Posts Tagged ‘Região Metropolitana de Salvador’

ESPERANDO O BONDE

18/05/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Morávamos na Barra Avenida e poucas famílias tinham carro, na época. A maioria dos seus moradores era de classe média, mas havia também alguns ricos e muitos modestos, que viviam em uma das muitas “avenidas” da cidade. Nós, estudantes, nos encontrávamos no ponto do bonde e entabulávamos conversas que eram interrompidas abruptamente num ponto, com a famosa frase de Imbraim Sued: depois eu conto…

Éramos todos moleques, independente da origem, no bom sentido da palavra, que pongávamos e nos divertíamos no bonde. Havia filhos de comerciantes prósperos, funcionários públicos, mecânicos, operários e até de banqueiro. Não chegava a ser uma democracia sócio-racial, mas sem duvida o bonde socializava. Os abrigos da Sé e do Campo Grande, que reuniam uma multidão de estudantes da rede pública e privada, era uma festa ao meio-dia e no final da tarde, com muita conversa, olhares e namoricos.

No começo dos anos 60 os bondes foram abolidos a pretexto de atrapalhar o trânsito, para dar passagem aos milhares de carros produzidos no país. A popularização do carro privado deveria resolver tudo. Desde então deixamos de ter políticas de transporte público. Foi preciso a Fifa dizer que sem transporte de massa não haveria Copa.

Surge assim o projeto Rede Integrada de Transporte (RIT), gentilmente presenteado à prefeitura pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (Setps), que na primeira etapa deve ligar o aeroporto ao Shopping Iguatemi, correndo pelo canteiro central da Av. Paralela. As etapas seguintes, bem mais complicadas, não têm prazo, nem orçamento. As construtoras e os donos de ônibus têm pressa de cobrar a fatura de R$ 570 milhões prometidos pelo BNDES.

Criou-se, porém, uma polêmica sobre a motorização do sistema. A Setps defende um sistema conhecido pelo nome cifrado de BRT (Bus Rapid Transit). Por outro lado, o governo do Estado, que tem a chave do cofre federal, advoga a adoção do VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos). A decisão, que deveria ser técnica, está dependendo da sucessão senatorial.

O BRT, como o nome indica, é um sistema de “busus” moderninhos trafegando em via segregada, como em Curitiba. O VLT é um bonde articulado muito comum na Europa trafegando no meio das ruas, nos trilhos do antigo bonde, que nunca desapareceram completamente. Tem a vantagem de não poluir e ter uma manutenção baixa. Mas o adjetivo “leve” expressa bem que não é um transporte de massa. É o bonde moderno. Ambos podem servir como redes alimentadoras, transversais, do sistema de metrô, como nas cidades do México, Londres e Nova York.

O vetor de expansão mais forte de Salvador é o norte. Já transbordou para Lauro de Freitas e está chegando a Abrantes, em Camaçari. Nem BRT nem VLT darão conta da demanda de deslocamentos humanos na Região Metropolitana de Salvador (RMS) nos próximos dez anos, quando a região terá seis milhões de habitantes. A RMS tem duplicado de população a cada vinte anos e terá 12 milhões em 2040. As duas alternativas são um paliativo caro e não uma solução

Por que não se faz logo um metrô estruturante dessa expansão na Paralela, prevendo sua extensão até Camaçari? Um metrô de superfície, sem desapropriações, nem galerias subterrâneas, como o da Paralela, não custaria muito mais que um VLT ou BRT. Os vagões estão aí, parados, enferrujando e pagando pedágio. O metrô-tobogã da Bonocô até chegar a Cajazeiras, para que seja viável, demorará mais dez anos.

Com essa solução dispensaríamos a abertura da Via Atlântica e Linha Viva, que provocarão grandes impactos sociais e ambientais e um montão de desapropriações. E o pior, não resolverá nada, pois só induzem a população a comprar mais carros. Temos que deixar de pensar pequeno.

Lembro-me agora das propagandas rimada nos bondes, como a do Rum Creosotado, do Elixir de Nogueira e uma que dizia: “Neste mundo todos são passageiros, menos o cobrador e o motorneiro”. Desconfio que esses também são passageiros do bonde da história. A conversa está muito boa, mas vocês me deem licença, porque um bonde ou um ônibus está chegando… atrasado. Depois eu conto…

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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COPA, ELEIÇÕES E TRAGÉDIA URBANA

13/04/2010

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texto de zédejesusbarrêto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Além de quaisquer estudos, acima de todas as recomendações técnicas e políticas, as intempéries nos apontam urgências.

Fora as prioridades humanas maiores – educação, saúde e segurança públicas , sempre repisadas a cada eleição e muito pouco contempladas, as chuvas deste outono nos sinalizam para grandes projetos/obras emergenciais de modernização de três setores básicos, infraestruturais, sem os quais a possibilidade de realização de uma Copa do Mundo de futebol no país e, mais especificamente, na Bahia, está seriamente comprometida.

São eles: habitação, energia elétrica, telecomunicações e transporte de massa/vias públicas urbanas.

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Moradia

A questão habitacional urbana está exposta e precisa ser encarada sem demagogias. A tragédia desses dias no Rio de Janeiro, e que se repete, a cada ano, a cada tempestade em nossas desordenadas e despreparadas metrópoles, nos põe nus diante do mundo, mesmo mal cobertos por números de crescimento econômico que nos ufanam.

Favelas e invasões em morros e encostas, casebres de sopapo e palafitas à beira de córregos e baixadas sem saneamento significam miséria, marginalidade, doenças, catástrofes e mortes prematuras.

A situação de Salvador, nessa área, é de calamidade. A cidade de um milhão de habitantes em 1970 está com mais de três milhões em 2010. Houve um inchaço descontrolado, sem nenhum planejamento. Não há, a esta altura, como remediar de imediato a insensatez das invasões, muitas delas estimuladas e/ou acobertadas pela politicagem de plantão. Sabemos. Nossos bairros periféricos, todos, são resultado de invasões.

Mas não se pode continuar fechando os olhos a cada novo barraco que se dependura, a cada puxadinho que se levanta perigosamente, a cada riacho que se entope com mais uma viela em cima… Porque, antes de mais nada, é preciso preservar vidas.

Se a cada dia, a cada versão nova de PDDU o poder público e privado acha áreas e espaço para erguer novos espigões, conjuntos, condomínios, projetos… Como não há lugar para se expandir a cidade em bairros populares mais decentes, com morada digna, arruamentos, esgotos, segurança e possibilidade de transporte público próximo e barato? Cajazeiras é exemplo.

Não há dignidade sem moradia.

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Eletricidade

A cada sereno, a cada ventania falta luz em meia banda de Salvador, na quase totalidade dos bairros populares da capital e de todos os municípios vizinhos que integram o que deveria ser a Região Metropolitana. Ponto.

Isso acontece porque o nosso sistema é antiquado, a nossa fiação é velha, boa parte dos postes está corroída, nos bairros se vê um emaranhado de fios e gatos, galhos de árvores antigas arriando sobre a fiação, sobrecargas, mal dimensionamento das linhas e ligações… enfim, um sistema elétrico de terceiro mundo, mesmo.

Mas as tarifas cobradas estão num nível de primeiríssimo mundo e as propagandas nos vendem esse engodo. No entanto, a qualquer apagão de fim de semana, desses a que até já nos acostumamos, de tão rotineiros – por causa de um vento, de um trovão, de uma colisão de carro num poste, de um gato mal feito, de uma gambiarra esticada para o churrasco… Pois, tente ligar para os telefones oferecidos pela Coelba e ouça o que acontece. Sempre. As linhas estão ocupadas, congestionadas, tudo travado e os serviços de manutenção, terceirizados, são de péssima qualidade, ineficazes, pra não dizer incompetentes. Até quando?

Há algum projeto de modernização em vista?

Não, não estamos falando nessa baboseira de ‘banho de luz’, não é isso. É energia para todos de verdade, segura, sem estouro de canelas e pipocos de transformadores, dia sim/dia não, sem gatos, com presteza de atendimento, ligações estáveis. Um serviço dentro dos parâmetros das taxas que nós, consumidores, pagamos. A conta chega em dia.

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Comunicações

O mesmo se pode falar de nossos telefones, de nossas ‘bandas largas’ tão estreitas, das taxas altíssimas que pagamos e dos péssimos serviços de que dispomos. Há milhares e milhares de baianos, da Região Metropolitana de Salvador, sem telefone em casa desde as chuvas passadas, porque a fiação foi danificada e até agora as empresas não deram conta de restaurar os transtornos. Alô Telemar!

Com os ventos mais fortes, em algumas localidades, quase toda hora cai a linha e derruba-se a comunicação via internet, seja qual for a empresa provedora. São as antenas, os satélites, as interferências, a tecnologia falsificada, o quê? Mas pagamos a internet mais cara do mundo, a telefonia mais cara do planeta, sabia?

Domingo passado, as emissoras de rádio baianas ficaram sem linha e sem comunicação, sem retorno até instantes antes de começar a transmissão dos jogos de Bahia e Vitória, ali em Feira e em Camaçari. Quando o jogo é mais distante… então, é um suplício, um sufoco para que se consiga uma transmissão de qualidade, sem interrupções. E os locutores ficam bradando contra a nossa telefonia nos microfones.

Vai ser assim na Copa 2014?

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Transportes

E tem a questão do transporte urbano, tão badalada, tão mais do que urgente numa cidade que está travada de tantos carros particulares, de milhares de motocicletas atarantadas, de avenidas congestionadas, de falta de cumprimento das leis básicas do trânsito, de nenhum ordenamento, sem vias exclusivas, de um sonho pesadelo de metrô que não vai aos trilhos, de trens que descarrilam em bitolas dos anos 50 do século passado, de uma via náutica que não nada, coisa nenhuma…

E tudo se agrava a cada manhã/tarde de rush, a cada chuva fina, cada buraco, cada alagamento, cada acidente na via que não suporta mais o fluxo crescente, e… a Paralela, antes um paraíso, tornou-se um drama diário, um inferno.

Pois bem, que venha a Copa 2014, em boa hora, pois a Fifa já deixou claro que a cidade terá de apresentar um transporte de massa moderno, um fluxo urbano decente do Aeroporto ao Centro para que haja jogos programados na dita praça escolhida como sede.

As verbas já existem, alocadas para tais fins. Até os valores estão definidos, à espera do projeto, pelo PAC da Copa. Dinheiro gordo que faz piscar muitos olhos, balançar muitos interesses. Assunto para muito programa eleitoral, mas a cidade tem pressa.

Salvador quer saber, já, qual o projeto melhor, mais barato para o povão, menos custoso para os cofres públicos e também o mais eficiente.

Seria o VLT, espécie de pequenos/leves trens sobre trilhos ligando o aeroporto à Rótula do Abacaxi, e daí conectando-se com o tal metrô de meia légua até a Lapa?

Bem, as nossas tentativas de projetos urbanos sobre os trilhos, até agora, têm sido pífias. Como exemplos, o VLT dos tempos de MK na prefeitura que não deu em nada; o atual metrô, que já tem 11 anos e não anda, sequer gatinha; e os próprios trens suburbanos, restos da RFFLB dos anos 1950, pobres, inseguros, antiquados e pouco usados. Vez em quando um vagão descarrila, sobre dormentes sem manutenção adequada. Um abacaxi de caroço.

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O BRT, o que é?

A outra alternativa, tida como mais rápida, moderna e de custo mais barato é o chamado BRT-Bus Rapid Transit. São grandes ônibus acoplados, rodando em corredores exclusivos. Esse sistema deu certo em Curitiba, em Bogotá, está sendo implantado em cidades da China, do México e é a novidade na África do Sul para a Copa de junho próximo.

Dizem os técnicos que é muito mais fácil e mais barato de ser implantado, agride menos a paisagem, atende a todos os objetivos de transporte de massa rápido e eficiente, é seguro e sairá com uma tarifa muito mais barata do que qualquer metrô ou VLT. E mais, adequa-se melhor à topografia de vales e cumeadas típica do cabo (geográfico) onde está plantada a cidade.

 

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É assim? Eis a discussão.

Os dois projetos estão em pauta. Há grupos privados interessados de um lado e do outro, pois a grana disponível é boa.

Mas urge que os poderes municipal e estadual sentem-se à mesa, juntos, desarmados, sem querelas eleitoreiras porque o povo quer soluções para seus problemas e não blablablá, ouvindo técnicos, a opinião de estudiosos, as propostas dos grupos interessados… e decidam, já, o que é melhor para a cidade, para o estado, sobretudo para o povo,essa massa que usa e carece de transporte de boa qualidade, há anos.

O debate está aberto, as cartas aí estão.

Não há tempo a perder. A corda está no pescoço, estrangulando. O povo está de língua de fora.

E… a Copa já é amanhã.

 

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*zédejesusbarrêto, jornalista (13abr/2010)

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GUARAJUBA X PRAIA DO FORTE

11/04/2010

Ilustração de GENTIL

       Ambas as localidades são litorâneas, ocupadas por camadas de classe média/alta e cresceram ao mesmo tempo. Por que então a frequência ao longo do ano é tão distinta?

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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São localidades de municípios diferentes. A primeira está em Camaçari e a outra em Mata de São João. Mas a situação socioespacial é similar. Ambas estão na Região Metropolitana de Salvador (RMS), equidistantes de Salvador, são litorâneas, ocupadas por camadas de classe média/alta e cresceram ao mesmo tempo. Por que então a frequência ao longo do ano é tão distinta? Guarajuba só tem picos de ocupação no verão e nos feriados, Praia do Forte o ano inteiro, um sonho de qualquer village turístico.

Posso arriscar alguns palpites. Guarajuba é um assentamento de lotes e casas, sem animação noturna e tem somente quatro restaurantes; sua vida é apenas diurna, nas praias, piscinas e churrasqueiras. A extensa praça que dividiu as duas etapas iniciais do loteamento Canto do Mar – empreendimento visionário de fins da década de 70 – foi projetada como área verde e quase não previu zonas de ocupação terciária (comércio e serviços), o que obriga os moradores a se abastecerem em Monte Gordo, outra localidade próxima, agora meio inacessível por conta da duplicação da pista.

Ao contrário, a urbanização de Praia do Forte aproveitou-se de uma pequena aldeia de pescadores e seguiu o modelo dos balneários europeus de sucesso, inicialmente como “point cultural nativo” de um grande resort, depois por si mesma. Penso que não chegaria a ser o que é – um núcleo sem carros, tranquilamente usado por pedestres, ciclistas e quadriciclos, muito animado – se não fora a figura de Klaus Peter, dono da terra onde nasceu o assentamento original.

Como Klaus Peter teve toda a liberdade para fazer o que bem entendesse, organizou uma empresa para promover a gestão imobiliária das áreas em torno e tratou de incentivar alguns equipamentos âncora, criou a imagem das tartaruguinhas (que viraram o simpático e politicamente correto símbolo do local) e elevou artificialmente o preço do metro quadrado. Pegou. Virou moda ecológica e passou a ter os terrenos mais valorizados do litoral.

A Prefeitura de Mata de São João percebeu tardiamente a “jogada” do alemão, mas teve sensibilidade para fazer a sua parte e atraiu o Estado para a parceria de intervenções urbanístico-paisagísticas; o resultado está aí, um lugar de grande apelo turístico, tanto que começa a correr o risco inverso, de se autodestruir, tal o exagero de empreendimentos imobiliários em volta.

Já a Prefeitura de Camaçari sempre fechou os olhos para Guarajuba, que nunca passou de loteamento de rico. Agora esta praia está no “olho do furacão”, pois o mar meteu-se na história e arrancou as barracas da praia, quase todas de uma só vez. Surgiu assim a oportunidade para o prefeito, tão ocupado na campanha majoritária, delegar poderes a técnicos competentes e resolver simultaneamente o esvaziamento cíclico de Guarajuba e o problema dos barraqueiros desalojados, sem maior desgaste político.

Espelhada no exemplo de Praia do Forte, a Prefeitura de Camaçari poderia redesenhar a grande praça central, dotando-a de barzinhos, lojas e restaurantes bem projetados e conceder seu uso, com prioridade, para os donos das barracas de praia, chefes de família que ficaram sem o seu ganha-pão. Há espaço e vocação comercial para estas atividades em áreas disponíveis distantes das moradias. A qualidade de uso e ocupação seria uma questão contratual. Claro que isso implica negociação com os condôminos, que não têm domicílio eleitoral no município.

Mas, repito, o prefeito está empenhado em reeleger o governador e em parceria com o Estado tem chance de realizar um autossustentável e participativo projeto de revitalização e, de quebra, faturar votos.

Guarajuba precisa ser frequentada durante o ano e já possui também um grande resort português em que os hóspedes não têm onde gastar senão no interior do próprio hotel: a nova praça, tão próxima, seria uma forma de gerar mais receita e empregos. Enfim, esses prefeitos precisam viajar mais, conhecer outros lugares de sucesso, fazer como o alemão de Praia do Forte, saber ousar…

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*Lourenço Mueller – Arquiteto urbanista

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A UTOPIA URBANA DE SALVADOR

29/03/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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Utopia é sinônimo de projeto irrealizável, quase um sonho. Não obstante, a esfera do sonho, da fantasia, antecipa o real; não há realização construída se esta concretude não for em algum momento sonhada, imaginada ou projetada.

Por isso gostei quando ouvi um representante do governo dizer que precisamos TER a nossa utopia urbana. Talvez tenha sido uma afirmação inócua mas toda realidade ocupacional desta metrópole leva `a conclusão de que Salvador não pode mais resolver os seus problemas urbanos dentro dos limites territoriais do município, e deveria lançar mão de terrenos exteriores a este, promover urgentemente um plano diretor metropolitano e adaptar as sedes dos municípios limítrofes ao crescimento acelerado da sede metropolitana.

Seguindo regras universais do urbanismo, empregos devem estar localizados próximos às moradias, pois assim podem-se, digamos todos em coro, minimizar custos e tempo de deslocamento.

Repensando a Região Metropolitana de Salvador (RMS), alguns municípios como Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho e Candeias emergem como geradores de emprego e renda, seja pelas indústrias instaladas, seja pelo setor terciário já desenvolvido com destaque para a localização de empreendimentos de hotelaria na Estrada do Coco e na Linha Verde.

Estes municípios estão na área de influencia da via CIA-Aeroporto, que interliga a baía ao litoral leste. Perpendicular a esta, estudada pela urbanista Maria Elisa Costa, filha de Lúcio, uma nova via denominada “Linha Viva” atravessaria Salvador longitudinalmente, configurando uma espécie de “T”. As duas vias têm natural vocação para o desenvolvimento de atividades urbanas e para o assentamento populacional, podendo abrigar nas suas margens a expansão demográfica metropolitana por muitos anos… Se bem projetadas.

A oportunidade de se agregar sustentabilidade a esse sistema é agora, ao promover a organização de variáveis físicas, econômico-sociais e político-institucionais.

Experiências históricas na direção das utopias urbanas, de Ebenezer Howard a Le Corbusier, não favorecem muito a condição da utopia aplicada ao planejamento urbano. Mas Brasília sim. Há 50 anos, num país que não dominava tecnologias, sonhou-se uma cidade a partir de um sinal gráfico no dizer do célebre urbanista e ela reúne muitas das utopias anteriores.

Ao mesmo tempo em que se afirmou a arquitetura personalíssima de Niemeyer perdeu-se, no plano diretor de Brasília, a oportunidade única de inaugurar e incentivar um modelo de cidade auto-sustentável no país inteiro. Mas não poderiam adivinhar que o automóvel, inquestionável herói da década de 60, quando o Brasil começou a produzi-lo, se transformaria no vilão do século 21 e se tornasse capaz de desestruturar qualquer plano diretor bem intencionado. Oscar e Lúcio estão perdoados.

Poderíamos, agora, aproveitar a oportunidade da “Linha Viva” e da CIA-Aeroporto para desenvolver a nossa utopia urbana : a partir de um modelo paradigmático de tendências mundiais em que é valorizada a mobilidade assim como a ênfase ao transporte publico não poluente, o privilegio do pedestre e do ciclista sobre os automóveis e legislando o solo como uma propriedade estatal, incorporando ideias de urbanistas do passado.

Precisamos dar forma a essas intenções e redesenhar as margens desse T: dimensionar um programa, seguir critérios onde a densidade liquida não exceda 500 habitantes por hectare com uma densidade bruta de 50 mil habitantes por km2 na zona intensamente urbanizada ao longo da faixa das vias onde os terrenos, desapropriados, só poderiam voltar a ser ocupados mediante concessão de uso pelos poderes públicos.

A ocupação obedeceria a uma configuração de zoneamento adaptada a condicionamentos legíferos e geomorfológicos existentes com setores de densidade maior nas centralidades e rarefeita nos extremos, passível de ser atravessada por pedestres em menos de uma hora nos oito rumos da rosa-dos-ventos e permanecendo com os pavimentos térreos vazados.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto

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O DEBATE SOBRE A PONTE PARA ITAPARICA

09/03/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PEDRO DE ALMEIDA VASCONCELOS*

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A questão principal neste debate não é a de fazer ou não fazer uma ponte para Itaparica, nem a de ser a favor do desenvolvimento e do progresso ou a favor da preservação e do passado.

O grave é que a ideia de fazer a ponte seja apenas um insight, típico das ideias luminosas dos artistas, sem ter nenhuma base a partir de estudos de cenários, de impactos, nem de medidas reguladoras correspondentes. É bom lembrar que já em 1967, quando da elaboração do plano do Centro Industrial de Aratu, o arquiteto Sérgio Bernardes propôs um traçado de uma futura ponte para Itaparica.

Uma série de questões podem ser levantadas:

Qual a prioridade da ponte? Será mais um investimento concentrador na Região Metropolitana em detrimento do interior do Estado? Será em detrimento de investimentos sociais nas quase abandonadas periferias de Salvador (transportes, educação, saúde, segurança, lazer…)?

Qual a previsão do investimento total? Estão prevendo uma ponte suficientemente alta para os petroleiros passarem em direção à refinaria da Petrobras (e as plataformas), ou ela terá um mecanismo de abertura para passagens dos navios?

Quem assumirá os custos: o governo estadual, o governo federal, a iniciativa privada ou uma combinação desses agentes?

Quais os impactos previstos de uma ponte deste porte nas diferentes escalas: em Salvador, na ilha, no Recôncavo? O que acontecerá com a atual população residente na ilha, em sua maioria formada por famílias de baixos rendimentos. Será expulsa do litoral? Qual o fluxo de migrantes previsto? Como ficará o meio ambiente (ver Avenida Paralela…). Como ficará a oferta de infra estrutura para a ilha: de onde virá a água? Como será enfrentada a questão do saneamento? Como ficarão os fluxos de transporte, incluindo os de caminhões e ônibus e seu acesso a Salvador? Poderemos ter, como em Lagos, na Nigéria, pontes com engarrafamentos diários.

Que atividades econômicas serão previstas? Será a ilha um “dormitório” para Salvador? Como ficarão as frágeis finanças municipais? Dependerão de impostos locais e transferências federais?

Como as administrações municipais da ilha serão equipadas para tentar controlar a urbanização futura? Como será controlada ou orientada a especulação imobiliária, se mesmo em Salvador a urbanização é uma combinação de interesses imobiliários e invasões de terrenos, com uma insuficiente atuação estatal?

Quem está pensando e planejando o futuro da Região Metropolitana e do Recôncavo? É necessário diferenciar a elaboração de um projeto executivo de uma ponte de um planejamento de médio de longo prazo para a ilha e o seu entorno.

Essas questões são importantes na medida do recuo atual do planejamento estatal e da participação cidadã, devido, de um lado (apesar da aprovação do Estatuto da Cidade), à ideologia neoliberal, e do outro, da volta de uma visão de “desenvolvimento” progressista, na busca da realização de grandes projetos, o que lembra o período da ditadura militar.

Mas seria bem mais importante, antes, definir a opção por um modelo de urbanização: continuar com a prioridade ao automóvel em detrimento do transporte público, como em Salvador, prevendo novas avenidas paralelas à Avenida Paralela, sem estudos atualizados dos fluxos? A opção de uma urbanização composta de loteamentos e condomínios fechados desconectados, da verticalização acelerada em determinadas áreas, com a destruição dos prédios residenciais em paralelo a uma imensa periferia precarizada e favelizada?

Finalmente, como não há previsão de mudanças sociais profundas, com a construção da ponte, as “elites” e classes médias deverão se implantar no litoral da ilha e uma nova periferia precária surgirá nos fundos dessa nova urbanização. Itaparica será então a nossa futura Niterói (com seu equivalente São Gonçalo e suas favelas atrás)? Ou um novo Corredor da Vitória ao nascente, como a Boa Viagem recifense (e suas favelas atrás)? Ou talvez ainda uma nova Amaralina (com seu equivalente Nordeste atrás)…

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*Pedro de Almeida Vasconcelos Mestre em Urbanismo e Ph.D em Geografia

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REFLEXÕES NO DIA DA MULHER

08/03/2010

textos de zédejesusbarrêto*

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Senhora do mistério

E do encantamento

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Entendo que todo dia é dia da mulher. Até porque sem ela nem existiríamos.

Dona da vida. Fonte do prazer.

A bênção Yá Stella de Oxóssi, nossa sacerdotisa. Bença Makota Valdina, negona guerreira. A Maria Bethânia, pelo seu canto de luz. Ícones.

Às mulheres, todas, que algum dia, mesmo que só por um instante, eternamente amei. Vó, mãe, amiga, irmã, amada, amante.

Não sou mais que um mosaico, um ajuntamento de pedacinhos, de sentimentos e gostos de cada uma delas. Sem esse alimento, nada seria.

Quedo-me, em louvação, eternamente agradecido.

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Projetos e ‘belezuras’

Para todos, urgente!

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Diante do caos soteropolitano instalado, ninguém com um pouco de juízo pode ser contra qualquer projeto decente que venha requalificar a cidade, integrando-a de fato a municípios e ilhas que integram (?) a Região Metropolitana de Salvador e a Baía de Todos os Santos. Queremos projetos que tragam melhorias urbanas e, sobretudo, na qualidade de vida de toda a população. Ponto.

O que se exige, mais do que propostas fantasiosas e ‘belezuras de fotoxópi’ (como bem diz o povo), são projetos realmente possíveis e urgentes, fundamentados com estudos de impacto socioambiental, de viabilidade urbanística e econômica, respeito à nossa história, transparências públicas e vantagens para a sociedade como um todo. Desde o pobre que vai ser desapropriado ao investidor imobiliário que terá ganhos com as mudanças, óbvio. É necessário planejamento, debate aberto com setores envolvidos, interessados e estudiosos do assunto.

Mais seriedade e menos politicagem!

Afinal, são intervenções que traçarão o futuro, marcarão a vida de gerações e comprometerão positiva ou negativamente os homens públicos que estão a essa hora no plantão, com o poder de decisão em mãos.

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Com esses cuidados e critérios, que venham a ponte a Itaparica, o passadiço Pelourinho/Joana Angélica (que alguns críticos já chamam de ‘passarela do crack’), a nova Cidade Baixa (cuidado com o conjunto Luis Tarquínio, o abrigo Dom Pedro II e as obras de Irmã Dulce, pelamôdedeus!), o pontilhaço sobre o Parque de Pituaçu, a nova Orla Atlântica, etc e tal…

O VLT ou VLR pela Paralela, ligando o Aeroporto ao Centro, é mais que necessário. Em certos horários, por ali a travação é total. Hora e meia/duas horas para se trafegar 15 kms. Assim, não tem Copa do Mundo certa na Bahia.

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Por falar em Copa 2014

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As obras de demolição da velha Fonte Nova ainda não iniciaram, como estava previsto. A Fifa, que coordena o grande evento da Copa do Mundo, já faz pressão na CBF, cobrando os prazos acertados. A derrubada começaria em fevereiro, mas… o consórcio das construtoras responsáveis pela construção da nova arena, no mesmo espaço urbano, somente agora iniciou os contatos com os moradores do entorno, explicando os transtornos que advirão com as obras. Hum!

O tempo ‘ruge!’

É muito bom saber que o novo estádio terá energia limpa, solar, com geradores fotovoltaicos instalados na parte interna e módulos solares na cobertura das arquibancadas. O governo do Estado quer o mesmo sistema energético também no estádio de Pituaçu. Palmas!

Esperamos que tudo isso se concretize, de fato; não seja apenas papo de tempos eleitoreiros.

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Segurança pública

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Por falta de família, de escola, de perspectivas, do que fazer no dia-a-dia nossas crianças/adolescentes entregam-se ao tráfico, às drogas. Buscam dinheiro fácil, afirmação, prazeres. É o caminho mais fácil oferecido para a inserção social pregada pelo consumismo. Ignoramos nossa juventude.

Muitas turmas escolares ainda estão sem aulas. Às 10 horas, às 16 horas é comum se verem dezenas, centenas de garotos e garotas, de todas as idades, fardados, zanzando pelas ruas, fora das escolas, a mercê de toda sorte de abordagens e violências.

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Combater a violência não significa invadir bairros populares e casa de pobre humilhando e metendo bala. Isso é barbárie, companheiros! Causa revolta. Vira guerra.

Não podemos chamar isso de segurança pública.

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É bala pra todo lado, nos bairros, no centro, em Salvador, Rio, São Paulo, BH, Recife, Vitória, Maceió, Fortaleza… Armas de todos os calibres. Em mãos de policiais despreparados, de ricaços ‘donos do mundo’, de traficantes, adolescentes de ambos os sexos, estudantes… nas periferias, no interior… um horror. Dá medo até trocar olhares na rua com algum desconhecido.

E não se pensa, ninguém propõe, não se fala numa ampla campanha de desarmamento em nível nacional, bem planejada, com marketing e ações policiais regulares. Nas cidades, nas estradas, nas fronteiras. Nada. Compra-se um revólver em qualquer esquina e boteco. É ter dinheiro e encomendar.

Como é poderosa a indústria armamentista.

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A terra tremeu no Haiti, no Chile, em Taiwan, Japão… o planeta tá rachando?

O Peru está se desmanchando em água. Cuzco histórica virou uma correnteza de lama. Tem chovido muito no Rio de Janeiro, em São Paulo, Minas… Vem mais muita água por aí, sinto trovejos nos céus.

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Diante da Natureza, somos todos pequenos e iguais. Negros haitianos, brancos chilenos, amarelos chineses, índios peruanos… A mesma frágil raça humana. Fugaz.

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O trânsito na cidade é estúpido. Todos querem ultrapassar, não se respeita o sinal vermelho, trafega-se na contramão de nariz empinado, a ‘roubadinha’ virou regra, estaciona-se em qualquer lugar onde há uma brecha, para-se em fila dupla travando o fluxo… tudo normal.

O baiano ao volante tornou-se um ser bestial.

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Ninguém obedece a leis, ninguém fiscaliza, não há punições… Os que ainda cumprem determinadas convenções são tidos como idiotas, velhos, abestalhados.

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Ué! Zé Carlos Araújo, Leão, Cesar Borges, Félix Mendonça, Fabinho… Ah, herança bendita!

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Leio um trecho da crônica do velho jornalista e escritor Carlos Heitor Cony:

Com exceção de detalhes episódicos, o homem que havia em Hitler e Stálin pouco ou nada diferiam’.

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Saudades

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Uma imensurável tristeza: a morte do repórter, editor, colunista político Jânio Lopo. Uma figura doce, uma pessoa amável. Fui seu chefe de reportagem lá pelos anos 1973/4 na Tribuna da Bahia, nossa escola. Lá ele escreveu, até o fim.

No enterro, sábado, estavam presentes no Jardim da Saudade três ex-governadores de ideologias distintas: João Durval Carneiro, Waldir Pires e Cesar Borges. O prefeito da capital João Henrique, deputados, ex-deputados, amigos, companheiros… afetos e desafetos, Janinho reuniu todos, sem distinção, naquele jeitão dele de ser em vida, risonho, tranquilo, esperto.

Foi um aperto no velho coração.

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zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador

8mar/2010.

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RUMO À SALVAÇÃO DA CIDADE DA BAHIA

11/01/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

                       Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de LOURENÇO MUELLER

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Diz um ditado espanhol que mais sábio é o diabo por ser velho do que propriamente por ser diabo: o arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo publicou recentemente um artigo que mexeu com os leitores atentos deste jornal e pelo menos um se mobilizou no sentido da sugestão de que esse jornal assuma discutir a questão da cidade.

O arquiteto não é velho nem diabo mas foi sábio; brilhante também foi o artista gráfico Cau Gomez, ilustrador do artigo, que o fez fiel à ideia: a igual disputa do mesmo “guarda-chuva” pelo pobre e pelo rico.

Por dever de ofício e de leitor devo destacar que não tem sido o único a denunciar o abandono e o equívoco de percepção urbanística a que os governos das três esferas relegaram a nossa cidade/região.

Entre os artigos publicados neste jornal [A Tarde] sobre a questão – e pesquisei as últimas postagens do blog Jeito Baiano – têm destaque:

A violência apontada por zédejesusbarreto quando escreve que “…do Natal até o fim do ano aconteceram mais de 100 assassínios na Bahia. Nunca se viu. (“Sobre as ondas”, 31/12).

A inegável supremacia da cidade passada sobre a presente descrita por Agenor Gordilho Simões em 24/12: “A Salvador de outrora e a atual”.

O trânsito insano: “…Não precisamos continuar vivendo atropelos, assaltos, engarrafamentos (…) só porque nossas cidades não se adaptam às novas tecnologias e permitem que esse reizinho do consumo, o automóvel, tome o lugar de quase tudo… (“Ouçam os urbanistas”, 19/05).

A incompetência administrativa lembrada por Ormindo: …não existem mais corpos técnicos na prefeitura e no estado capazes de formular políticas públicas… os técnicos se aposentaram ou foram demitidos para serem substituídos por gestores partidários. Os poucos que restam são marginalizados.”27/12:“ Crise urbana e crise do estado”.

O surrealismo implícito na aprovação de projetos na madrugada: “…não é linear o percurso de um fato urbanístico…os vereadores votam segundo interesses de grupos…”19/09: “ A cidade e a literatura.”

A dificuldade de compreensão pelos “novos gestores” do regional versus local na preocupação abrangente de Sylvio Bandeira em entrevista na revista Muito,19/12: …Salvador não tem muitas opções de crescimento. O principal problema é que não há um planejamento regional. Hoje, nenhum organismo pensa de forma conjunta a RMS [Região Metropolitana de Salvador], integrando o Estado, os municípios e o governo federal. O Estado tem sido muito eficiente em captar esses investimentos, em ‘vender’ a região, mas não em planejá-la.”

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Esses assuntos nos levam a propor uma agenda de discussões neste ano de eleição com a participação da sociedade civil.

A TARDE se me afigura o fórum apropriado para essas discussões e um campo mais ou menos neutralizador de ideologias que vicejam facilmente no seio de estruturas institucionais como governo, empresa, terceiro setor e até universidade.

Como organizar eixos temáticos para objetivar os discursos e as discussões, selecionar palestrantes para se pronunciarem sobre os assuntos referidos acima já será uma tarefa assumida pelo jornal.

Poderíamos avançar três eixos, que deverão ser tratados ao nível das políticas públicas sempre integradas com a própria urbanização regional e construção de um novo modelo de cidade:

Infraestrutura – Abastecimento de água e esgotamento sanitário pensado em conjunto com a macro-drenagem e a contenção de encostas. Sistema viário revisto em função de uma nova matriz de mobilidade, que privilegie o transporte público de massa, o pedestre, o ciclista, dê espaço para os portadores de deficiência e minimize, sobretudo nos centros de cidade, o papel do automóvel.

Habitação popular – A definição, a partir de um plano diretor metropolitano, das novas áreas de crescimento das cidades da região e do uso e ocupação do solo indicativos da expansão da cidade-sede regional e suas limitações.

Cultura – A revisão de conceito no que concerne às atividades artísticas ocorrentes e à preparação das mesmas para o casamento da arte com o urbanismo.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto e urbanista. muellercosta@gmail.com

SELVAS DE PEDRAS INVADEM A BAHIA

19/12/2009
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Entrevista de SYLVIO BANDEIRA, geógrafo:

SYLVIO BANDEIRA em foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde 27.11.2009

 

A EXPANSÃO IMOBILIÁRIA

ME ASSUSTA”

texto de TATIANA MENDONÇA

Revista Muito (suplemento dominical do jornal A Tarde)

Antes da construção da Estrada do Coco, em 1975, o litoral norte baiano era pouco povoado. Só um ou outro aventureiro arriscava-se a passar uns poucos dias descansando em suas praias. “Hoje, o crescimento da Região Metropolitana de Salvador é, em grande parte, em função desse eixo”, atesta o geógrafo Sylvio Bandeira, 69, que pesquisa a região há uma década. Nos próximos anos, investidores estrangeiros devem injetar ali US$ 3,2 bilhões na construção de grandes hotéis e condomínios de luxo. Para Bandeira, o Estado tem sido muito eficiente em “vender” a região, mas não está promovendo um desenvolvimento sustentável:

Falta uma melhor infraestrutura de transporte, educação, saúde. Esses investimentos estrangeiros não estão sendo territorializados. Parecem enclaves.

P – O litoral norte tem recebido enormes investimentos estrangeiros. O governo também está investindo para desenvolver a região?

R – Hoje, o crescimento da Região Metropolitana de Salvador é, em grande parte, em função do eixo do Litoral Norte. Este é um dado sob muitos aspectos positivo, porque Salvador não tem muitas opções de crescimento. O principal problema é que não há um planejamento regional. Hoje, nenhum organismo pensa de forma conjunta a RMS, integrando o Estado, os municípios e o governo federal. O Estado tem sido muito eficiente em captar esses investimentos, em “vender” a região, mas não em planejá-la. Com isso, vários problemas começam a acontecer. É preciso melhorar a infraestrutura de transporte, saúde, educação, serviços. Ou seja, todo esse eixo depende desesperadamente de Salvador. Mais da metade da mão-de-obra desses novos hotéis e resorts mora em Salvador, são os funcionários mais qualificados. Os menos qualificados moram nesses lugares pequenos ou nas sedes dos municípios e eles têm dificuldade de acesso, de formação, de treinamento.

P – Como os empreendimentos interagem com a população nativa?

R – Muitos desses investimentos estão se dando bem, próximos à pequenos núcleos de pescadores e agricultores. E a integração não é muito fácil, porque esses projetos têm dificuldade de absorver ou se integrar bem com as populações tradicionais. Vou dar um exemplo: a maior parte do abastecimento desses hotéis vem de Salvador e de fora da Bahia, porque ali não houve estímulo para uma produção agropecuária que pudesse abastecer aqueles hotéis. Também com os pescadores poderia haver uma maior integração para abastecimento. O Estado poderia incentivar isso. Falta o que nós chamamos de territorializar esses investimentos.

P – As prefeituras não poderiam resolver algumas dessas questões?

R – Sem dúvida. Os municípios precisam planejar o seu território, não é só o Estado. Mas muitos dos problemas são comuns, interessam a várias cidades. Então é preciso agregar esses municípios, e aí entra novamente o Estado. Já existe há alguns anos o Consórcio Intermunicipal da Costa dos Coqueiros, que é bastante promissor. Precisaria que o Estado entrasse de forma mais integrada, para resolver problemas de esgotamento sanitário, água, energia, educação, saúde. Toda essa área do litoral norte era muito pouco povoada até os anos 1970. O acesso só se tornou mais fácil a partir da Estrada do Coco, que é de 1975. Depois, em 1993, veio a Linha Verde. Visitei Praia do Forte em 1972. Era uma vila de pescadores e hoje se transformou num centro turístico importante.

P – Os novos empreendimentos vêm respeitando a questão ambiental?

R – Felizmente, essa área é coberta por várias APAs (áreas de proteção ambiental). Esses novos projetos, para serem aprovados, têm de respeitar a legislação, e isso em geral tem sido obedecido, para não repetir o que aconteceu com aquela fábrica da antiga Tibrás. Hoje, ela deveria ser removida dali para o Polo Industrial de Camaçari. Mas o que me impressiona é a dimensão desses projetos. Você tem grandes resorts com áreas de 12 km de praia, outro tem 6 km… A praia no Brasil felizmente é pública, a lei garante; mas, se tudo isso for construído, para atingir determinadas praias, você vai ter de contornar esses complexos, como já acontece em Sauípe. Esta série de enclaves vai dificultar a livre circulação, o que demonstra que ninguém pensou de forma integrada.

P – O que afinal trouxe tantos investimentos estrangeiros para essa região?

R – Está tudo ligado à globalização e à disponibilidade de capitais internacionais, que estavam procurando lugares para serem objetos de investimentos. O Litoral Norte tem um grande atrativo, que é a existência de grandes áreas de terra para ser vendidas a preços não muito altos, internacionalmente falando. E a região é de uma beleza cênica fantástica, próxima a Salvador, que também é uma metrópole muito atraente. O que está acontecendo aqui também ocorre perto de Recife, Natal e Fortaleza. Mas há um fato novo aí, surpreendente, é que muitos desses grandes hotéis e resorts são acompanhados de projetos de residências secundárias. E, por incrível que pareça, elas estão sendo vendidas para estrangeiros. Historicamente, as residências secundárias – ou casas de veraneio – sempre se davam muito próximas das cidades. Amaralina era um bairro de residências secundárias, onde, até a década de 50, os moradores de Salvador iam passar o verão. À medida que a cidade foi crescendo, essas casas viraram residência principal.

P – É curioso que tantos grupos estrangeiros queiram investir no Litoral Norte, já que o primeiro megaprojeto, o Complexo Costa do Sauípe, não foi tão feliz. Algumas redes de hotéis deixaram o complexo.

R – Acho que tiveram problemas de gestão, mas a região é tão atraente que os problemas desse primeiro grande projeto não dificultaram a entrada de outros investimentos.

P – O senhor falava da Praia do Forte, onde hoje é possível encontrar várias filiais de bares e lojas de Salvador. É como um shopping a céu aberto. Essa “padronização” para atrair os turistas não acaba, a longo prazo, afastando-os?

R – Esse é um perigo que pode ser mortal para o turismo. Mas acho que eles estão tomando cuidado. Existe uma associação de empresários em Praia do Forte que está atenta a isso. Não sei se vai conseguir resistir, diante da pressão pelo crescimento. Se aquele lugar se tornar muito denso, com muitos problemas – no verão costuma faltar água, não há lugar nos restaurantes –, isso pode ser prejudicial. Esse é um problema da atividade de turismo em geral. Há uma fase de grande atração, depois o lugar cresce muito, de forma problemática, e aí deixa de ser atraente. É o que tem acontecido com alguns lugares famosos. Acapulco, no México, foi muito atraente na década de 50, mas se tornou tão descaracterizada que quase acabou e, agora, estão recuperando.

P – E como o senhor vê a expansão imobiliária em Salvador?

R – A expansão imobiliária em Salvador me assusta. Participei, com as colegas Bárbara Silva e Silvana Carvalho, do Como anda Salvador e sua região metropolitana, publicado em 2008. Com esse crescimento, dá vontade de fazer um livro chamado “Como não anda Salvador”. A mobilidade urbana já está tão complicada, além da mobilidade social, que todo mundo está preocupado em como nós vamos andar, trabalhar, estudar, nessa cidade que está se verticalizando de forma impressionante. E, infelizmente, com a aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano. Não há processos sérios de planejamento urbano. A expectativa é que a Copa de 2014 resolva tudo… Eu não creio.

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