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GUERREIRA DA INDEPENDÊNCIA

06/07/2009

          MARIA FELIPA

 

Da Gameleira, Maria Felipa acompanhava como sentinela o movimento das embarcações no mar. Líder de mulheres guerreiras na Ilha de Itaparica, heroína da Guerra pela Independência do Brasil na Bahia, a história de Maria Felipa começa a ser resgatada. A ilustração acima foi produzida por Bruno Aziz para o caderno especial "A Festa da Bahia", encartado na edição do dia 2 de julho de 2009 do jornal A Tarde, de Salvador, e acompanha o texto abaixo da repórter Amélia Vieira

Da Gameleira, Maria Felipa acompanhava como sentinela o movimento das embarcações no mar. Líder de mulheres guerreiras na Ilha de Itaparica, heroína da Guerra pela Independência do Brasil na Bahia, a história de Maria Felipa começa a ser resgatada. A ilustração acima foi produzida por Bruno Aziz para o caderno "A Festa da Bahia", encartado na edição do dia 2 de julho de 2009 do jornal A Tarde, de Salvador, e acompanha o texto abaixo da repórter Amélia Vieira. A outra ilustração deste post foi feita especialmente para o Jeito Baiano por Cau Gomez

 

BRAVAS MULHERES NEGRAS

 

por AMÉLIA VIEIRA*

 

A história da Independência da Bahia está repleta de heróis. Mas, apesar da representação feminina no cortejo, através do ícone da cabocla, o reconhecimento da decisiva participação das mulheres nas lutas pela libertação ainda é subdimensionada, sendo lembradas apenas as figuras de Maria Quitéria e Joana Angélica e, recentemente resgatada da história, Maria Felipa. Centenas de heroínas anônimas, todavia, tiveram atuação estratégica na libertação da Bahia e do Brasil dos opressores portugueses.

As pessoas de classes populares não constavam da história social, permaneciam não identificadas – ressalta Consuelo Pondé, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). Nos bastidores, conta, essas mulheres sem nome cozinhavam e costuravam as fardas dos homens que iam para as frentes de batalha.

Havia outras formas de contribuição, como lembra a professora Eny Kleyde Vasconcelos Farias, da Faculdade Olga Mettig, pesquisadora do Patrimônio Histórico Cultural e Natural e dedicada à interpretação do patrimônio com comunidades.

Eny Kleyde destaca o papel das ganhadeiras, escravas e libertas que vendiam alimentos para arrecadar dinheiro para compra da alforria dos maridos e filhos escravos. No ofício da mercância, elas caprichavam no visual e odor dos produtos comercializados, na opulência dos trajes, na harmonia dos cantos que entoavam para anunciar os quitutes.

As mulheres negras faziam tudo com beleza plástica –, considera a professora. “Salvador era um cenário de espetacularidade”, sintetiza.

E não foram só as mulheres “do povo” que tiveram uma participação mais ativa. As da elite também se engajaram. Um dos nomes conhecidos é o de Joaquina de Pompeu. Senhora rica da sociedade mineira, ela enviou recursos financeiros para financiar a guerra e gado para abastecer as tropas baianas.

Este foi um gesto de desprendimento. Só lembramos as que viraram mitos. Esquecemos as que foram menos heroínas, mas que foram peças-chave para a situação – observa a professora do curso de história da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Nancy Rita Sento Sé de Assis, pesquisadora da história da cultura política na Bahia no século XIX.

Ela destaca que as mulheres deste período não eram alheias à política. Nem podiam ser, pois os conflitos atingiam e desmantelavam suas famílias e muitas assumiam a chefia da casa.

A maioria atuou na retaguarda e abria mão de parte de sua riqueza para contribuir com a causa – analisa Nancy de Assis.

 

MARISQUEIRA, COMBATENTE E BELA

Entre as heroínas desconhecidas, que por mais de um século e meio sobreviveu apenas no imaginário popular, está Maria Felipa de Oliveira, descrita pelo historiador Ubaldo Osório (avô do escritor João Ubaldo Ribeiro) como uma mulher alta, bonita e valente. Possivelmente de ancestralidade sudanesa, alta e de forte compleição física, Maria Felipa era pobre e ganhava a vida como marisqueira e ganhadeira na Ilha de Itaparica.

Foi lendo a obra A Ilha de Itaparica (1979), de Ubaldo Osório, que a professora Eny Kleyde soube da existência da brava Maria Felipa e passou a se dedicar ao resgate da sua história, preservada na memória dos itaparicanos.

Fiquei impressionada e indignada. A história dela passou totalmente alheia porque era mulher, negra e pobre. Ela foi injustiçada. Se não fosse preta teria uma estátua – desabafa.

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A SAGA DE UMA ESPECIALISTA EM ESTRATÉGIA

A respeitabilidade do escritor Ubaldo Osorio, nascido cerca de 10 anos após a morte da escrava liberta, mas que deve ter ouvido sobre sua trajetória de vida pela mãe, sua contemporânea, levou a pesquisadora Eny Kleyde, a seguir para a localidade de Gameleira, em Itaparica, na tentativa de localizar pistas da existência de Maria Felipa.

Estrategista nata, era em Gameleira que a escrava se camuflava entre os oiteiros da Fazenda 27 e acompanhava como sentinela o movimento das embarcações no mar. À noite, ela partia de jangada para o Porto de Salvador, onde se informava dos últimos acontecimentos.

Mas se os gestos de bravura de Maria Felipa começaram a sair da zona nebulosa a partir de 2003, com os estudos da professora Eny Kleyde, para haver justiça é preciso enfatizar a participação decisiva das cerca de 40 anônimas mulheres que a acompanharam na sua mais ousada e crucial aventura.

Articulada, Maria Felipa sabia que a barca Constituição, formada por 42 embarcações, estava ancorada na Ilha de Itaparica e se preparava para uma batalha naval, no dia seguinte, em Salvador. Liderado por Maria Felipa, o grupo feminino atraiu os navegadores portugueses para um local ermo, os embriagou e induziu a tirar os casacos. Envolvidos e desnorteados pela bebida, cerca de 60 homens foram surpreendidos por uma surra de cansanção (planta que dá sensação de queimadura ao tocar na pele).

Esse foi o feito mais enaltecido da líder, que, segundo indícios, sabia ler, era culta, atravessava a Baía de Todos-os-Santos para buscar mantimentos e lutar capoeira com os homens e, ainda, atuava como enfermeira.

As pistas sobre sua real existência e coragem passam por relatos que se propagaram no tempo, como a vez em que enfrentou os herdeiros do Visconde do Rio Vermelho, que queriam levar uma imagem de Nossa Senhora de Itaparica para Salvador.

Mártires ou anônimas, todas as mulheres que participaram do conturbado movimento libertário baiano podem ter na cabocla a síntese da participação feminina na luta pela independência.

 

*Amélia Vieira, repórter de A Tarde

Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

 

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA-5

04/07/2009

PAÍS DE COSTAS PARA O DOIS DE JULHO

Destaque-se a indignação do leitor Nilson Nunes, que em carta ao jornal A Tarde, de Salvador, publicada neste sábado, dia 4 de julho, critica a indiferença geral no país, especialmente das autoridades e políticos em Brasília – inclusive os baianos –, em relação ao Dois de Julho, a data magna da Independência do Brasil na Bahia:

 

SUINGUE E AXÉ

Num clima de total descontração, com temperatura agradável, a Bahia mais uma vez comemorou o Dois de Julho, sua data maior, quando na oportunidade, no ano de 1823, lutas intensas foram travadas por todos os segmentos do povo baiano contra as forças portuguesas, consolidando a Independência do Brasil, que se encontrava ameaçada.

Entretanto este evento, verdadeira festa cívica, regada a suingue e axé, um marco importante na conturbada história do Brasil, não parece despertar qualquer interesse ao resto do país, particularmente das autoridades que deveriam reverenciar esse dia, o que infelizmente não acontece.

Impossibilitado de participar do tradicional cortejo, propositadamente fiquei assistindo televisão, sintonizado nos canais fechados, principalmente as TVs Câmara e Senado, e pasmem:

Os ilustres deputados federais e senadores em momento algum fizeram qualquer referência quanto à relevância do Dois de Julho para a historiografia brasileira, optando todos em comentar o escandaloso caso envolvendo a figura do atual presidente do Senado e grande ator José Sarney, cuja “folha corrida” na esfera política dispensa maiores comentários.

Por outro lado o presidente Lula (aquele que desdenhou da crise internacional, dizendo que no Brasil não passava de simples marola), muito cansado de viagens internacionais, e que quando oposicionista em diversas oportunidades participou do Dois de julho, no alto de sua popularidade preferiu o aconchego do Palácio do Planalto em Brasília para recepcionar os jogadores do Corinthians paulista, legítimo campeão brasileiro de futebol.

Diante de tamanha insensibilidade de nossos homens públicos, inclusive os que representam a Bahia, existe alguma possibilidade, por mais remota que seja, de o Aeroporto Dep. Luís Eduardo Magalhães recuperar o nome original de Aeroporto Dois de Julho? Duvide-o-dó.

NILSON NUNES – Salvador (BA)

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA-4

04/07/2009
No desfile do Dois de Julho, a Cabocla sempre porta a bandeira da Bahia, enquanto o Caboclo leva a bandeira do Brasil. Foto: Lúcio Távora | Agência  A Tarde 2.7.2009

Durante o desfile do Dois de Julho, em Salvador, a Cabocla sempre carrega a bandeira da Bahia, enquanto o Caboclo, em outro carro, leva a bandeira do Brasil. Foto: Lúcio Távora | Agência A Tarde 2.7.2009

 por Jary Cardoso

     O Brasil precisa conhecer e cultuar a história de como se desenvolveu o movimento pela independência do país na Bahia, culminando no 2 de julho de 1823. Os baianos revivem todo ano com alegria e emoção o orgulho pelo heroísmo e bravura de seus antepassados, sentimentos que têm de ser compartilhados pelos demais brasileiros. É o que recomendo como brasileiro nascido em São Paulo e hoje morando em Salvador.

     Este ano tive o privilégio de aprender um pouco mais sobre os primórdios desse movimento e conhecer seu caráter libertário. Foi quando atendi ao convite de Jorge Portugal, poeta e educador, para ir à sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, no dia 14 de junho. Jorge disse que iria receber a Comenda Marquês de Abrantes na Câmara de Vereadores e gostaria da minha presença.

     Ao chegar a Santo Amaro em meu fusquinha, encontrei a cidade em festa cívica, com faixas saudando sua data magna. Como explicou Jorge Portugal, o movimento pela Independência da Bahia – que na verdade resultou na consolidação da independência de todo o País – começou a se esboçar justamente na Câmara de Santo Amaro, em 14 de junho de 1822.

     Cito o historiador Luís Henrique Dias Tavares, mestre de Jorge Portugal, em seu livro História da Bahia, anos 1821-1822:

     A Bahia aderira às cortes de Lisboa, elegera deputados para elaborar a futura Constituição do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve e desconhecera a regência do príncipe dom Pedro, instituída com o regresso do rei dom João VI para Lisboa (…)

     (…) a Junta Provisória de Governo da Província da Bahia atuava cada vez mais submissa a Lisboa (…)

     (…) A política das Cortes Gerais para o Brasil definiu-se no segundo semestre de 1821, dirigida a neutralizar qualquer mínima possibilidade de existência de um governo executivo central em alguma província brasileira.

     (…) [em fevereiro de 1822] chegou à cidade do Salvador a Carta Régia nomeando Governador das Armas o brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, em substituição ao brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães. Logo se instalou uma situação de conflito.

     (…) Em resposta, oficiais brasileiros (…) declararam que era ilegal aceitar um decreto de Lisboa sem a aprovação da Câmara. Não queriam Madeira de Melo no Governo das Armas e para tanto orientaram a resistência que envolveu militares e civis brasileiros contra a sua nomeação.

     (…) O dia 19 de fevereiro amanheceu com a ofensiva das tropas portuguesas.

     (…) Concluída a ocupação militar da cidade do Salvador, Madeira de Melo adotou uma linha política que visava (…) obter o apoio local para manter a Bahia unida a Portugal.

     (…) Número apreciável de famílias abandonou a cidade do Salvador e se dirigiu para Santo Amaro, São Francisco do Conde, Cachoeira e Maragogipe. Em abril já existiam várias conspirações contra o governo militar que o brigadeiro Madeira de Melo estabelecera.

     (…) A definição dos baianos ocorreu entre maio e junho de 1822 (…)

     [Agora se aproxima o momento de Santo Amaro]

     Os partidários do reconhecimento da autoridade do príncipe tentaram uma decisão na Câmara da cidade do Salvador. Marcada para se reunir no dia 12 de junho, as tropas portuguesas bloquearam as ruas (…) A reunião foi proibida.

     Dois dias depois (14 de junho) reuniu-se a Câmara de Santo Amaro (…) A Câmara decidiu: “Que haja no Brazil hum centro único de Poder Executivo; que este Poder seja exercido por sua Alteza Real o Príncipe Regente”.

     A partir dessa decisão é possível encontrar uma sequência de preparativos na Bahia para o reconhecimento da autoridade do príncipe dom Pedro (…)

     O episódio seguinte ocorreu pouco depois, no dia 25 de junho, que se tornou a data magna de Cachoeira, localidade vizinha de Santo Amaro. Lá também a Câmara reconheceu a regência de D. Pedro, e houve ainda luta contra portugueses e tiros, desencadeando uma série de episódios que ainda preciso conhecer melhor.

     Voltando ao 14 de junho de 2009 em Santo Amaro. Antes de começar a solenidade na Câmara, que teve a presença do ministro da Cultura, Juca Ferreira, procurei me informar com Jorge Portugal sobre os acontecimentos de 187 anos atrás. E ele me levou a recuar um pouco mais na História.

     Jorge Portugal disse que as lutas pela independência da Bahia foram precedidas, em 1798, por um movimento libertário em Salvador, a chamada “Revolução dos Alfaiates” ou “Revolta dos Búzios”, inspirado na Revolução Francesa e nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Seus ideais eram muito mais avançados que a Inconfidência Mineira.

     Luís Henrique Dias Tavares escreveu assim sobre a “sedição de 1798”:

      (Este importante movimento foi) amplo e singular, por seu ideário, pelo largo circuito social dos que dele participaram ou nele foram envolvidos, proprietários, oficiais e soldados do exército colonial português na Bahia, intelectuais, artesãos (alfaiates livres e escravos, cabeleireiro, ourives, pedreiro, carapina, ferreiro, bordador) e escravos, pela influência que recebeu das ideias humanistas de igualdade de todos os seres humanos e do exemplo da Revolução Francesa de 1789-1793, que degolara um rei e uma rainha, proclamara o regime republicano e extinguira o trabalho escravo.

     (Boletins sediciosos) foram colados na fachada de casas (…) Eles repetem itens e frases referentes ao soldo dos militares (…), aos padres, ao comércio monopolizado, à situação política da Europa, à condição da capitania da Bahia, que “sofria latrocinios, furtos com os titulos de impostura, tributos e direitos que são elaborados por ordem da Rainha”, às discriminações que os pardos (mulatos) sofriam por causa da cor da pele, às ideias de liberdade, república, democracia e igualdade sem diferenças de cor. Algumas das palavras mais repetidas pertenciam ao vocabulário entregue ao mundo pela Revolução Francesa: Povo, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Deputados, Republicanos, Entes e Dietas.

     Mesmo depois de sufocada essa rebelião e enforcados e esquartejados quatro de seus ativistas, os ideais libertários da Revolução Francesa continuaram gerando frutos na Bahia. A Guerra da Independência veio na sequência.

     Agora passo a palavra a Jorge Amado, que em seu Bahia de Todos-os-Santos dedicou alguns trechos ao Dois de Julho de 1823:

2 DE JULHO, FESTA CÍVICA E POPULAR

Foi um 2 de Julho”, se diz na Bahia quando se faz referência a uma coisa notável, grande, barulhenta, porreta. A festa do 2 de Julho tem um caráter cívico e patriótico que não lhe tolda a graça popular. Comemora-se a data da entrada triunfante dos exércitos libertadores na capital em 1823. O dia verdadeiro da Independência do Brasil (…).

Monumento a Maria Quitéria. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

Monumento a Maria Quitéria. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

MARIA QUITÉRIA

por Jorge Amado

O príncipe D. Pedro, no caminho de São Paulo, deu o grito da Independência. Depois foi dormir com a marquesa de Santos. Os Baianos então expulsaram os portugueses que ainda desejavam conservar a colônia. As tropas de Madeira foram batidas no Recôncavo, em Pirajá, em Itaparica. Um avô de Castro Alves, major das forças da Independência, comandava um batalhão. Foi o batalhão mais valente de toda a campanha. Puseram-lhe o nome de “Batalhão dos Periquitos” por causa da farda verde. Os “Periquitos” ficaram célebres, tais foram as suas façanhas na guerra da libertação. Entraram triunfantes na Bahia pelo caminho da Lapinha (…)

Certa moça baiana, de nome Maria Quitéria, de família pobre, não quis assistir de braços cruzados à libertação da sua pátria. Vestiu uma roupa de soldado, apresentou-se ao avô de Castro Alves, mostrou que sabia atirar e fez toda a campanha. Foi um soldado disciplinado, corajoso, capaz, consciente. Honrou o “Batalhão dos Periquitos” e sua tradição é orgulho da mulher baiana.

No entanto, a fama ficou para Joana Angélica, uma freira que defendeu a porta do seu convento. Não a moveu o patriotismo e sim, apenas, a defesa da clausura do tenebroso convento das “arrependidas”. Mas a heroína da Independência é a outra, a mulher que rompeu com os preconceitos terríveis da época, alistou-se como soldado, tomou do fuzil, matou inimigos, lutou de armas na mão, Maria Quitéria. Por isso mesmo injustiçada e esquecida.

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA-2

02/07/2009
 
Baianos participam da Festa do Dois de Julho no Carmo, em Salvador, para comemorar a Independência da Bahia do domínio português. Foto: Fernando Vivas - Agência A Tarde | 2.7.2008

Baianos participam da Festa do Dois de Julho no Carmo, em Salvador, para comemorar a Independência da Bahia do domínio português. Foto: Fernando Vivas - Agência A Tarde | 2.7.2008

DOIS DE JULHO,

UMA FESTA DO POVO

por zédejesusbarrêto*

Dois de Julho é a data da independência do Brasil na Bahia”,  na definição do professor e historiador Luis Henrique Dias Tavares.

O que isso significa?

Significa que o “Independência ou Morte!” gritado pelo jovem imperador Dom Pedro I, nas margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo, no 7 de setembro de 1822, de nada valeu na Bahia controlada pelos interesses portugueses. Salvador continuava sendo um dos portos mais importantes do atlântico sul e o tráfico de escravos enriquecia muitos comerciantes, aqui e na África.

Mesmo com o brado de Dom Pedro, as cortes de Lisboa mantinham o domínio do nosso estado e, a partir daqui, esperavam controlar todo o norte e nordeste. Mas, já há algum tempo descontentes com o jugo português e movidos pelo ideário iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade, os baianos entraram em guerra com o objetivo de afastar e expulsar os colonizadores portugueses do comando da capital e da região. A reação começou no recôncavo.

O 2 de julho  é a data da libertação, da nossa verdadeira independência conquistada com a vontade, o suor e o sangue dos baianos, do povo – aí incluindo-se uma elite de proprietários de terras e escravos do recôncavo, comerciantes, uma classe média mais ou menos instruída e libertária, lavradores, pequenos negociantes e até escravos. Brancos, caboclos, negros afrobrasileiros, mulatos, homens e mulheres …

 A real e total independência política da nossa nação, a consumada e definitiva separação de Portugal aconteceu com o enxotamento, a fuga das tropas do comandante luso Madeira de Mello e a entrada na capital do exército libertador vitorioso em 2 de julho de 1823.  

Daí, como disse o mestre, Dois de Julho é a data da Independência do Brasil na Bahia!

Monumento ao Caboclo no Campo Grande. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde - 27.6.2006

Monumento ao Caboclo no Campo Grande. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde - 27.6.2006

 

Uma manifestação popular

Como dizem os historiadores, o nosso 2 de julho é um exemplo de manifestação cívica e popular, uma festa essencialmente democrática. Certamente, a única festa cívica brasileira com raízes e características tão populares. Desde a sua origem e ainda hoje.

“O desfile histórico do 2 de julho é patrimônio intangível, cultuado e preservado por todos os que se orgulham da sua ancestralidade e demonstram engajamento em reivindicações comunitárias, patrióticas, amorosas. A festa da independência é vivida pela consciência de que os acontecimentos do passado ainda não se extinguiram. A liberdade e a igualdade social ainda são um objetivo, uma luta.”

(O texto é da pesquisadora, historiadora e escritora Socorro Targino Martinez)

Em 1823, as tropas vitoriosas vindas do recôncavo e de Pirajá entraram na cidade pelo Caminho das Boiadas (que passou a se chamar Estrada da Liberdade, hoje a avenida  Lima e Silva). Eram negros, brancos, caboclos, maltrapilhos, famintos, cansados e vitoriosos depois de quase dois anos de lutas e resistência, sitiando a capital, encurralando e enfrentando as tropas de Madeira de Mello.

O português fugiu na madrugada, pelo mar. E o Exército Libertador foi aclamado nas ruas. Esse é o simbolismo do desfile, a recriação popular do acontecido em 1823.

Há um histórico caráter de protesto e reivindicatório no desfile.

São manifestações já presentes, visíveis e motivadoras logo no ano seguinte, no 2 de julho de 1824, quando a fatia da população mais pobre que deu o suor e o sangue de suas vidas nas batalhas, revivendo a façanha do ano anterior, quis mostrar também que os negros, os caboclos,  os que  pegaram em armas e arriscaram tudo pelos ideais de liberdade e igualdade continuavam desassistidos e nada tinham lucrado com a guerra e a expulsão dos portugueses.

Diz o historiador baiano Sérgio Guerra Filho: Fizeram parte do Exército Libertador “lavradores, desocupados, oficiais mecânicos ou pescadores, livres não-proprietários, libertos e até escravos, negros, mestiços, brancos pobres e índios, homens e mulheres, jovens e idosos que se apresentaram, na maioria das vezes, como voluntários para a guerra contra os portugueses e o general Madeira”

Mas, finda a guerra, o poder continuava nas mãos dos brancos, dos grandes comerciantes, dos coronéis do recôncavo, os senhores da política , enquanto a pobreza, a fome e a escravidão continuavam as mesmas de antes da guerra, ou ainda piores. A tirania e o autoritarismo, os mesmos.

A primeira metade do século XIX na Bahia, em Salvador especialmente, foi de agitação,  insurreições e muita repressão contra os negros, sobretudo. Grandes exemplos são as revoltas Malês e a Sabinada, nos anos 30.

Maria Quitéria de Jesus Medeiros

Soldado Maria Quitéria de Jesus Medeiros

Mas, desde 1824 até hoje o desfile do Dois de Julho sempre aconteceu. E, apesar de tantas tentativas dos políticos de plantão em transformar a festa num evento oficial e eleitoreiro,  o nosso Dois de Julho continua sendo uma manifestação livre do povo, uma festa democrática, onde cabem as vozes da diversidade, todos os clamores do povo.

Ainda citando o historiador Sérgio Guerra Filho: “… o povo volta às ruas, todo ano, no dia 2 de julho, afirmando que, além de Labatut, Lima e Silva, du Pin e Almeida, Cochrane e outros, seus heróis de vida são os anônimos heróis que raramente aparecem nos documentos, não ganharam nomes de ruas ou monumentos. Mas marcaram com sua   presença – e muitas vezes com sua rebeldia e insubordinação, demonstrando seus anseios políticos  e a sua discordância com os rumos do estado imperial – durante os anos da guerra a sua luta em busca da igualdade e da liberdade”.

Desenho do busto da heroína Maria Felipa de Oliveira, feito por Filomena Orge. Composição artística com base em pesquisas, histórias narradas, descrições em livros e traços fisionômicos de descendentes

A heroína Maria Felipa de Oliveira em desenho de Filomena Orge

Símbolos e heróis

Não é à-toa que o símbolo maior do Dois de Julho é o caboclo, o brasileiro nato, herdeiro dos guerreiros tupinambás. Símbolo também da miscigenação. É ao caboclo e à cabocla que o povo presta toda sua reverência, até hoje, no Dois de Julho. Mesmo reconhecendo o heroísmo da madre Joana Angélica, que caiu diante das baionetas lusas; mesmo saudando os feitos de João das Botas que enfrentou com saveiros e emboscadas entre as ilhas e enseadas da baía de Todos-os-Santos as naus de guerra portuguesas; exaltando também o destemor, a coragem e o heroísmo da jovem cabocla cachoeirana Maria Quitéria de Jesus Medeiros, e da negra itaparicana Maria Felipa…       

Mas é o caboclo que simboliza o povo e sua eterna luta pela liberdade. É ele que rege e vai à frente do desfile, aclamado. É nos pés dele que o povo deposita seus pedidos, suas preces.

É pra ele que os terreiros de candomblé de Angola (nação banto), e de origem cabocla batem seus tambores nas noites do Dois de Julho, em toda a Bahia.   

Segundo os historiadores, o carro do caboclo foi fabricado em 1828, por Bento Sabino, que utilizou na feitura as rodas de carretas de guerra tomadas dos inimigos em campos de batalha. O caboclo, ornado de penas, tem uma seta e uma taquara que esmagam a cabeça da serpente do despotismo. O carro com a cabocla foi construído em 1840.

 Já o monumento ao Dois de Julho, na praça do Campo Grande, foi inaugurado com a praça em 2 de julho de 1895, uma relíquia do iluminismo francês.  A escultura é projeto do italiano Carlos Nicoli e o monumento foi executado em Gênova pela empresa Pitombo Podestà & Cia. Na época, “o maior monumento de toda a América do Sul”.

“É uma gigantesca coluna em bronze, estilo coríntio, assentado num bloco de mármore de Carrara, tendo em duas faces laterais magníficos baixo-relevos lembrando as cidades de Itaparica e Cachoeira, que tiveram papel preponderante nas lutas da independência. Em cima da coluna ergue-se um indígena, o caboclo, de 2m80cm de altura, calcando os pés sobre a serpente do despotismo” – Descreveu  o Diário do Povo de abril de 1888.

No monumento se pode ver ainda datas alusivas aos feitos heróicos, alegorias, uma homenagem a Catharina Paraguaçu, armas, leões, escadarias, gradis e lampiões. O monumento foi recuperado no início dos anos 2.000, como toda a praça, e encontra-se em bom estado de conservação.

(HINO AO DOIS DE JULHO CANTADO PELA POLÍCIA MILITAR DA BAHIA)

 

Um hino de liberdade

O hino ao Dois de Julho data de 1828. A letra é do poeta e alferes do Estado Maior das lutas de independência Ladislau Santos Titara. E a música é composição do professor e maestro José Santos Barreto:

“Nasce o sol a 2 de julho

Brilha mais que o primeiro

É sinal que neste dia

Até o sol é brasileiro

 

Nunca mais o despotismo

Regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros corações

 

Cresce oh filho de minh’alma

Para a Pátria defender

O Brasil já tem jurado

Independência ou morrer

 

Salve oh rei das Campinas

De Cabrito e Pirajá

Nossa Pátria, hoje livre

Dos tiranos não será”

 

*zédejesusbarrêto – jornalista e professor licenciado em Ciências Sociais pela UFBa

 

COMENTÁRIO DE TUZÉ DE ABREU

Jary,

Entrei hoje no seu blog e escutei emocionado a gravação do Hino ao Dois de Julho, esta música ótima, na gravação muito boa da banda da PM. É uma pena que, baseado num ato da PM de SP, o então governador César Borges tenha extinto essa banda de direito. Ela continua de fato, mas seus membros são policiais sujeitos a fazer serviço de rua a qualquer momento. Não são mais músicos de carreira, nem há mais aquela escola que deu tantos bons frutos, inclusive para a orquestra sinfônica. É uma pena saber que hoje seria impossível a banda (mais coral) da PM fazer uma gravação com este nível. E olhe que era a banda em atividade mais antiga do país. Se for perguntado dirão que a banda existe. Sim, de fato, mas não de direito. Acabou a função “músico” na PM, onde o praticante poderia chegar a oficial. Conheci alguns como o finado major Eduardo, que foi oboísta das duas orquestras sinfônicas. Obrigado, um abraço.

Tuzé de Abreu

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA-1

30/06/2009

O caboclo em seu carro na Lapinha. Foto: Xando P. | Agência A Tarde

O caboclo em seu carro na Lapinha. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

O CABOCLO NO MEIO

por MILTON MOURA*

Autores consagrados disseram, nas últimas décadas, que o caboclo é um resultado. Alguns deles garantem que é um híbrido. Outros, que é produto de um sincretismo. Outros ainda, que é uma síntese de elementos da brasilidade, uma mistura de perfis. Reconheço a procedência das frases e a verossimilhança das afirmações. Por outro lado, temo que, em dizendo assim, estejamos querendo roubar do caboclo aquilo de que ele parece gostar mais: estar no meio, ser o meio. O que não é a mesma coisa.

O caboclo flui e escapole, tangencia e adentra ao mesmo tempo. A ele não se presta um culto imponente, cheio de cobranças de coerência, posto que não é um deus. Quem vai controlar o caboclo, se ele já aparece feito, não sai de camarinha? Quem sabe é um espírito, um duende astucioso e engraçado, um gnomo que desata nós, tão perspicaz e indecente, adivinhão e surpreendente, provocando admiração e embaraço, temor e alívio. O caboclo habita os meandros das inconsistências, escorrega por entre as arestas das identidades.

Recorrer a um caboclo, ou mesmo ser um caboclo, é um meio. Meio de fazer sentido ou escapar do absurdo de ter que fazer sentido pelo sentido imposto pelos outros. Caboclo é estratégia, jeito, postura de gente sabida. Caboclo é quem escapou do extermínio, da escravidão e da servidão e ainda arranjou como fazer uma tenda onde vêm ter os seus senhores de antanho, em busca de conselho e solução. Até no calendário o caboclo está no meio.

Com exceção do caboclo Tupinambá, que sai em cortejo no 7 de janeiro de Itaparica, os caboclos da independência da Bahia passam no 2 de julho, precedidos de uma semana pelo de Cachoeira, que passeia pela beirada do Paraguaçu já no 25 de junho. São vários, de diversos tamanhos, caboclos e caboclas. Há deles e delas também em Valença, Saubara, Maragogipe, Santo Amaro, São Félix, Jaguaripe, Itacaré e Salinas da Margarida. Com a saída dos portugueses da sede da Bahia, foi preciso inventar um personagem que pudesse ser, quem sabe, o brasileiro. E entronizaram um caboclo num carro de guerra. Ontem (2.7.2007), saíram de novo pela Bahia afora.

Ainda não sabemos direito o que somos, nem para onde podemos ir. Sequer temos certeza de que a sociedade civil, ou a própria democracia, sejam uma aventura apropriada para uma província, capital do passado, ex-poderosa, ex-tanta coisa, êxtase de um Brasil que acaricia seu umbigo preto. Entretanto, quando vemos os caboclos passarem em seu cortejo magnífico, é como se por alguns instantes pudéssemos sonhar em sermos interfaces de nós mesmos, no meio de nós, no meio da rua.

*Milton Moura – professor de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBa), coordenador do grupo de pesquisa “O Som do Lugar e o Mundo”

(Publicado no jornal A Tarde, de Salvador, em 3 de julho de 2007)

CIDADE HEROICA DO RECÔNCAVO

22/06/2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas | AG. A TARDE | 18.2.2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas Agência A TARDE | 18.2.2009

OLHAR SOBRE CACHOEIRA

por MAÍSA PARANHOS

É impossível subir até a Cruz de São Félix, olhar em direção ao Rio Paraguaçu, para o outro lado de sua margem, sem conter a respiração diante de tanta beleza que emana da paisagem da cidade. Monumento histórico nacional, Cachoeira, no Recôncavo Baiano, jogou um papel importante na luta pela Independência da Bahia. Contam os antigos que as mulheres atravessaram o rio a nado, com punhal entre os dentes, para a expulsão do português colonizador. Daí a denominação de “Cachoeira, a Heroica”.

Quem a mira terá seus sentidos atingidos. Sente-se uma saudade de não sei o quê, uma sensação de pertencimento, uma intimidade que só seria possível com o nosso passado atávico, talvez. Nela, nos reconhecemos. Hoje, é portadora de uma rica vida cultural, tendo sido escolhida para abarcar a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Aonde chegamos, chegam as mudanças necessárias para a própria garantia dos nossos agrupamentos humanos. E assim, acreditamos, os espaços são modificados em função do homem. Tal vem ocorrendo em Cachoeira, possuidora de um calendário muito extenso em festividades e manifestações culturais, destacando-se a Festa da Boa Morte e o São João. Os festejos trazem admiradores e futuros moradores, e consequentes investimentos e empreendimentos.

A própria universidade aportou um contingente populacional maior para o espaço urbano, e é claro que este se modificará. A questão é justamente esta: de que forma este espaço, que é monumento histórico, portanto patrimônio público, vem sofrendo essas modificações? Cachoeira vem sendo tratada com a delicadeza e a importância necessárias? Sendo uma das maiores expressões da arquitetura colonial portuguesa em nosso País, exige um trato peculiar. Por ser uma cidade dona de um acervo cultural imenso, com seus museus e vasta produção artística, necessita de uma administração que dê conta de suas especificidades.

É com tristeza que observamos um desenho urbano se modificando nas encostas dos morros e nas margens dos rios sem o devido planejamento. É com melancolia que vemos seus artistas produzindo em espaços precários enquanto ocorrem construções desordenadas ao longo de seus riachos. É com indignação mesmo que vemos pouca, ou quase nenhuma, participação popular nas decisões que são ali tomadas para o “engrandecimento” cultural da cidade.

Preservar um monumento histórico é criar condições para a sua valorização, inclusive turística, e não transformá-lo em objeto de vitrine, cercada de uma população excluída da preservação daquilo que ela própria constitui. Monumento histórico é coisa viva. O seu sentido é dado no presente por quem o cerca e lhe dá sustentação material e simbólica. Desta forma, Cachoeira está merecendo, com certeza, um olhar mais apurado e efetivo.

Maísa Paranhos é professora de história

E-mail: msparanhos@uol.com.br