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RETRATO DE SALVADOR

25/10/2009
Ilustração: GENTIL

Ilustração: GENTIL

por ANTONIO RISÉRIO

 

Quando Antonio Carlos Magalhães decidiu construir o Centro Administrativo na Avenida Paralela, teve gente que achou que ele tinha enlouquecido. “O governador está louco, quer levar o governo pro meio do mato!” – era um dos comentários que então se ouviam. Mas não havia nada de louco na ideia. Era, simplesmente, a primeira vez que se pensava Salvador em termos metropolitanos.

O secretário de Planejamento, na época, era Mário Kertézs. E ele soube escolher com quem trabalhar. Mário procurou Lúcio Costa, o urbanista que projetou Brasília. E Lúcio (embora reclamasse da Paralela, uma avenida bonita, mas desconfigurando, desnecessariamente, o desenho topográfico da região, cortando colinas) fez o traçado da avenida do viaduto de acesso ao Centro. E de todas as avenidas do CAB.

Mais tarde, em meio ao processo de construção dos prédios, entrou em cena, por sugestão de Alex Chacon e Roberto Pinho, o arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé. Era uma dupla, Lúcio-Lelé, pra ninguém botar defeito.

Mas houve reação. Empreiteiros locais se rebelaram logo contra o projeto em pré-moldado de Lelé. Aquilo poderia ser até bonito, mas não seria assim tão lucrativo para eles. A verdade é que Lelé projetava obras nuas, a serem executadas por um sistema nada convencional de construção. Obras difíceis de sofrerem superfaturamento. E empreiteiros costumam não gostar disso. Mas o trabalho foi feito.

Com o CAB, houve um deslocamento do centro comercial da cidade. Na mesma década de 1970, tivemos a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari. Tudo mudou. Surgiram na cidade, inclusive, bairros novos.

Mas quero falar da Avenida Paralela hoje. O que era deserto apresenta agora congestionamentos de trânsito. Pessoas fazem exercícios físicos no canteiro central da avenida. A Paralela, como o CAB, passou a fazer parte de nossa paisagem e de nossas vidas. Mais que isso: a Paralela, hoje, nos oferece um retrato perfeito de Salvador.

A começar pelas construções religiosas. Temos a Igreja da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo. Mas temos, também, um templo evangélico. E diversos terreiros de candomblé, que se concentram na Invasão das Malvinas, também chamada Bairro da Paz. Terreiros pra tudo quanto é gosto, por sinal. E que se declaram de diversas “nações”: angola, ijexá, jeje, keto, etc. Até a umbanda se faz presente, no Centro Espírita Caboclo Tumba Jussara, na 7ª. Travessa Ubatã, número 12.

Vemos, na Avenida Paralela, os extremos reais e vitais desta nossa cidade. A sede administrativa estadual, com todas as suas muitas secretarias, e o comércio de “crack” e cds piratas. O prédio da Odebrecht, as jovens prostitutas e a favela sinuosa, com seus becos quase sempre perigosos. Um bairro confuso, cervejeiro e ruidista como o Imbuí. A revendedora de automóveis de luxo e a oficina furreca, reciclando fuscas. As novas faculdades particulares – que mais sugerem “shopping centers” supostamente pedagógicos – e o analfabetismo. Projeta-se um condomínio caro ao lado de um conjunto habitacional classemediano e perto de barracos precários, que se esforçam para se manter de pé.

Enfim, a Avenida Paralela, hoje, é um retrato concentrado de Salvador. Da vida atual da cidade que, bem ou mal, se metropolizou. Girando entre os camelôs do Iguatemi e os absurdos visuais de Lauro de Freitas, antiga Santo Amaro do Ipitanga.

É um espaço que fervilha e esfervilha, durante todos os dias da semana, entre passarelas, táxis, indigentes, engravatados, policiais, lojas, sobrelojas, sublojas e postos de gasolina, que se revelaram bares da madrugada, com seus cheiros e sons intoleráveis.

Acho que nossos jovens estudiosos e pesquisadores, economistas, sociólogos e antropólogos têm ali um prato feito. Mas não só para “cientistas sociais” – também para jornalistas, cineastas, etc.

Na verdade, a Avenida Paralela se converteu num segmento urbano altamente privilegiado para quem se disponha ao chamado “trabalho de campo”. Para quem queira ver de perto o que é, de fato, Salvador. Ou no que ela se transformou. Porque esta cidade não se resume à praia, nem se circunscreve ao seu centro histórico. É muito mais fragmentada e fragmentária do que nós, com todos os nossos clichês e estereótipos, costumamos imaginar.

TRIUNFO DA MEDIOCRIDADE ARQUITETÔNICA

17/08/2009
Fachada do Aero Clube Plaza Show. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde – 7.4.2008

Fachada do Aero Clube Plaza Show. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde – 7.4.2008

LÍDICE EXPLICA O LANCE DO AEROCLUBE

ANTONIO RISÉRIO

Em meio a um artigo indignado sobre a situação da cidade, que publiquei aqui neste jornal[*], no primeiro sábado deste agosto, bati pesado em minha querida Lídice da Mata, disparando de cara, sem maiores floreios: “Lídice deixou que fizessem aquela porcaria do Aeroclube”. Pois bem. Ela me enviou uma carta, respondendo. Ou, antes, esclarecendo o que aconteceu naquela parada. Desde que a carta não cabe neste espaço, faço um resumo do que li, com citações.

Lídice diz que, quando assumiu a prefeitura, a administração anterior já havia realizado um “concurso nacional de idéias” para ocupação da área do Aeroclube, com apoio de várias “entidades democráticas”, entre elas, o Instituto de Arquitetos do Brasil. “Dois famosos arquitetos baianos venceram a disputa”, informa Lídice. “Nosso governo teceu críticas ao projeto. Abrimos novo debate público. Mas nossa iniciativa provocou uma mobilização nacional dos IABs de diversos estados, além de sua diretoria nacional”. Todos se manifestaram contra a possibilidade de uma anulação do concurso. “Decidimos então apenas discutir os parâmetros de elaboração para o edital de concorrência pública nacional para a área”.

“Estabelecemos limites e garantimos que apenas um terço da área teria exploração privada. Claras determinações de formação do Parque Público dos outros dois terços restantes da área estão expressas no contrato realizado. Deixamos pronta na Prefeitura uma maquete de uma concha acústica projetada por Oscar Niemeyer para ser construída no local”.

Ainda Lídice: “Desde que a Câmara de Vereadores autorizou e o empreendimento vencedor foi lançado para o mercado, passamos a viver uma verdadeira guerra jurídica promovida por interessados em impedir que a obra fosse concluída em minha gestão. A batalha judicial arrastou-se por dois anos. Mesmo assim, realizamos, naquela área, obras de infra-estrutura para garantir a reconfiguração ambiental original e a recuperação dos pequenos morros existentes até hoje, além da macro-drenagem, ciclovia, grama, plantio de árvores, de acordo com o que era determinado pelo concurso nacional de idéias”.

E mais: “Terminamos a gestão com o impedimento legal da implantação do empreendimento pelo Tribunal de Justiça baiano, situação só superada na administração seguinte. Aliás, o fato curioso disto é que, já deputada estadual, tomei conhecimento de que o governo da época solicitou dos empreendedores que não citassem o meu nome durante a festa da inauguração”.

Situação desoladora no Aero Clube Plaza Show. Sem freguesia, lojas fecharam e algumas entraram em reforma. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

Situação desoladora no Aero Clube Plaza Show. Sem freguesia, lojas fecharam e algumas entraram em reforma. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

Bem. Fica aí o esclarecimento para quem, como eu, não sabia dessa história. Aquela porcaria do Aeroclube (tenho outros modos bem menos simpáticos e tolerantes de me referir àquilo) não é coisa de Lídice. Tem outro dono – ou donos. Mas gostaria, ainda, de fazer uns comentários laterais à carta.

Que uma coisa tão ruinzinha como aquela tenha vencido um “concurso nacional de idéias”, é atestado espetacularmente definitivo do triunfo da mediocridade arquitetônica em nosso país. Idéias? O que há, ali, é justamente a materialização mal ajambrada da falta de uma idéia! Quem terá participado do júri? Gostaria, também, de saber quem são os “dois famosos arquitetos baianos”, para a gente escolher o local mais adequado da cidade onde erguer um monumento a ambos. Por fim, esplêndido o lance da obra de Niemeyer. Se realizada, seria para a eterna humilhação estética do que foi feito.

No meu artigo, eu dizia também da existência de um projeto maravilhoso de João Filgueiras Lima, o Lelé, para o local. Lídice, em sua carta, disse que nunca teve conhecimento do projeto. É uma pena. O projeto é de 1986. Dá vontade de passar horas contemplando a maquete. Com uma cobertura de concreto e outra, bem maior, de lona translúcida, sustentada por cabos de aço ancorados em mastros metálicos.

Vista do mar, a figura total da edificação é como se a areia da praia se ondulasse numa duna alvíssima, high-tech. Um show de inserção ambiental. Delicadeza e precisão extremas. Com espaços para lazer, feiras, escritórios, etc. E um surpreendente Museu do Mar, completando-se num aquário com um túnel dotado de visores de vidro, permitindo curtições visuais sub-aquáticas. Isto, sim, é uma verdadeira e forte idéia arquitetônica. Dá para sentir a diferença?

*O artigo indignado de Risério, “Vamos mostrar ao prefeito a saída?”, foi publicado originalmente no jornal A Tarde em 1º de agosto de 2009 e reproduzido no Jeito Baiano:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/08/01/vamos-mostrar-ao-prefeito-a-saida/