UMA PONTE SOBRE O RECÔNCAVO E ILHAS

Ilustração de CAU GOMEZ

.

texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

.

Um réquiem de João Ubaldo para Itaparica, ameaçada de ser atropelada pela BR 242, provocou uma resposta grotesca e vazia do governo, que macula sua imagem. A reação foi xenofóbica e preconceituosa por ele residir no Rio, e não ser um técnico, senão um intelectual, supostamente amante do atraso.

Assinei o manifesto em solidariedade ao escritor pela tentativa de desqualificá-lo, em defesa da liberdade de opinião e por outras razões que vão mais além dos seus temores.

A ponte, a meu ver, não fará de Itaparica uma extensão de Salvador, tanto quanto a Rio-Niterói não expandiu Niterói, nem desafogou o Rio, que cresce na direção oposta. Itaparica, como Niterói, será apenas um atalho para a BR-101 e BR-242. Continuará como um conjunto de condomínios fechados usados um mês por ano, como o litoral de Lauro de Freitas e Camaçari.

Mesmo porque, a ponte será uma nova Paralela, engarrafada 24 horas por dia, apesar de suas oito pistas, pois o gargalo está na entrada de Salvador. Não será também uma saída para a soja do oeste, pois o nosso porto, mesmo ampliado, não tem condição de operar granéis e tem uma sobrevida de 25 anos. Ela será, sim, uma ponte sobre o Recôncavo e ilhas, cujas estradas serão marginalizadas, o sistema hidroviário e patrimônio abandonados.

Não digo adeus à ilha, que continuará sendo apenas uma passagem, lamento por Salvador, que poderá receber cerca de 60.000 carros e caminhões diários entrando por São Joaquim e cruzando seu centro antigo em direção ao Litoral Norte, onde estão as praias mais badaladas e os principais centros de produção da Região Metropolitana de Salvador – RMS, o Copec e a Ford.

Imaginem o engarrafamento do Américo Simas, da San Martin, da Contorno e do Iguatemi nos dois sentidos. Pela conformação do cabo de S. Antônio, não podemos ter um anel rodoviário, senão um fundo de saco (cul de sac). Para ele, o já congestionado Iguatemi, convergem duas estradas, a BR-324 e a Estrada do Coco/Linha Verde. Agora teremos uma terceira, a BR-242.

Enquanto em todo o mundo se evita a entrada de carros no centro, nós vamos despejar ali uma estrada de oito pistas.

A ponte terá também um impacto enorme sobre a segunda maior baía do mundo. A construção de uma ponte como essa demanda a construção de modelos reduzidos para simulações de marés, ventos e descargas de rios e assim evitar assoriamentos e correntezas indesejáveis. Pequenas obras nos portos de Fortaleza e Recife acabaram com as praias de Iracema e de Olinda. O porto de Suape atraiu tubarões para a praia de Boa Viagem.

Quanto perdeu Recife e perderá Salvador com um monstrengo que já arranca a 35 m de altura, prejudicando a paisagem, a navegação, os esportes náuticos e o turismo?

É inconcebível que se licite um projeto dessa complexidade sem estudos de viabilidade e impactos? Nem eles podem ser feitos em 120 dias.

Ao que tudo indica, o Convite a Manifestação de Interesse é apenas a legitimação do projeto do “Consórcio” já apresentado pelo secretário de Infraestrutura, cujo orçamento inicial é de R$ 2,5 bilhões, mas que poderá ser triplicado com os custos financeiros e operacionais.

É um engano imaginar que o setor privado irá investir na ponte e que ela será paga com o pedágio. Com este projeto e o remake de R$ 1,61 bilhão da Fonte Nova (A Tarde, 30/01) a capacidade de endividamento do Estado fica comprometida por algumas décadas e nós contribuintes pagando o pato.

Caro colega Bira Gordo, li com a atenção seu artigo “Radicalismo e desenvolvimento” do último dia 11/2, por ser V. o mais ilustrado porta-voz da atual administração. Esta falsa oposição entre desenvolvimento e preservação ambiental, assim como a pecha de radicalismo atribuída ao contraditório são coisas dos anos 70.

Confesso que não consegui enquadrar Ubaldo nem eu mesmo em nenhuma de suas categorias – vermelho/comuna, verde de raiva, infantil e senil/saudosista – nem numa fantasmagórica oposição.

Queremos apenas um desenvolvimento sustentável, que não seja só pontes, viadutos, asfalto, mais carros e fumaça. Há alternativas melhores e mais baratas.

.

*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil-Depto Bahia e do Crea-BA, membro da Academia de Letras da Bahia

.

***

NOTA DO EDITORPara ficar por dentro deste debate sobre o projeto de uma ponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica, veja abaixo os endereços de três posts do Jeito Baiano. Começando pelo artigo de João Ubaldo Ribeiro, publicado originalmente no jornal A Tarde e que o editor deste blog se orgulha de tê-lo botado na rede mundial, propiciando assim o surgimento do manifesto de apoio ao escritor itaparicano. O manifesto foi transcrito na íntegra em um destes posts e se você quiser subscrevê-lo, o site para isso também está aqui.

Em seguida, veja o artigo de Ubiratan Castro de Araújo, o Bira Gordo, ao qual Paulo Ormindo de Azevedo se refere em seu texto acima.

Artigo de João Ubaldo “Adeus, Itaparica”:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/22/adeus-itaparica-%E2%80%93-por-joao-ubaldo/

Manifesto de apoio a João Ubaldo: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/31/manifesto-de-apoio-a-joao-ubaldo/

Link para a subscrição do manifesto:

http://www.gopetition.com/online/33669.html

Antonio Risério entra no debate: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/21/riserio-entra-no-debate-sobre-a-ponte/

.

***

RADICALISMO E DESENVOLVIMENTO

.

texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

.

Nos idos tempos de minha juventude, o radicalismo político era indiscutivelmente vermelho, nas suas várias tonalidades; do rubro encarnado do livrinho de pensamentos do presidente Mao até o rosa choque da social-democracia. As velhas tias baianas desenvolveram uma sábia teoria, pela qual comunismo era como surto de sarampo. Era normal na infância e muito perigoso na maturidade! Hoje, o radicalismo mudou de cor. Ele é indiscutivelmente verde, em todas as suas tonalidades; do verde-oliva dos defensores da floresta, ao verde-musgo dos defensores das águas, até o verde claro dos defensores do ar puro e do clima fresco.

Para que meus amigos verdes não fiquem verdes de raiva, devemos reconhecer que o radicalismo é da natureza dos movimentos sociais. Cada movimento existe em função de uma pauta específica, focada em uma questão que assegura a legitimidade e a militância de todos os seus simpatizantes. Por isso os movimentos sociais são sempre maximalistas. Assim é que os governos são de partidos políticos e não de movimentos sociais.

O mais grave é que os radicalismos nunca andam sós. Ao lado do verde infantil, anda o saudosismo senil. Nós todos, pós-sexagenários, sentimos bater em nossas mentes a saudade de nossa própria juventude. “No meu tempo tudo era melhor”. Ai que saudade tenho da Estância Hidromineral de Dias D’Ávila, veraneio de toda a minha infância. Nunca mais os banhos das milagrosas lamas preta e branca, nunca mais a cata de mangaba nos tabuleiros… ai que saudade! Mas nem por isso pretendo destruir o Polo Petroquímico, principal atividade industrial da Bahia. Esta patologia tem hoje um sintoma: a saudade da Itaparica do meu avô! Como diz o povo, amor que fica é amor de Itaparica!

A mais recente manifestação deste encontro de radicalismos é a oposição apaixonada ao projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica. Este não é um projeto rodoviário isolado. Ele faz parte de todo um planejamento do Estado da Bahia para a reativação da Baía de Todos os Santos e seu entorno, o Recôncavo Baiano. Esta baía nunca foi um local bucólico de contemplação e sim um local de trabalho produtivo! O desafio do presente é a restauração do desenvolvimento articulado de toda a baía, com indústria naval, interligação de estradas com o sistema de portos e expansão da indústria automobilística e do Polo Petroquímico.

A baía bucólica é o triste resultado das mudanças econômicas dos anos 60, com o funcionamento da Rio-Bahia e com a implantação da economia do petróleo, que produziram um Recôncavo desenvolvido, chamado Região Metropolitana de Salvador, e um Recôncavo abandonado, chamado de Histórico. Nestes espaços abandonados, ficou uma população pobre, os nativos, sem acesso aos serviços de saúde, educação, sem emprego e sem rendas, indigentes das migalhas dos ricos veranistas e turistas do Recôncavo desenvolvido, que durante algumas semanas no ano, iam descansar as vistas com a pobreza alheia. Na Baía do século XXI, tanto nativos quanto veranistas tem o mesmo direito de acesso aos benefícios do desenvolvimento, pois são todos cidadãos baianos.

O grande remédio contra os radicalismos é a prática da democracia. Que todos os interessados sejam ouvidos! Que se defina a justa medida da preservação da cidade de Itaparica, cidade histórica e estância hidromineral, de modo a protegê-la dos impactos negativos da desfiguração urbana e da implacável especulação imobiliária. Queremos todos que a cidade de Itaparica continue a produzir milagres com a sua “água fina, que faz velha virar menina”.

.

*Ubiratan Castro de Araújo – Historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

Anúncios

Tags: , , , , ,

Uma resposta to “UMA PONTE SOBRE O RECÔNCAVO E ILHAS”

  1. pregopontocom Says:

    Como é possível em nome do imediatismo e de um falso progresso que visa única e exclusivamente atender a interesses econômicos de setores que olham apenas para o lucro a qualquer custo e em nome disso atropelam tudo que encontram pela frente sem a minima preocupação com os resultados e as consequências que isso poderá trazer para a população e para as localidades envolvidas? Os desenvolvimentistas de plantão fecham os seus olhos para tudo isso pois para eles basta olhar apenas para aquilo que lhes interessa e insistentemente invocam o progresso como suas justificativas de maneira fria e inconsequente. Ninguém de sã consciência é contra o progresso, mas ele também não pode passar como um trator por cima de tudo e indiscriminadamente. Fico aqui a imaginar se aqui tivéssemos um Coliseu ou um Circo Maximus, este aliás surgiu com a demolição recente de uma praça para que suas ruínas fossem desenterradas para apreciação do público, bem mas isso é lá em Roma, na Europa, onde só se constrói onde há espaços vazios, onde prédios e construções antigas são respeitados, são restaurados e não reformados ou demolidos, e por isso a história está sempre presente em cada rua, cada esquina, cada edificação nas suas pontes, mas não são eles países do primeiro mundo? e por que preservam tanto as suas coisas antigas? será que tem algo a ver com história e com a cultura? Bem o fato é que se o Coliseu fosse aqui há muito já teria virado um moderníssimo estádio de futebol, onde aos domingos estaríamos assistindo aos nossos Ba-Vis, e as futuras gerações tomariam conhecimento apenas pelo “ouvir dizer”. Uma ponte como essa não se constrói num estralar de dedos, tem que se pensar nas consequências que ela provocará, sociais, econômicas, ecológicas, bem como avaliar todos os aspectos negativos advindos da sua construção (vide os estragos produzidos pela ponte muito menor Aracaju-Barra dos Coqueiros). A Baía de Todos-os-Santos não é a Baía de Guanabara. A Baía de Guanabara é fechada como um saco e a Baía de Todos-os-Santos, além de ser muito maior e tendo a Ilha de Itaparica bem no centro, os fenômenos de mares são bastantes diferentes e o seus movimentos de enchente e vazante provocam correntezas que a transformam num gigantesco rio em volta da Ilha e nos entornos da Baía. Há uns anos atrás, contrapesos hidráulicos imensos e com molas foram colocados dentro da estrutura do vão central da ponte Rio-Niterói para reduzir a oscilação do mesmo, causada pelos ventos, que se tornava bastante perigosa, comprometendo a segurança da ponte e de seus transeuntes. E aqui que temos profundidades muito maiores e correntezas e ventos mais fortes, o Nordeste que o diga. Além disso, despejará uma montanha de carros, ônibus e caminhões na já tão tão sufocada Salvador, transformará a Ilha numa passagem, com especulação imobiliária e a favelização de boa parte da população da Ilha, que será empurrada para os locais menos valorizados, será inevitável. O progresso de forma sustentável de maneira equilibrada não faz mal a ninguém, muito pelo contrário, só traz benefícios para todos. A Ilha não pode ser desmontada em nome de um progresso que com certeza não beneficiará de maneira nenhuma a sua população e a localidade e enganam-se aqueles que pensam ao contrário. Um projeto que viabilize um anel rodoviário, utilizando-se o entorno da Baía, produziria menos estragos em todos os sentidos e mais benefícios para a região do Recôncavo. Posso até não nutrir muita admiração pelo Sr. João Ubaldo, mas não posso deixar de reconhecer as preocupações e as razões do cidadão João Ubaldo, a quem respeito e ao qual dedico o meu total e irrestrito apoio à sua causa, afinal de contas também tenho com a Ilha uma grande cumplicidade… POR QUE A PONTE?!!!!!!!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: