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VIVA SANTA BÁRBARA E IANSÃ

04/12/2009

Dia de Santa Bárbara na Cidade da Bahia. Fotos: FERNANDO VIVAS – 4.12.08

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Com as bênçãos do criador

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de zédejesusbarrêto

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Contam os católicos que ela era uma menina danada, filha de um homem muito rico e poderoso, em terras do oriente do imenso império romano já em decadência, minado pela fé cristã, então revolucionária. Era a nova religião pregada pelos apóstolos de Jesus Cristo, a crença do amor, da igualdade, a religião dos pobres, da vida comunitária, contra a opressão dos poderosos.

Pois essa menina altiva e retada, desde criancinha, rebelou-se contra o autoritarismo paterno e os ditames familiares de opulência e opressão. Encantou-se com a boa nova do cristianismo e queria porque queria ser batizada na nova fé, rompendo coma família. O pai, depois de muitas desavenças e de constatar que não conseguia domar a filha amada rebelde, decidiu trancá-la num castelo, a ferros, só com uma janelinha no alto da torre, longe da influência ‘maléfica’ dos rebeldes cristãos. E contratou um preceptor para educá-la, um sábio grego. Ambos trancafiados.

Mal sabia o papai que o velho grego era iniciado no cristianismo e, às escondidas, encantado com a inteligência e a determinação da menina, providenciou o seu batismo cristão com o nome de Bárbara (de ‘bárbaro’, nome como eram designados todos aqueles que não falavam o latim, a língua oficial do grande império romano, e não se submetiam às ordens do império).

Pois bem, o pai ficou ciente da fuga e do ato de rebeldia, castigou-a com uma surra, acorrentou-a e mandou eliminar o velho preceptor. De nada adiantou. A jovem o enfrentava. Com muito ódio, o velho pai então decidiu decapitar a própria filha em praça pública, como exemplo. Uma lição, definitiva, para todos os que ousassem se rebelar contra o ‘divino poder’ de Roma.

Então, conta a história que ao decepar com a própria espada a cabeça da filha, num dia de tempestade, o desalmado pai foi fulminado por um raio à frente de todos.

Bárbara tornou-se santa e mártir da Igreja Católica e seu dia litúrgico é celebrado a 4 de dezembro nessas bandas do Ocidente.

Bárbara & Oyá

Consta que em nenhum lugar do mundo ocidental cristão Santa Bárbara é tão venerada quanto na Bahia. Tem suas razões históricas, ligadas aos tempos da escravidão. Em dias de tempestades tropicais, senhores e escravos, brancos e negros, casa-grande e senzala postavam-se diante das imagens de Santa Bárbara a orar e pedir proteção contra os raios, os ventos, no temor das trovoadas que ecoavam fortes e assustadoras mata adentro.

Daí a identificação tão forte, arraigada no coração, na alma do povo da Bahia, entre Santa Bárbara e Iansã, a Oyá dos nagôs, a Matamba e Bamburucema dos bantos, a deusa dos ventos, dos raios, das tempestades, senhora das nuvens de chumbo, sensual, guerreira, poderosa e vingativa, a que não teme os Eguns, a dona do vermelho, eparrei!

Em muitos lugares do mundo Santa Bárbara nem é mais cultuada pelos católicos, seu culto é considerado uma lenda. Mas, na Bahia… Santa Bárbara é toda-poderosa!!! E será sempre uma divindade no coração do povo mestiço dessa terra abençoada.

Parafraseando Gilberto Gil… Que seria de Santa Bárbara não fosse Iansã? E de Iansã, não fosse Santa Bárbara?

Que assim seja!

Orações, missa e procissão para Santa Bárbara. Chama de vela acesa, vermelho e caruru para Iansã.

Assim é a fé do povo. E que elas, as duas, nos valham! Com toda a fé e o respeito.

Assim é na velha Bahia!

Amém.

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Eparrei!

Yansã comanda os ventos/ E a força dos elementos/ Na ponta do seu florim/ É uma menina bonita/ Quando o céu se precipita/ Sempre o princípio e o fim.

Senhora das nuvens de chumbo! Senhora do Mundo! Rainha dos raios!”

(Gilberto Gil/Caetano Veloso)

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Yansã é conhecida também por Oyá. É o orixá dos ventos e das tempestades. Corajosa guerreira, acompanhou seu marido Xangô na guerra. Foi sua terceira mulher. Divindade do rio Niger, mandona, sensual e inflexível. No sincretismo baiano é Santa Bárbara e tem um mercado com seu nome na Baixa dos Sapateiros. Contas arroxeadas, roupas vermelhas. Usa espada e um eruexim (espécie de adorno que segura com a mão e sacode enquanto dança – nota da redação) feito com rabo de boi. Come cabra, galo, acarajé, não come abóbora, tem quizila. Saudação: Eparrei!

(texto de Jorge Amado, retirado do livro “Bahia de Todos os Santos – Guia de ruas e mistérios” – Editora Record, edição de 1986)

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Yansã ou Oyá, esposa de Xangô, divindade dos ventos, das tempestades e do rio Niger. De temperamento forte, sensual e autoritário. É o único Orixá capaz de enfrentar os Eguns ou espírito dos mortos. Sincretizada com Santa Bárbara. Sua contas são roxas. Seu dia, quarta-feira. Gosta de acarajé e não suporta abóbora. Sacrificam-se-lhe cabras. Dança agitando os braços como que enxotando almas ou com alfanje e um eruexim de rabo de cavalo. Saúda-se gritando: Eparrei!”

(texto de Pierre Verger, retirado do livro “As Sete Portas da Bahia, Textos e Desenhos de Carybé” – editora Record, edição de 1976)

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A dona do Raio e do vento

O raio de Iansã sou eu

Cegando o aço das armas de quem guerreia

E o vento de Iansã também sou eu

Que Santa Bárbara é santa que me clareia

A minha voz é o vento de maio

Cruzando os ares, os mares e o chão

E meu olhar tem a força do raio

Que vem de dentro do meu coração

O raio de Iansã sou eu…

Eu não conheço rajada de vento

Mais poderosa que a minha paixão

E quando o amor relampeia aqui dentro

Vira um corisco esse meu coração

Eu sou a casa do raio e do vento

Por onde eu passo é zunido e clarão

Porque Iansã desde o meu nascimento

Tornou-se a dona do meu coração

O raio de Iansã sou eu

E o vento de Iansã também sou eu

O raio de Iansã sou eu

(música de Paulo Cesar Pinheiro, no CD ‘Mar de Sophia’, de Maria Bethânia)

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Oração de Oyá

Sem ela não se anda

Ela é a menina dos olhos de Oxum

Flecha que mira o sol

Oyá de mim’

(Maria Bethânia)


GAIAKU LUIZA – GENTE DA BAHIA

02/09/2009
Imagem extraída do documentário Gaiaku Luiza – Força e Magia dos Voduns, com direção, edição e roteiro de Soraya Mesquita. Foto: Divulgação

Imagem extraída do documentário Gaiaku Luiza – Força e Magia dos Voduns, com direção, edição e roteiro de Soraya Mesquita. Foto: Divulgação

INSPIRAÇÃO DO DIVINO

 

por MARLON MARCOS*

 

Uma das mais importantes sacerdotisas das chamadas religiões de matriz africana do século XX, Gaiaku Luiza de Oyá, faria, se estivesse viva, 100 anos em 25 de agosto de 2009. O legado desta senhora se fundamenta num saber litúrgico impressionante acerca das várias nações de candomblé, o Angola, o Ketu, o Jeje, e nessa variância de complexa tradução, sua marca mais precisa, pode ser verificada na criação de um Terreiro inteiramente dedicado ao Jeje-Mahi, nos idos de 1959, na bela e negra cidade de Cachoeira da Bahia.

D. Luiza de Oyá, mãe de muita inspiração espiritual, faleceu no dia 20 de junho de 2005, em seu templo religioso, o Húnkpámè Ayíonó Huntóloji, casa que ilustra a grandeza desta sacerdotisa tão pouco conhecida dos baianos e brasileiros. Foi-se aos 95 anos de uma vida longeva, lúcida, comunicativa, criadora e sábia. A sabedoria foi a marca principal da Gaiaku que carregava o vodum das tempestades e do silêncio mortuário, rainha do branco na ligação da terra aos céus, morada dos nossos maiorais: Oyá, conhecida também, pelos filhos do Ketu, como Iansã.

Luiza Franquelina da Rocha viveu as delícias e agruras do povo-de-santo cachoeirano, nascendo no seio do candomblé, respirando os ares de uma recente abolição da escravatura, num universo racista que não respeitava as tradições religiosas de origem africana reinventadas no Brasil. Uma mulher nascida em 1909, de beleza e inteligência raras, que percorreu quase todo o século XX, salvaguardando a liturgia desta nação ritual tão pouco conhecida de nós todos.

Mais que baluarte, ela foi mestra pedagógica do que chamamos, em síntese, de candomblé. Recebia a todos em sua casa, sentada em sua cadeira, hospitaleira e majestosa, pra mim, foi a real imperadora desta religião tão rica de significados, porque abrigava como mãe, ensinava como mestra, distraía como amiga, aconselhava em sua sabedoria, enriquecia-nos com palavras e iluminava como sacerdotisa. Que tardes deliciosas ela nos proporcionava com sua memória prodigiosa; quantas histórias e quanta luz de uma intelectualidade construída fora das fôrmas das academias.

D. Luiza era uma espécie de tempero celeste que nos fazia imaginar outras senhoras do candomblé, como D. Aninha de Afonjá, a saudosa Obá Biyi, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá. Gaiaku Luiza corporificava sua cidade Cachoeira, com uma presença de espírito que a colocava como uma cidadã do mundo, que morou em outros lugares, como Salvador e Rio de Janeiro.

Oyá venta a memória de sua filha entre nós. Gaiaku, como era chamada respeitosamente, deixou seguidores; entre as mais coadunadas aos ensinamentos da grande mãe está Mãe Zulmira de Nanã, potentado de saber, ligação entre três nações de candomblé: o Jeje-Mahi, o Ketu, o Angola, nação pela qual Mãe Zulmira cultua em seu terreiro em Lauro de Freitas, as entidades legadas por nossos ancestrais africanos.

 

* Marlon Marcos é jornalista, antropólogo e blogueiro (http://www.memoriasdomar.blogspot.com/)