Posts Tagged ‘Vivaldo da Costa Lima’

CANDOMBLÉ E MODERNIDADE

02/05/2010

.

texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JÚNIOR*

.

O tema candomblé e modernidade reabre a discussão em torno de algo de vital importância para a manutenção das religiões de matriz africana no Brasil: a tradição. Conceito erroneamente entendido como algo que “resiste ao tempo” e às mudanças. Já houve autores que nos anos 50 consideraram estas religiões como uma espécie de “ilhas” e desse isolamento dependia a sua sobrevivência.

Fato é que nas comunidades terreiros, o tema da modernidade embora não apareça de forma sistematizada está presente o tempo todo e é empregado utilizado em vários significados.

Para alguns tios e tias, a afirmação “hoje o candomblé está moderno” de um lado soa como crítica aos mais “novos”, que ignorando o aspecto secreto e iniciático destas religiões criam seus próprios modelos rituais, ignorando o tempo, mestre por excelência destas religiões onde nunca cessa o aprendizado. Por outro lado, esta fala também significa não apenas as mudanças pelas quais estas religiões passaram, mas também os “novos tempos”, quando não se é mais preciso passar, por exemplo, pelo constrangimento na Delegacia de Jogos e Costumes para se tirar uma licença para bater candomblé. Ou ainda pode significar a visibilidade que estas religiões alcançaram na mídia, resguardadas as críticas à mesma, que teima em lhes apresentarem como algo exótico.

Fato é que desde cedo africanos e africanas e seus descendentes expostos à escravidão, ao se depararem com universos simbólicos diversos ao invés de fecharem-se foram capazes de abrir uma série de diálogos, pois sabiam que disso dependia a manutenção de suas religiões tradicionais. O resultado foi a construção de modelos ritualísticos acertadamente chamados pelo Professor Doutor Vivaldo da Costa Lima de “nações de candomblé”, espécie de modelos onde questões étnicas reforçadas como motivo de separação dentre os diversos grupos africanos aqui entrados foram prescindidas por questões ritualísticas sem perder suas referências, ao contrário, no processo de constituição das religiões afro-brasileiras, elementos congo, angola, jeje, malês e nagôs se ajudaram mutuamente.

O resultado foi a construção de uma religião que se na maioria das vezes abriu mão da organização clânica, não abdicou, por exemplo, do conceito de família para manter-se viva no Novo Mundo. Assim estes homens e mulheres foram capazes de preservar rituais de iniciação, o espaço mato de vital importância para os terreiros, rios, uma língua ritual, cantigas, palavras de encantamento, uma culinária ritual, dentre outros elementos.

O que falar do diálogo estabelecido com o catolicismo português vindo da península ibérica já enriquecido pelos vários contatos ali realizados? Isso vale também para a série de diálogos realizados com os povos indígenas, sem falar nos judeus e ciganos. Assim, aos poucos a velha teoria da dissimulação, onde os santos católicos ganhavam máscaras africanas, foi substituída pela imagem de um catolicismo negro e ao mesmo tempo de uma religião onde estes mesmos santos são cultuados ao lado dos orixás, vodus e inkices, fato este que, contrariando o discurso anti-sincretista não torna estas religiões menos tradicionais, mas ilustra a capacidade que reis, príncipes, princesas, rainhas, sacerdotes e sacerdotisas tiveram de exercer a sua liberdade dentro dos limites possíveis.

Isso nos ajuda a pensar a tradição como algo aberto ao tempo e contemporâneo à modernidade. É essa abertura que faz das comunidades terreiros espaços de diálogo e da tradição mantida pelos mais velhos, algo dinâmico que resiste até às previsões que apostam no desaparecimento dessas religiões ante os modismos e tendências que não param de surgir.

Ante a redução do tempo nas grandes cidades, um Sagrado religião que demanda tempo para ser cultuado continua presente, reinventando-se e inventando-se a todo momento, não por ter perdido algo, nem por medo de afastar-se de seus princípios mantenedores de identidade, mas por entender que a melhor forma de estar no mundo é inserindo-se nele como sempre fez desde o início, sendo capaz de construir algo contemporâneo e dar respostas a questões humanas através de uma leitura sagrada, cumprindo, assim, uma de suas maiores funções: estreitar os laços entre a humanidade e o divino.

.

*Vilson Caetano de Sousa Júnior – Antropólogo, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e pós doutor em Antropologia pela Unesp

.

A MORTE E O MISTÉRIO DA VIDA

02/11/2009

por VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

Se é verdade que não há um acordo sobre o mistério da vida, é digno de nota que o sentido da morte sempre foi motivo de preocupação para as civilizações antigas, basta olharmos para o Egito ou para os maias, incas e astecas.

Para os povos africanos, a morte não tem o sentido cristão de castigo, nem aniquilamento, ao contrário, segundo um provérbio, “não se vive para morrer, mas se morre para viver”.

Dentre os iorubás, um mito bastante conhecido nos ajuda a entender esta realidade. No início do mundo, quando Oxalá procurava algo para fazer os seres vivos, o único que serviu foi uma mistura de água e terra trazida por Iku, um príncipe cego.

Assim, a experiência da morte seria o retorno para as nossas origens, o mundo ancestral, aquele que os nossos olhos não veem, salvo em ocasiões especiais, quando os antepassados se apresentam sob tiras de panos, como na sociedade secreta de Egungum.

No final do mês de setembro, início da primavera, as religiões de matriz africana experimentaram a passagem para o mundo dos antepassados de duas grandes sacerdotisas, Mãe Hilda Jitolu e Mãe Regina Bangboxé – no dia 25 de setembro, após sessenta anos de residência na Baixada Fluminense.

PRIMÓRDIOS DO CANDOMBLÉ

Para entendermos o significado desta última, temos que nos remontar ao momento de constituição das religiões de matriz africana reorganizadas no Brasil, a partir de elementos iorubás, aqui designados nagô ou ketu.

Antes dos meados do século XIX, momento de entrada maciça de africanos vindos de reinos como Ketu, Oyo, Ibadan, Ilorim, Igexá e outros, chega ao Brasil Rodolfo Martins Andrade, “nome de branco”, que certamente herdou de seu antigo senhor como era o costume.

É o período de muitas idas e vindas de africanos e africanas da Costa da África para o Brasil, especialmente a cidade de Salvador, onde faziam negócios mas também de constituição dos primeiros cultos aqui organizados, posteriormente denominados candomblé.

Africano, Rodolfo Martins Andrade, era reconhecido pela comunidade que começava a se formar pelo título de Bangboxê Obitikô.

Se é certa a ideia trazida pelo professor Vivaldo da Costa Lima de que Yanassô era em Oyó, centro político do “povo ioruba”, alguém que cuidava do culto ao rei, é verdade também que Bangboxê Obitikô foi figura central no momento de organização do culto a Xangô, ainda na Igreja da Barroquinha, posteriormente disseminado para outras partes da cidade, mas sobretudo para o candomblé do Engenho Velho, hoje conhecido como Casa Branca.

Se Yanassô tinha a função de zelar o culto ao Rei, Bangboxê Obitikô trazia o segredo das dinastias dos reinos de Oyó, reconstruídos após inúmeras invasões, representado pelo oxê, machado de duas lâminas, símbolo real por excelência.

TIO BANGBOXÊ

No Brasil, o Tio Bangboxê como é invocado nos terreiros, constituiu longa descendência, seja através de suas viagens ao Recife, Rio de Janeiro, Porto Alegre, seja pela família consanguínea que formou.

Foi o Tio Bangboxê, por exemplo, quem ajudou a iniciar Eugênia Anna dos Santos, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das crioulas mais importantes no mundo afro-brasileiro na década de trinta.

Com Mãe Aninha, o rei teria nascido, pois Xangô já havia chegado na sua filha consanguínea Júlia Maria Andrade que com a morte de seu pai, tomou para si a função de guardar os segredos de Xangô. Isso é lembrado numa cantiga que diz: awo oxê mi agué miro, “o segredo do oxê esta conosco”, que logo depois é substituído pela palavra Bangboxê mi. O tio Bangboxê era o próprio segredo de Xangô.

Tia Júlia foi mãe de Felisberto Américo Sowzer, chamado carinhosamente de Benzinho. Tio Benzinho era homem de negócios, falava inglês e vivia a sua religião com muita discrição. Como seu avô, fez viagem por todo o Brasil, mas como lembra a sua única filha viva: “Papai nunca viveu de candomblé”.

MÃE CAETANA

Ao contrário do mal entendido causado por Pierre Verger ao afirmar que Felisberto Sowzer rivalizava com Martiniano Eliseu do Bonfim, chama a atenção Tia Irene com 89 anos: “Eles eram muito amigos.” Até porque o primeiro era babalawô e o segundo oluwó, olhava nos búzios como se diz hoje. De Tio Benzinho nasceram Tertuliana Souza de Jesus, Caetana América Sowzer, Crispim, Regina Taurino e Irene que continua comandando o terreiro de Tia Júlia no Matatu de Brotas.

PAI AIR

Tertuliana Souza de Jesus era descontraída e animada, foi mãe biológica de Air José Sousa de Jesus, que em 1963 fundou o Terreiro Pilão de Prata com a ajuda de sua tia consanguínea Mãe Caetana, que lhe iniciou ainda criança, conforme tradição da família. Mãe Caetana era uma mulher de “muitas prendas”, adorava crianças, mas amava música, tocava violino.

Pai Air desde cedo tomou a responsabilidade de reunir os elementos trazidos pelo Tio Bangboxê dando continuidade à tradição de sua família. Em 1993, após a morte de Mãe Caetana – que fundou uma casa chamada Lajuomi em 1941 – ela foi sucedida pela sua sobrinha Haidê Paim, carinhosamente chamada de Mãe Dede.

Tia Regina faleceu aos 98 anos de idade com mais de noventa anos de iniciação. Era filha de Yemanjá, e, muito serena, há menos de um ano e meio resumiu o que estamos falando. Num documentário sobre os 14 anos de falecimento de Mãe Caetana, ela disse: “Aqui estou até o dia em que Olorum quiser. Uma certeza eu tenho: um dia eu vou me encontrar com ela no outro lado.”

PRINCÍPIO DA ANCESTRALIDADE

Este é o princípio da ancestralidade. Afinal, como temos lembrado, os que nascem são sempre vivos, como relembra uma das músicas cantadas na ocasião da morte: “Os iniciados no mistério não morrem, os iniciados no mistério não desaparecem, os iniciados no mistério retornam para a casa do mistério, a casa do renascimento.”

Durantes estes dias, branco é a cor obrigatória pois ela cega a morte, assim fez Oxalá após saber que Iku marchava em direção ao povo de efan após ter “levado” consigo muitas cidades. Oxalá pegou a galinha da angola e a encheu de pontinhos brancos, assim a morte se assustou e deixou o povo em paz.

Durante os próximos dias, comida, dança e bebida celebram não a morte, mas a vida. Afinal, “mais triste do que partir sem ter gozado a vida, é no momento de deixar a vida não ter nenhum motivo para ficar triste”.

Por isso choramos, não pela morte que nos traz a certeza da continuidade, mas pela saudade. Nossos antepassados estão sempre conosco, são os nossos olhos que nos separam deles.

Tia Regina como tantos outros permanecerá conosco, ora na família de sangue que construiu, ora na família de santo que formou.

Mas como contar esta filosofia para as crianças, por exemplo? Basta dizer que nossos pais e nossas mães transformaram-se em estrelas, afinal não somos modelados com a mesma matéria dos astros. Agora o céu está mais brilhante. Ou simplesmente podemos resumir o sentido da vida lembrando a cantiga que diz: “O médico que nos cura morre, o palhaço que nos diverte morre, bobo a umló, todos nós morremos.”

*Vilson Caetano de Sousa Junior – Doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da UFBa, filho do Terreiro Pilão de Prata

COSME E DAMIÃO: OUTROS CÓDIGOS

24/09/2009
Cintia Carina Santana Neves, comerciante na Feira de São Joaquim, em Salvador, nasceu em setembro e tem três filhos nascidos em setembro. Ela fez promessa para Cosme e Damião, ou Ibeji, os santos gêmeos que na Bahia são homenageados com um Caruru no dia 27 de setembro. Foto: XANDO PEREIRA | Agência A Tarde 25.9.2008

Cintia Carina Santana Neves, comerciante na Feira de São Joaquim, em Salvador, nasceu em setembro e tem três filhos nascidos em setembro. Ela fez promessa para Cosme e Damião, ou Ibeji, os santos gêmeos que na Bahia são homenageados com um Caruru no dia 27 de setembro. Foto: XANDO PEREIRA | Agência A Tarde 25.9.2008

OS GÊMEOS E A INVERSÃO DA MESA

 

VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

 

Para compreendermos o culto a Ibeji é preciso entender a importância do nascimento e da morte para os grupos africanos chegados ao Novo Mundo, particularmente ao Brasil. Ancestral de culto cercado de silêncios e mistérios, está presente em todos os padrões rituais reorganizados no Brasil chamados de nação. Tobossi para algumas tradições jeje, Mabaço para os angola-congo, Ibeji para a tradição ketu, ao menos aquelas presentes na cidade de Salvador, ou simplesmente “dois dois”, “os meninos”, como são chamados carinhosamente pela maioria das pessoas.

O culto a tal ancestral nos terreiros de candomblé aparece ligado às crianças, na nação angola-congo, chamadas de Nvunji e nas de tradição iorubá, erê. Todavia, o culto a “dois dois” ou ainda aos meninos não pode ser confundido ou restrito a estas.

No continente africano, o nascimento como a morte reveste-se de particularidade, pois remete a um dos conceitos mais importante de sua filosofia: a ancestralidade. Em linhas gerais, a ideia é de que somos um deslocamento de matérias ancestrais, ou seja: cada criança que nasce é um Baba Tundê, um antepassado que retornou para a comunidade; não no sentido de uma reencarnação cíclica, mas como uma semente que carrega as informações da nova planta.

Observando a natureza, africanos e africanas elaboraram por primeiro esta noção que mais tarde vai aparecer com o nome de genética. Neste sentido, não a criança, mas o nascimento e o duplo é algo particular. Há grupos vizinhos aos iorubás onde não nascem gêmeos. Ou seja, apenas uma criança fica no mundo. Não vamos entrar aqui nesta discussão, pois também temos outras formas de descartar nossos recém nascidos.

Fato é que Ibeji, ou o Mabaço possui enorme significado para os grupos, os quais nos referimos anteriormente. Tal ideia chega ao Brasil com os africanos e africanas e aqui se populariza a ponto de interferir na própria representação de santos católicos como Cosme e Damião, sem esquecer de Crispim e Crispiniano.

Eji na língua iorubá significa dois e bi é o verbo nascer. Desta maneira a própria formação do nome explica o seu sentido. Ibeji é nascer ou o nascimento de dois.

Certamente os mabaços sempre foram invocados, ora para proteger as famílias africanas fragmentadas e escravizadas, ou mesmo para garantir às crianças a Lei do Ventre Livre, por exemplo, uma das mais difíceis de ser concretizadas pois não libertava a sua mãe.

O nascimento dos gêmeos é tão importante que estabelece uma ordem na família. Assim, o terceiro filho para os iorubás é chamado Doun, “o terceiro”, ou aquele que veio após os gêmeos.

As mulheres africanas em linhas gerais eram muito férteis. Assim tanto a mortalidade infantil quanto a mortalidade da mãe eram vistas como algo particular e recebiam tratamento especial. Certo é que o momento de dar a luz era visto como algo cercado de cuidado. Isso também valia para os primeiros dias do recém nascido, que em algumas culturas só era apresentado à comunidade após o 17º dia, quando esta ouvia atentamente o seu nome. Nome que lhe acompanharia durante toda uma vida que não tem fim. Afinal, “os que nascem nunca morrem”. A perda de uma criança vai ser assim resignificada pela comunidade que luta o tempo todo para superar a morte, como ainda hoje a humanidade através das religiões.

Acredita-se, por exemplo, que quando uma mulher perde uma criança no parto ou quando esta morre ainda jovem, ou mesmo a sua mãe no momento em que está dando a luz, trata-se de uma criança concebida para passar pouco tempo na Terra, ou que está “brincando” com a sua mãe, “vindo e retornando”, são os chamados pelos iorubás abiku. Mais uma vez, temos o verbo nascer e iku, a morte. São os nascidos para morrer.

Este termo ganhou outra concepção no Brasil: para alguns, trata-se de pessoas que não precisam passar pelo processo de iniciação estabelecido por cada tradição religiosa. Todavia, abiku são também crianças que no momento do parto, experimentam de perto a morte, a exemplo daquelas que nascem com o cordão umbilical enrolado ora no pescoço ou em todo o corpo. Estas ao nascer recebem nomes especiais e são submetidos a ritos específicos para continuarem no mundo.

Sem falar que o cordão umbilical sempre recebeu tratamento especial para os africanos e africanas. Pena que a ciência oficial só tenha reconhecido tal importância na contemporaneidade, mas foram os nossos antepassados os primeiros a dizer que ele é uma espécie de síntese da vida da pessoa.

Assim, Ibeji liga-se diretamente aos nascidos para morrer, sobre os quais pouco se fala no universo afro-brasileiro, justificando de certa maneira a confusão entre estes e as crianças.

Cena da "inversão da mesa" – como define o antropólogo Vilson Caetano de Sousa Junior neste artigo – durante Caruru no Instituto Mauá, no Pelourinho. Foto: MANU DIAS | Agência A Tarde 27.9.2001
Cena da “inversão da mesa” – como define o antropólogo Vilson Caetano de Sousa Junior neste artigo – durante Caruru no Instituto Mauá, no Pelourinho. Foto: MANU DIAS | Agência A Tarde 27.9.2001

O culto aos gêmeos está ligado à ideia de continuidade e descendência, como o quiabo, comido pelos faraós do Egito. Assim como a cebola, representava o mundo representado nas camadas que a compõem, o quiabo estava ligado à continuidade. Podemos fazer esta experiência, colocando numa vasilha com água sementes de quiabo. Com um tempo, elas vão se juntando, formando a teia ou o futu, tão lembrado pela Makota Valdina, uma espécie de pacote que Nganga Zambi fez no início do mundo, onde colocou tudo.

Agora entende-se por que uma das iguarias mais apreciadas pelos gêmeos seja o chamado caruru. Na verdade os gêmeos comem de tudo. Comem tudo o que a boca come, como os ancestrais da terra. Isso exemplifica a antiguidade de seu culto.

Embora apareçam ligados à morte, os gêmeos são filhos do orixá Oxum. Pois vida e morte andam juntas. Oxum foi aquele ancestral nagô que, segundo um de seus mitos, no momento em que Deus distribuiu os poderes aos orixás, através de uma chuva, enquanto alguns se esforçavam para pegar o ferro, a terra e outros elementos, ela agarrou com as duas mãos o ovo, chamado de eyn. A partir daí ela passou a garantir a permanência de tudo que é sistema.

Oxum regula assim o ciclo menstrual, mas também o ciclo da terra que garante os frutos. Tempos atrás, este fato era relembrado em dezembro, quando se ofereciam as chamadas frutas do ano. Era uma festa. Oxum também cuida do intestino e de tudo que é “de dentro”. Assim, ela garante os gêmeos e todas as crianças.

Um trabalho sobre o significado destes ainda está para ser realizado, embora o Professor Vivaldo da Costa Lima já nos tenha presenteado com um texto sobre os meninos. Talvez isso seja explicado pelas dimensões tomadas pelo culto. O culto aos mabaços extrapola as religiões de matriz africana. Eles estão em todos os oratórios católicos de famílias que tiveram gêmeos.

Aos meninos é oferecida uma mesa, que neste dia é “arrumada no chão”, à maneira africana. Neste dia são as crianças que comem primeiro e têm o consentimento até de brindarem a saúde de todos com vinho.

Algumas vezes, as sete crianças recebem pratos individuais. Em outras, a comida é colocada numa grande gamela e todos comem e têm o direito de se “lambuzarem”. Todos comem com as mãos. Há casos em que as mãos das crianças são limpas na saia da dona da casa.

É a inversão da mesa, onde os rígidos códigos ocidentais como: não conversar, “comportar-se”, usar talheres, comer com a boca fechada são suspensos a fim de garantir a alegria, e a vida através da continuidade da comunidade. Viva as crianças.

*Vilson Caetano de Sousa Junior é doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia e filho do terreiro Pilão de Prata, em Salvador