DORIVAL CAYMMI, O BUDA BAIANO

Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

(Há um ano da morte de Dorival Caymmi, vale a pena ler de novo o texto escrito por zédejesusbarrêto ao receber a triste notícia, quando morava em Angola)


por ZÉDEJESUSBARRÊTO


Em Luanda, do outro lado do Atlântico, fico a saber da morte de Dorival Caymmi, aos 94 anos.

Talvez o último dos grandes ícones da tal baianidade, atributo que ele carregava na cor da pele mulata, preservava na pose e na pança de Xangô-rei, no vagar, no dengo e na doçura de seu olhar, de seus gestos, de suas palavras, de seu sorriso.

Caymmi era um gênio.

Nos anos 30, com voz grave e afinada, acompanhado de seu violão dolente já mostrava ao mundo ‘o que é que a baiana tem’.

E no seu rastro de som e molejo vieram todos… Jorge, Carybé, Verger…

Ah! Deve estar uma festança no céu. Jobim ao piano.

Certo dia, numa entrevista, acossado pelos jornalistas que babavam sua genialidade, o maestro Jobim falou:

A música é Caymmi, Caymmi é a música e eu não seria músico se não fosse Caymmi’.

Basta? Tom Jobim!

Não, não basta.

Nos anos 70, entrevistando João Gilberto, o chamado papa da bossa-nova, ele disse:

Tirem os olhos de mim, que eu nada sou além de um tocador de violão.

O gênio se chama Caymmi. Então, vão ouvi-lo, vão entrevistá-lo.

Ele é o mestre, ele é a música’.

João Gilberto!

A última vez que o vi, um buda baiano, de branco, sentado e lento, foi na roça sagrada do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro ketu/nagô de São Gonçalo do Retiro dedicado a Xangô.

Ele era Obá, ministro de Xangô. Como o compadre Jorge. Como o compadre Carybé.

Dormiram na mesma esteira, cabeças sagradas aos Orixá, irmãos todos de Mãe Stella de Oxóssi, sacerdotisa dessa terra-mãe que é hoje a mais africana de todas as cidades, pelo mistério que preserva nos seus candomblés, que, do lado africano do Atlântico já nem se ouve mais falar.

Caymmi era mais do que um músico. Foi um signo.

Um revolucionário, sim senhor! Ele mudou a música brasileira com seu violão de mar.

E projetou a baianidade no mundo, via Carmen Miranda e o cinema americano.

Como escreveu outro baiano, João Ubaldo Ribeiro,

Caymmi era um fazedor de beleza’.

Ia além das canções. Pintor de traços e cores precisas, um grande contador de histórias, proseador, sedutor…

Cantou o povo, o andar, a ginga da gente baiana, o requebro das cadeiras da fêmea, a mistura, o jeito da mulatice, o som das ruas e senzalas, a conversa e a labuta dos homens do mar, do cais, o ir e vir das ondas, os mistérios do reino de Aiocá, o vento na palha dos coqueiros, o balanço das velas dos saveiros, o xaréu, as crenças, o rabo de arraia dos capoeiras, as festanças, o samba no pé e na bunda, a alegria de viver baiana, os tambores nagôs, as mandingas de Angola, os mistério dos caboclos e encantados…

O violão de Caymmi era recôncavo.Dorival - capa LP 101208 FOTO18

Seu canto, maresia, daquela que varre a sujeira e deixa o ar da Cidade da Bahia tão puro e limpo como as nuvens brancas de Oxalá.

Caymmi era luz, azul como o céu e brilhoso como o mar de Todos-os-Santos.

A Bahia inteira, agora, deve curvar-se ao chão perante o Universo e agradecer…

Por ele.

Como agradecemos agora, a Olorum, por ter nos dados a graça de ter nascido no mesmo espaço e no tempo em que viveu o mestre Dorival Caymmi.

Agradeçamos ao Criador pela graça de tê-lo ouvido.

Amém.

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3 Respostas to “DORIVAL CAYMMI, O BUDA BAIANO”

  1. LOURENÇO MUELLER Says:

    Não conhecia esse artigo do zdjb. Faz jus a Caymmi.
    Eu só sei uma letra de música inteira e certa na vida e é a única que consigo cantar, é João Valentão, com quem me identifico…

  2. katherinefunke Says:

    na ocasião não comentei, mas aproveito a releitura para apreciar o texto com mais vagar e parabenizar o autor pela bela síntese; perfeita e justa. um abraço…

  3. Roque S. de Souza Says:

    O “Moço da Bahia” era com certeza tudo isso e um pouco mais que só se pode encontrar nos murundus dos queixumes das baianas! Viveu com a competência de criador que os orixás lhe presentearam. E assim compôs e cantou a beleza e as peripécias da gente da “Boa Terra”.

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