Archive for the ‘Gente da Bahia’ Category

O OLHAR CRÍTICO DE DIMITRI GANZELEVITCH

26/06/2010

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NOTA DO EDITOR – Seguem três textos em que o baiano-marroquino Dimitri Ganzelevitch lança sua visão crítica sobre a Cidade da Bahia de hoje em dia. Os artigos foram publicados originalmente em Opinião do jornal A Tarde.

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Para um Museu

de Cultura Popular

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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E nossa cultura popular? Alguém pode informar qual órgão se dedica especificamente a ela? Apostamos que não. Não existe, em todo o Estado da Bahia, um único espaço reservado à documentação, memória e resgate das expressões culturais do povo baiano. Em exposição encontrar-se-ão, talvez, umas poucas peças de caráter comercial no Instituto Mauá, muitas vezes sem especial relevância e com total deficiência de pesquisa.

A italiana arquiteta Lina Bo Bardi bem que tentou constituir, no início dos anos 60, um acervo de qualidade. A ditadura militar e o evidente desinteresse dos governantes locais por qualquer coisa que não tivesse o glamour europeu ou norte-americano relegaram o acervo aos porões do Solar do Unhão, e não se falou mais nisso.

Temos algo comparável à pernambucana Fundação Joaquim Nabuco, ao carioca Museu do Folclore Edson Carneiro, ao mineiro Museu de Artes e Ofícios? Nada! A coleção Pardal de carrancas hoje pertence a um colecionador português.

A maioria dos centros de olaria do Recôncavo e do Interior, fossilizada, está sobrevivendo no ostracismo. As rendeiras de Saubara só podem contar com uma Márcia Ganem, dentro de seu potencial de mercado. E os outros? Os que fabricam brinquedos, apetrechos de couro, cestas, mocós e balaios, montarias para jegues e cavalos, ferramentas? E as expressões e iniciativas privadas, que podemos rotular de artes espontâneas: gravadores, escultores e pintores que, sem o mínimo apoio, acabam massificando a produção para o predador mercado de turismo?

Precisamos documentar, sem mais demora, as danças, as procissões, as rezadeiras, as festas de largo, os curandeiros, os fazedores de máscaras, as lendas e crenças, o cancioneiro dos morros, das praias e da caatinga, os carnavais, as receitas tradicionais – passando por conventos, mosteiros, ocas e terreiros – as pinturas dos caminhões e carroças, o delicado e forte emaranhado dos vendedores ambulantes, tanto urbano como interiorano, os garimpeiros, pastores e boiadeiros.

Temos um material tão rico e tão ignorado! Respeitar um povo é também respeitar suas expressões. Sua essência.

Salvador, 21 de junho de 2010

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Entre cartão postal e entulho

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Não podemos sonhar em viver numa gravura de Debret ou num cartão postal do princípio do século XX. Seria pretensão desvinculada da realidade e em absoluta contracorrente à evolução da sociedade. No entanto, os marcos da história devem permanecer evidenciados, pontuando nossa memória e permitindo referências e símbolos civilizatórios.

Já beirava os quarenta anos quando cheguei a Salvador, mas logo edifícios e monumentos formaram à minha volta uma teia de fortes laços com a cidade. Como qualquer cidadão para quem a cultura é tão importante quanto comer e respirar – faço parte de uma espécie em via de extinção –, aprendi a reconhecer a individualidade desta cidade ao passar por seus pontos mais significativos.

E a cada derrubada, sofri como a morte de algum amigo. O belo templo anglicano do Campo Grande, os solares do corredor da Vitória, os casarões da Soledade, a mansão dos Correia Ribeiro e a Vila Serena na Ladeira da Barra… Mais tarde a descaracterização da residência do arcebispo – tiraram da fachada os azulejos do século XIX para colocar cerâmica de sanitário público! –, a derrubada da elegante torre que parecia benzer a Avenida Contorno e a violenta agressão, num fim de semana, à mansão Wildberger foram alguns dos tristes momentos que marcaram estes 35 anos.

Não pretendo falar de tantas outras agressões na Ribeira, Boa Viagem ou Saúde. Os furos na canoa são inúmeros. Será que a cidade não pode evoluir sem negar seu passado?

Agora temos o absurdo da demolição da Fonte Nova, obra ímpar de Diógenes Rebouças para um evento que deverá durar o tempo de uma rosa, deixando uma montanha de entulho em algum esconderijo dos arredores da capital e novas dores de cabeça em manutenção, segurança e transportes. Na mesma vassourada, pretendem eliminar sem remorso a piscina olímpica e o Balbininho.

Será que essa obra megalomaníaca [a nova Fonte Nova] é mesmo indispensável, ou é mera atitude de pretensa modernidade? Fora as costumeiras construtoras que, melhor que alquimista medieval, sabem transformar a areia em ouro, quem irá realmente lucrar com o gasto? O contribuinte soteropolitano?

Salvador, 7 de junho de 2010

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As lindas fogueiras

de São João

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Celebrando o solstício de verão nos países europeus, as fogueiras são muito anteriores à festa cristã de São João. Aqui, hemisfério sul, louvamos o solstício de inverno na noite mais longa do ano. A partir do dia seguinte, ela começará a encurtar, os dias a alongar.

As fogueiras têm sido, especialmente no Nordeste, elemento indispensável à festa. E como são gostosos os quitutes – canjicas, tortas e bolos, licores etc. – que cada família, mesmo a mais humilde, oferece ao visitante em torno da fogueira!

Mas vejamos o outro lado da medalha.

Pesquisadores avaliam a meros 20 milhões o número de habitantes no planeta, nos séculos X e XI. Densas florestas cobriam a quase totalidade do globo e, na Europa medieval, lobos e ursos rondavam os vilarejos. A neve, os ventos gelados e a fome, frequente até a descoberta do Novo Mundo, eram dura realidade. A partir do São João, voltava a esperança de colher frutos, semear, abrir as janelas e viver em harmonia com a natureza. Para festejar a noite de São João, era fácil encontrar galhos e troncos caídos.

Hoje temos quase 7 bilhões de habitantes devorando as reservas naturais do planeta, a maioria por necessidade de sobrevivência. Cada árvore tornou-se uma raridade digna de todos os cuidados. Então, como aceitar o massacre de resquícios de matas para alimentar milhares e milhares de fogueiras? Quem viajar pela Bahia afora, ficará assombrado ao constatar os montes de árvores, recém cortadas, comercializados na beira das estradas.

Nossa sociedade tem que se conscientizar: certas tradições, por lindas e poéticas que sejam, podem ter consequências desastrosas sobre o meio ambiente e afetar o futuro da humanidade.

E na cidade – estou pensando em particular no Centro Histórico de Salvador – as fogueiras ameaçam resultar em incêndios devastadores. Com a maioria das casas construídas em estrutura de madeira, a mais discreta faísca poderá acabar com um quarteirão inteiro em 15 minutos.

Vamos adequar estas tradições à nossa realidade?

Salvador, 20 de maio de 2010

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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NOVIDADES DA BAHIA

26/06/2010

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texto de RUY ESPINHEIRA FILHO*

(publicado originalmente em Opinião do jornal A Tarde de 17.6.2010)

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Um amigo distante pede-me que lhe conte novidades da Bahia. Pergunta-me, em especial, acerca do nosso desenvolvimento, nosso progresso. Respondo-lhe que, de fato, temos progredido bastante em certas coisas: no crime, por exemplo.

Sim, nunca se matou tanto na Bahia quanto nos últimos tempos. Toda a imprensa sai diariamente carregada de cadáveres: vítimas de assaltantes, sequestradores, traficantes, além das cada vez mais certeiras balas perdidas. Mata-se com imenso entusiasmo, nem mesmo delegado está a salvo. E ainda temos o secretário de Segurança para nos mostrar, com sociologias e estatísticas, como lemos neste jornal, que se trata de um progresso devidamente assegurado.

É o que se pode chamar de desenvolvimento sustentável – porque, quando os bandidos não matam, mata a polícia. A PM, por exemplo, tem uma atuação particularmente admirável – pois, além de matar, oculta os corpos. E mata logo em quantidade, da forma mais democrática possível, como aconteceu em Vitória da Conquista e em Pero Vaz, tendo direito ao fogo homens, mulheres, velhos, adolescentes, crianças.

Também vamos avançando muito na derrubada de árvores e aterramento de lagoas. Alguns reclamam, dizem que estamos acabando com a flora e a fauna, mas há sempre os insatisfeitos. Os animais não têm mais onde morar? Ora, eles se adaptam, já tem raposa comendo lixo e jiboia procurando apartamento para se mudar. Nosso amado prefeito, que é bom em autorizar derrubadas e aterramentos, não faz muito abandonou uma residência na região da Paralela para que barbeiros e escorpiões ficassem à vontade, já que não havia mais mato para eles.

Nosso progresso está a mil, de fazer inveja a paulistano, escrevi ao meu amigo. Lembrava-se ele de quando São Paulo não podia parar? Pois progrediu tanto que parou, agora o trânsito por lá está praticamente imobilizado. Mas São Paulo já não nos pode olhar com superioridade: nosso trânsito aqui está também chegando à total imobilidade.

Enfim, hoje faz gosto receber pedidos de notícias sobre a Bahia, só temos coisas boas para contar.

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*Ruy Espinheira Filho – Escritor, jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia

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MILTON SANTOS – GENTE DA BAHIA

24/06/2010

Ilustração de GENTIL

Sinto-me autorizado a pleitear a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação (Jaime Sodré)

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A MILTON SANTOS POR MERECIMENTO

ou:

TIRANOS ESPINHOS

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texto de JAIME SODRÉ*

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Permitam-me apresentar o currículo:

Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP; pesquisador 1A do CNPq; visiting professor, Stanford University, 1997/98; bacharel em Direito, Universidade Federal da Bahia, 1948; doutor em Geografia, Université de Strasbourg, França, 1958; doutor honoris causa das universidades de Toulouse, Buenos Aires, Complutense de Madrid, Barcelona, Nacional de Cuyo-Barcelona, Federal da Bahia, de Sergipe, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, Estadual de Vitória da Conquista, do Ceará, Unesp e de Passo Fundo.

Prêmios:

Internacional de Geografia Vautrin Lud, 1994; USP/1999 (orientador de melhor tese em ciências humanas); Mérito Tecnológico, 1997 (Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo); Personalidade do Ano, 1997 (Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro); Jabuti, 1997 (melhor livro de ciências humanas: A Natureza do Espaço, Técnica e Tempo).

Medalhas:

Mérito Universitário de La Habana, 1994; Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico, 1995; Colar do Centenário do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1997; Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, 1997; Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, 1997.

Lecionou nas universidades de Toulose, Bordeaux, Paris, Lima, Dar-es-Salaam, Columbia, Venezuela e do Rio Janeiro. Consultor da ONU, OIT, OEA e Unesco junto aos governos da Argélia e Guiné-Bissau e ao Senado da Venezuela.

Publicou mais de quarenta livros e trezentos artigos em revistas científicas em português, francês, inglês e espanhol.

Baiano de família de professores, com o avô e avó professores primários, mesmo antes da Abolição, que o ensinaram a olhar mais para frente do que para trás. Família remediada, os pais ensinaram boas maneiras, francês e álgebra. Foi aluno interno, neste ambiente começara a ensinar antes da faculdade, ingressando na Faculdade de Direito e se formando em 1948.

O fato: segundo o mesmo Milton, seu maior desejo era a Escola Politécnica em Salvador – “havia uma ideia generalizada que esta escola não tinha muito gosto de acolher negros, então fui aconselhado fortemente pela família (tinha um tio advogado) a estudar Direito, e daí mudei para a Geografia, que comecei a ensinar desde os quinze anos”. Havia uma crença na sociedade da época que na Politécnica os obstáculos eram maiores.

Escrevera no jornal A Tarde, como correspondente na região do cacau onde lecionava, por iniciativa do ministro Simões Filho que o descobriu para a imprensa. Ensinara na Universidade Católica e preparava-se para entrar na pública, onde fez concurso em 1960, após o doutorado em Geografia na França.

O pleito:

Quando saíamos do Colégio Central, em turma, na direção da Sé, era comum a brincadeira entre as estátuas do Barão do Rio Branco e Castro Alves, diziam:

Castro Alves estendia a mão em direção ao Barão pedindo uns trocados para libertar os negros, Rio Branco, com a mão no bolso, dizia “tenho mais não dou”.

Coisas da juventude.

Recentemente, a Semur [Secretaria Municipal da Reparação, de Salvador] solicitou-me uma relação de estátuas e monumentos de negros e negras em nosso espaço urbano, e inspirou-me para o que segue.

Diante do currículo exposto do professor Dr. Milton Santos, sinto-me autorizado a pleitear, quem sabe à própria Semur, a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação. Ainda de posse de uma das suas brilhantes frases, que estaria no monumento merecido:

Quem ensina, quem é professor, não tem ódio.

Em tempos de cotas, melhor local não seria adequado, senão em pleno ambiente acadêmico da Escola Politécnica, cumprindo um desejo do grande mestre, calado outrora pela mentalidade maldosa, inibidora da época. Aposso-me de uma frase, lugar comum neste gesto, na certeza do apoio de muitos, “ao mestre com carinho”.

Esta justíssima homenagem traduzirá, com certeza, a admiração do povo brasileiro aos seus filhos ilustres, registrando aqui homenagem a alguém que o mundo não se cansou de reconhecer e homenagear. Placidez, serenidade, sorriso permanente aberto, humanidade, sabedoria, sem perder a ternura diante das dificuldades, poderão inspirar o escultor a modelar, em material nobre, este nobre baiano.

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*Jaime Sodré – Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social

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Foto de LUIZ CARLOS SANTOS

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UMA NOVA FORMA DE OLHAR

E COMPREENDER O MUNDO

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texto de LIDICE DA MATA*

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A Câmara dos Deputados prestou homenagem ao geógrafo e professor Milton Santos, um dos mais brilhantes e respeitados intelectuais do nosso tempo, que faleceu há nove anos, deixando uma imensa lacuna, mas também nos legando uma obra incomparável que hoje é referência em todo o mundo. Não é nenhum exagero dizer que Milton Santos fundou uma nova Geografia, reescreveu os fundamentos desta disciplina, nos ensinando uma nova forma de olhar e compreender o mundo.

Negro, nascido em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, nunca se deixou abater pelo racismo, pelo preconceito social e nem pelas imensas dificuldades que enfrentou ao longo dos seus 75 anos de vida. Milton Santos foi um vencedor, um mensageiro da esperança, um guerreiro da palavra que, sempre com um sorriso amável, nunca parou de lutar e nos legou um arsenal de ideias sobre a problemática do mundo globalizado e as possibilidades de construirmos um futuro melhor para todos.

Nada mais apropriado para homenagear esse brasileiro de espírito crítico e inovador do que discutir a sua obra, debater e divulgar as suas ideias. Por isso, a Comissão de Educação e Cultura, da qual eu faço parte, promoveu no mês de maio, em que se comemora o Dia do Geógrafo, um seminário que contou com a participação de muitos parlamentares e representantes do meio acadêmico.

Neste momento, em que vivemos a mais grave crise do capitalismo no mundo, considero necessária e oportuna uma reflexão sobre o pensamento de Milton Santos. Ele nos inspira novos caminhos, nos aponta o rumo de uma outra globalização, em que o desenvolvimento seja voltado para o homem e não apenas para o beneficio das corporações nacionais e transnacionais.

Brasileiro, apaixonado por sua terra, Milton Santos é um pensador universal. E nesse aspecto, devemos destacar que não foi por acaso que, em 1994, ele recebeu o Prêmio Vautrim Lud, considerado o Nobel da Geografia. Sem dúvida o coroamento de uma trajetória que começou na Bahia, onde além de professor, foi jornalista e um intelectual engajado, um combatente das causas políticas e sociais.

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*Lidice da Mata – Deputada federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB)

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Foto de LUCIANO DA MATA | Agência A Tarde – 14.7.1997

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MILTON SANTOS, UMA BIOGRAFIA

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texto de FERNANDO CONCEIÇÃO*

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Em vida ele repudiaria o uso de seu nome para homenagens vãs. Cuidado, portanto. Em junho de 2011 completam-se 10 anos da morte do geógrafo Milton Santos, baiano para o qual setores da política e da intelligentzia local deram as costas. Tanto assim que seus restos mortais jazem em cemitério de São Paulo, cidade que o acolheu nos seus profícuos anos de projeção intelectual pós exílio forçado pela ditadura de 64.

A obra miltoniana, zelada por Marie-Helène, sua viúva, vem toda ela sendo republicada pela Editora da Universidade de São Paulo, para usufruto de quem queira. Mas afora especialistas, é certo que muitos dos que vêm se apropriando do seu nome quase nada leram dele. Ou ao menos prestaram atenção no que disse. Fariam melhor à sua memória se a difundissem apropriadamente, estimulassem a adoção de seus escritos pelas escolas possíveis. Os mesmos não se restringem à Geografia, mas expandem-se a outras áreas do conhecimento: filosofia, história, planejamento urbano, educação, economia, comunicação…

É pretensão minha entregar ao público brasileiro, daqui a um ano, a biografia de MS. Livro que narre sua trajetória, desde o nascimento em Brotas de Macaúbas. A 12 meses da efeméride, tento costurar apoios. Falta prosseguir a pesquisa necessária ao levantamento de dados, informações e depoimentos. Considerável parte desse material acha-se lá fora, por onde buscou seu sustento. Países europeus, africanos, da América Latina, Estados Unidos, Canadá e mesmo Haiti, onde se casou pela segunda vez. Também Brasil afora. O custo do trabalho não é baixo. Requer investimento que não está à mão. Mas a importância daquele intelectual exige agora dedicação quase exclusiva à tarefa. Autorizada por ele, aliás.

Cumprir a meta é o desafio. Há dificuldades naturais de percurso, objeções advindas da natureza independente do personagem a ser retratado. Daí, é de valor inestimável qualquer informação, detalhe, documento a ser oferecido para a completude da obra. Valho-me de A Tarde, no qual ele trabalhou por anos, para solicitar a colaboração de todos os que possam fazê-lo. Milton Santos, patrimônio do Brasil, é para ser rememorado sempre.

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*Fernando Conceição – Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), biógrafo autorizado de MS

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Foto de MARIA ADÉLIA DE SOUZA | SescTV

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WALY, A FERA FAISCANTE

13/06/2010

Caricatura de WALY SALOMÃO criada por GENTIL

Minha admiração por Waly [Salomão] é imensa […] Daí a felicidade em ver homenagens como a biblioteca de Ribeirão Preto e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae. Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly?

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Em 2004, andando por Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, sob a fuligem de canaviais queimados, vi à distância uma construção de arquitetura inconfundível. Um prédio de João Filgueiras Lima, Lelé. Curioso, fui ver o que o prédio abrigava. E tive uma surpresa que me deixou especialmente alegre. Era a Biblioteca Waly Salomão. Uma homenagem de Ribeirão Preto ao inventivo poeta-guerreiro nascido em Jequié, na Bahia. É claro que Waly mereceu a homenagem.

Meses atrás, no jornal O Globo, vi que estavam na reta final as obras do Centro Cultural Waly Salomão, agora inaugurado, na favela de Vigário Geral, no Rio. E, mais uma vez, Waly merece a homenagem. Pelo que fez e por ser quem foi.

O poeta-escritor que nos deu a prosa de Me Segura Queu Vou Dar um Troço. O poeta-letrista que nos deixou canções como Mel, Cabeleira de Berenice e Vapor Barato.

O poeta-editor que trouxe à luz a revista Navilouca e Os Últimos Dias de Paupéria, reunindo escritos de Torquato Neto.

O poeta-produtor cultural que, com Antonio Cícero, organizou os debates do Banco Nacional de Ideias, trazendo ao Brasil personalidades intelectuais como Horty, Gellner e Todorov, com o qual tive o prazer de debater em São Paulo sobre diversidade cultural.

O poeta-executivo, administrador público, que coordenou aqueles que talvez tenham sido os últimos carnavais baianos culturalmente relevantes.

O poeta-artista visual que nos brindou com a série colorida dos Babilaques.

O poeta que queria ultrapassar barras e bordas, não ser “si-mesmo”, mas tudo que fosse ou significasse um outro. O poeta que sabia e dizia que a memória não passa de uma ilha de edição.

Ao apresentar um livro seu, Armarinho de Miudezas (publicado por Myriam Fraga e Claudius Portugal, em importante coleção editorial da Fundação Casa de Jorge Amado) – cuja lembrança sempre me traz à mente o texto “Bahia Turva”, porrada na pasmaceira da província –, tentei fazer uma síntese de como eu o via, chamando-o “a fera faiscante” (àkàtà yeriyeri, nos orikis iorubanos), em referência ao orixá Xangô, dono de sua cabeça.

Curiosamente, aliás, Xangô é o orixá da retórica, do discurso, da eloquência. O senhor do axé na palavra. E, nesse sentido, Waly, que tinha uma capacidade oral extraordinária, era mesmo uma encarnação total da figura do filho de Xangô. Tinha o dom do improviso, da língua afiada, da frase desconcertante, do achado irônico-humorístico que levava todos às gargalhadas.

Naquela apresentação, entre outras coisas, escrevi: “Não há lugar aqui para o temor, a prudência, a reverência paroquial. Pensamento agudo, voz de trovão, o baianárabe Waly (de walid) é um happening ambulante. Um farsante declarado e colorido num ambiente cultural infestado de beletristas seriosos e cinzentos. Inimigo público número um do meio termo, da mesmice gustativa, Waly é uma verdadeira montanha russa de grossura e de finesse, indo das baixarias de botequim à suprema limpeza do construtivismo de Maliévitch. Sua figura é a hipérbole. O leitor de Rimbaud e Nietzsche circulando pelo morro do Estácio, da Mangueira, ou em meio aos tambores sagrados do candomblé. Curiosidade ibnkhalduniana. Estrada do excesso. Um homem livre como as formas de Arp”.

Minha admiração por Waly é imensa. Dos tempos de minha juventude, quando o conheci chez Caetano Veloso, aos dias em que trabalhamos juntos, com ele na direção do Instituto Nacional do Livro, em Brasília. Waly animava e alegrava nossas vidas na cidade de Lúcio Costa.

Daí a minha felicidade em ver obras-homenagens como a biblioteca de Ribeirão e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae.

Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly? Algum projeto, ao menos? Que eu saiba, não. Waly, na linha de um Gregório de Mattos, dizia, num texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, que a verdadeira padroeira de Salvador era “Nossa Senhora do Empata Foda”. Tudo aqui emperra, não anda, não acontece. Acho até que ele deve estar aí em alguma fila, aguardando que antes a Bahia faça uma Casa Dorival Caymmi.

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*Antonio Risério – Escritor

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MARIA SAMPAIO – GENTE DA BAHIA

13/06/2010

MARIA SAMPAIO em sua casa, no bairro do Itaigara, em Salvador. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 19.6.2008

Brincou de carrinho, de escrever, de picula, de desenhar e pintar, de tirar retrato. Passada dos 30, assume a fotografia profissionalmente. Aos 50 escreve”

Maria Guimarães Sampaio

Autodefinição em seu blog CONTINHOS PARA CÃO DORMIR [http://continhosparacaodormir.blogspot.com/], criado em 2008

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FICAM AS IMAGENS,

OS LIVROS, A SAUDADE…

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texto de RONALDO JACOBINA*

[publicado no jornal A Tarde do dia 3 de junho de 2010]

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Após dez anos de luta contra um câncer de mama, a fotógrafa e escritora Maria Sampaio morreu ontem [2.6.2010], aos 62 anos, no Hospital Português, onde esteve internada nos últimos dez dias. O corpo será cremado hoje [3.6.2010], no Cemitério Jardim da Saudade (Brotas).

De acordo com o único irmão, Artur Sampaio, a pedido dela, as cinzas deverão ser distribuídas entre o túmulo dos pais (o artista plástico Mirabeau Sampaio e Norma) e os rios Subaé, em Santo Amaro da Purificação (Bahia), e Sena, em Paris.

Vamos fazer a vontade dela. Era uma pessoa muito especial e valente, deixou tudo organizado antes de partir.

Considerada uma das mais importantes fotógrafas da Bahia, a partir dos anos 1970, Maria Sampaio registrou com o seu olhar sensível importantes momentos da história cultural do Estado.

Muitos desses registros permanecerão eternos, como as imagens que fez para capas de discos e livros ou para as publicações que lançou, como Recôncavo, editado pelo Desenbanco em 1985.

Dona de um rico acervo da família Velloso, de quem sempre foi muito amiga, Maria foi a autora das fotos que ilustram as capas dos discos Cores & Nomes, de Caetano Veloso (1982), e Olho d’água, de Maria Bethânia (1992).

Não sei como viverei a partir de agora sem a amizade de Maria. Ela era mais que uma irmã para nós, uma filha para minha mãe – diz, emocionada, Mabel Velloso.

Fotografia

A menina que um dia sonhou ser cantora ganhou admiração e prestígio em outras artes. Primeiro como fotógrafa, depois como escritora.

Não podia nunca ser cantora porque era muito desentonada – revelou em julho de 2008 à revista “Muito” [suplemento dominical de A Tarde].

Apesar de não ter enveredado pelo caminho da música, foi uma amante da canção popular, especialmente do fado, ritmo português que a uniu à cantora Jussara Silveira.

Há 15 dias, ela me disse que ficaria boa para irmos a Lisboa ouvir fados juntas – diz Jussara.

Como a natureza a desproveu dos atributos necessários para cantar, o talento a transformou numa artista. Visual e literária.

Maria foi uma profissional de extrema importância para a história da fotografia na Bahia – declara o colega Aristides Alves.

Foi a pedido dele que ela escreveu um texto para o livro A fotografia na Bahia, lançado em 2006.

Companheira de muitas décadas, a fotógrafa Célia Aguiar realizou vários trabalhos em parceria com Maria.

Era minha melhor amiga, minha companheira. Vivemos muitas coisas juntas: moramos juntas, viajamos juntas e fotografamos juntas. Tivemos uma vida juntas.

Para Célia, Maria sempre gostou de trabalhar coletivamente.

Ela agregava suas ideias às dos colegas de profissão, uma das pessoas mais generosas que conheci.

Literatura

Nos últimos anos, Maria passou a se dedicar cada vez mais à literatura. Desde que escreveu seu primeiro livro Estrela de Ana Brasila (2004) e, depois, Rosália Roseiral (2006), ambos pela Record, a escritora descobriu esta nova vocação. Tanto que, no ano passado, o editor Claudius Portugal, admirador e amigo de longa data, a convidou para publicar Continhos para cão dormir, pela editora P55.

Menos de um ano depois, mais um livro: Continhos para cão dormir II.

Maria era uma grande contadora de histórias e conhecia como ninguém os hábitos da sociedade baiana. Ela escrevia sobre isso com muito humor.

Foi em Maria que a dramaturga Aninha Franco se inspirou para escrever a personagem Guima do livro As Receitas de Mme Castro (Ed. P55).

Maria era uma amiga generosa, bem-humorada, ela é aquela personagem. Fiz o livro para ela e sobre ela.

E é assim que Guima (ela se chamava Maria Guimarães Sampaio) será lembrada: baiana arretada, bem-humorada, generosa e, sobretudo, amada.

MARIA SAMPAIO. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 19.6.2008

  

NOTA DO EDITOR – Ao visitar hoje o blog de Maria Sampaio [http://continhosparacaodormir.blogspot.com/] CONTINHOS PARA CÃO DORMIR, encontrei este lindo e emocionante comentário assinado por Jorge Velloso:

 

Tucão está em novo estúdio

 

Se fossem reveladas fotografias de nossos corações hoje, com certeza sairiam sem cor, sem preto nem branco. Afinal, nossa fotógrafa, nossa companheira de farra, nossa tia, nossa amiga, nossa Maria Sampaio se despediu. Cansou, se retou (como ela mesmo gostava de falar) e foi fazer novos retratos, num estúdio lá por cima.

Se a internet do Céu estiver em boas condições, com certeza logo veremos fotos de São Jorge passeando de cavalo no blog de Maria. Com certeza veremos fotos de São Francisco brincando com Tieta e outros cachorros no Continhos para Cão Dormir. Veremos fotos de Dona Zélia com Jorge ao lado de Dona Norma e Dr. Mirabeau…

Ah! Com certeza, essa hora Maria está toda enturmada. Já deve ter arranjado um monte de empregos free lancers e está todaserelepe fazendo até foto 3×4 de Jesus Cristo, enquanto Voltaire Fraga faz de São Benedito.

Lá por cima deve estar um salseiro, porque do jeito que Maria era aqui embaixo, ela já deve ter contado um monte de casos engraçados que ela ouvia em Santo Amaro e claro, já deve ter mandado um monte de anjo chato à merda, porque muito puritanismo com ela não cola.

Só espero que ela não olhe aqui para baixo porque Maria vai seretar se vir que estamos todos tão tristes, tão saudosos e com a fotografia da saudade estampada no peito. Ela pediu que os amigos estivessem reunidos na hora que ela mudasse para o estúdio do primeiro andar, e aqui estamos, mas é nosso dever fazermos o possível para colocar pelo menos um pouco de cor no retrato deste adeus.

Uma boa saída é lembrarmos as gargalhadas de Maria. Assim, instantaneamente já vamos ser contagiados com o flash da felicidade e colocaremos um pouco de cor na foto de um dia tão triste.

Siga em paz, Tucão, e obrigado por ter dado tanto bem-querer a mim e à minha família. Ah! Quando eu te encontrar no novo estúdio vou querer que você faça fotos minhas tão bonitas como as que fez no meu casamento.

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Jorge Velloso

2 de junho de 2010

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WILSON MELO – GENTE DA BAHIA

31/05/2010

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 23.5.1986

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Wilson Melo e nós

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texto de EDSON RODRIGUES*

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Centenas de atores, diretores e artistas de teatro jovens, que hoje constituem a diversificada cena local, foram batizados em mesas de bar por Wilson Melo. Primeiro, faziam lá as audições para o Curso Livre do Teatro Castro Alves, para o mesmo curso depois deslocado para a Escola de Teatro da Ufba, para os cursos regulares oferecidos por esta faculdade, ou mesmo, como eu, entravam na cena por outros caminhos. Isso era a parte “acadêmica” do início da viagem.

Adentrado ao barco, ao visitante ainda carecia um outro encontro, que mais cedo ou mais tarde iria acontecer em alguma mesa de bar da cidade. Um encontro com Melão. E era ali, cercado por garrafas de cerveja e risos estrondosos, que o postulante a homem ou mulher de teatro passaria a sentir o vigor de outras energias que movem o artista: a da constante renovação, da alegria, da repulsa ao status quo e às sádicas convenções do cotidiano. Melão era o melhor professor que o teatro baiano contemporâneo conheceu nestes quesitos.

Melão morreu na manhã de um sábado [29.5.2010], dia que costumava sorver por inteiro por conta de sua opção de vida boêmia e festiva. Mas seria muito limitado lembrar desse ator apenas pela sua grande amizade com Dionísio, o deus grego que entre os romanos era conhecido como Baco. Tal qual essa figura mitológica, Melão também adorava os líquidos inebriantes, as festas, o divertimento; mas, por outro lado, era um ator de currículo extenso e admirado, um conselheiro sem vestes de professor dos artistas mais jovens, um filósofo da vida. E também era, aqui é bom frisar, um marido e pai atencioso, o que reforçava seu posto de exemplo para os mais jovens, como que a mostrar que é possível fazer rimar divertimento com responsabilidade na vida.

WILSON MELO como Quincas Berro D'Água. Foto de ADRIANA CAMPELO SANTANA – 29.5.2003

Entrevistei Wilson diversas vezes na função de repórter e outras tantas viabilizei entrevistas com ele nas posições de pauteiro e editor. Isso em jornais e na tevê. Também troquei tantas e tantas ideias sobre arte e vida com ele, em mesas de bar. De uns tempos para cá, estávamos mais ausentes, mas sempre que nos víamos, era como se tivéssemos tomado um porre juntos no dia anterior. Melão não foi o que muito estraga uma grande parte das pessoas que fazem arte hoje em dia: não era pretensioso, não era o dono da verdade, não era ganancioso, não achava que a história do teatro baiano havia começado por ele.

O currículo de Melão é enorme. De minha parte e até onde vi seu desempenho, não esqueço de seu duo com a tão enorme quanto Nilda Spencer em Lábios que beijei, peça na qual os dois importantes atores, em um ato de demonstração do caráter renovador da arte, emprestaram seus prestígios ao projeto de um diretor e dramaturgo então desconhecido e iniciante, Paulo Henrique Alcântara. O resultado foi um marco para quem teve a oportunidade de assisti-lo.

Há também Horário de visitas, de Ewald Hackler, interpretação que deveria ter lhe rendido, à época, o título de melhor ator da temporada pelo então prêmio Braskem de Teatro. Não levou, mas foi um erro daquela comissão que até hoje deve penitenciar-se pelo equívoco. Seus Quincas Berro D’água (fez esse personagem em três montagens, em três décadas diferentes, sob o comando de três diretores) são sempre lembrados. Trabalhou com outros tantos diretores, tantos atores, em tantos projetos… seu currículo é tão extenso que é melhor dispensá-lo desse texto, para que haja mais espaço para conversar sobre o homem e o ator.

WILSON MELO em O Cego. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 7.9.1989

A saída de Wilson Melo da cena deixa uma lacuna no teatro baiano. Seu exemplo de dedicação sem vaidades à arte do teatro é seguido por poucos. Mas a morte de Melão deixa-nos também a pensar sobre que tipo de valorização nós, jornalistas, dedicamos às pessoas que constroem a cena artística local.

Wilson Melo era um gigante, assim como Nilda Spencer, João Augusto, Carlos Petrovich e Mário Gusmão, dentre outros, o foram; e Yumara Rodrigues, Harildo Deda, Mário Gadelha, Sônia Robatto, Cleise Menses, Ewald Hackler, dentre outros, o são. Isso falando de teatro, pois ainda há a dança, o cinema, o circo, a música. Com suas histórias, um bom número de artista baianos coloca nosso Estado na história do teatro e das artes do Brasil. Para falar outro exemplo, Nélson de Araújo (morto em 1993) também não é lembrado como merecia, posto que é o autor de um dos mais importantes estudos sobre a trajetória do teatro, no mundo e no Brasil, já publicados por um autor em português. E isso não é culpa de um jornal ou de um programa de tevê; não é culpa de um grupo de pesquisadores ou jornalistas. É resultado, sim, de uma forma adotada tacitamente, em que se ama o que é longínquo, no que não há nenhum pecado, mas se minimiza o poder do que está próximo, e reside aí o erro.

Em tempos nos quais o jornalismo da Bahia segue cada vez mais comandado por pessoas de formação longínqua às nossas fronteiras, e aqui não vai nenhuma crítica, mas uma constatação (e isso acontece na tevê, no rádio e nos impressos), restam as questões, no tangente ao conteúdo: vamos valorizar nossas origens ou nos transformaremos na geleia geral onde qualquer coisa tem o mesmo valor das nossas coisas?; daremos em nossos noticiários espaço àqueles que fazem a diferença dentro de nossas fronteiras ou vamos esperar, da melhor forma provinciana, que alguns desses valores tenham o crivo dos intelectuais, críticos e jornais do Rio de Janeiro e São Paulo para, aí sim, “redescobri-los”?; seremos autênticos valorizando os nossos esforços, nossos talentos e nossas produções, ou adotaremos a postura de sempre dar maior dimensão e valor ao que vem de fora?

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 24.2.1980

Faça uma experiência. Jogue o nome Wilson Melo no Google e veja o que você recolhe. Adianto-me: irá conseguir muito pouco sobre a vasta história desse grande artista, porque, a bem da verdade, nós falamos muito pouco sobre os nossos grandes artistas.

Vejo você mais adiante, amigo Melão. Certa vez, fui um Castro Alves tendo você no papel de Fagundes Varela. Naquela experiência eu, vindo do teatro feito em escolas, comunidades e igrejas, senti-me ator profissional pela primeira vez. Não pelos meus dotes de interpretação (que sempre foram pequenos), não por estar realizando aquela montagem em um teatro com aparato profissional; mas sim porque contracenava com dois verdadeiros atores – Yumara Rodrigues interpretava a atriz Eugênia Câmara, amante de Castro Alves. E se aqueles atores me olhavam tão confiantes, trocavam diálogos tão compenetrados e interessados comigo, acreditavam tanto em mim como parceiro de cena, era porque eu também era ator. Ou estava sendo ator. Tenho ainda hoje a lembrança daquele sentimento que se achegou em meio à cena e isso me fez aprender que não se tem só saudade de pessoas e de fatos; tem-se também saudade de um sentimento.

Ergam-se as taças: um brinde ao grande homem Wilson Melo! E obrigado, Melão.

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*Edson Rodrigues – Jornalista

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DAMÁRIO DACRUZ – GENTE DA BAHIA

22/05/2010

DAMÁRIO DACRUZ – Foto de MARGARIDA NEIDE | Agência A Tarde 1.9.2008

O POUSO DO POETA

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por Tatiana Mendonça 21 de maio de 2010

extraído do blog da Muito, revista dominical do jornal A Tarde – http://revistamuito.atarde.com.br/

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O poeta e jornalista Damário DaCruz morreu na madrugada desta sexta-feira (21.5.2010), em decorrência de um câncer de pulmão. O corpo será velado no prédio da Câmara de Vereadores, em Cachoeira, onde assentou o café literário Pouso da Palavra.

Damário esteve na seção Orelha da Muito em 9.11.08. Confira a entrevista na íntegra:

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Todo risco de ser poeta

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Ele começou a escrever poesia aos 15 anos; lá se vão 40. É autor do poema Todo Risco, que está na 17ª edição. Foi balconista, líder estudantil, repórter e sindicalista. A fotografia e a cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, são suas outras paixões.

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Qual é sua lembrança mais remota de querer ser escritor?

Quando decidi dormir longe de todos. Tinha 15 anos e inventei um quarto para mim no porão da casa paterna.

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Qual é o tema que acaba invadindo os seus poemas, mesmo quando você não quer?

Todos os temas invadem a poesia. Mas, o efêmero, das coisas e dos sentimentos, anda sempre me cercando. Adoro relâmpagos e palavras rápidas no ouvido.

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Você foi para Cachoeira atrás de que?

Da pequena e forte aldeia que universaliza o poeta.

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Você às vezes tem a impressão de que tudo o que era importante já foi escrito? Se sim, quem foi que já disse tudo?

Ninguém é capaz de dizer tudo sozinho. Ninguém é grande sozinho. Somos uma mistura do muito que muitos nos dizem. Por incrível que possa parecer, acredito que a grande vedete deste milênio será a PALAVRA publicada em outros suportes.

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Escritor é um ser mais angustiado que as outras pessoas? Poeta mais ainda?

Conheço gente bem mais angustiada fora da literatura do que dentro dela. A minha vida e a minha poesia estão distante disto. Elas estão a serviço, inclusive, da não-agonia humana.

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Página em branco te dá pesadelo?

Ao contrário. Produz o sonho das imensas possibilidades.

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Qual foi o caminho que você evitou por medo, como diz em Todo Risco?

O caminho da dedicação exclusiva à minha obra poética e fotográfica como muitos fizeram. Mas, obtive belos ganhos, por navegar em águas distintas.

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Literatura é mais conforto ou agonia?

As duas coisas na medida de cada um. Literatura substitui certas brincadeiras proibidas após a infância. Literatura é liberdade perseverante. E a Liberdade, às vezes, também dói.

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Dê uma definição poética para a poesia.

De vez em quando me perguntam para que serve a poesia. A minha resposta tem sido dada com duas perguntas e duas respostas: Para que serve a poesia?, para fazer o homem. Para que serve o homem?, para fazer poesia.

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Livros publicados: Vela branca; Todo risco, o ofício da paixão; e Segredo das pipas. Livros inéditos: Memorial das ternuras e Memorial dos ventos.

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Leia alguns de seus poemas:

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Todo risco

A possibilidade de arriscar

É que nos faz homens

Vôo perfeito

no espaço que criamos

Ninguém decide

sobre os passos que evitamos

Certeza

de que não somos pássaros

e que voamos

Tristeza

de que não vamos

por medo dos caminhos

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Anzol

Angustiado olhar

do peixe capturado.

Angustiado olhar

do peixe

na mesa do mercado.

O amor, às vezes,

tem esse olhar

de quem vacila prisioneiro

quando tudo é mar.

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633.440 – SSP-Ba

Nada

de flores

na manhã prevista.

Meus lábios

beijam

é nessa tarde

enfeitiçada de azul.

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Outros jardins

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Borboletas

são flores

que decidiram

ganhar o mundo.

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Insistência

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Os amores impossíveis

sabem dos seu destinos.

Os amores impossíveis

insistem como beija-flores

na busca incessante

do néctar invisível.

Os amores impossíveis

estão sempre fora da rota

mas acreditam que chegarão.

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Imagem do cd palavra mãe. Foto de CRISTIANE OLIVEIRA

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Certo vôo

Cada

pássaro

sabe

a rota

do retorno.

Cada

pássaro

sabe

a rota

de si.

Cada

pássaro,

na rota,

sabe-se

pássaro.

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Gran finale

Avise aos amigos

que preparo o último verso

A vida

Dura menos que um poema

E no alvorecer mais próximo

saio de cena.

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Damário DaCruz

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85 ANOS DA IALORIXÁ DO OPÔ AFONJÁ

02/05/2010

Foto de REJANE CARNEIRO | Agência A Tarde

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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A bença, Mãe Stella

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Baiana de Salvador, nascida a 2 de maio de 1925, está completando 85 anos de vida, neste domingo, a cidadã Maria Stella de Azevedo Santos, enfermeira de profissão e Ialorixá por fadário, querer de Deus, escolha dos Orixás.

Trata-se de Mãe Stella, a Ialorixá Stella de Oxóssi, consagrada, iniciada há 71 anos como Odé Kayodé, nome iniciático que quer dizer ‘Caçador de Alegria’, seu Oxóssi. Ela é a sacerdotisa maior, desde 1976, do trono de Xangô do terreiro de nação iorubá – Keto/Nagô, conhecido como o Ilê Axé Opô Afonjá, a roça de São Gonçalo do Retiro, assentada em 1910 pela notável Mãe Aninha, a lendária Obá Biyi, antecessora de Mãe Senhora. A roça do Opô Afonjá comemora 100 anos de fundação, neste 2010.

Mãe Stella é a da Mãe-Preta Bahia. Antenada, moderna e ao mesmo tempo rigorosa na prática e na defesa dos fundamentos da religião, ela tem marcado seu tempo à frente da comunidade Keto Afonjá cuidando da preservação do culto e também, de forma pioneira, da transmissão por escrito do conhecimento e dos princípios aprendidos com os antepassados e transmitidos oralmente pelo mais velhos, há gerações. “O que não se registra o vento leva”, costuma repetir.

Com o propósito de disseminar ensinamentos escreveu Meu Tempo é Agora, um manual indispensável à compreensão da religião dos Orixás. Depois, lançou Oxóssi, O Caçador de Alegrias, livro dedicado ao Orixá que rege sua cabeça, com mitologias e reflexões sobre o guardião dos terreiros baianos de nação Keto. Mais recentemente, escreveu um livreto de antigos ditos, relembrando provérbios guardados na memória desde os tempos de criança: Owé – Provérbios, em português e iorubá. Por último, lançou o ilustrado Epé Laiyé –Terra Viva, uma parábola para crianças (de todas as idades) em defesa da mãe-natureza, fundamento da religião dos Orixás.

Nosso carinho, nossa homenagem a Mãe Stella de Oxóssi, em seus 85 anos de vida, desejando-lhe Axé, saúde e luz, sabedoria, sempre.

Eis alguns de seus ensinamentos, retirados de seus livros e entrevistas:

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Vivemos o tempo presente, nosso tempo é hoje, já, agora. Só pode falar “em meu tempo” alguém que não faça mais parte deste tempo: depois de ter atravessado a porteira do tempo… Quem vive é deste tempo, de agora!

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A natureza conversa conosco a todo momento, basta saber entendê-la ou dar mais um pouco de atenção a ela; Tudo o que a nossa religião professa advém da natureza.

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O Candomblé não é um produto do turismo étnico. Somos uma religião, temos nossa liturgia, uma teologia, dogmas e segredos. Temos de preservar nossos princípios e valores com todo o respeito.

*

Quem for a uma festa de Orixá, num terreiro, chegue com respeito e amor. Nada é cobrado, nada se fotografa, nada é gravado. Ali é um lugar sagrado, não deve ser profanado. Os terreiros estão abertos a todos os que souberem chegar.

*

Falar de Orixá é voltar no tempo, tentando decifrar o mistério do indecifrável, aquilo que apesar de ser experienciado, vivido e sentido não pode ser traduzido em uma única forma, pois tendo todas as formas, nenhuma delas o revela.

*

Os orixás são concebidos como seres primordiais, expressões divinas das forças da natureza, um poder imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos através do fenômeno da incorporação.

*

Dou um conselho aos visitantes e amigos do Axé: Não perguntem, observem!

*

Você pode até ir à missa e ao candomblé, mas não mistura santo com orixá. O sincretismo é resquício da escravidão, o senhor queria que o negro fosse católico e ele, para agradar, dizia que era. Mas agora somos livres, não precisamos disso.

*

O descendente de africano não é obrigado a ser de candomblé. Isso é ridículo. Não escolhemos o Orixá, ele é que nos escolhe.

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A fé não se impõe, nem se chega a ela pelo intelecto. Chega-se ao orixá pelo coração.

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A ‘bença’ Mãe Stella!

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*zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador,baiano. (30abril/2010)

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IDEIAS PARA O CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

21/04/2010

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Seguem dois textos de DIMITRI GANZELEVITCH, francês nascido no Marrocos e radicado na Bahia desde 1975. Dimitri fundou a Associação Viva Salvador, que desenvolve ações de educação para a arte. Colecionador de peças de arte popular, ele transformou sua residência, situada no Centro Histórico de Salvador, na Casa Museu Solar Santo Antônio, que reúne seu acervo particular.

Crítico contumaz das ações e omissões dos governantes em relação à Cidade da Bahia, nestes dois textos Dimitri apresenta propostas para um melhor uso do Centro Histórico.

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VIVER NO CENTRO HISTÓRICO

DE SALVADOR

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Voltando ao mau uso do Centro Histórico de Salvador. A rejeição deste bairro pela classe média baiana é uma realidade cultural. Ninguém quer saber se aqui moraram os poderosos, clérigo e nobreza de outras épocas. Nem os responsáveis pela conservação do bairro, seja de primeiro ou segundo escalão, nem o próprio arcebispo, apesar do magnífico palácio arquiepiscopal da Praça da Sé.

Quem manda seus filhos passar férias em Miami e Orlando dificilmente aceitará viver em moldura histórica sem o glamour dos condomínios com playground, zelador e garagem de controle remoto. O escudo invocado sempre é “por causa dos filhos”. Mas lamentar não adianta.

O Centro Histórico necessita de leque sociocultural mais amplo se quiser sobreviver. Há muitos anos defendo a implantação de repúblicas de estudantes, como houve antes da reforma, antes das vaias a um irascível governador. Sangue novo, risos, violões, atitudes rebeldes fazem parte da qualidade de vida de antigos bairros onde espíritos irrequietos e contestadores encontraram refúgio.

Que seria de Salamanca sem suas tunas ou de Coimbra sem suas estudantinas?

Que também fique aqui registrada minha sugestão aos governantes de atribuir, talvez na forma de prêmio, uns ateliês amplos e arejados a alunos recém-diplomados das Escolas de Música, Dança, Antropologia, Belas-Artes etc. Poderia ser sob forma de convênio para um mínimo de dois ou três anos, sem ônus para o contemplado, incluindo luz e água. Uma bolsa-artista. Por que não? Sairia muito mais barato que campanhas publicitárias na televisão e outdoors na Paralela.

Pequenos eventos com programação regular como feiras livres de produtos orgânicos no Terreiro de Jesus e no Largo de Santo Antônio, apresentações semanais de mamulengos e tantas outras formas de atrair e manter uma qualidade de vida diferenciada poderiam mudar os preconceitos da sociedade soteropolitana.

Precisamos reintegrar o Centro Histórico à cidade que dele nasceu. O que não se pode é imaginar que a abertura de um shopping no Santo Antônio ou shows de rock ou de pagode no Pelô solucionarão a previsível decadência do bairro.

Tombado pela Unesco no final do século XX, ou tombando pela falta de visão nos primórdios do século XXI?

(Salvador, 7 de abril de 2010)

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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UM CENTRO DE CONVENÇÕES

NO CENTRO HISTÓRICO

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Na década de 90 discordei do espírito que liderou a restauração do Centro Histórico de Salvador. Continuo discordando do aproveitamento leviano que ainda vitimiza este pedaço de cultura e história, ora confundido com um banal Wet’n Wild, ora palco de folclorizações para turismo de massa.

Não me conformo com as “baianas de receptivo”, suas roupas e torços, verdadeira traição à elegância das vestimentas tradicionais. Você conhece cariocas, sevilhanas ou cusquenhas de receptivo? Não me conformo com um monte de erros de como se deve usar este bairro.

Há uns dois anos mandei pela internet uma sugestão de centro de convenções no Pelourinho. Receptividade excelente. De que se trata? Simplesmente de mapear e usar as possibilidades – e são numerosas – para atrair um público variado de profissionais oriundos de todas as partes do mundo.

Temos salas de reunião e auditórios suficientes, hotéis e pousadas para todos os bolsos, restaurantes, bares, sorveterias e teatros para o laser. E mais: não será preciso construir um monstrengo de ferro e concreto para abrigar seminários e congressos. Por que concentrar todos os serviços no mesmo espaço?

Em 1999, fui convidado pela Unesco a um congresso sobre Turismo Cultural em Puebla, no México, cidade tombada como patrimônio mundial. O centro de convenções fica a cinco minutos a pé do Zócalo, coração da cidade. Adaptaram, com desmedido talento, um conjunto de antigas usinas, respeitando os edifícios originais e até as ruínas, levando os participantes a andar de uma sala a outra por jardins, áreas descobertas e velhos depósitos. Passeios para ninguém criticar ou achar penoso. Muito pelo contrário, todos apreciam o aproveitamento da memória material e cultural da região.

Para mudar o perfil do mau uso de nosso Centro Histórico, basta fazer um levantamento exaustivo de suas possibilidades. Senac, Teixeira Leal, Faculdade de Medicina, Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia), igrejas…

E assim poderia também se programar a reabilitação dos cinemas Excelsior, Jandaia e Pax, espaços ideais para grandes audiências e exposições. Não, instrumentos de trabalho e bons operários não faltam. O que falta são bons empreiteiros.

(Salvador, 29 de março de 2010)

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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DONA DALVA DAMIANA – GENTE DA BAHIA

16/04/2010

DONA DALVA DAMIANA

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Resquícios do religioso

na cidade de Cachoeira

 

Memória e história oral de vida

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texto de SEBASTIÃO HEBER*

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Estou fazendo uma pesquisa em Cachoeira que é para o meu pós-doutorado na PUC de São Paulo. O foco da pesquisa é em torno de Dona Dalva Damiana, fundadora do samba-de-roda Suerdieck, que já ultrapassou os 50 anos de existência.

Ela é detentora de uma sabedoria singular. Suas avós, materna e paterna, morreram com cerca de 90 anos. Toda a vivência de uma Cachoeira que não está escrita, mas que se conserva na mente e no coração dela, advém das informações que suas avós lhe deram. São, especialmente, preciosos os dados concernentes aos resquícios do religioso entre os anos 30 e 50, que suas avós vivenciaram.

Dona Dalva nasceu em Cachoeira em 27 de setembro de 1927, filha de Antônio José de Freitas e de Maria São Pedro de Freitas. O pai morreu cedo, com 51 anos, era sapateiro, e guarda municipal. A mãe foi mais longeva, morreu aos 97 anos.

Sua avó paterna chama-se Vicência Ribeiro da Costa. Dona Dalva não se lembra da data do nascimento dela, mas sabe que o aniversário era no dia de São José, isto é, 19 de março. Ela negociava com coco e peixe em Feira de Santana.

A avó materna, Maria Tereza de Jesus, faleceu no dia de ano novo, mas ela também não se lembra do ano. Ela lavava roupa no rio que passa no bairro do Caquende. “A roupa era bem lavada e até fervida”, conta ela, e tinha muitos fregueses.

Ambas as avós faleceram com mais de 80 anos – “talvez até mais”, acrescenta ela.

É a partir da perspectiva dos saberes locais que vem sendo desenvolvida essa pesquisa, tendo por base a história oral de vida. Sabe-se que nas sociedades ágrafas, a palavra assumia o valor que esses povos conferiam à transmissão dos conhecimentos por meio da oralidade, de cuja capacidade herdavam os conhecimentos e os costumes dos grupos.

Através dos relatos conservados por Dona Dalva, as avós mostram sua vivência naquela cidade e refletem as práticas sócio-religiosas de sua época. Esses elementos são uma moldura para se entender a própria cidade.

As avós participaram das atividades religiosas, especialmente como integrantes de irmandades, que são canais singulares de uma vivência religiosa portadora de uma sabedoria proveniente de espaços não-formais, além de serem um lócus de resistência.

As irmandades tiveram, desde as suas origens, um sentido social. Isto é, foram de expressão interétnica, com obrigações de colaboração mútua com os seus membros. Tudo isso seria para fins múltiplos: desde a compra de alforria, festejos, pagamentos de missa, caridade, vestuário, até a possibilidade de um funeral decente.

Isso tudo nos leva a crer e a constatar que a memória presente só pode ser reconstituída através do testemunho oral das pessoas mais idosas.

Muitas vezes encontram-se preconceitos contra os relatos orais: seriam por demais subjetivos, apenas refletem uma nostalgia do passado. Mas a memória não é apenas um mero voo que nos transporta para um passado nostálgico, mas ela traduz e aponta para o sentimento de pertença salvando a identidade.

O surgimento da história oral de vida tem despertado nos cientistas sociais, de modo particular, nos historiadores e antropólogos, um enorme interesse. Na verdade, esse método tem contribuído para ampliar as alternativas das pesquisas históricas na contemporaneidade e tem sido um amplo espaço interdisciplinar para o qual convergem inúmeros diálogos entre as Ciências Sociais.

A partir da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento de novas tecnologias – gravador, fita magnética de áudio, etc. –, ela teve uma evolução favorável, ganhou força e se expandiu com característica de ciência engajada e militante. Os movimentos contestadores, respaldados em Foucault, Goffmann, Clastres, Thompson e outros cientistas sociais e historiadores, delinearam-se por um viés que estava voltado para dar vez e voz aos excluídos e às minorias silenciosas.

Através desses relatos pode-se inferir quais foram as expressões religiosas mais marcantes naquele período em Cachoeira. Como esses grupos agiam e atuavam? Ficavam à margem da Igreja oficial, na sua expressão paroquial, tinham o controle dos vigários, ou gozavam de uma certa independência? Há elementos daquela vivência que ainda estão presentes, ou muitos se perderam, houve trocas de expressões religiosas?

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*Sebastião Heber – Professor adjunto de Antropologia da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e da Faculdade Dois de Julho, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris