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WALY, A FERA FAISCANTE

13/06/2010

Caricatura de WALY SALOMÃO criada por GENTIL

Minha admiração por Waly [Salomão] é imensa […] Daí a felicidade em ver homenagens como a biblioteca de Ribeirão Preto e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae. Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly?

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Em 2004, andando por Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, sob a fuligem de canaviais queimados, vi à distância uma construção de arquitetura inconfundível. Um prédio de João Filgueiras Lima, Lelé. Curioso, fui ver o que o prédio abrigava. E tive uma surpresa que me deixou especialmente alegre. Era a Biblioteca Waly Salomão. Uma homenagem de Ribeirão Preto ao inventivo poeta-guerreiro nascido em Jequié, na Bahia. É claro que Waly mereceu a homenagem.

Meses atrás, no jornal O Globo, vi que estavam na reta final as obras do Centro Cultural Waly Salomão, agora inaugurado, na favela de Vigário Geral, no Rio. E, mais uma vez, Waly merece a homenagem. Pelo que fez e por ser quem foi.

O poeta-escritor que nos deu a prosa de Me Segura Queu Vou Dar um Troço. O poeta-letrista que nos deixou canções como Mel, Cabeleira de Berenice e Vapor Barato.

O poeta-editor que trouxe à luz a revista Navilouca e Os Últimos Dias de Paupéria, reunindo escritos de Torquato Neto.

O poeta-produtor cultural que, com Antonio Cícero, organizou os debates do Banco Nacional de Ideias, trazendo ao Brasil personalidades intelectuais como Horty, Gellner e Todorov, com o qual tive o prazer de debater em São Paulo sobre diversidade cultural.

O poeta-executivo, administrador público, que coordenou aqueles que talvez tenham sido os últimos carnavais baianos culturalmente relevantes.

O poeta-artista visual que nos brindou com a série colorida dos Babilaques.

O poeta que queria ultrapassar barras e bordas, não ser “si-mesmo”, mas tudo que fosse ou significasse um outro. O poeta que sabia e dizia que a memória não passa de uma ilha de edição.

Ao apresentar um livro seu, Armarinho de Miudezas (publicado por Myriam Fraga e Claudius Portugal, em importante coleção editorial da Fundação Casa de Jorge Amado) – cuja lembrança sempre me traz à mente o texto “Bahia Turva”, porrada na pasmaceira da província –, tentei fazer uma síntese de como eu o via, chamando-o “a fera faiscante” (àkàtà yeriyeri, nos orikis iorubanos), em referência ao orixá Xangô, dono de sua cabeça.

Curiosamente, aliás, Xangô é o orixá da retórica, do discurso, da eloquência. O senhor do axé na palavra. E, nesse sentido, Waly, que tinha uma capacidade oral extraordinária, era mesmo uma encarnação total da figura do filho de Xangô. Tinha o dom do improviso, da língua afiada, da frase desconcertante, do achado irônico-humorístico que levava todos às gargalhadas.

Naquela apresentação, entre outras coisas, escrevi: “Não há lugar aqui para o temor, a prudência, a reverência paroquial. Pensamento agudo, voz de trovão, o baianárabe Waly (de walid) é um happening ambulante. Um farsante declarado e colorido num ambiente cultural infestado de beletristas seriosos e cinzentos. Inimigo público número um do meio termo, da mesmice gustativa, Waly é uma verdadeira montanha russa de grossura e de finesse, indo das baixarias de botequim à suprema limpeza do construtivismo de Maliévitch. Sua figura é a hipérbole. O leitor de Rimbaud e Nietzsche circulando pelo morro do Estácio, da Mangueira, ou em meio aos tambores sagrados do candomblé. Curiosidade ibnkhalduniana. Estrada do excesso. Um homem livre como as formas de Arp”.

Minha admiração por Waly é imensa. Dos tempos de minha juventude, quando o conheci chez Caetano Veloso, aos dias em que trabalhamos juntos, com ele na direção do Instituto Nacional do Livro, em Brasília. Waly animava e alegrava nossas vidas na cidade de Lúcio Costa.

Daí a minha felicidade em ver obras-homenagens como a biblioteca de Ribeirão e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae.

Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly? Algum projeto, ao menos? Que eu saiba, não. Waly, na linha de um Gregório de Mattos, dizia, num texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, que a verdadeira padroeira de Salvador era “Nossa Senhora do Empata Foda”. Tudo aqui emperra, não anda, não acontece. Acho até que ele deve estar aí em alguma fila, aguardando que antes a Bahia faça uma Casa Dorival Caymmi.

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*Antonio Risério – Escritor

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POETA ENFRENTA A FERA WALY SALOMÃO

25/10/2009
WALY SALOMÃO – Foto: ZENILTON MEIRA | Agência A Tarde 5.5.2003

WALY SALOMÃO – Foto: ZENILTON MEIRA | Agência A Tarde 5.5.2003

O LANÇAMENTO DA DISCÓRDIA

 

por EDMUNDO CARÔSO

 

Não consigo lembrar direito de como Waly Salomão entrou na minha vida. É muito provável que tenha sido através de Luiz Caldas, mas não pode ser descartada a via de um colega de trabalho – Sidnei Silva – muito amigo dele, que, com certeza, veio solidificar nossa relação no futuro. Agora me lembro. Foi através de Luiz sim, quando ainda morava na Rua do Barro Vermelho, em pleno Rio Vermelho e no auge do sucesso.

Certa vez fui lá visitá-lo e ele me convidou para irmos ao apartamento do poeta Antonio Risério, que morava alguns andares abaixo, onde também estava Waly, na época presidente da Fundação Gregório de Mattos, numa conversa literária com o anfitrião. Eu não conhecia pessoalmente nenhum dos dois e eles nunca tinham escutado falar de mim. Taí o que se pode chamar de bom começo.

Foi um encontro engraçado porque o papo estava a mil, num nível intelectual que a minha cultura provinciana nem de longe tinha condições de acompanhar, tudo regado a montanhas de whisky e muita descontração. Não sei bem porque, mas a partir de um determinado momento Luiz precisou sair e eles me convidaram para ficar. Durante todo o tempo em que estive lá não abri a boca, pelo menos não para participar das discussões, mas quanto a devorar os whiskies trabalhei direito – nisso eu era tão bom quanto eles.

Considerando que os dois estavam ali em condição de iguais, em franca intimidade de seus talentos (eu, recém-chegado, boiando em torno da mesa), pela forma gentil e cuidadosa como me trataram todo tempo devo concluir que minha boca fechada e presteza em servi-los foram bastante eficientes. Terminei, sem querer, dando uma contribuição inestimável ao debate e à cultura nacional.

Minha interação com Waly, apesar de ter sido marcada por inúmeros episódios de intimidade social relativa, nunca foi de amizade propriamente dita, estando mais para uma relação cortês e respeitosa. Eu admirava o poeta que, por sua vez, e creio que por causa de tantos amigos em comum, tinha uma paciência comigo acima do normal e, devo, a bem da verdade, acrescentar que de certa forma muito generosa, reconhecia – ainda que em situações sui generis – o que ele chamava de meu talento, sabe-se lá onde o via. Nunca me esqueço de uma vez, na praia de Guarajuba.

Eu, ele e Luiz tomávamos todas na casa de Tinho Nery, um dos donos do bloco Camaleão, quando recitei um poema, do qual hoje nem gosto tanto, mas que naquela época achava o máximo, e que Waly, estimulado pela imensa quantidade de álcool que havíamos ingerido, ficou tão empolgado com o dito cujo que se dependurou com as duas mãos em meu bigode de mexicano – que tinha pontas imensas. Deu trabalho para tirar o poeta de lá. Luiz e Tinho foram quem me salvaram.

No tempo em que trabalhei com Daniela Mercury estive muitas vezes com ele, quando desfrutei da oportunidade e o privilégio de conversarmos bastante sobre poesia e arte em geral. Foi Waly quem me deu a verdadeira dimensão da grandeza da obra de Hélio Oiticica num livro soberbo que escreveu sobre o artista e que me mostrou pessoalmente. Foi também Waly quem me ensinou definitivamente (e em conjunto com Cláudius Portugal), que a poesia tem de ter jogo de cintura e roçar em tudo, sem pudores, feito uma puta sedenta na suruba.

Tenho alguns livros do poeta ofertados pelo próprio e, dentre o seu acervo, caso ele não tenha (ou não tenham) jogado fora, lá devem encontrar meu primeiro livrinho que lhe enviei ao Rio, já que não pôde vir ao lançamento. E, por falar em lançamento…

WALY SALOMÃO – Foto: ZENILTON MEIRA | Agência A Tarde 5.5.03

WALY SALOMÃO – Foto: ZENILTON MEIRA | Agência A Tarde 5.5.03

Corria o ano de 95 ou 96, sei lá, e nós, eu Jorginho Sampaio e o radialista Manolo Pousada, depois de termos saído de Daniela Mercury, estávamos de vento em popa com a Perto da Selva – produtora que teve uma importância fundamental em nossas vidas e na produção musical do Brasil. Em ambos os casos, para o bem e para o mal.

Quando aconteceu o episódio a PS nadava em prestígio e em grana e, por isso mesmo, estávamos patrocinando o poeta para que fizesse o lançamento de um de seus livros em Salvador. Toda a logística (passagem, hotel, buffet e tudo mais) era por nossa conta e responsabilidade. Apesar de ser um projeto caro porque o poeta só gostava do bom e do melhor já que devolvia no mesmo nível com sua arte, eu – um canguinha inveterado na administração da grana da empresa, ainda que não da minha – fazia a gastança com muito orgulho por estar podendo participar de forma tão íntima daquele momento de um dos meus ídolos na arte.

Só que Waly também tinha outras facetas: era uma pessoa extremamente temperamental e, apesar de ter um coração doce, construía as coisas a partir daquela postura de iconoclasta compulsivo que, explodindo tudo à sua volta, ia moldando mosaicos definitivos de arte e vida que sobreviveram a ele – suas grandes contribuições.

Bem, lá pras tantas, na manhã do dia do lançamento, Waly me ligou. Tinha entrado num parafuso emocional e cismou, sabe lá Deus porque, que não ia mais lançar livro nenhum. Eu quase que enlouqueço, pois aquela coisa toda tinha me dado um trabalhão imenso e já havia meia Bahia com o seu na reta, comprometida com a história – inclusive a Fundação Casa Jorge Amado, articulada por ele próprio. Supliquei, implorei, disse que faria qualquer coisa pra que mudasse de ideia, inclusive ir até o hotel conversar pessoalmente pra ver se o acalmava, mas nada. O poeta não descia do salto alto e permanecia dando o seu piti inexplicável sem querer saber da minha agonia.

Nesse ponto devo acrescentar que Waly era mestre em enlouquecer alguém quando queria e conseguiu me levar às raias da loucura. Até que, depois de muito tempo nesse lenga-lenga e cada vez mais se aproximando a Hora H de montar o gran circo do lançamento do livro, eu também explodi.

Waly, quer saber de uma coisa, vá se foder você, livro, lançamento e o caralho que aparecer na minha frente. Não faço mais porra nenhuma – e desliguei sem esperar resposta.

Espumando de raiva liguei imediatamente para a Fundação Casa de Jorge Amado cancelando tudo, o que – de pronto – enfartou uma dúzia de gente por lá.

Quem resolveu a situação entre os dois birrentos foi Sidnei, aquele colega de trabalho, que acalmou os ânimos de todos e pôs a bagunça no lugar. Não fui à festa, que depois soube maravilhosa, mas o que rimos depois – eu e Waly – relembrando esse episódio compensou todas as dificuldades pelas quais passamos. Pena que não houve mais um outro quebra-pau daquele, teríamos dado boas gargalhadas novamente, ele adorava esses barracos.

 

* Edmundo Carôso é poeta e escritor

SALVADOR, MAIS DE CEM ANOS DE SOLIDÃO

29/03/2009

Hoje, 29 de março, aniversário de Salvador, cidade que há 22 anos abriga este migrante, paulistano de nascimento, invoco palavras de dois expoentes baianos da minha geração: Antonio Risério e Waly Salomão, dois dos principais responsáveis (ou culpados?) por esta minha diáspora.

De Risério cito textos que dão pistas para penetrarmos nos mistérios da Cidade da Bahia, de um ponto de vista ao mesmo tempo historiográfico, antropológico e poético. Resumo o que apreendi em mais de 30 anos de conversas com Risério e leitura de seus livros: a maneira original de ser dos baianos foi cultivada durante mais de cem anos de solidão, depois que a capital do Brasil Colônia foi transferida para o Rio de Janeiro e coincidindo com o período em que o Recôncavo Baiano foi inundado por escravos africanos de etnia iorubana, que puderam conservar e recriar sua cultura. Daí surgiu uma miscigenação luso-africana-indígena sem igual, formando um patrimônio de civilização precioso para o Brasil e toda a humanidade.

De Waly (jamais escrevam Waly com dupla letra ele; Waly ficava fera quando via seu nome escrito errado: “Waly vem do árabe Walid!”, berrava, voz de trovão, entortando a bocarra, olhos faiscantes), lembro poema sobre a cidade em que ele incorporou à sua maneira o Boca do Inferno Gregório de Mattos. Waly dizia que a Cidade da Bahia tinha de se decidir entre dois caminhos: ou se deixar levar por onde a estão levando, tornar-se um mero balneário de luxo, ou se assumir como civilização original mestiça capaz de dar um novo norte ao mundo.

Comecemos com Risério.

CAMINHO DA SOLIDÃO

(subtítulo do capítulo  “À Margem da Margem”, do livro “Uma Histórida da Cidade da Bahia” – Versal Editores, 2004 –, do qual cito trecho inicial)

(…) a Cidade da Bahia sofreu um golpe rude no século XVIII. Viu escapar de suas mãos, para o Rio de Janeiro, a condição de núcleo central da vida no Brasil Colônia. Mas esse deslocamento da Cidade da Bahia, projetada desde então para fora do centro brasileiro de decisões – políticas e econômicas – foi se consumar apenas nos últimos anos daquele século.

(pulo para outro trecho desse capítulo, sob o título “Jejes e nagôs”)

(…) Houve uma alteração fundamental na composição do contingente negro de nossa população, a partir do século XVIII. Até então, o tráfico baiano de escravos fora feito sobretudo com a África subequatorial. Com as regiões de Angola e do Congo. (…) Com a chegada do século XVIII, todavia, o tráfico foi mudando de rumo. Voltou-se em direção à África superequatorial, para a região da Costa da Mina, deslizando posteriormente para a baía do Benim. (…) Foi este o período (1770 a 1851) da travessia atlântica massiva e compulsória de negros nagôs, jejes (iorubanos) e, em menor escala, haussás.

(salto, agora, para outro livro de Risério, “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” – editora 34, 2007 –, capítulo “Presença de Exu”, transcrevendo os dois primeiros dos quatro aspectos sublinhados sobre a presença dos iorubás na Cidade da Bahia)

(…) Estudiosos sublinham quatro aspectos, sempre que lidam com a presença iorubana na Bahia. Em primeiro lugar, salientando que, entre os séculos XVIII e XIX, a cultura iorubana estava em sua “época mais florescente” – e, por força do comércio escravista, vieram dar no Brasil, naquele período, representantes de sua nobreza e alto clero, a exemplo de Otampê Ojarô, da família real de Ketu, que foi sequestrada pelos daomeanos e veio a fundar na Bahia, mais tarde, um terreiro de candomblé, o Alaketu. Em segundo lugar, os nagôs não só chegaram em grupos constantes e sucessivos, como permaneceram compactados. Não experimentaram um dos piores rigores do pragmatismo escravista, ditado por motivo de segurança senhorial, que foi a política de pulverização das etnias. Os donos de escravos faziam com que estes fossem agrupados, nas cidades e nos campos brasileiros, de modo que não se entendessem entre si. Que, no mesmo barracão ou senzala, falassem línguas diversas, tivessem crenças distintas, projetos políticos dessemelhantes e códigos amorosos e familiares descoincidentes. Desse modo, seria mais difícil que tramassem fugas, assassinatos, quilombos e motins. Esta política senhorial vinha, há tempos, regendo o modo como os senhores distribuíam os escravos em suas propriedades. Mas não foi aplicada no caso dos nagôs. Eles permaneceram contactados – e souberam tirar proveito disso.

(e encerro as citações de Antonio Risério, com trecho de seu livro “Caymmi: Uma Utopia de Lugar” – Editora Perspectiva, 1993)

(…) Quando Caymmi desembarcou no Rio de Janeiro, pouco antes de completar os seus 23 anos de idade, com ele desembarcou um outro Brasil. Nem mais verdadeiro, nem mais falso – um outro. É preciso não perder de vista este constraste, se queremos, como sinalizei, apurar sentidos da presença estética caymmiana no terreiro da cultura brasileira. Projetando-se nacionalmente entre a Revolução de 30 e o “desenvolvimentismo” juscelinista, Caymmi levava consigo a cultura litorânea de uma cidade tradicional, principal agrupamento urbano do Recôncavo agrário e mercantil da Bahia. Uma cultura de traços próprios que se formara ao longo de mais de cem anos de solidão, no entrecruzamento constante de elementos, formas e práticas culturais de extração essencialmente luso-africana. E da qual Caymmi seria expressão estética concentrada.

(olhemos agora para a Cidade da Bahia, com amor e sarcasmo, através do verbo de Waly Salomão, em poema-crônica do livro “Armarinho de Miudezas” – Fundação Casa de Jorge Amado, 1993)

N. SENHORA DO DENDÊ E O “VIL MONTURO”

Tudo aperto e nada abarco, cheio de razão ardente, descarregado de mim ando no mundo. E este ar impregnado de dendê, de dendê, me faz gestar uma ideia maluca de uma Nossa Senhora d0 Dendê, dourada mulata que nem acarajé.

Tento recitar de cor o poema do jesuíta Hopkins “the blessed virgin compared to the air We breathe” mas não consigo.

Então principio a inventar uma Nossa Senhora do Dendê, dourada muqueca pairando sobre um pedestal de nuvens de El Greco.

Daqui deste “Vil Monturo”, epíteto exato dado por Gregório de Mattos, que usa em vão o santo nome do Salvador e pois suja a túnica inconsútil Dele; compadecei-vos de nós, oh! Senhora, de nossa tibieza, da moleza de nossa língua sem osso, da pobreza de nossos táxis sem pára-brisas – carcaças carcomidas pelo ferrugem das maresias –, das nossas secretárias que não transmitem recados e sofrem do mal geral de “me esqueci”, da nossa inaptidão total para romper o atraso, nós os impontuais por natureza e pois atrasados e atrasados e atolados na mais absoluta indigência, indigência maior do que o palude em que se afundou “the house of Usher”, e se duvidar que a nossa cárie é sem remédio descei a Ladeira da Palma e chegai até o Gravatá, até defronte o Corpo de Bombeiros e olhai aquele prédio com azulejo que era tão lusitano e belo e hoje não passa de uma postema cariada e sem obturação possível, nós os infestados de impaludismo alma a dentro, oh! Nossa Senhora do Dendê, compadecei-vos dos nossos garçons e garçonetes, risonhas bananas moles, afora os que por sorte cursaram o restaurante do Senac e que são tão peritos e bons e que depois desempregados sem solução porque o homem que manda no Turismo não olha para aqui em baixo e não vê passar a um palmo de seu nariz arrebitado de “status seeker” um Joel, uma Lucimar, um Otaviano qualquer, recém despejado do curso do restaurante Senac pois uma nova turma recrutada por Madre Tereza de Calicut já arrombou o ferrolho ou a taramela da pesada porta, oh! Nossa Senhora do Dendê, rogai, rogai, rogai por nós que recorremos a Vós.

Oh! Virgem abençoada comparada ao ar que respiramos! Vós que não fostes sequer imaginada pelo celestial pintor Fra Angélico que admiro e amo tanto e que neste “vil monturo” se conta nos dedos das duas mãos quem já ouviu falar, e cabe nos cinco dedos de uma só mão quem viu alguma tela dele.

Aqui campeia a mentira deslavada a que eles dão o nome de culhuda, de étimo indeterminado diria qualquer dicionário etimológico que fizesse o registro do termo. E os motoristas são os mais grosseiros e os pedestres os mais folgados do planeta, ambos campônios simplórios ilhados fazendo do trânsito um fliperama letal.

Emputecido estou, oh!! doce mãe do pão doce e do enjoativo cafezinho com três dedos de açúcar no fundo do copo, eu bem que tento mas caber não caibo na moldura deste quadro, não me enquadro por entre os caibros desta casa, gitano sou e madastra esta cidade onde reinais visível ao meu olfato e invisível aos vossos inconscientes adoradores, sois um bezerro de ouro fervente em cima dos fogareiros de latão batido.

Um olho agudo aguçado me diz que nem todos os santos e santas, que não há salvador que salve este armengue da sua paulatina ou desbragada corrosão. Não pressinto remissão possível, oh! sagrada senhora, para esta cidade-presépio da colina.

Rogai por nós, oh! Amarelo-gema de ovo do dendê.

Que tudo abarco e nada aperto.

Eia pois, advogada nossa! Salve Dona que se adonou do cocô da caganeira! Salve Rainha, Regina Coeli do torpor! Salve Soberana do empata-foda, da futrica, do fuxico, da fofoca e do banzo!