Archive for the ‘Jeito baiano de ser’ Category

MILTON SANTOS – GENTE DA BAHIA

24/06/2010

Ilustração de GENTIL

Sinto-me autorizado a pleitear a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação (Jaime Sodré)

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A MILTON SANTOS POR MERECIMENTO

ou:

TIRANOS ESPINHOS

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texto de JAIME SODRÉ*

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Permitam-me apresentar o currículo:

Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP; pesquisador 1A do CNPq; visiting professor, Stanford University, 1997/98; bacharel em Direito, Universidade Federal da Bahia, 1948; doutor em Geografia, Université de Strasbourg, França, 1958; doutor honoris causa das universidades de Toulouse, Buenos Aires, Complutense de Madrid, Barcelona, Nacional de Cuyo-Barcelona, Federal da Bahia, de Sergipe, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, Estadual de Vitória da Conquista, do Ceará, Unesp e de Passo Fundo.

Prêmios:

Internacional de Geografia Vautrin Lud, 1994; USP/1999 (orientador de melhor tese em ciências humanas); Mérito Tecnológico, 1997 (Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo); Personalidade do Ano, 1997 (Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro); Jabuti, 1997 (melhor livro de ciências humanas: A Natureza do Espaço, Técnica e Tempo).

Medalhas:

Mérito Universitário de La Habana, 1994; Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico, 1995; Colar do Centenário do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1997; Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, 1997; Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, 1997.

Lecionou nas universidades de Toulose, Bordeaux, Paris, Lima, Dar-es-Salaam, Columbia, Venezuela e do Rio Janeiro. Consultor da ONU, OIT, OEA e Unesco junto aos governos da Argélia e Guiné-Bissau e ao Senado da Venezuela.

Publicou mais de quarenta livros e trezentos artigos em revistas científicas em português, francês, inglês e espanhol.

Baiano de família de professores, com o avô e avó professores primários, mesmo antes da Abolição, que o ensinaram a olhar mais para frente do que para trás. Família remediada, os pais ensinaram boas maneiras, francês e álgebra. Foi aluno interno, neste ambiente começara a ensinar antes da faculdade, ingressando na Faculdade de Direito e se formando em 1948.

O fato: segundo o mesmo Milton, seu maior desejo era a Escola Politécnica em Salvador – “havia uma ideia generalizada que esta escola não tinha muito gosto de acolher negros, então fui aconselhado fortemente pela família (tinha um tio advogado) a estudar Direito, e daí mudei para a Geografia, que comecei a ensinar desde os quinze anos”. Havia uma crença na sociedade da época que na Politécnica os obstáculos eram maiores.

Escrevera no jornal A Tarde, como correspondente na região do cacau onde lecionava, por iniciativa do ministro Simões Filho que o descobriu para a imprensa. Ensinara na Universidade Católica e preparava-se para entrar na pública, onde fez concurso em 1960, após o doutorado em Geografia na França.

O pleito:

Quando saíamos do Colégio Central, em turma, na direção da Sé, era comum a brincadeira entre as estátuas do Barão do Rio Branco e Castro Alves, diziam:

Castro Alves estendia a mão em direção ao Barão pedindo uns trocados para libertar os negros, Rio Branco, com a mão no bolso, dizia “tenho mais não dou”.

Coisas da juventude.

Recentemente, a Semur [Secretaria Municipal da Reparação, de Salvador] solicitou-me uma relação de estátuas e monumentos de negros e negras em nosso espaço urbano, e inspirou-me para o que segue.

Diante do currículo exposto do professor Dr. Milton Santos, sinto-me autorizado a pleitear, quem sabe à própria Semur, a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação. Ainda de posse de uma das suas brilhantes frases, que estaria no monumento merecido:

Quem ensina, quem é professor, não tem ódio.

Em tempos de cotas, melhor local não seria adequado, senão em pleno ambiente acadêmico da Escola Politécnica, cumprindo um desejo do grande mestre, calado outrora pela mentalidade maldosa, inibidora da época. Aposso-me de uma frase, lugar comum neste gesto, na certeza do apoio de muitos, “ao mestre com carinho”.

Esta justíssima homenagem traduzirá, com certeza, a admiração do povo brasileiro aos seus filhos ilustres, registrando aqui homenagem a alguém que o mundo não se cansou de reconhecer e homenagear. Placidez, serenidade, sorriso permanente aberto, humanidade, sabedoria, sem perder a ternura diante das dificuldades, poderão inspirar o escultor a modelar, em material nobre, este nobre baiano.

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*Jaime Sodré – Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social

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Foto de LUIZ CARLOS SANTOS

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UMA NOVA FORMA DE OLHAR

E COMPREENDER O MUNDO

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texto de LIDICE DA MATA*

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A Câmara dos Deputados prestou homenagem ao geógrafo e professor Milton Santos, um dos mais brilhantes e respeitados intelectuais do nosso tempo, que faleceu há nove anos, deixando uma imensa lacuna, mas também nos legando uma obra incomparável que hoje é referência em todo o mundo. Não é nenhum exagero dizer que Milton Santos fundou uma nova Geografia, reescreveu os fundamentos desta disciplina, nos ensinando uma nova forma de olhar e compreender o mundo.

Negro, nascido em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, nunca se deixou abater pelo racismo, pelo preconceito social e nem pelas imensas dificuldades que enfrentou ao longo dos seus 75 anos de vida. Milton Santos foi um vencedor, um mensageiro da esperança, um guerreiro da palavra que, sempre com um sorriso amável, nunca parou de lutar e nos legou um arsenal de ideias sobre a problemática do mundo globalizado e as possibilidades de construirmos um futuro melhor para todos.

Nada mais apropriado para homenagear esse brasileiro de espírito crítico e inovador do que discutir a sua obra, debater e divulgar as suas ideias. Por isso, a Comissão de Educação e Cultura, da qual eu faço parte, promoveu no mês de maio, em que se comemora o Dia do Geógrafo, um seminário que contou com a participação de muitos parlamentares e representantes do meio acadêmico.

Neste momento, em que vivemos a mais grave crise do capitalismo no mundo, considero necessária e oportuna uma reflexão sobre o pensamento de Milton Santos. Ele nos inspira novos caminhos, nos aponta o rumo de uma outra globalização, em que o desenvolvimento seja voltado para o homem e não apenas para o beneficio das corporações nacionais e transnacionais.

Brasileiro, apaixonado por sua terra, Milton Santos é um pensador universal. E nesse aspecto, devemos destacar que não foi por acaso que, em 1994, ele recebeu o Prêmio Vautrim Lud, considerado o Nobel da Geografia. Sem dúvida o coroamento de uma trajetória que começou na Bahia, onde além de professor, foi jornalista e um intelectual engajado, um combatente das causas políticas e sociais.

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*Lidice da Mata – Deputada federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB)

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Foto de LUCIANO DA MATA | Agência A Tarde – 14.7.1997

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MILTON SANTOS, UMA BIOGRAFIA

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texto de FERNANDO CONCEIÇÃO*

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Em vida ele repudiaria o uso de seu nome para homenagens vãs. Cuidado, portanto. Em junho de 2011 completam-se 10 anos da morte do geógrafo Milton Santos, baiano para o qual setores da política e da intelligentzia local deram as costas. Tanto assim que seus restos mortais jazem em cemitério de São Paulo, cidade que o acolheu nos seus profícuos anos de projeção intelectual pós exílio forçado pela ditadura de 64.

A obra miltoniana, zelada por Marie-Helène, sua viúva, vem toda ela sendo republicada pela Editora da Universidade de São Paulo, para usufruto de quem queira. Mas afora especialistas, é certo que muitos dos que vêm se apropriando do seu nome quase nada leram dele. Ou ao menos prestaram atenção no que disse. Fariam melhor à sua memória se a difundissem apropriadamente, estimulassem a adoção de seus escritos pelas escolas possíveis. Os mesmos não se restringem à Geografia, mas expandem-se a outras áreas do conhecimento: filosofia, história, planejamento urbano, educação, economia, comunicação…

É pretensão minha entregar ao público brasileiro, daqui a um ano, a biografia de MS. Livro que narre sua trajetória, desde o nascimento em Brotas de Macaúbas. A 12 meses da efeméride, tento costurar apoios. Falta prosseguir a pesquisa necessária ao levantamento de dados, informações e depoimentos. Considerável parte desse material acha-se lá fora, por onde buscou seu sustento. Países europeus, africanos, da América Latina, Estados Unidos, Canadá e mesmo Haiti, onde se casou pela segunda vez. Também Brasil afora. O custo do trabalho não é baixo. Requer investimento que não está à mão. Mas a importância daquele intelectual exige agora dedicação quase exclusiva à tarefa. Autorizada por ele, aliás.

Cumprir a meta é o desafio. Há dificuldades naturais de percurso, objeções advindas da natureza independente do personagem a ser retratado. Daí, é de valor inestimável qualquer informação, detalhe, documento a ser oferecido para a completude da obra. Valho-me de A Tarde, no qual ele trabalhou por anos, para solicitar a colaboração de todos os que possam fazê-lo. Milton Santos, patrimônio do Brasil, é para ser rememorado sempre.

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*Fernando Conceição – Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), biógrafo autorizado de MS

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Foto de MARIA ADÉLIA DE SOUZA | SescTV

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WALY, A FERA FAISCANTE

13/06/2010

Caricatura de WALY SALOMÃO criada por GENTIL

Minha admiração por Waly [Salomão] é imensa […] Daí a felicidade em ver homenagens como a biblioteca de Ribeirão Preto e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae. Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly?

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Em 2004, andando por Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, sob a fuligem de canaviais queimados, vi à distância uma construção de arquitetura inconfundível. Um prédio de João Filgueiras Lima, Lelé. Curioso, fui ver o que o prédio abrigava. E tive uma surpresa que me deixou especialmente alegre. Era a Biblioteca Waly Salomão. Uma homenagem de Ribeirão Preto ao inventivo poeta-guerreiro nascido em Jequié, na Bahia. É claro que Waly mereceu a homenagem.

Meses atrás, no jornal O Globo, vi que estavam na reta final as obras do Centro Cultural Waly Salomão, agora inaugurado, na favela de Vigário Geral, no Rio. E, mais uma vez, Waly merece a homenagem. Pelo que fez e por ser quem foi.

O poeta-escritor que nos deu a prosa de Me Segura Queu Vou Dar um Troço. O poeta-letrista que nos deixou canções como Mel, Cabeleira de Berenice e Vapor Barato.

O poeta-editor que trouxe à luz a revista Navilouca e Os Últimos Dias de Paupéria, reunindo escritos de Torquato Neto.

O poeta-produtor cultural que, com Antonio Cícero, organizou os debates do Banco Nacional de Ideias, trazendo ao Brasil personalidades intelectuais como Horty, Gellner e Todorov, com o qual tive o prazer de debater em São Paulo sobre diversidade cultural.

O poeta-executivo, administrador público, que coordenou aqueles que talvez tenham sido os últimos carnavais baianos culturalmente relevantes.

O poeta-artista visual que nos brindou com a série colorida dos Babilaques.

O poeta que queria ultrapassar barras e bordas, não ser “si-mesmo”, mas tudo que fosse ou significasse um outro. O poeta que sabia e dizia que a memória não passa de uma ilha de edição.

Ao apresentar um livro seu, Armarinho de Miudezas (publicado por Myriam Fraga e Claudius Portugal, em importante coleção editorial da Fundação Casa de Jorge Amado) – cuja lembrança sempre me traz à mente o texto “Bahia Turva”, porrada na pasmaceira da província –, tentei fazer uma síntese de como eu o via, chamando-o “a fera faiscante” (àkàtà yeriyeri, nos orikis iorubanos), em referência ao orixá Xangô, dono de sua cabeça.

Curiosamente, aliás, Xangô é o orixá da retórica, do discurso, da eloquência. O senhor do axé na palavra. E, nesse sentido, Waly, que tinha uma capacidade oral extraordinária, era mesmo uma encarnação total da figura do filho de Xangô. Tinha o dom do improviso, da língua afiada, da frase desconcertante, do achado irônico-humorístico que levava todos às gargalhadas.

Naquela apresentação, entre outras coisas, escrevi: “Não há lugar aqui para o temor, a prudência, a reverência paroquial. Pensamento agudo, voz de trovão, o baianárabe Waly (de walid) é um happening ambulante. Um farsante declarado e colorido num ambiente cultural infestado de beletristas seriosos e cinzentos. Inimigo público número um do meio termo, da mesmice gustativa, Waly é uma verdadeira montanha russa de grossura e de finesse, indo das baixarias de botequim à suprema limpeza do construtivismo de Maliévitch. Sua figura é a hipérbole. O leitor de Rimbaud e Nietzsche circulando pelo morro do Estácio, da Mangueira, ou em meio aos tambores sagrados do candomblé. Curiosidade ibnkhalduniana. Estrada do excesso. Um homem livre como as formas de Arp”.

Minha admiração por Waly é imensa. Dos tempos de minha juventude, quando o conheci chez Caetano Veloso, aos dias em que trabalhamos juntos, com ele na direção do Instituto Nacional do Livro, em Brasília. Waly animava e alegrava nossas vidas na cidade de Lúcio Costa.

Daí a minha felicidade em ver obras-homenagens como a biblioteca de Ribeirão e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae.

Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly? Algum projeto, ao menos? Que eu saiba, não. Waly, na linha de um Gregório de Mattos, dizia, num texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, que a verdadeira padroeira de Salvador era “Nossa Senhora do Empata Foda”. Tudo aqui emperra, não anda, não acontece. Acho até que ele deve estar aí em alguma fila, aguardando que antes a Bahia faça uma Casa Dorival Caymmi.

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*Antonio Risério – Escritor

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MARIA SAMPAIO – GENTE DA BAHIA

13/06/2010

MARIA SAMPAIO em sua casa, no bairro do Itaigara, em Salvador. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 19.6.2008

Brincou de carrinho, de escrever, de picula, de desenhar e pintar, de tirar retrato. Passada dos 30, assume a fotografia profissionalmente. Aos 50 escreve”

Maria Guimarães Sampaio

Autodefinição em seu blog CONTINHOS PARA CÃO DORMIR [http://continhosparacaodormir.blogspot.com/], criado em 2008

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FICAM AS IMAGENS,

OS LIVROS, A SAUDADE…

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texto de RONALDO JACOBINA*

[publicado no jornal A Tarde do dia 3 de junho de 2010]

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Após dez anos de luta contra um câncer de mama, a fotógrafa e escritora Maria Sampaio morreu ontem [2.6.2010], aos 62 anos, no Hospital Português, onde esteve internada nos últimos dez dias. O corpo será cremado hoje [3.6.2010], no Cemitério Jardim da Saudade (Brotas).

De acordo com o único irmão, Artur Sampaio, a pedido dela, as cinzas deverão ser distribuídas entre o túmulo dos pais (o artista plástico Mirabeau Sampaio e Norma) e os rios Subaé, em Santo Amaro da Purificação (Bahia), e Sena, em Paris.

Vamos fazer a vontade dela. Era uma pessoa muito especial e valente, deixou tudo organizado antes de partir.

Considerada uma das mais importantes fotógrafas da Bahia, a partir dos anos 1970, Maria Sampaio registrou com o seu olhar sensível importantes momentos da história cultural do Estado.

Muitos desses registros permanecerão eternos, como as imagens que fez para capas de discos e livros ou para as publicações que lançou, como Recôncavo, editado pelo Desenbanco em 1985.

Dona de um rico acervo da família Velloso, de quem sempre foi muito amiga, Maria foi a autora das fotos que ilustram as capas dos discos Cores & Nomes, de Caetano Veloso (1982), e Olho d’água, de Maria Bethânia (1992).

Não sei como viverei a partir de agora sem a amizade de Maria. Ela era mais que uma irmã para nós, uma filha para minha mãe – diz, emocionada, Mabel Velloso.

Fotografia

A menina que um dia sonhou ser cantora ganhou admiração e prestígio em outras artes. Primeiro como fotógrafa, depois como escritora.

Não podia nunca ser cantora porque era muito desentonada – revelou em julho de 2008 à revista “Muito” [suplemento dominical de A Tarde].

Apesar de não ter enveredado pelo caminho da música, foi uma amante da canção popular, especialmente do fado, ritmo português que a uniu à cantora Jussara Silveira.

Há 15 dias, ela me disse que ficaria boa para irmos a Lisboa ouvir fados juntas – diz Jussara.

Como a natureza a desproveu dos atributos necessários para cantar, o talento a transformou numa artista. Visual e literária.

Maria foi uma profissional de extrema importância para a história da fotografia na Bahia – declara o colega Aristides Alves.

Foi a pedido dele que ela escreveu um texto para o livro A fotografia na Bahia, lançado em 2006.

Companheira de muitas décadas, a fotógrafa Célia Aguiar realizou vários trabalhos em parceria com Maria.

Era minha melhor amiga, minha companheira. Vivemos muitas coisas juntas: moramos juntas, viajamos juntas e fotografamos juntas. Tivemos uma vida juntas.

Para Célia, Maria sempre gostou de trabalhar coletivamente.

Ela agregava suas ideias às dos colegas de profissão, uma das pessoas mais generosas que conheci.

Literatura

Nos últimos anos, Maria passou a se dedicar cada vez mais à literatura. Desde que escreveu seu primeiro livro Estrela de Ana Brasila (2004) e, depois, Rosália Roseiral (2006), ambos pela Record, a escritora descobriu esta nova vocação. Tanto que, no ano passado, o editor Claudius Portugal, admirador e amigo de longa data, a convidou para publicar Continhos para cão dormir, pela editora P55.

Menos de um ano depois, mais um livro: Continhos para cão dormir II.

Maria era uma grande contadora de histórias e conhecia como ninguém os hábitos da sociedade baiana. Ela escrevia sobre isso com muito humor.

Foi em Maria que a dramaturga Aninha Franco se inspirou para escrever a personagem Guima do livro As Receitas de Mme Castro (Ed. P55).

Maria era uma amiga generosa, bem-humorada, ela é aquela personagem. Fiz o livro para ela e sobre ela.

E é assim que Guima (ela se chamava Maria Guimarães Sampaio) será lembrada: baiana arretada, bem-humorada, generosa e, sobretudo, amada.

MARIA SAMPAIO. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 19.6.2008

  

NOTA DO EDITOR – Ao visitar hoje o blog de Maria Sampaio [http://continhosparacaodormir.blogspot.com/] CONTINHOS PARA CÃO DORMIR, encontrei este lindo e emocionante comentário assinado por Jorge Velloso:

 

Tucão está em novo estúdio

 

Se fossem reveladas fotografias de nossos corações hoje, com certeza sairiam sem cor, sem preto nem branco. Afinal, nossa fotógrafa, nossa companheira de farra, nossa tia, nossa amiga, nossa Maria Sampaio se despediu. Cansou, se retou (como ela mesmo gostava de falar) e foi fazer novos retratos, num estúdio lá por cima.

Se a internet do Céu estiver em boas condições, com certeza logo veremos fotos de São Jorge passeando de cavalo no blog de Maria. Com certeza veremos fotos de São Francisco brincando com Tieta e outros cachorros no Continhos para Cão Dormir. Veremos fotos de Dona Zélia com Jorge ao lado de Dona Norma e Dr. Mirabeau…

Ah! Com certeza, essa hora Maria está toda enturmada. Já deve ter arranjado um monte de empregos free lancers e está todaserelepe fazendo até foto 3×4 de Jesus Cristo, enquanto Voltaire Fraga faz de São Benedito.

Lá por cima deve estar um salseiro, porque do jeito que Maria era aqui embaixo, ela já deve ter contado um monte de casos engraçados que ela ouvia em Santo Amaro e claro, já deve ter mandado um monte de anjo chato à merda, porque muito puritanismo com ela não cola.

Só espero que ela não olhe aqui para baixo porque Maria vai seretar se vir que estamos todos tão tristes, tão saudosos e com a fotografia da saudade estampada no peito. Ela pediu que os amigos estivessem reunidos na hora que ela mudasse para o estúdio do primeiro andar, e aqui estamos, mas é nosso dever fazermos o possível para colocar pelo menos um pouco de cor no retrato deste adeus.

Uma boa saída é lembrarmos as gargalhadas de Maria. Assim, instantaneamente já vamos ser contagiados com o flash da felicidade e colocaremos um pouco de cor na foto de um dia tão triste.

Siga em paz, Tucão, e obrigado por ter dado tanto bem-querer a mim e à minha família. Ah! Quando eu te encontrar no novo estúdio vou querer que você faça fotos minhas tão bonitas como as que fez no meu casamento.

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Jorge Velloso

2 de junho de 2010

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A BAHIA NO NORDESTE

13/06/2010

Ilustração de GENTIL

No meu tempo de aluno, a Bahia e Sergipe formavam o Leste. Até início do século XX, da Bahia para cima tudo era Norte

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texto de EDIVALDO BOAVENTURA*

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Desde que fui funcionário da Sudene que sinto a dificuldade de a Bahia ser plenamente Nordeste. A intensa comunicabilidade entre os estados nordestinos não inclui a Bahia. Se os indicadores econômicos a aproximam da região, a antropologia a diferencia. Ao Recôncavo úmido e negro junta-se a região verde do cacau e do extremo sul. É um cenário bem distinto do nordestino.

A cultura negra, que tanto marca a Bahia, tem aqui a melhor expressão nacional. É a diferença que conta e sou bem mais pela diferença do que pela identidade. Temos bem mais consciência da nossa negritude do que da nordestinidade. O contingente afrodescendente, à semelhança do dendê, dá a cor da Bahia.

A bem da verdade, o soteropolitano não tem nenhum orgulho em ser nordestino. O slogan de um supermercado “orgulho de ser nordestino”, do ponto de vista do marketing, na Bahia, não funcionou.

Temos, sim, um tremendo orgulho místico de sermos baianos com o Dois de Julho, as nossas festas, a nossa culinária, o nosso passado, a nossa música. É preciso não esquecer que já fomos corte!

No meu tempo de aluno, a Bahia e Sergipe formavam o Leste. Anteriormente, até início do século XX, da Bahia para cima tudo era Norte. Gilberto Freyre e depois Celso Furtado formularam a criação social, política e econômica do Nordeste. Embora não participando inteiramente da região, as mais das vezes a usamos politicamente.

A Bahia pertencia à Sudene, mas era Nordeste? O governador ou seu representante frequentava o seu Conselho Deliberativo, uma espécie de pequeno parlamento nordestino. Houve até um superintendente da Sudene baiano, Paulo Souto. Do que eu sei, foi o único dentre muitos em toda a história desse organismo regional.

A participação da Bahia nos demais órgãos regionais tem sido muito reduzida. Quem se lembra de um baiano presidindo o Banco do Nordeste? Além de Oliveira Brito e Aleluia, qual o outro baiano que dirigiu a Chesf, no Recife? E o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas?

A Bahia não é sede de nenhum organismo regional importante. O Banco do Nordeste está suntuosamente instalado em Fortaleza. Aliás, quando da sua criação, no Congresso Nacional, poucos deputados baianos se pronunciaram a favor. Aliomar Baleeiro, por exemplo, foi contra, enquanto outros irmãos nordestinos, cearenses, pernambucanos e paraibanos lutaram pela sua institucionalização.

Em compensação, Recife funciona muito bem como capital regional. Assim procede e tira vantagens da sua liderança. A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), a Sudene e um Tribunal Federal da 5ª Região, dentre outras instituições, localizam-se na capital pernambucana. Além do serviço que prestam, agregam fluxos de emprego e renda. Não obstante as barragens e a hidrelétrica terem sido instaladas no lado baiano do Rio São Francisco, Pernambuco com agressividade empresarial soube carrear muito antes do que nós a força e a energia da hidrelétrica. Pioneiramente, no distrito do Cabo, o governo pernambucano criou um sistema de incentivos fiscais com a energia de Paulo Afonso.

Todavia, historicamente, a Bahia sempre foi Recôncavo e Sertão. A dualidade básica da nossa história. E os sertões de Teodoro Sampaio e Euclides da Cunha nos aproximam da contingência nordestina. Os sertões nordestinos começam em Feira de Santana, que responde ao chamado de Rui Barbosa: “Princesa do Sertão”. Hoje é bem mais rainha do que princesa. À entrada dessa cidade encontra-se o “Portal do Sertão”.

Todo baiano nascido nas interioridades tem orgulho de ser sertanejo (Atenção: o vocábulo interior referente às pessoas é pejorativo, aconselho a não usá-lo). O sentimento de pertença aos sertões é forte. Com mais de 45% do extinto Polígono das Secas, a Bahia possui a maior porção do semiárido nordestino. A dinâmica das migrações sertanejas criou centros populacionais importantes como Vitória da Conquista e Juazeiro. O complexo agricultor Juazeiro-Petrolina foi o Nordeste que deu certo. A pouca consciência nordestina dos baianos é compensada pela força de recriar, interiormente, a Bahia.

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*Edivaldo Boaventura – Educador, ex-secretário de Educação e Cultura do Estado da Bahia, escritor, diretor-geral do jornal A Tarde.

O Professor Edivaldo é pai de outro baiano ilustre, o ator e cantor DANIEL BOAVENTURA

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AS BAIANAS (DO ACARAJÉ) PAULISTANAS

09/06/2010

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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Tá pensando o quê? Lá não é como aqui, não! Tem não esse negócio de “olá baiana, bote aí pra mim com bastante pimenta, com vatapá e camarão”. Tem não. O paulistano, mesmo quando ele é raciado com baiano por avó ou avô nascido tempos idos e migrado, tem a maior má vontade para com o baiano. Quem trampou por lá uns tempos viu como todos tratam todo baiano. Para eles, qualquer nordestino é “paraíba” e se o Zé Mané reage vira mais motivo de chacota e pirraça.

Lá não tem disso não, de deixar correr solto as coisas nas ruas, os camelôs e os vendedores ambulantes. Pessoal que vende cachorro-quente tem de ter licença. Oferece churrasco grego ou pastel tem de estar municiado de documentos. Quem vende bugigangas a mesma coisa, e não podia ser diferente com as baianas que fugiram da concorrência difícil de Salvador para tentar o eldorado.

Alguns itens do costume baiano, em se tratando de vendedoras de acarajé, abará, punheta, cocadas e afins (“No tabuleiro da baiana tem”) por lá são considerados fora do tom. Por mais que as autoridades sanitárias soteropolitanas tentem (e olha que elas não tentam muito não) e as entidades de classe delas, as baianas, se esforcem para dar treinamento, qualificação e discernimento (também não há um esforço tão grande assim não, é bom que se diga), quem tem a mania, hábito ou vício de degustar um bolinho de feijão fradinho passado na máquina (coisa de antigamente e na verdade não se faz mais, comprando tudo pronto na Feira de São Joaquim, já que as herdeiras das baianas famosas ficaram preguiçosas) e fritado no dendê (não mais na flor do dendê, que ficou caro e difícil de achar) e muito menos com água-de-cheiro, sabe que está correndo risco.

Basta ver que a absoluta maioria não usa luva. Boa parte de quem usa luva é para proteger a mão, pois com a luva fazem tudo que não devem, desde coçar as partes pudendas a assoar o nariz. Além de pegar qualquer coisa que caia no chão e não se troca a luva. Com isso – já que ninguém faz a pesquisa, nem a Vigilância Sanitária e muito menos outros órgãos afetos à saúde do consumidor – o que comemos quando compramos um abará, por exemplo, é a exata mistura de Vitamilho com feijão fradinho, sal, cebola, coentro e coliformes fecais.

Quem quiser que me venha dizer que está comendo o produto com todos os itens de segurança no fazer. Já visitei casa de baiana famosa onde mais de dez ajudantes faziam a massa em cima de uma pia imunda. Já vi acumulado junto ao galinheiro do quintal as folhas de bananeiras que seguram a massa do abará no cozimento. Já apreciei de perto baiana arrancando a cabeça do camarão, colocando na boca e com a mesma mão pegar outros condimentos e enrolar tudo. Mas o que invoca mesmo é a cocadinha.

Na Barra, perto da Marques de Leão, havia uma baiana que a princípio era preciso coragem de enfrentar os seus quitutes. Ela suava e passava o dedo na testa, para retirar as gotículas e limpava a mão na saia rendada, nada impecável. Suas unhas eram imensas e de vez em quando ela passava a ponta da faca por baixo para retirar o acúmulo de massa. Mesmo assim, às cinco da tarde havia uma fila imensa. O acarajé cheirava de longe e devia ser pelo “aditivo”.

Agora as baianas que foram para São Paulo vender seus bocados queixam-se que estão sendo escorraçadas das ruas pela Secretaria de Saúde e pelo rapa. Argumentam que o acarajé é patrimônio da humanidade e não apenas dos baianos e que merece respeito. Acontece que o patrimônio precisa ser respeitado por todos. Me diga aí, meu rei, quando foi que você soube ou viu aferição de qualidade de acarajé e abará na Bahia? Minha vizinha, que é viciada em acarajé, diz que não receia, pois a pimenta malagueta mata os micróbios. Tomara.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista e escritor

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CAETANO VELOSO: “OU NÃO?”

31/05/2010

Caricatura criada por CAU GOMEZ

Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração”

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texto de CAETANO VELOSO

(reproduzido do jornal A Tarde, que publicou este artigo simultaneamente com O Globo, em 30.5.2010)

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Mesmo que tenha sido uma confusão nascida da ignorância de alguns humoristas, é uma honra para mim ter herdado o bordão “ou não” de Walter Franco. Há quem diga que mereço, não a proximidade de Walter, mas as sugestões pejorativas do bordão. Muita gente vê indefinição suspeita no que para mim é independência política. Em tempos de eleição essas reduções tornam-se mais grosseiras. Pois bem: vou pensar em voz alta. Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração. Se tiver de escolher entre os outros dois, acho que prefiro Dilma, já que, como eu disse na entrevista ao “Estadão” (que ficou famosa por causa da palavra “analfabeto”), Serra está à esquerda da política econômica de Lula (a matéria no Globo com Serra dizendo a Miriam Leitão que “o Banco Central não é a Santa Sé” — com aquelas fotos apavorantes — poderia ser criticada pela “Caros amigos” como alarmismo suspeito, imposto pelo poder dos rentistas). Ou seja, eu prefiriria Dilma porque ela defende a independência do Banco Central.

Aconselho a leitura de “Aqui ninguém é branco”, de Liv Sovik. É a mais complexa e corajosa reflexão sobre raça no Brasil dentre as que vêm do lado dos racialistas. Mas meu comentário, dirigido a Felipe Hirsch, contrastando o racismo popular com o racismo de elite, eu o reenviaria a Sovik. Acabo de chegar da inauguração do Centro Cultural Waly Salomão, em Vigário Geral: grupos de garotas locais, pretas, mulatas e brancas, chegavam bem arrumadas e tomadinhas-banho, sorrindo entre si. Liv diz, com ironia, que “têm razão os que contrastam os EUA com o Brasil, valorizando o quadro brasileiro: para os brancos, especialmente, ele é muito melhor”. Nem uma gota de ironia em minha recomendação do livro. Leiam e verão que ela vai muito além dessa canelada.

Tenho 67 anos. Cresci, amadureci e envelheci ao som da “Aquarela do Brasil”, o nosso hino nacional oficioso, em cujo segundo verso o país é chamado de “mulato inzoneiro”. Nunca vi ninguém estranhar o uso da palavra “mulato” para definir o país. Mas nada me dizia que não houvesse brancos no Brasil. Meu pai era mulato. Minha mãe é branca. Sendo ela de extração mais humilde, era ela quem usava a expressão popular “eles que são brancos, que se entendam”, quando se alegrava por não ter de entrar em certas disputas. Mesmo que fossem entre meu pai e Luís de Gaspar, um preto retinto que era amigo dele. Gaspar era o português que tinha uma loja de ferragens onde Luís trabalhava. Depois Luís abriu a sua própria. Todos diziam “segunda é dia de branco” — quer dizer: dia de trabalharmos para os patrões. Isso independentemente da cor de quem dizia — e mesmo da dos patrões. A ideia arraigada de que somos um país mulato não nos impedia de distinguir explicitamente entre brancos e pretos, ou mulatos, caboclos, sararás. E sempre foi evidente que “branco” indicava vantagens estéticas, econômicas e sociais.


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Liv vai além do habitual: fala da invisibilidade do branco e analisa a mídia. Tudo bem que ela comente textos da “Veja”, mas por que nem ela comenta textos em que Paulo Francis, o mais adorado e imitado jornalista brasileiro, louvava a retomada do projeto de eugenia por trabalhos como “A curva do sino”, que diz provar ser a inteligência média dos estudantes negros americanos inferior à dos brancos? Exibir simpatia por coisas assim era reação aos movimentos negros. Esses movimentos eram necessariamente racialistas. Passou a haver, então, uma reação antirracialista, como, por exemplo, a de Antonio Risério, e uma reação racialista, como a de Francis. A menina que disse a Liv, em Salvador, “aqui ninguém é branco” tem posição próxima à minha, que é próxima à de Risério e avessa à de Francis.

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O presidente Lula ensaiou o anúncio de uma negociação de peso com o Irã. Vejo Lula como um grande personagem épico. Ele pode ser atraído pelas baixezas do populismo. Mas, até aqui, tem pesado mais sua vocação para representar o que o Brasil tem de original. Parte da sua euforia — que pode ser intragável — é reconhecimento disso. É narcisismo salutar, abençoada vaidade histórica. A tentativa de costurar um papo entre os aiatolás e a capitalistada tem, por mais que a analogia com Chamberlain (lembrada por Diogo Mainardi) proceda, mais peso do que todas as outras bolas na trave que ele e Amorim deram antes.


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Sou anticarlista, não fundaria a Embrafilme, não julgo Pinochet pelo que ele deu de útil ao Chile. “The Economist”, falando do óleo no Golfo do México, diz que “o congresso americano deve endurecer a vigilância e aumentar as penas para os faltosos. Mas, infelizmente, não haverá nenhum esforço para dar conta dos maléficos efeitos colaterais do petróleo. Pois vazamentos estão longe de ser o efeito mais deletério da dependência do petróleo de que sofrem os EUA: aquecimento global e financiamento de déspotas estrangeiros vêm no topo da lista”. Essas são palavras editoriais de uma revista liberal inglesa. É por coisas assim que os princípios liberais resistem mais em mim do que a hipótese comunista. O que se sobrepõe a ambas as visões é o sebastianismo de Agostinho da Silva. Este era claramente antiliberal em economia, mas tinha horror a regimes de força. Muitas das suas tiradas são espetaculares. A minha preferida é: “Portugal já civilizou Ásia, África e América — falta civilizar Europa”. Gosto porque falamos português. O mundo lusófono tem sido, há já séculos demais, um ridículo histórico. A mera existência do Brasil parece dizer “chega!”.

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WILSON MELO – GENTE DA BAHIA

31/05/2010

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 23.5.1986

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Wilson Melo e nós

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texto de EDSON RODRIGUES*

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Centenas de atores, diretores e artistas de teatro jovens, que hoje constituem a diversificada cena local, foram batizados em mesas de bar por Wilson Melo. Primeiro, faziam lá as audições para o Curso Livre do Teatro Castro Alves, para o mesmo curso depois deslocado para a Escola de Teatro da Ufba, para os cursos regulares oferecidos por esta faculdade, ou mesmo, como eu, entravam na cena por outros caminhos. Isso era a parte “acadêmica” do início da viagem.

Adentrado ao barco, ao visitante ainda carecia um outro encontro, que mais cedo ou mais tarde iria acontecer em alguma mesa de bar da cidade. Um encontro com Melão. E era ali, cercado por garrafas de cerveja e risos estrondosos, que o postulante a homem ou mulher de teatro passaria a sentir o vigor de outras energias que movem o artista: a da constante renovação, da alegria, da repulsa ao status quo e às sádicas convenções do cotidiano. Melão era o melhor professor que o teatro baiano contemporâneo conheceu nestes quesitos.

Melão morreu na manhã de um sábado [29.5.2010], dia que costumava sorver por inteiro por conta de sua opção de vida boêmia e festiva. Mas seria muito limitado lembrar desse ator apenas pela sua grande amizade com Dionísio, o deus grego que entre os romanos era conhecido como Baco. Tal qual essa figura mitológica, Melão também adorava os líquidos inebriantes, as festas, o divertimento; mas, por outro lado, era um ator de currículo extenso e admirado, um conselheiro sem vestes de professor dos artistas mais jovens, um filósofo da vida. E também era, aqui é bom frisar, um marido e pai atencioso, o que reforçava seu posto de exemplo para os mais jovens, como que a mostrar que é possível fazer rimar divertimento com responsabilidade na vida.

WILSON MELO como Quincas Berro D'Água. Foto de ADRIANA CAMPELO SANTANA – 29.5.2003

Entrevistei Wilson diversas vezes na função de repórter e outras tantas viabilizei entrevistas com ele nas posições de pauteiro e editor. Isso em jornais e na tevê. Também troquei tantas e tantas ideias sobre arte e vida com ele, em mesas de bar. De uns tempos para cá, estávamos mais ausentes, mas sempre que nos víamos, era como se tivéssemos tomado um porre juntos no dia anterior. Melão não foi o que muito estraga uma grande parte das pessoas que fazem arte hoje em dia: não era pretensioso, não era o dono da verdade, não era ganancioso, não achava que a história do teatro baiano havia começado por ele.

O currículo de Melão é enorme. De minha parte e até onde vi seu desempenho, não esqueço de seu duo com a tão enorme quanto Nilda Spencer em Lábios que beijei, peça na qual os dois importantes atores, em um ato de demonstração do caráter renovador da arte, emprestaram seus prestígios ao projeto de um diretor e dramaturgo então desconhecido e iniciante, Paulo Henrique Alcântara. O resultado foi um marco para quem teve a oportunidade de assisti-lo.

Há também Horário de visitas, de Ewald Hackler, interpretação que deveria ter lhe rendido, à época, o título de melhor ator da temporada pelo então prêmio Braskem de Teatro. Não levou, mas foi um erro daquela comissão que até hoje deve penitenciar-se pelo equívoco. Seus Quincas Berro D’água (fez esse personagem em três montagens, em três décadas diferentes, sob o comando de três diretores) são sempre lembrados. Trabalhou com outros tantos diretores, tantos atores, em tantos projetos… seu currículo é tão extenso que é melhor dispensá-lo desse texto, para que haja mais espaço para conversar sobre o homem e o ator.

WILSON MELO em O Cego. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 7.9.1989

A saída de Wilson Melo da cena deixa uma lacuna no teatro baiano. Seu exemplo de dedicação sem vaidades à arte do teatro é seguido por poucos. Mas a morte de Melão deixa-nos também a pensar sobre que tipo de valorização nós, jornalistas, dedicamos às pessoas que constroem a cena artística local.

Wilson Melo era um gigante, assim como Nilda Spencer, João Augusto, Carlos Petrovich e Mário Gusmão, dentre outros, o foram; e Yumara Rodrigues, Harildo Deda, Mário Gadelha, Sônia Robatto, Cleise Menses, Ewald Hackler, dentre outros, o são. Isso falando de teatro, pois ainda há a dança, o cinema, o circo, a música. Com suas histórias, um bom número de artista baianos coloca nosso Estado na história do teatro e das artes do Brasil. Para falar outro exemplo, Nélson de Araújo (morto em 1993) também não é lembrado como merecia, posto que é o autor de um dos mais importantes estudos sobre a trajetória do teatro, no mundo e no Brasil, já publicados por um autor em português. E isso não é culpa de um jornal ou de um programa de tevê; não é culpa de um grupo de pesquisadores ou jornalistas. É resultado, sim, de uma forma adotada tacitamente, em que se ama o que é longínquo, no que não há nenhum pecado, mas se minimiza o poder do que está próximo, e reside aí o erro.

Em tempos nos quais o jornalismo da Bahia segue cada vez mais comandado por pessoas de formação longínqua às nossas fronteiras, e aqui não vai nenhuma crítica, mas uma constatação (e isso acontece na tevê, no rádio e nos impressos), restam as questões, no tangente ao conteúdo: vamos valorizar nossas origens ou nos transformaremos na geleia geral onde qualquer coisa tem o mesmo valor das nossas coisas?; daremos em nossos noticiários espaço àqueles que fazem a diferença dentro de nossas fronteiras ou vamos esperar, da melhor forma provinciana, que alguns desses valores tenham o crivo dos intelectuais, críticos e jornais do Rio de Janeiro e São Paulo para, aí sim, “redescobri-los”?; seremos autênticos valorizando os nossos esforços, nossos talentos e nossas produções, ou adotaremos a postura de sempre dar maior dimensão e valor ao que vem de fora?

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 24.2.1980

Faça uma experiência. Jogue o nome Wilson Melo no Google e veja o que você recolhe. Adianto-me: irá conseguir muito pouco sobre a vasta história desse grande artista, porque, a bem da verdade, nós falamos muito pouco sobre os nossos grandes artistas.

Vejo você mais adiante, amigo Melão. Certa vez, fui um Castro Alves tendo você no papel de Fagundes Varela. Naquela experiência eu, vindo do teatro feito em escolas, comunidades e igrejas, senti-me ator profissional pela primeira vez. Não pelos meus dotes de interpretação (que sempre foram pequenos), não por estar realizando aquela montagem em um teatro com aparato profissional; mas sim porque contracenava com dois verdadeiros atores – Yumara Rodrigues interpretava a atriz Eugênia Câmara, amante de Castro Alves. E se aqueles atores me olhavam tão confiantes, trocavam diálogos tão compenetrados e interessados comigo, acreditavam tanto em mim como parceiro de cena, era porque eu também era ator. Ou estava sendo ator. Tenho ainda hoje a lembrança daquele sentimento que se achegou em meio à cena e isso me fez aprender que não se tem só saudade de pessoas e de fatos; tem-se também saudade de um sentimento.

Ergam-se as taças: um brinde ao grande homem Wilson Melo! E obrigado, Melão.

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*Edson Rodrigues – Jornalista

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WALTER SMETAK – GENTE DA BAHIA

30/05/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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MAIS UM PATRIMÔNIO CULTURAL

BAIANO ESTÁ EM RISCO

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texto de ENIO ANTUNES REZENDE*

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Dia 30 de maio, há 26 anos atrás, falecia Anton Walter Smetak. Apesar de ter nascido em 1913 na Suíça, este violoncelista virtuoso, compositor, luthier, escultor, escritor, inventor de instrumentos e “plásticas sonoras” (cerca de 150); viveu o auge de sua carreira em Salvador, trabalhando como professor na Escola de Música da UFBA desde 1957 até a sua morte, em 1984.

Sua obra inscreve-se em uma linhagem que inclui E. Varèse, J. Cage, A. Schoenberg e J. Carrillo – compositores que tiveram uma contribuição-chave na difusão do atonalismo, dodecafonismo e microtonalismo.

Ao buscar romper com as bases rítmica, harmônica e tonal predominantes na música “erudita” europeia de sua época, e incorporar timbres e outros sons pouco usuais às suas composições, Smetak foi vanguarda na Bahia e da Bahia, pois também integrou de maneira genial a música à escultura.

Focando seus esforços no estudo da atomização microtonal e do “som prolongado” através de instrumentos experimentais produzidos com cabaças e outros recursos naturais nativos – inclusive através de instrumentos produzidos por indígenas brasileiros – Smetak não estava apenas pesquisando novos sons e revalorizando sons tidos como “corriqueiros”. Seu objetivo foi o de ampliar a consciência auditiva dos indivíduos como um passo necessário para o despertar de novas faculdades sensoriais e valores sociais.

Para Smetak a função da música é a de celebrar o presente, não em seu sentido festivo, alienante e reificado da nossa sociedade on line, tão dependente de eventos impactantes sucessivos e cujo efeito principal é ignorar o passado, a própria história e a possibilidade de mudanças no futuro. Ao contrário, a sua forma criativa de celebrar o presente através do exercício musical pode ser entendida como um método revolucionário e necessário para a reinvenção de novas formas de se viver, socialmente mais justas e generosas.

A importância do seu legado é que ele não foi apenas um homem com preocupações estéticas, mas também sociais e espirituais. Afinal, como a expressão musical é a forma de arte mais abstrata, ele acreditava que caberia à nova música dar vazão a um ímpeto criador capaz de plasmar novos homens e também uma nova sociedade.

De Caetano a Gil, passando por Tom Zé, Rogério Duarte e Tuzé de Abreu a genialidade das suas contribuições inspirou e inspira muitos artistas e intelectuais. No entanto, seu legado material está inacessível ao público de hoje, e inclusive, corre sério risco de se perder.

Até 2007, grande parte das suas obras encontrava-se em uma sala da Biblioteca Central da UFBA, mas com o término da Exposição “Smetak – Imprevisto” no Museu de Arte Moderna, a Biblioteca decidiu dar novo uso ao espaço, e não se dispôs a receber o acervo de volta. A única opção restante foi alojá-lo temporariamente em uma sala nos fundos do Museu de Arte da Bahia, uma sala precária, que não oferecia condições minimamente adequadas.

Com as chuvas torrenciais deste inverno soteropolitano a situação agravou-se, e as caixas (molhadas e mofadas) com as obras de Smetak foram levadas em caráter emergencial para o Museu de Arte Moderna.

Esse caráter provisório e mambembe do “depósito” das obras de Smetak revela que há muito pouco o que comemorar nessa data, uma vez que a situação perdura sem qualquer manifestação das autoridades responsáveis, e sendo veladamente consentida com o silêncio dos agentes culturais.

Isso reflete o triste quadro de desvalorização da memória cultural em nosso estado. Afinal, o legado de outros baianos ilustres como Dorival Caymmi Glauber Rocha, Hansen Bahia, Emanoel Araújo e Jorge Amado também padece com a falta de uma política cultural que encampe a preservação e a utilização dos acervos dos nossos grandes artistas.

Não se trata apenas de dar um lugar adequado para estas obras repousarem cristalizadas. Mais do que um gesto político, trata-se de acompanhar o gesto de um conjunto de iniciativas coordenadas e continuadas que lhe deem vida. Boas práticas de gestão do patrimônio cultural que permitam que esses objetos perdurem, sejam apreciados, conhecidos e divulgados por toda a sociedade.

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*Enio Antunes Rezende – Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana

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O CORREDOR DA VITÓRIA SEGUNDO JOLIVALDO

27/05/2010

Foto de CLÁUDIO NIEDERAUER

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O REINO DE SHANGRILÁ

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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Mais de 99 por cento da Bahia não sabe que existe uma praia chamada Shangrilá, em Salvador, e que nem está no mapa, nem no roteiro turístico e nem em nada. A não ser na cabeça dos maconheiros e dos pescadores que a frequentaram nos anos 60 e 70.

Todo mundo sabe da praia da Ribeira, Porto da Barra, Itapuã e até as do Litoral Norte, que já nem pertencem à capital, mas ignoram a lúdica e única praia da cidade que está localizada numa falésia.

Para quem não sabe e nem tem mesmo a obrigação de saber, justamente por não ser tão importante assim ou algo que vá impedir a hora do Harmagedon, a praia fica no logradouro com o metro mais caro da cidade. Está abaixo do Corredor da Vitória, onde hoje estão os mais caros apartamentos e os mais altos edifícios da moderna metrópole.

O Corredor da Vitória foi para onde, no período colonial e principalmente no limiar do século XX, os grandes fazendeiros de cana-de-açúcar, que não queriam passar a vida eternamente de forma bucólica, decidiram montar seus casarões. No final do século vieram os comerciantes franceses, italianos, ingleses e outros alienígenas e montaram casarões coloniais, fugindo das ruas irregulares do centro da cidade.

Ainda restam alguns casarões de importância histórica, mas a maioria absoluta, mesmo se tratando de um importante acervo, um patrimônio histórico, foi destruída pela sanha dos construtores.

Um exemplo recente é o do casarão neocolonial, parecendo daqueles americanos do filme E o Vento Levou, que pertencia ao reputado jornalista Jorge Calmon, que, segundo dizem as más-línguas, foi vendido para uma construtora com a garantia de que a casa seria preservada e o prédio construído na parte de trás. Ainda, segundo dizem por aí, a construtora derrubou o casarão nas madrugadas de um final de semana, decidindo pagar a multa pela nefasta ação, coisa que seria pouco em relação ao faturamento com o projeto. Foi-se a memória, ficaram os granitos da fachada do arranha-céu.

O Corredor da Vitória, que ganhou seu nome de batismo durante o período da guerra da Independência da Bahia – por onde as forças nativas marcharam quando da vitória contra o Exército Português de Madeira de Mello –, sempre foi o sonho de consumo da classe mais abastada da cidade, por sua posição privilegiada.

Fácil acesso às praias da área sul da cidade e próximo ao Centro Histórico. Também com uma paisagem privilegiada, debruçado sobre a Baía de Todos os Santos e com vista para a Ilha de Itaparica, Ilha de Maré, Madre de Deus e subúrbio ferroviário. Uma dádiva.

Abaixo, um imenso paredão de pedras de fogo e vegetação rasteira, com águas límpidas que dá até para ver os cardumes passando. Hoje o acesso para as praias abaixo das escarpas é fácil. Os prédios milionários fizeram piers e montaram chariots que descem sobre trilhos.

Antigamente ninguém tinha coragem de descer. Para chegar lá era preciso vir de barco, saindo do Solar do Unhão, na zona do Comércio ou do Porto da Barra.

Nos anos 60, quando a repressão aos hippies era imensa e fumar maconha dava com a polícia batendo de cassetete de borracha ou “fanta” (cassetete de madeira de lei) no lombo, os chincheiros encontraram o lugar perfeito e foram para lá se juntar a grupos de artistas que já frequentavam o lugar pela sensação de estar fora do burburinho da cidade.

A lenda urbana reza que quem batizou a área de Shangrilá foi o compositor baiano Caetano Veloso.

Carlito Mau Mau, Zé Diabo e Arquimedes Maluco frequentavam a área, descendo pela rua e se arranhando todo nas pedras e nos feixes de tiriricas. Naquele dia Mau Mau levava em sua bolsa de couro curtida e pintada com o símbolo de Paz e Amor um novo tipo de cogumelo que um argentino mais doido ainda tinha dado de presente no Porto da Barra, para fazer chá. Fizeram e provaram. Tirando umas luzes piscantes, uma sensação de dormência na língua e uma comichão que não parava nas pernas, nada demais aconteceu.

Os três moravam no Edifício Apolo XXVIII (o nome em homenagem aos foguetes norte-americanos), na época o maior da cidade com 28 andares, cheio de problemas como elevador que não funcionava e o cara tinha de subir a pé até o último andar para chegar em casa; faltando água, luz cortada e limpeza zero. Saíram do Sahngrilá e decidiram subir a montanha de escadas para apreciar a paisagem do telhado do Apolo.

Talvez pelo esforço, foram chegando e recebendo a rebordosa. O chá começava a fazer seu efeito. O sol, na ótica de Mau Mau, estava parecendo se dissolver como tinta a óleo: escorrendo no horizonte após a Ilha.

Zé Diabo viu passar uma revoada de araras e Arquimedes Maluco decidiu voar atrás. Jogou-se. Deu sorte de cair sobre uma plataforma poucos metros abaixo e ficou lá com o braço quebrado. Pelo susto o efeito passou em todos. Os moradores chamaram os Bombeiros.

Os soldados subiram todos os andares, cheios de equipamentos, retiraram o maluco do local de risco e foram descendo com os três. Os moradores tinham se alinhado nas escadas. Cada degrau um morador.

Os três drogados descendo e levando cascudos, piparotes, piabas, telefone sem fio, cusparadas, chutes, beliscões, ofensas e dedadas no toba, e os bombeiros fazendo de conta que não estavam vendo. Chegaram roxos até o andar onde moravam.

Por coincidência, depois disso nunca mais o Shangrilá voltou a ser frequentado. A loucura deles chamara a atenção da imprensa e a polícia passou a dar batidas e colocar para correr qualquer um que não fosse morador da área.

Hoje, os três, pessoas bem situadas na sociedade baiana, garantem que não lembram da história. Juram por Senhor do Bonfim que não foi com eles.

E ninguém, no edifício, se lembra do caso. A praia de Shangrilá não é mais a mesma. Está cercada de edifícios cujos apartamentos valem milhões de dólares.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista e escritor

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Que viva São João, mas salvem o Pelô

26/05/2010

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texto de zédejesusbarrêto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Acho correta a posição do IPHAN de não permitir grandes palcos no Terreiro de Jesus, no Largo do Pelô e também no Farol da Barra. Muito menos na Praça da Sé, entre o Palácio Arquiepiscopal e o Memorial das Baianas, encobrindo o monumento da Cruz Caída, obra genial de Mário Cravo que, parece, os baianos nem se deram conta.

O Pelourinho, o nosso Centro Histórico tem de ser revitalizado de outra maneira, valorizando sua cultura, sua gente, seus fazeres, templos, casarões, ritmos… Até cabem, aqui e ali, shows, ambientações, espetáculos, tudo dentro dos conformes.

Pode ter batuques sim, contanto que não daqueles de derrubar pilastras. Pode ser jazz, blues, reggae, ijexá, samba-reggae, sim. Cabe, sim, o bom forró pé-de-serra e temos também, sim, bons artistas que podem atrair público como Ademário Coelho, Virgílio, Fechinne, Amazon, Targino, Bule-Bule, um Xangai… entre tantos outros, também de fora.

Mas não precisa levar banda e potência de trio elétrico pra lá, pelamôdedeus! Chega de zoadeira, de pancadão o ano inteiro em todo o lugar, até nos fundos dos carros, furando os ouvidos!

São João é, sempre foi diferente. Ué, agora, pelaqui, pra se atrair gente… tudo tem de virar carnaval… por quê? Quem estabeleceu isso? Os grandes palanques acabaram com o carnaval do interior. Em Cruz das Almas um tal ‘Forró do Bosque’ (é isso?) detonou a festa, é só molecada, zoeira e violência. E assim por diante, sertão afora, feito uma tsunami do barulho.

Meteram na cabeça, de uns tempo pra cá, que São João tem de ter guitarras elétricas, teclados plugados, banda pesada, aquelas mulheres exibindo os fundos das calcinhas, machos duvidosos ciscando, tudo a pretexto de um forró moderninho, agudíssimo e com letrinhas fáceis. Estilo Mastruz com Leite, Calcinha Preta… uma praga. Ninguém mais se lembra de Luís… o gênio Gonzagão. Sem ele, o forró nem existiria. Acabaram com o baião, o xote, o xaxado, o resfolego do pé-de-bode, o rasta-pé. Tá tudo estilizado, plastificado, poluído.

A indústria nordestina do forró eletrônico vem dominando tudo, impondo, exigindo, destroçando… Pois, não aqui no Pelô! São João é roça, é reza, novena, cantoria, é fogueira, comida gostosa, sanfoninha chorada, é rela-bucho, é arraiá, licor de jenipapo, namorico, alegria, noite úmida quente de fogos e viva Xangô menino!

Ninguém quer ver o Pelourinho esvaziado, desmotivado, muito pelo contrário. Mas é preciso se pensar o que realmente cabe e valoriza aquele espaço rico e diferenciado da cidade.

E vamos cuidar do nosso patrimônio cultural, arquitetônico com carinho, antes que tudo desmorone de uma vez, como aliás já vem ocorrendo. Dos prédios e das pessoas (moradores, empresários, trabalhadores, visitantes, perambulantes…).

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Então, que sejam criados novos espaços na cidade para essas grandes festas de patrocinadores, que arrastam a massa sem cérebro. Vão lá para a área do antigo aeroclube, na Boca do Rio, sem serventia. Ou Parque de Exposições. Né dinheiro que querem?

Mas não no Pelô, não diante das centenárias igrejas, não derrubando a Cruz Caída, não rachando o Farol da Barra, um marco, não entupindo de lixo as águas plácidas do Porto da Barra! Parem com isso! Respeitem a Bahia!

Palmas para o IPHAN.

E vamos abrir os olhos, prefeitura, governo, autoridades… senão os empresários gananciosos enchem o rabo de dinheiro derrubando tudo pela frente. Vêm fazendo isso já há algum tempo, cada dia mais audaciosos e gritando alto.

 

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Microconto:

Atirou-se do oitavo, corpo estendido. Escondera de todos a avassaladora paixão. Cada novo encontro era um salto no desconhecido.

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (19mai/2010)

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