Posts Tagged ‘Revolução Francesa’

CONSPIRAÇÃO DOS MULATOS BAIANOS

12/08/2009
Bloco Olodum Mirim desfila no Centro Histórico de Salvador durante o Carnaval de 1998 com o tema da Revolta dos Búzios. Na foto (esta, como as demais postadas no dia 9 passado e as de hoje foram cedidas por João Jorge, presidente do Olodum), jovens do bloco afro portam cartazes com as figuras de cada um dos quatro mártires da sedição de 1798.

Bloco Olodum Mirim desfila no Centro Histórico de Salvador durante o Carnaval de 1998 com o tema da Revolta dos Búzios. Na foto (esta, como as demais postadas no dia 9 passado e as de hoje foram cedidas por João Jorge, presidente do Olodum), jovens do bloco afro portam cartazes com as figuras de cada um dos quatro mártires da sedição de 1798.

     Hoje, 12 de agosto, é uma das duas datas marcantes na história da Revolta dos Búzios, ou Conspiração dos Alfaiates, ocorrida em 1798. A outra data é o dia 25 do mesmo mês. Quem me chamou a atenção para isso foi o grande líder e presidente do Bloco Olodum, João Jorge Rodrigues, na convocação para festa e seminário, no Pelourinho (Salvador-Bahia), em homenagem aos mártires desta sedição de 211 anos atrás, acontecida nesta mesma Cidade da Bahia. A convocação de João Jorge está reproduzida no Jeito Baiano poucos posts abaixo:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/08/09/olodum-e-a-revolta-dos-buzios/

     Fui conferir as dicas em dois livros grossos e pesados com os quais ando debaixo do braço desde a inauguração deste blog: História da Bahia, de Luís Henrique Dias Tavares, e Uma História da Cidade da Bahia, de Antonio Risério. E agora, para transcrever trechos desses livros, passo a aplicar minha técnica de digitação rápida, desenvolvida primeiro como aluno de piano clássico quando eu era pequeno, depois como datilógrafo ultraveloz num escritório de contabilidade e finalmente como jornalista nestes 41 anos, metade dos quais pilotando uma Olivetti ou Remington e a outra metade, silenciosos teclados de computador.

     Comecemos por Luís Henrique:

 

     A sedição de 1798 se inaugurou na História do Brasil com dois episódios: a divulgação de onze boletins manuscritos na madrugada de 12 de agosto, quando foram colados na fachada de casas que ficavam em locais de passagem obrigatória para centenas de moradores da cidade, e a reunião [dos rebeldes] na noite de 25 desse mês no Campo do Dique do Desterro.

 

     Pulo 12 páginas para mostrar a origem de um dos nomes dados à sedição, Revolta dos Búzios, que é o adotado pelo Olodum:

 

     Brás do Amaral e Francisco Borges de Barros [historiadores] se irmanam nas referências ao uso “de um búzio pendente das cadeias do relógio” como forma de identificação entre os “conjurados”. A propósito, existe uma frase de José de Freitas Sacoto que merece atenção. Está nos autos da devassa feita pelo desembargador Costa Pinto. Sacoto teria escutado o ourives Luís Pires dizer que “os sinais distintivos de todos aqueles que se alistavam no partido da revolução” eram “brinquinhos na orelha, barba crescida até o meio do queixo, com hum búzio de angola nas cadeias do relógio”. Sacoto falou desses “sinais distintivos” num interrogatório de 18 de outubro de 1798 (…)

Placa em homenagem a João de Deus do Nascimento, heroi nacional do Brasil

Placa em homenagem a João de Deus do Nascimento, herói nacional do Brasil

 

     Agora vamos à obra do meu querido amigo Risério:

 

                  A CONSPIRAÇÃO MULATA

     Na madrugada do dia 5 para o dia 6 de novembro de 1799, o alfaiate mulato Manuel Faustino dos Santos Lira, nascido escravo, tentou pela terceira vez o suicídio. Na primeira tentativa, bebeu veneno. Na segunda, esforçou-se para enterrar um prego de quatro polegadas no coração. Finalmente, tentou a asfixia – dar “a si mesmo o garrote”, como escreveu frei José d’Monte Carmelo, carmelita descalço, em seu relato dos fatos –, apertando no pescoço uma tira de pano. Também Lucas Dantas do Amorim Torres, soldado Mulato do Regimento de Artilharia, tentou cair fora da vida, enfiando pela garganta, repetidas vezes, uma colher de prata. Não, não estavam brincando. Era a luz do desespero que os arrastava, descontroladamente, para além da vida.

     Ambos, Santos Lira e Lucas Dantas, pareciam querer se antecipar a uma sentença que, estavam certos, os condenaria à morte, juntamente com dois outros mulatos pobres de Salvador – o alfaiate João de Deus do Nascimento, de 27 anos de idade, natural da Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, e o soldado Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, de 37 anos, nascido na Cidade da Bahia, neto de um branco português, Manoel Gomes da Veiga, e de uma africana escravizada, a negra Helena. De fato, no dia 8 de novembro, dia áspero e plúmbeo, daqueles em que o tempo fecha sem retorno, os quatro foram conduzidos à Praça da Piedade. Luiz Gonzaga e João de Deus, em palanquins abertos; Lucas Dantas e Santos Lira, a pé. Chegando à praça, o ritual se consumou. Foram, os quatro, enforcados e esquartejados. Corpos despedaçados, repartidos, expostos em lugares públicos. A cabeça de Lucas Dantas ficou espetada no Campo do Dique do Desterro. A de João de Deus, na Rua Direita do Palácio. A de Santos Lira, no Cruzeiro de São Francisco. A de Luiz Gonzaga, juntamente com as mãos, na Piedade. Terminava assim, de modo tenso e fúnebre, o episódio que passou à nossa história sob o rótulo de “Revolução dos Alfaiates”.

     Uma denominação absolutamente imprópria, por sinal. Em primeiro lugar, porque não chegou a acontecer revolução alguma. O plano de uma sublevação, que realmente existiu, não passou da luz do sonho à luz do sol. Em segundo lugar, porque as pessoas presas e processadas, em consequência do anseio subversivo, não eram, em sua maioria, alfaiates. Havia escravos, oficiais militares, soldados da tropa e até mesmo um cirurgião, Cipriano Barata, que se tornaria uma figura quase lendária das movimentações sociopolíticas ocorridas no Brasil entre os séculos XVIII e XIX. Se houve um traço dominante, naquele agrupamento rebelde, foi o da cor da pele. Os mulatos – fossem escuros, claros, trigueiros ou fuscos – somavam o dobro do número de brancos e pretos envolvidos. E a verdade é que esse território mestiço ou interétnico, então em seus momentos iniciais de difícil afirmação, não pode ser deixado de parte em nenhuma leitura que se faça daquela turbulência baiana. Os rebeldes que foram à forca eram mulatos – e eram pobres.

LUCAS DANTAS

     Mas vamos aos fatos. Tudo pipocou no dia 12 de agosto de 1798. Aquela manhã trouxera uma surpresa para a população da Cidade da Bahia. As pessoas iam acordando e encontrando papéis manuscritos, cartazes artesanais, fixados em diversos pontos da cidade. Nas proximidades de São Bento, na esquina da praça do palácio, às portas do Carmo, nas paredes da cabana da preta Benedita, etc. – lá estavam eles. Eram os pasquins da sedição, falando ou refalando temas da Revolução Francesa, ainda que aqui e ali relidos de uma perspectiva mestiça e tropical.

MANOEL FAUSTINO DOS SANTOS

     “Animai-vos Povo Bahinense [sic] que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais”, dizia um dos pasquins. E os demais seguiam mais ou menos na mesma batida. Falavam de revolução (“quer o povo que se faça nesta cidade e seu termo a sua memorável revolução”), de liberdade (“…estado feliz… estado livre do abatimento… doçura da vida…”), do fim da dominação colonial (“para que seja exterminado para sempre o péssimo jugo reinável da Europa”… “a total Liberdade Nacional”), de regime republicano, de abertura dos portos ao comércio internacional, de “meritocracia”. Prosaica e candidamente, atribuía-se ao povo o desejo de que os soldados tivessem aumento salarial. Uma carta ao prior do Carmo acenava com a fundação de uma igreja baiana (a “Igreja Bahinense”), livre do jugo papal. E – risco dos riscos – apontava-se para a abolição da escravidão, ao lado da promessa de proteção ao comércio e de respeito à propriedade privada. Mais: quem ficasse contra o projeto revolucionário seria morto. Uma ousadia e tanto. Na verdade, uma provocação. Como dizer coisas de tal teor explosivo numa colônia organizada em cima do trabalho escravo – e dominada por um reino em que vigorava a velha monarquia absolutista? Era cutucar o cão com vara curtíssima.

     Esses pasquins manuscritos, aparecendo em pontos variados de Salvador como um desafio frontal à autoridade reinante, foram, evidentemente, uma iniciativa isolada. Individual. Ato intempestivo de alguém que se engajara no movimento revolucionário – e que, impaciente, ingênuo, irresponsável ou destemperado, pôs a perder o que parece ter sido um constante trabalho proselitista e todo um movimento que ia se articulando clandestinamente nas diversas camadas de nossa sociedade setecentista, incluindo-se aqui, de forma historicamente inédita entre nós, pessoas escravizadas.

[…]

LUIZ GONZAGA DAS VIRGENS

     Pois bem. Com a aparição dos pasquins, o Governo reagiu. A bem da verdade, o próprio governador da Bahia, Fernando José de Portugal, tinha já notícias das conversas subversivas que aqui iam se sucedendo (e se desdobrando), na década de 1770. Sabia de “reuniões secretas” realizadas em residências particulares. Mas nunca deu maior importância a elas. O que foi um equívoco, já que a Bahia setecentista vivia dias férteis para ideias de transformação social e política.

 

     Vou parar minha digitação por aqui, esperando que já seja suficientemente estimulante para as pessoas prosseguirem a leitura diretamente no livro de Riso. Neste blog mesmo há mais sobre a Sedição de 1798 em citações do livro do Prof. Luís Henrique Dias Tavares, no seguinte post:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/04/independencia-do-brasil-na-bahia-4/

 

OLODUM E A REVOLTA DOS BÚZIOS

09/08/2009

O Bloco Afro Olodum mantém viva a memória das lutas libertárias da Bahia, celebrando todos os anos a Revolta dos Búzios, também chamada de Revolução dos Alfaiates ou Sedição de 1798, cujos ideais incorporavam o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, da Revolução Francesa. Os rebeldes da Cidade da Bahia incluíam em sua bandeira de lutas o fim da escravidão, no que se mostraram mais avançados do que os inconfidentes mineiros. Os ideais da Revolta dos Búzios seriam assumidos poucas décadas depois por combatentes da guerra pela Independência do Brasil na Bahia, vitoriosa no dia Dois de Julho de 1823.

Vejam abaixo a convocação do Olodum para homenagear os mártires da Revolta dos Búzios, em e-mail assinado pelo presidente do bloco afro, João Jorge Rodrigues:

Cartilha da Escola Olodum lembra a saída de seus alunos à rua, no Carnaval de 2007, defendendo o tema da Revolta dos Búzios

Cartilha da Escola Olodum lembra a saída de seus alunos à rua, no Carnaval de 2007, defendendo o tema da Revolta dos Búzios

OLODUM PROMOVE

A FESTA DA REVOLTA DOS BÚZIOS 2009

 

Celebração dos 211 anos da luta pela Igualdade no Brasil

 

Neste domingo (9 de agosto de 2009), no Pelourinho, no Largo Pedro Arcanjo, o Bloco Olodum promove a Festa da Revolta dos Búzios, 2009, abertura das celebrações dos 211 anos da Revolta dos Búzios ocorrida entre 12 e 25 de agosto de 1798.

A Revolta dos Búzios é o marco zero dos Direitos Humanos no Brasil e envolveu negros, mestiços e brancos em prol da igualdade e liberdade no Brasil.

Foram condenados à morte: João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz das Virgens, em 1799 na Praça da Piedade.

O Olodum desde 1984 celebra este fato histórico relevante, cujos documentos comprobatórios estão no Arquivo Público da Bahia, por entender que a história atual da luta por Direitos da igualdade tem muito a ver com a Revolta dos Búzios, a luta por liberdade religiosa, a luta dos jovens por cotas nas universidades e a luta contra a violência civil e pública.

A Revolta dos Búzios foi tema do carnaval do Olodum em 1985, 1998, do Bloco Olodum Mirim, foi motivo de petição ao prefeito Antonio Imbassahy para colocar os bustos dos quatro mártires na Piedade, placa na rua João de Deus.

Fizemos seminários e diversos festivais de músicas para popularizar a Revolta dos Búzios, seus homens e mulheres. Tornamos uma história escondida oculta pelas elites locais em um fato nacionalmente reconhecido, agora falta apenas incluir os nomes dos homens e mulheres da Revolta dos Búzios no livro da Pátria, para que nossos antepassados possam descansar em paz e justiçados.

Os movimentos negros de hoje têm na Revolta dos Búzios o seu marco inicial, por esta ser uma revolta cidadã, plural, integrativa, por liberdade e igualdade e não ser uma revolta religiosa excludente. A Revolta dos Búzios expõe como temos sido traídos por aliados e setores que deveriam ajudar e apoiar a luta contra o racismo nos dias de hoje.

Para os setores que lutam por democracia no Brasil nas zonas urbanas, a memória da Revolta dos Búzios exige uma celebração, um reconhecimento do Estado da Bahia, da Cidade do Salvador e do Governo Federal para a importância da igualdade e dos mártires baianos da Independência, os condenados da Revolta dos Búzios.

É chegada a hora de anistiar a memória dos líderes e de suas mulheres e fazer todas as homenagens devidas aos libertadores nacionais.

Assim dia 9 de agosto o Olodum inicia as comemorações dos 211 anos da Revolta dos Búzios, no Pelourinho, no Largo Pedro Arcanjo, nas mesmas ruas em que caminharam os personagens de 1798, com festa, seminário, publicação de uma revista em quadrinhos, caminhada, encontro na Praça da Piedade em honra aos baianos mais ilustres da nossa terra: João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz das Virgens.

Há de chegar o tempo da nossa liberdade, o tempo feliz da nossa igualdade em que seremos todos irmãos…”
Homenagens aos dias dos Pais e da Mulher Sul-africana

DOMINGO dia 9 de agosto de 2009.

 

Ensaio especial do Bloco Afro Olodum 2010

 

Na Praça Pedro Arcanjo – Pelourinho às 19hs

 

Ingresso: R$ 15,00 (meia) para estudante apresentando a carteira e R$ 30,00 (inteira)

   

João Jorge

Presidente

 

Agosto de 2009 – 211 Anos da Revolta dos Búzios. João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz das Virgens 1798 – 2009.

 

Dias 25, 26 e 27 deAgosto de 2009.

 

Seminário sobre as Rebeliões da população escrava e da plebe livre no Brasil – aplicações da lei 10.639/03

 

Dia 09 Ensaio do Bloco Olodum 2010 Largo Pedro Arcanjo – Pelourinho 19h.

 

www.olodum.com.br. Visite o site e fique por dentro do mundo Olodum.

 

Alunos da Escola do Olodum participam de manifestação em homenagem aos mártires da Revolta dos Búzios na Praça da Piedade

Alunos da Escola do Olodum participam de manifestação em homenagem aos mártires da Revolta dos Búzios na Praça da Piedade

 

 

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA-4

04/07/2009
No desfile do Dois de Julho, a Cabocla sempre porta a bandeira da Bahia, enquanto o Caboclo leva a bandeira do Brasil. Foto: Lúcio Távora | Agência  A Tarde 2.7.2009

Durante o desfile do Dois de Julho, em Salvador, a Cabocla sempre carrega a bandeira da Bahia, enquanto o Caboclo, em outro carro, leva a bandeira do Brasil. Foto: Lúcio Távora | Agência A Tarde 2.7.2009

 por Jary Cardoso

     O Brasil precisa conhecer e cultuar a história de como se desenvolveu o movimento pela independência do país na Bahia, culminando no 2 de julho de 1823. Os baianos revivem todo ano com alegria e emoção o orgulho pelo heroísmo e bravura de seus antepassados, sentimentos que têm de ser compartilhados pelos demais brasileiros. É o que recomendo como brasileiro nascido em São Paulo e hoje morando em Salvador.

     Este ano tive o privilégio de aprender um pouco mais sobre os primórdios desse movimento e conhecer seu caráter libertário. Foi quando atendi ao convite de Jorge Portugal, poeta e educador, para ir à sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, no dia 14 de junho. Jorge disse que iria receber a Comenda Marquês de Abrantes na Câmara de Vereadores e gostaria da minha presença.

     Ao chegar a Santo Amaro em meu fusquinha, encontrei a cidade em festa cívica, com faixas saudando sua data magna. Como explicou Jorge Portugal, o movimento pela Independência da Bahia – que na verdade resultou na consolidação da independência de todo o País – começou a se esboçar justamente na Câmara de Santo Amaro, em 14 de junho de 1822.

     Cito o historiador Luís Henrique Dias Tavares, mestre de Jorge Portugal, em seu livro História da Bahia, anos 1821-1822:

     A Bahia aderira às cortes de Lisboa, elegera deputados para elaborar a futura Constituição do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve e desconhecera a regência do príncipe dom Pedro, instituída com o regresso do rei dom João VI para Lisboa (…)

     (…) a Junta Provisória de Governo da Província da Bahia atuava cada vez mais submissa a Lisboa (…)

     (…) A política das Cortes Gerais para o Brasil definiu-se no segundo semestre de 1821, dirigida a neutralizar qualquer mínima possibilidade de existência de um governo executivo central em alguma província brasileira.

     (…) [em fevereiro de 1822] chegou à cidade do Salvador a Carta Régia nomeando Governador das Armas o brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, em substituição ao brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães. Logo se instalou uma situação de conflito.

     (…) Em resposta, oficiais brasileiros (…) declararam que era ilegal aceitar um decreto de Lisboa sem a aprovação da Câmara. Não queriam Madeira de Melo no Governo das Armas e para tanto orientaram a resistência que envolveu militares e civis brasileiros contra a sua nomeação.

     (…) O dia 19 de fevereiro amanheceu com a ofensiva das tropas portuguesas.

     (…) Concluída a ocupação militar da cidade do Salvador, Madeira de Melo adotou uma linha política que visava (…) obter o apoio local para manter a Bahia unida a Portugal.

     (…) Número apreciável de famílias abandonou a cidade do Salvador e se dirigiu para Santo Amaro, São Francisco do Conde, Cachoeira e Maragogipe. Em abril já existiam várias conspirações contra o governo militar que o brigadeiro Madeira de Melo estabelecera.

     (…) A definição dos baianos ocorreu entre maio e junho de 1822 (…)

     [Agora se aproxima o momento de Santo Amaro]

     Os partidários do reconhecimento da autoridade do príncipe tentaram uma decisão na Câmara da cidade do Salvador. Marcada para se reunir no dia 12 de junho, as tropas portuguesas bloquearam as ruas (…) A reunião foi proibida.

     Dois dias depois (14 de junho) reuniu-se a Câmara de Santo Amaro (…) A Câmara decidiu: “Que haja no Brazil hum centro único de Poder Executivo; que este Poder seja exercido por sua Alteza Real o Príncipe Regente”.

     A partir dessa decisão é possível encontrar uma sequência de preparativos na Bahia para o reconhecimento da autoridade do príncipe dom Pedro (…)

     O episódio seguinte ocorreu pouco depois, no dia 25 de junho, que se tornou a data magna de Cachoeira, localidade vizinha de Santo Amaro. Lá também a Câmara reconheceu a regência de D. Pedro, e houve ainda luta contra portugueses e tiros, desencadeando uma série de episódios que ainda preciso conhecer melhor.

     Voltando ao 14 de junho de 2009 em Santo Amaro. Antes de começar a solenidade na Câmara, que teve a presença do ministro da Cultura, Juca Ferreira, procurei me informar com Jorge Portugal sobre os acontecimentos de 187 anos atrás. E ele me levou a recuar um pouco mais na História.

     Jorge Portugal disse que as lutas pela independência da Bahia foram precedidas, em 1798, por um movimento libertário em Salvador, a chamada “Revolução dos Alfaiates” ou “Revolta dos Búzios”, inspirado na Revolução Francesa e nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Seus ideais eram muito mais avançados que a Inconfidência Mineira.

     Luís Henrique Dias Tavares escreveu assim sobre a “sedição de 1798”:

      (Este importante movimento foi) amplo e singular, por seu ideário, pelo largo circuito social dos que dele participaram ou nele foram envolvidos, proprietários, oficiais e soldados do exército colonial português na Bahia, intelectuais, artesãos (alfaiates livres e escravos, cabeleireiro, ourives, pedreiro, carapina, ferreiro, bordador) e escravos, pela influência que recebeu das ideias humanistas de igualdade de todos os seres humanos e do exemplo da Revolução Francesa de 1789-1793, que degolara um rei e uma rainha, proclamara o regime republicano e extinguira o trabalho escravo.

     (Boletins sediciosos) foram colados na fachada de casas (…) Eles repetem itens e frases referentes ao soldo dos militares (…), aos padres, ao comércio monopolizado, à situação política da Europa, à condição da capitania da Bahia, que “sofria latrocinios, furtos com os titulos de impostura, tributos e direitos que são elaborados por ordem da Rainha”, às discriminações que os pardos (mulatos) sofriam por causa da cor da pele, às ideias de liberdade, república, democracia e igualdade sem diferenças de cor. Algumas das palavras mais repetidas pertenciam ao vocabulário entregue ao mundo pela Revolução Francesa: Povo, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Deputados, Republicanos, Entes e Dietas.

     Mesmo depois de sufocada essa rebelião e enforcados e esquartejados quatro de seus ativistas, os ideais libertários da Revolução Francesa continuaram gerando frutos na Bahia. A Guerra da Independência veio na sequência.

     Agora passo a palavra a Jorge Amado, que em seu Bahia de Todos-os-Santos dedicou alguns trechos ao Dois de Julho de 1823:

2 DE JULHO, FESTA CÍVICA E POPULAR

Foi um 2 de Julho”, se diz na Bahia quando se faz referência a uma coisa notável, grande, barulhenta, porreta. A festa do 2 de Julho tem um caráter cívico e patriótico que não lhe tolda a graça popular. Comemora-se a data da entrada triunfante dos exércitos libertadores na capital em 1823. O dia verdadeiro da Independência do Brasil (…).

Monumento a Maria Quitéria. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

Monumento a Maria Quitéria. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

MARIA QUITÉRIA

por Jorge Amado

O príncipe D. Pedro, no caminho de São Paulo, deu o grito da Independência. Depois foi dormir com a marquesa de Santos. Os Baianos então expulsaram os portugueses que ainda desejavam conservar a colônia. As tropas de Madeira foram batidas no Recôncavo, em Pirajá, em Itaparica. Um avô de Castro Alves, major das forças da Independência, comandava um batalhão. Foi o batalhão mais valente de toda a campanha. Puseram-lhe o nome de “Batalhão dos Periquitos” por causa da farda verde. Os “Periquitos” ficaram célebres, tais foram as suas façanhas na guerra da libertação. Entraram triunfantes na Bahia pelo caminho da Lapinha (…)

Certa moça baiana, de nome Maria Quitéria, de família pobre, não quis assistir de braços cruzados à libertação da sua pátria. Vestiu uma roupa de soldado, apresentou-se ao avô de Castro Alves, mostrou que sabia atirar e fez toda a campanha. Foi um soldado disciplinado, corajoso, capaz, consciente. Honrou o “Batalhão dos Periquitos” e sua tradição é orgulho da mulher baiana.

No entanto, a fama ficou para Joana Angélica, uma freira que defendeu a porta do seu convento. Não a moveu o patriotismo e sim, apenas, a defesa da clausura do tenebroso convento das “arrependidas”. Mas a heroína da Independência é a outra, a mulher que rompeu com os preconceitos terríveis da época, alistou-se como soldado, tomou do fuzil, matou inimigos, lutou de armas na mão, Maria Quitéria. Por isso mesmo injustiçada e esquecida.