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NO BANCO DO BUZU

09/05/2010

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Aula de cidadania

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Um ‘rolê’ de buzu, de Vida Nova (bairro de Santo Amaro de Ipitanga) até a Estação da Lapa, em Salvador – via Itinga, São Cristóvão, orla –, de olhos e mente abertos, em horário de tráfego maneiro para que se possa bem apreciar as coisas, é uma aula.

A primeira lição é sobre a relatividade do tempo. O tempo, no volante de um carro, voa. Já dentro de um buzu os minutos se arrastam. São duas horas nesse roteiro, quando se pega um fluxo bom de tráfego. Dá para ler jornal, tirar soneca, trocar prosa, conhecer gente e até meditar… sem agonia.

De olho na janela, a diversidade de paisagens impressiona. Ali, resto de mata, lá roçados que parecem o interior sertanejo, acolá casebres, adiante lixões e invasões que lembram os ‘musseques’ de Luanda (Angola). Rodando mais, passamos por bairros superpovoados e moradas de laje batida e tijolo aparente, vielas espremidas e ruas esburacadas. Há tabuleiros e traquitanas de comércio informal por tudo que é canto. E meninos vagando, vagabundos, desocupados, cães atarantados e muita pobreza.

Movimento! Vida se mexendo de todas as formas. São variadas, múltiplas realidades, cidades dentro da Grande Cidade. Quando se destampa o mar, adiante, hora passada, em Itapuã, parece outra urbe, um outro mundo. Respiram-se novos ares, maresia, mesmo com os passeios esburacados, carências conhecidas.

Uma constatação importante clama: Somos um povo absolutamente mestiço, uma gente mulata, cabocla, mistura de cores e traços. Variados matizes. Nossa população não é em p & b, como querem alguns. Os branquelos são raros e os negões puros, bem poucos. Isso me faz pensar no mestre Cid Teixeira que sempre repete, sem pejo: ‘Somos mulataria!’

Retinto é o motô (motorista), paciente, impassível, atento… a enfrentar muitos buracos no percurso, lama, quebra-molas a rodo, aquele barulhaço aterrador às aceleradas, caminhões parados fechando passagem, carro particular ignorando o fluxo, parado na faixa, mal estacionado, manobrando errado e matracando o ritmo, falta de respeito e de educação geral sobre rodas.

E mais pedestres desastrados, ciclistas (até crianças) e motoqueiros imprudentes, dá até arrepios… Mas, juro, nada perturbou o motô, nem mesmo a quantidade absurda de idoso e ‘carteirante’ que entra pela dianteira; fora os pedintes, os deficientes, os ‘crentes’ pregando a bíblia e vendendo doces, os ex-drogados relatando dramas e arrecadando trocados para a salvação pela fé… Uma festa dentro do buzu que roda e ronca. O papo rola, a vida vai, o tempo corre.

O cobrêro (cobrador) puxa conversa passando o troco, de bem com a vida, pra se distrair, repetindo, no seu jeito baiano de se mostrar gentil: ‘Valeu, broder, obrigado’.

A brisa atlântica varre o bafo humano que vai se impregnando no interior do buzu e o vaivém das ondas atrai os olhares, descansa as vistas. E a vida segue aos trancos e arrancos, parando e seguindo, entrando e saindo, na baralhada do barulho de vozes, ranger de freios, roncar de motores e destinos. Fruição humana.

Nossos governantes deviam, vez ou outra, feito gente, andar de buzu. Faz bem.

Tornar-se-iam mais humanos.

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*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

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Mozart de rua

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Paro numa rua enlameada da periferia e logo sou atraído por um som de uma ‘orquestra’ percussiva. Bato os olhos num garoto mulatinho de seus 10 anos, magrelinho, trajado de bermudinha jeans surrada, camiseta encardida sem mangas e sandálias de dedo meladas.

Seus olhos brilham, como se fosse um anjo, o corpo todo em majestosos movimentos.

Só, junto de um poste, com duas varetas nas mãos servido de baquetas, tira sons incríveis vergastando um tonel velho de lixo, meio virado, com caixas de papelão e um lata velha saindo pela boca. Ele usa cada pedacinho do sonoro tonel – boca, beirada, corpo –, da lata e do papelão para fazer sua música. Sério, bate com segurança como se estivesse estudando, pesquisando, experimentando as variações acústicas, criando repiniques, fraseados sincopados de uma samba-reggae tão baiano!

Seria uma homenagem, uma reencarnação de Neguinho do Samba, minha mãe? Filho de Carlinhos Brown?

Quedo-me a admirá-lo à distância. Ele nem me olha, concentrado, fazendo eco rua afora, solto, liberto, em plena aula, arte pura, apenas umas poucas crianças da mesma idade, sentadas ao chão à distância a apreciá-lo. A rua é sua escola livre, aberta. Sua escolha.

Não quero perturbá-lo, nem com meus pensamentos que, inquietos, perguntam: Terá família? Se frequenta escola, como poderia estar aqui a essa hora, no meio da manhã? E de que adiantaria uma ‘cela’ de aula para ele? Alguém, algum ‘professor’ dessas tais escolas formais compreenderia sua grandeza? Será que comeu um pão com café hoje? Com que sonha aquela cabecinha, além da música? Sua alma é sonora.

Peço que Deus o proteja do mundo das drogas, da violência, dos descaminhos. Imagino-o sentado à frente de uma bateria, diante de mil instrumentos de percussão, acompanhado de sopro, cordas… ou, num palco, diante de um piano de cauda.

Anônimo menino maestro. Um gênio perdido nessa rua de buracos e lama. Desatino de vida! Mais um Mozart assassinado.

Que os céus não permitam!

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zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (mai/2010)

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O LEGADO DE NEGUINHO DO SAMBA

06/11/2009

Neguinho do Samba - DIDA-Aluno

A ESCOLA OLODUM PROTESTA


por CRISTINA CALACIO


Naqueles tempos em que o Pelourinho era degredado” (naqueles tempos?), “lembro-me de um jovem determinado em fazer a diferença em um mundo imerso em ninharias”. Lá ia mais um neguinho. “Caminhando lentamente, com seu repique, sua baqueta e um gravador pelas ruas de pedra do Pelourinho” (quantas pedras no meio do caminho!).

Penso que as notas musicais do samba-reggae flutuavam, dançavam, brincavam com o Mestre dos ritmos, que em sua elegância ia regendo, transformando notas dispersas em poesia, desenhando convenções percussivas únicas no mundo.

A Escola Olodum protesta pela perda prematura da pessoa e do músico Neguinho do Samba.

Obrigado! Pela sua determinação, sua genialidade e pelo legado deixado ao Olodum.

Fico a pensar que na década de 80 nossa sociedade preconceituosa não poderia imaginar que um neguinho do Maciel Pelourinho poderia emergir para os quatro cantos do mundo no seu estado mais puro de arte e cultura.

O toque do repique convocou os surdos e juntos revelaram talentos, chamaram a atenção de artistas nacionais e internacionais para os ritmos baianos. Divulgou centenas de trabalhos musicais de autores populares, divulgou e popularizou a cultura baiana e de vários países africanos, até então desconhecidos nas salas de aula.

Sim, foi através de sua genialidade que o ritmo do samba reggae possibilitou ao Olodum promover o nome da cidade do Salvador e da Bahia em vários países mundo.

Quem era esse neguinho? Um menino de personalidade forte e polêmica que acreditou em seu talento individual, que evitou as ladeiras e becos tortuosos onde ainda hoje muitos dos nossos meninos pretos se escondem.

Foi Neguinho do Samba uma das estrelas Sírius que irradiaram seu brilho na vida de centenas de pessoas? Talvez fosse ele o povo das estrelas?

No dia da sua partida teve de tudo. Sentimentos sinceros e muitos os discursos vazios, lágrimas de demagogia e muita hipocrisia. Aqueles que sempre dificultam, atrasam, atropelam e renegam a cultura do povo estavam lá com suas promessas vazias e caras de tristeza para melhor aparecerem nas fotos.

Muitos foram os carnavais, ensaios, projetos, ações sociais. Muitas foram as dificuldades, os “não”, os pedidos negados, as portas fechadas e agendas dos responsáveis pela cultura desta “Roma Negra” indisponível.

Ninguém ligou de Brasília para ajudar. Ninguém de Salvador ligou para dizer que uma empresa privada poderia patrocinar. Não. Nesses momentos todos se escondem. Os telefones ficam mudos, o celular não atende ou não existem.

O artigo vinculado em um impresso de Salvador interrogava “O que será feito de sua criação?” “Será que o samba reggae será relegado ao esquecimento?” Também afirmou: “Com o tempo, porém, o samba-reggae foi sendo esquecido na axé music”, “exploraram o poder de sedução que os tambores podem ter”.

Neguinho do Samba deixou verdadeiros discípulos, muitos seriam os nomes para citar e o Olodum enquanto organização jamais deixará o samba-reggae cair no esquecimento.

No dia 22 de setembro foi encaminhado requerimento ao Ministério da Cultura, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que instaure processo de registro e reconhecimento do SAMBA-REGGAE como bem imaterial e integrante do Patrimônio Cultural brasileiro. Assim o gênero musical, o toque dos tambores que tanto agrega expressões de vida e tradições do afro-baiano continuarão transmitindo de geração em geração sua arte e musicalidade, gerando assim um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.

Os homens pretos da cultura soteropolitana, os “dinossauros” que já partiram e os que ainda por aqui circulam vivem por seus ideais, e com certeza lutarão para que “a batida do samba-reggae não fique no limbo”.

Morrem pobres todos eles”. Por que aqueles que exploraram e fizeram “sucesso a partir do que eles criaram?” não vão buscar atendimento médico na madrugada em posto de saúde do Pernambués, ou aguardar pacientemente o Samu (graças a Deus que existe).

Quando para essa turma a derradeira hora chegar, não serão necessárias GRANDES “articulações para os procedimentos do enterro e velório”. Seus familiares não estarão expostos à desconfortável negociação de quem pagará as despesas funerárias. Isso é coisa para os negros homens da cultura. O Olodum protesta!


Cristina Calacio

Coordenadora da Escola Olodum



NO PELÔ SAUDANDO NEGUINHO DO SAMBA

04/11/2009
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Entrada da sede da Didá, onde o corpo de Neguinho do Samba estava sendo velado. O cartaz do centro anuncia curso de samba reggae que era ministrado por ele. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Quem aparece no centro desta foto, de boné preto, é Mestre Jackson, principal discípulo de Neguinho do Samba e que no cortejo de despedida comandou os tambores desde o Largo do Pelourinho até a Praça Municipal. Embora de pouco falar, no final da caminhada Mestre Jackson tomou o microfone do carro de som estacionado ao lado do carro do corpo de bombeiros onde estava o corpo de Neguinho do Samba e deu seu testemunho sobre a história do samba-reggae. Ele começou lembrando que, embora os mais novos não saibam, havia muitas escolas de samba em Salvador que abaianaram o samba carioca, tornando-o mais cadenciado. Mestre Jackson disse que, antes de existir o Olodum, Neguinho do Samba era percussionista do Ilê Aiyê. João Jorge, fundador e presidente do Olodum, na época também era do Ilê. Depois que ambos saíram do Ilê, Neguinho do Samba criou uma banda de percussão que batizou com o nome do ritmo que ele havia inventado: Samba Reggae. Depois de algum tempo, continuou Mestre Jackson, João Jorge chamou Neguinho do Samba para o Olodum e foi assim que o samba reggae ganhou o mundo. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Toques de clarim são emitidos da sacada da Escola Didá para anunciar o início do cortejo fúnebre. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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A segunda da esquerda para a direita é a Negra Jhô, famosa cabeleireira do Pelô, criativa arranjadora de cabelo afro. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Em frente à sede do Afoxé Filhos de Gandhy, percussionistas fazem aquecimento à espera do cortejo que vinha descendo a rua em direção ao Largo do Pelô. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Integrantes do Cortejo Afro, bloco carnavalesco do Pelourinho, fizeram bonito durante a manifestação em homenagem a Neguinho do Samba. Eles marcaram presença também na noite de sábado, quando subiram ao palco do show de Arnaldo Antunes e prestaram um belo tributo a Neguinho do Samba, poucas horas depois de seu falecimento. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Na sacada do bar, de óculos escuros e camisa azul, o grande cantor Lazinho, um dos principais vocalistas dos primeiros tempos do Olodum, aguarda a passagem do cortejo. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Um dos filhos de Neguinho do Samba dá entrevista para a TVE. No final do cortejo, na Praça Municipal, ele falou para a multidão pelo microfone de um carro de som e contou como a geração de percussionistas da qual seu pai fazia parte foi inventando batidas e toques nos tambores até que Neguinho do Samba teve o grande saque ao inventar o samba-reggae. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Braço levantado, Tonho Matéria e seu vozerão puxam o canto da massa. "O negro segura a cabeça e chora..." – foi uma das muitas canções lembradas por Tonho Matéria, um dos primeiros cantores de sucesso do Olodum, que neste dia saiu comandando o vocal um pouco à frente da percussão regida por Mestre Jackson. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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O editor deste blog, Jary Cardoso, olha para a câmara enquanto acompanha o cortejo. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Banda Didá. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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No final do cortejo, uma cantora da Banda Didá falou à multidão exaltando o que para ela foi o maior feito de Neguinho do Samba: o seu trabalho social e educacional que deu vez às mulheres, abriu portas para elas poderem estar à frente do espetáculo tocando instrumentos e cantando. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

NEGUINHO DO SAMBA NÃO MORRE

03/11/2009

por MAÍSA PARANHOS

Confesso que, na condição de carioca, nascida e criada no Rio, não sou encantada pela Bahia. Minha impressão desta ‘Terra de Todos os Santos”, vem de minha vivência, não do encantamento, que poderia, a qualquer hora, receber o beijo despertador, que nos faz mais próximos do que seria o Real.

Quero dizer com isso que Neguinho do Samba não é encantamento, sujeito ao desencanto. Ao contrário, este Artista baiano veio para ficar. É materializado no som, no ritmo, em nossos corpos que a cada batida de percussão nos leva ao movimento que nos irmana a todas as pessoas e, sem exagero, ao Universo. Dançamos e somos abençoados em fazê-lo. Nossos corpos ganham dimensões desconhecidas quando ouvimos a batida do Olodum, e isso é real.

Determinados gênios possuem naturalmente este poder. Assim é, foi e será Neguinho do Samba, do Pelô, da Didá, das crianças, do som maior.

Gente assim engrandece não só a Bahia e o Brasil, mas a Humanidade.

Grata, é assim que me sinto.

NEGUINHO, SAMBA E DONOS DO “REGGAE”

03/11/2009
Neguinho de branco-Haroldo

NEGUINHO DO SAMBA – Foto: HAROLDO ABRANTES | Agência A Tarde

por JORGE PORTUGAL


Quando a célula rítmica do samba-reggae invadiu o coração de Paul Simon, a pélvis pop de Michael Jackson também foi tomada por um frisson alucinante.

Muito antes, bem antes de tudo isso, os negros de Salvador já viviam a utopia, através do som, de juntar Jamaica e Bahia em um sonho só.

Caetano Veloso costuma dizer que o Brasil ainda não merece a Bossa Nova. Seria o caso de se perguntar: e a Bahia merece o samba-reggae?

Sim, porque a sublime invenção do Mestre Neguinho do Samba permanece como o que há de mais avançado, musicalmente sofisticado e inspirador de tudo que se fez em nossa música depois da Bossa e da Tropicália.

Ouvir e ver o Olodum arrastando multidões pelo mundo é confirmar esse destino nosso de conjugar inteligência e alegria para produzir felicidade. Isso é coisa da Bahia. Coisa de negro, gostem ou não.

Aí, Zulu Araújo me liga de Brasília (e eu em Sergipe) e me comunica, num tom triste de voz, que Neguinho do Samba havia morrido e que precisávamos nos articular para o velório e enterro, vez que sua família não estava exatamente nadando em facilidades financeiras.

O filme voltou de vez. O primeiro engenho, a primeira catedral católica, as suntuosas casas de fazenda, os palacetes erguidos nas primeiras cidades, os filhos dos barões estudando em Coimbra ou Paris. E os negros cortando cana, quebrando pedra e cantando chula.

O samba-reggae, a batida do Ilê, do Malê e do Muzenza, a chula de João do Boi e Alumínio de São Brás serão sempre matrizes fundamentais da nossa criação. Os seus criadores são anjos negros que fazem tudo isso para celebrar o prazer e a vida. Dificilmente pensam em dinheiro. Aliás, não sabem sequer o que realmente significa dinheiro. Mas os “donos da festa” sabem, e sabem muito bem.

Por isso, Neguinho do Samba, Mestres Bimba e Pastinha, Besouro, Nelson Maleiro e Batatinha serão eternamente reverenciados e adorados pelo povo, de onde vinha sua inspiração e para onde voltava sua produção de alegria.

Morreram pobres todos eles. Pobres? E o que dizer dos que só podem fazer sucesso a partir do que eles criaram?

Neguinho: você é e será sempre fonte. Gênio da raça, meu rei.

Jorge Portugal – Educador e compositor

secretaria@jorgeportugal.com.br

SALVE NEGUINHO DO SAMBA (REGGAE)

31/10/2009
Neguinho do Samba

NEGUINHO DO SAMBA – Foto: IRACEMA CHEQUER | Agência A TARDE

MORRE O INVENTOR DO SAMBA-REGGAE


A Tarde On Line – Com informações da repórter Carine Aprile


Antonio Luís de Souza, 54 anos, mais conhecido como Neguinho do Samba, morreu no início da tarde deste sábado, 31, em Salvador, vítima de infarto. Segundo informações da família, Neguinho sofria de insuficiência cardíaca e diabetes e já vinha reclamando da saúde nos últimos 15 dias. Nesta madrugada, por volta das 3 horas, o músico sentiu um mal estar e foi de táxi ao posto médico de Pernambués. No local, ele foi medicado e retornou à sua residência, no Pelourinho, voltando a se sentir mal no início desta tarde, quando faleceu.

O músico chegou a pedir ajuda a uma de suas filhas, que imediatamente chamou o Samu, mas quando o serviço médico chegou ao local, o artista já não tinha sinais vitais. O velório será no salão da Associação Educativa e Cultural Didá, no Pelourinho. O dia e local do sepultamento do músico ainda não foi informado. A família aguarda a resposta de um dos sete filhos do maestro, que atualmente reside na Itália.

Fundador da escola de percussão do Olodum e do bloco Didá, ele também foi o inventor do ritmo “samba-reggae”, modificando tambores para conseguir afinações e sonoridades diferentes, criando um ritmo musical único, com a cara da Bahia.

Filho de um tocador de “bongô” e de uma lavadeira, Neguinho desde cedo treinava percussão tocando nas bacias de alumínio de sua mãe. Foi eletricista, ferreiro e camelô. Sua música chegou a ser internacionalmente reconhecida.

Maestro do Olodum, tocou com David Byrne, Paul Simon e Michael Jackson. Com Simon, o Olodum gravou o CD The Rhythm of the Saints, em 1990. Feliz com o resultado do trabalho, Simon procurou o músico e lhe ofereceu um carro importado como forma de agradecimento. Neguinho agradeceu a oferta, mas preferiu mudar o presente, e, em vez de um carro, escolheu uma casa no Pelourinho, no mesmo valor, onde fundou sua escola.

Neguinho do Samba aparece no clipe de Michael Jackson They Don’t Care About Us, vestido nas cores do pan-africanismo (verde, amarelo e vermelho) regendo os percussionistas do Olodum.

Didá –
O projeto nasceu pelas mãos de Neguinho, que via a necessidade de oferecer para as mulheres, principalmente as negras, um espaço para expor suas idéias e desenvolver atividades. Didá é uma associação cultural e sem fins lucrativos fundada em 1993 e que atua promovendo gratuitamente atividades educativas com base na arte e nas manifestações populares criadas e mantidas pelos africanos e por seus descendentes.

Atualmente, a instituição oferece 11 cursos – percussão dança afro, teatro, capoeira, artesanato, canto, bateria, violão, cavaquinho, teclado e sopro, e chega a atender entre 600 a 800 crianças e adolescentes por ano.

Além dos cursos, o projeto se estende ao bloco afro carnavalesco, loja de artigos Didá e o projeto Sòdomo, centro de aprimoramento feminino Didá Banda Feminina.


NOTA DO EDITOR – Soluçando, em lágrimas, presto um tributo a Neguinho do Samba, criador do samba-reggae, falecido hoje no início da tarde, lembrando o vídeo de Michael Jackson gravado no Pelourinho e no Rio e que no final tem um solo fabuloso da giga-Banda Afro Olodum.