Posts Tagged ‘Orixás’

A BÊNÇÃO, MÃE STELLA

13/09/2009
FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

por zédejesusbarrêto

Maria Stella de Azevedo Santos, 84 anos, a Mãe Stella de Oxóssi, Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de nação ketu fundado em 1910, no bairro de São Gonçalo do Retiro, um dos mais respeitáveis do candomblé baiano, é uma mãe-de-santo moderna e rigorosa na prática dos fundamentos de sua religião. É uma sacerdotisa, senhora do saber, matriarca de uma linhagem iorubá nigeriana, com raízes na cidade de Oyó, reino de Xangô, que deu à Bahia mulheres inteligentes e marcantes como a pioneira Yá Nassô (dos terreiros da Barroquinha e Casa Branca, século XIX), Menininha do Gantois, Mãe Aninha (fundadora do Opô Afonjá), Mãe Senhora, todas já no reino dos ancestrais.

Por escolha de Xangô, com a morte da Yá Ondina, Mãe Stella abandonou a profissão de enfermeira e assumiu o comando do Opô Afonjá em 1976. Desde então, dedica-se à preservação do culto e à transmissão do conhecimento, mantendo a tradição oral, e também  através de escritos e livros, como “Oxóssi,O Caçador de Alegrias” (dedicado ao Orixá da caça, que rege a sua cabeça) ; “Meu Tempo é Agora”, escrito com o propósito de disseminar ensinamentos; “Owé –Provérbios”, em português e iorubá; e “Epé Laiyé –Terra Viva”, uma parábola para crianças, em defesa da natureza-mãe: “O que não se registra o vento leva”, diz com sabedoria.

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella está sendo homenageada esses dias pelos 70 anos de iniciação como filha de Oxóssi (Odé). Seu nome sagrado em keto/ioruba é Odé Kayodê, que significa ‘Caçador da alegria’.  Durante a semana ela foi agraciada com o título de doutora ‘honoris causa’ da UNEB e neste sábado (12.9.09) à noite os atabaques do Ilê Axé Opô Afonjá bateram em sua honra.

Stella é o cromo da vida./ Stella rabisca em mim/ a aquarela vermelha de Xangô/ meu pai e o outro que eu sou./ Stella me dá a Xangô./ X angô me dá a Stella./ Stella acende a grande fogueira de estrelas./ Stella de Oxóssi é a dama do balé dos silêncios”

(Fernando Coelho, Ogã de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá, jornalista e escritor)

Eis alguns pensamentos da sacerdotisa de Xangô:

“A natureza conversa conosco a todo momento, basta saber entendê-la ou dar mais um pouco de atenção a ela. Tudo o que a nossa religião professa advém da natureza”

“O Candomblé não é um produto do turismo étnico. Somos uma religião, temos nossa liturgia, uma teologia, dogmas e segredos. Temos de preservar nossos princípios e valores com todo o respeito”

“É só frequentando a roça que se aprende a religião, e se aprende no desempenho das tarefas mais simples”

“Vivemos o tempo presente, nosso tempo é hoje, já, agora. Só pode falar ‘em meu tempo’ alguém que não faça mais parte deste tempo: depois de ter atravessado a porteira do tempo… Quem vive é deste tempo, de agora!”

“Falar de um Orixá é voltar no tempo, tentando decifrar o mistério do indecifrável, aquilo que apesar de ser experienciado, vivido e sentido não pode ser traduzido em uma única forma, pois tendo todas as formas, nenhuma delas o revela

Os orixás são concebidos como seres primordiais, expressões divinas das forças da natureza, um poder imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos através do fenômeno da incorporação”

“A vestimenta de cor preta, para nós, é negativa. Nunca se entra num Ilê Orixá com roupas pretas. Aliás, o mais importante é que não se penetre  em casas e quartos de Orixá sem o convite da Iyalaxé ou de alguém responsável e com poderes para isso”

“Dou um conselho aos visitantes e amigos do Axé: Não perguntem, observem!”

“Quem for a uma festa de Orixá, num terreiro, chegue com respeito e amor. Nada é cobrado, nada se fotografa, nada é gravado. Ali é um lugar sagrado, não deve ser profanado. Os terreiros estão abertos a todos que souberem chegar”

“A fé não se impõe, nem se chega a ela pelo intelecto. Chega-se ao orixá pelo coração”

“Você pode até ir à missa e ao candomblé, mas não mistura santo com orixá. O sincretismo é resquício da escravidão, o senhor queria que o negro fosse católico e ele, para agradar, dizia que era. Mas agora somos livres, não precisamos disso”

“O descendente de africano não é obrigado a ser de candomblé. Isso é ridículo. Não escolhemos o Orixá, ele é que nos escolhe”.

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

SETENTA ANOS DE AXÉ

por Marlon Marcos*

Ela é neta de Aninha de Afonjá e filha de Mãe Senhora de Oxum. Por pouco não foi iniciada na liturgia do candomblé por Mãe Menininha do Gantois. É regida pelo senhor da fartura, patrono dos caçadores, o altivo orixá do azul turquesa: Odé, mais conhecido como Oxóssi. Maria Stella de Azevedo Santos nascida em Salvador, em 2 de maio de 1925, enfermeira de profissão, é hoje a sacerdotisa da religião dos orixás mais prestigiada no mundo.

A história desta mulher dialoga, representa e acende nossas memórias acerca dos principais acontecimentos sobre as práticas do candomblé na Cidade da Bahia. Mãe Stella foi consagrada ao seu eledá, orixá principal, em 12 de setembro de 1939, aos 14 anos de idade, no Ilê Axé Opô Afonjá, pela já lendária Mãe Senhora de Oxum. Neste mês da Primavera, Iyá Stella faz 70 anos de iniciação nos fundamentos religiosos desta religião civilizatória no Brasil: o candomblé.

E a Bahia para e reflete sobre a importância de se ter uma mulher negra no comando de uma espiritualidade ainda tão atacada, incompreendida e vilipendiada pela presença do racismo e da intolerância de ordem religiosa. Uma mulher que se escreveu na história do seu país afirmando a sua religião, organizando e ampliando a sua comunidade, educando, escrevendo livros, preservando nossa ancestralidade, respeitando os rituais sagrados que lhe foram confiados por suas “mais velhas” e, politicamente, exercendo seu sacerdócio dignamente sem abdicar de suas demandas existenciais.

mãe-stella-4-CRIANÇAS

Uma história que se conta para marcar as conquistas femininas no século XX, e mais ainda, referendar a força das mulheres negras da Bahia que, através do candomblé, deram identidade cultural ao nosso povo, nos livrando assim, da esquizofrenia social.

Hoje, aos 84 anos, Mãe Stella serve de modelo e imagem de movimento. Ao iniciar novos filhos, sob a égide sacerdotal das filhas de Obá Biyi, Mãe Aninha, ela amplia com qualidade o número de adeptos de nossa religião e nos faz crescer e permanecer lutando a favor do culto amoroso e sério a nossos orixás.

Toda vez que olho para ela, Mãe Stella, lembro-me de Simone de Beauvoir e do orgulho que a filósofa teria por pertencer a esta construção cultural chamada mulher, a qual a iyalorixá baiana tão bem representa. Sua bênção, Iyá Stella.

*Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

(Artigo transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, 12.9.09)

AVE BAHIA! – OIÁ-IANSÃ

09/07/2009

 Iansã em escultura de Tati Moreno instalada no Dique do Tororó, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

Iansã em escultura de Tati Moreno instalada no Dique do Tororó, em Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

 

A TRANSGRESSORA PELA VIDA

 

 

por CLÉO MARTINS

 

Nem sempre a ação de transgredir, conceituada como “atravessar”, “deixar de cumprir”, “violar”, etc., constitui um ato ou gera um acontecimento reprovável, merecedor de castigo.

É o que nos demonstram os mitos de Oiá, a popular Iansã, a Senhora dos Ventos e Tempestades, Brisas e Tornados; a protetora das mulheres independentes e de todas as pessoas que tenham sede e fome de liberdade e justiça.

Em uma tradição oral, transmitida de gerações para gerações, nada mais óbvio do que a existência de mitos diferentes sobre o mesmo Orixá; alguns, até, conflitantes. Apesar das variações, no que diz respeito a Oiá, uma coisa é certa: é a transgressora pela Vida.

Orixá original de outras plagas africanas, estrangeira entre os iorubas que a adotaram, é de uma complexidade mais fácil de entender-se com o coração do que pelo simples raciocínio “dois e dois são quatro”. Saibam que esta aiabá, nome atribuído aos Orixás femininos (sinônimo de rainha), mostra-se para quem quer,quando bem deseja, tendo o dom de aparecer quando menos se espera.

Oiá, a mulher-búfalo, “a Vermelha” (como são os búfalos-fêmeas), com o condão de chafurdar na lama, pesando toneladas, transforma-se em borboleta. Também é popularmente conhecida por “a Voadora”. Pariu nove filhos, dentre os quais os egunguns, os espíritos-ancestrais, ela mesma um Egumgum-Oiá, quando quer.

Senhora das brisas que nos dão o frescor, também o é a dos furacões avassaladores e das tempestades.

É tão valente e incorruptível quando Ogum (não aceita mentiras e mentirosos, dissimulações, lorotas e bajuladores) e é a parte mais atuante na justiça ígnea de Xangô. Detesta iniquidades e tudo que negue o Amor.

Filha adotiva de Olu-Odé, o Alaketu – o qual, segundo uma corrente da mitologia, a denominou Oiá, a ligeira –, esposa de Ogum, o Orixá vanguardeiro e inventor; o primogênito dentre os Orixás Caçadores e, posteriormente, de Xangô, o Senhor do Fogo e do Poder em Exercício. Na verdade, foi ela quem deu o fogo ao marido, transformando-o no que é. Só que antes de entregar ao Rei a porção que o faria dominar o elemento sagrado, resolveu prová-la – desobedecendo às determinações conjugais… sem Oiá-Iansã, Xangô não produz nem uma faísca…

O Orixá Ossain é o senhor absoluto das ervas mágicas e mezinhas, ou pelo menos era, antes da transgressão de Oiá, que, provocando um vendaval, espalhou as folhas para todos os lados. Os demais Orixás recolheram as ervas que puderam, cada um passando a ter as suas.

Segundo outro mito, Obaluaê, o filho de Nanã criado por Iemanjá, grande Senhor da Terra, era tão feio, tão pavoroso, que se cobria com um capuz de palha, chamado “azê”. Muitos tinham medo de se aproximar daquela coisa, o que não aconteceu com Oiá. Os dois se tornaram amigos. Um dia, soprando sobre o “azê”, conseguiu erguê-lo. Assim, a curiosa Senhora dos Ventos mostrou o rosto belíssimo de Obaluaê, escondido pelas palhas. Moral da História: “somente os tolos julgam pela aparência”…

É difícil achar um filho, ou uma filha de Oiá, semelhante a outro… A popularidade desta Ayabá é enorme, o que é refletido em seus filhos e filhas.

Em geral, estas e estes têm os olhos rápidos, agitados e brilhantes. Mas nem todos descobriram que a estrada de Iansã é única: a espiritualidade. Há filhos e filhas de Oiá aos quais muito admiro, a exemplo de Mãe Aída Margarida Muniz, do Axé Opô Afonjá, Júlio Braga e a inesquecível Olga do Alaketu: sincera, elegante, generosa e transparente.

Relendo o conto O Plágio, de Monteiro Lobato, reunido na obra Cidades Mortas (Editora Brasiliense, SP, 1964, páginas 107 a 117) – supimpa –, pus-me a gargalhar na certeza de que o conhecido escritor paulista, grande brasileiro, tão destemido, apaixonado, irascível e polêmico, deva ter sido um filho dileto de Iansã. O texto, no estilo lobatiano inconfundível, versa sobre vaidade, falta de escrúpulos, “autotapeação”, soberba e mediocridade a beça… para o deleite dos leitores que o conheçam (deixando outros com água na boca – leiam-no!), transcrevo o finalzinho de O Plágio:

“Moralidade há nas fábulas. Na vida, muito pouca ou nenhuma”…

Claro que Lobato deveria estar dirigindo-se a algum tipo de pessoa; quiçá o conto fosse um recado enviado ou um protesto contra o engodo, o que deve ter lhe acarretado inimigos mortais e admiradores eternos, como eu.

     Cléo Martins 

Foto: Vilma Nascimento 7.7.2009

Foto: Vilma Nascimento 7.7.2009