bicho pegou, a galera dos bairros criou uma dança bem sacana para o canto do guitarreiro Luiz e o nome ‘axé music’ veio a calhar, começou a ser usado na grande imprensa e pegou. Foi um sucesso e um marco também. O tal ‘fricote’ foi pro Chacrinha, virou dança nacional, e a ‘axé music’ ganhou espaço, adeptos, cantores, compositores, sucesso. No embalo, a gravadora WR abriu as portas e investiu na sonoridade baiana, a novidade de então na pasmaceira da MPB.

Daí, nos anos seguintes, os músicos dos trios viram estrelas nacionais, os Trios Elétricos tornam-se definitivamente uma referência da arte e da cultura baiana, abrindo um flanco no mercado e alavancando artistas e bandas que até hoje fazem o carnaval da Bahia.

Os trios se aperfeiçoaram, atingiram uma sofisticação tecnológica impar, tornaram-se verdadeiros estúdios em movimento, transformaram-se em enormes máquinas de som, luz, alegria e dinheiro, muito dinheiro. Para alguns. A Avenida Sete ficou estreita para os ‘novos dragões’ que nem cabem, nem chegam mais à Praça Castro Alves. Como o luxo, a sofisticação dos grandes trios, hoje empresas, companhias a serviço de grandes blocos de ricos e turistas também não cabem mais na mistura popular da avenida, da praça do poeta e do povo. A ralé fica espremida a mercê do arrastão das grandes bandas que passam tremelicando os velhos sobrados do centro antigo da cidade.

Assim surgem os camarotes. Para que os abonados possam ver de cima os espetáculos das estrelas nos grandes trios, no conforto, no esbanjamento das regalias a que têm direito, porque têm dinheiro. Os camarotes do circuito Barra-Ondina significam mais um divisor. Como eram os clubes sociais chiques de antigamente. Segregação pura, dirão. Mas o retrato de nossa sociedade. Não?

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No carnaval 2010

o modelito passado

Na virada do século, o carnaval de rua da Bahia globalizou-se, internacionalizou-se. Hoje é a maior mercadoria baiana, que impulsiona a chamada indústria do turismo. Os hotéis estão cheios, cada ano.

Tem Internet, tudo em tempo real, transmissões ao vivo por canais de tevê abertos e fechados, o espetáculo ao vivo para o mundo, um grande festival de estrelas e magia com seis dias de duração, uma dinheirama incalculável girando, as atrações de sempre prevalecendo em função do mercado que é controlado pelos próprios. Entonces, pra que mudar?

As contradições e discrepâncias persistem e se aprofundam com esse modelo mais que excludente, onde o espaço popular se amiúda. As batucadas de bairro, os cordões sumiram. Os caretas, os foliões esconderam-se. Todos correm atrás de patrocínio público. Os privados já estão com os privados. Os blocos afro e afoxés mendigam trocados, espaço e horários dignos para mostrar suas artes nas ruas.

Já o povão… bem, esse trabalha duro, oprimido, espremido, explorado, agredido e ainda assim acha um jeito de se esbaldar. Afinal, baiano é baiano, pô!

O turista avermelhado pelo sol arregala os olhos e o nativo ‘na pior’ mira o celular de grife e o cordão de ouro dele, o outro olho na PM. Tem churrasquinho de gato empoeirado nas quebradas e também champã francês servido por garçom engravatado bem ali adiante. Sente o cheiro?

Esse é o modelito. Ainda não achamos ou não queremos (?) outro. Nem discutimos.

Estrelas brilhosas, astros internacionais, pagodeira infame, tambores dos deuses, politicagem nos camarotes oficiais, violência em cada metro quadrado, trambiques e grades, fartura e fome, todas as drogas, mil interesses, sexo a rodo, uma trabalheira dos diabos para muitos, arrogâncias e pobreza, beleza e insanidades, mijo na latinha e publicidade em cada poste… Uma festa! Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Dançamos e tropeçamos.

O nosso carnaval é de misturas e diferenças, desigualdades e celebrações.

Porque isso é a Bahia, está nas ruas, é história. Luxo e miséria, ali no Pelô, Patrimônio da Humanidade.

Na folia, tudo está explícito, nas fuças, caviar e crack, a servir. Paetês e bunda de fora. Heliporto próximo ao camarote e isopor imundo na cabeça, beijo na boca e bala perdida.

Senhor do Bonfim que nos cubra e nos proteja. Que os nossos orixás cuidem da alegria, não permitam o pior. Até a tarde de quarta-feira, quando tudo vira cinzas.

Laroiê!

Peço licença, com todo o respeito. Ele é o dono do furdunço.

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zedejesusbarreto, jornalista, baiano e escrevinhador.

zedejesusbarreto@uol.com.br

10fev/2010.

ESBULHO DO CARNAVAL DE SALVADOR

09/02/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de NILTON NASCIMENTO

O patético apelo de Orlando Tapajós ao governador Jaques Wagner solicitando financiamento público para o seu trio desfilar no Carnaval que homenageia os 60 anos do trio elétrico e a “esmola” recebida – pouco mais de 10% do solicitado – da Secretaria da Cultura, são emblemas da forma grotesca como os festejos de Momo vêm se realizando na Bahia nos últimos 25 anos, onde um elitista sistema de patrocínios públicos limou a participação popular (78% dos baianos ficaram fora da festa em 2009), tranformando o Carnaval baiano em festa oficial, dirigida aos turistas.

A Antiguidade clássica – Roma, e antes o Egito e a Grécia – exportaram o Carnaval para o mundo sob a forma de festivais livres em homenagem aos deuses lares-pagãos. Na Idade Média, em 1582, durante o Concilio de Trento, o papa Gregório XIII cria o Calendário Gregoriano, oficializando o Carnaval. Decide que a Igreja faria vistas grossas à festa, uma espécie de compensação ao jejum e às abstinências da Quaresma.

Como na Antiguidade, e como ainda hoje, os medievos aproveitavam a licença carnavalesca para se esbaldar em comidas, bebidas e nos prazeres do amor ilícito, elementos que, de acordo com o jornalista Aguinaldo Santana, compõem a incontornável trilogia “estômago-libido-prazer”, do dicionário básico da luxúria e do hedonismo em todas as épocas da humanidade.

Assim, o Carnaval passou a representar a libertação temporária da verdade dominante, um momento de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus, de predomínio das ambivalências linguísticas onde as pessoas tinham liberdade não só para fazer, mas também para dizer o que queriam.

Com essas características o Carnaval chegou ao Brasil no final do século XIX. A folia contagiava igualmente a senzala e a casa grande, contando com a participação dos governantes. No Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara Cascudo cita um episódio em que o imperador dom Pedro II, brincando um Carnaval muito animado, estatelou-se dentro de um tanque de água.

A Bahia e suas elites romperam esse contrato milenar do carnaval: destruíram o sentido universal da festa para implantar um festival provinciano batizado mentirosamente de “a maior festa do planeta”. Desconstruíram o Carnaval e criaram uma festa chapa branca em que a manifestação do livre espírito deu lugar à regulamentação e o espaço público tornou-se negócio privado, submetido às regras do consumo mercadológico, sendo o resultado financeiro da folia, os lucros, onde se inclui as verbas do patrocínio oficial, rateado entre um grupo exclusivo de músicos e empresários.

Por isso o Trio Tapajós não encontrou recursos do mecenato oficial para tocar na sua própria festa de aniversário.

Até porque essas elites já possuem os seus porta-vozes oficiais na pessoa das Ivete Sangalo, dos Chiclete com Banana, das Daniela Mercury, das Claudia Leitte, dos Carlinhos Brown, dos Xanddy, dos Parangolé, dos Psirico, dos Fantasmão, que enchem as ruas da cidade com carros de som gigantescos vendendo mediocridade musical sob o nome de “alegria”, como antigamente se vendia pirita por ouro, aos tolos.

Nesse negócio não existe espaço não apenas para o Tapajós, como também para o multiculturalismo das tradições musicais brasileiras como o samba, a marcha, o samba-reggae, o frevo, etc. Para as elites bastam as harmonias pasteurizadas e monocórdias da “axé music” e do “pagode baiano”.

Também jogaram para a última cena os grupos negros de afoxés que são manifestações artísticas ligadas diretamente aos cultos afro-brasileiros, eliminou-se as escolas de samba, os blocos de indios, as baianas, e até as belas personagens da commedia dell’arte, como os pierrôs, colombinas, polichinelos e palhaços, reminiscências dos eternos carnavais.

Trocando o “bem comum” pelo “interesse privado”, alegoricamente denominado de “indústrias criativas”, as elites baianas realizaram o esbulho do Carnaval, concretizando a “magna latrocinia” – como diria Santo Agostinho – do espaço público na cidade.

Com isso, o Carnaval baiano ganhou um conteúdo de puro negócio, perdendo a poesia característica do seu passado, quando o povo cantou a primeira música carnavalesca do País: E viva Zé Pereira!

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Nilton Nascimento – Jornalista e pesquisador

 

RASGANDO A FANTASIA

07/02/2010

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texto de WALTER QUEIROZ JR.*

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Nas portas de mais um carnaval, festa que, pela vida à fora, tenho estimado e celebrado mas que vem negando à minha geração, espaço e reconhecimento, rasgo, simbolicamente, a minha fantasia e sustento a minha indignação.

Não é possível que se continue mantendo toda uma cidade como refém de um modelo festivo que coloca os interesses de um grupo de artistas e empresários acima dos direitos dos cidadãos e da dinâmica normal de suas vidas. Acima do soberano e constitucional direito de ir e vir, nas ruas da folia, sem ser achacado por “cordeiros” guindados sem nenhum preparo e legitimidade à condição de para-policiais.

Centenas de famílias tendo de identificar-se para poder voltar pra suas casas e ficar sem poder dormir direito pela fúria eletrônica dos trios castigando-lhes os ouvidos num flagrante desrespeito à lei do silêncio.

O argumento de que estas arbitrariedades se justificam pelos dividendos turísticos e interesses de uma grande maioria foliã é falacioso e ilegal colocando a festa acima da lei e reforçando o lamentável estereótipo do baiano folgazão e irresponsável hedonista. Autorizando a difusão histriônica em todos os cantos da cidade de uma música de crescente mau gosto e banalidade, guindada ao pseudo-sucesso pela difusão maciça patrocinada pelo “jabá” que impera na maioria das rádios com honrosa exceção da Educadora FM, que dá o nome dos autores e é um exemplo para o país (Viva Perfelino Neto!).

Seria uma questão de bom senso mudar enquanto é tempo o rumos da festa antes que ela se esvazie paulatinamente e o povo, agente maior do evento canse de ser ator de segunda classe num espetáculo da qual ele foi sempre a grande estrela.

Tudo isso sem falar na gravíssima questão de saúde pública ameaçada (Olha a meningite aí, gente) por imensos aglomerados do porte do nosso carnaval.

Enfim, aproveito para lembrar que não é jogando as nossas vergonhas e mazelas para debaixo dos tapetes festivos que seremos a grande Salvador sonhada por todos nós.

Aproveito para convidá-los também para um “happy-hour” jacuíno dia 9, às 19 horas no Sabores da Dadá.

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*Walter Queiroz Jr. – Compositor e um dos fundadores do saudoso Bloco do Jacu, membro da Confraria dos Saberes

MARIA BETHÂNIA: O CANTO DA GRIÔ

03/02/2010

Maria Bethânia durante show no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Foto de CARLOS CASAES | Agência A Tarde - 26.6.2008

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texto de MARLON MARCOS

(extraído do blog MEMÓRIAS DO MARhttp://memoriasdomar.blogspot.com/)

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Amanhã, a Cidade da Bahia celebra os 45 anos de carreira de Maria Bethânia através de reflexões sobre sua obra. Intelectuais e artistas se debruçam, pontualmente, sobre aspectos socioantropológicos nas construções estéticas da cantora que contam, histórica e culturalmente, os caminhos da cultura popular no Brasil nas últimas quatro décadas.

Será feita – nas sessões organizadas entre palestras, conferências, oficinas e saraus que compõem o Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte de Maria Bethânia – uma sociologia da beleza. A beleza raríssima de Maria Bethânia – posta a nos entregar o melhor que a palavra, o som, a música, enfim, a canção pode oferecer à existência humana nestes arredores brasileiros.

Um trabalho de fãs que indica a qualidade da artista em questão: análises serão feitas para se compreender do ponto de vista acadêmico uma expressão artística que não carece deste tipo de explicação – mas será feita: uma sociologia da beleza singrando fé, festa e emoção!

Além de tudo que será discutido neste congresso para reafirmar nossa inclinação para as criações populares – é nisso que somos bons –, este evento deve enviar um documento sugerindo, à Universidade Federal da Bahia e à Universidade do Estado da Bahia, o nome de Maria Bethânia Vianna Telles Velloso para receber o honroso título de Doutora Honoris Causa pelo conjunto de sua obra que tanto dignifica a Bahia e o Brasil e serve como instrumento de estudo e pesquisa para melhor se entender a história da cultura brasileira. Salve, por 45 anos de carreira, a nossa doutora (e cantora!) Maria Bethânia.

RELEASE DE DIVULGAÇÃO DO ENCONTRO

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Para comemorar os 45 anos de inserção contínua de Maria Bethânia nas artes musicais e cênicas do Brasil, o Fã-Clube Rosa dos Ventos Bahia realizará em 4, 5 e 6 de fevereiro o Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte de Maria Bethânia: 45 anos de Palco. O evento tem o intuito de desenvolver reflexões sobre a cultura brasileira a partir das muitas leituras estéticas da cantora santo-amarense, que servem como traduções das muitas possibilidades identitárias que temos como nação multicultural.

Nos dias 4 e 5, no Teatro Martim Gonçalves, no Canela, em Salvador, das 9:00 às 18 horas, vários intelectuais e artistas irão discutir a trajetória de Maria Bethânia em sua busca incessante de se expressar traduzindo o universo da cultura popular no Brasil.

Nomes expressivos como o do sociólogo baiano Milton Moura, especialista em música popular brasileira; a professora mineira Lúcia Castello Branco, referência nacional em leituras acadêmicas sobre a nossa literatura e apaixonada pela obra da cantora; a dramaturga Aninha Franco; o poeta José Carlos Capinan, que fará a palestra de abertura; a poeta Mabel Velloso; os compositores Roberto Mendes, Jota Velloso, Jorge Portugal, entre os nomes de mais destaque.

Vários trabalhos acadêmicos que versaram sobre a obra de Maria Bethânia também serão apresentados e discutidos. A intenção do evento é mostrar a viabilidade do trabalho de uma intérprete da canção popular como instrumento de investigação social, possibilitando análises diversas sobre esta complexidade que chamamos de identidade cultural brasileira.

Maria Bethânia fará 45 anos de carreira em 13 de fevereiro de 2010, e sempre imprimiu a sua vontade de traduzir elementos da nossa cultura popular, os aspectos da nossa religiosidade de ascendência africana, a poesia em suas diferentes matizes, a música aliada às artes cênicas e a intertextualidade como configuração e aliança estética.

As atividades do dia 6 (sábado) transcorrerão em Santo Amaro da Purificação. Correspondem à parte lúdica do evento: se farão passeios culturais em locais que marcaram a vida da artista nesta que é a sua cidade natal.

JOÃO GILBERTO, O MELHOR DISCO DE 2009

01/01/2010

texto de PAQUITO*

(Reproduzido da revista digital Terra Magazinehttp://terramagazine.terra.com.br/ –, editada por Bob Fernandes)

De Salvador (BA)

Últimos dias do ano, tempo de natal e compras, encontro, por acaso, em uma livraria de shopping, Tuzé de Abreu, grande músico baiano e boa-praça hors-concours. A conversa vai por assuntos vários e cai em nosso artista preferido. E ele concordou comigo, em tempo de retrospectivas: o melhor Cd do ano não foi nem lançado oficialmente, não é ao menos um Cd – ou é, dependendo do ponto de vista do freguês – não teve vídeo-clip nem entrevista do artista.

O melhor lançamento musical do ano não foi gravado nem ao menos este ano. Na verdade, tem cerca de 50 de idade, mas nunca tinha sido levado a público anteriormente: João Gilberto na casa de Chico Pereira, que foi pra internet em fevereiro, e resulta de uma sessão na casa do fotógrafo Chico Pereira, em 1958, antes de João ter feito o Chega de saudade, marco inaugural da Bossa Nova.

[NOTA DO EDITOR – Ouça 29 faixas do disco no site LUIS NASSIF ON LINE: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/02/07/raridades-de-joao-gilberto/]

É o melhor do ano, pois mostra João Gilberto interpretando quase todo o repertório do LP Chega de saudade em performances irrepreensíveis, além de canções presentes em seus discos e shows dois, três, vinte anos depois, caso de Caminhos cruzados, de Jobim e Newton Mendonça, do LP Amoroso, de 1977, e ainda músicas inéditas em sua voz, caso de João Valentão, de Caymmi, Chão de estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, Mágoa, de Jobim e Marino Pinto, O bem do amor, de Carlos Lyra e, de quebra, uma valsa de João Donato.

A internet bombou em fevereiro, blogs à mancheia noticiaram o fato, o arquivo foi disponibilizado pra download, logo depois retirado, mas já estava feito. O som do violão está um tanto distorcido por conta da tomada de som, apesar de ter sido melhorado, mas a voz está lá, naquele amálgama de densidade e leveza que não nos faz ter dúvidas: antes de João Gilberto, o que Tom Jobim e Carlos Lyra compunham era samba-canção. João transformou tudo isso e muito mais em bossa-nova, que nada mais é do que samba, mas com seu toque, sua batida, sua economia e ecologia musical, essencial, simples, mais eloquente ainda hoje, quando, principalmente na Bahia, a tônica é a poluição sonora, com nossos ouvidos colonizados compulsoriamente, sem que possamos fazer qualquer coisa.

Nenhum intérprete, na história da canção popular, inspirou tantos compositores, e de maneira tão diversa. Sem ele, não haveria o raciocínio que levou ao Tropicalismo, e Roberto Carlos não faria tanta diferença como cantor entre seus pares anglo-americanos do iê-iê-iê. Jorge Ben, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano, Edu Lobo, Raul Seixas, sem falar nos Novos Baianos, chamados seus filhos em documentário recente, todos o dizem determinante para suas carreiras, o que equivale dizer que, até para o rock brasileiro, seu canto irmão do silêncio foi importante.

E João está à vontade nestes registros, como dizem dele os que já o ouviram tocar de perto, variando pouco, improvisando sutilmente. João conversa, fala de Caymmi – “é danado, você vê que ele é um rapaz sensível” – após cantar Doralice, dele com Antônio Almeida. Diz, imagine, que não sabe solar – “não tenho mão pra tocar” – e, ao ser perguntado sobre quem seria o maior violonista daquele período, cita “Jacó, rapaz de São Paulo, tem 20 anos”. Chico Pereira, provavelmente, pergunta: “e Baden Powell?”, ao que João responde: “Jacó é mais sensível”. Quem terá sido esse Jacó? Onde andará esse amigo imaginário de João Gilberto, eterno homenino a destilar e depurar nossa sensibilidade, aparentemente sem esforço?

Seu canto e violão estão fresquinhos, recém-inventados, feito a brisa vespertina baiana, que não dá bandeira de que viajou por uma pá de continentes antes de chegar ao destino. Possivelmente o próprio João jamais aprovaria o lançamento oficial de uma sessão de gravação tão caseira, mas, para quem nunca privou de seu convívio, é um fato e tanto ouvir as histórias e canções que ele tornou suas, sem o intermédio das salas dos estúdios de gravação que, talvez, o inibam de mostrar mais de tudo que ele sabe. Só nos resta fazer silêncio e ouvir.

 

*Paquito é músico e produtor (anjo.paquito@terra.com.br)

-o-

NOTA DO EDITOR – Tomei a liberdade de reproduzir este artigo de Paquito publicado pela Terra Magazine depois de receber e-mail de Tuzé de Abreu, através do qual ele me deu a honra de enviar cópia de mensagem enviada ao autor do texto. O e-mail de Tuzé que contém o link para acessar o artigo de Paquito termina assim:

 

Paquito- Obrigado pelas palavras. Você esqueceu de citar a interpretação excelente de Beija-me, e o solo de violão jazzístico.

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MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A ANTIGA GRAVAÇÃO CASEIRA DE JOÃO

Post de 5.2.2009 do site SOM BARATO (www.sombarato.org/node/658):

texto de: Ronaldo Evangelista

Surpresa! Vazou essa semana na blogosfera uma das gravações caseiras lendárias de um João Gilberto pré-disco, ali por 57-58. Feita na casa do fotógrafo Chico Pereira (co-responsável pelas lindas e cultuadas capas da Elenco), a gravação tem mais de 20 músicas curtas – algumas nunca gravadas por ele em disco, como Beija-me e João Valentão – e ainda conversas e atmosfera.

Quem recupera as gravações, com ajustes possíveis, é o blog Toque Musical, de raridades brasileiras pouco óbvias e sempre interessantes. Já circulam por aí mp3s dos primeiros compactos do João e do show O Encontro, mas é a primeira vez que vejo vir a público qualquer das gravações efetivamente caseiras, feita entre amigos em gravadores antepassados dos portastudios.

E estamos em 1958 – um ano antes de João gravar seu álbum de estreia, portanto. Mesmo ano em que participou tocando violão (e dando pitacos nem sempre benquistos) no disco Canção do Amor Demais, tido como o movimento inicial do movimento.

João já sabia de tudo.

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No indispensável Chega de Saudade, Ruy Castro conta mais:

Uma das pessoas que João conhecera com Roberto Menescal e Carlinhos Lyra fora o fotógrafo da Odeon, Chico Pereira. Pela quantidade de hobbies a que Chico dispensava total dediacação – som, jazz, aviação, pesca submarina –, era difícil imaginar como lhe sobrava tempo para fazer um único clique como fotógrafo. Mesmo assim, Pereira conseguia dar conta das fotos de todas as capas da Odeon. Menescal era seu companheiro de pesca e os dois eram também irmãos em Dave Brubeck. Quando João Gilberto cantou pela primeira vez em seu apartamento, na rua Fernando Mendes, levado por Menescal, Chico experimentou a mesma sensação que tivera ao conhecer o fundo do mar. Com a vantagem de que a voz e o violão de João Gilberto podiam ser capturados. Não perdeu tempo: assestou um microfone, alimentou seu gravador Grundig com um rolo virgem e deixou-o rodar. Foi a primeira das muitas fitas que gravaria com João Gilberto em sua casa.

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Antes mesmo que o 78 de Chega de Saudade invadisse as rádios – antes mesmo de ter saído o disco –, fitas domésticas de rolo, contendo a voz e o violão de João Gilberto já circulavam pela Zona Sul. Circulavam é força de expressão. Poucos possuíam gravadores naqueles tempos pré-cassete, o que limitava a audiência de uma fita aos amigos do dono do gravador. Uma dessas fitas tinha sido gravada pelo fotógrafo Chico Pereira, felizmente um homem cheio de amigos; outra, pelo cantor Luís Cláudio. Em quase todas João Gilberto cantava Bim Bom, Ô-ba-la-lá, Aos pés da cruz, Chega de Saudade e coisas que nunca gravaria em disco, como Louco, de Henrique de Almeida e Wilson Batista, e Barquinho de Papel, de Carlinhos Lyra.

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Agradeçam ao camarada do blog Toque Musical por ter ido ao limbo encontrar esta raridade!!

Vida longa à pesquisa e ao compartilhamento das ideias e memes!

Lista das Músicas:

Track # Title Play time
1 Um Abraço no Bonfá 02:40
2 Unknown Title 02:27
3 Chega de Saudade 01:54
4 Bim-Bom 01:23
5 Ho-Ba-La-La 02:14
6 É Luxo Só 01:47
7 Desafinado 01:44
8 Saudade Fez Um Samba 01:48
9 Unknown Title 01:48
10 Esse Seu Olhar 02:06
11 A Felicidade 01:59
12 Preconceito 02:30
13 Caminhos Cruzados 01:50
14 Mágoa 01:43
15 Lobo Bobo 03:24
16 Brigas Nunca Mais 01:46
17 Unknown Title 02:45
18 Louco 02:16
19 Trevo de Quatro Folhas 00:55
20 O Pato 01:30
21 Aos Pés da Cruz 01:18
22 Rosa Morena 01:30
23 João Valentão 02:06
24 Chão de Estrelas 02:15
25 Conversation 01:06
26 Nos Braços de Isabel 01:36
27 Conversation 00:50
28 La Vem a Baiana 02:14
29 Conversation 00:19
30 La Vem a Baiana 01:39
31 Conversation 00:33
32 Doralice 01:49
33 Conversation 00:22
34 Doralice 00:50
35 Conversation 01:40
36 Você Não Sabe Amar 02:21
37 Beija-Me 02:53
38 Conversation 03:24

Ficha Técnica:

Gravação caseira realizada por Chico Pereira em sua residência.

Este “disco” (que na verdade são registros do que parece muito com um sarau) precede ao marco zero da Bossa Nova Canção do Amor Demais. E é uma espécie de raio-X dos três primeiros discos de João Gilberto.

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-) MATÉRIA E COMENTÁRIOS DE LUIS NASSIF NA FOLHA DE S. PAULO (7.2.2009):

Raridades de João Gilberto

Engenheiro de som francês “libera” gravações caseiras divulgadas por blogs

Antes de se espalhar pela internet, as gravações caseiras de João Gilberto passaram pelas mãos de um sueco, um francês e alguns brasileiros.

Com a cópia das gravações de João Gilberto feitas na casa do fotógrafo Chico Pereira, em 1958, o sueco Lars Crantz procurou o músico e engenheiro de som francês Christophe Rousseau para remasterizar o material. Rousseau o fez e acabou por também divulgar os registros para o blog Toque Musical (toque-musical.blogspot.com), dedicado a raridades da música brasileira.

Na última segunda-feira, o blog disponibilizou o primeiro link para download do arquivo das gravações, contextualizando os registros.

Dois dias depois, o blog Vitrola (vitrola.blogspot.com), do jornalista Ronaldo Evangelista, publicou post sobre o assunto no qual remetia ao Toque Musical. Rapidamente, o link e a história se espalharam por diversos blogs relacionados à cultura, como Trabalho Sujo (oesquema.com.br/trabalhosujo).

Ontem pela manhã, o link para download do Toque Musical já não estava mais disponível. No entanto, com uma busca pelos nomes João Gilberto e Chico Pereira na internet era possível encontrar diversos caminhos para o download.

No início da noite, o Toque Musical saiu do ar. A Folha conversou por telefone com o dono do blog, que preferiu não se identificar. Ele demonstrava receio em relação à repercussão da história.

A Folha não conseguiu localizar Cláudia Faissol, atual empresária de João, para saber se tentará fazer algo contra a divulgação das gravações.

Comentário

É um documento histórico que comprova algo que venho sustentando há muitos anos: a enorme influência do samba-choro e do samba sincopado no balanço de João Gilberto.

Nos braços de Isabel, é gravação de um dos reis do sincopado e do samba-choro, Joel e Gaúcho.

Comentário 2

Depois da caminhada matinal, e de ter ouvido o disco quase todo. É um retrato extraordinário do universo musical de João Gilberto. Tem o violão à Garoto, a bossa nova de Tom, Caymmi, os sambas-choros, o samba-canção, a seresta. E uma declaração apaixonada a Jacob do Bandolim.

Tenho a impressão de que esse acervo liquida uma discussão besta, que vem do Balanço da Bossa e do livro do Ruy Castro (que já reviu sua posição), mas foi fundamentalmente alimentado pelos musicólogos da USP e pela influência de Ronaldo Bôscoli: a idéia de que a bossa nova foi uma ruptura, quando foi uma síntese do que de melhor a música brasileira tinha produzido até então.