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A BAHIA VAI SE RENDER À FIFA?

23/06/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

Salvador terá que fazer duas gigantescas operações em lugar de uma só: demolir e construir um estádio”

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JEITO BRASILEIRO

DE JOGAR FUTEBOL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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O “remake” desnecessário da Fonte Nova é o retrato do desaparelhamento do Estado, que terá um preço muito elevado para a sociedade e para o próprio governo. A propaganda oficial diz que teremos uma arena semelhante à de Hanover, administrada pela mesma empresa do Ajax, de Amsterdã.

Será que a nossa realidade é a mesma desses países e temos que nos submeter cegamente ao soccerbusiness da FIFA? Afinal somos penta-campeões mundiais deste esporte, jogo que é aqui a alegria do povo, não dos barões do futebol mundial.

Os estádios da Copa do Mundo deverão estar prontos em 2012 para a Copa das Confederações. Pela opção adotada pela SETRE [Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia], Salvador leva uma tremenda desvantagem com relação a outras cidades. Terá que fazer duas gigantescas operações em lugar de uma só: demolir e construir um estádio.

Mesmo que o IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] permita sua implosão, pondo em risco monumentos vizinhos, triturar e transportar 70.000 m³ de entulho e reconstruir um estádio de 50.000 lugares em apenas dois anos e meio é missão praticamente impossível.

Para complicar, a Schulitz Architektur e o arquiteto Marc Duwe, autores do projeto, sem conhecer a geologia local, deslocaram o estádio, cópia do atual, inviabilizando a utilização de suas fundações e aumentando o movimento de terra. Aquele é um local pantanoso e fincar estacas em terreno minado por antigas fundações é tarefa cheia de surpresas que qualquer construtor evita.

Além disso, o projeto da nova arena tem falhas inexplicáveis.

A eliminação, não obrigatória, da pista de atletismo inviabilizará sua função multiuso. Sem ela, caminhões e gruas não poderão armar palcos e recobrir o gramado com placas e ambulâncias, carros policiais e de bombeiros não poderão entrar na arena durante acidentes e eventuais conflitos de torcedores. A entrada de caminhões sobre o gramado destruirá o sistema de drenagem e irrigação e o próprio gramado.

As duas mil vagas de estacionamento é outra exigência descabida da FIFA para um estádio central, servido por metrô e BRT, como se afirma. Não estamos na Europa com auto-pistas velozes. Que turistas virão de carro para assistir a três ou quatro jogos em Salvador?

Por esta razão, 17 das maiores entidades profissionais, ambientalistas e associações civis preocupadas com a aplicação dos parcos recursos públicos e temerosas dos impactos ambientais e prazo para a conclusão das obras, depois de tentar em vão o diálogo, entregaram ao governador uma carta aconselhando-o a recuperar o atual estádio, a um custo e tempo quatro vezes menor que a construção da nova arena.

Mas a questão de fundo é a sustentabilidade dessa arena chique para três ou quatro jogos, que atrairão no máximo 30.000 turistas, um décimo do que recebemos anualmente no Carnaval. Sem acordo com os dois maiores clubes, que já possuem estádios, quem irá utilizar esta arena, que mais parece uma ópera, com cem camarotes, sala e estacionamento VIP para cartolas, museu, restaurante panorâmico de 1.235 m², 39 quiosques, 81 sanitários e 12 elevadores?

Com uma superestrutura em aço carbono e cobertura de têxtil especial importado para produzir mormaço, sua manutenção será exorbitantemente cara. Nem na Europa essas arenas conseguem se manter.

Se o governo insistir nessa tecla, poderemos ficar sem a Copa e com um elefante branco que custará caro ao contribuinte. Estranha Parceria Público-Privada esta em que 70% dos recursos serão públicos e ainda teremos de pagar R$ 1,6 bilhão em 15 anos, a título de gestão, e entregar uma área central de 121.000 m².

O mais grave é que estaremos destruindo uma vila olímpica para termos apenas uma arena de futebol, renunciando a sediar jogos olímpicos em 2016 e privando a nossa juventude de ter uma piscina, pista de atletismo e um ginásio de esporte para treinar.

Pergunta-se: ainda há tempo para rever o projeto? A mudança unilateral da FIFA do jogo inicial da Copa, do Morumbi para outro estádio de São Paulo, mostra que sim. O presidente Lula reagiu tardiamente às exigências absurdas da FIFA e o governo de São Paulo já disse que não dará um real para a construção ou reforma de outro estádio, pois tem outras prioridades. Vamos pôr os pés no chão e fazer a coisa certa.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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COPA E OLIMPÍADAS À VISTA

12/06/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

(publicado originalmente na seção de Opinião do jornal A Tarde, em 6.6.10)

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Os organismos internacionais, que sempre serviram às grandes potências, estão em baixa. A ONU não tem autoridade para nada. Sua força de paz, os capacetes azuis, é expulsa ou executada na África. O FMI, além de inócuo, pede fiado ao Brasil e a Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA não consegue evitar a proliferação atômica nos países nanicos, enquanto Obama pede a Lula para convencer os iranianos a fazerem o dever da AIEA.

Neste quadro, é surpreendente a força da FIFA, que nunca fez nada pelo futebol amador ou educação esportiva. Exigir que a África do Sul construísse cinco mega-arenas, quando se sabe que a crise que ameaça o euro e o mundo se deve, em grande parte, aos gastos extraordinários da Grécia nas Olimpíadas de 2004, é um absurdo. Pior ainda é admitir que o Brasil, pentacampeão e com a melhor infraestrutura de futebol do mundo, aceite construir ou reformar doze estádios no estilo jockey club, com áreas para cartolas, museus, camarotes, restaurantes finos, estacionamento, escadas rolantes, e ingresso de US$ 40.

Numa época de TV de alta definição e 3D, é discutível a capacidade desses eventos de atrair milhares de turistas, como ocorre na Europa dotada de trens a autopistas velozes e hotelaria de ponta. A pouca afluência à Copa sul-africana parece desmentir essa premissa. Cerca de 40 mil torcedores em uma semana não vão fazer nenhuma diferença a Salvador, acostumada a receber 300 mil foliões no Carnaval. Mas a Copa pode ser um pretexto para arrancar dinheiro do governo federal e implementar melhorias urbanas. E aí varia muito o tratamento dado ao tema em cada cidade. São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba não aceitaram fazer novos estádios, senão reformar os existentes. As sete cidades restantes, de menor peso político, capitularam ás exigências da FIFA e vão bancar arenas novas.

Salvador é uma delas, preferindo desembolsar R$ 1,6 bilhão nos próximos quinze anos para construir e gerir uma arena em vez de reciclar a Fonte Nova a um custo de R$ 150 milhões (A Tarde 30/01/10). Além do mais, demolir e reconstruir um estádio naquela área pode trazer muitas surpresas, por estar sobre um antigo lago; por ser parte do entorno do Dique do Tororó, do Desterro e da Casa de Anfrísia Santiago tombados pelo IPHAN, por sua história ligada ao futebol, à natação e ao atletismo e por não sabermos o que fazer com o entulho. Ao contrário do Vitória, que aproveitou um lixão para construir o Barradão, estaríamos demolindo a Fonte Nova para criar um lixão.

Dezessete das mais representativas entidades profissionais, ambientalistas e sociais baianas, entre os quais o CREA-BA, o IAB-BA, o SENGE, o Germem e a FABS, enviaram ao governador, no último dia 18, um Posicionamento que entre coisas afirma:

1 – Não cabe a destruição de um complexo olímpico composto de estádio, ginásio e piscina para substituí-lo por uma arena exclusiva para futebol justamente no momento em que o Brasil se prepara para sediar, pela primeira vez, os Jogos Olímpicos…

2 – A estrutura principal (…) atualmente existente do estádio é perfeitamente aproveitável, como afirmou o especialista em estruturas Eng. João Leite no 1º Debate da Copa 2014, realizado no CREA-BA em 2009. A execução de novas fundações terá um alto custo, visto que a Fonte Nova está apoiada, em boa parte, em área embrejada…

5 – Até o momento não está claro como se dará a demolição e a posterior retirada das milhares de toneladas de escombros resultantes da demolição…

Temendo a não conclusão das obras a tempo e transferência dos jogos para outra cidade, o Posicionamento sugere a paralisação da demolição e início da recuperação do atual estádio.

Reconhece-se que implementar as propostas aqui elencadas não se constitui em tarefa fácil, por exigir uma profunda mudança de rumo. Porém ainda há tempo e, certamente, a população baiana saberá reconhecer esse gesto do governo do Estado em favor do cuidado com a coisa pública, especialmente avaliando o quanto do orçamento do Estado se vai comprometer para esta e para as gestões futuras e sobretudo o quanto de retorno social será garantido pelos recursos aplicados.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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ESPERANDO O BONDE

18/05/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Morávamos na Barra Avenida e poucas famílias tinham carro, na época. A maioria dos seus moradores era de classe média, mas havia também alguns ricos e muitos modestos, que viviam em uma das muitas “avenidas” da cidade. Nós, estudantes, nos encontrávamos no ponto do bonde e entabulávamos conversas que eram interrompidas abruptamente num ponto, com a famosa frase de Imbraim Sued: depois eu conto…

Éramos todos moleques, independente da origem, no bom sentido da palavra, que pongávamos e nos divertíamos no bonde. Havia filhos de comerciantes prósperos, funcionários públicos, mecânicos, operários e até de banqueiro. Não chegava a ser uma democracia sócio-racial, mas sem duvida o bonde socializava. Os abrigos da Sé e do Campo Grande, que reuniam uma multidão de estudantes da rede pública e privada, era uma festa ao meio-dia e no final da tarde, com muita conversa, olhares e namoricos.

No começo dos anos 60 os bondes foram abolidos a pretexto de atrapalhar o trânsito, para dar passagem aos milhares de carros produzidos no país. A popularização do carro privado deveria resolver tudo. Desde então deixamos de ter políticas de transporte público. Foi preciso a Fifa dizer que sem transporte de massa não haveria Copa.

Surge assim o projeto Rede Integrada de Transporte (RIT), gentilmente presenteado à prefeitura pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (Setps), que na primeira etapa deve ligar o aeroporto ao Shopping Iguatemi, correndo pelo canteiro central da Av. Paralela. As etapas seguintes, bem mais complicadas, não têm prazo, nem orçamento. As construtoras e os donos de ônibus têm pressa de cobrar a fatura de R$ 570 milhões prometidos pelo BNDES.

Criou-se, porém, uma polêmica sobre a motorização do sistema. A Setps defende um sistema conhecido pelo nome cifrado de BRT (Bus Rapid Transit). Por outro lado, o governo do Estado, que tem a chave do cofre federal, advoga a adoção do VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos). A decisão, que deveria ser técnica, está dependendo da sucessão senatorial.

O BRT, como o nome indica, é um sistema de “busus” moderninhos trafegando em via segregada, como em Curitiba. O VLT é um bonde articulado muito comum na Europa trafegando no meio das ruas, nos trilhos do antigo bonde, que nunca desapareceram completamente. Tem a vantagem de não poluir e ter uma manutenção baixa. Mas o adjetivo “leve” expressa bem que não é um transporte de massa. É o bonde moderno. Ambos podem servir como redes alimentadoras, transversais, do sistema de metrô, como nas cidades do México, Londres e Nova York.

O vetor de expansão mais forte de Salvador é o norte. Já transbordou para Lauro de Freitas e está chegando a Abrantes, em Camaçari. Nem BRT nem VLT darão conta da demanda de deslocamentos humanos na Região Metropolitana de Salvador (RMS) nos próximos dez anos, quando a região terá seis milhões de habitantes. A RMS tem duplicado de população a cada vinte anos e terá 12 milhões em 2040. As duas alternativas são um paliativo caro e não uma solução

Por que não se faz logo um metrô estruturante dessa expansão na Paralela, prevendo sua extensão até Camaçari? Um metrô de superfície, sem desapropriações, nem galerias subterrâneas, como o da Paralela, não custaria muito mais que um VLT ou BRT. Os vagões estão aí, parados, enferrujando e pagando pedágio. O metrô-tobogã da Bonocô até chegar a Cajazeiras, para que seja viável, demorará mais dez anos.

Com essa solução dispensaríamos a abertura da Via Atlântica e Linha Viva, que provocarão grandes impactos sociais e ambientais e um montão de desapropriações. E o pior, não resolverá nada, pois só induzem a população a comprar mais carros. Temos que deixar de pensar pequeno.

Lembro-me agora das propagandas rimada nos bondes, como a do Rum Creosotado, do Elixir de Nogueira e uma que dizia: “Neste mundo todos são passageiros, menos o cobrador e o motorneiro”. Desconfio que esses também são passageiros do bonde da história. A conversa está muito boa, mas vocês me deem licença, porque um bonde ou um ônibus está chegando… atrasado. Depois eu conto…

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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ENVOLVENTE DA BAÍA VERSUS PONTE

09/03/2010

Foto-montagem de BRUNO AZIZ

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A alternativa visa criar uma opção de acesso à Ilha de Itaparica, desenvolvendo o Recôncavo e evitando impactos sobre Salvador

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Disse em meu último artigo que existiam alternativas mais interessantes e baratas que a Ponte Salvador-Itaparica. Ao contrário do que se diz, aquela ponte não revitalizará o Recôncavo. Concebida como uma saída direta para o sul e oeste, ela o marginalizará. A alternativa aqui apresentada visa criar uma opção de acesso à ilha, desenvolvendo o Recôncavo e evitando impactos sobre Salvador.

Ela seria uma via envolvente da Baía de Todos os Santos que, partindo do COPEC, iria até o CIA e o complexo portuário/naval de Aratu, dali seguindo pela orla da baía ligando este complexo à RELAN, à Usina de Biodiesel, ao Temadre e cruzando o Paraguaçu ao Estaleiro de São Roque. Da ponte a via seguiria para Salinas da Margarida, das mariculturas, e dali até a Ponta do Dendê, aonde, através da Ponte do Canal, chegaria à contracosta de Itaparica. Outro ramo seguiria até o Funil. Uma ponte em São Roque com outras ligações e função já foi cogitada por outrem.

Além da integração de complexos industriais-portuários, esta envolvente seria também uma via de lazer, dando vida a pontos turísticos, como a Baía de Aratu, Museu Freguesia, São Francisco do Conde, e praias de Itapema, Saubara, Cabuçu, Bom Jesus, Monte Cristo, Barra do Paraguaçu, Salinas da Margarida, Encarnação, Mutá e Cações.

A partir dessa estrada se pode chegar, de barco, às ilhas de Maré, dos Frades, Cajaíba, Bom Jesus, Bimbarra, das Fontes, Monte Cristo e aos piscosos espelhos d’água do Iguape e Canal de Itaparica. Por meio de estradas vicinais se pode visitar cidades como Madre de Deus, Santo Amaro, Maragogipe, São Félix e Cachoeira, as vilas de Nagé e Coqueiros, as ruínas de São Francisco do Paraguaçu e Santiago do Iguape. Este é um enorme potencial turístico e cultural inexplorado, que será mais uma vez esquecido e abandonado com a via expressa Salvador/BR-101.

Através da armação de barcos, da pesca, do artesanato, da horti-fruticultura e da culinária, revitalizados pelo turismo, estaríamos desenvolvendo o Recôncavo. Em contraposição, a ponte Salvador–Itaparica e os 66 km de via expressa anunciados não têm em sua margem nenhuma atividade produtiva, de serviços ou cultural.

A estrada proposta está em grande parte feita, dependendo apenas de conexões e benfeitorias. As obras d’arte são poucas. Uma ponte sobre o Subaé (650 m), outra na foz do Paraguaçu (1.800 m) e a Ponte do Canal (3.900 m) entre a Ponta do Dendê e a contracosta de Itaparica. Esta ponte, que tem menos de um terço do comprimento da Salvador-Itaparica, não mergulhará 42 m, não terá vãos de 560 e 285 m e altura de 90 m. Será como a atual do Funil, mas menor que sua sucessora duplicada (5.300 m).

Hoje para se chegar à Fonte da Bica de carro rodamos 290 km e gastamos 3 horas e15 minutos. Com o novo traçado ficará reduzida para 110 km e 1 hora e 15 minutos, a mesma distância e tempo para ir a Sauípe, em uma estrada muito mais interessante. Se considerarmos que os ferryboats saem a cada 50 minutos e levam 40 minutos na travessia, o tempo é 17% menor, fora a espera na fila.

Esta nova via não se destina a expandir a Região Metropolitana de Salvador, onde estão as indústrias e muita terra firme por ocupar, nem escoar a soja do oeste, ou desativar o ferryboat. Destina-se a integrar indústrias e portos metropolitanos, desenvolver o Recôncavo e o turismo, evitar uma avalanche de carros em Salvador e viabilizar o sistema de ferryboats e lanchas regulando a flutuação da demanda responsável por uma frota sucateada, que não atende ao pique do verão e opera deficitária e ociosamente o restante do ano. O ferry poderá ser o fecho de um belo circuito em volta da baía.

A Ponte Rio-Niterói não tirou as barcas da Praça XV, pois seus usuários descobriram que era mais prático chegar ao centro do Rio ou de Niterói de barca do que pagar pedágio, enfrentar um engarrafamento de pelo menos uma hora e meia e não ter onde estacionar. Alternativas existem. Cabe ao governo, ouvida a sociedade, escolher aquela que melhor atenda aos interesses, não só dos usuários do mal gerido ferryboat, como das populações de Salvador e do Recôncavo, que serão beneficiadas ou afetadas com essas obras.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil/Depto. Bahia (IAB-BA)

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UMA PONTE SOBRE O RECÔNCAVO E ILHAS

23/02/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Um réquiem de João Ubaldo para Itaparica, ameaçada de ser atropelada pela BR 242, provocou uma resposta grotesca e vazia do governo, que macula sua imagem. A reação foi xenofóbica e preconceituosa por ele residir no Rio, e não ser um técnico, senão um intelectual, supostamente amante do atraso.

Assinei o manifesto em solidariedade ao escritor pela tentativa de desqualificá-lo, em defesa da liberdade de opinião e por outras razões que vão mais além dos seus temores.

A ponte, a meu ver, não fará de Itaparica uma extensão de Salvador, tanto quanto a Rio-Niterói não expandiu Niterói, nem desafogou o Rio, que cresce na direção oposta. Itaparica, como Niterói, será apenas um atalho para a BR-101 e BR-242. Continuará como um conjunto de condomínios fechados usados um mês por ano, como o litoral de Lauro de Freitas e Camaçari.

Mesmo porque, a ponte será uma nova Paralela, engarrafada 24 horas por dia, apesar de suas oito pistas, pois o gargalo está na entrada de Salvador. Não será também uma saída para a soja do oeste, pois o nosso porto, mesmo ampliado, não tem condição de operar granéis e tem uma sobrevida de 25 anos. Ela será, sim, uma ponte sobre o Recôncavo e ilhas, cujas estradas serão marginalizadas, o sistema hidroviário e patrimônio abandonados.

Não digo adeus à ilha, que continuará sendo apenas uma passagem, lamento por Salvador, que poderá receber cerca de 60.000 carros e caminhões diários entrando por São Joaquim e cruzando seu centro antigo em direção ao Litoral Norte, onde estão as praias mais badaladas e os principais centros de produção da Região Metropolitana de Salvador – RMS, o Copec e a Ford.

Imaginem o engarrafamento do Américo Simas, da San Martin, da Contorno e do Iguatemi nos dois sentidos. Pela conformação do cabo de S. Antônio, não podemos ter um anel rodoviário, senão um fundo de saco (cul de sac). Para ele, o já congestionado Iguatemi, convergem duas estradas, a BR-324 e a Estrada do Coco/Linha Verde. Agora teremos uma terceira, a BR-242.

Enquanto em todo o mundo se evita a entrada de carros no centro, nós vamos despejar ali uma estrada de oito pistas.

A ponte terá também um impacto enorme sobre a segunda maior baía do mundo. A construção de uma ponte como essa demanda a construção de modelos reduzidos para simulações de marés, ventos e descargas de rios e assim evitar assoriamentos e correntezas indesejáveis. Pequenas obras nos portos de Fortaleza e Recife acabaram com as praias de Iracema e de Olinda. O porto de Suape atraiu tubarões para a praia de Boa Viagem.

Quanto perdeu Recife e perderá Salvador com um monstrengo que já arranca a 35 m de altura, prejudicando a paisagem, a navegação, os esportes náuticos e o turismo?

É inconcebível que se licite um projeto dessa complexidade sem estudos de viabilidade e impactos? Nem eles podem ser feitos em 120 dias.

Ao que tudo indica, o Convite a Manifestação de Interesse é apenas a legitimação do projeto do “Consórcio” já apresentado pelo secretário de Infraestrutura, cujo orçamento inicial é de R$ 2,5 bilhões, mas que poderá ser triplicado com os custos financeiros e operacionais.

É um engano imaginar que o setor privado irá investir na ponte e que ela será paga com o pedágio. Com este projeto e o remake de R$ 1,61 bilhão da Fonte Nova (A Tarde, 30/01) a capacidade de endividamento do Estado fica comprometida por algumas décadas e nós contribuintes pagando o pato.

Caro colega Bira Gordo, li com a atenção seu artigo “Radicalismo e desenvolvimento” do último dia 11/2, por ser V. o mais ilustrado porta-voz da atual administração. Esta falsa oposição entre desenvolvimento e preservação ambiental, assim como a pecha de radicalismo atribuída ao contraditório são coisas dos anos 70.

Confesso que não consegui enquadrar Ubaldo nem eu mesmo em nenhuma de suas categorias – vermelho/comuna, verde de raiva, infantil e senil/saudosista – nem numa fantasmagórica oposição.

Queremos apenas um desenvolvimento sustentável, que não seja só pontes, viadutos, asfalto, mais carros e fumaça. Há alternativas melhores e mais baratas.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil-Depto Bahia e do Crea-BA, membro da Academia de Letras da Bahia

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NOTA DO EDITORPara ficar por dentro deste debate sobre o projeto de uma ponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica, veja abaixo os endereços de três posts do Jeito Baiano. Começando pelo artigo de João Ubaldo Ribeiro, publicado originalmente no jornal A Tarde e que o editor deste blog se orgulha de tê-lo botado na rede mundial, propiciando assim o surgimento do manifesto de apoio ao escritor itaparicano. O manifesto foi transcrito na íntegra em um destes posts e se você quiser subscrevê-lo, o site para isso também está aqui.

Em seguida, veja o artigo de Ubiratan Castro de Araújo, o Bira Gordo, ao qual Paulo Ormindo de Azevedo se refere em seu texto acima.

Artigo de João Ubaldo “Adeus, Itaparica”:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/22/adeus-itaparica-%E2%80%93-por-joao-ubaldo/

Manifesto de apoio a João Ubaldo: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/01/31/manifesto-de-apoio-a-joao-ubaldo/

Link para a subscrição do manifesto:

http://www.gopetition.com/online/33669.html

Antonio Risério entra no debate: https://jeitobaiano.wordpress.com/2010/02/21/riserio-entra-no-debate-sobre-a-ponte/

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RADICALISMO E DESENVOLVIMENTO

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texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

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Nos idos tempos de minha juventude, o radicalismo político era indiscutivelmente vermelho, nas suas várias tonalidades; do rubro encarnado do livrinho de pensamentos do presidente Mao até o rosa choque da social-democracia. As velhas tias baianas desenvolveram uma sábia teoria, pela qual comunismo era como surto de sarampo. Era normal na infância e muito perigoso na maturidade! Hoje, o radicalismo mudou de cor. Ele é indiscutivelmente verde, em todas as suas tonalidades; do verde-oliva dos defensores da floresta, ao verde-musgo dos defensores das águas, até o verde claro dos defensores do ar puro e do clima fresco.

Para que meus amigos verdes não fiquem verdes de raiva, devemos reconhecer que o radicalismo é da natureza dos movimentos sociais. Cada movimento existe em função de uma pauta específica, focada em uma questão que assegura a legitimidade e a militância de todos os seus simpatizantes. Por isso os movimentos sociais são sempre maximalistas. Assim é que os governos são de partidos políticos e não de movimentos sociais.

O mais grave é que os radicalismos nunca andam sós. Ao lado do verde infantil, anda o saudosismo senil. Nós todos, pós-sexagenários, sentimos bater em nossas mentes a saudade de nossa própria juventude. “No meu tempo tudo era melhor”. Ai que saudade tenho da Estância Hidromineral de Dias D’Ávila, veraneio de toda a minha infância. Nunca mais os banhos das milagrosas lamas preta e branca, nunca mais a cata de mangaba nos tabuleiros… ai que saudade! Mas nem por isso pretendo destruir o Polo Petroquímico, principal atividade industrial da Bahia. Esta patologia tem hoje um sintoma: a saudade da Itaparica do meu avô! Como diz o povo, amor que fica é amor de Itaparica!

A mais recente manifestação deste encontro de radicalismos é a oposição apaixonada ao projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica. Este não é um projeto rodoviário isolado. Ele faz parte de todo um planejamento do Estado da Bahia para a reativação da Baía de Todos os Santos e seu entorno, o Recôncavo Baiano. Esta baía nunca foi um local bucólico de contemplação e sim um local de trabalho produtivo! O desafio do presente é a restauração do desenvolvimento articulado de toda a baía, com indústria naval, interligação de estradas com o sistema de portos e expansão da indústria automobilística e do Polo Petroquímico.

A baía bucólica é o triste resultado das mudanças econômicas dos anos 60, com o funcionamento da Rio-Bahia e com a implantação da economia do petróleo, que produziram um Recôncavo desenvolvido, chamado Região Metropolitana de Salvador, e um Recôncavo abandonado, chamado de Histórico. Nestes espaços abandonados, ficou uma população pobre, os nativos, sem acesso aos serviços de saúde, educação, sem emprego e sem rendas, indigentes das migalhas dos ricos veranistas e turistas do Recôncavo desenvolvido, que durante algumas semanas no ano, iam descansar as vistas com a pobreza alheia. Na Baía do século XXI, tanto nativos quanto veranistas tem o mesmo direito de acesso aos benefícios do desenvolvimento, pois são todos cidadãos baianos.

O grande remédio contra os radicalismos é a prática da democracia. Que todos os interessados sejam ouvidos! Que se defina a justa medida da preservação da cidade de Itaparica, cidade histórica e estância hidromineral, de modo a protegê-la dos impactos negativos da desfiguração urbana e da implacável especulação imobiliária. Queremos todos que a cidade de Itaparica continue a produzir milagres com a sua “água fina, que faz velha virar menina”.

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*Ubiratan Castro de Araújo – Historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

SALVADOR, CAPITAL MUNDIAL

09/02/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Com este título pomposo e clima de Milagre do Sal, os governos municipal [de Salvador] e estadual [da Bahia] apresentaram ao público, no último dia 28 de janeiro, um cesto de 22 projetos urbanos, a maioria já em andamento ou conhecidos e outros novos elaborados como os demais em surdina, por empresas e ONGs privadas. A apresentação chic era claramente dirigida à dobradinha empresários/políticos. O Zé Povinho ficou de fora, guardando os carros.

Uma cidade mundial pressupõe um grande centro financeiro, de inovação tecnológica, de cultura, design e moda. Talvez só São Paulo e Buenos Aires possam pretender este título na América do Sul.

Na saída todos se perguntavam onde terminava a fantasia tropical e começava o mundo real.

Não se trata, evidentemente, de um plano urbanístico, senão de uma cesta de projetos independentes oferecidos pelos empresários, o que reafirma a dependência e a incapacidade da prefeitura e estado de planejar.

Salvador foi apresentada como uma ilha sem ligação com a região metropolitana (RMS). De um modo geral todos os projetos procuram valorizar as áreas de maior potencial imobiliário, a Orla do Atlântico e a bela enseada do Canta Galo. Os projetos viários seguem o paradigma, já superado, da mobilidade sobre pneu, diante do veto da associação dos donos de ônibus ao VLT (veículo leve sobre trilhos).

Não se discute como conciliar o ultrapassado porto urbano com a abertura para a baía, nem o impacto da ponte de Itaparica sobre Salvador, ou a articulação do metrô com o sistema de transporte, o uso do solo, a habitação popular, o turismo e a cultura, molas do desenvolvimento da cidade.

A maioria dos projetos terá forte impacto ambiental e social, especialmente as avenidas Atlântica e Linha Viva e de urbanização do Canta Galo, este estribado em um instrumento, a Concessão Urbanística, que só reconhece o direito à propriedade do grande capital. A expropriação da pequena propriedade sem justa causa para entregar a grupos imobiliários é inconstitucional.

Ressalve-se, contudo, que é primeira vez que os dois governos expõem o que pretendem fazer. Sob pressão da sociedade civil e da mídia esboça-se uma mudança cautelosa de atitude.

O prefeito reconhece que Salvador precisa de um plano urbanístico e que só pode sair do buraco fazendo alianças com o estado e a União. Reconhece ainda que o atual PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) não atende à dinâmica da cidade e que é preciso modificá-lo.

O convite do prefeito à discussão deixa claro que ele sabe que já não se pode governar sem ouvir os setores organizados da sociedade, que têm nos Ministérios Públicos Estadual e Federal fortes aliados.

Coincidentemente, essas são todas teses defendidas por movimentos da sociedade civil como “A Cidade também é nossa”, que inclusive moveu uma Ação Civil Pública contra o famigerado PDDU. Tal movimento vem se ampliando com a adesão de outros movimentos, como “Vozes de Salvador”, associações de bairros e ONGs e apoio do Ministério Publico.

O prefeito e o governador só não admitiram o principal, medidas para desprivatizar o sistema de planejamento, que libertaria o governo da dependência técnico-financeira do setor imobiliário e do monopólio do “consórcio” das grandes empreiteiras. Sem isso, que garantias tem a sociedade da aplicação de recursos públicos com critérios sociais, técnicos e lisos?

Não queremos ver se repetirem os escândalos do metrô, do PDDU e do lixo. Queremos dialogar sim, mas dentro de um sistema de planejamento continuado, técnico, participativo e retroalimentado, e não sobre projetos contaminados pelo vírus cavalo de troia, que mata e apaga a memória do setor público.

É possível criar uma instância de planejamento público não comprometida, como fizeram outros estados e cidades, restaurando o estado, recuperando órgãos como o Derba e a Conder, mobilizando a UFBA, a UNEB e associações profissionais. Não falta know how, nem agências para financiar: BNDES, Finep, CNPq, Fapesb.

Planejar não é uma atividade simplesmente técnica, é essencialmente política, e o estado não pode se omitir ou receber projetos de regalo. O que falta é decisão política, cuja demora compromete governos que se pretendem modernos, democráticos e transparentes.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento Bahia (IAB-BA) e professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

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O artigo abaixo também discute o programa de obras lançado pela Prefeitura de Salvador:

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PROGRAMA DA PREFEITURA

PARA A CIDADE DA BAHIA

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texto de ARMANDO AVENA

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O programa de obras apresentado pelo prefeito João Henrique com o slogan, “Salvador: capital mundial. A cidade do nosso futuro”, é um programa de obras que pode, sim, beneficiar o sistema urbano e viário da cidade. O fato de ter sido “ofertado” por instituições privadas significa, é verdade, que o planejamento urbano foi varrido da administração municipal há mais de 20 anos, mas não invalida o projeto, até porque o problema maior é de outra ordem e se resume na indagação: de onde virão os recursos para implantá-lo?

Mas a verdade é que os projetos apresentados pela prefeitura de há muito já deveriam estar implantados. A construção de vias exclusivas para ônibus e a implantação de vias alternativas à Paralela, por exemplo, são fundamentais para evitar o iminente travamento da cidade. A requalificação urbana, ambiental e paisagística da Cidade Baixa, assim como a requalificação da orla do Jardim de Alah até Itapuã são projetos que deveriam ter sido implantados 30 anos atrás.

Naturalmente esses projetos precisam ser retrabalhados sob a ótica do interesse público e ser discutidos com a população. Há, é verdade, pontos – a Ponte de Pituaçu, assim como a Ponte Salvador-Itaparica, por exemplo – que precisam ser melhor discutidos (aliás, por que diabos as pontes passaram a dominar o inconsciente coletivo dos governos da Bahia?).

Mas, no geral, o projeto foca nos principais problemas viários da cidade. Na verdade, o que falta ao programa de obras da prefeitura é um horizonte temporal mais explícito, uma definição de fontes de recursos e financiamento, e cronogramas que impeçam atrasos e superfaturamentos.

Além disso, sem a participação do governo federal, o programa é de difícil execução. E aqui deveriam entrar as lideranças políticas da Bahia, que vivem em desunião eterna, e poderiam se unir, ao menos uma vez, para, em bloco, apresentar o projeto ao presidente Lula.

Lula é um amigo de Salvador, aqui passa suas férias e nos visita muitas vezes, mas como todo amigo que se sabe muito querido, tende a atender primeiro aos amigos que quer conquistar. Talvez, por isso, tenha colocado, em sua gestão, tão poucos recursos para a velha Cidade da Bahia e bilhões de reais em investimentos para o Rio de Janeiro.

Mas o amigo de sempre também tem direito a um afago e é hora de o governo federal assumir pelo menos parte do programa de obras da prefeitura, criando um PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] para Salvador, como propus anteriormente. Afinal, há mais de 30 anos, a cidade não sofre qualquer intervenção de porte no seu sistema urbano.

Mas, além da questão dos recursos, o programa de obras da prefeitura terá ainda de vencer as resistências que aparecem sempre que se quer mexer na degradada Cidade da Bahia.

Aliás, se Paris tivesse urbanistas e arquitetos tão avessos ao moderno quanto Salvador, o Museu do Louvre não teria uma pirâmide de vidro, o bairro de La Defénse não seria construído e a roda gigante aos pés do Rio Tamisa não estaria embelezando Londres.

Por aqui, há quem considere o Clube Português, a sede do Bahia e os horríveis barracões que os ingleses plantaram no Porto de Salvador como patrimônio histórico.

Aliás, os arquitetos e urbanistas baianos deveriam ler com urgência o romance A Nascente da ultraliberal Ayn Rand (um romance sobre os arquitetos e sobre a arquitetura) para perceber que o ódio ao novo pode estar tanto no mais celerado empreiteiro, como no mais empedernido marxista.

Naturalmente, o projeto precisa ser discutido pela população e por nossos urbanistas, que se ombreiam aos melhores do mundo, mas não cabe uma discussão interminável que nunca se concretiza. Claro que poderia haver dezenas de alternativas melhores ao projeto, mas, nunca é demais lembrar, que o ótimo é inimigo do bom e sempre se torna uma justificativa para não se fazer nada.

O fato é que Salvador é a única das grandes capitais brasileiras que continua com o mesmo traçado urbano de 20 anos atrás. Por isso, em vez de os técnicos se perderem em discussões inúteis e de os políticos estarem preocupados apenas com os benefícios eleitorais deste ou daquele candidato, é hora da Bahia se unir e exigir que o governo federal coloque recursos para preparar Salvador, não para Copa de 2014, mas para o futuro.

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Armando Avena – Escritor, economista e diretor do portal Bahia Econômica

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A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

31/01/2010

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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A mordaça imposta a uma comunidade é a pista para a descoberta da expropriação das terras e extermínio de uma família japonesa no interior dos Estados Unidos durante a II Guerra. Este é o enredo de um velho western estrelado pelo notável Spencer Tracy. Moral da história, o silêncio conspira.

Guardadas as devidas proporções, vivemos um clima semelhante em Salvador.

Há alguns meses algumas centenas de famílias da Calçada e Boa Viagem tiveram suas casas e lojas declaradas de utilidade pública para efeito de desapropriação, sendo impedidas de vender ou alugá-las, sem nenhuma explicação. Uma maquete digital foi divulgada na internet, mas a prefeitura negou a autoria e afirmou está ainda estudando o que vai fazer no local.

Há suspeitas que há grupos interessados no grande potencial imobiliário do filé da península e querem se apropriar do mesmo através do falsete da Concessão Urbanística, pela qual o poder público desapropria uma área e entrega a um grupo privado. O processo é verdadeiramente kafkiano. Famílias são privadas de suas casas e trabalho, sem saber o porquê.

Um outro projeto de grande impacto na cidade, Região Metropolitana (RMS) e meio ambiente foi negado durante meses pelo governo do Estado, até que a empreiteira interessada impaciente em iniciar a obra bilionária de ligação Salvador/Itaparica abriu fogo amigo divulgando memorial e perspectiva em seu site e no jornal Bahia Negócios (12/08/09). Na nota dizia que desde janeiro de 2009 havia entregue ao governador documento pedindo autorização formal para realizar o projeto. Cinco meses depois, um secretário de governo anunciou que iria publicar edital de Manifestação de Interesse na ponte, mas negou qualquer conversa com a empreiteira. Ato contínuo, outro secretário entregou aos jornalistas o “anteprojeto da ponte”, o mesmo publicado pela empreiteira (A Tarde, 8/1/10).

Não vamos discutir aqui o mérito de projeto tão complexo, senão a forma como o processo é conduzido. É lamentável que o governo do Estado, que está fazendo um bom trabalho no varejo assistencial, cultural e de recuperação de estradas no interior, pareça inteiramente perdido no que se refere às questões macro do Estado, da RMS e da capital.

A lei do silêncio não é nova em Salvador. Na calada da noite foi aprovado o PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano), colocadas pernas de pau no cambaleante metrô, perdoada a dívida e ampliada a área do falido shopping Aeroclube, instalados cervejódromos nas areias da orla, aterradas as lagoas do Vale Encantado e sepultado o canal do Imbuí, sob protesto dos ambientalistas e urbanistas.

O Serviço de Patrimônio da União, o Ibama e o Ministério Público já deram suas respostas e o canal do Imbuí vomitou em protesto durante as últimas chuvas.

Sob o mesmo manto de segredo, o prefeito anunciou a divulgação de duas novas avenidas: a paralela da Paralela (sic) atropelando a represa de Pituaçu e a paralela da BR-324 (A Tarde,13/01).

Onde foram feitos esses projetos e sob encomenda de quem? Nem mesmos os técnicos da prefeitura têm conhecimento.

Logicamente, todos nós queremos o desenvolvimento da cidade, mas esses projetos precisam ser discutidos com a sociedade, avaliados em seus impactos ambientais e sociais e compatibilizados com os demais. O Conselho da Cidade, criado no início de 2008 por exigência do Estatuto da Cidade, instância de diálogo entre o poder municipal e a sociedade, nunca foi instalado pelo prefeito.

Fala-se ainda num projeto sintomaticamente chamado de skyline de Salvador, que estaria sendo elaborado para a orla da Bahia de Todos-os-Santos e do Atlântico financiado por um dos maiores grupos imobiliários de Salvador, além de um novo PDDU, para atender aos novos compromissos, todos desenvolvidos em silêncio e segredo.

Para quem não acredita no desmonte do Estado, leia A Tarde do último dia 13, onde o secretário de Infraestrutura diz que precisa de autorização da TWB, exploradora do ferryboat acusada de irregularidades, para divulgar o conteúdo do contrato, porque embora o contrato seja público foi firmado com um ente privado.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto e urbanista

RUMO À SALVAÇÃO DA CIDADE DA BAHIA

11/01/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

                       Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de LOURENÇO MUELLER

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Diz um ditado espanhol que mais sábio é o diabo por ser velho do que propriamente por ser diabo: o arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo publicou recentemente um artigo que mexeu com os leitores atentos deste jornal e pelo menos um se mobilizou no sentido da sugestão de que esse jornal assuma discutir a questão da cidade.

O arquiteto não é velho nem diabo mas foi sábio; brilhante também foi o artista gráfico Cau Gomez, ilustrador do artigo, que o fez fiel à ideia: a igual disputa do mesmo “guarda-chuva” pelo pobre e pelo rico.

Por dever de ofício e de leitor devo destacar que não tem sido o único a denunciar o abandono e o equívoco de percepção urbanística a que os governos das três esferas relegaram a nossa cidade/região.

Entre os artigos publicados neste jornal [A Tarde] sobre a questão – e pesquisei as últimas postagens do blog Jeito Baiano – têm destaque:

A violência apontada por zédejesusbarreto quando escreve que “…do Natal até o fim do ano aconteceram mais de 100 assassínios na Bahia. Nunca se viu. (“Sobre as ondas”, 31/12).

A inegável supremacia da cidade passada sobre a presente descrita por Agenor Gordilho Simões em 24/12: “A Salvador de outrora e a atual”.

O trânsito insano: “…Não precisamos continuar vivendo atropelos, assaltos, engarrafamentos (…) só porque nossas cidades não se adaptam às novas tecnologias e permitem que esse reizinho do consumo, o automóvel, tome o lugar de quase tudo… (“Ouçam os urbanistas”, 19/05).

A incompetência administrativa lembrada por Ormindo: …não existem mais corpos técnicos na prefeitura e no estado capazes de formular políticas públicas… os técnicos se aposentaram ou foram demitidos para serem substituídos por gestores partidários. Os poucos que restam são marginalizados.”27/12:“ Crise urbana e crise do estado”.

O surrealismo implícito na aprovação de projetos na madrugada: “…não é linear o percurso de um fato urbanístico…os vereadores votam segundo interesses de grupos…”19/09: “ A cidade e a literatura.”

A dificuldade de compreensão pelos “novos gestores” do regional versus local na preocupação abrangente de Sylvio Bandeira em entrevista na revista Muito,19/12: …Salvador não tem muitas opções de crescimento. O principal problema é que não há um planejamento regional. Hoje, nenhum organismo pensa de forma conjunta a RMS [Região Metropolitana de Salvador], integrando o Estado, os municípios e o governo federal. O Estado tem sido muito eficiente em captar esses investimentos, em ‘vender’ a região, mas não em planejá-la.”

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Esses assuntos nos levam a propor uma agenda de discussões neste ano de eleição com a participação da sociedade civil.

A TARDE se me afigura o fórum apropriado para essas discussões e um campo mais ou menos neutralizador de ideologias que vicejam facilmente no seio de estruturas institucionais como governo, empresa, terceiro setor e até universidade.

Como organizar eixos temáticos para objetivar os discursos e as discussões, selecionar palestrantes para se pronunciarem sobre os assuntos referidos acima já será uma tarefa assumida pelo jornal.

Poderíamos avançar três eixos, que deverão ser tratados ao nível das políticas públicas sempre integradas com a própria urbanização regional e construção de um novo modelo de cidade:

Infraestrutura – Abastecimento de água e esgotamento sanitário pensado em conjunto com a macro-drenagem e a contenção de encostas. Sistema viário revisto em função de uma nova matriz de mobilidade, que privilegie o transporte público de massa, o pedestre, o ciclista, dê espaço para os portadores de deficiência e minimize, sobretudo nos centros de cidade, o papel do automóvel.

Habitação popular – A definição, a partir de um plano diretor metropolitano, das novas áreas de crescimento das cidades da região e do uso e ocupação do solo indicativos da expansão da cidade-sede regional e suas limitações.

Cultura – A revisão de conceito no que concerne às atividades artísticas ocorrentes e à preparação das mesmas para o casamento da arte com o urbanismo.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto e urbanista. muellercosta@gmail.com

CRISE URBANA E CRISE DO ESTADO

27/12/2009

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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O que iguala um operário e um empresário em dia de chuva em Salvador? A incerteza da hora que vai chegar à casa, o medo de um assalto no engarrafamento e a esperança de não encontrar o fogão ou o BMW flutuando na garagem. Esta perda de qualidade de vida é o retrato da desconstrução do setor público na Bahia. O “estado mínimo” acabou se transformando em “estado zero”.

Com raras exceções não existem mais corpos técnicos na prefeitura e no estado capazes de formular políticas públicas, redigir termos de referência e programas de obras ou avaliar os presentes de grego das empreiteiras. Os técnicos se aposentaram ou foram demitidos para serem substituídos por gestores partidários. Os poucos que restam são marginalizados.

Por esta razão, não temos políticas de estado, nem memória institucional, só ações circunstanciais, de curto prazo, eleitoreiras. O vácuo e a desarticulação são os mesmos na economia, infraestrutura, habitação, educação e saúde.

Enquanto o Rio e São Paulo debatem estratégias de desenvolvimento e capacitam seus gestores em fundações como Getúlio Vargas e Casa de Ruy Barbosa; Minas o faz na Fundação João Pinheiro e Pernambuco na Joaquim Nabuco, nós não possuímos centros de pensamento nem capacitação. Criou-se entre os nossos políticos a ideia de que o saber e a técnica só atrapalham, que progresso se conquista com concreto e ferro e o resto é blá-blá-blá.

A medida do desapreço dos nossos dirigentes pelo saber se mede pelo fato de só atrairmos duas universidades federais para a Bahia, enquanto Minas Gerais tem nove.

Mas já tivemos políticos mais sensíveis. Salvador teve, no início da década de 1940, o Epucs (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador), equivalente do Ippuc de Curitiba, que colocou aquela cidade como referência mundial em gestão urbana. Foram as avenidas de vale do Epucs que catapultaram ACM ao governo do Estado, mas poucos se lembram.

Na mesma época, possuíamos um centro de referência de engenharia, o Derba, hoje reduzido a pó. No início da década de 60, tivemos a CPE (Comissão de Planejamento Econômico), de Rômulo Almeida, responsável pelos únicos projetos públicos de industrialização da Bahia, o CIA e o Copec. De lá para cá nada. O ISP-Ufba trabalha hoje mais para outros estados, empresas privadas e municípios que para o governo da Bahia.

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Sem projetos,os governos estadual e municipal são meras instâncias reativas (…) O resultado é um passivo de custosas obras desarticuladas”

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Sem planejamento nem projetos, os governos estadual e municipal não têm mando, são meras instâncias reativas, homologadoras de projetos do empresariado, num ritual que passa pela adoção de projetos carimbados, doação de terreno e infraestrutura, financiamento e isenções fiscais, sem nenhuma discussão com a sociedade ou avaliação do custo/benefício.

O resultado disto é um passivo de custosas obras desarticuladas, sem sustentabilidade, ou paralisadas, como o CAB, Aeroclube, VLT (veículo leve sobre trilhos), Metrô Rótula do Abacaxi, shopping Pelourinho, Via Náutica e viadutos que não levam a nada.

Se a gestão da Bahia e a de Salvador estão mal é consequência de uma crise maior. Nosso quadro político atual é formado pelos netos de interventores de Vargas e da ditadura de 64, por emergentes religiosos e sindicais, todos sem projetos, que se odeiam mutuamente, mas estão atados entre si pelas teias do poder.

Por falta de entendimento e planejamento não temos uma economia forte, não atraímos investimentos, não potencializamos a RMS (Região Metropolitana de Salvador) ou reduzimos a obesidade mórbida de Salvador.

O sintoma mais eloquente dessa doença é a incapacidade do estado e da prefeitura de elaborarem um projeto urbano para 2014 e transformarem a recuperação de um estádio em uma trapalhada local, nacional e mundial.

Não é, portanto, surpresa que o IBGE constate que Salvador tem o penúltimo PIB (Produto Interno Bruto) per capita do País, perdendo apenas para a pequenina Teresina. Por falta de uma política metropolitana, municípios riquíssimos, como São Francisco do Conde, primeiro no ranking nacional de PIBs, não têm nada e Candeias é um favelão. E que um cidadão capixaba tenha seis vezes mais renda que um baiano.

Neste ano novo, desejo ao povo baiano que eleja um governo que desprivatize e restaure o setor público, para que possamos voltar a ter um rumo e crescer.

 

*Paulo Ormindo de Azevedo – Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) – Departamento da Bahia

NOTA DO EDITOR – Paulo Ormindo tem dado importantes contribuições para o debate sobre o abandono em que se encontra a Cidade da Bahia. Alguns de seus artigos originalmente publicados no jornal A Tarde têm sido reproduzidos aqui e o mais acessado deles, Salvemos Salvador enquanto é tempo, está no post abaixo:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/24/salvemos-salvador-enquanto-e-tempo/