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ENTREVISTA COM ROBERTO MENDES

19/10/2009
ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

NÃO NEGOCIO OS MEUS COSTUMES”

 

por CLARISSA BORGES*

 

O músico, compositor e pesquisador Roberto Mendes é um divulgador da cultura de Santo Amaro da Purificação, município do Recôncavo Baiano. Mais do que isso, personifica os valores e tradições do lugar como alguém que se funde com a própria terra. Essa fusão se traduz na busca da preservação e disseminação da chula em todas as suas vertentes, sua principal contribuição à música brasileira.

Admirado e gravado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, tem em Maria Bethânia sua maior incentivadora e a quem confere o título de “estímulo da minha canção”.

Mas o artista prefere atribuir créditos pelo seu sucesso a chuleiros de Santo Amaro, como Zé do Boi, que lhe garantiram “respaldo para brilhar”. A cultura de sua terra também forneceu material para escrever, com Waldomiro Júnior, o livro Chula – Comportamento Traduzido em Canção.

O apego às raízes não impede, entretanto, que Roberto Mendes busque sonoridades diferentes daquelas originadas no Recôncavo. No disco mais recente, Cidade e Rio, convidou Guinga, Alcione, Lenine, Mário Ulloa, Marco Pereira e Pedro Luiz, sem dispensar a presença de seu parceiro mais constante, Jorge Portugal.

Em entrevista concedida à série Memória da Bahia (publicada aos domingos pelo jornal A Tarde e por A Tarde On Line), Roberto Mendes fala sobre matrizes culturais, sua identificação com a cantora e conterrânea Maria Bethânia e critica a postura do Estado em relação à cultura.

 

Sua identificação com Santo Amaro da Purificação é decisiva na sua música. Como foi a infância no município?

ROBERTO MENDES – Basicamente eu sou santo-amarense. Isso é o que me faz ser eu, o resto é consequência de morar na cidade, de nascer e debruçar na memória e viver 24 horas na memória. Não acredito em futuro, não vejo possibilidade de futuro existir na vida de ninguém. Eu penso o aqui e agora, respaldado na memória. A infância foi muito boa. Santo Amaro é uma cidade extremamente provinciana. O Recôncavo é privilegiado porque, quando houve a falência da monocultura de açúcar, até geograficamente, não teve a possibilidade da invasão da indústria moderna. Faliu a cana-de-açúcar, mas ficou a cultura viva. Poucas regiões do mundo têm essa unidade comportamental que tem o Recôncavo, por não ter essa invasão.

 

Quando a música entrou na sua vida?

RM – Em Santo Amaro, fazia parte do código de postura da cidade o canto orfeônico. Então fazer música em Santo Amaro nunca foi nada de absurdo. O primeiro disco gravado no Brasil, quem gravou? Um santamarense, baiano, nas Casas Edson, em 1902. Gravou uma canção de Xisto Bahia, um lundu, quem gravou foi Manuel Pedro dos Santos. O primeiro samba, que se supõe que foi gravado também, com este comportamento de samba, definido como samba, foi Pelo Telefone, gravado por Dunga, que era criado por Tia Amélia, prima das Ciatas, de Santo Amaro. Então Santo Amaro tem essa herança. A família que tinha dois filhos, um tinha que ser padre, o outro, músico. Na minha, todo mundo tocava.

 

Como era a presença da música na sua família?

RM – Minha irmã, que me criou, estudou música com a leitura mais acadêmica da canção. De certa forma, ela influenciou a mim e a César – meu irmão – a ter noção da razão musical. Mas, logo depois, eu me encontro com outro tipo de música, que é a música orgânica, onde não se exigia tanto do comportamento, e era uma música mais livre, como as chulas, o canto do maculelê, a barquinha, a burrinha, a marujada. Aí você vê exatamente a interferência da língua no canto.

 

Diferente de alguns conterrâneos, você não saiu de Santo Amaro. Por que ficar?

RM – Eu acho que eles saíram para eu poder ficar. Eu não sinto saudade, nunca senti a dor da saudade que eles sentem. No fundo, eu sempre achei perigosa a situação de sair da sua terra e ter que negociar os seus costumes para ter uma boa convivência na terra dos outros. Não gosto da terra dos outros, gosto da minha. Eu posso ir na terra dos outros para levar a minha, em visita, mas não tenho pretensão nenhuma de sair e viver negociando os meus costumes com os costumes alheios. Talvez seja isso que me faz até hoje estar lá.

 

As próximas gerações terão acesso às tradições que você tem preservado? O governo tem cumprido este papel?

RM – Não, o governo não tem interesse nenhum nisso. Primeiro que o governo é totalmente desinformado. O Ministério da Cultura não pode cuidar de arte, fomentando artista nem produto artístico, não tem cabimento. Por outro lado, não pode estar colocando dentro de um avião pessoas, as matrizes de seu País, e mandando fazer lavagem no inferno, sei lá, na França. Isso é uma mediocridade singular. É tornar aquilo que é regra exceção e torná-la folclórica. É incompetência, burrice do Estado, que não sabe nada de cultura. A cultura é para ser preservada, os costumes. O que é cultura, na realidade? Herança de costumes que definem o comportamento de um povo. Qual é o binômio de sustentação de um povo? A maneira de falar, que é o canto, e a culinária. Então isso é a obrigação do Estado.

 

Acredita, então, que a chula não será preservada?

RM – Nós temos a cultura de que o bom sempre está do outro lado do rio. E eu digo isso muito à vontade, porque me considero um grande artista porque consegui brilhar na minha terra, seduzi as minhas matrizes, fiz um dia com que o meu vizinho pedisse silêncio para me escutar. Eu me sinto bem, não porque o jornalista diz sobre mim, porque o jornalista não sabe nada, não é porque o crítico diz, porque o crítico sempre foi equivocado, não sabe nada. Quem me respalda a estar aqui dando entrevista hoje é dizer que eu sou amigo de João do Boi, de Zeca Afonso, chuleiros que me deram essa formação. Não sei se isso será preservado porque os meninos não terão essas matrizes mais, e o Estado cinicamente não preserva isso, ele tem vergonha de mostrar o Brasil real.

 

Maria Bethânia se refere a você como um artista fora do comum. Como surgiu essa relação com ela?

RM – Bethânia é a pessoa que me dá a voz, é o estímulo da minha composição. Eu era menino em Santo Amaro e já tinha Bethânia como uma grande força. Nós tínhamos Caetano, Gil, Bethânia, essa geração, como o grande sustentáculo do pensamento da indústria fonográfica brasileira. Mas Bethânia, mesmo morando no Rio, mesmo vivendo fora, tem uma coisa que me impressiona muito. Ela é provinciana. Ela está no Rio, mas Santo Amaro está dentro da casa dela. Eu não tenho nada contra quem está em outros lugares, querendo o mundo. Eu não tenho é a capacidade de entender isso. E eu entendo mais rápido Bethânia talvez porque Bethânia se permita a esse patamar de entender um provinciano.

 

*Clarissa Borges é repórter da Web TV A Tarde 

 Foto: Abmael Silva | Agência A Tarde  

Veja os vídeos desta entrevista através dos seguintes links:

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257660

 
http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257656

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257654

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257653

 

Agora, uma contribuição do YouTube para esta discussão: samba-chula gravado em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, com Milton Primo tocando a viola machete ao lado de Zé de Lelinha do Samba Chula Filhos da Pitangueira.

 

 

ZILDA PAIM – GENTE DA BAHIA

17/08/2009
PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

A MEMÓRIA DA MINHA CIDADE

 

por JORGE PORTUGAL

 

Guardamos todos, em nosso cine-memória, fortes e belas lembranças que nos surpreendem de vez em quando, se a vida ameaça enveredar pelos caminhos da aridez e do individualismo vulgar.

No exato momento em que estou escrevendo estas mal-traçadas, vem-me à mente um plano-sequência inteiro de uma cena de rua muito frequente na minha infância: uma senhora de cor branca, compleição física consistente, cabelo preso num coque, à frente de uma fila dupla de negros que percutiam pedaços de pau e cantavam refrões em uma língua até então estranha para mim. Por onde eles passavam, a cidade inteira corria para ver, extasiada e ao mesmo tempo respeitosa, pela autoridade humana que seu olhar transmitia.

Um dia meu pai me disse: é a professora Zilda Paim comandando o Maculelê de Popó que ela mantém vivo até hoje. Como se fosse uma senha para minha entrada em um “certo mundo”, dali em diante nunca mais deixei de escutar o nome daquela senhora, sempre ligado à história da cultura de minha cidade.

Se um grupo de estudantes do Teodoro Sampaio precisava de informações para fazer um trabalho sobre o 14 de Junho, procurava professora Zilda; se um mestrando em Antropologia necessitava de uma fonte de pesquisa confiável sobre o “Bembé do Mercado”, procurava professora Zilda; a denominação popular de uma rua no início do século, a quantidade de jornais que a cidade tivera, o nome completo do tenor que cantava a terceira jaculatória da novena em 1950, tudo que a cidade (e os de fora) queria saber… procurava professora Zilda.

E ao longo dessas décadas de respostas para todas as perguntas, ela foi colecionando periódicos, depoimentos, iconografia, documentos raros, receitas da culinária do Recôncavo, histórias do imaginário popular, enfim tudo aquilo que cabe na alma de um povo. E tudo isso ela sempre dividiu com generosidade e prazer.

Professora Zilda Paim completou 90 anos no último 3 de Agosto, com a memória cada vez mais viva.

Se eu estiver mal informado, tanto melhor, e já peço desculpas. Mas não me consta que a Câmara de Vereadores de Santo Amaro tenha-lhe prestado alguma homenagem em sessão especial, ela que deve ter sido a primeira mulher edil daquela casa; não chegou a mim nenhuma notícia de que o prefeito tenha decretado algum ato simbólico, algo assim como “o Ano Professora Zilda Paim”; não sei se a Academia de Letras ou a Casa do Samba lhe conferiram uma placa que fosse, em reconhecimento ao que ela fez pelas chamadas culturas erudita e popular.

Mas soube, sim, que os jovens artistas da cidade, liderados por esse canto de sensibilidade que é Eduardo Alves, fizeram uma belíssima serenata na porta de sua casa, à qual acorreu o povo simples e anônimo do lugar levando alegria e gratidão à mestra que guardou com carinho sua história.

Querido e Magnífico Reitor Paulo Gabriel Nacif: bem que a Professora Zilda Paim mais do que merece o título de “Doutora Honoris Causa” pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), não acha?

 

VIVA CAETANO VELOSO!!!

07/08/2009

Aproveito a data, dia do aniversário de Caetano Veloso, para desovar, digo postar dois textos que estavam para ser publicados no Jeito Baiano desde maio, mas que por uma conjunção dos astros – ou trama de orixás – só agora será possível. Os artigos de Marlon Marcos e Jorge Portugal foram motivados pela intervenção leonina de Caetano nos festejos deste ano do Bembé do Mercado, que acontecem todo 13 de Maio em Santo Amaro.

Caetano deu vivas à Princesa Isabel, atitude chocante para o Movimento Negro. Mas chamo a atenção para este trecho do texto de Jorge Portugal que é uma importante revelação e que antecipo aqui:

“(…) ouvi da boca de Dr. Samuel Vida, para mim o mais competente quadro do movimento negro na atualidade, que ‘já estava mais do que na hora de se repensar a rejeição ao 13 de Maio’, bandeira assumida pelo movimento nesses últimos 30 anos”. 

Festa do Bembé do Mercado. Foto: Prefeitura de Santo Amaro | Divulgação

Festa do Bembé do Mercado. Foto: Prefeitura de Santo Amaro 13.5.2009

 

CAETANO VELOSO

E NOVAS ASSERTIVAS

SOBRE O 13 DE MAIO

  

por MARLON MARCOS*

 

Em 7 de agosto de 1942, na cidade de Santo Amaro da Purificação, polo de efervescência cultural do Recôncavo Baiano, nasceu Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso, internacionalmente conhecido como Caetano Veloso, um dos mais representativos artistas do cancioneiro brasileiro. Divisor de águas no cenário cultural deste país, além de cantor (hoje o melhor do Brasil) e compositor, Caetano se destaca entre nós como um formulador de idéias provocativas e instigantes. Cria canções com a mesma habilidade que desfia leituras polêmicas sobre o “ser Brasil”, fazendo incursões em áreas especializadas do saber acadêmico e, às vezes, enfurecendo historiadores, antropólogos, sociólogos, linguistas, literatos e seus eternos “amores”, os jornalistas.

Foi no mês de maio do corrente ano, no dia em que se comemora a Abolição da escravatura, em Santo Amaro, que Caê tornou a irritar seus espectadores, desta vez, afirmando: “o 13 de maio é da Princesa Isabel e é burrice se negar a importância histórica da abolição”. Essa deixa inflamada ocorreu numa noite de reflexões sobre os 120 anos do Bembé do Mercado, festa religiosa do candomblé santo-amarense em comemoração ao fim da escravidão, que sempre tem sua culminância, no dia 13 , com a oferta de um grande presente à Senhora das águas salgadas, o orixá Iemanjá. O evento-seminário foi organizado pela Secretaria de Cultura daquele município, que tem como secretário Rodrigo Velloso, um dos irmãos do cantor, e contou com a participação de Zulu Araújo, presidente da Fundação Palmares, com a historiadora Profª. Ana Rita Araújo Machado, entre outros discursadores.

 

 

Durante a festa dos 120 anos do Bembé do Mercado, a historiadora Ana Rita Machado faz sua exposição em seminário de que participaram Rodrigo Velloso, Mabel Velloso, Zulu Araújo, o prefeito Ricardo Machado e Caetano, entre outros. Foto: Toinho Simões | Agência A Tarde 13.5.2009

Durante a festa dos 120 anos do Bembé do Mercado, a historiadora Ana Rita Machado faz sua exposição em seminário de que participaram Rodrigo Velloso, Mabel Velloso, Zulu Araújo, o prefeito Ricardo Machado e Caetano, entre outros. Foto: Toinho Simões | Agência A Tarde 13.5.2009

 

 

As falas de Ana Rita Machado e de Zulu Araújo foram na direção de se recuperar a memória popular, negra e religiosa do Bembé do Mercado e assim, minimizar a mitificação em torno do nome da Princesa Isabel, vista pelas historiografias oficiais como a redentora dos negros no Brasil, e negar o projeto abolicionista efetivado com a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, sem garantir cidadania e inclusão social aos negros tornados livres.

A partir destas falas, consideradas eloquentes e inteligentes por Caetano, que o nosso autor de Trilhos Urbanos despejou seu discurso eloquente e criticou os movimentos negros brasileiros, apontando-os como meras cópias da negritude “norte-americana”, falou em atraso, em um aprisionamento ideológico datado nos anos 70 e que para se prosperar é preciso se fazer uma leitura mais ampla da Abolição, um fenômeno histórico considerado pelo cantor, como instrumento vital de emancipação sociopolítica dos humanos negros no Brasil, e que se deve falar em 13 de maio como conquista sem negar a importância da princesa Isabel neste processo.

Em entrevista coletiva para divulgar em Salvador seu trabalho mais recente, Zii Zie, um dia após as polêmicas desferidas em sua cidade natal, o compositor afirmou que os impedimentos de avanços e inclusão dos negros neste Brasil se devem muito mais a limitações da República do que um possível descaso legal por parte da Monarquia naquele período: “Se os negros não avançaram a culpa foi da República”.

Na órbita das revisões históricas em torno da Abolição, quem se filia a muitas impressões de Caetano Veloso é o seu conterrâneo, o poeta Jorge Portugal. Portugal acha que ao superestimar o papel de Isabel no 13 de maio, Caetano se lança numa provocação, mas não deixa de apontar reflexões muito relevantes para que tenhamos uma compreensão mais nítida da importância desta data na história brasileira.

Jorge Portugal comenta também outras reflexões que são emblemáticas e estão em sintonia com Veloso, as de Cristovam Buarque que afirmou: “O dia 14 de maio já foi melhor que o dia 12”; e do lustre militante do movimento negro Samuel Vida, advogado e professor universitário, que também defende uma releitura do 13 de maio para destacar os avanços que esse evento ocasionou aos nossos ancestrais de origem africana.

Hoje, Caetano faz 67 anos de vida, mais de quarenta de carreira, e com certeza, quase todos de polêmica e muita vanguarda, haja vista, reza a lenda, que foi ele quem escolheu o nome Maria Bethânia para sua irmã recém-nascida, quando ele tinha 4 anos; criou polêmica em casa, e ganhando na sugestão, acertou em cheio ao ajudar na afirmação de um nome artístico, o de sua irmã, como uma das marcas mais importantes do canto feminino no mundo contemporâneo.

 

*Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

 

OFERENDA DOS PRESENTES - Cena da festa de tradição religiosa afro-brasileira. O BEMBÉ DO MERCADO é a festa popular que comemora a Abolição da escravatura, com apresentação de danças religiosas do Candomblé em louvor aos Orixás das Águas (Oxum e Iemanjá) em um caramanchão em frente ao Mercado Municipal de Santo Amaro. Há também exibições de maculelê, capoeira, afoxé e entrega do presente de Iemanjá. Tem grande significado para a afirmação da cidadania negra no Brasil. Foto: Joa Souza | Agência A Tarde 13.5.2007

OFERENDA DOS PRESENTES - Cena da festa de tradição religiosa afro-brasileira. O BEMBÉ DO MERCADO é a festa popular que comemora a Abolição da escravatura, com apresentação de danças religiosas do Candomblé em louvor aos Orixás das Águas (Oxum e Iemanjá) em um caramanchão em frente ao Mercado Municipal de Santo Amaro. Há também exibições de maculelê, capoeira, afoxé e entrega do presente de Iemanjá. Tem grande significado para a afirmação da cidadania negra no Brasil. Foto: Joa Souza | Agência A Tarde 13.5.2007

 

CAETÂNICOS ZUMBIS

 

por JORGE PORTUGAL

 

Um amigo santamarense que possui veleidades aristocráticas me disse – à beira das lágrimas emocionadas – do viva de Caetano à Princesa Isabel, no dia 13 de Maio, no Bembé do Mercado.

Certamente que um aguerrido militante como o professor Carlos Moore, ou mesmo Vilma Reis iriam à loucura ao ouvir uma coisa dessas. Eu, nem tanto. Aliás, lá mesmo em Santo Amaro, numa mesa de debates no sábado, ouvi da boca de Dr. Samuel Vida, para mim o mais competente quadro do movimento negro na atualidade, que “já estava mais do que na hora de se repensar a rejeição ao 13 de Maio”, bandeira assumida pelo movimento nesses últimos 30 anos.

Óbvio que enaltecer desmedidamente o papel da Princesa Isabel para negar o que os negros em movimento fizeram a partir de 1978 é mais uma provocação caetânica. Não rima nem de longe com o pensamento de quem escreveu a letra de Haiti – para mim, o mais contundente libelo contra o racismo e seus derivados em nossa contemporaneidade.

Mas, desde longe que me pus a pensar se não era exagero do MNU (Movimento Negro Unificado) descartar simplesmente tudo que significou – e levou – ao 13 de Maio de 1888.

No movimento abolicionista tivemos a presença de negros combativos e heróicos como o poeta Luís Gama, e tivemos também brancos sinceramente engajados com a causa como Joaquim Nabuco e outros tantos. Apagar-lhe a participação só porque tinham a pele clara e não propunham “enforcar o último branco nas tripas do último nobre”?

Sei também que o “13 de Maio” nos deu liberdade sem cidadania, a raiz profunda da sociedade excludente e injusta em que vivemos hoje. Contudo, como me disse o sempre iluminado Cristovam Buarque, “o dia 14 de Maio já foi melhor que o dia 12”.

Sei, por fim, que durante os últimos 30 anos, para construir e afirmar a história do movimento negro, foi preciso negar a Lei Áurea e colocar Zumbi no nosso altar-mor.

Entretanto, passados justamente os 30 anos, e com as primeiras vitórias colhidas pelo movimento (ações afirmativas e cotas, principalmente) já podemos assumir sem medo e sem culpa os parceiros de ontem e de hoje dessa luta comum. Aqueles a quem chamo de “negões da pele branca”.

Se Caetano deu vivas à Princesa Isabel, deveria ter dado vivas também à Condessa de Barral, conterrânea dele e amante do Imperador D. Pedro Segundo, abolicionista desde a primeira hora e que exerceu forte influência sobre o monarca e sua filha com suas idéias sobre a libertação dos escravos.

Digo tudo isso com a serenidade de quem coordenou na Bahia, na sede do Ylê Aiyê, a sessão histórica do senado em que os senadores Rodolpho Tourinho, relator, e Paulo Paim, autor da proposta, discutiram com o movimento negro da Bahia os termos finais do Estatuto da Igualdade Racial, que viria a ser aprovado dias depois na câmara alta.

Portanto, chega de posições excludentes e exclusivas. Na minha militância sócio-poética, continuo brandindo meu verso-enigma: minha pele é linguagem e a leitura é toda sua!

 

13 DE MAIO

 

Dia 13 de maio em Santo Amaro

Na Praça do Mercado

Os pretos celebravam

(talvez hoje inda o façam)

O fim da escravidão

Da escravidão

O fim da escravidão

Tanta pindoba!

Lembro do aluá

Lembro da maniçoba

Foguetes no ar

Pra saudar Isabel

Ô Isabé

Pra saudar Isabé

(CaetanoVeloso- Noites do Norte/2000)

GENTE DA BAHIA – ÉDIO SOUZA

28/05/2009

Edio Souza2

ÉDIO É UM LIVRO

por Jorge Portugal

Nasci e morei por bom tempo em uma terra que cultuava professores. Explico: uma cidade onde os professores eram respeitados e valorizados tanto quanto (ou mais) o prefeito, o juiz e o padre.

Ainda na minha infância-adolescência, morando no distante bairro do Bonfim, já ouvia falar com admiração e reverência de professores-mitos no meu imaginário: José de Oliveira Teixeira, José Nery de Mesquita, Dalva e Stella Mutti, professora Dos Anjos, Chicuta, Luzáurea Pinto, Mabel Velloso e a arqui-temida Aleluia. Ficava de lá sonhando e desejando estudar com todos eles (e elas) um dia.

Já no ginásio Teodoro Sampaio tive a felicidade de conhecer alguns em carne, osso e cátedra. Fui aluno de Gilberto e Mário Valadares, de Zalma, Padre Antenor, Padre Luís Brito, Amália, João Rodrigues e tantos outros luminares que nos encantavam com o simples auxílio do quadro e do giz.

Três grandes mestres, no entanto, extrapolaram, na minha vida, a condição de instrutores ou comunicadores de bons conteúdos: Nestor Oliveira, Jorge Montalvão e Édio Souza. Desde o primeiro momento, na primeira troca de palavras (ou de olhares?) meu coração acusou , de pronto, três arquitetos do meu futuro. Eternos orientadores, gurus da minha vida.

Montalvão e Nestor, que partiram há alguns anos, já foram tema dessa “humilde pena” em momentos passados. Édio, que gloriosamente permanece conosco, inspira agora essa viagem mental, em que pervago pelo itinerário de mim mesmo.

Curioso, mas estou lembrando neste instante que nunca fui “aluno de sala” de Édio Souza. Jamais estivemos frente a frente na condição de regente de classe versus estudante atento. O ambiente escolar em que colhi suas inúmeras lições foram os corredores do Teodoro Sampaio, as esquinas e ruas de Santo Amaro, a varanda de sua casa na Pedra e a antessala da casa da Ferreira Bandeira. Nesses lugares é que se aprendem as lições essenciais da vida, e o professor transforma-se em educador. Sempre foi assim com Édio.

A paixão pela saga de Canudos, a devoção pelos textos de Antônio Vieira, o entusiasmo sempre renovado pela sintaxe e ironia machadianas, a descoberta da literatura de Saramago, as histórias de Besouro e o gênio musical de Domingos de Farias Machado e tantas, tantas conversas que minha alma juvenil acolhia sabendo-as pedras fundamentais de minha formação cultural. Isso! Édio Souza sempre foi um formador e um trans-formador. Que o digam Caetano, Emanoel Araújo, Luciano Lima, Maria Bethânia, Eduardo Tadeu e todos os demais que foram alcançados pela luz do seu saber.

Aos 87 anos, Édio acaba de lançar um livro indispensável aos que são de Santo Amaro e das letras: “Com os pés no massapê”. Nele, histórias da imaginação e histórias de livro se entrelaçam a palestras, poemas, ensaios e compõem uma profunda expressão de amor à sua gente e à sua terra. Destinou a metade da receita do livro a uma campanha para salvar a Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro.

Aos 87 anos, Édio continua a nos dar belas lições de vida.

Foto: Bianca Martinez

Foto: Bianca Martinez

JORGE PORTUGAL
Eterno aluno de Édio Souza