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MÃE SENHORA – 110 ANOS DO NASCIMENTO

31/03/2010

Foto de PIERRE VERGER copiada do Google Imagens

 

OXUM MUIWÁ

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texto de JOSÉ FELIX DOS SANTOS*

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Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, Oxum Muiwá, filha legítima de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, nasceu em 31 de março de 1900, na Ladeira da Praça em Salvador, Bahia.

Era descendente da nobre e tradicional família Asipá, originária de Oyo e Ketu na África, importantes cidades do império Yoruba. Sua trisavó, Sra. Marcelina da Silva, Oba Tossi, foi uma das fundadoras da primeira casa da tradição nagô no Brasil o Ilê Axé Aira Intile, Candomblé da Barroquinha, depois Casa Branca do Engenho Velho, que deu origem aos terreiros do Gantois (Ilê Axé Omi Iyamassê) e o Ilê Axé Opô Afonjá, do São Gonçalo do Retiro.

Não se tem muita informação sobre a vida de Maria Bibiana, do nascimento até os 7 anos, talvez em razão da pouca importância que se dá nas comunidades de candomblé aos fatos e datas da vida secular e do pudor cerimonioso com que são tratados os fatos da vida pessoal dos seus membros, sobretudo aqueles tornados líderes, com uma posição e autoridade a serem preservados.

O que sabemos é que foi iniciada aos 7 anos de idade e, nesta época, já recebeu de sua mãe-de-santo, Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, a “cuia” que pertencera à sua bisavó, Marcelina Obatossí. O merecimento excepcional obtido por Senhora em tão tenra idade, deveu-se à sua linhagem familiar e espiritual.

Senhora foi preparada por Obá Biyi para ser sua sucessora. No Axé Opó Afonjá foi a Ossi Dagã e nas ausências de Mãe Aninha, assumia os cuidados com o culto e os filhos da Casa, auxiliando as tias e irmãs mais antigas no comando da comunidade.

Com a morte de Mãe Aninha e “depois de realizadas todas as obrigações e preceitos de acordo com a liturgia da seita, e tudo regularizado dentro do Axé Opô Afonjá”, em junho de 1939, Mãe Senhora assume, ainda com o título de Ialaxé, a direção do terreiro – “como era de direito, devido à sua tradicional família da nação Ketu, ao lado de Mãe Bada, Maria da Purificação Lopes, Olufan Deiyi, já idosa, mas reconhecidamente sábia e experiente, propiciando uma transição segura e tranquila até a sucessão concluída com sua morte e luto ritual. Segundo Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, seu único filho biológico, Mãe Senhora torna-se de fato e direito a Ialorixá do Axé, em 19 de agosto de 1942.”

No Ilê Agboulá, comunidade do culto dos Eguns de Ponta de Areia, ilha de Itaparica, exerceu sua liderança e recebeu o título mais elevado dado a uma mulher – Iya Egbé.

Sua fé em Xangô era inabalável, e sua dedicação ao orixá de sua mãe-de-santo era “maior até que ao seu próprio orixá” – que ela chamava de “meu anjo da guarda”.

Mesmo não residindo “na roça”, estava presente e tudo controlava com extremo rigor e pontualidade, empenhando todos os esforços para a fidelidade dos preceitos com entusiasmada dedicação.

Esta Senhora de Oxum de forte personalidade, deu seguimento às comemorações e festas tradicionais de acordo com o calendário estabelecido por Dona Aninha. Mantinha muitos dos hábitos instituídos por sua mãe-de-santo, como ter a sua manutenção econômica assegurada por atividade independente do sacerdócio.

Vivia o sacerdócio como uma missão. A partir de 1942, Senhora, já ialorixá, começou a tomar providências importantes para neutralizar as reticências e oposições que por ventura ainda perdurassem no interior do egbé e a substituir cargos tornados vacantes por afastamento, morte ou para reforçar sua liderança.

Criou então os cargos de substitutos no quadro dos Obás de Xangô – os otuns e os ossi obás – ou seja, os primeiros e segundos substitutos dos titulares, ampliando o quadro inicial dos 12 titulares para 36. E aprimorou a instituição, definindo suas funções e estendendo a escolha dos obás para o âmbito social, além dos limites da comunidade religiosa.

Provavelmente já como fruto desta nova orientação no corpo dos obás, Senhora e o Axé começaram a colher frutos importantes. Pierre Verger, que desde 1946 fixara residência na Bahia e, a partir de 48, fazia frequentes viagens à Africa, já desenvolvendo pesquisas, tornou-se um interlocutor interessado na retomada das relações entre afro-brasileiros e africanos. Foi assim, que em 1952, Dona Senhora, Oxum Muiwá, recebeu do Oba Adeniram Adeyemi, o Alafin (rei) de Oió, na Nigéria, um edun ará e um xerê de Xangô, acompanhados de uma carta, tratando-a com título de Iyanassô.

Como explica Vivaldo da Costa Lima, num artigo intitulado Ainda sobre a Nação Queto, Iyanassô é um título altamente honorífico, privativo da corte de Alafin de Oió, isto é, o “rei de todos os yorubás”. É a Iyá Nassó quem, em Oió, a capital da nação política dos yorubás, se encarrega do culto de Xangô, a principal divindade dos yorubás e o orixá pessoal do rei.

Dona Maria Bibiana do Espírito Santo comungava do entusiasmo de Pierre Verger de verem reatadas as relações culturais com a África e recebia com frequência a visita de intelectuais e embaixadores de países africanos como Daomé, Ghana e Senegal. O governo senegalês conferiu-lhe, em 1966, a comenda do “Cavalheiro da Ordem do Mérito”, pelos relevantes serviços prestados na preservação da cultura africana no Novo Mundo.

 

Mãe Senhora quando jovem

Dona Senhora de Oxum teve a satisfação de ver reconhecida a sua liderança espiritual, ainda em vida, em muitas homenagens que recebeu:

Em 1957, por ocasião do cinquentenário de sua iniciação, foi homenageada com uma grande festa no barracão do Axé lotado dos filhos-de-santo, obás e demais integrantes do egbé, delegações dos mais diversos candomblés da Bahia, personalidades da vida intelectual, muitas delas vindas do Rio de Janeiro e São Paulo, inclusive representações do presidente Juscelino Kubitschek e do seu ministro da Educação.

Em 1959, por ocasião do IV Colóquio Luso-Brasileiro, realizado pela UFBA, Dona Senhora ofereceu no Axé um grande amalá de Xangô, numa festa pública dedicada aos congressistas. Durante a festa, o escritor Jorge Amado saudou os convidados, em nome do terreiro e de sua ialorixá, dizendo “…Estais em vossa casa porque este terreiro de Xangô, este candomblé de Senhora, tem sido – permanentemente e sempre – uma casa da cultura e da inteligência baiana… somos orgulhosos deste templo e de seu significado. Aqui passaram e estudaram Martiniano do Bonfim, babalaô da casa, nosso Édison Carneiro, o feiticeiro Pierre Verger e hoje nós, homens de cultura, somos os defensores do seu segredo e de sua grandeza, ao lado desta figura invulgar de mulher, feita de uma só peça, rainha, se a este título damos sua significação mais profunda…”

Em 1965, Mãe Senhora recebeu o título de “Mãe Preta do Brasil” e foi aclamada pelas comunidades religiosas afro-brasileiras, que lotaram o Maracanã, no Rio de janeiro, com seus representantes, além de políticos e jornalistas.

Deixamos com Mestre Didi, seu filho e importante historiador da tradição da sua comunidade, a notícia do seu falecimento: “No dia 22 de janeiro de 1967, Maria Bibiana do Espírito Santo veio a falecer pela manhã, ao nascer do sol… Mãe Senhora, assim, como todos os de sua família, morreu de repente, e talvez por isso pareceu impossível a muitos acreditar na notícia da sua morte. Tão forte ainda, aparentemente tão sadia, com aquela presença de rainha, sua força de comando, sua intimidade com os orixás!”

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*José Felix dos Santos – Bisneto de Mãe Senhora, Otun Algba do Ilê Axipa, Ogã do Ilê Axé Opô Afonjá

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NOTA DO EDITOR – O texto acima é um resumo da introdução do livro Maria Bibiana do Espírito Santo – MÃE SENHORA: saudade e memória, organizado por José Felix dos Santos e Cida Nóbrega – Salvador, Corrupio, 2000, 184 p.

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A BÊNÇÃO, MÃE STELLA

13/09/2009
FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: REJANE CARNEIRO | AGÊNCIA A TARDE

por zédejesusbarrêto

Maria Stella de Azevedo Santos, 84 anos, a Mãe Stella de Oxóssi, Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de nação ketu fundado em 1910, no bairro de São Gonçalo do Retiro, um dos mais respeitáveis do candomblé baiano, é uma mãe-de-santo moderna e rigorosa na prática dos fundamentos de sua religião. É uma sacerdotisa, senhora do saber, matriarca de uma linhagem iorubá nigeriana, com raízes na cidade de Oyó, reino de Xangô, que deu à Bahia mulheres inteligentes e marcantes como a pioneira Yá Nassô (dos terreiros da Barroquinha e Casa Branca, século XIX), Menininha do Gantois, Mãe Aninha (fundadora do Opô Afonjá), Mãe Senhora, todas já no reino dos ancestrais.

Por escolha de Xangô, com a morte da Yá Ondina, Mãe Stella abandonou a profissão de enfermeira e assumiu o comando do Opô Afonjá em 1976. Desde então, dedica-se à preservação do culto e à transmissão do conhecimento, mantendo a tradição oral, e também  através de escritos e livros, como “Oxóssi,O Caçador de Alegrias” (dedicado ao Orixá da caça, que rege a sua cabeça) ; “Meu Tempo é Agora”, escrito com o propósito de disseminar ensinamentos; “Owé –Provérbios”, em português e iorubá; e “Epé Laiyé –Terra Viva”, uma parábola para crianças, em defesa da natureza-mãe: “O que não se registra o vento leva”, diz com sabedoria.

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella autografa o seu livro mais recente, "Epé Laiyé –Terra Viva", durante o lançamento, este ano. Na fila, ao fundo, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito. Foto: VILMA NASCIMENTO

Mãe Stella está sendo homenageada esses dias pelos 70 anos de iniciação como filha de Oxóssi (Odé). Seu nome sagrado em keto/ioruba é Odé Kayodê, que significa ‘Caçador da alegria’.  Durante a semana ela foi agraciada com o título de doutora ‘honoris causa’ da UNEB e neste sábado (12.9.09) à noite os atabaques do Ilê Axé Opô Afonjá bateram em sua honra.

Stella é o cromo da vida./ Stella rabisca em mim/ a aquarela vermelha de Xangô/ meu pai e o outro que eu sou./ Stella me dá a Xangô./ X angô me dá a Stella./ Stella acende a grande fogueira de estrelas./ Stella de Oxóssi é a dama do balé dos silêncios”

(Fernando Coelho, Ogã de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá, jornalista e escritor)

Eis alguns pensamentos da sacerdotisa de Xangô:

“A natureza conversa conosco a todo momento, basta saber entendê-la ou dar mais um pouco de atenção a ela. Tudo o que a nossa religião professa advém da natureza”

“O Candomblé não é um produto do turismo étnico. Somos uma religião, temos nossa liturgia, uma teologia, dogmas e segredos. Temos de preservar nossos princípios e valores com todo o respeito”

“É só frequentando a roça que se aprende a religião, e se aprende no desempenho das tarefas mais simples”

“Vivemos o tempo presente, nosso tempo é hoje, já, agora. Só pode falar ‘em meu tempo’ alguém que não faça mais parte deste tempo: depois de ter atravessado a porteira do tempo… Quem vive é deste tempo, de agora!”

“Falar de um Orixá é voltar no tempo, tentando decifrar o mistério do indecifrável, aquilo que apesar de ser experienciado, vivido e sentido não pode ser traduzido em uma única forma, pois tendo todas as formas, nenhuma delas o revela

Os orixás são concebidos como seres primordiais, expressões divinas das forças da natureza, um poder imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos através do fenômeno da incorporação”

“A vestimenta de cor preta, para nós, é negativa. Nunca se entra num Ilê Orixá com roupas pretas. Aliás, o mais importante é que não se penetre  em casas e quartos de Orixá sem o convite da Iyalaxé ou de alguém responsável e com poderes para isso”

“Dou um conselho aos visitantes e amigos do Axé: Não perguntem, observem!”

“Quem for a uma festa de Orixá, num terreiro, chegue com respeito e amor. Nada é cobrado, nada se fotografa, nada é gravado. Ali é um lugar sagrado, não deve ser profanado. Os terreiros estão abertos a todos que souberem chegar”

“A fé não se impõe, nem se chega a ela pelo intelecto. Chega-se ao orixá pelo coração”

“Você pode até ir à missa e ao candomblé, mas não mistura santo com orixá. O sincretismo é resquício da escravidão, o senhor queria que o negro fosse católico e ele, para agradar, dizia que era. Mas agora somos livres, não precisamos disso”

“O descendente de africano não é obrigado a ser de candomblé. Isso é ridículo. Não escolhemos o Orixá, ele é que nos escolhe”.

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

FOTO: XANDO PEREIRA | AGÊNCIA A TARDE

SETENTA ANOS DE AXÉ

por Marlon Marcos*

Ela é neta de Aninha de Afonjá e filha de Mãe Senhora de Oxum. Por pouco não foi iniciada na liturgia do candomblé por Mãe Menininha do Gantois. É regida pelo senhor da fartura, patrono dos caçadores, o altivo orixá do azul turquesa: Odé, mais conhecido como Oxóssi. Maria Stella de Azevedo Santos nascida em Salvador, em 2 de maio de 1925, enfermeira de profissão, é hoje a sacerdotisa da religião dos orixás mais prestigiada no mundo.

A história desta mulher dialoga, representa e acende nossas memórias acerca dos principais acontecimentos sobre as práticas do candomblé na Cidade da Bahia. Mãe Stella foi consagrada ao seu eledá, orixá principal, em 12 de setembro de 1939, aos 14 anos de idade, no Ilê Axé Opô Afonjá, pela já lendária Mãe Senhora de Oxum. Neste mês da Primavera, Iyá Stella faz 70 anos de iniciação nos fundamentos religiosos desta religião civilizatória no Brasil: o candomblé.

E a Bahia para e reflete sobre a importância de se ter uma mulher negra no comando de uma espiritualidade ainda tão atacada, incompreendida e vilipendiada pela presença do racismo e da intolerância de ordem religiosa. Uma mulher que se escreveu na história do seu país afirmando a sua religião, organizando e ampliando a sua comunidade, educando, escrevendo livros, preservando nossa ancestralidade, respeitando os rituais sagrados que lhe foram confiados por suas “mais velhas” e, politicamente, exercendo seu sacerdócio dignamente sem abdicar de suas demandas existenciais.

mãe-stella-4-CRIANÇAS

Uma história que se conta para marcar as conquistas femininas no século XX, e mais ainda, referendar a força das mulheres negras da Bahia que, através do candomblé, deram identidade cultural ao nosso povo, nos livrando assim, da esquizofrenia social.

Hoje, aos 84 anos, Mãe Stella serve de modelo e imagem de movimento. Ao iniciar novos filhos, sob a égide sacerdotal das filhas de Obá Biyi, Mãe Aninha, ela amplia com qualidade o número de adeptos de nossa religião e nos faz crescer e permanecer lutando a favor do culto amoroso e sério a nossos orixás.

Toda vez que olho para ela, Mãe Stella, lembro-me de Simone de Beauvoir e do orgulho que a filósofa teria por pertencer a esta construção cultural chamada mulher, a qual a iyalorixá baiana tão bem representa. Sua bênção, Iyá Stella.

*Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

(Artigo transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, 12.9.09)