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DE ENÉAS GUERRA PARA NÓS, CRIANÇAS

12/10/2009
CAPA DO LIVRO A SER LANÇADO EM 17.10.2009

CAPA DO LIVRO A SER LANÇADO EM 17.10.2009

UM VAPORZINHO NAS

ÁGUAS DA IMAGINAÇÃO

 

por zédejesusbarrêto

 

Dedicado às crianças, mas uma gostosa aventura para seres sensíveis de todas as idades, está sendo lançado no próximo dia 17, sábado, o livro ‘Vaporzinho’, do artista gráfico Enéas Guerra, textos e desenhos.

O livro conta, em cores e versejos com gosto de tabocas e abafa-banca da infância, a história de um vaporzinho inspirada nos navios a vapor da antiga Cia de Navegação Baiana que faziam o transporte de gente e de mercadorias entre o Porto de Salvador e os cais dos principais pontos produtores do Recôncavo singrando as águas da Baía de Todos-os-Santos.

Segundo o jornalista e escritor Jorginho Ramos (*), ‘há 190 anos, exatamente em 4 de outubro de 1819, foi realizada a viagem inaugural do Vapor de Cachoeira, uma revolução tecnológica para a época’. Pela primeira vez se navegava pelas águas do Paraguaçu sem a necessidade dos ventos para impulsionar a embarcação.

O vapor foi construído em Salvador, num estaleiro que havia na Preguiça, e equipado com uma máquina adquirida na Inglaterra. O Vapor de Cachoeira viajou até o começo dos anos 60, era símbolo de uma época, uma alegria em cada chegada e partida com seu sino, seus apitos, e inspirou os cantadores do povo:

 

O Vapor de Cachoeira

Não navega mais no mar;

Arriba o pano, toca o búzio

Nós queremos navegar’…

 

O autor

A concepção, as letras e os instigantes desenhos são do paulista-baiano Enéas Guerra, nascido em Botucatu (em 1951) e radicado na Bahia desde 1973. Ele é formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (São Paulo, 1972) e sobrevive do design, ilustrações e artes gráficas. Editou e ilustrou alguns livros do fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger e desde 1993 é sócio da Solisluna Design Editora, empresa voltada para a comunicação visual e a publicação de livros.

O ‘Vaporzinho’ tem a edição de Valéria Pergentino, autora do projeto gráfico ao lado de Enéas, e foi impresso na Gráfica Santa Marta.

O livro traz ainda uma foto do vapor atracado no cais de Cachoeira, do início do século XX, e mais duas fotos do Rio Paraguaçu espelhando nas águas o casario de São Félix, clicadas em 1975 por Vicente Sampaio, premiado fotógrafo que é irmão de Enéas.

Imperdível!

 

Se você quer me conhecer,

De Vaporzinho pode me chamar.

Um barquinho esperto gosto de ser,

Pra navegar no rio e no mar”.

 

Sábado, dia 17, às 16 horas, na Galeria do Livro, que fica na Travessa Bartolomeu de Gusmão, bairro do Rio Vermelho. Leve a criançada.

 

(*) Leia o artigo de Jorginho Ramos neste blog:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/10/04/vapor-de-cachoeira-190-anos/

VAPOR DE CACHOEIRA, 190 ANOS

04/10/2009
ILUSTRAÇÃO DE BRUNO AZIZ

ILUSTRAÇÃO: BRUNO AZIZ

por JORGINHO RAMOS*

 

Há 190 anos, exatamente em 4 de outubro de 1819, foi realizada a viagem inaugural do Vapor de Cachoeira, uma revolução tecnológica para a época. Pela primeira vez na América do Sul viajava-se sem a necessidade dos ventos para impulsionar as embarcações.

A proeza foi uma conquista do Marechal de Campo Felisberto Caldeira Brant – mais tarde agraciado com o título de Marquês de Barbacena –, o seu cunhado Pedro Rodrigues Bandeira e Manoel Bento Guimarães. No ano anterior eles tinham recebido de Dom João VI a carta régia que os autorizava a implantar como um “privilégio real” a navegação a vapor. Receberam também a exclusividade na exploração do serviço de navegação na costa da Bahia e em seus rios, por um prazo de 14 anos. Logo, mandaram vir da Inglaterra uma máquina a vapor e adaptaram-na a uma embarcação que mandaram construir no Estaleiro da Preguiça.

O jornal “A Idade d’Ouro do Brasil”, o primeiro a ser publicado em Salvador, defendia o empreendimento afirmando que na Europa “já não mais se fabricam barcos de outra espécie para a navegação dos rios”. E justificava: ”Os rios do Recôncavo desta cidade são todos bordados de altos morros que abafam o vento às embarcações e lhes retarda a viagem. A introdução, pois, dos barcos a vapor será aqui de incalculável proveito e, segundo os avisos anteriormente feitos nesta folha, temos de ver esta introdução muito brevemente”.

Na viagem inaugural entre Salvador e Cachoeira, ponto final de navegabilidade no Rio Paraguaçu, o barco a vapor conduzia as principais autoridades e “pessoas gradas” como o Conde da Ponte, então governador, os empreendedores, magistrados e outros convidados. Saíram de Salvador às 11 da manhã, atravessaram a Baía de Todos os Santos e entraram rio adentro, chegando às oito da noite à Vila de Cachoeira, então em festas. Foi feita em nove horas uma viagem que durava às vezes até cinco dias.

Logo o Vapor de Cachoeira se incorporou à vida baiana, e não só pelo aspecto econômico, com a redução do tempo de viagem entra a Cidade da Bahia e Cachoeira, na época entreposto comercial. O Vapor de Cachoeira e outras embarcações, como os saveiros, eram o principal meio de ligação entre o litoral e o sertão da Bahia. Além de pessoas, transportavam principalmente mercadorias e notícias. Os produtos manufaturados seguiam até Cachoeira e da lá eram levados em tropas de burros – e mais tarde de trem – para abastecer o interior da Bahia. Na rota inversa trazia para a capital a produção dos engenhos de açúcar, de fumo, algodão e tudo mais que o sertão produzisse.

A embarcação original foi destruída anos depois. Alguns dizem que, durante um temporal, foi destroçada em Mont Serrat. Outros, que foi destruída em 1823 por soldados de Madeira de Melo, durante a guerra pela Independência.

Certo mesmo é que a navegação a vapor foi interrompida durante muitos anos. Consta que essa ausência originou os primeiros versos da célebre cantiga popular, como uma ironia dos mestres saveiristas a realçar a excelência dos seus barcos a remo, em contraponto ao barco a vapor. Tornou-se lendário, a inspirar artistas, namorados e cantores nas muitas variações de sua quadrinha mais célebre:

“O Vapor de Cachoeira/ Não navega mais no mar/ Arriba o pano, toca o búzio/ Nós queremos navegar”

É uma evidência de que o Vapor de Cachoeira já tinha sido incorporado à cultura popular e entrado para o folclore. Anos depois, em 1836, a navegação a vapor na Bahia foi reativada e ele renasceu para viver sua fase áurea até a década de 60 do século XX, quando a navegação até Cachoeira foi extinta. Mas está presente até hoje na História do Brasil, na literatura e, principalmente, eternizada na memória do povo.

O aniversário do Vapor de Cachoeira pode ser uma oportunidade não só para se discutir a sua importância histórica e cultural, mas também para divulgar a ideia de que o turismo histórico e sustentável pode ser mais uma opção econômica e social para o Recôncavo. Esperemos que a Rota do Paraguaçu, trecho por onde o Vapor de Cachoeira circulou, possa em breve vir a ser reconhecida pela Unesco como patrimônio da humanidade.

 

*Jorginho Ramos é jornalista, professor, gerente de Jornalismo da TV Educativa

CIDADE HEROICA DO RECÔNCAVO

22/06/2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas | AG. A TARDE | 18.2.2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas Agência A TARDE | 18.2.2009

OLHAR SOBRE CACHOEIRA

por MAÍSA PARANHOS

É impossível subir até a Cruz de São Félix, olhar em direção ao Rio Paraguaçu, para o outro lado de sua margem, sem conter a respiração diante de tanta beleza que emana da paisagem da cidade. Monumento histórico nacional, Cachoeira, no Recôncavo Baiano, jogou um papel importante na luta pela Independência da Bahia. Contam os antigos que as mulheres atravessaram o rio a nado, com punhal entre os dentes, para a expulsão do português colonizador. Daí a denominação de “Cachoeira, a Heroica”.

Quem a mira terá seus sentidos atingidos. Sente-se uma saudade de não sei o quê, uma sensação de pertencimento, uma intimidade que só seria possível com o nosso passado atávico, talvez. Nela, nos reconhecemos. Hoje, é portadora de uma rica vida cultural, tendo sido escolhida para abarcar a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Aonde chegamos, chegam as mudanças necessárias para a própria garantia dos nossos agrupamentos humanos. E assim, acreditamos, os espaços são modificados em função do homem. Tal vem ocorrendo em Cachoeira, possuidora de um calendário muito extenso em festividades e manifestações culturais, destacando-se a Festa da Boa Morte e o São João. Os festejos trazem admiradores e futuros moradores, e consequentes investimentos e empreendimentos.

A própria universidade aportou um contingente populacional maior para o espaço urbano, e é claro que este se modificará. A questão é justamente esta: de que forma este espaço, que é monumento histórico, portanto patrimônio público, vem sofrendo essas modificações? Cachoeira vem sendo tratada com a delicadeza e a importância necessárias? Sendo uma das maiores expressões da arquitetura colonial portuguesa em nosso País, exige um trato peculiar. Por ser uma cidade dona de um acervo cultural imenso, com seus museus e vasta produção artística, necessita de uma administração que dê conta de suas especificidades.

É com tristeza que observamos um desenho urbano se modificando nas encostas dos morros e nas margens dos rios sem o devido planejamento. É com melancolia que vemos seus artistas produzindo em espaços precários enquanto ocorrem construções desordenadas ao longo de seus riachos. É com indignação mesmo que vemos pouca, ou quase nenhuma, participação popular nas decisões que são ali tomadas para o “engrandecimento” cultural da cidade.

Preservar um monumento histórico é criar condições para a sua valorização, inclusive turística, e não transformá-lo em objeto de vitrine, cercada de uma população excluída da preservação daquilo que ela própria constitui. Monumento histórico é coisa viva. O seu sentido é dado no presente por quem o cerca e lhe dá sustentação material e simbólica. Desta forma, Cachoeira está merecendo, com certeza, um olhar mais apurado e efetivo.

Maísa Paranhos é professora de história

E-mail: msparanhos@uol.com.br