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PRA SALVAR YEMANJÁ – BAIANICES

01/02/2010

Casa de Yemanjá, no Rio Vermelho, Salvador (BA). Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde - 1.2.2010. Seleção de fotos deste post por CRISTIANO PARAGUASSU

É dois de fevereiro

Dia de festa no mar

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texto de zedejesusbarreto

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Escreveu, musicou e cantou o mestre Dorival Caymmi, amado e amante dos mistérios femininos do mar da Bahia (os franceses chamam de La Mer, já que o mar é fêmea):
(Vídeo do YouTube produzido especialmente para o blog SALVADOR NA SOLA DO PÉhttp://salvadornasoladope.blogspot.com/)

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Dia Dois

de Fevereiro

Dia de festa no mar

Eu quero ser o primeiro

pra salvar Yemanjá

Escrevi um bilhete pra ela

pedindo pra ela me ajudá

Ela então me respondeu

Que eu tivesse paciência de esperar

O presente que eu mandei pra ela

De cravos e rosas, vingou.

Chegou! Chegou! Chegou!

Afinal que o dia dela chegou.

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Presentes para Yemanjá depositados no Barracão ao lado da Casa do Peso, no Rio Vermelho. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

Contam os mais velhos que a festa do dia 2 de fevereiro, nos mares da Bahia, teve origem na segunda década do século passado, após um período de pouco peixe nas águas e nas linhas e redes de pesca dos homens do mar. Daí, pescadores da Colônia do Rio Vermelho, ligados ao culto afrobaiano fizeram promessas à Deusa das Águas, bateram atabaques, dançaram, cantaram e arriaram presentes no mar pedindo proteção e fartura. Dali em diante, a pesca foi farta e a festa virou tradição, com o povo em romaria fazendo seus pedidos, agradecendo e deixando seus presentes nos balaios para que os pescadores levassem ao alto mar, em homenagem a ela, Iemanjá, Janaína, Princesa de Aiocá… A Rainha do Mar de tantos nomes cultuada em várias partes do planeta desde as antiguidades.

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Minha Sereia, Rainha do Mar

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Pierre Fatumbi Verger, em seu livro ‘Orixás’, necessária abordagem sobre a religiosidade afrobaiana, ensina que o nome Yemanjá deriva de Yèyé omo ejá (‘Mãe cujos filhos são peixes’), orixá ou divindade dos Egbá, uma nação de língua iorubá que viveu na região entre Ifé e Ibadan onde fica o rio Yemoja – África sub-saariana, atual Nigéria.

Mas, no início do século XIX, as constantes guerras entre nações iorubás levaram os Egbá a emigrar na direção oeste, para Abeokutá, cidade onde há um templo dedicado a Iemanjá, divindade cultuada no Brasil e em Cuba.

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Seu axé é assentado sobre pedras marinhas e conchas, guardadas numa porcelana azul. O sábado é o dia da semana que lhe é consagrado, juntamente com outras divindades femininas. Seus adeptos usam colares de contas de vidro transparentes e vestem-se, de preferência, de azul claro’.

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Manifestada em suas iaôs, Iemanjá dança imitando as ondas do mar e é saudada aos gritos de ‘Odò Iyá!’. No Brasil é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Integrantes do afoxé Filhos de Gandhy levam os presentes para os barcos. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

Festa de Pescador

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Sobre a festa popular do Rio Vermelho, Pierre Verger a fotografou nos anos 1950 e também a descreveu, assim:

A festa do dia 2 de fevereiro é uma das mais populares do ano, atraindo à praia do Rio Vermelho uma multidão imensa de fiéis e de admiradores da Mãe das Águas. Iemanjá é frequentemente representada sob a forma latinizada de uma sereia, com longos cabelos soltos ao vento. Chamam-na, também, Dona Janaína ou, mesmo, Princesa ou Rainha do Mar.

Neste dia, longas filas se formam diante da porta da pequena casa construída sobre um promontório, dominando a praia, no local onde, nos outros dias do ano, os pescadores vêm pesar os peixes apanhados durante o dia. Uma cesta imensa (balaio) foi instalada de manhã, logo cedo, e começa então um longo desfile de pessoas de todas as origens e de todos os meios socais, trazendo ramos de flores frescas ou artificiais, pratos de comida feitas com capricho, frascos de perfumes, sabonetes embrulhados em papel transparente, bonecas, cortes de tecidos e outros presentes agradáveis a uma mulher bonita e vaidosa. Cartas e súplicas não faltam, nem presentes em dinheiro, assim como colares e pulseiras. Tudo é arrumado dentro da cesta, até que, no final da tarde, ela está totalmente cheia com as oferendas, as flores colocadas por cima.

O presente para Iemanjá, transformado numa imensa corbelha florida, é retirado com esforço da pequena casa e levado, em alegre procissão, até a praia, onde é colocado num saveiro. O entusiasmo da multidão chega ao seu máximo; não se escutam senão gritos alegres, saudações a Iemanjá e votos de prosperidade futura. Uma parte da assistência embarca a bordo dos saveiros, barcos e lanchas a motor. A flotilha dirige-se para o alto-mar, onde as cestas são depositadas sobre as ondas.

Segundo a tradição, para que as oferendas sejam aceitas, elas devem mergulhar até o fundo, sinal de aprovação de Iemanjá. Se elas boiarem e forem devolvidas à praia, é sinal de recusa, para grande tristeza e decepção dos admiradores da divindade’

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A tradição popular baiana, com todas as manifestações de fé, continuam preservadas, a despeito dos interesses turísticos e das velozes transformações desses tempos digitais. Muitos terreiros de candomblé fazem alvorada de fogos, cumprem rituais, arriam oferendas para Oxum nas águas doces e, depois, os adeptos vão às praias em romaria para entregar seus presentes e pedidos a entidade que habita as águas do mar.

Na colônia de pescadores do Rio Vermelho os atabaques batem desde o amanhecer. São entoados cantos em iorubá, banto e ijexá, os iniciados dançam e alguns incorporam o Orixá. Nesse dia de verão, Salvador praticamente para. A multidão, cada ano maior, faz festança nas ruas do bairro repletas de barracas, varando a madrugada.

É festa de rua da Bahia.

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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Re-ouvindo Caymmi:

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Minha sereia, rainha do Mar

O canto dela faz admirar

Minha sereia é moça bonita

Nas ondas do mar aonde ela habita

(Oh! Tem dó de ver o meu penar)

– Minha Sereia!

– Rainha do Mar …

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Os nomes de Iemanjá

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No extraordinário romance ‘Mar Morto’, Jorge Amado assim escreveu:

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Iemanjá, que é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes.

Cinco nomes doces que todo mundo sabe. Ela se chama Iemanjá, sempre foi chamada assim e esse é seu verdadeiro nome, de dona das águas, de senhora dos oceanos.

No entanto os canoeiros amam chamá-la de Dona Janaína, e os pretos, que são seus filhos mais diletos, que dançam para ela e mais que todos a temem, a chamam de Inaê, com devoção, ou fazem suas súplicas à Princesa de Aiocá, rainha dessas terras misteriosas que se escondem na linha azul que as separa de outras terras.

Porém, as mulheres do cais, que são simples e valentes… as mulheres da vida, as mulheres casadas, as moças que esperam noivos, a tratam de Dona Maria, que Maria é um nome bonito, é mesmo o mais bonito de todos, o mais venerado, e assim dão a Iemanjá como um presente, como se lhe levassem uma caixa de sabonetes à sua pedra no Dique.

Ela é sereia, é a mãe-d’água, a dona do mar, Iemanjá, Dona Janaína, Dona Maria, Inaê, Princesa de Aiocá. Ela domina esses mares, ela adora a lua, que vem ver nas noites sem nuvens, ela ama as músicas dos negros’…

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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Caminhos do Mar

(Essa canção que segue foi tema da novela ‘Porto dos Milagres’, da Tv Globo, inspirada em Mar Morto, romance de Jorge Amado; é uma composição de Dorival Caymmi, de seu filho Danilo e de Dudu Falcão):

Rainha do Mar

Yemanjá, Odoiá,

Odoiá, rainha do mar

Iemanjá, Odoiá

Odoiá, rainha do mar

O canto vinha de longe

De lá do meio do mar

Não era canto de gente

Bonito de admirar

O corpo todo estremece

Muda a cor do céu, do luar

Um dia ela ainda aparece

É a rainha do mar

Iemanjá, odoiá, odoiá, rainha do mar

Iemanjá, odioá, odoiá, rainha do mar

Quem ouve desde menino

Aprende a acreditar

Que o vento sopra o destino

Pelos caminhos do mar

O pescador que conhece

As histórias do lugar

Morre de medo e vontade

De encontrar Iemanjá

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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zedejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (autor dos textos dos livros ‘Carybé & Verger – Gente da Bahia’ e do seguinte ‘Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia’, da trilogia ‘Entre Amigos’, criada pela Fundação Pierre Varger e pela Solisluna Design Editora, lançados em 2008 e 2009.)

30jan/2010.

CARYBÉ, VERGER E CAYMMI – MAR DA BAHIA

28/11/2009

A Fundação Pierre Verger, a PricewaterhouseCoopers (PwC) e a Solisluna Design Editora vão lançar, em Salvador, o segundo livro da trilogia Entre Amigos, Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, no dia 2 de dezembro, às 19h, no Palacete das Artes, em Salvador (BA). O livro celebra a arte e, sobretudo, a grande amizade entre esses personagens e criadores do século XX que escolheram a Bahia e o jeito de viver de sua gente como motivo e cenário para suas obras.

O mar da Bahia foi o grande inspirador, quiçá uma fonte de encantamento determinante para as artes, odes de amor à terra e ao povo baiano dessas três personalidades de origens distintas, mas com olhares e percepções convergentes: o fotógrafo e pesquisador francês Pierre Verger; o argentino-baiano pintor de múltiplos fazeres Carybé e o músico baiano, também pintor nas horas vagas, Dorival Caymmi.

É um orgulho e uma honra apresentar esse trabalho sobre os três baianos fundamentais que desenharam, fotografaram e cantaram a Bahia de uma forma indelével – afirma Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger.

Em Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, o leitor irá perceber o colorido das fotos em preto e branco da velha rolleiflex do gênio Verger, bem como toda a riqueza dos traços singulares de Carybé, prenhes de movimento e poesia que retratam o cotidiano da época em que as velas dos saveiros enfeitavam o azul das águas da Baía de Todos os Santos e ainda se presenciava a pesca do xaréu nas praias do litoral norte da histórica Salvador. Tudo isso embalado pelas magníficas canções praieiras de Caymmi, poesia pura na sua voz grave e num violão com sonoridade de ondas na praia.

Não é um livro de arte, e sim da amizade entre três artistas – define bem o editor Enéas Guerra, idealizador da publicação da série Entre Amigos e responsável pela concepção, edição e design do livro.

Do ponto de vista editorial, o texto indica os caminhos que levarão o leitor ao encontro dos três personagens e suas criações em torno da magia do mar.

A ideia do escrito é incitar o leitor a vivenciar como foi a intensa relação entre eles e relatar, de forma leve e bem humorada, os encontros, as curiosidades e os olhares convergentes destes símbolos da baianidade – conta o jornalista José de Jesus Barreto[*], autor do texto que é fundamentado em pesquisas do acervo da Fundação Pierre Verger, da família Carybé, entrevistas e depoimentos.

Capa do livro “Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia”

O diálogo das imagens captadas pela rolleiflex de Verger e pelos traços de Carybé, produzidos entre os anos 40 e 60 do século passado, está cerzido pelos poemas de Caymmi.

O pescador cantado por Caymmi é o mesmo fotografado por Verger, desenhado por Carybé. Os saveiros que chegam e saem do cais e rasgam as águas da baía, as festas para Iemanjá, o Bom Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição da Praia servem de inspiração para as canções-poemas, as pinturas e as fotos dos artistas – conteúdo desse trabalho.

O mar é o caminho, elo, destino e musa. O livro pretende ser uma celebração de amizade e da criação deles diante dos mistérios do reino de Iemanjá.

Como o primeiro volume Carybé & Verger – Gente da Bahia, lançado em 2008, o volume dois Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia é um projeto editorial da Solisluna Design Editora e Fundação Pierre Verger, que contou, desta vez, com o apoio da PricewaterhouseCoopers. A concepção, edição e design ficaram a cargo de Enéas Guerra e Valéria Pergentino. A redação do texto é de José de Jesus Barreto.

A apresentação musical de Marilda Santana cantando canções compostas por Dorival Caymmi vai embalar o lançamento do segundo volume. O evento terá a presença ilustre da esposa de Carybé, Nancy Bernabó, e seus filhos Solange e Ramiro, além do sócio-presidente da PwC, Fernando Alves, e do presidente da Fundação Pierre Verger, Gilberto Sá.

O livro estará à venda em todas as livrarias do Brasil por R$ 90, porém no dia do lançamento sairá pelo preço promocional de R$ 70.

No dia 9 de dezembro, será a vez de São Paulo lançar a obra, na Livraria da Vila, no Shopping Cidade Jardim, às 19h30. O terceiro livro desta Trilogia já está confirmado para o ano que vem e terá como tema o Candomblé.

A Baía de Todos os Santos desenhada por Carybé e fotografada por Verger, nas páginas 30 e 31 do livro que será lançado em Salvador nesta quarta-feira 2 de dezembro e em São Paulo uma semana depois, no dia 9

O encontro

Salvador é uma cidade-porto, eterno cais. Tanto geográfica quanto historicamente, esta Cidade da Bahia é filha do mar, nele foi gerada. Construída e fundada sobre uma nesga de terra que adentra o oceano, no abrigo das águas mornas da Baía de Todos os Santos, a cidade tem suas portas abertas para o Atlântico.

Nessa terra, o mar é começo de tudo, caminho sem fim, poço de fartura, infinito azul de mistérios, tormentas, magia e beleza. O povo desse pedaço de mundo foi gerado e forjado, por séculos, na quentura, no aconchego e rebuliço de suas águas.

Na década de 30 do século XX, o jovem mulato Caymmi pegou um Ita no porto de Salvador e foi parar no Rio de Janeiro, a capital cultural e política do país, no intuito e sonho de cantar o mar, as coisas de sua terra e o jeito de sua gente. Carybé conheceu Caymmi no final dos anos de 1930, no Rio. Verger conheceu Carybé em 1946, também no Rio. O interesse comum pelas coisas da Bahia e o amor ao belo os uniram.

Em Salvador, no final de 1946, o fotógrafo Verger e o músico Caymmi se encontraram diante da luz e do intenso azul do mar. Os três, amigos, irmãos baianos confirmados no Ilê Axé Opô Afonjá, o terreiro keto-nagô de São Gonçalo do Retiro, reino de Xangô, acolhidos por Mãe Senhora, e depois por Mãe Stella de Oxóssi.


*NOTA DO EDITOR – O autor do texto dos dois primeiros livros da série Entre Amigos é o nosso zédejesusbarrêto, conselheiro editorial e colaborador do blog Jeito Baiano.


EXALTAÇÃO À BAHIA E OS BAIANOS

21/11/2009

Meu grande amigo e mestre MONIZ BANDEIRA – ou Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, como prefere ser identificado (porque existem outros Moniz Bandeira e ele é Luiz Alberto) –, baiano retado, descendente da mais tradicional família da Bahia, cujo primeiro representante chegou junto com Tomé de Souza, embora ele mesmo, o meu amigo Moniz Bandeira, tenha nascido para ser gauche na vida, um crítico radical da sociedade capitalista, historiador com doutoramento em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, professor titular (aposentado) da Universidade de Brasília, autor de mais de 20 livros (Formação do Império Americano é o que lhe deu maior prestígio internacional), residente há muitos anos na Alemanha, me dá a honra de incluir em sua lista de e-mails das pessoas mais chegadas, para as quais ele repassa tudo o que recebe ou colhe de interessante na Internet. Desta vez Moniz enviou um texto – assinado no final por ARNALDO JABOR – que parece ter sido escrito especialmente para o blog Jeito Baiano.

A pessoa que o enviou a Moniz Bandeira, Samuel Nascimento, põe em dúvida a sua autoria. Será que é mesmo Arnaldo Jabor quem o escreveu? Não importa por hora, com o tempo isso será esclarecido. Importa é que o texto é um primor, capaz de emocionar qualquer baiano ou pessoa apaixonada pela Bahia. O texto enviado por Moniz Bandeira chegou assim, precedido de uma ressalva do remetente original:

“De samuel nascimento: **(duvido da exatidão da autoria, mas como celebra com carinho a BAHIA que eu amo… socializo)”

Fiz, porém, uma pesquisa no Google e constatei que o texto é realmente de Arnaldo Jabor e foi publicado no jornal O Globo em 1º de fevereiro de 2005.


BAHIA, O LUGAR IDEAL


(O colunista em crise não consegue voltar das férias)


por ARNALDO JABOR

Não consigo ir embora da Bahia.


Acabaram minhas férias e continuo aqui.


Mesmo que eu viaje depois do Carnaval, levarei a Bahia comigo.


Não se trata de louvá-la; quero entendê-la, não com a cabeça, mas com o corpo, com as mãos, com o nariz, entender como um cego apalpa um objeto, entender por que este lugar é tão fortemente estruturado em sua aparente dispersão.


Aí, descubro que, ao contrário, a Bahia me ajuda a “me” entender. Não sou eu quem olha; a Bahia que me olha de fora, inteira, sólida, secular, a paisagem me olha e fica patente minha alienação de carioca-paulista, fica evidente meu isolamento diante da vida, eu, essa estranha coisa aflita que está sempre entre um instante e outro, sem nunca ser calmo, inconsciente e feliz como um animal.


Na Bahia, vejo-me neurótico, obsessivo, sempre em dúvida, ansioso.


Gostaria de estar na praia de Buraquinho, quieto, dentro do mar, como um peixe, como parte da geografia e não fora dela.


Ninguém aqui se observa vivendo. Salvador não é uma “cidade partida” como é o Rio, nem a cidade que expele seus escravos, como São Paulo, que um dia será castigada, estrangulada por sua periferia.


Aqui, de alguma forma misteriosa, os pobres e negros, mesmo sem posses, são donos da cidade.


A cultura africana que chegou nos navios negreiros, entre fezes e sangue, parece ter encontrado a região “ideal” neste promontório boiando sobre o mar, batido de um vento geral, para fundar uma cidade erótica e religiosa, plantada nos cinco sentidos, fluindo do corpo e da terra.


Os casarios subiram os montes, desceram em vales por necessidades dos colonos e dos escravos do passado, o espaço urbano foi desenhado pelo desejo dos homens.


A Bahia foi o lugar perfeito para a África chegar.


Tudo se sincretiza, natureza e cultura.


Espírito e matéria se unem como um bloco só, amores e vinganças fluem no sangue dos galos e dos bodes, esperanças queimam nas velas de sete dias, todas as coisas se amontoam num grande procedimento barroco de não deixar vazio algum, nada que sobre, que fique de fora, nada que isole matéria e gente.


Os deuses não estão no Olimpo; são terrenos e florestas, estão na rua, no dendê, dentro da planta.


Consciência e realidade não se dividem, o povo e o mundo são a mesma coisa, e isso aplaca as neuroses, as alienações das megacidades onde o homem é um pobre diabo perdido no meio dos viadutos.


Como nas fotos do Mário Cravo Neto, tudo se une em um só bloco: o alvo pato e a mão negra, a mulher nua e a pedra, o nadador, o sol e a água, as frutas, os cestos e as bocas, as plantas e os pés, os búzios e os segredos, os santos e os orixás, as mãos e o tambor, a fome e a carne, o sexo e a comida.


Tenho uma espécie de inveja e saudade desta cultura integrada, dessa sociedade secreta que vejo nos olhares das pessoas falando entre si, uma língua muda que não entendo, tenho inveja da palpabilidade de suas vidas materiais, tenho inveja da grande tribo popular que adivinho nos becos e ladeiras, das pessoas que riem e dançam
nas beiras de calçada, que se amam na beira do mar, tenho inveja desta cultura calma que vive no “presente”, coisa que não temos mais nas “cidades partidas”, sem passado e com um futuro que não cessa de não chegar.


Nesta época maníaca e americana, que se esvai sem repouso, aqui há o ritmo do prazer, a “sábia preguiça solar” de que falou Oswald e que Caymmi professa.


A civilização que os escravos trouxeram criou esta “grande suavidade”, este mistério sem transcendência, este cotidiano sem ansiedade, esta alegria sem meta, esta felicidade sem pressa. Aqui a cultura vem antes da lei.


Aqui o soldado na guarita é um negro com passado e orixás, dentro da roupa de soldado.


O bombeiro, o vendedor, o pescador, o vagabundo se comunicam e existem antes das roupagens da sociedade.


Até se travestem, se fantasiam deles mesmos nos horrendo
resorts caretas da burguesia, mas não perdem a alma para o diabo, defendidos pela vigilância de seus Exus.


A sinistra modernidade tenta adquirir a Bahia, possuí-la, apropriar-se das praias, das ilhas, dos panoramas.


Mas mesmo o progresso urbano e tecnológico aqui fica domado de certo modo pela cultura, que resiste a esses embates.


Os balneários turísticos aqui me parecem meio patéticos, meio Miami na vivência luxuosa dos acarajés, camarões e
uísques trazidos por serviçais iaôs e mordomos de cabeça feita.


Aqui não se veem os rostos torturados dos miseráveis do Rio e São Paulo: a pobreza tem uma religião terrena costurando tudo.


As festas do ano inteiro não são diversionistas, orgiásticas, para “divertir” – são para integrar. As festas têm uma
religiosidade pagã, sem sacrifícios, sem asceses torturadas de olhos virados para o céu.


Nada sobrou do barroco europeu sofrido; prosperou o barroco gordo, pansexual, com as frutas, os anjinhos nus, os refolhos e os européis invadindo o convulsivo barroco da contra-reforma, com as curvas carnavalescas nas igrejas cheias de cariátides peitudas, sexies, gostosas, como as mulatas do Pelourinho.


Não é uma sociedade, mas um grande ritual em funcionamento.


O Brasil aflito, injusto, imundo, inóspito devia aspirar a ser Bahia. Aqui dá para esquecer o jogo sujo do Congresso em
Brasília, revelando a face oculta dos bandidos com imunidade, emporcalhando a democracia, aqui você não morre afogado na enchente da marginal do Tietê, nem o Ronaldinho é assaltado com revólver na cabeça.


Não conheço lugar mais naturalmente democrático.


E, por isso, não consigo ir embora.


Vou comprar uma camiseta “NO STRESS” e ficar
bebendo um
frappé de coco para sempre.


Arnaldo Jabor – Porto da Barra – Salvador / BAHIA


DORIVAL CAYMMI, O BUDA BAIANO

17/08/2009
Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

(Há um ano da morte de Dorival Caymmi, vale a pena ler de novo o texto escrito por zédejesusbarrêto ao receber a triste notícia, quando morava em Angola)


por ZÉDEJESUSBARRÊTO


Em Luanda, do outro lado do Atlântico, fico a saber da morte de Dorival Caymmi, aos 94 anos.

Talvez o último dos grandes ícones da tal baianidade, atributo que ele carregava na cor da pele mulata, preservava na pose e na pança de Xangô-rei, no vagar, no dengo e na doçura de seu olhar, de seus gestos, de suas palavras, de seu sorriso.

Caymmi era um gênio.

Nos anos 30, com voz grave e afinada, acompanhado de seu violão dolente já mostrava ao mundo ‘o que é que a baiana tem’.

E no seu rastro de som e molejo vieram todos… Jorge, Carybé, Verger…

Ah! Deve estar uma festança no céu. Jobim ao piano.

Certo dia, numa entrevista, acossado pelos jornalistas que babavam sua genialidade, o maestro Jobim falou:

A música é Caymmi, Caymmi é a música e eu não seria músico se não fosse Caymmi’.

Basta? Tom Jobim!

Não, não basta.

Nos anos 70, entrevistando João Gilberto, o chamado papa da bossa-nova, ele disse:

Tirem os olhos de mim, que eu nada sou além de um tocador de violão.

O gênio se chama Caymmi. Então, vão ouvi-lo, vão entrevistá-lo.

Ele é o mestre, ele é a música’.

João Gilberto!

A última vez que o vi, um buda baiano, de branco, sentado e lento, foi na roça sagrada do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro ketu/nagô de São Gonçalo do Retiro dedicado a Xangô.

Ele era Obá, ministro de Xangô. Como o compadre Jorge. Como o compadre Carybé.

Dormiram na mesma esteira, cabeças sagradas aos Orixá, irmãos todos de Mãe Stella de Oxóssi, sacerdotisa dessa terra-mãe que é hoje a mais africana de todas as cidades, pelo mistério que preserva nos seus candomblés, que, do lado africano do Atlântico já nem se ouve mais falar.

Caymmi era mais do que um músico. Foi um signo.

Um revolucionário, sim senhor! Ele mudou a música brasileira com seu violão de mar.

E projetou a baianidade no mundo, via Carmen Miranda e o cinema americano.

Como escreveu outro baiano, João Ubaldo Ribeiro,

Caymmi era um fazedor de beleza’.

Ia além das canções. Pintor de traços e cores precisas, um grande contador de histórias, proseador, sedutor…

Cantou o povo, o andar, a ginga da gente baiana, o requebro das cadeiras da fêmea, a mistura, o jeito da mulatice, o som das ruas e senzalas, a conversa e a labuta dos homens do mar, do cais, o ir e vir das ondas, os mistérios do reino de Aiocá, o vento na palha dos coqueiros, o balanço das velas dos saveiros, o xaréu, as crenças, o rabo de arraia dos capoeiras, as festanças, o samba no pé e na bunda, a alegria de viver baiana, os tambores nagôs, as mandingas de Angola, os mistério dos caboclos e encantados…

O violão de Caymmi era recôncavo.Dorival - capa LP 101208 FOTO18

Seu canto, maresia, daquela que varre a sujeira e deixa o ar da Cidade da Bahia tão puro e limpo como as nuvens brancas de Oxalá.

Caymmi era luz, azul como o céu e brilhoso como o mar de Todos-os-Santos.

A Bahia inteira, agora, deve curvar-se ao chão perante o Universo e agradecer…

Por ele.

Como agradecemos agora, a Olorum, por ter nos dados a graça de ter nascido no mesmo espaço e no tempo em que viveu o mestre Dorival Caymmi.

Agradeçamos ao Criador pela graça de tê-lo ouvido.

Amém.

SALVADOR, MAIS DE CEM ANOS DE SOLIDÃO

29/03/2009

Hoje, 29 de março, aniversário de Salvador, cidade que há 22 anos abriga este migrante, paulistano de nascimento, invoco palavras de dois expoentes baianos da minha geração: Antonio Risério e Waly Salomão, dois dos principais responsáveis (ou culpados?) por esta minha diáspora.

De Risério cito textos que dão pistas para penetrarmos nos mistérios da Cidade da Bahia, de um ponto de vista ao mesmo tempo historiográfico, antropológico e poético. Resumo o que apreendi em mais de 30 anos de conversas com Risério e leitura de seus livros: a maneira original de ser dos baianos foi cultivada durante mais de cem anos de solidão, depois que a capital do Brasil Colônia foi transferida para o Rio de Janeiro e coincidindo com o período em que o Recôncavo Baiano foi inundado por escravos africanos de etnia iorubana, que puderam conservar e recriar sua cultura. Daí surgiu uma miscigenação luso-africana-indígena sem igual, formando um patrimônio de civilização precioso para o Brasil e toda a humanidade.

De Waly (jamais escrevam Waly com dupla letra ele; Waly ficava fera quando via seu nome escrito errado: “Waly vem do árabe Walid!”, berrava, voz de trovão, entortando a bocarra, olhos faiscantes), lembro poema sobre a cidade em que ele incorporou à sua maneira o Boca do Inferno Gregório de Mattos. Waly dizia que a Cidade da Bahia tinha de se decidir entre dois caminhos: ou se deixar levar por onde a estão levando, tornar-se um mero balneário de luxo, ou se assumir como civilização original mestiça capaz de dar um novo norte ao mundo.

Comecemos com Risério.

CAMINHO DA SOLIDÃO

(subtítulo do capítulo  “À Margem da Margem”, do livro “Uma Histórida da Cidade da Bahia” – Versal Editores, 2004 –, do qual cito trecho inicial)

(…) a Cidade da Bahia sofreu um golpe rude no século XVIII. Viu escapar de suas mãos, para o Rio de Janeiro, a condição de núcleo central da vida no Brasil Colônia. Mas esse deslocamento da Cidade da Bahia, projetada desde então para fora do centro brasileiro de decisões – políticas e econômicas – foi se consumar apenas nos últimos anos daquele século.

(pulo para outro trecho desse capítulo, sob o título “Jejes e nagôs”)

(…) Houve uma alteração fundamental na composição do contingente negro de nossa população, a partir do século XVIII. Até então, o tráfico baiano de escravos fora feito sobretudo com a África subequatorial. Com as regiões de Angola e do Congo. (…) Com a chegada do século XVIII, todavia, o tráfico foi mudando de rumo. Voltou-se em direção à África superequatorial, para a região da Costa da Mina, deslizando posteriormente para a baía do Benim. (…) Foi este o período (1770 a 1851) da travessia atlântica massiva e compulsória de negros nagôs, jejes (iorubanos) e, em menor escala, haussás.

(salto, agora, para outro livro de Risério, “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” – editora 34, 2007 –, capítulo “Presença de Exu”, transcrevendo os dois primeiros dos quatro aspectos sublinhados sobre a presença dos iorubás na Cidade da Bahia)

(…) Estudiosos sublinham quatro aspectos, sempre que lidam com a presença iorubana na Bahia. Em primeiro lugar, salientando que, entre os séculos XVIII e XIX, a cultura iorubana estava em sua “época mais florescente” – e, por força do comércio escravista, vieram dar no Brasil, naquele período, representantes de sua nobreza e alto clero, a exemplo de Otampê Ojarô, da família real de Ketu, que foi sequestrada pelos daomeanos e veio a fundar na Bahia, mais tarde, um terreiro de candomblé, o Alaketu. Em segundo lugar, os nagôs não só chegaram em grupos constantes e sucessivos, como permaneceram compactados. Não experimentaram um dos piores rigores do pragmatismo escravista, ditado por motivo de segurança senhorial, que foi a política de pulverização das etnias. Os donos de escravos faziam com que estes fossem agrupados, nas cidades e nos campos brasileiros, de modo que não se entendessem entre si. Que, no mesmo barracão ou senzala, falassem línguas diversas, tivessem crenças distintas, projetos políticos dessemelhantes e códigos amorosos e familiares descoincidentes. Desse modo, seria mais difícil que tramassem fugas, assassinatos, quilombos e motins. Esta política senhorial vinha, há tempos, regendo o modo como os senhores distribuíam os escravos em suas propriedades. Mas não foi aplicada no caso dos nagôs. Eles permaneceram contactados – e souberam tirar proveito disso.

(e encerro as citações de Antonio Risério, com trecho de seu livro “Caymmi: Uma Utopia de Lugar” – Editora Perspectiva, 1993)

(…) Quando Caymmi desembarcou no Rio de Janeiro, pouco antes de completar os seus 23 anos de idade, com ele desembarcou um outro Brasil. Nem mais verdadeiro, nem mais falso – um outro. É preciso não perder de vista este constraste, se queremos, como sinalizei, apurar sentidos da presença estética caymmiana no terreiro da cultura brasileira. Projetando-se nacionalmente entre a Revolução de 30 e o “desenvolvimentismo” juscelinista, Caymmi levava consigo a cultura litorânea de uma cidade tradicional, principal agrupamento urbano do Recôncavo agrário e mercantil da Bahia. Uma cultura de traços próprios que se formara ao longo de mais de cem anos de solidão, no entrecruzamento constante de elementos, formas e práticas culturais de extração essencialmente luso-africana. E da qual Caymmi seria expressão estética concentrada.

(olhemos agora para a Cidade da Bahia, com amor e sarcasmo, através do verbo de Waly Salomão, em poema-crônica do livro “Armarinho de Miudezas” – Fundação Casa de Jorge Amado, 1993)

N. SENHORA DO DENDÊ E O “VIL MONTURO”

Tudo aperto e nada abarco, cheio de razão ardente, descarregado de mim ando no mundo. E este ar impregnado de dendê, de dendê, me faz gestar uma ideia maluca de uma Nossa Senhora d0 Dendê, dourada mulata que nem acarajé.

Tento recitar de cor o poema do jesuíta Hopkins “the blessed virgin compared to the air We breathe” mas não consigo.

Então principio a inventar uma Nossa Senhora do Dendê, dourada muqueca pairando sobre um pedestal de nuvens de El Greco.

Daqui deste “Vil Monturo”, epíteto exato dado por Gregório de Mattos, que usa em vão o santo nome do Salvador e pois suja a túnica inconsútil Dele; compadecei-vos de nós, oh! Senhora, de nossa tibieza, da moleza de nossa língua sem osso, da pobreza de nossos táxis sem pára-brisas – carcaças carcomidas pelo ferrugem das maresias –, das nossas secretárias que não transmitem recados e sofrem do mal geral de “me esqueci”, da nossa inaptidão total para romper o atraso, nós os impontuais por natureza e pois atrasados e atrasados e atolados na mais absoluta indigência, indigência maior do que o palude em que se afundou “the house of Usher”, e se duvidar que a nossa cárie é sem remédio descei a Ladeira da Palma e chegai até o Gravatá, até defronte o Corpo de Bombeiros e olhai aquele prédio com azulejo que era tão lusitano e belo e hoje não passa de uma postema cariada e sem obturação possível, nós os infestados de impaludismo alma a dentro, oh! Nossa Senhora do Dendê, compadecei-vos dos nossos garçons e garçonetes, risonhas bananas moles, afora os que por sorte cursaram o restaurante do Senac e que são tão peritos e bons e que depois desempregados sem solução porque o homem que manda no Turismo não olha para aqui em baixo e não vê passar a um palmo de seu nariz arrebitado de “status seeker” um Joel, uma Lucimar, um Otaviano qualquer, recém despejado do curso do restaurante Senac pois uma nova turma recrutada por Madre Tereza de Calicut já arrombou o ferrolho ou a taramela da pesada porta, oh! Nossa Senhora do Dendê, rogai, rogai, rogai por nós que recorremos a Vós.

Oh! Virgem abençoada comparada ao ar que respiramos! Vós que não fostes sequer imaginada pelo celestial pintor Fra Angélico que admiro e amo tanto e que neste “vil monturo” se conta nos dedos das duas mãos quem já ouviu falar, e cabe nos cinco dedos de uma só mão quem viu alguma tela dele.

Aqui campeia a mentira deslavada a que eles dão o nome de culhuda, de étimo indeterminado diria qualquer dicionário etimológico que fizesse o registro do termo. E os motoristas são os mais grosseiros e os pedestres os mais folgados do planeta, ambos campônios simplórios ilhados fazendo do trânsito um fliperama letal.

Emputecido estou, oh!! doce mãe do pão doce e do enjoativo cafezinho com três dedos de açúcar no fundo do copo, eu bem que tento mas caber não caibo na moldura deste quadro, não me enquadro por entre os caibros desta casa, gitano sou e madastra esta cidade onde reinais visível ao meu olfato e invisível aos vossos inconscientes adoradores, sois um bezerro de ouro fervente em cima dos fogareiros de latão batido.

Um olho agudo aguçado me diz que nem todos os santos e santas, que não há salvador que salve este armengue da sua paulatina ou desbragada corrosão. Não pressinto remissão possível, oh! sagrada senhora, para esta cidade-presépio da colina.

Rogai por nós, oh! Amarelo-gema de ovo do dendê.

Que tudo abarco e nada aperto.

Eia pois, advogada nossa! Salve Dona que se adonou do cocô da caganeira! Salve Rainha, Regina Coeli do torpor! Salve Soberana do empata-foda, da futrica, do fuxico, da fofoca e do banzo!