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A MORTE E O MISTÉRIO DA VIDA

02/11/2009

por VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

Se é verdade que não há um acordo sobre o mistério da vida, é digno de nota que o sentido da morte sempre foi motivo de preocupação para as civilizações antigas, basta olharmos para o Egito ou para os maias, incas e astecas.

Para os povos africanos, a morte não tem o sentido cristão de castigo, nem aniquilamento, ao contrário, segundo um provérbio, “não se vive para morrer, mas se morre para viver”.

Dentre os iorubás, um mito bastante conhecido nos ajuda a entender esta realidade. No início do mundo, quando Oxalá procurava algo para fazer os seres vivos, o único que serviu foi uma mistura de água e terra trazida por Iku, um príncipe cego.

Assim, a experiência da morte seria o retorno para as nossas origens, o mundo ancestral, aquele que os nossos olhos não veem, salvo em ocasiões especiais, quando os antepassados se apresentam sob tiras de panos, como na sociedade secreta de Egungum.

No final do mês de setembro, início da primavera, as religiões de matriz africana experimentaram a passagem para o mundo dos antepassados de duas grandes sacerdotisas, Mãe Hilda Jitolu e Mãe Regina Bangboxé – no dia 25 de setembro, após sessenta anos de residência na Baixada Fluminense.

PRIMÓRDIOS DO CANDOMBLÉ

Para entendermos o significado desta última, temos que nos remontar ao momento de constituição das religiões de matriz africana reorganizadas no Brasil, a partir de elementos iorubás, aqui designados nagô ou ketu.

Antes dos meados do século XIX, momento de entrada maciça de africanos vindos de reinos como Ketu, Oyo, Ibadan, Ilorim, Igexá e outros, chega ao Brasil Rodolfo Martins Andrade, “nome de branco”, que certamente herdou de seu antigo senhor como era o costume.

É o período de muitas idas e vindas de africanos e africanas da Costa da África para o Brasil, especialmente a cidade de Salvador, onde faziam negócios mas também de constituição dos primeiros cultos aqui organizados, posteriormente denominados candomblé.

Africano, Rodolfo Martins Andrade, era reconhecido pela comunidade que começava a se formar pelo título de Bangboxê Obitikô.

Se é certa a ideia trazida pelo professor Vivaldo da Costa Lima de que Yanassô era em Oyó, centro político do “povo ioruba”, alguém que cuidava do culto ao rei, é verdade também que Bangboxê Obitikô foi figura central no momento de organização do culto a Xangô, ainda na Igreja da Barroquinha, posteriormente disseminado para outras partes da cidade, mas sobretudo para o candomblé do Engenho Velho, hoje conhecido como Casa Branca.

Se Yanassô tinha a função de zelar o culto ao Rei, Bangboxê Obitikô trazia o segredo das dinastias dos reinos de Oyó, reconstruídos após inúmeras invasões, representado pelo oxê, machado de duas lâminas, símbolo real por excelência.

TIO BANGBOXÊ

No Brasil, o Tio Bangboxê como é invocado nos terreiros, constituiu longa descendência, seja através de suas viagens ao Recife, Rio de Janeiro, Porto Alegre, seja pela família consanguínea que formou.

Foi o Tio Bangboxê, por exemplo, quem ajudou a iniciar Eugênia Anna dos Santos, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das crioulas mais importantes no mundo afro-brasileiro na década de trinta.

Com Mãe Aninha, o rei teria nascido, pois Xangô já havia chegado na sua filha consanguínea Júlia Maria Andrade que com a morte de seu pai, tomou para si a função de guardar os segredos de Xangô. Isso é lembrado numa cantiga que diz: awo oxê mi agué miro, “o segredo do oxê esta conosco”, que logo depois é substituído pela palavra Bangboxê mi. O tio Bangboxê era o próprio segredo de Xangô.

Tia Júlia foi mãe de Felisberto Américo Sowzer, chamado carinhosamente de Benzinho. Tio Benzinho era homem de negócios, falava inglês e vivia a sua religião com muita discrição. Como seu avô, fez viagem por todo o Brasil, mas como lembra a sua única filha viva: “Papai nunca viveu de candomblé”.

MÃE CAETANA

Ao contrário do mal entendido causado por Pierre Verger ao afirmar que Felisberto Sowzer rivalizava com Martiniano Eliseu do Bonfim, chama a atenção Tia Irene com 89 anos: “Eles eram muito amigos.” Até porque o primeiro era babalawô e o segundo oluwó, olhava nos búzios como se diz hoje. De Tio Benzinho nasceram Tertuliana Souza de Jesus, Caetana América Sowzer, Crispim, Regina Taurino e Irene que continua comandando o terreiro de Tia Júlia no Matatu de Brotas.

PAI AIR

Tertuliana Souza de Jesus era descontraída e animada, foi mãe biológica de Air José Sousa de Jesus, que em 1963 fundou o Terreiro Pilão de Prata com a ajuda de sua tia consanguínea Mãe Caetana, que lhe iniciou ainda criança, conforme tradição da família. Mãe Caetana era uma mulher de “muitas prendas”, adorava crianças, mas amava música, tocava violino.

Pai Air desde cedo tomou a responsabilidade de reunir os elementos trazidos pelo Tio Bangboxê dando continuidade à tradição de sua família. Em 1993, após a morte de Mãe Caetana – que fundou uma casa chamada Lajuomi em 1941 – ela foi sucedida pela sua sobrinha Haidê Paim, carinhosamente chamada de Mãe Dede.

Tia Regina faleceu aos 98 anos de idade com mais de noventa anos de iniciação. Era filha de Yemanjá, e, muito serena, há menos de um ano e meio resumiu o que estamos falando. Num documentário sobre os 14 anos de falecimento de Mãe Caetana, ela disse: “Aqui estou até o dia em que Olorum quiser. Uma certeza eu tenho: um dia eu vou me encontrar com ela no outro lado.”

PRINCÍPIO DA ANCESTRALIDADE

Este é o princípio da ancestralidade. Afinal, como temos lembrado, os que nascem são sempre vivos, como relembra uma das músicas cantadas na ocasião da morte: “Os iniciados no mistério não morrem, os iniciados no mistério não desaparecem, os iniciados no mistério retornam para a casa do mistério, a casa do renascimento.”

Durantes estes dias, branco é a cor obrigatória pois ela cega a morte, assim fez Oxalá após saber que Iku marchava em direção ao povo de efan após ter “levado” consigo muitas cidades. Oxalá pegou a galinha da angola e a encheu de pontinhos brancos, assim a morte se assustou e deixou o povo em paz.

Durante os próximos dias, comida, dança e bebida celebram não a morte, mas a vida. Afinal, “mais triste do que partir sem ter gozado a vida, é no momento de deixar a vida não ter nenhum motivo para ficar triste”.

Por isso choramos, não pela morte que nos traz a certeza da continuidade, mas pela saudade. Nossos antepassados estão sempre conosco, são os nossos olhos que nos separam deles.

Tia Regina como tantos outros permanecerá conosco, ora na família de sangue que construiu, ora na família de santo que formou.

Mas como contar esta filosofia para as crianças, por exemplo? Basta dizer que nossos pais e nossas mães transformaram-se em estrelas, afinal não somos modelados com a mesma matéria dos astros. Agora o céu está mais brilhante. Ou simplesmente podemos resumir o sentido da vida lembrando a cantiga que diz: “O médico que nos cura morre, o palhaço que nos diverte morre, bobo a umló, todos nós morremos.”

*Vilson Caetano de Sousa Junior – Doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da UFBa, filho do Terreiro Pilão de Prata

CACHOEIRA DA BOA MORTE

13/08/2009
Integrantes da Irmandade da Boa Morte no primeiro dia da festa deste ano, em Cachoeira. Foto: Reginaldo Pereira | Agência A Tarde 13.8.2009

Integrantes da Irmandade da Boa Morte no primeiro dia da festa deste ano, em Cachoeira. Foto: Reginaldo Pereira | Agência A Tarde 13.8.2009

por ZÉDEJESUSBARRÊTO*

 

É no presépio plantado às margens do Paraguaçu, recôncavo baiano, que se abriga uma das maiores relíquias afrobaianas:

A irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte.

Um exemplo de resistência e de identidade de um povo que, mesmo diante da voracidade destes tempos digitais, preserva seus costumes ancestrais à base da tradição oral.

Geração a geração.

Manifestação também do mais puro sincretismo religioso baiano, memória dos tempos de escravidão, quando os batuques da noite ecoavam nos altares das igrejas e os cânticos das procissões complementavam as obrigações dos terreiros jêje-nagôs, entre plantações de fumo e canaviais.

A secular irmandade da Boa Morte, de acordo com os estudiosos e os costumes, é uma confraria exclusivamente feminina fundada na Igreja da Barroquinha, em Salvador, ainda no século XVIII, por africanas libertas nagôs (iorubanas, vindas do Benim/Nigéria) e vinculadas ao candomblé.

O termo ‘Boa Morte’ é uma referência à crença católica de que Maria, a mãe de Jesus, não morreu, apenas dormiu e seu corpo teria sido levado aos céus pelos anjos de Deus.

Trata-se da chamada Assunção de Nossa Senhora, um mistério de fé que a igreja católica celebra com pompas litúrgicas no dia 15 de agosto, a data da missa solene e da grande procissão dos festejos da irmandade das negras de Cachoeira.

O culto à chamada ‘boa morte’ ou ‘dormição de Maria’ já existia desde as origens católicas no Brasil, trazido pelos portugueses e materializado em imagens e templos dedicados a Nossa Senhora da Glória ou da Vitória.

A ‘glória’ e a ‘vitória’ sobre a morte.

Para as negras nagôs, no entanto, o culto a Nossa Senhora, a Virgem Maria que não morreu e subiu aos céus, nunca significou uma negação da tradição e da fé ancestral nos Orixás (ketu/nagô) ou Voduns (jêje/nagô) africanos.

Tanto que, em torno de 1830, essas corajosas e libertárias mulheres (Yás) fundaram bem nos fundos próximos da igreja da Barroquinha um terreiro dedicado a Xangô (o rei de Oyó, sítio nigeriano), denominado Iyá Omi Axé Airá Intilé, considerado como um dos primeiros dos candomblés nagôs da Bahia, que deu origem à Casa Branca, ao Gantois e ao Axé Opô Afonjá.  

 A essa época, Salvador, a Cidade da Bahia, formigava de negros (boa parte nagôs, de língua iorubá) e os malês (nigerianos nagôs islâmicos) lideravam revoltas que inquietavam os poderosos da cidade, dando razões ao recrudescimento da intolerância étnica e religiosa, abrindo espaços e ‘justificando’ uma onda ainda maior de repressão contra os negros africanos escravizados e seus descendentes na capital baiana.

O quadro social de violência e de ameaças contra quaisquer manifestações dos negros tangeu mais tarde o terreiro de Xangô das proximidades da Igreja da Barroquinha e do centro da cidade, e dispersou muitos agrupamentos africanos em toda a área urbana. Assim, muitos desses afro-descendentes, os mais aquinhoados, retornaram à África. Outros, de pouca ou nenhuma posse, fugiram para o mato, esconderam-se nos arredores da urbe. Ou tomaram o rumo do recôncavo, onde se agregaram ao cultivo de roças, à labuta no cais e atracadouros de saveiros, puseram-se a serviço nas casas-grandes, nos engenhos de cana, no plantio do fumo, no serviço avulso de ganho, ou ainda sobreviveram no exercício de pequenos ofícios, aqui e acolá.

E teria sido assim, conforme relatos e estudos, que valentes mulheres nagôs, muitas de origem e herança jêje (de língua fon, do antigo Daomé, hoje Benim) levaram a devoção de Nossa Senhora da Boa Morte até vários sítios do recôncavo.

FESTA DA IRMANDADE DA BOA MORTE - Cachoeira. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

FESTA DA IRMANDADE DA BOA MORTE - Cachoeira. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

 

Somente resistiu ao tempo e preservou-se tão imponente até hoje a Irmandade da Boa Morte de Cachoeira, um dos maiores portos da região, escoadouro maior da riqueza do recôncavo para a capital.

Lá, à beira do Paraguaçu, nas encostas das suas margens, a fé em Maria e o culto jêje a Nanã (Vodum mais velho das águas, dos pântanos) e a Dã (a cobra, o arco-íris) permaneceram, lado a lado, bem vivos.

Como sempre aconteceu desde aqueles tempos, a prática dos rituais de devoção a Maria, mãe de Jesus, dormida e gloriosa, acontece todo mês de agosto e atrai muita gente, até do exterior, pela sua tradição e riqueza históricas.

Os rituais misturam reza de terço, ladainhas, cânticos, missas solenes, procissões, comilanças, danças e festanças populares com cerimônias, batuques e obrigações secretas nas madrugadas dos terreiros, cultuando com a mesma intensidade e fé em Maria, a Nanã Buruku, mãe de Exu e Omolu na tradição ancestral africana, e Dã, a serpente sagrada dos jêjes.  

O povo participa dos festejos onde acontecem jantares com comidas sagradas do culto afro; extasia-se com a beleza das cerimônias religiosas católicas de tons medievais, os trajes afro-tradicionais, os adereços ricos e raros das mulheres da irmandade garbosas em suas roupas ora brancas, ora coloridas, torços, colares, joias, balangandãs e panos da Costa. Um luxo!

São mulheres idosas, algumas com mais de 90 anos, todas descendentes de escravos.

Reza a tradição passada de mãe pra filha e cumprida rigorosamente, que só entram na irmandade mulheres acima de 45 anos, depois de arrefecido ‘o fogo’ da sexualidade.

A irmandade, que mantém sede, estatutos, regras, obrigações e hierarquia definidas sobrevive de doações arrecadadas na comunidade pelas iniciadas, de algum auxílio dos poderes públicos – que, afinal, se beneficiam da tradição que atrai turistas do mundo inteiro, principalmente dos Estados Unidos – e da ajuda de algumas organizações internacionais, como universidades que estudam/pesquisam essas manifestações históricas e populares.

As dificuldades para a preservação dos costumes são enormes e as relações com as autoridades da igreja católica nem sempre foram ou são fraternas, apesar dos anos de convivência.

Mas a Irmandade da Boa Morte resiste.

Como escreveu o antropólogo e professor Sebastião Heber Vieira Costa, autor do livro ‘A Irmandade da Boa Morte e o Ícone da Dormição de Maria’:

A expressão afro dessa festa, na sua interpretação da crença cristã, é exuberante, plástica e mística. As irmãs não se ‘apresentam’ apenas uma vez por ano, mas vivem o seu dia-a-dia em torno do evento, que se projeta nas suas vidas. É como se quisessem entrar, mergulhar no movimento morte-vida que a festa celebra. É como se todas tivessem celebrando as suas próprias ‘boas mortes’ que a primeira, a de Maria, quer, de algum modo, anunciar’.

 

Procissão em louvor a Nossa Senhora da Glória, em Cachoeira, Bahia. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

Procissão em louvor a Nossa Senhora da Glória, em Cachoeira, Bahia. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

No final, como tudo nesta Bahia do bom Deus, tudo acaba numa grande festança pelas ruas de Cachoeira:

Exibições de manifestações folclóricas com capoeira e maculelê, muito samba-de-roda (patrimônio da humanidade) e chula de terreiro.

A ‘morte’ vira uma festa.

A Boa Morte!

*zédejesusbarrêto, jornalista e estudioso de baianices.

13 de agosto/2009