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A CASA DE RETIRO, NÃO!

24/06/2010

Fachada da CASA DE RETIRO DE SÃO FRANCISCO – Foto de WALTER DE CARVALHO | Agência A Tarde – 24.6.2010

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Existe no coração de Salvador, na rua Waldemar Falcão, em Brotas, ao lado do Candeal, um oásis de calma e sossego, um monumento aberto ao silêncio e à paz, uma fonte concreta daquilo que chamamos “qualidade de vida”. Inúmeras pessoas que para lá se dirigem, a fim de passar algumas horas, uma tarde, ou mesmo dias sabem que aquele santuário vivo é um dos grandes bens espirituais e humanos que ainda restam de uma cidade estressada, corrompida, deformada, apartada, aviltada pela velocidade e o lucro.

Esta cidade já se esqueceu de que foi criada para as pessoas e não o contrário. Continua, assim, ameaçando a vida com seus automóveis, sua poluição, seu abismo social e, sobretudo, com a ganância insaciável dos que se julgam seus donos.

Pois são esses “pretensos donos da cidade” que agora afiam suas garras e dirigem seu instinto predador para a Casa de Retiro de São Francisco. Como uma fera voraz capaz de rasgar as entranhas e comer os próprios filhos, essa gente insana trama a destruição de um dos últimos refúgios que resistem em uma metrópole terminal.

A Casa de Retiro é o resultado de uma “articulação do bem” que contou com doações de famílias baianas de boa vontade e do empreendedorismo humanista do Dr. Norberto Odebrecht, que a construiu.

Tudo isso sob a liderança da fé do frei Hildebrando Krutaup como uma dádiva à plenitude espiritual, e também como um centro de assistência médica, odontológica e psicológica a tantos que necessitam.

Seus magníficos jardins, a capela de Lourdes a céu aberto sob a copa de uma frondosa mangueira, seus corredores e pátios de convidativo silêncio, o abraço materno e aconchegante das freiras que lá vivem falam-nos de um mundo de reflexão e de profunda entrega do que temos de melhor em nós mesmos.

Vale a pena conhecê-la, leitor(a) querido(a). Conhecê-la e defendê-la, como sempre fazemos quando identificamos uma boa causa por que lutar.

Vamos dar um basta à especulação inconsequente e aos falsos “bons negócios” que só geram lucros para os poucos de sempre.

Pela vida, pela paz, pela solidariedade e pelo sonho de uma cidade mais humana, vamos dizer em alto e bom som: a Casa de Retiro, não!

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*Jorge Portugal – Educador e membro do Conselho Nacional de Política Cultural

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PROF. JORGE PORTUGAL LANÇA DESAFIO

22/02/2010
Foto de MAURÍCIO REQUIÃO

COMPETIÇÃO DE CONHECIMENTOS

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texto de ANDRÉA FERNANDES*

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O Tô Sabendo, novo programa de Jorge Portugal em rede nacional, estará estreando amanhã, dia 23 de fevereiro, um desafio para os alunos de escolas públicas de Salvador, Belém e São Paulo. É o Tô Sabendo Desafio que irá ao ar pela grade de programação da TV Brasil e emissoras associadas às terças e quintas, às 17h30.

Em janeiro Jorge estreou o Tô Sabendo Revista, que é veiculado aos sábados, às 18hs. Neste, Jorge entrevista professores, especialistas e profissionais sobre assuntos relevantes para o novo Enem, vestibulares e concursos de todo o país.

A iniciativa traz pontos importantes e inéditos para a programação da televisão brasileira e para a educação desse país. É o primeiro programa voltado para alunos de escolas públicas do ensino médio do país e o primeiro jogo de conhecimentos com as características mencionadas acima (público alvo e conteúdo específico). É também o primeiro programa produzido na Bahia veiculado em rede nacional por um período prolongado.

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Duplas de jogadoras. Foto de MAURÍCIO REQUIÃO

O Tô Sabendo – programa fruto de uma parceira entre o Ministério da Cultura (MinC), através do programa Mais Cultura, e do Instituto de Radiodifusão da Bahia (Irdeb) – inicia nova fase com uma competição de conhecimentos gerais e específicos entre os estudantes do último ano do ensino médio, é o Tô Sabendo Desafio.

A competição é liderada pelo educador e apresentador Jorge Portugal que faz perguntas e desafia as equipes, abordando os conteúdos escolares de maneira interdisciplinar. Participam da maratona de conhecimentos alunos de colégios públicos de Salvador, Belém e São Paulo.

Os primeiros competidores do programa a testar seus conhecimentos são os alunos do Colégio da Polícia Militar Unidade II Lobato e Colégio Estadual Professora Noêmia Rego, ambas de Salvador (BA).

Na opinião da diretora pedagógica do Colégio da Polícia Militar Unidade II Lobato, Eliane Bastos, o projeto é uma oportunidade para que os alunos da escola pública adquiram uma melhor condição para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada para o estudante de escola pública na universidade.

A iniciativa é maravilhosa, a gente acredita que o potencial desses alunos vai ser bem explorado e todos vão ver como tem gente boa dentro da escola pública”, diz a diretora.

Eliane também aponta o Tô Sabendo como uma excelente oportunidade para mudar a imagem que a sociedade alimenta da escola pública:

Nós muitas vezes fomos desprovidos de uma série de coisas e quando a gente tem uma oportunidade de mostrar para o mundo que o trabalho que a gente realiza é bom, a gente abraça com todas as forças”.

Alunos de escola pública torcem. Foto de MAURÍCIO REQUIÃO

Já o estudante Roberto Pitiloco, do Colégio Estadual Professora Noêmia Rego, acredita que o programa vai ser um estimulo para outros alunos que ao verem a participação dos jovens no desafio se sentirão estimulados a estudar mais.

A gente tem que aproveitar o que surge, buscar conhecimento e estar bem na escola”, complementa o estudante.

Em janeiro, o Tô Sabendo estreou na grade de programação da TV Brasil com temas específicos, comentados por professores e/ou especialistas. É o Tô Sabendo Revista que vai ao ar todo sábado, às 18 horas (horário de Brasília). O programa já recebeu convidados como Arnaldo Antunes, Pasquale Cipro Neto, os professores de geografia e física, respectivamente, Yomar Seixas e Paulo Bahiense, o diretor da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) Mitermayer Galvão dos Reis, entre outros

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PERFIL DE JORGE PORTUGAL

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Jorge Portugal é um baiano eclético, nascido em Santo Amaro da Purificação. É professor autodidata de Língua Portuguesa e Redação, poeta, compositor e cantor, além de idealizador e coordenador de projetos culturais.

Jorge também é escritor, articulista do jornal A Tarde, conselheiro da Fundação Pierre Verger desde 2008 e foi membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia, no período de 1999 a 2007.

Poeta, cantor e compositor

Na condição de poeta, compositor e cantor, Jorge tem sua carreira artística dedicada à tradução das mais genuínas manifestações da cultura brasileira. Sem perder a sintonia com o que vai pelo mundo, nem com as influências contemporâneas, o seu trabalho musical tem-se afirmado ao longo desses anos pela singularidade do seu estilo e pela aceitação popular que o mesmo consegue.

Hoje suas composições são executadas em várias partes do mundo, ganhando dimensão nas vozes de intérpretes consagrados como Maria Bethânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Tânia Alves, Raimundo Sodré, Araketu, Fafá de Belém, Sandra de Sá, dentre outros tantos artistas que já o gravaram.

Em sua experiência como apresentador Jorge traz na bagagem a idealização e apresentação do quadro É assim que se escreve – TV Bahia (2000 a 2002). E na Rede Bahia de Comunicação foi consultor e apresentador do programa Aprovado! – programa-revista de educação e cultura veiculado semanalmente de 2001 a 2009, quando Jorge amplia a proposta para ser exibido em rede nacional, dando origem ao Tô Sabendo.

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*Andréa Fernandes – Assessora de Comunicação do Projeto Tô Sabendo

OPINIÕES SOBRE O CARNAVAL BAIANO

15/02/2010
Ilustração de CAU GOMEZ

Seguem artigos dedicados à festa momesca, especialmente a da Cidade da Bahia, que foram publicados nos últimos dias na página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador.

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ENSAIO SOBRE O TRIO ELÉTRICO

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texto de PAULO COSTA LIMA*

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Pára o carro Olegário!! Não tá vendo que tá andando de banda? Mas Seu Osmar, o carro já quebrou há muito tempo, é o povo que está empurrando!

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O ensaio, como tradição literária, é esforço interpretativo. Mas o que dizer do trio? Tanta espetacularidade requer justificativa? Gostaria de fazer coincidir forma e conteúdo: um breve discurso com três pontas e uma síntese.

A primeira ponta é o frevo. Há uma ligação de umbigo entre trio elétrico e frevo. Dodô e Osmar tiveram a idéia de colocar a tal fubica na rua em 1951. Poucos dias antes, passara por Salvador o Clube Carnavalesco Vassourinhas de Recife, em direção ao Rio.

O frevo traz marcas afro-brasileiras indeléveis. Não tem nada de africano na melodia ou na harmonia, poderia ser tocado até como minueto! Mas os ritmos!!!

As idéias rítmicas impingem aos compassos da Europa acentos e tensões que são tipicamente brasileiros. Imprescindível para o espetáculo. Imagine se funcionaria com valsa? E a malandragem?

Mas aí surge um fino detalhe. E essa é a segunda ponta do argumento.

O carnaval que predominava nas ruas de Salvador até então era o do corso e dos préstitos — o desfile das beldades de elite com fantasias e acenos do alto de carros especialmente preparados para a ocasião. Consta que até ópera italiana rolou no Carnaval. O povo ficava na Barroquinha e na Baixa dos Sapateiros em cordões e afoxés.

Portanto, a presença da fubica, tocando frevo, era uma subversão enorme. E o cerne da subversão era que o frevo colocava como centro das atenções o próprio povo dançando. O corpo que todos têm.

Quem já assistiu à passagem de um trio elétrico trazendo em torno de si todo o repertório humano de um bairro popular saberá do que estou falando. Encantamento total na junção entre música e dança.

O calor e a euforia são tão grandes que alguns tiram a camisa pra rodar por cima da cabeça. Tem casais abraçados, crianças montadas no pescoço dos pais, gente de meia idade, mulheres em grupos, vendedores ambulantes vendendo e dançando, disputa pra ver quem faz a melhor pirueta, e aquele empurrão no meio do bolo… (era assim)

Os ritmos oferecem situações de equilíbrio e desequilíbrio, convocam o gingado — ‘só não vai quem já morreu’.

Portanto, naquela virada de 1951, algo mudava na Bahia do governador Octávio Mangabeira, figura ímpar de nossa vida política. Um ‘momento histórico’ proporcionado pela bolha democrática entre o Estado Novo e a ditadura de 64?

No modelo que daí surge, o espaço público vai ficar mais público. E essa energia vai favorecer uma qualidade musical diferenciada, embalada pelo virtuosismo do frevo, e pela “livre” aventura de botar uma música na boca do povo. Caetano, Tuzé, Moraes, Armandinho… E ecos mais recentes em Brown, Gerônimo e Lelis.

A terceira ponta relembra Manoel José de Carvalho. Para ele, as dinâmicas de rua são construções sociais com enorme peso histórico. Salvador teve 300 anos anteriores de cortejo de rua — com procissões e festas de paróquia.

O aparecimento do trio acaba mobilizando essa memória grupal histórica pela topografia da cidade. O trio se encaixa na dinâmica ancestral construída em torno do andor das procissões. É como se tudo estivesse pronto aguardando sua chegada.

Nos anos seguintes vai ocorrer um processo espetacular (e muito original) de design para a festa, da carroceria de um caminhão até os nossos fulgurantes monstrengos de hoje — grandes palcos ambulantes.

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Síntese: Hoje estamos em outro planeta: cordas, cachês e abadás. E mais: camarotes e celebridades. Ganhou-se em gestão, profissionalização e expansão. Perdemos em participação, diversidade e qualidade musical.

As músicas que ganham a mídia não ficam mais no ouvido durante anos, estão congeladas em sua funcionalidade do perímetro das cordas (raras exceções).

Será que o impulso democrático dos últimos anos, essa bolha que esperamos definitiva, vai ter a força e o discernimento para fazer brotar um outro modelo, com novos (e velhos) valores musicais?

Mais do que questão, uma demanda: multiplicar os ganhos (socializando-os) e potencializar a qualidade/diversidade cultural.

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*Paulo Costa Lima – Compositor, pesquisador-CNPq, professor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Letras da Bahia

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NOVOS REIS, NOVO CARNAVAL

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texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

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No ano de 2008, meu amigo Clarindo Silva foi escolhido Rei Momo. A celeuma foi grande. Um rei momo magro, onde já se viu? Em 2009, o escolhido foi Gerônimo que, apesar de gordinho, nada tem do modelito Ferreirinha: indolente, beberrão e comilão.

Este ano, o novo rei é Pepeu Gomes, um elétrico guitarrista. Estas escolhas marcam a ruptura do carnaval baiano com Baco e suas bacanais. Os novos reis devem ser ativos, produtivos e performáticos.

Esta mudança corresponde às mudanças que, ano a ano, viraram o carnaval de ponta a cabeça. Os carnavais de minha infância eram realmente janelas de alegria e de descontração que se abriam em um quotidiano regulado por uma moralidade religiosa e por todos os freios do conservadorismo.

Imaginem que naquele tempo era impensável um homem ou menino usar roupas coloridas, camisa estampada ou qualquer peça cor de rosa. Certamente ele seria agredido nas ruas com adjetivos nada gentis: fresco, florzinha, Florípedes.

No carnaval valia tudo, tudo era fantasia, com máscara ou sem máscara. Valia até sair travestido de mulher, e mesmo de “nigrinha”.

A liberação dos costumes permitiu que, o ano inteiro, as meninas saíssem da janela e fossem a luta no entre-e-sai e no esfrega-esfrega.

Até na música o carnaval era a salvação. O ano todo ouvia-se Cauby cantando algum drama comovente, tal como “ Conceição” ou com “Tarde fria, sinto frio na alma”. Só no carnaval podia-se ouvir o “Índio quer apito”, a “lambretinha” e a “mulata bossa nova”.

Não leiam mais Bakhtin, o carnaval não é mais a inversão da ordem. O carnaval ganhou e na Bahia é a ordem o ano inteiro! Longe de sumir no quotidiano, o carnaval é a cerimônia frenética e em tempo integral para a celebração da nova ordem. O Olodum tem razão: “Olodum tá hippie, tá pop, tá reggae, tá rock. Olodum pirou de vez!”.

No nosso novo carnaval, Eros expulsou Baco. Em vez de contestar a quaresma católica e afrontar a quarta-feira de cinzas (quase ninguém se lembra dela), o carnaval é o espaço para se vivenciar a saúde, a vitalidade, o prazer do corpo, o que os antigos gregos chamavam de Erótica.

Nesta nova ordem, os mais velhos são rigorosamente excluídos; ou vão para Pelourinho, ou chegam até um protegido camarote, ou ficam em casa assistindo pela TVE. Para nós, o carnaval é o voyeurismo; o prazer de ver os jovens gozarem!

Nesse novo carnaval, o rei Momo deve representar esta vitalidade erótica. Que Exu proteja Pepeu para que ele represente dignamente o seu papel!

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*Ubiratan Castro de Araújo – historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

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UM CARNAVAL SEM CARNAVAL?

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Cena número um: no estúdio da TVE, no Campo Grande, quinta-feira à noite, nove horas, eu e o Prof. Jaime Sodré já nos queixávamos dos não-acontecimentos da primeira noite de carnaval, quando à nossa esquerda, não mais que de repente, irrompeu aquele caminhão de luz, trazendo a dinastia Macedo, Armandinho à frente, e daí em diante foi contada a história do carnaval, através de todas as músicas que fizeram seu sucesso e glória. Pensei: “meu carnaval já está pago”.

Cena número dois: sábado, circuito Barra-Ondina. Os olhos já cansados de verem os mesmos blocos de trio – mudando apenas o cantor – já lá pras duas da manhã, se arregalaram em desmedida alegria quando despontou Luiz Caldas – o verdadeiro inventor dessa nova etapa do nosso carnaval. Vinha comandando o Trio Tapajós, como se um filme tivesse voltado trinta anos na minha memória. De repente, de novo, vejo um senhor de boné levantar-se com alguma dificuldade do andar superior do trio e acenar para mim: Orlando Campos, o homem que modernizou o “caminhão da alegria” e assegurou a festa do povo baiano, quando a festa ainda era de graça. Pensei: “agora já estou devendo ao carnaval”.

Cena número três: já pelas três da manhã, quando tudo parecia encerrado, um mar de gente negra, pobre, misturada – uma massa compacta em bloco que eu ainda não tinha visto até ali, invadiu o circuito da Barra vigiada fortemente pela Polícia e comandada pelo novo “Zumbi do carnaval”, Léo Santana. Parecia um quilombo de alegria vivendo sua apoteose no pedaço da classe média baiana. O Rebolation tomou conta de tudo e arrastou turistas, malandros, patricinhas, periguetes e avulsos, misturando arrocha e pagode numa música só.

Claro que vi também Ivete, Bell Marques, Timbalada, Daniela, e até recebi uma declaração de amor pública de minha ex-aluna Claudinha Leitte.

No dia seguinte soube de uma proposta que deseja privatizar o carnaval, em lugar fechado, com acesso apenas para a classe média alta e os turistas endinheirados. Mais parece uma volta aos bailes de salão, retomando a época do Baiano de Tênis e do Yatch.

Pensei: “vai ser uma festa sem Armandinho, Luiz, Orlando, Ilê, sem rebolation… e sem carnaval!

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*Jorge Portugal – Educador, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO, da TV Brasil

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O CARNAVAL DA DIVERSIDADE

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texto de CLAUDIA CORREIA*

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A Secretaria Municipal da Reparação (Semur-Salvador) lançou a quinta edição do Observatório da Discriminação Racial, em parceria com 30 órgãos e entidades. A intenção é distribuir material, observar e registrar casos de violência contra mulheres, negros, crianças e adolescentes e homossexuais.

Este ano o Observatório amplia sua ação incluindo atos de homofobia, devido às reivindicações do movimento que representa gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais. Uma conquista importante.

A presença de observadores sociais em postos de saúde, postos policiais, no carnaval de bairros e em hospitais de grande porte é uma novidade este ano. Além do posto central da Ladeira de São Bento, serão instalados mais três na Barra, em Ondina e no Campo Grande. O Disque 156 também receberá denúncias.

A ideia do Observatório foi inspirada numa ação do Movimento Negro para detectar situações de racismo durante o carnaval e subsidiar suas reivindicações junto ao poder público. No primeiro ano, foram registradas 128 denúncias de discriminação racial e de violência contra mulheres. Em 2007 o Observatório passou a identificar violações dos direitos da mulher, em parceria com a Superintendência de Políticas para Mulheres da Prefeitura.

Somos uma cidade plural, onde a diversidade enriquece a nossa convivência com os diferentes modos de vida. A intolerância e a violência ameaçam a democracia, violam direitos conquistados.

Os objetivos do Observatório Racial devem ser permanentes, seus resultados devem subsidiar programas de políticas públicas intersetoriais, o estatuto municipal da igualdade racial precisa ser criado, ações judiciais em defesa das vítimas de discriminação devem ser agilizadas, o projeto de lei que criminaliza a homofobia deve ser sancionado.

Assim, não só durante o carnaval, teremos uma política pública de reparação, uma cidade que se orgulha e respeita a diversidade. O Observatório é um passo importante neste processo.

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*Claudia Correia – Assistente social, jornalista, mestre em Planejamento Urbano e Regional

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SOBRE A FESTA

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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A festa é um fenômeno universal. Está presente em todas as épocas, sociedades, povos e culturas. É por isso mesmo que qualquer manual de antropologia sempre traz verbetes sobre cerimônias e rituais. Sobre a relação entre sacrifícios, oferendas e festas. Sobre a festa como parte do rito. Sobre os aspectos não-rituais e não-religiosos da festa. Sobre música e dança.

A festa é um hiato. É uma saída para fora da história. É uma quebra no encadeamento cotidiano das coisas do mundo. É uma suspensão delirante da rotina. É uma abertura, fenda ou brecha na sequência, na linearidade, no fio lógico da vida individual ou coletiva. São muitas, enfim, as definições, as interpretações que os estudiosos nos oferecem do fenômeno trans-histórico e transcultural da festa. Não raro, fazendo-a derivar do sagrado: a origem da festa estaria na religião, em tempos onde não havia uma separação entre festas sagradas e festas profanas.

Mas não vamos enveredar pelo mundo labiríntico das interpretações da festa. Fiquemos em plano mais simples, mais pedestre. O fato é que não há humanidade sem festa. Sem música, dança e canto. O amor da humanidade pelos floreios da voz e os meneios do corpo data de milênios. Sempre esteve presente em todos os cantos e recantos do mundo. Em todas as partes do planeta. Desse amor, nenhum povo ou comunidade escapou, escapa ou deseja escapar.

Bom exemplo disso são os índios que habitavam os trópicos atualmente brasileiros. Quando os europeus começaram a desembarcar aqui, às primeiras luzes do século 16, ficaram impressionados. Os tupis que circulavam pelos litorais brasílicos tinham, basicamente, duas preocupações: a guerra e a festa. Cabia às cunhas produzir o beiju de cada dia da aldeia. Porque os homens, quando não estavam trocando flechas e tacapadas, promoviam bailes. Com uma diferença fundamental. A guerra era empresa exclusivamente masculina. A festa, não. A festa era de todos.

Pero Vaz de Caminha, aliás, conta um episódio maravilhoso, ocorrido num domingo de abril de 1500, ao sol de Porto Seguro. Um grupo de índios dançava perto do rio, “sem se tomarem pelas mãos”. Diogo Dias meteu-se no meio deles e começou a tocar e dançar, fazendo com que todos se dessem as mãos. E assim se foi formando uma roda de dança, uma festa de mãos dadas, ao som da gaita medieval que ele tocava. Foi a dança do encontro. Neste bom sentido, podemos dizer que sim: o Brasil nasceu dançando.

Os africanos dançavam – e muito – na África Negra. E continuaram dançando do lado de cá do Atlântico Sul. De seus ritmos e coreografias nasceu o samba de roda do Recôncavo, que, por sucessivas estilizações, daria no samba raiado do Rio de Janeiro, uma das forças fundamentais da festa brasileira. Com os nagôs, vieram os orixás, descendo do orum para a Terra. Em dia de festa. É para isso que brilham os terreiros. Não há religião sem festa. Sem festa, os deuses não dançam entre os mortais. E os negros contribuíram ainda, aqui, para a articulação entre festa sagrada e profana. Como na festa do Senhor do Bonfim. No reinado de Iemanjá, na festa do Ano Novo, que se irradiou do Rio para todo o litoral do país. No Círio de Nazaré, o “carnaval devoto”, em torno da Virgem, em Belém do Pará.

Nossas grandes festas públicas, rituais coletivos de teatralização da sociedade, nasceram com essa mescla de sagrado e profano. Eram as festas barrocas dos séculos 17 e 18, que conheceram seu esplendor nas cidades do ouro, em Minas Gerais. Procissões de som e brilho, com carros alegóricos, alas disso e daquilo, ruas decoradas, que forneceram o modelo da grande festa pública brasileira. Especialmente, o modelo do carnaval, esplendorosa procissão neobarroca, como no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Mas nem só de grandes ritos coletivos vive a humanidade. Vive, também, de festas corriqueiras, de bailes “funks” a quermesses de cidades do interior. De um extremo a outro, estende-se a festa brasileira. Porque a festa é universal, mas tem seu modo de se manifestar em cada coletividade. E o nosso modo tem a ver com a nossa configuração cultural e formação genética. Com o nosso ambiente. Com o retrato que gostaríamos de fazer de nós mesmos. Com o nosso gregarismo. Com nosso corpo – e nossa alma.

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*Antonio Risério – Escritor

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ILDÁSIO TAVARES – GENTE DA BAHIA

07/02/2010

ILDÁSIO TAVARES em seu reduto de produção e criação durante entrevista para a série MEMÓRIA DA BAHIA, do jornal A Tarde. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde - 16.6.2009

AS SETENTA VIDAS DE UM OBÁ-POETA

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Quando ele nasceu, um anjo torto, barroco e baiano, olhou-o com um sorriso fescenino e decretou em sentença: “vai, poeta, ser Ildásio na vida!”

Daí em diante, ele só se multiplicou por inúmeras faces e, sozinho, poderia muito bem ter povoado todos os espaços e recantos da literatura.

Existe o Ildásio poeta, o Ildásio professor, o Ildásio erudito, capaz de discorrer com elegância e conhecimento profundo sobre dez dos dez mais complexos assuntos que pautam nossa cultura; temos também o Ildásio boêmio e amante da sedutora paisagem baiana, sobretudo se encarnada no sexo feminino, independente de etnia ou origem social, mas importando que possua as curvas estonteantes da Avenida Contorno.

Esse é certamente o “Dadá Tavares”, cantado por Antônio Carlos e Jocáfi que “entre noites, mulheres e badalos, dava aula de inglês nos intervalos pra que sua família não lhe deserdasse”.

Esse também pode ser chamado Ildásio Taveira, personagem memorável de Jorge Amado no seminal A Tenda dos Milagres, que nos comunica uma Bahia negra, negro-mestiça, civilizada pela sabedoria africana, na sua capacidade de criar e resistir.

Aí se desvela o Ildásio do Candomblé, o Obá de Xangô e o filho de Omolu/Jacum, o exímio capoeirista Lacrau de outros tempos, e o sábio de hoje que continua lutando para esquivar-se de adversidades, aplicando aús e meias-luas na vida.

E há um impagável Ildásio epigramista, demolidor implacável de hipocrisias e reputações literárias que não resistiriam ao sopro da mais leve brisa. Espécie de Gregório de Mattos redivivo, encarna esse espírito barroco que atravessa a Bahia, como seu arquétipo cultural, e tempera, com veneno e arte, a expressão da inteligência aguda e do riso triunfal.

O espaço deste artigo já está acabando e ainda sobra tanto Ildásio que nem suas setenta vidas seriam capazes de abarcar.

De “restos”, querido poeta, o coração daquele menino de 12 anos, que se fez encantado por sua poesia, ainda guarda o verso-senha da sua inspiradora existência: “há um resto de ontem na calçada/ que foi dia de festa e fantasia/ há um resto de mim em toda parte/ que nunca pude ser inteiramente”.

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*Jorge Portugal – Educador, poeta, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO!, da TV Brasil

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JORGE PORTUGAL EM REDE NACIONAL

23/01/2010

Faltam poucas horas para a estreia de Jorge Portugal como apresentador do TÔ SABENDO, novo programa da TV Brasil, reproduzido em todo o país pelas tevês educativas e de cultura de cada estado. Será neste sábado às 18 horas pelo Horário de Brasília e 17 horas para as regiões onde não há Horário de Verão.

Abaixo, transcrições de artigo do próprio Jorge Portugal anunciando o programa, publicado em Opinião do jornal A Tarde, e um release da  TVE da Bahia.

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TÔ SABENDO:

O APROVADO NO BRASIL

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Neste sábado, dia 23 de Janeiro, estreia em rede nacional, pela TV Brasil, o programa TÔ SABENDO. Aqui na Bahia, poderemos vê-lo sintonizando a TVE, canal 2.

Foi uma luta de dez anos. Lembro-me do primeiro minuto de concepção do programa, que viria a chamar-se Aprovado!, aqui em nosso estado, quando tentei juntar num formato “venenoso”, um pouco de aula de cursinho, um tanto de MTV e um eixo de talk-show. Achei que, se o tempero desse certo, poderia grudar o olhar da moçada na tela da TV. Imediatamente corri para dois queridos amigos, Albérico Mascarenhas( então secretário estadual da fazenda) e Rodolfo Frederico Tourinho (então Diretor-Executivo) da Rede Bahia e apresentei-lhes o projeto. Aposta de alto risco. Um programa de educação e cultura, dirigido a estudantes pobres da rede pública, na tela de uma TV aberta, filiada da Globo, patrocinado pelo governo do estado, tinha tudo para ser chato, ou então carimbado como “chapa-branca”, e tornar-se um campeão de rejeição da audiência.

Mas o formato era “mortal” e a necessidade social, extrema. E aquele programa, com o propósito de atingir 170.000 estudantes (número dos alunos do terceiro ano da rede pública baiana), terminou chegando a um público estimado em 2 milhões de telespectadores, mesmo sendo veiculado às 8h da manhã de um sábado.

Em 2006, com a mudança de governo, muitas aves agourentas apostaram que o novo grupo político no poder retiraria o programa do ar, cancelando o patrocínio. Todavia, a sensibilidade social de Jaques Wagner( que sempre foi fã do Aprovado!), reafirmou o apoio e deu início às conversar que iriam culminar na nacionalização do projeto. Contamos com o entusiasmo de Gil, e terminamos por ancorar firmemente na decisão de Juca Ferreira, já ministro da Cultura, em fazer do Aprovado! um programa para todo o país.

O sonho se realiza no próximo sábado. Aquilo que a Bahia plantou, o Brasil inteiro colherá. Na primeira edição, converso com o Prof. Pasquale Cipro Neto e com o multi-artista Arnaldo Antunes, tendo a participação dos estudantes do Colégio Boa Nova, de São Paulo.

Assim como o Aprovado!, o Tô Sabendo será um escola aberta e democrática para todos os estudantes do Brasil. De oito a oitenta. Do Oiapoque ao Chuí.

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*Jorge Portugal – Educador e poeta

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INFORME DA TV EDUCATIVA DA BAHIA

Apresentado por Jorge Portugal, o programa Tô Sabendo estreia neste sábado (23/01), às 17 horas, na TVE Bahia e em todas as emissoras públicas do país ligadas à TV Brasil (18h, horário de Brasília). A iniciativa é fruto de uma parceira entre o Ministério da Cultura (Minc), através do Mais Cultura, e o Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb). O convênio conta também com a parceria da TV Cultura do Pará e é executado pela Abaís Conteúdos Educativos e Produção Cultural.

O programa é voltado aos estudantes da rede pública de ensino que se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou qualquer interessado em obter um reforço para os processos seletivos de ingresso no terceiro grau.

Idealizado pelo professor Jorge Portugal, o Tô Sabendo será exibido em dois formatos – o Tô Sabendo Revista: revista eletrônica, com uma hora de duração, e o Tô Sabendo Desafio: maratona de conhecimento, com meia hora de duração, envolvendo alunos da rede pública de Salvador (BA), São Paulo (SP) e Belém (PA).

O projeto envolve TV e Internet e visa colaborar para que esse público aumente as suas chances de ingressar na universidade e também como uma oportunidade de sair da invisibilidade.

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MAIS INFORMAÇÕES SOBRE JORGE PORTUGAL NESTE BLOG:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/12/24/nao-comemore-o-natal/

NÃO COMEMORE O NATAL

24/12/2009

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texto de JORGE PORTUGAL*

Peço que por uns segundos você esqueça o Shopping Iguatemi, o panetone (epa!), a árvore enfeitada, a mesa farta, o abraço protocolar dos parentes e me responda: o que se comemora mesmo no dia 25 de Dezembro?

Se não me engano é a data presumível do nascimento de uma criança paupérrima, cuja trajetória neste mundo pode ser resumida em uma frase que a tal criança, uma vez adulta, vivia repetindo: “ama o teu próximo como a ti mesmo”.

Se essa frase tivesse sido levada a sério, ao longo desses dois mil e nove anos poderíamos ter evitado um mar de sofrimento e clamor que marcou e tem marcado a presença humana no planeta: cruzadas assassinas, grandes guerras mundiais, escravidão de negros africanos, racismo de todas as formas, fome, miséria e aquecimento global.

Se a humanidade ocidental-cristã tivesse realmente aquela criança na conta de um deus, certamente que nem precisaria escrever leis absurdas, impor regras e limites de convivência, erguer “cercas embandeiradas que separam quintais” e outras complicações que estarrecem e empobrecem a vida. Bastaria ter o Sermão da Montanha como fonte de inspiração e orientador de condutas.

Mas a verdade é nunca demos a menor bola para o que o nosso aniversariante fez ou propôs. Montamos uma forma de viver, por essa banda do mundo, que corresponde exatamente ao contrário das suas melhores ideias. Construímos templos suntuosos para abrigar as correntes religiosas que fundamos e temos fundado, em nome de uma certa fé nesse homem que achamos ser Deus. Acontece que ele nunca pediu nada disso e até repudiava os que transformavam casas de oração em casas da moeda.

Inventamos e sustentamos milhares de padres e pastores que se arrogam professadores e exegetas da mensagem do “cara” e o fazem… da boca pra fora!

Por esses últimos dias, tivemos notícia de morte e desespero pelas chuvas de São Paulo, cenas explícitas de corrupção por bandidos de Brasília e do fracasso de Copenhague, cujos líderes, na sua maioria autointitulados “cristãos”, resolveram apressar, por simples egoísmo, a morte do planeta.

Por isso, se você se encaixa em alguma das categorias acima descritas, por favor, seja coerente e verdadeiro com você mesmo(a): no dia 25, não comemore o natal.

*Jorge Portugal – Educador e poeta

secretaria@jorgeportugal.com.br

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NOTA DO EDITOR – A respeito de Jorge Portugal temos novidade. O grande poeta e educador santamarense, apresentador do ágil e cativante programa educativo e cultural “Aprovado!”, da TV Bahia, inicia nova fase na vida. Ele agora se prepara para entrar em rede nacional da TV Brasil para animar – com seu jeito especial de ser baiano – um programa semelhante e mais amplo, “Tô Sabendo”.

Vejam o belo recado que Jorge Portugal deixou para seus colegas de trabalho na TV Bahia e também para os convidados e espectadores do Aprovado!:

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COMPANHEIRO(A)S DE MUITAS VIAGENS:

No próximo sábado [26.12.09], despeço-me da condição de apresentador do programa APROVADO!

Durante nove anos, transformamos as manhãs de sábado em manhãs de praia, descanso e… conhecimento. Continuarei, no entanto, como consultor de conteúdo e passarei a apresentar um quadro de muitas viagens pelo universo da cultura.

O outro lado da notícia é que estou partindo para uma experiência nacional, com um programa na TV Brasil, que deve estrear (se Deus quiser!) no dia 23 de janeiro próximo.

Será o “Aprovado” para todo o país, com o nome de TÔ SABENDO.

Agradeço a todos vocês que nesses nove anos foram, convidados, iluminadores, conselheiros e audiência de uma experiência pioneira e bem sucedida, no campo da educação, na TV brasileira.

Um abraço Aprovado!

Jorge.

Peço, agora, que leiam e reflitam um pouco sobre o meu artigo abaixo [*] , publicado na última terça-feira no jornal A Tarde.”

[*] Na edição deste post, o artigo “Não comemore o natal” ficou acima, não abaixo.

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SAIBA MAIS SOBRE JORGE PORTUGAL – O compositor de A Massa, canção feita em parceria com Raimundo Sodré, grande sucesso no país no começo dos anos 1980, vai entrar em rede nacional de TV, mas na internet ele já pilota uma rede digital de educação através do site http://www.redeeduca.com.br/.

Jorge Portugal possui ainda um site oficial em forma de blog:

http://www.jorgeportugal.com.br/blog/

A Massa é de 1980. Agora vejam outro sucesso de Jorge Portugal como compositor, este em parceria com seu conterrâneo Roberto Mendes, Caribe, Calibre, Amor, de 1985:



Caribe Calibre Amor

(Roberto Mendes – Jorge Portugal)

Amar anima

Amar ânima

Amaralina

Amar é anilina

Amar é nina

É maré menina

Hum amar é ímã

Mamar é amar

Batuque toque

De nego nagô

Sawoodstock

A cor dar a cor da cor

“Chose de loque”

Cor de rosa choque

Aqui jazz o rock

Derradeira dor

Cuba Bahia

Caribe calibre amor

Vodu magia

CaraHavana Salvador

A utopia guerrilhalegria

Nossa fantasia

Vem da mesma dor

OS SESSENTA CARNAVAIS DE ORLANDO

01/12/2009

ORLANDO CAMPOS DE SOUZA, o ORLANDO TAPAJÓS, criador do trio elétrico Caetanave no carnaval baiano de 1972. Foto: XANDO PEREIRA | Agência A Tarde 15.2.2006

de JORGE PORTUGAL*


Foi emocionante demais. Acho até que há muito tempo não vivia uma emoção daquele tamanho.

Cena: Luiz Caldas, no estúdio da TV Bahia, preparava-se para gravar o seu depoimento sobre os 60 anos do trio elétrico. Eis que, de repente, chega “seu” Orlando Tapajós, convidado para a mesma finalidade e, ao encontrá-lo exclama:

Meu Deus, meu filho está aqui! Meu filho adotivo que eu não via há muito tempo!

Os dois se abraçam e logo depois Luiz pega o violão e sola um dos grandes hinos do carnaval baiano, dos áureos tempos do Tapajós. Orlando apoia-se na bengala que lhe garante o precário equilíbrio e, com os olhos perdidos em algum lugar imaginário, gesticula, solfeja, quase dança, e entrega sua emoção a um momento que já não estava ali, mas que permanecia em todos nós, eterno, como um tesouro escondido no fundo de nossas melhores saudades.

Choramos todos. Eu, Sérgio Siqueira, Isabela, Fred Góes, todos os cinegrafistas e técnicos presentes naquele instante.

Em seguida, o nosso querido “velho” deu fortes asas à prodigiosa memória e passou a nos contar, com surpreendentes detalhes, a história do Trio Elétrico, a mais genial contribuição da civilização baiana para a alegria do mundo.

Falou-nos do período heroico, que vai da invenção, por Dodô e Osmar, em 1950 até 1959, quando a famosa dupla retira-se do carnaval por um bom tempo. Daí em diante, coube a ele, Orlando, assegurar a alegria do povo com o seu trio elétrico Tapajós, patrimônio da memória afetiva de dez entre dez baianos que tenham mais de quarenta; relembrou a importância do frevo Atrás do Trio Elétrico, de Caetano, projetando o trio em todo o país e trazendo de volta Dodô e Osmar ao carnaval das ruas; a homenagem que Caetano receberia dele, Orlando, com a construção da Caetanave, mistura de disco-voador e usina de som, que superaria em muito as nossas mais loucas visões lisérgicas.

Orlando, juntamente a Dodô e Osmar, deveria ter estátua em alguma praça da cidade. Mas não têm.

Que, pelo menos, no ano que vem, Luiz, Orlando, Armandinho e Moraes tenham um digno direito às ruas e possam mostrar à turma da “alegria ensaiada” a grandeza de um carnaval, hoje transformado em grande negócio.


*Jorge Portugal – Educador e compositor

secretaria@jorgeportugal.com.br


CONSCIÊNCIA NEGRA: O ÚLTIMO TIRO

19/11/2009

por JORGE PORTUGAL


A metáfora, perfeita, é da autoria de Ailton Ferreira, hoje secretário municipal da Reparação:

“Quando o Jornal Nacional anuncia a morte de algum jovem negro e favelado, a bala que ceifou sua vida foi apenas o último tiro. O primeiro ocorreu quando do seu nascimento, certamente de uma mãe solteira, num barraco sem água encanada e sem luz, na periferia; o segundo, quando ele ingressou em uma escola pública do bairro, sem material escolar, com professores que lá não apareciam e um currículo completamente defasado; o terceiro, quando, sem qualificação, bateu à porta de várias empresas e lhe foi negada a vaga, com o argumento de que não correspondia ao perfil exigido. Sem perspectivas, por volta dos dezenove anos, recebe uma proposta irrecusável do tráfico de drogas. Topa. Aos vinte e cinco, no máximo, a polícia invade o morro e lhe dá o tiro de misericórdia. O último” .

Agora entro eu: a polícia dá o tiro, mas é a nossa omissão que aperta o gatilho. Não vou falar da secular omissão histórica, porque nesse caso, durante quinhentos anos, ela foi política de estado: escravidão, abolição sem cidadania, exclusão social contínua, racismo e negação.

Quero me reportar à pouca velocidade, ao ritmo lento com que certas ações governamentais e atitudes da sociedade civil abordam a questão. Claro que vai aqui o reconhecimento a programas como Bolsa-Família, Prouni, Pró-Jovem, Promimp, cotas universitárias e tantas outras iniciativas de um presidente-operário-nordestino, que nasceu pobre, e, portanto, conheceu na pele a negritude social.

Mas a tarefa de inclusão do negro no sistema da sociedade brasileira é uma tarefa hercúlea, gigantesca, o verdadeiro projeto de construção da nação, que ainda não somos. E aí eu falo de prefeituras de capitais, prefeituras do interior, ONGs, igrejas, terreiros, sindicatos e lideranças comunitárias.

Proposta: vamos começar oferecendo uma oportunidade a esses jovens negros exatamente na linha divisória entre o sonho e a desistência? Vamos criar “vietnãs educacionais” nos bairros populares, que os preparem para ingressar no Cefet (os que estão na oitava série), e na universidade (os que concluíram o ensino médio)?

Prefeitura, empresas, entidades civis e ONGs: a educação de qualidade pode ser o primeiro passo para que evitemos o último tiro.


Jorge Portugal – Um negro em movimento

secretaria@jorgeportugal.com.br


MARIA DA PENHA, MÃE STELLA, DONA CANÔ

15/09/2009

 

MULHERES EXTRAORDINÁRIAS

 

por JORGE PORTUGAL

Mulheres extraordinárias deveriam ocupar, na mídia, espaço igual ou maior ao dedicado a mulheres enfiadas, não acham? Até porque o trabalho das mulheres extraordinárias é contínuo, persistente, muitas vezes heroico e, não raro, silencioso.

As mulheres enfiadas aparecem do nada para os “quinze minutos de fama” e depois desaparecem para sempre, após terem saciado a fome voraz da mídia-urubu.

Mas, como não é por aí que passa a lógica dos nossos comunicadores sociais(?), valho-me deste humílimo espaço (*) para ovacionar três mulheres que, pela história, pensamento e ação, tornaram-se – sem o serem oficialmente – professoras de verdade.

Maria da Penha Maia Fernandes, inspiradora da lei que combate a violência contra a mulher, fez uma visita à Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, no bairro dos Barris, em Salvador. Na foto de IRACEMA CHEQUER (Agência A TARDE) ela é recebida pela presidente do Tribunal de Justiça, desembargadora Silvia Zarif (em pé ao seu lado), e homenageada pelas funcionárias da Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher

Maria da Penha Maia Fernandes, inspiradora da lei que combate a violência contra a mulher, fez uma visita à Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, no bairro dos Barris, em Salvador. Na foto de IRACEMA CHEQUER (Agência A TARDE) ela é recebida pela presidente do Tribunal de Justiça, desembargadora Silvia Zarif (em pé ao seu lado), e homenageada pelas funcionárias da Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher

A primeira é Maria da Penha Fernandes que, passando por Salvador na semana passada, lotou o teatro do ISBA para nos contar sua trajetória de luta e a disposição incansável em afirmar os princípios da lei que leva o seu nome e representa hoje uma carta de alforria para todas as mulheres oprimidas e vítimas constantes da violência dos seus maridos e companheiros.

Da sua cadeira de rodas, nos fez enxergar uma alma em movimento, e a determinação tenaz de defender a vida em um país dominado pela paralisia ética.

 

Mãe Stella no terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro (Salvador-BA), na véspera da festa pelos 70 anos de sua iniciação no candomblé. Foto: MARGARIDA NEIDE | Agência A TARDE

Mãe Stella no terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro (Salvador-BA), na véspera da festa pelos 70 anos de sua iniciação no candomblé. Foto: MARGARIDA NEIDE | Agência A TARDE

A segunda, Mãe Stella de Oxóssi, já tem a sua história contada pela cor da pele. Com a responsabilidade, muito cedo, de dirigir sua comunidade religiosa, impôs-se pela autoridade do olhar e a ternura dos gestos. Graduou-se em enfermagem, construiu escola dentro do terreiro, vem escrevendo livros de deliciosa literatura e palestrado a outras gentes sobre a essência de sua religião e a grandeza de um povo que transforma dor em beleza.

Mãe Stella é, hoje, o oráculo vivo da Bahia; o colo carinhoso e a voz que lidera; a expressão pessoal de até onde pode chegar o povo negro, pelos caminhos da educação e da fé.

Mãe Stella é, agora, Doutora Honoris Causa pela Universidade do Estado da Bahia. Ou melhor: a Uneb torna-se, agora, muito mais “Universidade da Bahia” ao conferir esse título a Mãe Stella.

 

Dona Canô participa, em Santo Amaro, da festa pelos 120 anos do Bembé do Mercado, evento em homenagem à Abolição da escravatura. Foto: TOINHO SIMÕES | Agência A Tarde 13.5.2009

Dona Canô participa, em Santo Amaro, da festa pelos 120 anos do Bembé do Mercado, evento em homenagem à Abolição da escravatura. Foto: TOINHO SIMÕES | Agência A Tarde 13.5.2009

E, por último, Dona Canô Velloso, que amanhã (16.9.2009) completa 102 anos de vida, lucidez e sabedoria. Mas essa já ocupa o supremo patamar das “entidades” e só me cabe dizer: a bênção, Dona Canô, a bênção, minha comadre!

 

Jorge Portugal – Tiete de Penha, “filho” de Stella e compadre de Canô. secretaria@jorgeportugal.com.br

 

(*) Transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde de 15/09/09

 

ZILDA PAIM – GENTE DA BAHIA

17/08/2009
PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

A MEMÓRIA DA MINHA CIDADE

 

por JORGE PORTUGAL

 

Guardamos todos, em nosso cine-memória, fortes e belas lembranças que nos surpreendem de vez em quando, se a vida ameaça enveredar pelos caminhos da aridez e do individualismo vulgar.

No exato momento em que estou escrevendo estas mal-traçadas, vem-me à mente um plano-sequência inteiro de uma cena de rua muito frequente na minha infância: uma senhora de cor branca, compleição física consistente, cabelo preso num coque, à frente de uma fila dupla de negros que percutiam pedaços de pau e cantavam refrões em uma língua até então estranha para mim. Por onde eles passavam, a cidade inteira corria para ver, extasiada e ao mesmo tempo respeitosa, pela autoridade humana que seu olhar transmitia.

Um dia meu pai me disse: é a professora Zilda Paim comandando o Maculelê de Popó que ela mantém vivo até hoje. Como se fosse uma senha para minha entrada em um “certo mundo”, dali em diante nunca mais deixei de escutar o nome daquela senhora, sempre ligado à história da cultura de minha cidade.

Se um grupo de estudantes do Teodoro Sampaio precisava de informações para fazer um trabalho sobre o 14 de Junho, procurava professora Zilda; se um mestrando em Antropologia necessitava de uma fonte de pesquisa confiável sobre o “Bembé do Mercado”, procurava professora Zilda; a denominação popular de uma rua no início do século, a quantidade de jornais que a cidade tivera, o nome completo do tenor que cantava a terceira jaculatória da novena em 1950, tudo que a cidade (e os de fora) queria saber… procurava professora Zilda.

E ao longo dessas décadas de respostas para todas as perguntas, ela foi colecionando periódicos, depoimentos, iconografia, documentos raros, receitas da culinária do Recôncavo, histórias do imaginário popular, enfim tudo aquilo que cabe na alma de um povo. E tudo isso ela sempre dividiu com generosidade e prazer.

Professora Zilda Paim completou 90 anos no último 3 de Agosto, com a memória cada vez mais viva.

Se eu estiver mal informado, tanto melhor, e já peço desculpas. Mas não me consta que a Câmara de Vereadores de Santo Amaro tenha-lhe prestado alguma homenagem em sessão especial, ela que deve ter sido a primeira mulher edil daquela casa; não chegou a mim nenhuma notícia de que o prefeito tenha decretado algum ato simbólico, algo assim como “o Ano Professora Zilda Paim”; não sei se a Academia de Letras ou a Casa do Samba lhe conferiram uma placa que fosse, em reconhecimento ao que ela fez pelas chamadas culturas erudita e popular.

Mas soube, sim, que os jovens artistas da cidade, liderados por esse canto de sensibilidade que é Eduardo Alves, fizeram uma belíssima serenata na porta de sua casa, à qual acorreu o povo simples e anônimo do lugar levando alegria e gratidão à mestra que guardou com carinho sua história.

Querido e Magnífico Reitor Paulo Gabriel Nacif: bem que a Professora Zilda Paim mais do que merece o título de “Doutora Honoris Causa” pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), não acha?