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SALVADOR 462 ANOS – EXALTAÇÕES E CRÍTICA

29/03/2011

Retomo a postagem neste endereço WordPress pelo menos enquanto o portal de A Tarde On Line continuar under attack e sofrendo instabilidade.

Este post dedicado aos 462 anos da Cidade da Bahia, completados hoje, dia 29 de março de 2011, se divide em três partes. Na primeira, o escrivinhador e conselheiro-mor deste blog, zédejesusBarrêto, amargurado com a degradação da “Mãe Preta”, a cidade amada, recorda em prosa poética um bom momento de reencontro com ela. Na segunda parte, o poeta José Carlos Capinan satiriza Salvador quase à maneira de Gregório de Mattos, em poema dedicado ao poeta e jornalista Florisvaldo Mattos. E na terceira parte, Capinan declara seu amor à Cidade da Bahia em letra de música que Roberto Mendes transformou num afoxé, gravado pela cantora Carla Visi.

Salvador por AZIZ

PARTE I

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texto de zédejesusBarrêto

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Queria um texto bonito, afetuoso,

para homenagear a cidade amada,

a Mãe Preta

que faz 462 anos neste 29 de março/2011.

Mas descubro-me sem inspiração.

Talvez pela amargura de vê-la tão

vilipendiada, sofrida, mal-cuidada…

Então optei por um texto que escrevi na primavera de 2008,

logo que retornei de uma viagem de trabalho a África-Angola-Luanda …

com o coração apertado de saudades.

Segue:

*

Chegança

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Sexta.

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Acordo com bem-te-vis e fogo-pagôs saudando o dia

Abro as janelas

O cheiro de mato e maresia me invade

Manhã luminosa de quase primavera-verão

O reflexo do sol nas folhas largas das bananeiras provoca

um verde exuberante

Um brilho intenso se espalha pelo tempo

Aspiro luz numa aragem pura que vem do mar, adiante, tão próximo

Ligo o rádio

Caetano canta Wando, dolente e belo

À noite tem João e violão no TCA

Nos jornais, a viagem derradeira de Waldick, do brega ao paraíso

A caminho do Ilê Opô Afonjá, ouço Mateus Aleluia, sacro-afro-barroco Angola e recôncavo

Na roça do Opô Afonjá, o branco de Oxalá

Silêncio, respeito e paz

O tempo noutra dimensão

Axé! Êpa babá!

Flutuo

No caminho dos Mares

Aprecio as torres das velhas igrejas, mirantes da fé

No ponto do buzu da Jequitaia, um grupo de 20 pessoas …

Homens, mulheres, velhos, jovens, crianças

Todos de branco, da cabeça aos pés

Riam, felizes, soltos, feito anjos

No templo gótico da Senhora dos Mares

madrinha, mulher, rainha –,

elevo-me aos céus

no rastro da intensa luz que clareia a nave vazia pelos vitrais coloridos

Só eu e ela, Mãe!

Sinto-me abençoado.

Subo a Sagrada Colina para agradecer

O padre celebra, no altar florido

O branco predomina

Nos trajes, nos panos litúrgicos, na decoração

O Senhor do Bomfim reluz no dourado que a réstia de sol alumia

Mulheres negras de torços e colares de contas coloridas

quedam-se de joelhos e reverenciam com a cabeça

o poder dos mistérios da fé

Uma brisa forte vinda das lonjuras do mar-além

varre o interior do templo e refresca as almas

Mas não apaga a chama das velas, dos corações dos devotos

O Bomfim me comove

O hino cantado pelo povo me engasga, me faz chorar

Sempre, inexplicável.

Saio da igreja em estado de graça

Fora, nas escadarias, converso, beijo e ganho brindes

das velhinhas que vendem fitas-medidas abençoadas pelo ar purificado

que cobre, perfuma, purifica e passeia na Colina Sagrada.

Dá vontade de comer um filé em Juarez, no antigo Mercado do Ouro…

Ou uma moqueca de carne no Moreira, que está fazendo 70 anos…

Ou o peixe de Lula, no Mini Cacique, da rua Rui Barbosa…

Hum! Gostosuras da Mãe Preta!

O céu está limpo, com nuvens alvas

desenhos de algodão sobre o azul infinito

A visibilidade é tamanha que diviso ao longe, do outro lado do mar

da baía de Todos-os-Santos, Orixás, Voduns, Inquices e Caboclos,

a torre da igrejinha de Vera Cruz, nítida.

O cristalino azul do mar faísca em prateadas escamas

Odoyá!

Olhando pro Atlântico sem fim

penso na vó materna, Angola

Ela nos ensinou o que é dengo, saudade, molejo, mandinga.

Agora sei,

estou chegado.

Aninho-me…

É morno e macio o colo da Mãe Preta, Cidade da Bahia.

*

(zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador)

O texto acima é um trecho do livro ‘Cacimbo – Uma experiência em Angola’ Solisluna Editora, 2010.

O livro ‘Cacimbo’ foi lançado na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, no ano passado. ‘Cacimbo’ aborda, numa prosa quase versejo, as identidades e dessemelhanças entre Luanda e Salvador, cidades fêmeas, irmãs, filhas das águas atlânticas.

Angola é vó da Bahia.

A bença, minha Mãe Preta!

Obs: O livro está à venda, nas livrarias da cidade (Pérola Negra, Cultura, Saraiva, Aeroporto, LPM …

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Salvador não salva ninguém

Mas a Bahia é a Bahia!”

(Gigica do Maciel, pensador de rua, lúcido e louco, filósofo do Pelô)


***

PARTE II

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Canto quase Gregoriano

(fragmentos)

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A Florisvaldo Mattos

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JOSÉ CARLOS CAPINAN

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Então, cidade, como estás em teu moderno estado?

E como nos tem tratado teus convertidos prosélitos?

E teus alcaides, cidade

O que de novo tem praticado?

(Estás ainda tão feia quanto teus brongos, alagados)

Seriam traumas, sequelas, dos tantos que endividaram

Tuas tralhas?

Ou será tua sina divina não teres ninguém que te valha

Vestindo gravata ou saia?

Quem te governa, cidade

É a farófia revolucionária ou a direita canalha?

.

II

Desde Tomé que a gente paga pra ver

A utopia prevalecer

E as Coréias proliferando

(E certamente não é que falte fé ao baiano)

Continua ele votando

(Mas não passas de um ex-voto do milagre que o demo vem praticando)

.

III

(E de que valem todos os santos

Se pra baixo te ajudam os soteropolitanos?)

.

IV

E então, Salvador

Mudaste a cara do Pelô?

Tiraste de lá o povo

Tocas já outro tambor?

Os que antes lá roubavam

Passaram o ponto aos doutores?

Os traficantes trocaram

De drogas e os mercadores

Vendem outras ilusões

E o amor cotado em dólares?

.

VIII

Se teus esgotos esgotam

Teus cidadãos pacientes

Pelo menos uma máxima

Aos que vomitam concede

Quem maledicente fala

O repto consente

Se o meio ambiente exala

É inepta ou inapetente

A gerência da cloaca?

(Ela fede abertamente)

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XVI

Que querem teus governantes?

Negócios e, negociantes

Dinheiro, como dantes

Para o terceiro milênio

Convênio com os empreiteiros

E como dantes, dinheiro

.

XX

Se aos justos difamas

E alcagüetas

Digam de mim teus ghost writers

Toda maledicência

De mim podes dizer que sou

Teu proxeneta

Já que não podes dizer que sou

Teu poeta

De mim podes dizer que sou

Teu drogado

Já que não podes dizer que sou

Teu advogado

De mim podes dizer que sou

Ressentido

Porque proíbes a esperança

Ao meu partido

Mas deixa ao menos que eu seja

O que o futuro deseja

E o que será a tua estética

Uma nova ética

.

José Carlos Capinan. Poemas; antología e inéditos. Salvador: FCJA:Copene,1996.p.99-10

(Um canto quase Gregoriano foi incluído no livro Confissões de Narciso, publicado em 1995)

***

PARTE III

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SALVADOR, SALVADOR

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ROBERTO MENDES e JOSÉ CARLOS CAPINAN

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Luminosa cidade

Espelho no mar

No céu claridade

É bonita de ver

Refletida nos olhos

Do meu amor Salvador

Não deixe o meu amor morrer

Me salve da dor

Se esse amor virar saudade

Negra na cor

Cidade da fé, felicidade

Negro amor

Quero ver nos olhos dela

Tua imagem

O amor quando nos deixa

É um beco sem saída

Me salve da dor

De um beijo de despedida…

Eu vou botar meu coração na mão

Que toca o tambor do teu afoxé

Cidade da fé, felicidade

Me salve da dor

Se esse amor virar saudade…

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DE OLHO NOS JEITOS DOS BAIANOS

03/03/2010

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Três textos de zédejesusbarrêto*

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Baianices ao vento

Levadas pelo tempo

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Passando pela Avenida Sete, observo um casal idoso a caminhar firme pelo passeio esburacado e tomado pelos ambulantes em direção à Piedade, destino centro. Ao passar diante da centenária igreja de Nossa Senhora das Mercês, de portas abertas, ele levanta o chapéu que lhe cobre a careca e ela faz o sinal da cruz, contritos. E seguem adiante. Ponho-me a pensar.

Baianices, baianidades ou baianadas – pra mim tanto faz pois orgulho-me da Mãe Preta e do que ela me ensinou –, há todo um comportamento e um gestual típico do ‘baiano véi’ que se vêm acabando, geração a geração, nessas últimas décadas.

O ato de se benzer e/ou tirar o chapéu sempre que se passa diante de uma igreja, por exemplo. Hábito católico, certamente, que era observado à risca por pretos e brancos, ricos e pobres, a pé ou de buzu, sem a menor vergonha, diante de todos, ainda que interrompendo uma conversa de pé de ouvido, mesmo que rapidamente. Ao passar na frente de um templo católico, o baiano voltava os olhos e fazia o sinal da cruz rápido, quantas vezes e igrejas fossem. Hoje é raro. Só se vê esse gesto de contrição, às vezes, em pessoas idosas, senhoras frequentadoras de missa, sobretudo.

Outro hábito que já foi indispensável, de educação e respeito, e que quase não mais se vê e nem se ouve, é o de se tomar a bênção aos pais, aos mais velhos. O ‘a bença mãe!’, ‘bença pai!’ era obrigatório a toda criança pela manhã, ao acordar, e à noite, antes de dormir; ou sempre que se saía e chegava em casa. ‘Deus lhe abençoe, meu filho!’, era a resposta, como um afago de proteção. Mandava a boa educação doméstica que a criança, o jovem sempre pedisse a bênção à professora, aos mais velhos, vizinhos, parentes, conhecidos da família. ‘Bença tia!’, ‘bença seo Zé!’, ‘bença dona Zuite!’; ‘Deus lhe abençoe, como vai sua mãe?’. Era assim.

E assim, meninos pobres, fomos educados, preto ou branco, no respeito aos idosos, a quem tínhamos de dar preferência e passagem, ceder o assento nos bondes, nas marinetes, nos ônibus… e sem reclamar. Obediência aos mais velhos, aprendíamos. E ai de qualquer criança que respondesse mal ou não obedecesse a uma orientação superior.

Hoje, dessa referência e desses comportamentos, que eram repassados também pelos professores nas escolas, pelos mestres de capoeira e pelas mães-pretas de antigamente, talvez restem resquícios nos terreiros de candomblé baianos, onde se cultiva o saber e a hierarquia rituais, indispensáveis à preservação dos mistérios. Um ‘filho de santo’ não fala alto diante de sua ialorixá e senta-se no chão diante dela. Ainda é assim em algumas casas tradicionais da religião ancestral africana.

Na religião afrobaiana se aprende a pedir licença, ‘agô’. Ao se entrar ou sair de um lugar sagrado, de uma casa, às pessoas. Licença para chegar, para falar, para pedir passagem, para se retirar. São gestos, sinais, tratos de educação, gentileza, delicadeza… tão em falta hoje em dia. Tão ausentes em casa, nas escolas, nas ruas, nos meios de comunicação, nesse mundo tão brabo em que vivemos atolados em ânsias, agonias.

Antigamente, baiano nenhum ousava entrar no mar sem antes tocar a mão nas ondas que vinham dar aos pés na areia da praia, molhar um pouco a testa e o cangote (a nuca), e fazer o sinal da cruz, em seguida. Só então se podia arriscar um mergulho.

Eram comportamentos, hábitos (signos), ritos (liturgia) de respeito e pedido de proteção… diante da grandeza e do mistério das águas. Uma ‘bença’ aos deuses, aos santos, orixás, espíritos, encantados… um louvor ao absoluto, ao desconhecido tão infinitamente maior que tudo.

Baiano de verdade se conhecia de longe, pelo branco imaculado da sexta-feira, da cabeça aos pés, pelas guias de contas e medalhinhas no pescoço, pelo gole de pinga no chão, sempre, saudando e pedindo licença pra Exu, antes da primeira talagada na cachacinha de folha, sagrada… a ‘danada’ descendo e quentando a pança para o pirão de cada dia que dá sustança.

Saudosismos? Apenas observações, constatações das mudanças de comportamento que, às vezes, nem nos damos conta. Perdas, sem dúvida, de alguns signos de identidade, inexoráveis.

*

Na alma baiana, os ensinamentos da Mãe Preta:

Ainda há tempo de reaprender a reverenciar a vida. Prezando a natureza, respeitando os semelhantes.

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***

A Bahia d’antanhos

Terra de louvaminhas

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A velha Bahia continua a mesma tacanha província. Como nos tempos dos coronéis. A terra da louvação, da babação, do puxasaquismo militante. Não se pode falar ou escrever nada fora dos ‘conformes’ vigentes.

O escritor João Ubaldo Ribeiro, ilustre baiano de Itaparica, um dos maiores expoentes da literatura de língua portuguesa, ‘caiu na asneira’ de dar sua opinião contrária ao anunciado projeto de uma ponte ligando Salvador a maior ilha da Baía de Todos os Santos ( a amada Itaparica de seus avós, dos tupinambás) e foi um ‘deus nos acuda’. Até hoje querem arrancar os pentelhos do genial escritor. ‘Por que não te calas?’

Pois bem.

O publicitário Nizan Guanaes, também baiano, renomado marqueteiro, a pretexto de esculhambar a esculhambação baiana, chamou Bell Marques de careca, coisa aliás que todo chicleteiro sabe e comenta, e causou uma comoção no verão tupiniquim. Resultado: mesmo desculpando-se, vergonhosamente, Nizan está sendo processado pelo cantor, compositor e empresário da área de espetáculos, o Bell ‘das bandanas’ Marques, por injúria, calúnia, difamação e mais alguma coisa. O Nizan vai ter de chimbar com muita grana pagando advogados ou pagar uma ‘baba’ de indenização ao careca (oh, desculpe-me, pelamôdedeus, eu não tenho um real) e ricaço cantor-compositor de galopes que empolgam a massa atrás do trio.

Tem mais.

A desatenta ‘twiteira’ Mônica Sangalo, irmã da cantora-ídolo do axé carnavalesco baiano Ivete Sangalo, teclou e postou a fofoca de que a cantora Cláudia Leitte andou desafinando em cima dos trios durantes suas apresentações no carnaval passado. Aliás, coisa que qualquer criatura com ouvidos asseados constatou, pois doía nas oiças os trinados fora do tom da bela criatura cantante. Ela e mais outras desafinam muuuuito, né Margareth?

Ah! Foi um auê tão grande nas hostes sangalistas e leitistas que engarrafaram as linhas dos blogs, emeesses e tuíteres baianos. Ora vejam, ora ouçam! A ponto de a dileta irmã Ivetona, concorrente e ‘amicíssima’ da Cláudia, vir a público pedir desculpas, dizendo que a irmã Mônica, coitada, foi infeliz, desafinou no comentário.

*

Aprendam, pois! Na Bahia ainda é assim. Pode-se fofocar e falar mal à vontade, mas por trás, no anonimato, às escondidas, na maledicência, Deus é mais, que ninguém nos ouça. Já expressar com liberdade sua opinião sobre qualquer pessoa ou atitude de alguém ‘famoso’, ‘autoridade’ … Quem é louco?

O mundo desaba! Santo Ofício neles!

*

Hoje em dia, falar mal de Lula, então… é uma condenação para sempre ao fogo de satanás: ‘Carlista, direitista, inimigo do povo!’

Pechas que ficam valendo para sempre, também, para quem tiver o topete de criticar qualquer ação ou falta de ação do governo de Jaques Wagner, e até de Caetano (não o genial compositor, ‘aquela bicha liberal capitalista’), o prefeito de Camaçari, um ‘grande líder popular’ (aquele do dinheiro encontrado debaixo da cama) …

Ah, e criticar João, sua gerência (?) como prefeito de Salvador, quem há de? Não ouse. Valem só os elogios à sua (lá dele) popularidade.

*

A Bahia é terra de ôba-ôba, de conveniências, adulações. Reverências a quem tem dinheiro, a quem está no poder. Qualquer poder. Pois não, Doutor! (com letra maiúscula, por favor).

*

Se não reverencias a quem se põe no alto, ficas mal-falado, mal-visto, serás ‘esquecido’ por um looooongo tempo, muitos passam até a desconhecê-lo, maldito és.

*

Quanto ostracismo, quanta gente calada aos porretes ou aquietada com ‘agrados’!

*

Isso não é coisa de agora. É dos tempos de Gregório de Mattos e Guerra. Passou pela colônia, pelo império, pelos coronéis do açúcar do Recôncavo, pelos coronéis do Cacau no Sul, pela velha e nova república, ditaduras, juracisismo, carlismo, lulismo… e vamos nóis.

*

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***

Hotel da Bahia

Marco histórico

Está fechando as portas o tradicional Hotel da Bahia, um signo da história da moderna arquitetura baiana do sec.XX. E marco também do período de desenvolvimento vivido pelo Estado a partir do governo Octávio Mangabeira (depois do fim da Segunda Grande Guerra) e durante toda a década de 1950.

O Hotel da Bahia foi projeto do arquiteto Diógenes Rebouças (o mesmo que fez a Fonte Nova). À época, uma novidade arquitetônica. Foi o maior prédio da capital e o maior hotel de todo o Nordeste, localizado no Campo Grande, centro da cidade.

O Hotel da Bahia, nas últimas décadas pertencente ao Grupo Tropical, guarda muitas histórias, desde a sua fundação. Hóspedes famosos, festas inesquecíveis, eventos singulares, lembranças dos anos de ouro da cultura baiana. Mais recentemente, devido a sua localização, era um dos preferidos do executivos e também dos turistas que vinham para o carnaval de Salvador. Ultimamente, trabalhavam por lá cerca de 120 pessoas, a maioria de antigos funcionários com mais de 20 anos de serviço.

Além da bela arquitetura, sua entrada, mezaninos, espaços… o Hotel da Bahia abriga um grande acervo de arte que deve ser preservado e cuidado, entre quadros, pinturas e painéis.

Vale destacar os portentosos murais de Carybé, datados dos anos 1980, de valor inestimável e que devem ser conservados, tombados como patrimônio da arte baiana.

Um pedaço de nossa história está ali. Merece um livro levantando tudo, contando os acontecimentos, registrando detalhes, coisas, pessoas, fatos…

O fechamento do Hotel da Bahia é, sim, um baque no turismo de Salvador.

Entre as causas apontadas para o fechamento do hotel está o abandono em que se encontra o Campo Grande e o esvaziamento do centro antigo e histórico da velha cidade amada. E tão maltratada.

*

Pensamentando Nu Blog

Cá no meu canto, quieto, releio Mário, o Quintana:

As únicas coisas eternas são as nuvens’

Deixa-me

Que tnho a ver com tuas naus perdidas?

Deixa-me com os meus pássaros…

Com os meus caminhos…

Com as minhas nuvens…’

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*zédejesusbarrêto, jornalista, escrevinhador, baiano amante.

27fev/2010

CARYBÉ, VERGER E CAYMMI – MAR DA BAHIA

28/11/2009

A Fundação Pierre Verger, a PricewaterhouseCoopers (PwC) e a Solisluna Design Editora vão lançar, em Salvador, o segundo livro da trilogia Entre Amigos, Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, no dia 2 de dezembro, às 19h, no Palacete das Artes, em Salvador (BA). O livro celebra a arte e, sobretudo, a grande amizade entre esses personagens e criadores do século XX que escolheram a Bahia e o jeito de viver de sua gente como motivo e cenário para suas obras.

O mar da Bahia foi o grande inspirador, quiçá uma fonte de encantamento determinante para as artes, odes de amor à terra e ao povo baiano dessas três personalidades de origens distintas, mas com olhares e percepções convergentes: o fotógrafo e pesquisador francês Pierre Verger; o argentino-baiano pintor de múltiplos fazeres Carybé e o músico baiano, também pintor nas horas vagas, Dorival Caymmi.

É um orgulho e uma honra apresentar esse trabalho sobre os três baianos fundamentais que desenharam, fotografaram e cantaram a Bahia de uma forma indelével – afirma Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger.

Em Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, o leitor irá perceber o colorido das fotos em preto e branco da velha rolleiflex do gênio Verger, bem como toda a riqueza dos traços singulares de Carybé, prenhes de movimento e poesia que retratam o cotidiano da época em que as velas dos saveiros enfeitavam o azul das águas da Baía de Todos os Santos e ainda se presenciava a pesca do xaréu nas praias do litoral norte da histórica Salvador. Tudo isso embalado pelas magníficas canções praieiras de Caymmi, poesia pura na sua voz grave e num violão com sonoridade de ondas na praia.

Não é um livro de arte, e sim da amizade entre três artistas – define bem o editor Enéas Guerra, idealizador da publicação da série Entre Amigos e responsável pela concepção, edição e design do livro.

Do ponto de vista editorial, o texto indica os caminhos que levarão o leitor ao encontro dos três personagens e suas criações em torno da magia do mar.

A ideia do escrito é incitar o leitor a vivenciar como foi a intensa relação entre eles e relatar, de forma leve e bem humorada, os encontros, as curiosidades e os olhares convergentes destes símbolos da baianidade – conta o jornalista José de Jesus Barreto[*], autor do texto que é fundamentado em pesquisas do acervo da Fundação Pierre Verger, da família Carybé, entrevistas e depoimentos.

Capa do livro “Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia”

O diálogo das imagens captadas pela rolleiflex de Verger e pelos traços de Carybé, produzidos entre os anos 40 e 60 do século passado, está cerzido pelos poemas de Caymmi.

O pescador cantado por Caymmi é o mesmo fotografado por Verger, desenhado por Carybé. Os saveiros que chegam e saem do cais e rasgam as águas da baía, as festas para Iemanjá, o Bom Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição da Praia servem de inspiração para as canções-poemas, as pinturas e as fotos dos artistas – conteúdo desse trabalho.

O mar é o caminho, elo, destino e musa. O livro pretende ser uma celebração de amizade e da criação deles diante dos mistérios do reino de Iemanjá.

Como o primeiro volume Carybé & Verger – Gente da Bahia, lançado em 2008, o volume dois Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia é um projeto editorial da Solisluna Design Editora e Fundação Pierre Verger, que contou, desta vez, com o apoio da PricewaterhouseCoopers. A concepção, edição e design ficaram a cargo de Enéas Guerra e Valéria Pergentino. A redação do texto é de José de Jesus Barreto.

A apresentação musical de Marilda Santana cantando canções compostas por Dorival Caymmi vai embalar o lançamento do segundo volume. O evento terá a presença ilustre da esposa de Carybé, Nancy Bernabó, e seus filhos Solange e Ramiro, além do sócio-presidente da PwC, Fernando Alves, e do presidente da Fundação Pierre Verger, Gilberto Sá.

O livro estará à venda em todas as livrarias do Brasil por R$ 90, porém no dia do lançamento sairá pelo preço promocional de R$ 70.

No dia 9 de dezembro, será a vez de São Paulo lançar a obra, na Livraria da Vila, no Shopping Cidade Jardim, às 19h30. O terceiro livro desta Trilogia já está confirmado para o ano que vem e terá como tema o Candomblé.

A Baía de Todos os Santos desenhada por Carybé e fotografada por Verger, nas páginas 30 e 31 do livro que será lançado em Salvador nesta quarta-feira 2 de dezembro e em São Paulo uma semana depois, no dia 9

O encontro

Salvador é uma cidade-porto, eterno cais. Tanto geográfica quanto historicamente, esta Cidade da Bahia é filha do mar, nele foi gerada. Construída e fundada sobre uma nesga de terra que adentra o oceano, no abrigo das águas mornas da Baía de Todos os Santos, a cidade tem suas portas abertas para o Atlântico.

Nessa terra, o mar é começo de tudo, caminho sem fim, poço de fartura, infinito azul de mistérios, tormentas, magia e beleza. O povo desse pedaço de mundo foi gerado e forjado, por séculos, na quentura, no aconchego e rebuliço de suas águas.

Na década de 30 do século XX, o jovem mulato Caymmi pegou um Ita no porto de Salvador e foi parar no Rio de Janeiro, a capital cultural e política do país, no intuito e sonho de cantar o mar, as coisas de sua terra e o jeito de sua gente. Carybé conheceu Caymmi no final dos anos de 1930, no Rio. Verger conheceu Carybé em 1946, também no Rio. O interesse comum pelas coisas da Bahia e o amor ao belo os uniram.

Em Salvador, no final de 1946, o fotógrafo Verger e o músico Caymmi se encontraram diante da luz e do intenso azul do mar. Os três, amigos, irmãos baianos confirmados no Ilê Axé Opô Afonjá, o terreiro keto-nagô de São Gonçalo do Retiro, reino de Xangô, acolhidos por Mãe Senhora, e depois por Mãe Stella de Oxóssi.


*NOTA DO EDITOR – O autor do texto dos dois primeiros livros da série Entre Amigos é o nosso zédejesusbarrêto, conselheiro editorial e colaborador do blog Jeito Baiano.


BAIANICES – por ZÉDEJESUSBARRETO

24/07/2009

JEITO BAIANO


O jeito de ser baiano está

Num certo ritmo de andar

Num jeito mole de falar

No sem tempo de não ser.

Baiano gosta de acarajé, bolo de fogo

Come caruru visguento com as mãos

Reverencia tudo que vem do mar

Pois mar é fêmea, é mãe

E Bahia é também reinado de Aiocá.

Ama-de-leite Bahia …

Águas sagradas do caldeirão kirimurê

Baía de todos os santos, caboclos, orixás, inquices, voduns, encantados…

Bahia de todos os pecados

Onde tudo se mistura… e é recriado.

Jeito de ser baiano

Que se aprende com as mães pretas

Donas dos terreiros, dos tabuleiros

E se fica sabendo que Deus é de todos, Olorum é um.

E Orixá é manifestação da Natureza, sagrada

Que acima de tudo deve ser respeitada

Ilê de nuvens brancas, tambores do Pelô/Olodum.

Jeito de ser baiano é gostosura de viver

Sem agonia, sem dever

Assuntando o tempo

Pisando o descalço chão

Dando uma mijada ao vento

Cuidando do sentimento

Pelo sim, pelo não.

Um jeito de ser baiano

É vestir branco na sexta, pelo ‘santo’ do dia.

Jeito de ser baiano é torcer pelo Bahia

E ter o Senhor do Bomfim como guia.

(zédejesusbarreto / março 2009)


Este poema foi produzido por zédejesusbarreto como reação à notícia de que acabara de ser criado o blog Jeito Baiano, no dia 12 de março de 2009. Desde então ele tem sido o grande colaborador deste blog, com textos, ideias, informações, saques, sugestões de pauta e de fotos, indicação de nomes de expoentes da baianidade para escreverem aqui e/ou serem ouvidos etc. etc. No começo do blog, quando indagado sobre como apresentá-lo aos leitores, ele autodefiniu-se simplesmente assim:

FotoBarretozédejesusbarreto é jornalista, 61 anos, baiano nascido nos Mares e criado no Subúrbio Ferroviário. Sobrevive de palavras.

CAETANAVE – TRANSAXÉ

23/05/2009

Como comentário ao post anterior a este, que reproduz artigo do amigo-irmão-companheiro-de-guerra  zédejesusbarrêto, tenho a dizer que ao lê-lo me deixei contaminar de bom grado pela nostalgia sertaneja e suburbana, mas quando no final ele diz que o novo cedê de Caetano Veloso já não lhe diz nada – “Envelheci de vez ou os altos decibéis da tal modernidade estão me ensurdecendo” –, senti vontade de convidá-lo a cair na dança e sublimar sua tristeza, como Bob Marley: “Forget your troubles and dance, dance, dance…” Afinal, vivemos na cidade grande…

No YouTube há uma versão ao vivo de uma das faixas do novo cedê de Caetano, zii e zie, intitulada A cor amarela, que é boa de dançar miudinho, boa para nós, sessentões. O vídeo foi gravado no Rio no último show da primeira fase do Obra em progresso, que precedeu a criação do CD. Participam da gravação Davi Moraes, Moreno Veloso e os percursionistas Josino Eduardo e Eduardo Josino. O estilo desse arranjo – que achei melhor no show do que no disco – foi batizado por Caetano de “axé light”.

Aproveitem todos para dançar e bater palma:

A COR AMARELA
Caetano Veloso

Uma menina preta
De biquíni amarelo
Na frente da onda

(2x):
Que onda
Que onda
Que onda
Que dá
Que bunda
Que bunda

É o melhor
Que podia acontecer
A cor amarela
Destacar-se entre o mar
E o marrom
Da pele tesa dela
O sol já tem muito
O que fazer
Na minha vida
Querida
Quem é você?

(Repete letra 2x)

(6x):
Que onda
Que onda
Que onda
Que dá
Que bunda
Que bunda

– o –

Recomendo esta entrevista de Caetano à revista Cult sobre o seu novo trabalho:

http://revistacult.uol.com.br/novo/site.asp?edtCode=3D614E12-495C-4018-A889-F15078DFB1B3&nwsCode=F27D566B-61CE-4A18-9578-7096A463C87C

Jary Cardoso Jary Byko 3-4