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ORIXÁS SEGUNDO VILSON CAETANO

07/03/2010

Reproduzo neste post textos sobre os orixás Oxun, Yemanjá e Xangô, de autoria de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR, antropólogo que escreve na coluna de Religião publicada no caderno de classificados do jornal A Tarde. Tenho reproduzido no blog Jeito Baiano alguns dos textos que Vilson Caetano escreve para a coluna Religião, inclusive um sobre outro orixá, Ibeji (gêmeos) que está neste endereço:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/09/ave-bahia-oiaiansa/

Este blog já apresentou também o orixá Iansã, em artigo de CLÉO MARTINS:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/09/ave-bahia-oiaiansa/

Leia mais escritos de Vilson Caetano no blog dele:

http://vilsoncaetanodesousajunior.blogspot.com/

OXUN – Escultura de TATI MORENO instalada no Dique do Tororó, em Salvador-BA. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde

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OXUN


A ARTISTA DO UNIVERSO

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

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Nos primórdios, Oxalá criou os sons, mas tudo continuava ainda confuso. Oxun combinou os diferentes tons. Ela havia acabado de inventar a música.

O culto ao orixá Oxun no Brasil confunde-se com o de Yemanjá, sua mãe. De acordo com o mito, Oxun teria nascido após a imposição das mãos de todos os orixás sobre a sua mãe.

Oxun é o princípio ancestral da maternidade, conceito que nos últimos anos passou a ser contestado por algumas correntes do movimento feminista, mas que ainda goza dentre os africanos valor fundamental. Enquanto alguns ancestrais são chamados de Ye, mãe, Oxun é chamada de Yeye, mamãe. Acredita-se que no momento da divisão dos poderes, enquanto alguns ancestrais brigavam pela terra, outros pelo ferro, Oxun apressou-se e pegou eyn, o ovo. A partir desse fato ela passou a acompanhar todos os acontecimentos.

Oxun está em tudo, pois ela regula tudo que é cíclico. Ela não somente comanda o ciclo menstrual, mas também as estações e o próprio movimento dos planetas. Oxun regula as marés, cuida das crianças e preside desde a fecundação ao amadurecimento dos frutos. A esse principio ancestral são consagradas todas as frutas.

Trinta anos atrás, quando ainda “a cidade de Salvador era um pomar”, no mês de dezembro, por ocasião da festa de Nossa Senhora da Conceição, barracas eram espalhadas em torno da Igreja para celebrar as “frutas do ano”.

Oxun foi a primeira pediatra do Universo. Ela auxiliava as crianças na hora de vir ao mundo ou retornar deste. Oxun assim acompanha os ritos de iniciação no mundo dos antepassados, pois ela está à frente de todos os nascimentos.

Desde cedo se associou esse principio ancestral às águas, Oxun, de fato, é todas as águas, sobretudo o líquido que preenche a placenta.

Na verdade, este princípio comanda “todas as coisas de dentro”. Oxun garante o funcionamento do nosso organismo. Assim, seu domínio vai além do sistema gastro-intestinal. Fato este que a fez desde cedo ser associada à comida. Se diz nos terreiros que Oxun é a dona da panela.

Se a panela representa o mundo, depois de tudo que explicamos, podemos dizer que Oxun dá sentido ao mundo, por isso é atribuída a ela a invenção da linguagem.

Como a costureira, Oxun une partes diferentes e o resultado é a quebra de fronteiras, a mesma observada no mercado.

Falando sobre o mercado, antes mesmo dos anos 60, referencial do momento em que algumas mulheres foram reividicando a sua independência, as sociedades yorubás já conheciam, além de mulheres no mercado de trabalho, sem abrir mão de sua maternidade, a figura da Yalodê, literalmente a “mãe que vai a rua”, ou a mãe que está na rua.

Ainda hoje podemos encontrar a Yalodê entre os yorubás. Trata-se de uma mulher designada pelas outras mulheres para tomar assento em decisões “fora de casa”.

A Yalodê fala no conselho por todas as mulheres e acredita-se que assim foi “desde o princípio do mundo”, quando Oxun foi convidada para acompanhar os orixás caçadores por todos os cantos da terra.

Outra imagem vinculada a Oxun é o pássaro. Verdade é que todas as aves pertencem a Oxun. Oxun cuida do mundo como a galinha cuida dos pintinhos embaixo de suas asas.

As histórias sobre este principio ancestral confundem-se com as histórias sobre a própria cidade de Salvador, cidade beira mar onde se canta em coro que “todo mundo é de Oxun”.

Segundo o Babalorixá Air José, três mulheres de Oxun comandaram a cidade no século passado: Maria Bibiana, Senhora de Oxun; Maria Escolástica, Menininha do Gantois, a Oxun mais cantada pelo mundo afora; e Caetana América Sowzer, a saudosa Yá Caetana Bagbosé.

Mãe Caetana era filha de Felizberto Sowzer, conhecido como Benzinho, que era filho de Júlia Andrade, filha de Tio Bangbose.

Benzinho era filho de Ogun e foi o responsável pela organização do jogo de búzios, conhecido como merindilogun no Brasil, conforme informações de seu neto consanguíneo Air José, filho de Tertuliana Souza, irmã de Yá Caetana.

No terreiro Pilão de Prata, a festa de Oxun realizada neste domingo [7.3.2010] é uma das mais concorridas. A festa é dedicada a Oxun de Mãe Caetana. Nesta comunidade, Oxun recebe o título de Yalê, mãe da casa.

Caetana América Sowzer ainda hoje é referenciada pelas pessoas que tiveram o privilégio de conviver com ela como mestra. Seu pai teria “traduzido” um dos sistemas adivinhatórios africanos mais complexos, mas coube a ela zelar com determinação pelos princípios fundamentais para a consolidação dos elementos civilizatórios negro-africanos no Brasil através da religião dos Orixás.

Mãe Caetana era uma Apetebi – como as esposas dos Babalawo, ela começava a transmitir as histórias sagradas desde cedo às crianças que tomava para criar.

Segundo o Pai Air, Mãe Caetana exigia que alguns momentos rituais, a fim de não se perderem, fossem registrados em cadernos, hoje amarelados.

Mãe Caetana era costureira, gostava de fazer bonecas, adorava artes. Era também músico, tocava violino.

Yá Caetana fez uma brilhante caminhada, como Oxun entendeu cedo que a serenidade vence qualquer guerra e que a simpatia é capaz de transformar qualquer momento em festa e alegria.

Hoje, aquela que foi chamada de Laju omim, olhos d’água, uma nascente, fonte, continua no mundo, agora no céu, certamente compondo a mais bela constelação, brilhando como uma estrela.

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VILSON CAETANO com estatuetas de Ibeji (Cosme e Damião), em sala do Terreiro Pilão de Prata, Boca do Rio, Salvador-BA. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde 24.9.2009

 

 

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YEMANJÁ


A MÃE DOS ORIXÁS

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

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Sem sombra de dúvida, Yemanjá é o orixá mais popular no Brasil e talvez isso valha também para outros países costeiros, ou a beira mar, como Cuba, onde esta é considerada a rainha da ilha pelos santeiros.

Como outros ancestrais nagôs, o culto a tal orixá realizado na cidade de Abeokutá e no rio Ogun sofreu um processo significativo de reinterpretação simbólica no Novo Mundo.

O exemplo mais ilustrativo disso, é a perda de características guerreiras em detrimento da exacerbação de elementos como virgindade, pureza e docilidade, ideais por excelência da figura da Virgem Maria que desde cedo recebeu atributos das deusas africanas, a exemplo de Isis, de quem herdou o título de Mater Dei e de outras deusas gregas e romanas.

Diferente da ideia de humildade e submissão, características esperadas das mulheres pelos gregos como a terra que sustenta o céu, Yemanjá está no começo da criação do Mundo. Acredita-se que ela forma um par criativo com Oxalá. Isso explica a sua profunda relação com o elemento água, cheio de significados na maioria das civilizações.

Por exemplo, algumas mulheres indígenas do litoral se lavavam na praia, pois acreditavam que a espuma do mar as tornava férteis.

Yemanjá é o princípio criativo da fertilidade. Ela está na terra, nos grãos, nos rios, nos mares, em todas as mulheres e em todos os seus filhos, que coparticipam desse poder graças à força conferida pelas Grandes Mães.

As representações desse Orixá, que desde cedo foi associado às sereias, ao longo da história recebeu elementos que lhe afastam da representação africana. Em algumas dessas, para se falar da noção de beleza, se fez uso de características não negras. Desta maneira, a representação da mulher com seios volumosos e formas arredondadas cedeu lugar para a imagem de uma mulher branca, cabelos lisos e corpo magro e esguio.

Não estamos com isso contestando a capacidade de o devoto fazer a sua experiência religiosa nessas representações, mas chamando a atenção para o fato de que as imagens do sagrado vinculam visões de mundo e expressam valores da sociedade que lhe está produzindo o tempo todo. O problema está quando não nos damos conta disso.

Sobre isso, as mulheres do movimento negro iniciaram já há alguns anos uma crítica e tem se avançado muito.

E a sereia? Sempre disse que é o contrário do princípio da Grande Mãe, por tratar-se de seres que carregam a “maldição” de não poderem ter filhos, o contrário de Yemanjá, mãe dos Orixás, a menos daqueles ligados à dinastia de Oyó, como Ogun, Odé, Xangô e Oxun.

Da sereia grega, o símbolo que estabelece melhor diálogo com Yemanjá é a imagem do peixe que como o pássaro, o leque e as águas são considerados “princípios femininos” que não podem ser compreendidos em contraposição a outros.

Dessa maneira, o atributo por excelência da Grande Mãe é a guerra. Segundo um de seus mitos, ela teria ensinado Ogun a forjar as “pencas”, depois transformadas nos famosos balangandãs que, mais do que enfeites, cumprem funções de proteção; depois a espada para defender o seu reino.

Outra história conta como Yemanjá venceu alguns inimigos que marchavam em direção ao seu reino. Ela teria se enfeitado e levantado o seu leque que, em contato com o sol, multiplicou o seu exército.

Sobre a origem dos presentes oferecidos às águas, já explicamos no texto sobre as oferendas. Trata-se de uma prática antiga que pode ser encontrada em várias civilizações. A sua origem está na concepção do valor da troca de presentes com os ancestrais verdadeiros responsáveis pela manutenção das comunidades.

Nos últimos anos grupos ambientalistas têm aberto a discussão sobre o nível de poluição representado pelos presentes a base de produtos não degradáveis, como plásticos, vidros e outros. Claro que o povo de Candomblé não pode ser responsabilizado pela poluição dos mares, talvez isso valha para as indústrias e empreendimentos imobiliários que poluem as águas todos os dias a toda hora.

Temos, todavia, que estarmos atentos àquilo que oferecemos. Afinal, nossos antepassados não conheceram alguns presentes que hoje teimamos em colocar nas águas, e se tivessem conhecido, sem sombra de dúvida não colocariam, pois sabiam que o maior presente são os grãos, as flores e a nossa vida.

Nos terreiros de tradição nagô, diz-se que ela cuida de nossas cabeças e de tudo que se relaciona ao equilíbrio. Nas tradições angola-congo, este princípio é evocado com o nome de Kaia, mas há também tradições que o chamam de Aziri Tobossi, como a jeje.

Mais do que a designação, cada comunidade possui estórias próprias para falar desse ancestral da fertilidade que não pode ser encerrado na concepção da maternidade, afinal, há várias maneiras de conceber.

Vale mesmo não se afastar da ideia de que cada ser vivo que nasce é um ancestral que se faz presente através da constituição de longas famílias. Assim, Yemanjá, Kaya, Aziri Tobossi e mesmo Yara estão em tudo. Talvez no início tal princípio tenha sido associado às águas graças à importância que estas cumpriam nas civilizações responsáveis por tal representação.

O principio de fertilidade está, na verdade, em tudo. Ele garante o equilíbrio das coisas, as mantendo entrelaçadas como escamas, nos fazendo peixes filhos de uma mãe cujo filhos são peixes. Ye/ Omo/ Ejá.

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XANGÔ


AO REI DO MUNDO…

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

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Xangô é rei. É rei no Batuque do Rio Grande do Sul, é rei no Xambá de Pernambuco, estado onde o seu nome é evocado para designar as religiões de matriz africana, é rei nos candomblés nagôs do Recôncavo baiano, é rei no Tambor de Mina no Maranhão e é rei nos candomblés jeje nagô na cidade de Salvador.

Não vamos entrar no mérito de suas histórias, falar sobre os vários mitos, sobre a sua origem, mas sobre o significado da figura do rei para a consolidação de identidades negro-africanas fragmentadas através da escravidão.

Em algumas cantigas, Xangô é reverenciado como rei do mercado, Obá loja e rei do mundo, Obá aiyê. Mercado, coração das sociedades iorubás, onde se alternavam o tempo todo bens materiais com simbólicos.

Verdade é que no Brasil, essa figura foi fundamental no processo de reconstrução e manutenção dos elementos civilizatórios negro-africanos no Novo Mundo. Não poderia ser diferente, manifestação do Divino, a figura do rei representa continuidade, a permanência da grande família africana inclusiva, que com o passar do tempo foi ampliada a fim de agregar novos membros, agora descendentes de portugueses, índios, judeus, ciganos e tantos outros.

O culto a Xangô é assim o culto à continuidade, à descendência, à família mantida viva graças às mulheres e as crianças. Daí a sua relação com os antepassados e o por que de Xangô ser o ancestral mais festejado na sociedade secreta de Egungum ou nos rituais fúnebres, ocasião em que os iniciados levam no pescoço uma conta em sua homenagem.

Ao contrário do que se diz, o culto a Xangô possui relações estreitas com a morte, com o culto aos antepassados, pois ele mesmo representa toda a sua descendência.

Mas de onde surgiu a ideia de que “Xangô tem medo da morte”? Talvez da má compreensão da simbologia do rei, associada a outras leituras.

Explicando: ao contrário do que muitas pessoas afirmam, o elemento de Xangô é a terra. Seu culto rememora as civilizações que desde cedo foram estabelecidas pelos africanos.

Xangô é dono de tudo que existe em cima da terra. Graças a essa relação, desde cedo esse ancestral foi evocado como pedra e tudo que estas significam numa edificação. Desta maneira este princípio ancestral está presente nos corpos celestes.

Essa relação entre as pedras e o corpo é muito antiga e pode ser encontrada em algumas regiões do Mediterrâneo e partes do Continente Africano.

Fogo, assim, e tudo que ele representou para a humanidade, era então obtido através da fricção destes dois corpos. Porém, anterior a esse momento, é bem provável que a humanidade já utilizasse as pedras para reter o calor, aproveitando para conservar os alimentos.

Já demonstramos em outro momento que a temperatura é algo fundamental para os seres vivos. Quando o corpo perde o seu calor, princípio de vitalidade, acredita-se que ele está morto.

Não podemos confundir esse momento com os Antepassados. Estes, como Xangô são muito quente, pois estão vivos, continuam sob as tiras de pano que separam de nossos olhos o mistério da vida e da morte.

Assim, quando evocamos o Rei nos rituais fúnebres, estamos afirmando que acreditamos na nossa ancestralidade e que ela é a garantia de nossa permanência para sempre no mundo.

Quanto ao corpo, devolvemos à terra, pois como já comentamos, dessa devolução depende a continuidade da vida dos que virão. Afinal, tudo não é cíclico? Tudo não é uma manifestação do Sagrado?

A partir dessa explicação podemos pensar várias coisas. É certo que africanos e africanas tinham em mente a concepção de que as pedras deveriam estar juntas para poder produzir calor a fim de manter-se vivas. E assim fizeram.

Assim uma das características do culto ao rei preservada no Brasil foi a presença de muitas pessoas. O culto a Xangô requer muitas pessoas. Como se diz. Xangô adora gente. E o que é o mercado? Nada mais do que indivíduos que rompem suas fronteiras, quebram tabus. O rei também adora festas, comidas, bebidas.

Não foi a toa que quando os africanos organizaram os primeiros afoxés, o rei ia à frente, que digam os maracatus de Pernambuco.

E falando em Maracatu, como não falar da Kalunga, a boneca que diviniza nossos antepassados?

Falando sobre esse ancestral, no Brasil não podemos deixar de mencionar o nome de Tio Bangboxé. Ele teria chegado ao Brasil para ajudar na constituição de alguns terreiros de Candomblé que se formavam na cidade de Salvador no século XIX, onde o culto a Xangô era elemento central.

Fiel à sua missão, Bangboxé Obitikó constituiu no Brasil longa descendência através da família consanguínea que formou e da religiosa que desde cedo constituiu através de suas viagens a Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife.

Ainda hoje membros da família Bangboxe vêm da Nigéria visitar seus descendentes brasileiros.

O Babalorixá Air José lembra com saudade quando há dezesseis anos, sua tia consanguínea e bisneta de Tio Bangboxe passava horas conversando com seus parentes na sua casa, situada à Rua Xisto Bahia.

Da família consanguínea, destacamos a figura de Tia Júlia. Era filha do Tio Bangboxé; e da religiosa, Eugênia Anna dos Santos, a inesquecível Mãe Aninha que cem anos atrás fundou o Ilê Axe Opo Afonjá.

No terreiro fundado por Tia Júlia no Matatu, está à frente ainda hoje Irenea Sowzer, filha de Xangô e última bisneta do Tio Bangboxé. E no Terreiro da Rua Xisto Bahia fundado por Yá Caetana, está Yá Haydee Paim, também de Xangô.

Xangô que é rei, que gosta de coisa bonita e é muito vaidoso. Não no sentido pejorativo que utilizamos a palavra. Vaidade no sentido da autoestima.

O culto a Xangô nos faz olhar para dentro de nós mesmos, nos faz perceber que quando permanecemos unidos como pedras que formam o alicerce de uma construção, somos fortes. Ele ainda nos impulsiona a lutar contra todos aqueles que não se alegram com a nossa alegria. Viva o Rei!!!!

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*Vilson Caetano de Sousa Junior – Antropólogo, doutor em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo, pós-doutoramento em Antropologia pela Unesp

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A MORTE E O MISTÉRIO DA VIDA

02/11/2009

por VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

Se é verdade que não há um acordo sobre o mistério da vida, é digno de nota que o sentido da morte sempre foi motivo de preocupação para as civilizações antigas, basta olharmos para o Egito ou para os maias, incas e astecas.

Para os povos africanos, a morte não tem o sentido cristão de castigo, nem aniquilamento, ao contrário, segundo um provérbio, “não se vive para morrer, mas se morre para viver”.

Dentre os iorubás, um mito bastante conhecido nos ajuda a entender esta realidade. No início do mundo, quando Oxalá procurava algo para fazer os seres vivos, o único que serviu foi uma mistura de água e terra trazida por Iku, um príncipe cego.

Assim, a experiência da morte seria o retorno para as nossas origens, o mundo ancestral, aquele que os nossos olhos não veem, salvo em ocasiões especiais, quando os antepassados se apresentam sob tiras de panos, como na sociedade secreta de Egungum.

No final do mês de setembro, início da primavera, as religiões de matriz africana experimentaram a passagem para o mundo dos antepassados de duas grandes sacerdotisas, Mãe Hilda Jitolu e Mãe Regina Bangboxé – no dia 25 de setembro, após sessenta anos de residência na Baixada Fluminense.

PRIMÓRDIOS DO CANDOMBLÉ

Para entendermos o significado desta última, temos que nos remontar ao momento de constituição das religiões de matriz africana reorganizadas no Brasil, a partir de elementos iorubás, aqui designados nagô ou ketu.

Antes dos meados do século XIX, momento de entrada maciça de africanos vindos de reinos como Ketu, Oyo, Ibadan, Ilorim, Igexá e outros, chega ao Brasil Rodolfo Martins Andrade, “nome de branco”, que certamente herdou de seu antigo senhor como era o costume.

É o período de muitas idas e vindas de africanos e africanas da Costa da África para o Brasil, especialmente a cidade de Salvador, onde faziam negócios mas também de constituição dos primeiros cultos aqui organizados, posteriormente denominados candomblé.

Africano, Rodolfo Martins Andrade, era reconhecido pela comunidade que começava a se formar pelo título de Bangboxê Obitikô.

Se é certa a ideia trazida pelo professor Vivaldo da Costa Lima de que Yanassô era em Oyó, centro político do “povo ioruba”, alguém que cuidava do culto ao rei, é verdade também que Bangboxê Obitikô foi figura central no momento de organização do culto a Xangô, ainda na Igreja da Barroquinha, posteriormente disseminado para outras partes da cidade, mas sobretudo para o candomblé do Engenho Velho, hoje conhecido como Casa Branca.

Se Yanassô tinha a função de zelar o culto ao Rei, Bangboxê Obitikô trazia o segredo das dinastias dos reinos de Oyó, reconstruídos após inúmeras invasões, representado pelo oxê, machado de duas lâminas, símbolo real por excelência.

TIO BANGBOXÊ

No Brasil, o Tio Bangboxê como é invocado nos terreiros, constituiu longa descendência, seja através de suas viagens ao Recife, Rio de Janeiro, Porto Alegre, seja pela família consanguínea que formou.

Foi o Tio Bangboxê, por exemplo, quem ajudou a iniciar Eugênia Anna dos Santos, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das crioulas mais importantes no mundo afro-brasileiro na década de trinta.

Com Mãe Aninha, o rei teria nascido, pois Xangô já havia chegado na sua filha consanguínea Júlia Maria Andrade que com a morte de seu pai, tomou para si a função de guardar os segredos de Xangô. Isso é lembrado numa cantiga que diz: awo oxê mi agué miro, “o segredo do oxê esta conosco”, que logo depois é substituído pela palavra Bangboxê mi. O tio Bangboxê era o próprio segredo de Xangô.

Tia Júlia foi mãe de Felisberto Américo Sowzer, chamado carinhosamente de Benzinho. Tio Benzinho era homem de negócios, falava inglês e vivia a sua religião com muita discrição. Como seu avô, fez viagem por todo o Brasil, mas como lembra a sua única filha viva: “Papai nunca viveu de candomblé”.

MÃE CAETANA

Ao contrário do mal entendido causado por Pierre Verger ao afirmar que Felisberto Sowzer rivalizava com Martiniano Eliseu do Bonfim, chama a atenção Tia Irene com 89 anos: “Eles eram muito amigos.” Até porque o primeiro era babalawô e o segundo oluwó, olhava nos búzios como se diz hoje. De Tio Benzinho nasceram Tertuliana Souza de Jesus, Caetana América Sowzer, Crispim, Regina Taurino e Irene que continua comandando o terreiro de Tia Júlia no Matatu de Brotas.

PAI AIR

Tertuliana Souza de Jesus era descontraída e animada, foi mãe biológica de Air José Sousa de Jesus, que em 1963 fundou o Terreiro Pilão de Prata com a ajuda de sua tia consanguínea Mãe Caetana, que lhe iniciou ainda criança, conforme tradição da família. Mãe Caetana era uma mulher de “muitas prendas”, adorava crianças, mas amava música, tocava violino.

Pai Air desde cedo tomou a responsabilidade de reunir os elementos trazidos pelo Tio Bangboxê dando continuidade à tradição de sua família. Em 1993, após a morte de Mãe Caetana – que fundou uma casa chamada Lajuomi em 1941 – ela foi sucedida pela sua sobrinha Haidê Paim, carinhosamente chamada de Mãe Dede.

Tia Regina faleceu aos 98 anos de idade com mais de noventa anos de iniciação. Era filha de Yemanjá, e, muito serena, há menos de um ano e meio resumiu o que estamos falando. Num documentário sobre os 14 anos de falecimento de Mãe Caetana, ela disse: “Aqui estou até o dia em que Olorum quiser. Uma certeza eu tenho: um dia eu vou me encontrar com ela no outro lado.”

PRINCÍPIO DA ANCESTRALIDADE

Este é o princípio da ancestralidade. Afinal, como temos lembrado, os que nascem são sempre vivos, como relembra uma das músicas cantadas na ocasião da morte: “Os iniciados no mistério não morrem, os iniciados no mistério não desaparecem, os iniciados no mistério retornam para a casa do mistério, a casa do renascimento.”

Durantes estes dias, branco é a cor obrigatória pois ela cega a morte, assim fez Oxalá após saber que Iku marchava em direção ao povo de efan após ter “levado” consigo muitas cidades. Oxalá pegou a galinha da angola e a encheu de pontinhos brancos, assim a morte se assustou e deixou o povo em paz.

Durante os próximos dias, comida, dança e bebida celebram não a morte, mas a vida. Afinal, “mais triste do que partir sem ter gozado a vida, é no momento de deixar a vida não ter nenhum motivo para ficar triste”.

Por isso choramos, não pela morte que nos traz a certeza da continuidade, mas pela saudade. Nossos antepassados estão sempre conosco, são os nossos olhos que nos separam deles.

Tia Regina como tantos outros permanecerá conosco, ora na família de sangue que construiu, ora na família de santo que formou.

Mas como contar esta filosofia para as crianças, por exemplo? Basta dizer que nossos pais e nossas mães transformaram-se em estrelas, afinal não somos modelados com a mesma matéria dos astros. Agora o céu está mais brilhante. Ou simplesmente podemos resumir o sentido da vida lembrando a cantiga que diz: “O médico que nos cura morre, o palhaço que nos diverte morre, bobo a umló, todos nós morremos.”

*Vilson Caetano de Sousa Junior – Doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da UFBa, filho do Terreiro Pilão de Prata

A BÊNÇÃO, MÃE STELLA

13/09/2009
FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

por zédejesusbarrêto

Maria Stella de Azevedo Santos, 84 anos, a Mãe Stella de Oxóssi, Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de nação ketu fundado em 1910, no bairro de São Gonçalo do Retiro, um dos mais respeitáveis do candomblé baiano, é uma mãe-de-santo moderna e rigorosa na prática dos fundamentos de sua religião. É uma sacerdotisa, senhora do saber, matriarca de uma linhagem iorubá nigeriana, com raízes na cidade de Oyó, reino de Xangô, que deu à Bahia mulheres inteligentes e marcantes como a pioneira Yá Nassô (dos terreiros da Barroquinha e Casa Branca, século XIX), Menininha do Gantois, Mãe Aninha (fundadora do Opô Afonjá), Mãe Senhora, todas já no reino dos ancestrais.

Por escolha de Xangô, com a morte da Yá Ondina, Mãe Stella abandonou a profissão de enfermeira e assumiu o comando do Opô Afonjá em 1976. Desde então, dedica-se à preservação do culto e à transmissão do conhecimento, mantendo a tradição oral, e também  através de escritos e livros, como “Oxóssi,O Caçador de Alegrias” (dedicado ao Orixá da caça, que rege a sua cabeça) ; “Meu Tempo é Agora”, escrito com o propósito de disseminar ensinamentos; “Owé –Provérbios”, em português e iorubá; e “Epé Laiyé –Terra Viva”, uma parábola para crianças, em defesa da natureza-mãe: “O que não se registra o vento leva”, diz com sabedoria.

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella está sendo homenageada esses dias pelos 70 anos de iniciação como filha de Oxóssi (Odé). Seu nome sagrado em keto/ioruba é Odé Kayodê, que significa ‘Caçador da alegria’.  Durante a semana ela foi agraciada com o título de doutora ‘honoris causa’ da UNEB e neste sábado (12.9.09) à noite os atabaques do Ilê Axé Opô Afonjá bateram em sua honra.

Stella é o cromo da vida./ Stella rabisca em mim/ a aquarela vermelha de Xangô/ meu pai e o outro que eu sou./ Stella me dá a Xangô./ X angô me dá a Stella./ Stella acende a grande fogueira de estrelas./ Stella de Oxóssi é a dama do balé dos silêncios”

(Fernando Coelho, Ogã de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá, jornalista e escritor)

Eis alguns pensamentos da sacerdotisa de Xangô:

“A natureza conversa conosco a todo momento, basta saber entendê-la ou dar mais um pouco de atenção a ela. Tudo o que a nossa religião professa advém da natureza”

“O Candomblé não é um produto do turismo étnico. Somos uma religião, temos nossa liturgia, uma teologia, dogmas e segredos. Temos de preservar nossos princípios e valores com todo o respeito”

“É só frequentando a roça que se aprende a religião, e se aprende no desempenho das tarefas mais simples”

“Vivemos o tempo presente, nosso tempo é hoje, já, agora. Só pode falar ‘em meu tempo’ alguém que não faça mais parte deste tempo: depois de ter atravessado a porteira do tempo… Quem vive é deste tempo, de agora!”

“Falar de um Orixá é voltar no tempo, tentando decifrar o mistério do indecifrável, aquilo que apesar de ser experienciado, vivido e sentido não pode ser traduzido em uma única forma, pois tendo todas as formas, nenhuma delas o revela

Os orixás são concebidos como seres primordiais, expressões divinas das forças da natureza, um poder imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos através do fenômeno da incorporação”

“A vestimenta de cor preta, para nós, é negativa. Nunca se entra num Ilê Orixá com roupas pretas. Aliás, o mais importante é que não se penetre  em casas e quartos de Orixá sem o convite da Iyalaxé ou de alguém responsável e com poderes para isso”

“Dou um conselho aos visitantes e amigos do Axé: Não perguntem, observem!”

“Quem for a uma festa de Orixá, num terreiro, chegue com respeito e amor. Nada é cobrado, nada se fotografa, nada é gravado. Ali é um lugar sagrado, não deve ser profanado. Os terreiros estão abertos a todos que souberem chegar”

“A fé não se impõe, nem se chega a ela pelo intelecto. Chega-se ao orixá pelo coração”

“Você pode até ir à missa e ao candomblé, mas não mistura santo com orixá. O sincretismo é resquício da escravidão, o senhor queria que o negro fosse católico e ele, para agradar, dizia que era. Mas agora somos livres, não precisamos disso”

“O descendente de africano não é obrigado a ser de candomblé. Isso é ridículo. Não escolhemos o Orixá, ele é que nos escolhe”.

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

SETENTA ANOS DE AXÉ

por Marlon Marcos*

Ela é neta de Aninha de Afonjá e filha de Mãe Senhora de Oxum. Por pouco não foi iniciada na liturgia do candomblé por Mãe Menininha do Gantois. É regida pelo senhor da fartura, patrono dos caçadores, o altivo orixá do azul turquesa: Odé, mais conhecido como Oxóssi. Maria Stella de Azevedo Santos nascida em Salvador, em 2 de maio de 1925, enfermeira de profissão, é hoje a sacerdotisa da religião dos orixás mais prestigiada no mundo.

A história desta mulher dialoga, representa e acende nossas memórias acerca dos principais acontecimentos sobre as práticas do candomblé na Cidade da Bahia. Mãe Stella foi consagrada ao seu eledá, orixá principal, em 12 de setembro de 1939, aos 14 anos de idade, no Ilê Axé Opô Afonjá, pela já lendária Mãe Senhora de Oxum. Neste mês da Primavera, Iyá Stella faz 70 anos de iniciação nos fundamentos religiosos desta religião civilizatória no Brasil: o candomblé.

E a Bahia para e reflete sobre a importância de se ter uma mulher negra no comando de uma espiritualidade ainda tão atacada, incompreendida e vilipendiada pela presença do racismo e da intolerância de ordem religiosa. Uma mulher que se escreveu na história do seu país afirmando a sua religião, organizando e ampliando a sua comunidade, educando, escrevendo livros, preservando nossa ancestralidade, respeitando os rituais sagrados que lhe foram confiados por suas “mais velhas” e, politicamente, exercendo seu sacerdócio dignamente sem abdicar de suas demandas existenciais.

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Uma história que se conta para marcar as conquistas femininas no século XX, e mais ainda, referendar a força das mulheres negras da Bahia que, através do candomblé, deram identidade cultural ao nosso povo, nos livrando assim, da esquizofrenia social.

Hoje, aos 84 anos, Mãe Stella serve de modelo e imagem de movimento. Ao iniciar novos filhos, sob a égide sacerdotal das filhas de Obá Biyi, Mãe Aninha, ela amplia com qualidade o número de adeptos de nossa religião e nos faz crescer e permanecer lutando a favor do culto amoroso e sério a nossos orixás.

Toda vez que olho para ela, Mãe Stella, lembro-me de Simone de Beauvoir e do orgulho que a filósofa teria por pertencer a esta construção cultural chamada mulher, a qual a iyalorixá baiana tão bem representa. Sua bênção, Iyá Stella.

*Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

(Artigo transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, 12.9.09)

AVE BAHIA! – CLÉO MARTINS

25/06/2009
 

 

Foto: Gildo Lima, Agência A Tarde, 1.7.2006

Foto: Gildo Lima | Agência A Tarde | 1.7.2006

FOGUEIRA DO REI E DA RAINHA

por Cléo Martins

“São João” finalmente chegou deu seu recado e se foi gente boa! Festa alegre dos que também celebram a vida a contemplar (às vezes pulando) muitas fogueiras, ao sabor dos licores.

Coisa boa, a fogueira: fogo sagrado para a alma e nossa terra revigorada de paixão.

A fogueira, trazida nas bagagens missionárias cristãs ibéricas, apresenta-se em diferentes tradições religiosas primordiais. Povos antigos acendiam-nas para o deus Sol, como marco de sacrifícios e oferendas. Eram feitas em especial nos solstícios de verão e inverno.

Orungam, Orixá da família de Xangô, a divindade iorubá do fogo, é o próprio sol.

Xangô é o senhor do fogo; esposo de Oiá-Iansã, que com ele divide o poder sobre este elemento. Sem Oiá-Iansã, Xangô não produz nem uma fagulhinha…

Terreiros tradicionais da Bahia fazem fogueiras na época do São João, em homenagem a Xangô.

As referidas são acesas nos dias vinte e três e vinte e oito de junho; vésperas de São João e São Pedro, a data que encerra o calendário junino, marcado por desejos de paz e justiça.

Conta velho mito que Xangô tem sua fogueira e doze dias de festas em virtude da presteza dos doze Obás: Aré, Abiodum, Cacanfô, Telá, Odofim, Xorum, Aressá, Onicoí, Olubom, Erim, Onãxocum, Arolu.

Mas nem sempre Xangô foi Obá, o Rei; o senhor da Justiça. Dizem que era muito, muito pobre; escravo cortador de capim do país Nupê, a terra de sua mãe Iamassê. Certa feita, morreu o soberano e a nação caiu no caos porque não tinha ninguém real para reinar. Os dirigentes decidiram tomar uma pessoa sem “sangue azul”. Escolheram Xangô por sua determinação e firmeza, contrariando a vontade de muita gente.

Por sua vez, Xangô procurou a melhor forma de fazer valer sua vontade.

Apesar da firmeza do monarca, as coisas não eram nada fáceis e os inimigos poderosos. Xangô precisava de encontrar uma maneira de firmar-se no poder. Era casado com Oiá, chamada de Iansã, a senhora dos ventos e tempestades, reconhecida pela fortaleza e argúcia.

Iansã teve a idéia de aconselhar o esposo a conseguir algo extraordinário que o fizesse admirado e temido. Determinada, viajou ao país dos Baribas ao encontro de algo formidável. Retornou vitoriosa, trazendo na boca um objeto que soltava fogo. Entregou-o ao marido, mantendo um pouco em seu poder.

Resultado. Ele botava fogo pela boca e ela também botava, tornando-se quase tão poderosa quanto o real esposo. O poder nos aproxima dos maus conselheiros, afasta a generosidade e causa cegueira e orgulho.

Xangô sentiu-se ameaçado por Oiá, que, por sua vez, tinha um temperamento terrível e coração de ouro.

Depois de uma de suas cóleras, Xangô resolveu expulsá-la, pois achava que ela diminuía seu prestígio perante os súditos, cansados do gênio terrível de Oiá. Iansã percebeu a intenção de seu rei.

Resolveu sair por livre e espontânea vontade, sem que Xangô, o ingrato de curta memória, nada fizesse para impedi-la. Para pirraçá-la, cada dia colocava uma dama belíssima ao seu lado, sem perceber que perdia o respeito de seu povo. Os Obás, os doze conselheiros de Xangô, não estavam gostando nada, nada daquilo. Ouviam os cochichos das pessoas: “Se Xangô está fazendo isso com Oiá, o que não há de fazer com a gente?”. E muitos deixaram o país à procura de terras menos injustas e turbulentas.

Oiá chorava, chorava, mas não procurava Xangô.

Xangô sofria, mas era orgulhoso demais para dar o braço a torcer. Os falsos amigos – inúmeros, que a cada dia ofereciam uma bela dama ao rei – aconselhavam-no a tocar a vida, esquecendo-se de Oiá, “mulherzinha ruidosa e presepeira; interessada no poder; péssima para o reino”. Os bons conselheiros, os Obás, reuniram-se e foram falar com Ossain, o poderoso mestre das folhas e mezinhas. Este os aconselhou a aconselharem Xangô a promover um encontro com Oiá. Xangô concordou. Oiá ficou feliz com a ideia. No último momento, a coragem fez Xangô fraquejar, aumentando o desespero de Oiá.

E o reino, sem ela, ia de mal a pior. Inebriado pelos maus conselheiros, o rei fazia uma atrocidade atrás da outra. Os Obás coçaram a cabeça. O que fazer com a obstinação do rei? Foram à procura de Ossain, novamente. Este disse-lhes que, para salvar o reino, trazendo as energias positivas de volta, era preciso uma fogueira. Mas para a fogueira ser feita, eram necessários os esforços de Xangô e Oiá juntos.

São João na cidade de Uauá, Bahia

São João na cidade de Uauá, Bahia | Foto: Divulgação

Na noite em que o fogo ia ser feito, Oiá chegou. E Xangô veio, também. Um não olhava o outro.

Começaram a fazer força, e nada do fogo.  Os Obás estavam admirados: “Como era possível?”.

Foram embora cabisbaixos, deixando Xangô e Oiá sem platéia.

Daí, Xangô olhou para Oiá e seus olhos enxergaram.

Oiá contemplou Xangô e seu coração ardeu. E o coração de Xangô ardeu também.

Juntos, fizeram a fogueira mais alta e bela do mundo, fogueira que duraria doze noites e doze dias.

Ao verem tão bela fogueira, os doze Obás voltaram ao local sagrado, pondo-se a dançar em redor do fogo, junto com Xangô e Oiá. Prometeram que, daquele dia em diante, todo ano haveria doze dias de festividades para o Rei e sua Rainha.  Assim, graças aos bons conselhos dos Obás, orientados por Ossain, o reino de Xangô fortaleceu-se sendo expurgadas a desmoralização e injustiça.

A partir de então, Xangô percebeu quem eram os amigos e inimigos, não agindo sem antes ouvir deus doze ministros, os Obás.

Xangô Kan, Oiá Kan.

Kabieci; eparrei!”