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ESTÁ ERRADO DEMOLIR A FONTE NOVA

26/06/2010

Foto de FERNANDO VIVAS (Agência A Tarde) tirada em 21 de junho de 2010, o dia em que começou a demolição da parte inferior do Estádio da Fonte Nova, em Salvador

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texto de ANA FERNANDES*

(escrito em 25 de junho de 2010)

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Argumentos de toda ordem têm sido levantados por diversos autores e entidades para mostrar que a demolição da Fonte Nova é inadequada e descabida enquanto decisão de política pública para Salvador e para a Bahia. Projeto equivocado, produção desmesurada de lixo, desperdício de recursos públicos, comprometimento severo do tesouro estadual, afronta ao patrimônio histórico, cultural e ambiental, incompatibilidade do tipo de espaço proposto com o cotidiano social e esportivo da cidade são apenas alguns dos vários questionamentos já aventados.

Ou seja, para usar o jargão atual, o programa que ali se propõe construir é insustentável, com redução drástica da utilização esportiva do estádio, substituindo um complexo olímpico por uma arena de luxo.

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 21.6.2010

Vale lembrar o contexto no qual a Fonte Nova foi concebida.

Num dossiê do início dos anos 40, intitulado “Praça de Esportes da Bahia, Sugestões para a Organização do Departamento Estadual de Educação Física”, Mário Leal Ferreira, reconhecido por seu importante trabalho frente ao EPUCS (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador), assim escreve:

“As obras do Estádio em construção na capital da Bahia fazem parte de um conjunto de instalações destinadas ao desenvolvimento do programa de atividades educacionais a ser posto em prática por um novo órgão do governo, que será criado no devido tempo, sob a denominação de Departamento Estadual de Educação Física”.

Continua ele: o projeto, com a “firme determinação de assegurar, à educação física e à prática dos esportes, legítimas características cívico-sociais, visará o desenvolvimento harmonioso das qualidades físicas, morais e intelectuais do indivíduo – penhor de alegria, felicidade e eficiência, na paz, e de intrepidez e fortaleza de ânimo, nas grandes emergências. Procurará, assim, associar, intimamente, a recreação do espírito ao exercício do corpo, de modo a interessar indivíduos de todas as idades, condições sociais e educação, despertando neles o elevado e comum anseio de uma vida mais forte e digna de ser vivida.”

Embora bastante focada também em ideais de eugenia, que serão correta e severamente criticados nas décadas seguintes, há de se destacar três valiosos pontos nessa proposta.

Primeiro, ela insere o esporte na política de educação, integrando-o à política de desenvolvimento do estado.

Segundo, é universalista, e busca atingir toda a população.

Terceiro, introduz valores imateriais na condução da coisa pública, como alegria, felicidade, intrepidez.

Dessa política resultou uma feliz resolução plástica do estádio, particularmente em termos de sua integração à paisagem. União de espírito público com modernidade de pertencimento e sintonia com o mundo.

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde

Quais as justificativas que vêm sendo divulgadas para a demolição da Fonte Nova? Exigências da Fifa, criação de centro de negócios, construção de shopping center, centro empresarial, camarotes, salas e acessos vip, estacionamentos a granel, arena monofuncional.

Rigorosamente, um programa de obras, que, neste caso, nada tem a ver com o esboço de uma política pública para os esportes e para o desenvolvimento da Bahia.

A Copa pode também ser acolhida em Salvador, e com ela seu suposto corolário de investimentos, com a recuperação da Fonte Nova, ao invés de sua demolição. O plano de negócios e de compromissos certamente poderá ser refeito, tendo em vista o que está em vias de acontecer em outras cidades e tendo em vista o compromisso social e público das empresas envolvidas, como recorrentemente explicitado em colunas semanais desse mesmo prestigioso jornal.

E o Ginásio do Balbininho já veio abaixo. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 21.6.2010

Como educadora, resisto muito a utilizar o erro como classificação de propostas muitas vezes incongruentes dos estudantes, dado que o erro é uma forma legítima de exploração do aprendizado e, muitas vezes, de criação. No entanto, dado que no presente caso a experimentação é já a destruição, só me resta afirmar: está errado demolir a Fonte Nova. E perguntar: que legado público – e não apenas privado – se quer deixar para a cidade do Salvador e para a Bahia, no pós-2014?

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*Ana Fernandes – Professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia

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NOTA DO EDITOR – O artigo acima da Profª. Ana Fernandes foi publicado originalmente em Opinião de A Tarde neste sábado, 26 de junho de 2010. Já o texto abaixo, outro que enfoca o destino do Estádio da Fonte Nova, de autoria de zédejesusbarreto, também saiu dez dias antes nessa mesma página do jornal baiano.

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Nossa Copa já

começa em julho

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texto de zédejesusbarreto*

(escrito em 14 de junho de 2010)

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Vendo, por fanatismo, o ‘clássico’ Eslovênia x Argélia pela Copa da África, ‘babinha’ nada superior a um Feirense x Ipitanga – perdoem-me os simpatizantes desses timaços baianos –, dei-me conta de que são esses joguinhos classificatórios de tabela de Copa que presenciaremos na tal ‘Arena’ da Fonte Nova que está por vir.

Aliás, para melhor entendimento, vão demolir/implodir a Fonte Nova, arte do grande Diógenes Rebouças, com consultoria de Niemeyer, e gastar bilhão pra plantar no mesmo lugar uma tal ‘arena multiuso’, estilo holandês-germânico, com o fim de abrigar uns três ‘clássicos’ desse naipe, entradas a preço de Barcelona X Inter de Milão. É isso, não nos enganemos. Depois, fica o ‘colosso’ do elefante pra gente alimentar.

Falando em Copa, o secretário especial Ney Campello está na África do Sul. Diz ele que observando as coisas, o funcionamento dos estádios, comportamentos, para que a Bahia não faça feio em 2014. Tá bom! Quantos na comitiva? Quem banca o ‘rolê’?

O pessoal da natação espera a piscina olímpica prometida, para que possa treinar de olho nas Olimpíadas de 2016, no Rio. Porque o que fizeram até então na Fonte Nova foi desalojar Bobô e sua turma, fechar as piscinas e fazer um cercadinho no entorno do estádio pra dizer que há obras.

A questão da Fonte Nova ainda vai ‘render buxixo’ até a arena existir.

O que parece mais encaminhado em termos de projetos urbanos, visando a questões de infraestrutura e mobilidade/transporte, é a opção pelo sistema BRT-Bus Rapid Transit, de buzus articulados em vias segregadas rasgando o miolo da avenida Paralela, ligando o aeroporto ao Acesso Norte/ estação do Metrô.

Acordam os técnicos da prefeitura, governo e sindicato dos empresários de ônibus que é a solução mais barata e possível para resolver de imediato o gargalo Paralela-Iguatemi. Seria um começo de modernidade no âmbito do transporte de massa na cidade.

É só o que temos, por enquanto, para a Copa do Mundo 2014 na Bahia, que começa já, neste meado de julho próximo, quando acaba a Copa Africana. Ganhe ou perca a seleção do tenente Dunga.

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*zédejesusbarreto Jornalista e escrevinhador

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OUTRA NOTA DO EDITOR – O grande zédejesusbarreto já anunciava, em texto escrito em 25 de novembro de 2009, o “Réquiem do Estádio da Fonte Nova”, que foi publicado originalmente em Opinião de A Tarde e reproduzido pelo blog JEITO BAIANO. Veja o link:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/26/requiem-do-estadio-da-fonte-nova/

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