Posts Tagged ‘Candomblé’

CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

09/05/2010

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Em nome de Deus e do Diabo

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texto de MARLON MARCOS*

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Parece que a barreira que impede a convivência tolerável entre evangélicos e adeptos das religiões de matriz africana na Bahia, e em muitos outros lugares do Brasil, tornou-se intransponível. Lamentável saber que nós, religiosos ou não, precisamos ocupar espaços sabotando a presença legítima do outro; precisamos construir discursos e ações que fomentem a idéia de que um tem a verdade e o outro deve ser banido por carregar consigo a mentira e a ilegitimidade no universo das religiões.

Esta ambiência intolerante é que tem conduzido o encontro social entre os evangélicos pentecostais e os religiosos de matriz africana no nosso estado; é inadmissível o tipo de proselitismo cristão que promove ataques aos praticantes do candomblé, desenhando o culto aos orixás como uma obra erguida a serviço de Satanás. Satanás este, fruto cultural judaico-cristão, oriundo de mentalidades persas, que foi levado para a África (e chegou ao Brasil) por portugueses católicos sendo incrustado ao imaginário do humano negro.

Todo o arsenal discursivo que busca endemoninhar práticas religiosas de origem africana perfaz o agressivo caminho do etnocentrismo, melhor traduzido entre nós como racismo, que é o grande responsável por leituras insanas e inconcebíveis para um povo mais negro que mestiço, em pleno século XXI; ou seja, baianos negando o legado cultural dos seus ancestrais.

Não se deve permitir que faixas expressem que “Deus condena o candomblé”; que deus de onisciência se permitiria a isso? Nem que o conhecido acarajé deve ser alcunhado bolinho de Jesus, desintegrando possíveis sincretismos ou simbioses de ordem cultural e religiosa.

É um tempo de profunda vigilância, onde mais ignorância do que intolerância tem levado o nosso povo a aceitar ensinamentos díspares e infundados contra o real sentido da existência do candomblé que, em última instância, é o mesmo de qualquer outra religião séria em seu seio sócio-cultural.

Nem deus nem diabo tem falado nessas lutas; povo-de-santo respeite-se entre si: cada um que se veja no outro em vestes brancas, contas, seriedade e, principalmente, fé.

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*Marlon Marcos – Jornalista e antropólogo

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CANDOMBLÉ E MODERNIDADE

02/05/2010

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JÚNIOR*

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O tema candomblé e modernidade reabre a discussão em torno de algo de vital importância para a manutenção das religiões de matriz africana no Brasil: a tradição. Conceito erroneamente entendido como algo que “resiste ao tempo” e às mudanças. Já houve autores que nos anos 50 consideraram estas religiões como uma espécie de “ilhas” e desse isolamento dependia a sua sobrevivência.

Fato é que nas comunidades terreiros, o tema da modernidade embora não apareça de forma sistematizada está presente o tempo todo e é empregado utilizado em vários significados.

Para alguns tios e tias, a afirmação “hoje o candomblé está moderno” de um lado soa como crítica aos mais “novos”, que ignorando o aspecto secreto e iniciático destas religiões criam seus próprios modelos rituais, ignorando o tempo, mestre por excelência destas religiões onde nunca cessa o aprendizado. Por outro lado, esta fala também significa não apenas as mudanças pelas quais estas religiões passaram, mas também os “novos tempos”, quando não se é mais preciso passar, por exemplo, pelo constrangimento na Delegacia de Jogos e Costumes para se tirar uma licença para bater candomblé. Ou ainda pode significar a visibilidade que estas religiões alcançaram na mídia, resguardadas as críticas à mesma, que teima em lhes apresentarem como algo exótico.

Fato é que desde cedo africanos e africanas e seus descendentes expostos à escravidão, ao se depararem com universos simbólicos diversos ao invés de fecharem-se foram capazes de abrir uma série de diálogos, pois sabiam que disso dependia a manutenção de suas religiões tradicionais. O resultado foi a construção de modelos ritualísticos acertadamente chamados pelo Professor Doutor Vivaldo da Costa Lima de “nações de candomblé”, espécie de modelos onde questões étnicas reforçadas como motivo de separação dentre os diversos grupos africanos aqui entrados foram prescindidas por questões ritualísticas sem perder suas referências, ao contrário, no processo de constituição das religiões afro-brasileiras, elementos congo, angola, jeje, malês e nagôs se ajudaram mutuamente.

O resultado foi a construção de uma religião que se na maioria das vezes abriu mão da organização clânica, não abdicou, por exemplo, do conceito de família para manter-se viva no Novo Mundo. Assim estes homens e mulheres foram capazes de preservar rituais de iniciação, o espaço mato de vital importância para os terreiros, rios, uma língua ritual, cantigas, palavras de encantamento, uma culinária ritual, dentre outros elementos.

O que falar do diálogo estabelecido com o catolicismo português vindo da península ibérica já enriquecido pelos vários contatos ali realizados? Isso vale também para a série de diálogos realizados com os povos indígenas, sem falar nos judeus e ciganos. Assim, aos poucos a velha teoria da dissimulação, onde os santos católicos ganhavam máscaras africanas, foi substituída pela imagem de um catolicismo negro e ao mesmo tempo de uma religião onde estes mesmos santos são cultuados ao lado dos orixás, vodus e inkices, fato este que, contrariando o discurso anti-sincretista não torna estas religiões menos tradicionais, mas ilustra a capacidade que reis, príncipes, princesas, rainhas, sacerdotes e sacerdotisas tiveram de exercer a sua liberdade dentro dos limites possíveis.

Isso nos ajuda a pensar a tradição como algo aberto ao tempo e contemporâneo à modernidade. É essa abertura que faz das comunidades terreiros espaços de diálogo e da tradição mantida pelos mais velhos, algo dinâmico que resiste até às previsões que apostam no desaparecimento dessas religiões ante os modismos e tendências que não param de surgir.

Ante a redução do tempo nas grandes cidades, um Sagrado religião que demanda tempo para ser cultuado continua presente, reinventando-se e inventando-se a todo momento, não por ter perdido algo, nem por medo de afastar-se de seus princípios mantenedores de identidade, mas por entender que a melhor forma de estar no mundo é inserindo-se nele como sempre fez desde o início, sendo capaz de construir algo contemporâneo e dar respostas a questões humanas através de uma leitura sagrada, cumprindo, assim, uma de suas maiores funções: estreitar os laços entre a humanidade e o divino.

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*Vilson Caetano de Sousa Júnior – Antropólogo, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e pós doutor em Antropologia pela Unesp

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BEM-VINDO AO CANDOMBLÉ

17/04/2010

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texto de ZENO MILLET*

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Geralmente, o preconceito se forma a partir da falta de conhecimentos adequados acerca de determinado assunto. E assim é com o candomblé. O povo negro, pelo próprio histórico de sua trajetória no Brasil, já sofre, naturalmente, com uma diversidade de discriminações. Com uma religião trazida por eles, não poderia ser diferente.

O candomblé não tem uma ‘escritura’. Não existe um livro litúrgico para esta religião e, assim sendo, toda a informação sobre as tarefas, orações, ritmos e rituais são aprendidos através da oralidade. Toda informação é transmitida através da palavra de geração para geração. Tudo é ensinado pelos mais velhos – e a obediência à hierarquia é o alicerce fundamental para a sustentação de um templo.

Para quem visita um terreiro de candomblé pela primeira vez, é prudente conhecer um pouco sobre o que vai encontrar. É importante saber que em um templo de candomblé não existem perguntas, mas deve-se sempre esperar por respostas.

O primeiro passo a ser dado por um visitante é ser o mais discreto possível – quase despercebido – e observar, atentamente, as reverências, gestos e atitudes dos filhos de santo.

No candomblé existe uma grande quantidade de objetos sagrados, uma vez que os deuses desta religião é a própria força da natureza.

Portanto, é preciso ter cuidado para não tocar em objetos que só podem ser tocados por filhos de santo (e muitas vezes só os mais graduados), não sentar em qualquer lugar, pois existem muitos altares em qualquer parte do terreiro, não entrar em qualquer recinto porque alguns santuários são de acesso restrito, não tocar nas guias (contas de vidro) usadas pelos abians(1) e filhos de santo – pois trata-se de uma representação do Orixá de quem as usa, portanto só deve ser manuseada por ele mesmo ou pela Iyalorixá.

Pode parecer que são muitos ‘nãos’, mas trata-se de uma cultura diferente, com valores, padrões, atitudes, etc., que no cotidiano não se está habituado a conviver.

(1) Pessoas no primeiro estágio da iniciação

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*Zeno Millet – Neto de Mãe Menininha do Gantois; Baba Egbé Otum

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TERREIRO DO GANTOIS – ILÊ IYÁ OMIN AXÉ IYAMASSÊ. Foto de MARGARIDA NEIDE para a revista Muito | Agência A Tarde

TERREIRO DO GANTOIS:

CIDADE DAS MULHERES

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Fundado por Maria Júlia da Conceição Nazaré, em 1849, o Terreiro do Gantois preserva a tradição com renovada energia feminina e muito axé

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reportagem de RONALDO JACOBINA

(publicada em 14.3.2010 pela Muito, revista dominical do jornal A Tarde)

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Domingo, 28 de fevereiro, dez da manhã. Mulheres e crianças, divididas em pequenos grupos, se dedicam à tarefa de separar grãos de feijão-fradinho da casca. O trabalho, que parece simples, exige silêncio e concentração. Na cozinha, homens socam o feijão no pilão, enquanto as mulheres preparam temperos, manuseiam alimentos e mexem as panelas que estão sobre o enorme fogão a carvão.

Numa grande mesa, um lauto café da manhã aguarda as pessoas que, desde a madrugada, trabalham na preparação da festa que acontecerá à noitinha. Uma simpática senhora de semblante sereno descasca a porção de grãos que lhe coube. De vez em quando, retira o olhar da tigela e o lança, serenamente, para as pessoas que cumprem aquele ritual.

Vez por outra, alguém se aproxima da mesa branca de tampo de vidro, onde ela está sentada, numa cadeira também branca, para pedir-lhe a bênção. “Motumbá, minha mãe”, cumprimentam. “Motumbá-axé, meu filho”, responde a senhora de olhos esverdeados que, fora da casa, atende pelo nome de Carmem Oliveira da Silva. Ali, ela é Mãe Carmem, a ialorixá do terreiro.

MÃE CARMEM - Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde - 7.8.2007

De repente, surge no salão uma outra senhora que vem cumprimentar a mãe de santo. “Vim desejar feliz ano novo”, diz, enquanto curva-se para beijar a mão da ialorixá. A visitante, de prenome Joana, é vizinha do terreiro e defensora do Gantois. “Não sou de santo, mas ter uma vizinhança como essa torna a nossa comunidade protegida em todos os sentidos”, explica. Mãe Carmem sorri e diz: “Vivemos em harmonia com a comunidade. Isso é muito importante”.

É dia de festa no Ilê Iyá Omin Axé Iyamassê, um dos terreiros mais antigos da Bahia (originário, assim como o Terreiro da Casa Branca e outros tantos, do lendário terreiro Ilê Airá Intile, na Barroquinha, um dos primeiros da Bahia, fundado no século 18) e que ficou mundialmente conhecido como Gantois, fundado por Maria Júlia da Conceição Nazaré, em 1849.

O nome fantasia (Gantois) é uma referência ao antigo proprietário da fazenda, onde hoje funciona a casa de candomblé, no bairro da Federação. A festa que está sendo preparada é para os filhos da casa e é um ritual chamado Olorogum, que marca o início do recesso que o terreiro fará até o Sábado de Aleluia, quando retoma todas as suas atividades.

O feijão, segundo Mãe Carmem, é a comida de Nanã. “Enquanto retiramos a casca, de grão por grão, elevamos nosso pensamento para Nanã, a dona do feijão”, explica a ialorixá, que assumiu o posto no dia 30 de maio de 2002, três anos após a morte de sua antecessora, a irmã Cleuza Millet, falecida em 1998.

Ex-funcionária do Tribunal de Contas do Estado, Mãe Carmem é a filha caçula de Mãe Menininha, a ialorixá mais popular do Brasil. Cleuza era a mais velha e sucedeu a mãe cinco anos após sua morte, em 1986. Dentro dos preceitos do candomblé, as duas filhas biológicas de Menininha foram criadas para ser independentes.

A primeira era obstetra, enquanto Carmem seguiu a carreira de contadora. Apesar de terem levado a vida fora do terreiro, nunca se afastaram da religião. Carmem, “feita” aos 5 anos, é filha de Oxaguian. Menininha era de Oxum. Como filha de santo, a atual ialorixá era a cuidadora dos santos, função que acreditava ser eterna, não fosse os orixás a terem convocado para suceder a irmã, seguindo a tradição de linhagem do terreiro.

Apesar de intuir que seu destino já havia sido traçado pelos orixás, Carmem, assim como sua mãe, resistiu a aceitar a missão. “Sempre achei confortável ser filha de santo, não queria encarar essa missão porque sabia que era árdua, mas Oxóssi me pegou, literalmente, pelo laço e me sentou aqui”.

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MÃE MENININHA

Mãe Menininha

Há 88 anos, a mãe de Carmem, que fora batizada como Maria Escolástica da Conceição Nazaré e desde cedo recebeu a alcunha de Menininha, levava uma vida comum – embora rigorosamente dentro dos preceitos da religião – e também pensou que poderia fugir do destino. Casou, educou as filhas e fez fama como costureira. Quase esqueceu que ela tinha um plano e os orixás, outro. Antes de completar o primeiro ano de vida, sua bisavó materna, Maria Júlia da Conceição Nazaré, decidiu iniciá-la na religião.

Menininha foi “feita” aos oito meses de idade e, aos 28, tornou-se a terceira mulher do clã a assumir o comando do Gantois, após Pulchéria da Conceição, já que sua tia, Maria da Glória, morreu antes de terminar o luto, o que a impediu de ser confirmada ialorixá.

Anos mais tarde, Mãe Menininha revelou que, embora a bisavó, a tia e chefes da casa tenham lhe dito que ela iria servir aos orixás, sentia “um medo horroroso da missão”. “Era uma consciência absoluta do que me esperava: passar a vida inteira ouvindo relatos de aflições, doenças e lástimas e ter de ficar calada, guardar tudo pra mim, procurar a meditação dos encantados para acabar com o sofrimento. Tudo exige abnegação”, teria declarado a ialorixá ao extinto Jornal da Bahia em 1984.

Mas Mãe Menininha não fugiu ao seu destino e soube fazer valer a força das mulheres da família. Com o seu carisma, conseguiu tornar o Gantois o mais prestigiado e famoso terreiro do Brasil. “Ela foi uma das maiores autoridades religiosas do Brasil e teve como sucessoras mulheres inteligentes e dignas, líderes de peso de um segmento importante da nossa população”, afirma o professor Ordep Serra.

Existem atualmente, segundo a Federação Baiana de Cultos Afro-brasileiros, mais de 2.230 terreiros na Bahia. Para o antropólogo, o Gantois, como outros terreiros, tem muito poder. “É um poder religioso capaz de reunir adeptos que procuram, e encontram, remédio para suas aflições, apoio espiritual. Isso não é pouco“, diz.

No caso do Gantois, segundo Ordep, o carisma de grandes sacerdotisas contribuiu para ampliá-lo cumulativamente. “Este poder é também político, no sentido mais amplo do termo: capaz de gerar iniciativas sociais. Mas isso não significa que, no plano da gestão da coisa pública, o Gantois exerça influência decisiva, ou goze de privilégios, como às vezes se insinua. Bem ao contrário: o Gantois tem tido dificuldades para fazer valer seus direitos”, afirma.

Ordep Serra fala dos problemas que o terreiro enfrenta com a invasão do seu terreno. “O Gantois teve seu território mutilado, e mesmo a legislação que lhe protege o entorno foi, e é, desobedecida”. Segundo ele, “embora o Gantois seja, por força de lei, Área de Preservação Cultural e Paisagística do Município de Salvador, a garantia que este diploma legal lhe dá tem ficado apenas no papel”. Mãe Carmem evita falar sobre o assunto, que a aborrece.

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Poder e prestígio

Voltando à história do poder, não são poucos os políticos que se acostumaram a subir a íngreme ladeira do Alto do Gantois para pedir orientação às ialorixás da casa. Antonio Carlos Magalhães foi amigo pessoal de Mãe Menininha e chegou a declarar, certa feita, que os visitantes ilustres que chegavam à Bahia iam primeiro à Igreja do Senhor do Bonfim, depois ao Gantois e, por último, procuravam o governador, referindo-se a ele – governador na época.

Não se sabe ao certo se era bem assim. Mas corre à boca pequena que até mesmo os ex-presidentes da República Getúlio Vargas e João Goulart, além dos governadores Antônio Balbino, Juracy Magalhães, Lomanto Júnior e Roberto Santos bateram ponto lá. Dizem que o ex-governador paulista Adhemar de Barros, também.

Lenda ou verdade, Mãe Carmem evita falar sobre amigos ilustres, especialmente políticos. “Não precisa dar nomes. O Gantois é uma casa aberta a todos”, dá o assunto por terminado. Pelo visto, no Terreiro do Gantois, não apenas os segredos do culto afro estão guardados a sete chaves.

Mãe Carmem é muito discreta. Nem mesmo os nomes dos ogãs famosos (protetores do candomblé, com função de lhe dar prestígio e ajudar nas cerimônias sagradas) ela revela. “Os ogãs são da comunidade”, diz. Sabe-se, porém, que o publicitário Nizan Guanaes é um deles.

Outro assunto que desagrada à ialorixá é a intolerância religiosa. “Existe e sempre vai existir. Como o candomblé é mais forte, eles atacam”, diz, referindo-se às igrejas evangélicas. A Igreja Católica, Mãe Carmem, assim como sua mãe, adora. Tanto que as grandes comemorações do terreiro começam sempre com uma missa. “Me dou bem com os kardecistas, os católicos e até com alguns evangélicos. Acho importante o diálogo interreligioso”, defende.

Em 1986, o escritor Jorge Amado, amigo da casa, declarou à revista Veja: “No Gantois, Mãe Menininha conquistou ampla admiração pelo exercício de uma qualidade muito familiar aos políticos: era mestra no jogo de alternar a conciliação e a resistência. Nunca se rebelou contra o poder, seja do Estado ou da Igreja Católica, que apoiava a perseguição ao candomblé, mas também jamais se rendeu”.

A perseguição policial aos cultos aos orixás, aliás, passou longe do Gantois, mesmo nos tempos mais difíceis. Apesar da pressão, inclusive da imprensa, o terreiro nunca foi atingido, segundo relatam as escritoras Cida Nóbrega e Regina Echeverria no livro Mãe Menininha do Gantois – uma biografia (Editora Corrupio, 2006).

Na obra, há um relato da ialorixá sobre o tema: “A polícia jamais nos incomodou”. De acordo com as autoras, as seitas só podiam fazer suas obrigações com autorização do chefe de polícia, e o Gantois procurava atender a todas as exigências e resistiu graças à força de suas mulheres.

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Filhos famosos

Enquanto os filhos e filhas de santo andam para um lado e para o outro, enfeitando a casa para a celebração, Mãe Carmem resiste à ideia de ser fotografada para a reportagem. “Não tenho intimidade com câmeras. Se for de televisão, então, engasgo, transpiro e não consigo dizer uma palavra”, ri do que acaba de revelar.

A ialorixá, pelo visto, não herdou de Mãe Menininha a intimidade com os holofotes que renderam fama. No centenário de seu nascimento, em 1994, os Correios lançaram um selo comemorativo com sua foto. A boa relação com a mídia e personalidades contribuiu para tornar o Gantois o terreiro mais famoso do Brasil. A popularidade atraiu a atenção de políticos e artistas de todo o País e até de intelectuais brasileiros e estrangeiros.

A pesquisadora americana Ruth Landes, depois de uma temporada estudando o candomblé no Brasil, escreveu Cidade das mulheres, publicado nos Estados Unidos, em 1947, e no Brasil, em 1967, pela Civilização Brasileira. Na obra, a autora descreve Mãe Menininha como uma mulher independente, admirada e dona de si.

Além de ACM, que, pelo que consta, não chegou a ser “feito“ no terreiro, outras personalidades costumavam frequentar a casa. Jorge Amado, Pierre Verger, Carybé, Dorival Caymmi – que a homenageou com a Oração de Mãe Menininha, gravada por Maria Bethânia e Gal Costa nos anos 1970 –, Vinicius de Moraes e muitos outros. Bethânia e Gal, aliás, foram além. Ambas se tornaram filhas de santo da casa e seguem a religião até hoje.

Bethânia e Mãe Menininha

Fui feita por Mãe Menininha em 1981. Caetano e eu, juntos. Porém conheci o Gantois, a casa do axé, pelas mãos de Vinicius (de Moraes) e Gesse (Gessy), então sua mulher e minha amiga; não lembro o ano, mas sei que foi bem mais cedo da data escolhida pela ialorixá para minha obrigação“, lembra Bethânia.

Seguidora fiel da religião, a cantora diz que o Gantois reafirmou tudo o que aprendeu com os pais. ”O Gantois é a casa do meu orixá, portanto a casa que também me acolhe. Vi reforçados ali os ensinamentos e valores que aprendi na casa dos meus pais: humildade, respeito, o sabor da alegria, a necessidade de louvar e agradecer a graça da vida, com suas dores e delícias. Também a confiança, a amizade, a fé, para mim, a base de tudo“.

Para ela, o Gantois é símbolo do que há de melhor no Brasil. “Tudo é belo ali: o som, a roupa, a comida, os cheiros… isso pra não falar dos rituais, que, esses, são segredos guardados pelos de sangue real“.

Assim como a irmã de santo, Gal exalta a importância do Gantois na sua vida. ”Fui iniciada por Mãe Menininha. É uma casa muito especial, um lugar sagrado. As pessoas estão ali para fazer o bem“.

Para Gal e Bethânia, que vivenciaram as gestões de Mãe Menininha e de Mãe Cleuza, a escolha de Mãe Carmem como sucessora foi acertada. ”É uma mulher maravilhosa, o Gantois não poderia estar em melhores mãos“, elogia Gal. Bethânia vai além: ”Ela faz o seu trabalho lindamente. É a guardiã da sempre viva luz que habita ali e nos guia, nós, os seus filhos“.

Em 1995, foi a vez de a cantora Daniela Mercury se iniciar na religião. Ela diz que chegou ao Gantois pelas mãos de Mãe Cleuza, de quem se tornou amiga e filhade santo. ”O Gantois é uma casa especial, e Mãe Carmem é muito amorosa, está sempre presente, atenta e cuidadosa“. Apesar de ter entre os mais de três mil filhos de santo muitas celebridades, Mãe Carmem refuta o rótulo de terreiro dos artistas. ”Aqui são todos iguais“.

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Oxaguian

Vaidosa, a filha de Oxaguian se rende, enfim, aos apelos da fotógrafa. Não sem antes dar uma retocada no visual, o que faz com a ajuda das filhas biológicas, Ângela Ferreira e Neli Silva, respectivamente iyakekerê e iyadagan da casa, os mais altos cargos do terreiro.

A iyakekerê é a mãe-pequena da casa; a iyadagan é a responsável pelas tarefas da cozinha. No caso das duas filhas da ialorixá, as atividades de cada uma vão muito além das funções religiosas. Ângela e Neli são as fiéis escudeiras da mãe e a tratam com um zelo que dá gosto de ver.

Mãe Carmem ajeita o torço na cabeça e ri timidamente para a câmera. ”Sorria, minha mãe. Olhe pra mim que a senhora fica feliz“, pede docemente Neli. Mãe Carmem obedece. Com a aparência cansada, queixa-se da noite mal dormida. ”Às vezes, fico a noite quase inteira acordada, pensando nos problemas“, diz, e logo esclarece: ”Não são meus. São dos outros“.

Uma filha de santo – estas tiveram os nomes preservados a pedido da ialorixá – complementa a revelação. ”Já cansei de chegar na cozinha, altas horas da madrugada, e encontrar minha mãe lá, sentada, pensando“, diz.

A preocupação é compreensível. Afinal, não deve ser fácil comandar uma casa com tantos filhos. São eles, juntamente com os simpatizantes e amigos do terreiro, que contribuem com trabalho e doações para manter o Gantois em funcionamento.

Apesar de ter sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Iphan), em 2002, o terreiro não recebe ajuda governamental. ”Vivemos das doações e trabalhos“, diz a iyakekerê Ângela Ferreira. Ela afirma que o Gantois não segue tabela de preços. ”As pessoas dão uma ajuda para a casa, se quiserem. Fica a critério de cada um“.

As despesas para manter a casa em funcionamento são grandes. Além da comida farta, o Gantois ajuda também a comunidade em seu entorno. Tão logo assumiu o comando da casa, Mãe Carmem reativou as ações sociais do terreiro.

Atualmente, são distribuídas mensalmente cerca de 240 cestas básicas, fixas, além de serem oferecidas oficinas gratuitas de inglês, música (percussão e flauta), artesanato, digitação, dança, dentre outras. Não só para os filhos da casa como para moradores da comunidade.

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Dinamismo e tradição

A despeito da resistência anterior, a ialorixá está longe de lamentar o destino. ”Apesar da missão, nunca fui tão amada como hoje. Isso é o alimento que me ajuda a cumprir a missão que me foi designada“. Uma das mais antigas filhas da casa, com mais de 60 anos de ”feita“, a Ebômim Lícia diz que Mãe Carmem é ”dinamismo sem perder a tradição“.

Após os afagos, ela abre o sorriso para a lente. Nessa hora se revela vaidosa. ”Adoro ser mulher“, diz. O cuidado com a vaidade, no entanto, não lhe rouba a atenção do feijão de Nanã. Muito menos das pessoas envolvidas no ritual.

E os ritos seguem. Após esta festa, será a vez da de Oxóssi, patrono do Gantois, no dia 3 de junho. Depois, a das Águas de Oxalá e, em seguida, a do Pilão de Oxaguian, santo da ialorixá. E assim tem sido no Gantois há mais de um século e meio. E assim, certamente, será. Motumbá!

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NOTA DO EDITOR – Recomendo outro post deste blog – aliás, muito visitado – em que o espírita José Medrado conta com entusiasmo sua participação numa festa no Gantois e exalta a figura de Mãe Carmem, ialorixá do terreiro:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/06/03/festa-no-gantois/

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AGRESSÃO A TERREIROS

12/04/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de EMILIANO JOSÉ*

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Num momento da história, tragédia. Noutro, farsa. Lembro-me de Marx, justo dele, um materialista convicto, quando vejo movimentos da Prefeitura de Salvador contra as religiões de matriz africana. Por que esses movimentos, por que essa má vontade com o candomblé? Quais as motivações? Poderia dizer que é como se a atual administração ouvisse ecos do passado escravocrata ou, até mesmo, do século XX, quando a religião dos negros ainda tinha que pedir licença policial para realizar seus ritos.

Fico aqui a matutar sobre como reagiram os religiosos do Ilê Odô Ogê, terreiro também conhecido como Pilão de Prata, ao receberem um jovem fiscal da prefeitura, no dia 18 de março deste ano. Constrangido, notificava a casa religiosa pelo barulho provocado pelos “instrumentos de percussão”, que era como ele se referia aos atabaques. A notificação dizia que a “emissão sonora gerada em atividades não residenciais” somente poderia ocorrer se autorizada pela prefeitura. Incrível, mas verdadeiro. Penso na lei, na isonomia, e constato a óbvia discriminação. Com essa atitude, agride-se notoriamente o dispositivo constitucional da liberdade de culto.

Ao fiscal, explicou-se que a roça do Ilê Odô Ogê nascera lá pelos idos de 1963, que o terreiro fora tombado em 2004. Tratava-se de um templo já tradicional. Ao jovem fiscal foram mostrados o Museu e a Biblioteca do terreiro. Não havia diálogo, não se admitia conversa. Ele tinha que lavrar o auto. Por que isso só ocorre apenas com as religiões de matriz africana? Por que essa perseguição à religião dos negros, assumidamente religião de negros? Por que essa dificuldade em lidar com a diversidade religiosa? Por que essa intolerância que não cessa? Por que não se aplica o princípio de que toda religião tem que ser igualmente respeitada? A prefeitura – ou se quisermos o Estado, em sentido amplo – tem obrigação de ser laica e na sua laicidade fazer respeitar toda e qualquer religião.

Provavelmente, embora seja quase inacreditável, haja quem, na prefeitura, ainda queira obrigar os terreiros de candomblé a tirar licença para cumprir os seus rituais, procedimento que foi abolido na Bahia em 1975. Tardiamente, mas abolido. A atitude do jovem fiscal evidencia que o ovo da serpente da discriminação, do preconceito ainda tem acolhimento, e não tão disfarçadamente. O espectro da Casa Grande continua a nos rondar. Eu me pergunto se o prefeito João Henrique tem conhecimento disso. Seguramente, o culpado não pode ser encontrado no jovem fiscal. Ele apenas obedece ordens.

A prefeitura vem agindo de modo rotineiramente perverso com as religiões de matriz africana. Falar apenas em erros denotaria ingenuidade. São vários episódios. Lembro-me de outro, recente. Em 2008, a agressão atingiu o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, o célebre terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo templo afro-brasileiro em funcionamento, cuja fundação remonta ao início do século XIX, tido como uma espécie de “mãe de todas as casas” de santo do Brasil. É uma casa respeitadíssima. O então governador Waldir Pires, em 1987, declarou de utilidade pública para fins de desapropriação o posto de gasolina que ocupava área da Casa Branca, e aí surgiu então a Praça de Oxum, cujo projeto de urbanização foi de Oscar Niemeyer.

Pois bem, em 2008 a prefeitura pediu o arresto do imóvel onde se encontra o terreiro da Casa Branca, depois de autuar uma sacerdotisa falecida há 80 anos por uma suposta dívida relativa ao IPTU. Seria cômico, não fosse trágico. Claro que um terreiro como a Casa Branca, visitado por governadores e presidentes, respeitado por outros credos não pode ser agredido assim impunemente, e a prefeitura teve que recuar diante das reações. Se, no entanto, fazem isso com a Casa Branca, imaginemos o que continuarão a fazer com os demais terreiros, muitos deles pequenos, sem a notoriedade do Ilê Axé Iyá Nassô Oká. Creio que se impõe a todos os que defendem o respeito à diversidade religiosa, que se impeça o crescimento dessa atitude odiosa por parte da administração municipal em relação ao candomblé. Viva a liberdade religiosa.

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*Emiliano José – Jornalista, escritor. Site: www.emilianojose.com.br

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NOTA DO EDITOR – A propósito do texto acima de Emiliano José, que está sendo publicado hoje em Opinião de A Tarde, lembrei de um outro sobre o mesmo tema, publicado no mesmo jornal, mas na coluna de Religião. Trata-se do artigo abaixo, de autoria de Vilson Caetano de Sousa Júnior, antropólogo e religioso ligado ao Pilão de Prata, terreiro citado por Emiliano como tendo sido vítima de um fiscal da Prefeitura de Salvador. O texto de Vilson foi escrito antes da visita do fiscal.

O terreiro Pilão de Prata, em iorubá Ilê Odô Ogê, situado no Alto do Caxundé, bairro da Boca do Rio, em Salvador (BA), foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac). Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde - 9.12.2004

PILÃO DE PRATA. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde - 9.12.2004

OS TERREIROS

E O BARULHO DA CIDADE

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JR.*

(publicado originalmente na coluna de Religião do jornal A Tarde, em 12.3.2010)

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Há menos de três semanas, acordei com o apelo contundente de um radialista à Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom) atendendo à reclamação de um ouvinte sobre o barulho de uma comunidade/terreiro provocado pela queima de fogos e o toque de clarins e atabaque num dia de domingo às cinco horas da manhã. Fatos como este nos últimos anos têm se tornado corriqueiros, sobretudo porque dão audiência. Dentre tantas questões, nos ajuda a refletir sobre a inserção e luta pela permanência das comunidades/terreiros na cidade.

Tal acontecimento me fez ainda rememorar o “candomblé rezado baixo”, momento em que estas religiões foram obrigadas a substituir os instrumentos de percussão pelas palmas, a fim de não incomodar e corromper a civilização e progresso da cidade recém idealizada a partir dos moldes europeu.

Todavia, antes de comentar tal fato, quero mesmo é chamar a atenção para a importância destes terreiros de candomblé nos bairros em que estão inseridos. Na maioria das vezes, um terreiro de candomblé é sinônimo de saneamento básico, escolas, posto de saúde, linhas de ônibus, áreas de lazer, urbanização e segurança, graças às funções extra-religiosas que estas comunidades desenvolvem nos bairros onde estão inseridas. Sem falar nos bairros que tiveram a sua origem nas roças de candomblé.

As “roças de candomblé” não têm limites. Isso constitui um dos desafios para pensar a recriação do espaço na cidade pelas religiões de matriz africana. Nos últimos anos tem sido muito positiva a experiência da criação de “redes” que, além de dar visibilidade a trabalhos realizados por todo o Brasil, solidificam laços essenciais para a manutenção das tradições negras no Novo Mundo.

Verdade é que algumas dessas comunidades/terreiros constituídas no século XIX, que se afastaram do centro urbano, ora por prestígio ou a fim de garantir o culto, atualmente enfrentam, além da especulação imobiliária que empurra parte da população para a chamada periferia, os velhos discursos racistas de um lado por alguns programas oportunistas e do outro pelas falas ignorantes de algumas denominações neopentencostais que em alguns casos têm ido para o embate físico.

Somam-se a isso questões particulares de “vizinhos”, que variam dos condomínios a pessoas físicas, que acabam se aglomerando em torno dos terreiros e, na maioria das vezes, invadindo o espaço sagrado através de janelas que ignoram a lei que regulamenta tal construção ou mesmo escavando as encostas da comunidade para que as águas das chuvas comprometam o solo, provocando o deslizamento, facilitando a ocupação forçada, uma verdadeira “grilagem urbana”, história particular bem conhecida pela maioria dos terreiros de candomblé presentes na cidade de Salvador.

Junta-se a estes fatos, a violência crescente na cidade que obriga estas comunidades não apenas a conviver, mas a procurar alternativas para enfrentá-la, a fim de levar uma vida onde se possa cultuar os ancestrais.

A vida dos terreiros na cidade é de fato um desafio. No momento em que ouvi aquele apelo inflamado do radialista ao órgão competente, fiquei pensando se o contrário acontecesse, se a sua reação seria a mesma.

Em outras palavras. Se o povo de candomblé cada hora que fosse oportunado pelos sons de mais de 70 decibéis dos aparelhos de som dos vizinhos fizesse apelo a uma emissora de rádio? Conheço casos de terreiros que aos domingos, dia consagrado para a renovação dos laços da comunidade com os ancestrais através de um ritual chamado osé, são impossibilitados de realizar qualquer atividade religiosa porque as caixas de som colocadas sobre as lajes provocam barulho desde as primeiras horas da manhã até a madrugada seguinte, contrariando todas as normas da Lei 5354/98, que dispõe sobre sons urbanos, fixa níveis e horários em que será permitida sua emissão, cria a licença para utilização sonora e dá outras providências.

Sem falar naquelas comunidades que, a fim de garantir o culto, assim o faz com a maior descrição, pois qualquer deslize pode acionar a ”igreja vizinha”, assim chamada pois pode estar ao seu lado ou em frente, locais preferidos por algumas denominações a fim de ficarem mais “próximos do demônio” para combatê-lo, como costumam dizer. Acioná-las, significa dizer: colocar um alto falante, ou como se diz: virar a boca do alto falante ou das caixas de som para dentro do terreiro, sucumbindo o som dos atabaques, das palmas, a voz, ou qualquer outro instrumento litúrgico, sem falar das palavras de “exorcismo” lançadas em direção a comunidade/terreiro.

E o que dizer dos foguetes que sobem por minuto em alguns bairros? Que no mínimo é uma linguagem que todos entendem sobre a qual recai o tabu de não falar para não se calar para sempre.

Desconheço a existência de algum terreiro que já tenha acionado um vizinho ou alguma “igreja vizinha”. Isso não significa que não haja registro de queixa, antes o fato de que, se na maioria dos casos, assim não fazem é porque acreditam que a cordialidade é a melhor maneira de garantir o viver em comunidade, como se todos ao redor do terreiro fossem parte dele.

Os terreiros de candomblé vêm na verdade resistindo, pois não querem mais assistir à derrubada de outra comunidade por um capricho ou falta de entendimento entre órgãos que deveriam representar a cidade, mas que ao contrário, ao invés de dialogar entre si, estão sempre preparando um projeto para apresentar às comunidades/terreiros próximo às eleições.

Acredito, de fato, que estas coisas só acontecem porque alguns segmentos do poder público que deveriam apoiar, proteger e promover o patrimônio afro-brasileiro atuam ainda de forma tímida, ora pelo despreparo de alguns representantes, pela falta de conhecimento de questões referentes à cidade e os terreiros, ora mesmo pela falta de respeito e compromisso conosco. Esse fato resulta no ostracismo e no cinismo de algumas instituições, que insistem em se lembrar do povo de candomblé a cada quatro anos.

Pensar sobre as comunidades/terreiros e a cidade é pensar, sobretudo, sobre nós mesmos. Sobre a dívida que as cidades têm com estas comunidades enquanto mantenedoras de identidades e centros de promoção da cidadania.

Se os atabaques forem impedidos de tocar, se os foguetes forem proibidos de estourar, se as palmas, os sons dos instrumentos rituais não puderem mais ser ouvidos graças ao “apelo”das cidades, que sons restarão nestas? Nas comunidades em que estamos inseridos? Certamente apenas o dos foguetes, das balas perdidas e o gemido de dor e desesperança saído num dia de uma casa, no outro de uma igreja, depois de um terreiro e assim por diante.

Nós que acreditamos nos nossos ancestrais vamos continuar lutando para não vermos esse dia chegar; nós e as nossas gerações. Para isso vamos continuar afirmando que o “barulho” da cidade, entendido como os diferentes apelos que traduzem a sua complexidade, pode se transformar na mais linda melodia. Talvez possamos começar desligando os alto falantes e caixas de sons que estão voltados para os nossos vizinhos a fim de ouvirmos os sons que falam dentro de nós mesmos. Em outras palavras, precisamos dar voz ao sagrado que mora dentro de nós. Isso é vivência de nossa ancestralidade.

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*Vilson Caetano de Sousa Júnior – Omo Orixá do terreiro Pilão de Prata (Ilê Odô Ogê), doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, pós doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da UFBA, membro do Conselho de Cultura do Estado da Bahia

MÃE SENHORA – 110 ANOS DO NASCIMENTO

31/03/2010

Foto de PIERRE VERGER copiada do Google Imagens

 

OXUM MUIWÁ

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texto de JOSÉ FELIX DOS SANTOS*

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Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, Oxum Muiwá, filha legítima de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, nasceu em 31 de março de 1900, na Ladeira da Praça em Salvador, Bahia.

Era descendente da nobre e tradicional família Asipá, originária de Oyo e Ketu na África, importantes cidades do império Yoruba. Sua trisavó, Sra. Marcelina da Silva, Oba Tossi, foi uma das fundadoras da primeira casa da tradição nagô no Brasil o Ilê Axé Aira Intile, Candomblé da Barroquinha, depois Casa Branca do Engenho Velho, que deu origem aos terreiros do Gantois (Ilê Axé Omi Iyamassê) e o Ilê Axé Opô Afonjá, do São Gonçalo do Retiro.

Não se tem muita informação sobre a vida de Maria Bibiana, do nascimento até os 7 anos, talvez em razão da pouca importância que se dá nas comunidades de candomblé aos fatos e datas da vida secular e do pudor cerimonioso com que são tratados os fatos da vida pessoal dos seus membros, sobretudo aqueles tornados líderes, com uma posição e autoridade a serem preservados.

O que sabemos é que foi iniciada aos 7 anos de idade e, nesta época, já recebeu de sua mãe-de-santo, Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, a “cuia” que pertencera à sua bisavó, Marcelina Obatossí. O merecimento excepcional obtido por Senhora em tão tenra idade, deveu-se à sua linhagem familiar e espiritual.

Senhora foi preparada por Obá Biyi para ser sua sucessora. No Axé Opó Afonjá foi a Ossi Dagã e nas ausências de Mãe Aninha, assumia os cuidados com o culto e os filhos da Casa, auxiliando as tias e irmãs mais antigas no comando da comunidade.

Com a morte de Mãe Aninha e “depois de realizadas todas as obrigações e preceitos de acordo com a liturgia da seita, e tudo regularizado dentro do Axé Opô Afonjá”, em junho de 1939, Mãe Senhora assume, ainda com o título de Ialaxé, a direção do terreiro – “como era de direito, devido à sua tradicional família da nação Ketu, ao lado de Mãe Bada, Maria da Purificação Lopes, Olufan Deiyi, já idosa, mas reconhecidamente sábia e experiente, propiciando uma transição segura e tranquila até a sucessão concluída com sua morte e luto ritual. Segundo Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, seu único filho biológico, Mãe Senhora torna-se de fato e direito a Ialorixá do Axé, em 19 de agosto de 1942.”

No Ilê Agboulá, comunidade do culto dos Eguns de Ponta de Areia, ilha de Itaparica, exerceu sua liderança e recebeu o título mais elevado dado a uma mulher – Iya Egbé.

Sua fé em Xangô era inabalável, e sua dedicação ao orixá de sua mãe-de-santo era “maior até que ao seu próprio orixá” – que ela chamava de “meu anjo da guarda”.

Mesmo não residindo “na roça”, estava presente e tudo controlava com extremo rigor e pontualidade, empenhando todos os esforços para a fidelidade dos preceitos com entusiasmada dedicação.

Esta Senhora de Oxum de forte personalidade, deu seguimento às comemorações e festas tradicionais de acordo com o calendário estabelecido por Dona Aninha. Mantinha muitos dos hábitos instituídos por sua mãe-de-santo, como ter a sua manutenção econômica assegurada por atividade independente do sacerdócio.

Vivia o sacerdócio como uma missão. A partir de 1942, Senhora, já ialorixá, começou a tomar providências importantes para neutralizar as reticências e oposições que por ventura ainda perdurassem no interior do egbé e a substituir cargos tornados vacantes por afastamento, morte ou para reforçar sua liderança.

Criou então os cargos de substitutos no quadro dos Obás de Xangô – os otuns e os ossi obás – ou seja, os primeiros e segundos substitutos dos titulares, ampliando o quadro inicial dos 12 titulares para 36. E aprimorou a instituição, definindo suas funções e estendendo a escolha dos obás para o âmbito social, além dos limites da comunidade religiosa.

Provavelmente já como fruto desta nova orientação no corpo dos obás, Senhora e o Axé começaram a colher frutos importantes. Pierre Verger, que desde 1946 fixara residência na Bahia e, a partir de 48, fazia frequentes viagens à Africa, já desenvolvendo pesquisas, tornou-se um interlocutor interessado na retomada das relações entre afro-brasileiros e africanos. Foi assim, que em 1952, Dona Senhora, Oxum Muiwá, recebeu do Oba Adeniram Adeyemi, o Alafin (rei) de Oió, na Nigéria, um edun ará e um xerê de Xangô, acompanhados de uma carta, tratando-a com título de Iyanassô.

Como explica Vivaldo da Costa Lima, num artigo intitulado Ainda sobre a Nação Queto, Iyanassô é um título altamente honorífico, privativo da corte de Alafin de Oió, isto é, o “rei de todos os yorubás”. É a Iyá Nassó quem, em Oió, a capital da nação política dos yorubás, se encarrega do culto de Xangô, a principal divindade dos yorubás e o orixá pessoal do rei.

Dona Maria Bibiana do Espírito Santo comungava do entusiasmo de Pierre Verger de verem reatadas as relações culturais com a África e recebia com frequência a visita de intelectuais e embaixadores de países africanos como Daomé, Ghana e Senegal. O governo senegalês conferiu-lhe, em 1966, a comenda do “Cavalheiro da Ordem do Mérito”, pelos relevantes serviços prestados na preservação da cultura africana no Novo Mundo.

 

Mãe Senhora quando jovem

Dona Senhora de Oxum teve a satisfação de ver reconhecida a sua liderança espiritual, ainda em vida, em muitas homenagens que recebeu:

Em 1957, por ocasião do cinquentenário de sua iniciação, foi homenageada com uma grande festa no barracão do Axé lotado dos filhos-de-santo, obás e demais integrantes do egbé, delegações dos mais diversos candomblés da Bahia, personalidades da vida intelectual, muitas delas vindas do Rio de Janeiro e São Paulo, inclusive representações do presidente Juscelino Kubitschek e do seu ministro da Educação.

Em 1959, por ocasião do IV Colóquio Luso-Brasileiro, realizado pela UFBA, Dona Senhora ofereceu no Axé um grande amalá de Xangô, numa festa pública dedicada aos congressistas. Durante a festa, o escritor Jorge Amado saudou os convidados, em nome do terreiro e de sua ialorixá, dizendo “…Estais em vossa casa porque este terreiro de Xangô, este candomblé de Senhora, tem sido – permanentemente e sempre – uma casa da cultura e da inteligência baiana… somos orgulhosos deste templo e de seu significado. Aqui passaram e estudaram Martiniano do Bonfim, babalaô da casa, nosso Édison Carneiro, o feiticeiro Pierre Verger e hoje nós, homens de cultura, somos os defensores do seu segredo e de sua grandeza, ao lado desta figura invulgar de mulher, feita de uma só peça, rainha, se a este título damos sua significação mais profunda…”

Em 1965, Mãe Senhora recebeu o título de “Mãe Preta do Brasil” e foi aclamada pelas comunidades religiosas afro-brasileiras, que lotaram o Maracanã, no Rio de janeiro, com seus representantes, além de políticos e jornalistas.

Deixamos com Mestre Didi, seu filho e importante historiador da tradição da sua comunidade, a notícia do seu falecimento: “No dia 22 de janeiro de 1967, Maria Bibiana do Espírito Santo veio a falecer pela manhã, ao nascer do sol… Mãe Senhora, assim, como todos os de sua família, morreu de repente, e talvez por isso pareceu impossível a muitos acreditar na notícia da sua morte. Tão forte ainda, aparentemente tão sadia, com aquela presença de rainha, sua força de comando, sua intimidade com os orixás!”

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*José Felix dos Santos – Bisneto de Mãe Senhora, Otun Algba do Ilê Axipa, Ogã do Ilê Axé Opô Afonjá

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NOTA DO EDITOR – O texto acima é um resumo da introdução do livro Maria Bibiana do Espírito Santo – MÃE SENHORA: saudade e memória, organizado por José Felix dos Santos e Cida Nóbrega – Salvador, Corrupio, 2000, 184 p.

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ILDÁSIO TAVARES – GENTE DA BAHIA

07/02/2010

ILDÁSIO TAVARES em seu reduto de produção e criação durante entrevista para a série MEMÓRIA DA BAHIA, do jornal A Tarde. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde - 16.6.2009

AS SETENTA VIDAS DE UM OBÁ-POETA

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Quando ele nasceu, um anjo torto, barroco e baiano, olhou-o com um sorriso fescenino e decretou em sentença: “vai, poeta, ser Ildásio na vida!”

Daí em diante, ele só se multiplicou por inúmeras faces e, sozinho, poderia muito bem ter povoado todos os espaços e recantos da literatura.

Existe o Ildásio poeta, o Ildásio professor, o Ildásio erudito, capaz de discorrer com elegância e conhecimento profundo sobre dez dos dez mais complexos assuntos que pautam nossa cultura; temos também o Ildásio boêmio e amante da sedutora paisagem baiana, sobretudo se encarnada no sexo feminino, independente de etnia ou origem social, mas importando que possua as curvas estonteantes da Avenida Contorno.

Esse é certamente o “Dadá Tavares”, cantado por Antônio Carlos e Jocáfi que “entre noites, mulheres e badalos, dava aula de inglês nos intervalos pra que sua família não lhe deserdasse”.

Esse também pode ser chamado Ildásio Taveira, personagem memorável de Jorge Amado no seminal A Tenda dos Milagres, que nos comunica uma Bahia negra, negro-mestiça, civilizada pela sabedoria africana, na sua capacidade de criar e resistir.

Aí se desvela o Ildásio do Candomblé, o Obá de Xangô e o filho de Omolu/Jacum, o exímio capoeirista Lacrau de outros tempos, e o sábio de hoje que continua lutando para esquivar-se de adversidades, aplicando aús e meias-luas na vida.

E há um impagável Ildásio epigramista, demolidor implacável de hipocrisias e reputações literárias que não resistiriam ao sopro da mais leve brisa. Espécie de Gregório de Mattos redivivo, encarna esse espírito barroco que atravessa a Bahia, como seu arquétipo cultural, e tempera, com veneno e arte, a expressão da inteligência aguda e do riso triunfal.

O espaço deste artigo já está acabando e ainda sobra tanto Ildásio que nem suas setenta vidas seriam capazes de abarcar.

De “restos”, querido poeta, o coração daquele menino de 12 anos, que se fez encantado por sua poesia, ainda guarda o verso-senha da sua inspiradora existência: “há um resto de ontem na calçada/ que foi dia de festa e fantasia/ há um resto de mim em toda parte/ que nunca pude ser inteiramente”.

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*Jorge Portugal – Educador, poeta, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO!, da TV Brasil

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FESTA PARA A RAINHA DO MAR

02/02/2010

Ilustração de SIMANCA

texto de CLEIDIANA RAMOS

(extraído do blog Mundo Afro)

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Hoje, todos os caminhos na capital da Bahia levam até Iemanjá, chamada de “a mãe cujos filhos são peixes” e também conhecida como aquela que fez brotar dos seus seios generosos as outras divindades.

Iemanjá costuma sempre ser muito festejada por seus devotos e filhos. É saudada como generosa e protetora, características próprias da maternidade que é uma das suas referências mais conhecidas.

Curioso que é a única das divindades das religiões de matrizes africanas que ganhou uma festa própria sem nenhum tipo de associação com santos católicos.

A festa nasceu de uma devoção dos pescadores da colônia de pesca Z-1, localizada no Rio Vermelho e resiste ano após anos. Se o primeiro presente foi levado numa caixa de sapato, o de agora segue em um barco, acompanhado por uma procissão de outras embarcações.

O agradecimento e pedidos de um grupo de pescadores, portanto, acabou se transformando em apelos coletivos. E Iemanjá parece ouvir e atender, afinal, ano após anos, são mais e mais balaios para receber os presentes dos outros devotos que enfrentam filas quilômetricas para colocar seu agrado desde as primeiras horas da manhã.

E a festa não começa ali. No ínício da madrugada, a zelosa Mãe Aíce, que orienta todo o ritual religioso, vai até o Dique do Tororó levar a oferta de Oxum, senhora das águas doces, que não pode e realmente não fica esquecida.

O ritual às margens do Dique é tranquilo, emocionante e completamente silencioso. O por quê? Como várias coisas em candomblé, a resposta é para quem está autorizado e precisa escutá-la. Aos demais fica a lição que se observa e entende aquilo que está ao seu alcance.

Após o agrado a Oxum é hora de levar a oferenda principal para o Rio Vermelho, que fica guardada na chamada Casa do Peso até o meio da tarde quando parte até o local onde  deve ser depositado como agradecimento e prece para que o ano seja farto. E os pescadores, ano após ano, mostram que estão satisfeitos com a sua rainha e a proteção que ela oferece a quem vive parte significativa da vida em seus domínios.

Missão religiosa cumprida, é hora de aproveitar as várias festividades no entorno da praia que não tem o nome específico, mas é conhecida como “aquela do presente de Iemanjá”. As feijoadas são as concentrações mais procuradas. Tem desde as oferecidas na simplicidade das barraquinhas até as servidas nos hotéis luxuosos do Rio Vermelho, sem falar nas chamadas “festas de camisa”, aquelas em que precisa adquirir este tipo de vestimenta para participar.

Com sua leveza e zelando pelo equilíbrio, afinal é a protetora da cabeça, Iemanjá do povo ketu, Mamento Dadá, Dandalunda ou Kayala, divindades com características semelhantes nas nações da família bantu, ganhou na Bahia o domínio das águas salgadas.

Portanto, como majestade que é, recebe honrarias especiais dos seus súditos e filhos. Axé!

BAIANICES DA VIRADA – zédejesusbarrêto

31/12/2009

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Sobre as ondas

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A fila do ferry foi pra lá de Roma. Rodoviária loucura. Voos atrasados. Hotéis lotados. Todos querem ir. E você vai pra onde? Um tumulto na BR-Brasilgás a cada parada de buzu. Todos precisam pongar.

Do Natal até o fim do ano aconteceram mais de 100 assassínios na Bahia. Nunca se viu. O governo diz que vem mais viatura, mais armamentos, que a guerra é tirana, e tome-lhe bala.

É preciso comprar, comer, beber, dançar. Temos ânsias de festança. Vai buscar… correndo! E ligeiro.

Tão sós, seguimos em bandos, aos soluços (vômitos?), sob os estímulos vigentes, no ritmo que ecoa.

Filas, correria, estresse, euforias, foguetes, champã, regalos, procuras, desejos, promessas, (des)encontros… Quero mais, não há tempo de temer a sorte.

Quero mais… é só o começo, vem aí muita festa, carnaval.

É só quentura, barril!

Tribais rituais. Celebramos o quê? O gregário humano.

Gosto de perigo no ar, aquele travo de felicidade, coletivo.

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É noite.

Pés descalços na areia úmida que reflete o dourado da lua cheia, brinco de seguir sozinho pisando nos bordados das franjas brancas que as ondas vindas do mar escuro vão desenhando na praia. Tantos!

De longe, o rumorejar das águas, um pulsar profundo que se espraia como um expirar cansado.

Belo, sedutor.

É necessário ouvir as canções do mar.

O que nos dizem as águas.

Bença mãe.

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(31dez/2009)

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Agulhadas na fé

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O cardeal arcebispo primaz do Brasil, Dom Geraldo Majella, autoridade maior da Igreja Católica Apostólica e Romana, na Bahia, foi visitar no hospital o menino agulhado pelo padrasto.

O ato de enfiar cerca de 30 agulhas numa criança de dois anos chocou.

Entendo que por ignorância (inexplicável, no caso) o noticiário falou de um ritual religioso, de participação de uma rezadeira ou mãe-de-santo, coisa de magia-negra.

O noticiário televisivo, mal informado ou de má fé, também chocou.

Não existe religião verdadeira que pregue ou faça o mal’, disse o cardeal.

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MÃE STELLA DE OXÓSSI – Foto de MARGARIDA NEIDE | Agência A Tarde

Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, tradicional terreiro de candomblé de nação keto/nagô fundado por Mãe Aninha em 1910, também falou com autoridade e serenidade de sacerdotisa:

O candomblé, religião dos Orixás, não faz mal às pessoas. Nosso compromisso é com o bem e a verdade. Cuidamos o espiritual’.

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Mãe Stella deixou claro que esse fato, chocante, não tem qualquer ligação ou referência com a crença nos Orixás. Dela é a mensagem, que deve ser refletida sobretudo pelos responsáveis pela comunicação, pela informação:

No candomblé não existem esses tipos de rituais com agulhas, nem existe magia negra na religião. O próprio termo já é preconceituoso”.

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A Ialorixá ainda está perplexa com a invasão do centenário terreiro de São Gonçalo do Retiro, numa noite desse dezembro que se finda, por um grupo de vândalos que fizeram um arrastão, invadiram locais sagrados, derrubaram portas, profanaram espaços e objetos do culto, saquearam casas… A roça do Afonjá é uma comunidade.

Quem terá sido? Voltarão na madrugada escura?

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O povo-de-santo da Bahia merece respeito.

E proteção. Cuidados.

Terreiros são locais sagrados.

Como são as catedrais, as sinagogas, as mesquitas…

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Que seria da Bahia, nossa Mãe Preta, não fosse seu povo-de-santo?

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Dois mil e dez me chama.

Acudam.

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(zedejesusbarreto / 31 dez 2009)

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VIVA SANTA BÁRBARA E IANSÃ

04/12/2009

Dia de Santa Bárbara na Cidade da Bahia. Fotos: FERNANDO VIVAS – 4.12.08

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Com as bênçãos do criador

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de zédejesusbarrêto

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Contam os católicos que ela era uma menina danada, filha de um homem muito rico e poderoso, em terras do oriente do imenso império romano já em decadência, minado pela fé cristã, então revolucionária. Era a nova religião pregada pelos apóstolos de Jesus Cristo, a crença do amor, da igualdade, a religião dos pobres, da vida comunitária, contra a opressão dos poderosos.

Pois essa menina altiva e retada, desde criancinha, rebelou-se contra o autoritarismo paterno e os ditames familiares de opulência e opressão. Encantou-se com a boa nova do cristianismo e queria porque queria ser batizada na nova fé, rompendo coma família. O pai, depois de muitas desavenças e de constatar que não conseguia domar a filha amada rebelde, decidiu trancá-la num castelo, a ferros, só com uma janelinha no alto da torre, longe da influência ‘maléfica’ dos rebeldes cristãos. E contratou um preceptor para educá-la, um sábio grego. Ambos trancafiados.

Mal sabia o papai que o velho grego era iniciado no cristianismo e, às escondidas, encantado com a inteligência e a determinação da menina, providenciou o seu batismo cristão com o nome de Bárbara (de ‘bárbaro’, nome como eram designados todos aqueles que não falavam o latim, a língua oficial do grande império romano, e não se submetiam às ordens do império).

Pois bem, o pai ficou ciente da fuga e do ato de rebeldia, castigou-a com uma surra, acorrentou-a e mandou eliminar o velho preceptor. De nada adiantou. A jovem o enfrentava. Com muito ódio, o velho pai então decidiu decapitar a própria filha em praça pública, como exemplo. Uma lição, definitiva, para todos os que ousassem se rebelar contra o ‘divino poder’ de Roma.

Então, conta a história que ao decepar com a própria espada a cabeça da filha, num dia de tempestade, o desalmado pai foi fulminado por um raio à frente de todos.

Bárbara tornou-se santa e mártir da Igreja Católica e seu dia litúrgico é celebrado a 4 de dezembro nessas bandas do Ocidente.

Bárbara & Oyá

Consta que em nenhum lugar do mundo ocidental cristão Santa Bárbara é tão venerada quanto na Bahia. Tem suas razões históricas, ligadas aos tempos da escravidão. Em dias de tempestades tropicais, senhores e escravos, brancos e negros, casa-grande e senzala postavam-se diante das imagens de Santa Bárbara a orar e pedir proteção contra os raios, os ventos, no temor das trovoadas que ecoavam fortes e assustadoras mata adentro.

Daí a identificação tão forte, arraigada no coração, na alma do povo da Bahia, entre Santa Bárbara e Iansã, a Oyá dos nagôs, a Matamba e Bamburucema dos bantos, a deusa dos ventos, dos raios, das tempestades, senhora das nuvens de chumbo, sensual, guerreira, poderosa e vingativa, a que não teme os Eguns, a dona do vermelho, eparrei!

Em muitos lugares do mundo Santa Bárbara nem é mais cultuada pelos católicos, seu culto é considerado uma lenda. Mas, na Bahia… Santa Bárbara é toda-poderosa!!! E será sempre uma divindade no coração do povo mestiço dessa terra abençoada.

Parafraseando Gilberto Gil… Que seria de Santa Bárbara não fosse Iansã? E de Iansã, não fosse Santa Bárbara?

Que assim seja!

Orações, missa e procissão para Santa Bárbara. Chama de vela acesa, vermelho e caruru para Iansã.

Assim é a fé do povo. E que elas, as duas, nos valham! Com toda a fé e o respeito.

Assim é na velha Bahia!

Amém.

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Eparrei!

Yansã comanda os ventos/ E a força dos elementos/ Na ponta do seu florim/ É uma menina bonita/ Quando o céu se precipita/ Sempre o princípio e o fim.

Senhora das nuvens de chumbo! Senhora do Mundo! Rainha dos raios!”

(Gilberto Gil/Caetano Veloso)

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Yansã é conhecida também por Oyá. É o orixá dos ventos e das tempestades. Corajosa guerreira, acompanhou seu marido Xangô na guerra. Foi sua terceira mulher. Divindade do rio Niger, mandona, sensual e inflexível. No sincretismo baiano é Santa Bárbara e tem um mercado com seu nome na Baixa dos Sapateiros. Contas arroxeadas, roupas vermelhas. Usa espada e um eruexim (espécie de adorno que segura com a mão e sacode enquanto dança – nota da redação) feito com rabo de boi. Come cabra, galo, acarajé, não come abóbora, tem quizila. Saudação: Eparrei!

(texto de Jorge Amado, retirado do livro “Bahia de Todos os Santos – Guia de ruas e mistérios” – Editora Record, edição de 1986)

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Yansã ou Oyá, esposa de Xangô, divindade dos ventos, das tempestades e do rio Niger. De temperamento forte, sensual e autoritário. É o único Orixá capaz de enfrentar os Eguns ou espírito dos mortos. Sincretizada com Santa Bárbara. Sua contas são roxas. Seu dia, quarta-feira. Gosta de acarajé e não suporta abóbora. Sacrificam-se-lhe cabras. Dança agitando os braços como que enxotando almas ou com alfanje e um eruexim de rabo de cavalo. Saúda-se gritando: Eparrei!”

(texto de Pierre Verger, retirado do livro “As Sete Portas da Bahia, Textos e Desenhos de Carybé” – editora Record, edição de 1976)

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A dona do Raio e do vento

O raio de Iansã sou eu

Cegando o aço das armas de quem guerreia

E o vento de Iansã também sou eu

Que Santa Bárbara é santa que me clareia

A minha voz é o vento de maio

Cruzando os ares, os mares e o chão

E meu olhar tem a força do raio

Que vem de dentro do meu coração

O raio de Iansã sou eu…

Eu não conheço rajada de vento

Mais poderosa que a minha paixão

E quando o amor relampeia aqui dentro

Vira um corisco esse meu coração

Eu sou a casa do raio e do vento

Por onde eu passo é zunido e clarão

Porque Iansã desde o meu nascimento

Tornou-se a dona do meu coração

O raio de Iansã sou eu

E o vento de Iansã também sou eu

O raio de Iansã sou eu

(música de Paulo Cesar Pinheiro, no CD ‘Mar de Sophia’, de Maria Bethânia)

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Oração de Oyá

Sem ela não se anda

Ela é a menina dos olhos de Oxum

Flecha que mira o sol

Oyá de mim’

(Maria Bethânia)


ENTREVISTA DE GILBERTO GIL AO ESTADÃO

24/11/2009

21 de novembro de 2009

VISÕES DE UM PASSAGEIRO DA POLÍTICA


Em turnê pela Europa, compositor diz que Brasil é um país menos preconceituoso, elogia FHC, Lula e Marina


por IVAN MARSIGLIA, do jornal O Estado de S.Paulo


Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui (…)/ Naquela ausência/ De calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir. Os versos do rock Back in Bahia, de Gilberto Gil, sobre o sentimento do exílio entre 1969 e 1972, não definem seu estado de espírito na última semana, quando revisitou a capital inglesa. Instalado no hotel Renaissance Chancery Court, tinha à mesa da suíte um exemplar da revista britânica The Economist, cuja capa traz o Cristo Redentor transformado em foguete, anunciando que o Brasil decolara de vez no mundo.

Por onde passou na turnê de seu novo CD, o acústico Bandadois – em que se apresenta em dobradinha com o filho Bem, mais o violoncelista Jaques Morelenbaum –, cumprindo uma agenda de shows na França, Inglaterra, Alemanha e Espanha, o assunto foi o mesmo.

Os repórteres só me perguntam disso, o Brasil, o Brasil. Fico pensando: “O que dizer?” – ri, satisfeito.

Aos 67 anos, o compositor baiano, que passou cinco anos e meio à frente do Ministério da Cultura do governo Luiz Inácio Lula da Silva, diz não ter saudades da política.

Está de bom tamanho – resume a experiência vivida em Brasília, que, além de um bocado de tempo e energia criativa, tirou-lhe parte do brilho da voz, desgastada nas intermináveis conversações ministeriais.

Por conta disso, diz ele nesta entrevista concedida ao Aliás [caderno do jornal O Estado de S.Paulo], tem feito exercícios diários de fonoaudiologia. Mas não se furta a falar quando o tema é o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado sexta-feira, no aniversário da morte do herói Zumbi dos Palmares.

Embora considere que a inclusão do negro na sociedade brasileira avançou desde a década de 60 – quando, aos 23 anos e já formado em economia, foi contratado como estagiário pela Gessy Lever, numa espécie de “experimento racial” –, Gil avalia que “é tijolo sobre tijolo, pedra sobre pedra, que essas coisas vão sendo construídas”.

A favor da política de cotas para negros nas universidades brasileiras, não concorda que elas estimulem visões antiquadas que dividem a raça humana em negros, brancos, amarelos. Vê nesse tipo de ação afirmativa uma técnica de reparação já testada em outros lugares. Então, por que não aplicá-la no Brasil, por um período?

Pelo caleidoscópio com que enxerga o País, Gil defende o filme Lula, o Filho do Brasil – “é a cultura que está pegando o bonde da popularidade dele, não o contrário” –, mas critica a falta de visão estratégica do presidente em relação aos temas de cultura e meio ambiente.

Faz um malabarismo conciliatório ao sair em defesa do amigo Caetano Veloso, que semanas atrás chamara Lula de analfabeto e grosseiro:

Caetano se referiu a uma coisa da qual todos nos orgulhamos, o fato de um homem não letrado ter chegado à Presidência com tanto êxito.


Sexta-feira foi o Dia Nacional da Consciência Negra. Celebrar esse tipo de data faz diferença?

Há uma percepção na humanidade inteira de que essas coisas, de modo geral, adiantam. Na década de 80, fui fazer um show em Washington e me telefonaram dizendo que Stevie Wonder queria me ver. Saímos para jantar juntos e perguntei o que ele tinha ido fazer na capital americana. “Estou batalhando pelo Martin Luther King Day”, ele respondeu, referindo-se à implantação de um feriado devotado à causa negra. O dia de homenagem a Martin Luther foi de fato oficializado (em 1986). E, anos depois, temos a eleição do primeiro presidente negro americano. Você pode me dizer que não teve nada a ver, mas no final das contas é tijolo sobre tijolo, pedra sobre pedra, que essas coisas vão sendo construídas.


Muito de sua obra musical vem da mistura de costumes, ritmos ou signos de que o Brasil é feito. Compartimentalizar o debate político entre ‘brancos’ e ‘negros’ pode vir a restringir as trocas culturais?

Essa não é a única compartimentalização que se nota dentro das totalidades. Compartimentalizações existem porque existem desigualdades, que precisam ser atacadas. E diferenças, que precisam ser respeitadas. Unidade não é uma abstração, é feita de partes que têm vida própria. Elas devem respeitar o sentido das totalidades, dos interesses comuns, então a política é feita disso. Se não existissem interesses particulares, não existiria política.


Como o senhor se posiciona a respeito da política de cotas para negros nas universidades?

Eis uma questão política, o ideal contemporâneo de fazer reparações, de refazer o equilíbrio que foi rompido em momentos específicos da história – como a escravidão. São técnicas de reparação. Sou a favor e tenho reiterado isso. Cotas já foram experimentadas em outros países, com êxitos e fracassos, e podem ser aplicadas no Brasil, parcialmente, periodicamente, até o momento em que funcionem ou deixem de funcionar. Experimenta, não custa nada.


Mas críticos dizem que essas ações podem reforçar a velha ideia de que a humanidade se divide em raças.

A questão não é racial, é social. São grupos humanos historicamente discriminados por alguma razão. No caso é “raça”, mas há tantas outras! As políticas compensatórias da pobreza, tipo Bolsa-Família, existem por isso, por causa de desigualdades e diferenças que precisam ser atacadas por uma visão mais aprofundada de humanismo, de republicanismo, de compromisso com a democracia, com a ideia do oferecimento de oportunidades mais ou menos iguais para todos. O argumento de que essas políticas podem intensificar processos racialistas… Sim, mas aí cabe a vigilância, cuidar para que o efeito colateral do remédio não seja mais forte do que seu efeito curativo.


Em entrevista de 2005, o senhor falou de sua passagem pela Gessy Lever, na década de 60, aos 23 anos. Disse que era uma espécie de “experimento racial” da empresa. De lá para cá, a inserção do negro na sociedade brasileira mudou?

Era um experimento que tinha esses componentes sociais e raciais. Eles queriam dar chance a setores das classes médias brasileiras que emergiam, para que viessem a ocupar postos de destaque, de comando, na empresa. A inserção do negro é um processo um tanto ambíguo, mas a situação tem melhorado, no estilo dois passos para frente, um para trás: se você somar, há um avanço, um deslocamento mínimo positivo. Você vê que a presença do preconceito, que era uma coisa muito forte e determinante das relações sociais no Brasil, tem se atenuado, diminuído. Estava lendo ontem mesmo sobre o ministro Joaquim Barbosa. Ele é um exemplo, é o negro que chegou ao Supremo pela primeira vez.


O Brasil é um país preconceituoso?

Não creio que seja mais do que o conjunto da sociedade humana. Está na média. De certa forma há até mais cordialidade, compreensão, interracialidade e intersociabilidade na sociedade brasileira do que em outras.


Mas a cultura afro-brasileira é reconhecida como deveria no País? Grupos evangélicos de Salvador, por exemplo, estão tentando substituir o termo “acarajé” por “bolinho de Cristo” ou “acarajé de Jesus”.

Isso é, de novo, questão política. Quarenta anos atrás era a Igreja católica que, de certa forma, tentava se opor à proliferação e disseminação dos cultos de origem africana. E se associava ao Estado nessa tentativa de interdição do candomblé e da umbanda. Depois a igreja cedeu espaço, assim como o Estado: em 1972, na Bahia, caiu a lei que interditava os candomblés e os obrigava a tirar licença municipal para funcionar. E passaram, como qualquer outra religião, a ter garantido o seu direito de liberdade de culto. Agora os evangélicos, na sua emergência e luta por espaço político, se opõem aos católicos, aos cultos afro-brasileiros, etc. São grupos com novos apetites políticos.


Apetites que representam alguma ameaça?

Ameaças há. No candomblé da minha mulher em Salvador houve um dia em que ela teve que confrontar um grupo de evangélicos que foi lá para a porta do terreiro e se pôs a gritar. Coisas assim acontecem. Agora, na perspectiva do deslocamento histórico, o candomblé já foi absorvido pela sociedade brasileira. E mais: está além-fronteiras, com presença forte no Uruguai, na Argentina, no Paraguai e outros países da América do Sul, tem milhões de adeptos, é respeitado. Fica restrito ao frisson político, à luta encetada por esses segmentos religiosos emergentes.


A umbanda e o candomblé perderam terreno nas favelas, onde proliferam igrejas evangélicas…

É que o garimpo dos evangélicos se faz nas classes populares, onde há uma forte presença do negro e das religiões afro-brasileiras. É por isso que atacam especificamente esses setores e recrutam contingentes para as suas igrejas.


Nos cinco anos e meio em que o senhor esteve no Ministério da Cultura, não foram poucos os que lhe perguntaram se sentia saudade da música. Tem saudade da política?

Saudade, propriamente, não. Tenho lembranças boas e um sentimento de que foi um serviço prestado com muita dedicação e alguma relevância do ponto de vista da percepção da sociedade. Foi interessante servir a um presidente que marca um momento histórico da vida republicana brasileira, que é Lula. Foi um período da minha vida pensado para ser curto e que durou quase seis anos. Está de bom tamanho (risos).


Na época, o senhor declarou que sua frustração foi não ter conseguido elevar a fatia do orçamento federal para o MinC de 0,5% para 1%. Com toda essa pujança da economia brasileira hoje, o País não aprendeu a valorizar sua cultura?

Ainda não. No sentido de alçá-la a um patamar de instituição estratégica, prioritária, com quadros, com orçamento e atenção governamental, ainda não. É preciso ir além: pensar a cultura como elemento fundamental para o desenvolvimento, para a economia e para a cidadania. Cultura já é hoje um setor importante nos PIBs de vários países. No caso do próprio Brasil, entre 5% e 7% vêm do setor. E isso vai crescer com a migração da economia do hardware para o software, dos setores pesados para os setores leves. É preciso, portanto, prestar atenção nessa tendência. Nos EUA, a maior exportação já não é de armamento, mas de produtos culturais: filmes, jogos eletrônicos, música. O Brasil se ressente de não ter uma língua de ponta para lastrear suas investidas internacionais. Mas vai melhorando diante do enfraquecimento da hegemonia dos produtos culturais de língua inglesa no mundo. Estou vendo aqui na capa da The Economist, o Cristo decolando. E também no filme 2012, sobre o fim do mundo, o Cristo surge como ícone de civilização, tanto para o bem quanto para o mal. O Brasil está chamando a atenção do mundo.


Falando em cinema, o filme Lula, o Filho do Brasil será lançado com ingressos populares e todo um esquema de divulgação em massa, mas críticos têm apontado sua vocação como peça promocional…

Mas é promocional de quem? O filme foi feito por quem? Algum partido político ou algum ministério? É um filme que resolveram fazer sobre Lula. É a cultura que está pegando o bonde da popularidade dele, não o contrário. Óxente, estão fazendo um blockbuster com um tema popular! Agora mesmo foi lançado um filme chamado Besouro, também desenhado para ser um estouro do de bilheteria, com boa realização técnica. Ainda não o vi, mas até canto uma canção nele. Besouro é outro exemplo disso, um ídolo popular, negro, mitológico capoeirista que existiu na Bahia e é transformado em super-herói. Essa é uma tendência e o Brasil terá interesse de ocupar os espaços do grande cinema popular de massas, na linha de Os Dois Filhos de Francisco. Também no cenário musical não é mais a classe média que domina a produção. São as favelas de São Paulo e do Rio, as periferias de Salvador e Recife, que estão criando novos gêneros, ditando novas modas.


No dia de seu desligamento do ministério, o senhor disse que cederia a canção Refazenda para divulgar “o avanço da agricultura familiar com os biocombustíveis”. Com a euforia do pré-sal, pouco se fala do assunto. Isso o preocupa?

Me preocupa sim. É aquela mania: acharam uma pepita de ouro, então não precisa mais trabalhar, plantar algodão, cebola. Vai viver da pepita de ouro. Não é assim. Nós estamos com a Convenção do Clima de Copenhague, que vai tratar do aquecimento global, batendo à porta. O petróleo, os combustíveis fósseis, são datados na história, ou seja, não são inesgotáveis. Está lá a luta de Obama, dos setores avançados do empresariado americano e da academia, em prol da prevalência das fontes alternativas. Não podemos nos descuidar disso. A instituição do meio ambiente no Brasil precisa ser fortalecida. É a mesma questão da cultura: o Ministério do Meio Ambiente ainda não está à altura, não tem orçamento, quadros, prestígio ou espaço no gabinete da Presidência, do jeito que deveria ter. Lula não dá a importância que deveria dar ao Ministério do Meio Ambiente.


O senhor diria que o pré-sal é uma bênção ou uma maldição?

Nem bênção nem maldição. É um recurso adicional num setor que ainda significa riqueza. Mas é só isso. O Brasil vai ter uma folga em combustível fóssil – e isso ajuda o País a pesquisar novas alternativas energéticas. Vai inclusive poder investir mais em pesquisa.


A senadora Marina Silva deixou o PT para ingressar em seu partido, o PV, e lançar-se candidata à Presidência da República. O senhor vai mesmo apoiá-la?

Já estou na campanha dela. Não preciso nem explicar o que ela significa. É como Caetano disse: politicamente e socialmente, Marina é um Lula, é um Obama. É uma mestiça brasileira que emerge, é mulher também, preparada, sensível, culta no sentido da vida e das coisas que circulam na periferia da política, é imersa nisso tudo desde a adolescência. Gosto muito dela. Nós trabalhávamos no mesmo prédio em Brasília, convivemos muito, temos afinidades. Confio nela.


Politicamente, ela significa o novo?

Sem dúvida. É um deslocamento no sentido do avanço. Assim como Fernando Henrique foi um belo presidente para o País e deixou espaço para que Lula o sucedesse de forma ainda mais interessante, uma presidência com Marina Silva seria um avanço ainda maior para o País. Do ponto de vista simbólico e, estou seguro, também do ponto político e pragmático. Pois ela seria hábil o suficiente para se cercar do que pode haver de melhor hoje no País, estabelecer diálogos com áreas importantes do pensamento brasileiro e do empreendedorismo.


E o que o senhor achou do complemento da frase de Caetano: “Marina não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro”?

Caetano disse claramente nas explicações que deu depois da entrevista, que foi apenas descritivo. Quis dizer uma coisa que é pública no Brasil: os linguistas aplaudem e o próprio Lula gosta do fato de ser visto como uma pessoa iletrada que chegou lá. Só que Caetano usou os termos mais chulos (risos) para se referir a uma coisa que todo o mundo admite, e da qual todos nos orgulhamos, o fato de um homem não letrado ter chegado à Presidência com tanto êxito.


Os discursos que fez e as conversas que teve em Brasília danificaram a sua voz. Como ela está?

Está indo bem. Voltei a cantar mais do que falar e tenho mantido cuidados fonoterápicos permanentes. Faço exercícios de voz diários para fortalecimento do aparelho vocal. Então minha voz tem estado bem melhor do que à época em que estava no ministério.


E que tal está o novo CD e DVD, o acústico Bandadois?

Havia uma demanda por parte de muita gente, fãs e amigos, para que eu me dedicasse a esse modelo simples, suave, do projeto acústico. Desde o disco Gil Luminoso (1999), que foi um projeto de voz e violão, tenho me dedicado a incursões por esse formato. Juntei-me a meu filho Bem, no Bandadois, e agora veio o Jaques Morelenbaum. Então, é um “bandatrês”. Um modelo que me dá tranquilidade, é mais manso, o uso da voz é mais moderado e não tenho que brigar com a intensidade timbrística das percussões ou instrumentos elétricos. Propicia uma expressividade mais sob meu próprio domínio e batuta. Mas também gosto das performances “stoneanas”, tão típicas de Londres (risos).


Hoje o senhor revê Londres com alegria ou melancolia?

A lembrança daqui é boa. Ainda hoje saí à rua com a Gilda (Mattoso, assessora do cantor), vendo as pessoas, os prédios, as ruas, a arquitetura, ônibus específicos… Londres é um lugar diferente, tem sua marca própria. Dizem que a Inglaterra é a China do Ocidente.


Na entrevista que deu ao “Aliás” quatro anos atrás, o senhor disse que seus filhos não iriam viver dos seus direitos autorais. Vimos, de fato, a autoria ser colocada em questão no mundo da internet. Qual é sua visão hoje?

De fato, há um desmantelamento, uma desconstrução do modelo clássico de autoria, que estava em vigência até agora. E muita coisa vira escombros, ruína, com prejuízos a grupos de interessados e titulares de direitos que viviam disso. Mas há um segundo aspecto importante no princípio do direito autoral, que é o acesso à obra, e que vem emergindo. Uma extensão imensa da acessibilidade e da própria autoralidade: falo das novas mini e microautoralidades que são proporcionadas pelo mundo digital. Todas as formas artísticas vão passar a ter uma dimensão mais pública mesmo. E para o atendimento dessa dimensão será preciso redesenhar todo um sistema legal e de direitos.


O que a sua parabólica anda captando em termos de cenário político para o Brasil?

Os fatos e os gestos internos, do próprio Brasil e do mundo, falam de forma mais eloquente do que eu poderia falar. Hoje o País é reconhecido e Lula é uma liderança mundial. Viajo pelo mundo todo e fico vendo: os repórteres só me perguntam disso, o Brasil, o Brasil. Eu fico pensando: “O que vou dizer a eles?” Não tenho nada a dizer. Eu sou o Brasil (risos).