Posts Tagged ‘Gregório de Mattos’

TEM BAFAFÁ NA BOCA DO INFERNO

19/03/2010

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textos de zédejesusbarrêto

(escritos especialmente para o blog Jeito Baiano)

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Acusado por alguns funcionários de ‘racista’, ‘homofóbico’, ‘lesbofóbico’ e também denunciado, pelos mesmos, de ‘assédio moral’, ‘calúnia’ e de ameaçar e xingar servidores que não cumpriam suas ordens, o jornalista, dramaturgo e poeta Antonio Lins foi demitido da presidência da Fundação Gregório de Mattos, entidade maior da cultura da capital baiana, a qual assumiu em janeiro de 2009 prometendo, na ocasião, ‘agitar a Bahia e tirá-la da mediocridade’.

Agito mesmo o dramaturgo fez ao sair, cuspindo chumbo pra cima do prefeito João Henrique, a quem acusa de ‘ não dar bola para a cultura’. Numa entrevista quente ao jornal A Tarde (edição de 19 de março), ele diz que o gabinete do Sr. Prefeito queria usá-lo para cometer irregularidades, pagar contas de festanças regadas a uísque e acarajé a $ 15 reais, e da qual ele e a FGM sequer participaram. De sobra, xingou o prefeito de ‘desequilibrado’, ‘ignorante’, ‘semi-analfabeto’ e ‘impostor’.

De cara enfezada na foto, Antonio Lins (que é filho do grande escritor e jornalista Wilson Lins) defendeu-se das acusações de racismo e homofobia dizendo que é amigo de Luis Mott (fundador do GGB) e … ‘como um poeta vai ser racista? Que diabo de poeta é esse? O único preconceito que eu tenho, compadre, é com a burrice’. Lá ele!

O ‘Boca do Inferno’, o poeta (esse sim) Gregório de Mattos e Guerra, que empresta o nome à Fundação em questão, deve estar se tremelicando de rir no túmulo onde vagueia e de onde observa sua Bahia de todos os santos e pecados desde o século XVII.

Na praça vizinha, a estátua de Castro Alves estremeceu.

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Enquanto isso, nossa cultura continua no reboleichon,chon… há tempo.

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Lembro-me de um debate no ‘salão de imprensa’ do agora falido Hotel da Bahia, às vésperas de um carnaval, nos últimos anos do século passado, quando o compositor Gerônimo assumiu o microfone e disse solenemente, com toda a irreverência de um futuro ‘Rei Momo”:

Amigos, cultura começa com cu, mas a cultura baiana não se resume ao cu de Carla Perez’

À época, o grande apelo cultural baiano era a música/dança ‘Na boquinha da garrafa’.

Como se vê, a mediocridade vem de looonge! Tudo enfiado!

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Lúgubre Leilão

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Está mesmo acontecendo no dia 20, agora – sem que ninguém faça nada para impedir, negociar, salvar – o leilão dos bens do Hotel da Bahia, bancado pela Rede Tropical Hotéis, fechando o barraco e, quem sabe, condenando o prédio de grande valor arquitetônico para a cidade, símbolo de uma época de ouro da Bahia. No rebolo vão móveis antigos, utensílios, objetos, obras de arte, inclusive uma escultura de Mário Cravo – mais de 300 lotes, milhares de artigos.

Bem, conforme a direção do Instituto Aerus (?) que aparece como proprietário do prédio, quatro painéis/murais de Carybé e uma tela de Genaro de Carvalho não vão a leilão agora, porque pertencem ao Instituto, fazem parte do prédio. Haverá (sic) um novo leilão, depois, do imóvel. Que, penso, deveria ser tombado. Se acontecer o novo leilão, aí então estarão incluídos os trabalhos de Carybé e Genaro.

É a Bahia, sua história, sua arte, se desmiliguindo por incúria, falta de respeito aos (e dos) baianos, por alguns trocados.

Enquanto isso… os funcionários, trabalhadores antigos do hotel, não sabem ainda como e quando vão receber o que têm direito. Muito rolo na Justiça até definir o troco.

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante!

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Briga nos Tainheiros

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O projeto de revitalização e reurbanização da cidade baixa foi pro lixon-xon, pelo silêncio.

Mas a Ribeira está em rebuliço, por causa da disputa de espaços na borda da Enseada dos Tainheiros, um dos locais mais belos da cidade. Os novos ‘proprietários’ do mar estão fechando os caminhos da água, murando, cercando, metendo placas proibindo entrada e passagens etc e tal, arrotando arrogâncias.

A área, tradicional local de centenárias regatas, virou estaleiros de iates, veleiros, saveiros adaptados a passeios turísticos, consertos de embarcações, altos negócios de lazer… Mais adiante, próximo da Penha, agora é um estaleiro da tal empresa que gere (pessimamente, diga-se) o sistema de ferry-boats. Tudo dominado.

O espaço das competições/as regatas é cada dia menor e já não há como treinar, pôr os barcos e os remos na água. A briga entre os clubes de regatas da região itapagipana e os novos donos do pedaço é feia. E às vezes se dá na base dos xingamentos, ameaças, remadas, promessas de retaliações e… violência.

É preciso alguém do governo, da prefeitura, da justiça ir lá, reunir os interessados, a comunidade e negociar, definir espaços e tempo para cada um, quem tem direito ou não, manter a ordem nos domingos de competições, quando os barcos e remos estão na água e os donos de iates querem sair para passear e tomam o espaço, prejudicam as competições… etc.

A Ribeira tem tradição e o povo de lá tem de ser ouvido e respeitado. Vamos ordenar aquilo lá, antes que aconteça uma tragédia. Tô avisando.

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Reforma Aquária

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Por falar na Ribeira… alguém lembra da ida do presidente Lula àquele lugar, há alguns anos, com o governador Jaques Wagner pela mão, o ministro da Pesca e tantas outras ‘otoridades’, para criar/inaugurar um tal Terminal Pesqueiro, que seria a redenção dos pescadores itapagipanos e de todo este país, hum?

Se não lembra, vou refrescar a memória. Na ocasião, o presidente Lula prometeu até ‘fazer uma Reforma Aquária’ (sic) neste país. Cadê tudo?

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Espicha lixão

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Acabado o estica e puxa do verão… que tal um mutirão (Secretaria de Turismo e sua Bahiatursa, prefeitura, órgãos ambientais, comunidade) para limpar as praias do Porto da Barra e adjacências do lixão acumulado sob as águas?

Que tal repensar…

Aquele não é um lugar apropriado para tais eventos. Nem no Porto nem à frente do Farol. É, sim, uma falta de respeito a sítios históricos e uma visão obtusa do que significa TURISMO numa terra que tem como singularidade a sua história, a sua cultura.

Sem grilos, vamos pensar, já, o verão de 2011? Cadê o tão falado ‘debate’ sobre os novos caminhos e propostas do Carnaval? Ou vamos mais uma vez jogar tudo pra debaixo do tapete porque não rende voto?

Ora, Salvador e os baianos merecem um pouco mais de respeito, planejamento.

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Mudando de tom…

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Poetando

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Ao entardecer, na alameda da Morte,

A Beleza perguntou à Verdade:

– “Qual o caminho que conduz a Deus?”

– “O Amor”, a Verdade respondeu.

Então, a Beleza disse:

– “Eu sou o Amor”

(Godofredo Filho, poeta modernista baiano – 1904/1992)

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Pensamentando

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Na arte do jogo das paixões humanas

O sábio caçador, muitas vezes,

Se entrega feito presa,

Finge-se de caça, num último golpe …

Definitivo.

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*zédejesusbarrêto, jornalista, escrevinhador, pensamenteiro.

19.mar/2010.

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ILDÁSIO TAVARES – GENTE DA BAHIA

07/02/2010

ILDÁSIO TAVARES em seu reduto de produção e criação durante entrevista para a série MEMÓRIA DA BAHIA, do jornal A Tarde. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde - 16.6.2009

AS SETENTA VIDAS DE UM OBÁ-POETA

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Quando ele nasceu, um anjo torto, barroco e baiano, olhou-o com um sorriso fescenino e decretou em sentença: “vai, poeta, ser Ildásio na vida!”

Daí em diante, ele só se multiplicou por inúmeras faces e, sozinho, poderia muito bem ter povoado todos os espaços e recantos da literatura.

Existe o Ildásio poeta, o Ildásio professor, o Ildásio erudito, capaz de discorrer com elegância e conhecimento profundo sobre dez dos dez mais complexos assuntos que pautam nossa cultura; temos também o Ildásio boêmio e amante da sedutora paisagem baiana, sobretudo se encarnada no sexo feminino, independente de etnia ou origem social, mas importando que possua as curvas estonteantes da Avenida Contorno.

Esse é certamente o “Dadá Tavares”, cantado por Antônio Carlos e Jocáfi que “entre noites, mulheres e badalos, dava aula de inglês nos intervalos pra que sua família não lhe deserdasse”.

Esse também pode ser chamado Ildásio Taveira, personagem memorável de Jorge Amado no seminal A Tenda dos Milagres, que nos comunica uma Bahia negra, negro-mestiça, civilizada pela sabedoria africana, na sua capacidade de criar e resistir.

Aí se desvela o Ildásio do Candomblé, o Obá de Xangô e o filho de Omolu/Jacum, o exímio capoeirista Lacrau de outros tempos, e o sábio de hoje que continua lutando para esquivar-se de adversidades, aplicando aús e meias-luas na vida.

E há um impagável Ildásio epigramista, demolidor implacável de hipocrisias e reputações literárias que não resistiriam ao sopro da mais leve brisa. Espécie de Gregório de Mattos redivivo, encarna esse espírito barroco que atravessa a Bahia, como seu arquétipo cultural, e tempera, com veneno e arte, a expressão da inteligência aguda e do riso triunfal.

O espaço deste artigo já está acabando e ainda sobra tanto Ildásio que nem suas setenta vidas seriam capazes de abarcar.

De “restos”, querido poeta, o coração daquele menino de 12 anos, que se fez encantado por sua poesia, ainda guarda o verso-senha da sua inspiradora existência: “há um resto de ontem na calçada/ que foi dia de festa e fantasia/ há um resto de mim em toda parte/ que nunca pude ser inteiramente”.

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*Jorge Portugal – Educador, poeta, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO!, da TV Brasil

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TRISTE BAHIA, OH QUÃO DESSEMELHANTE

16/07/2009
Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

     O jeito baiano de ser, pelo menos o dos baianos de Salvador, aflorou e se desenvolveu intrinsecamente conectado a uma configuração especial de cidade. E hoje está ameaçado de morte pela degradação dessa mesma cidade, que “perdeu a essência”, como filosofou dia desses Aloísio, dono de barraca e figura histórica da Praia dos Artistas.

     Este blog quer botar a boca no mundo, conclamar todos os que amam a Boa Terra – não só os baianos – para salvarmos Salvador, para recuperarmos a essência perdida desta cidade mítica.

     Abaixo dois textos em destaque – a entrevista da repórter Katherine Funke com o arquiteto Pasqualino Magnavita para a revista Muito e o artigo do jornalista JC Teixeira Gomes para a página de Opinião, ambos publicados no jornal A Tarde, de Salvador, que trazem importantes subsídios para esta discussão.

     Antes, o pensamento imbatível de Antonio Risério sobre o mesmo tema, extraído de um artigo dedicado a Caymmi que ele escreveu para a Folha Ilustrada, com data de 18.8.2008:

Quando Caymmi soou no Brasil meridional, trazia a mensagem cálida e ecológica de um lugar idealizado, que parecia parado no tempo e viver em paz, imune a conflitos sociais. Caymmi reforçou assim, nacionalmente, o mito baiano. Era como se falasse de um espaço utópico: o lugar de nossa origem, premiado por belezas arquitetônicas e ambientais, onde vivia uma gente feliz, ensolarada e muito singular. Naquela época, o mito não deixava de encontrar alguma correspondência na Bahia real. Hoje, não. A Bahia de Caymmi ficou definitivamente para trás. É uma Bahia que soa atualmente, também para os próprios baianos, como uma espécie de utopia.

(Este post é continuação de um dos primeiros do Jeito Baiano, aquele intitulado “Cidade da Bahia, mais de cem anos de solidão”. Veja-o no endereço https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/03/29/cidade-da-bahia-mais-de-cem-anos-de-solidao/

 

DESRESPEITO E DEGRADAÇÃO

 

Entrevista com o arquiteto Pasqualino Magnavita

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

por KATHERINE FUNKE, revista Muito (5.7.2009)

 

Engenheiro formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBa) e doutor em arquitetura pela Universidade de Roma, artista plástico e designer de móveis. Aos 80 anos de idade, Pasqualino Romano Magnavita acumula todas essas qualificações – todas elas premiadas. Nem por isso se acomoda. Mantém-se em constante atividade.

Apesar de morar em Itaparica desde 1995, uma vez por semana deixa seu belo refúgio à beira-mar para passar um dia trabalhoso em Salvador. É vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura (CEC) e leciona na pós-graduação em arquitetura da UFBa.

Mesmo em casa, não sossega. Além de passar os dias entre pesquisas e no atendimento a alunos e visitantes, está construindo pouco a pouco um centro cultural.

Na porta do seu quarto, a foto dos pais italianos, tirada em 1915, denuncia o amor pela família. Tem 11 irmãos. Cinco já faleceram; os outros seis ainda moram no primeiro edifício projetado pelo arquiteto, em 1954, nos Barris.

Desde 1968, vem transformando uma ruína do século XIX em residência, repleta de obras de arte, livros e mirantes.

É ateu, apesar de colecionar miniaturas de igrejas e de ter criado o Axé Design – uma linha de móveis com referências ao candomblé.

E está de olho na chegada do progresso à ilha. Na capital baiana, já demoliram cinco casas projetadas por ele.

 

Por que o senhor mora em Itaparica?

Conheci Itaparica desde 1939, ainda menino. Meu pai comprou uma casa para veraneio que então era uma renomada estação hidromineral no Estado. Era um recomendável apelo para a saúde. Desde 1968, reconstruí uma pequena ruína, o Mirante do Solar, e desde então venho ampliando essa segunda morada. Com a aposentadoria, em 1995, fiz a opção de morar definitivamente aqui.

 

Agrada-lhe o projeto de construção de uma ponte entre a Ilha de Itaparica e Salvador?

A construção da ponte interessa às empreiteiras. A Ilha se tornaria um filé mignon da especulação imobiliária. Fora isso, há a possibilidade de cobrança de pedágio. A Ilha passaria a ser uma Salvador imensamente ampliada, com edificações de elevadíssimo gabarito, vista panorâmica voltada para a capital. Ao mesmo tempo, palco de uma ampliada e incontrolável ocupação informal, ou seja, uma experiência já conhecida. Com essa ponte, Itaparica seria uma Niterói.

 

Em 50 anos, a população de Salvador aumentou de tamanho quase dez vezes. Como o senhor interveio nesse crescimento?

Nas décadas de 70 e 80, a seção baiana do Instituto de Arquitetos do Brasil [IAB-BA] criou um trabalho conjunto com lideranças de movimentos sociais e associações de bairro. O objetivo era diagnosticar problemas e reivindicar soluções ao poder municipal. Participei ativamente. Também fui representante do IAB-BA na comissão paritária, em 1983, nas negociações com os ocupantes [Invasão] das Malvinas [hoje, Bairro da Paz]. Embora começada, a derrubada foi suspensa. Sob forte pressão, a população foi para Coutos. No governo de Waldir Pires, voltou a ocupar a área.

 

O senhor também participou do Conselho de Desenvolvimento Urbano, o Condurb, como representante da UFBa…

Mas, em decorrência da composição do conselho sob a presidência do “prefeito biônico“ de plantão, as minhas colocações e as do IAB-BA não tiveram ressonância. Mas tive uma grande oportunidade para contribuir na requalificação urbana da Praça Cayru, no Comércio, integrando a equipe do arquiteto Luiz Antônio de Souza. Trabalhamos por dois anos no desenvolvimento do projeto. Entregamos no início de 2002 para [o então prefeito Antonio] Imbassahy. Todavia, o projeto ainda jaz nas gavetas da prefeitura.

 

O senhor tem uma ativa participação social. De onde vem essa energia para o debate político?

Meus pais sempre manifestaram muita energia em suas vidas. Independentemente da genética, penso que a questão pode ser entendida em função de três variáveis: a primeira, minha experiência empírica, formada pelas inúmeras conexões e saberes que pude sedimentar. A segunda, a forma de pensar, a lógica e repertório conceitual. A terceira, a visão de mundo – e a adoção de uma ética/estética como professor e arquiteto. Passei pela forma de pensar dialética, uma lógica binária. Agora, com maior vigor, tenho adotado a lógica da multiplicidade, o pensamento rizomático, também conhecido como micropolítica. É uma vertente da filosofia contemporânea, que me mantém ainda mais antenado e participativo.

 

O Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

O Edifício Caramuru (1947) o estimulou a cursar engenharia e arquitetura. O que esse projeto ainda ensina?

Entre outros fatos, é o único prédio do Comércio com jardim suspenso [desenhado por Burle Marx], em lugar daquela cobertura com volumosos dispositivos do sistema de refrigeração e de reservatórios, como ocorreu em seguida. Caso todos os edifícios mantivessem o mesmo gabarito e seguissem esse exemplo, a visão da Cidade Baixa da Praça Municipal teria uma configuração interessante, em lugar do quadro degradante que presenciamos. E mais degradante será, com a irresponsável aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, o PDDU, que eleva o gabarito no Comércio.

 

Qual sua análise dessa lei municipal, sancionada pelo prefeito João Henrique (PMDB) em 2008?

Absolutamente, não aprovo. Há décadas, tanto o IAB quanto a Faculdade de Arquitetura da UFBa têm se posicionado contra a elevação de gabarito na orla. Os inúmeros exemplos existentes no País demonstram tratar-se de pura especulação imobiliária em benefício de poucos grupos sociais privilegiados. Além da descaracterização da paisagem marítima, exige investimentos públicos altíssimos, considerando a insuficiente infraestrutura existente – particularmente o sistema viário, que já se encontra próximo a um inevitável colapso e que será enormemente adensado com a elevação do gabarito da orla. Na minha opinião, o PDDU se revelou uma oportunidade perdida, pois minimamente contempla o atendimento aos problemas e soluções para a grande maioria da população e favorece, de forma incisiva, o capital imobiliário, desrespeitando o patrimônio histórico, a paisagem e o meio ambiente.

 

No debate na Câmara de Vereadores, a presença de pessoas contrárias ao projeto só foi maior no dia da votação, em dezembro de 2007. Por que isso ocorreu, na sua opinião?

Em primeiro lugar, quando se fala de Salvador, é preciso ter presente sua composição social. A grande maioria se encontra excluída dos benefícios econômicos, sociais, políticos e culturais. Em segundo lugar, o tipo de divulgação e formatação do projeto não motivou a população a interferir. Em terceiro lugar, há no plano muitas questões de entendimento puramente técnico. Contudo, representantes da sociedade civil e do Ministério Público estiveram sempre presentes nos debates. Mesmo antes de sancionada a lei, várias manifestações contrárias chegaram ao prefeito.

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

 

Nos últimos meses, cinco residências projetadas pelo senhor foram demolidas em Salvador. Como isso o afeta?

Está ocorrendo não apenas comigo, mas com colegas de geração, da geração anterior e, até mesmo, da mais nova. Muitas das residências projetadas pelo pioneiro da arquitetura moderna na Bahia, Diógenes Rebouças, já foram demolidas. Só restam duas, realizadas na década de 50, que estão ameaçadas de demolição. Seria desejável que o Ipac [Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia] promovesse de imediato o tombamento, já que uma de suas grandes obras, o Estádio da Fonte Nova, corre o risco de futura implosão, e isso, apesar do pedido de tombamento pela Faculdade de Arquitetura da UFBa. Igualmente, algumas residências projetadas por Assis Reis também foram lamentavelmente demolidas. Uma outra casa projetada por ele encontra-se na iminência de ser demolida. Provavelmente em função do ritmo acelerado dos interesses em jogo, torna-se possível afirmar que não restará registro, ou, melhor dizendo, não ocorrerá a desejável preservação da memória de arquiteturas residenciais representativas das décadas de 60 e 70 do século XX em Salvador.

 

Ao mesmo tempo em que isso acontece, a cidade ganha cada vez mais condomínios fechados, que reúnem no mesmo local atividades como trabalhar, morar e se divertir. Qual sua avaliação sobre o impacto urbano e social desse tipo de empreendimento?

É a expressão mais segregadora de uma configuração urbana. São os bolsões de riqueza da grande favela que é a Cidade do Salvador.

 

Nesse sentido, o senhor pode se dizer satisfeito com o que este século XXI está se tornando, na Bahia e no mundo?

Adotei o princípio da indeterminação, também denominado princípio da incerteza. Acredito que navegar no caos é preciso. Caos aqui entendido não como desordem, como geralmente se supõe, mas como lugar de todas as formas, de todas as partículas, lugar da criação, de novos acontecimentos, um oceano de dessemelhanças.

 

Como assim?

A vida como transformação permanente em sua percepção micro, molecular não tem princípio e nem fim. Encontramos-nos sempre no meio, entre situações, circunstâncias, contextos. Processamos uma multiplicidade e heterogeneidade de conexões ao longo de nossas existências. Sempre imagino que vou incorporando mutações e me transformando enquanto experiência empírica. E isso, simultaneamente, com uma nova forma de pensar, uma nova lógica, a da diferença. Superei a lógica binária adotando novos conceitos, proporcionando-me uma nova visão de mundo, ou seja, uma nova ética. Não é mais tempo de expectativa de grandes revoluções sociais, mas de “revoluções moleculares”, de microações individuais ou de grupos, objetivando contribuir, favorecer a construção da solidariedade e da emancipação social.

 

O senhor se considera jovem aos 80 anos?

A idade cronológica não tem sentido. As tão badaladas “crises”, em qualquer nível, são tempos de mutações, favoráveis à criatividade. Por mais adversas que sejam as questões da existência, não há lugar para desesperanças.

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam na Av. Estados Unidos, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio "50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX". Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam no Comércio, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX. Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

 

BAHIA, AMADA BAHIA

 

por JC TEIXEIRA GOMES*

 

O título deste artigo não se refere à Bahia atual (falo, claro, de Salvador), mas sim à Bahia antiga, que acabo de rever, encantado, num belo álbum das fotos de Voltaire Fraga adquirido há pouco na Pinacoteca de São Paulo. Aquela era a esplendorosa e poética cidade que seduzia gente da sensibilidade de Pierre Verger e do próprio Voltaire.

 

Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga  Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga (esta foto foi copiada de um site que informa sobre uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, mas não explica quem é esse rapaz e por que ele foi incluído na imagem)

 

Soube que no Dois de Julho vaiaram o prefeito. No entanto, ele foi reeleito, o que nos faz questionar a autenticidade do processo eleitoral nos dias atuais, dominado pelo poder da propaganda enganosa e do dinheiro. Hoje, estou convencido de que todo candidato a prefeito de Salvador deveria ser previamente sabatinado sobre as tradições urbanísticas e arquitetônicas do velho burgo. Quem as ignorasse pulava fora. Sem vacilações.

Já a Bahia de hoje é a cidade insegura, mal-administrada, de trânsito insuportável (há mais carros do que ruas), em acintoso processo de degradação urbana, fruto de um inchaço que gera bairros novos sem infraestrutura, e onde os prédios (de arquitetura discutível) florescem como cogumelos podres. É a triste e dessemelhante Bahia que clama por um novo Gregório de Mattos.

Aos candidatos ou aos prefeitos já no cargo, gostaria de recomendar, para que aprendessem a respeitar a imensa riqueza do nosso passado, além do conhecimento dos autores já citados, a reflexiva leitura da obra portentosa de Consuelo Novais Sampaio, 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX, editada em 2002 pela Odebrecht e somente agora à venda no Rio.

Não é preciso ser baiano para que alguém, diante da eloquência desse livro miraculoso no resgate de um tempo irremediavelmente perdido, se sinta arrasado com os exemplos da desfiguração de Salvador, cuja fisionomia histórica poderia ter coexistido com as imposições do progresso, pelo trabalho de administrações competentes.

 

Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht

 

Quem olha as fotos, os desenhos, os mapas, as reproduções paisagísticas, toda a rica documentação visual do livro de Consuelo, não deixa de fascinar-se, enfim, com a homogeneidade urbanística da velha Salvador.

Era uma cidade incomparável pelos simétricos detalhes do seu casario, da sua privilegiada localização no alto da montanha amuralhada, das múltiplas torres das igrejas varando os céus, da opulência do seu cais de amarras com a barreira dos edifícios densos, obras suntuosas que jamais deveriam ter sido demolidas. Somava-se à riqueza dos sobradões a rara topografia de duas cidades superpostas, numa visão inigualável para quem vinha do mar e não contemplava nada que se comparasse no mundo.

Tudo isto no embalo da baía imensa, concentração de águas diluvianas resguardadas pelo forte heroico e solitário, cuja simples localização atemorizava a presença de piratas de todo tipo, ávidos de se lançarem sobre as riquezas da América Portuguesa. Os piratas do mar já não ameaçam a cidade, mas o passar dos anos foi tornando cada vez mais evidente a devastação promovida pelos piratas imobiliários, apoiados pelos piratas da política.

Há sempre quem queira justificar as destruições como consequência do progresso. O argumento é falso. Não poucas cidades do mundo conciliam realidades urbanísticas moldadas por épocas distantes.

 

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro "50 Anos de Urbanização"

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro 50 Anos de Urbanização

 

Lembremos Jerusalém, eloquente exemplo. A cidade que viu Cristo pregando pelas ruas estreitas jaz praticamente intacta, ao lado da nova Jerusalém, metrópole dos tempos modernos. E não se diga que isto só foi possível por milagre de Deus. O que houve foi vontade política de homens competentes. Nem os bárbaros conseguiram destruir Roma inteiramente.

Já a pulverização dos monumentos e sítios históricos de Salvador é uma realidade permanente. No entanto, nenhuma outra cidade brasileira mergulha tanto na sua história e busca o passado com tamanha paixão para vivificar-se.

O prestigiado arquiteto Mário Mendonça revelou que as festas populares baianas, movidas a estrondosos decibéis, estão rachando até monumentos sólidos, como o Farol da Barra. É uma preciosa advertência, para que o registro da nossa vida coletiva não continue sendo apenas um inventário de perdas.

 

Joca 090508 FOTO03*JC Teixeira Gomes

Escritor, jornalista, foi editor-chefe do extinto Jornal da Bahia

 

SALVADOR, MAIS DE CEM ANOS DE SOLIDÃO

29/03/2009

Hoje, 29 de março, aniversário de Salvador, cidade que há 22 anos abriga este migrante, paulistano de nascimento, invoco palavras de dois expoentes baianos da minha geração: Antonio Risério e Waly Salomão, dois dos principais responsáveis (ou culpados?) por esta minha diáspora.

De Risério cito textos que dão pistas para penetrarmos nos mistérios da Cidade da Bahia, de um ponto de vista ao mesmo tempo historiográfico, antropológico e poético. Resumo o que apreendi em mais de 30 anos de conversas com Risério e leitura de seus livros: a maneira original de ser dos baianos foi cultivada durante mais de cem anos de solidão, depois que a capital do Brasil Colônia foi transferida para o Rio de Janeiro e coincidindo com o período em que o Recôncavo Baiano foi inundado por escravos africanos de etnia iorubana, que puderam conservar e recriar sua cultura. Daí surgiu uma miscigenação luso-africana-indígena sem igual, formando um patrimônio de civilização precioso para o Brasil e toda a humanidade.

De Waly (jamais escrevam Waly com dupla letra ele; Waly ficava fera quando via seu nome escrito errado: “Waly vem do árabe Walid!”, berrava, voz de trovão, entortando a bocarra, olhos faiscantes), lembro poema sobre a cidade em que ele incorporou à sua maneira o Boca do Inferno Gregório de Mattos. Waly dizia que a Cidade da Bahia tinha de se decidir entre dois caminhos: ou se deixar levar por onde a estão levando, tornar-se um mero balneário de luxo, ou se assumir como civilização original mestiça capaz de dar um novo norte ao mundo.

Comecemos com Risério.

CAMINHO DA SOLIDÃO

(subtítulo do capítulo  “À Margem da Margem”, do livro “Uma Histórida da Cidade da Bahia” – Versal Editores, 2004 –, do qual cito trecho inicial)

(…) a Cidade da Bahia sofreu um golpe rude no século XVIII. Viu escapar de suas mãos, para o Rio de Janeiro, a condição de núcleo central da vida no Brasil Colônia. Mas esse deslocamento da Cidade da Bahia, projetada desde então para fora do centro brasileiro de decisões – políticas e econômicas – foi se consumar apenas nos últimos anos daquele século.

(pulo para outro trecho desse capítulo, sob o título “Jejes e nagôs”)

(…) Houve uma alteração fundamental na composição do contingente negro de nossa população, a partir do século XVIII. Até então, o tráfico baiano de escravos fora feito sobretudo com a África subequatorial. Com as regiões de Angola e do Congo. (…) Com a chegada do século XVIII, todavia, o tráfico foi mudando de rumo. Voltou-se em direção à África superequatorial, para a região da Costa da Mina, deslizando posteriormente para a baía do Benim. (…) Foi este o período (1770 a 1851) da travessia atlântica massiva e compulsória de negros nagôs, jejes (iorubanos) e, em menor escala, haussás.

(salto, agora, para outro livro de Risério, “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” – editora 34, 2007 –, capítulo “Presença de Exu”, transcrevendo os dois primeiros dos quatro aspectos sublinhados sobre a presença dos iorubás na Cidade da Bahia)

(…) Estudiosos sublinham quatro aspectos, sempre que lidam com a presença iorubana na Bahia. Em primeiro lugar, salientando que, entre os séculos XVIII e XIX, a cultura iorubana estava em sua “época mais florescente” – e, por força do comércio escravista, vieram dar no Brasil, naquele período, representantes de sua nobreza e alto clero, a exemplo de Otampê Ojarô, da família real de Ketu, que foi sequestrada pelos daomeanos e veio a fundar na Bahia, mais tarde, um terreiro de candomblé, o Alaketu. Em segundo lugar, os nagôs não só chegaram em grupos constantes e sucessivos, como permaneceram compactados. Não experimentaram um dos piores rigores do pragmatismo escravista, ditado por motivo de segurança senhorial, que foi a política de pulverização das etnias. Os donos de escravos faziam com que estes fossem agrupados, nas cidades e nos campos brasileiros, de modo que não se entendessem entre si. Que, no mesmo barracão ou senzala, falassem línguas diversas, tivessem crenças distintas, projetos políticos dessemelhantes e códigos amorosos e familiares descoincidentes. Desse modo, seria mais difícil que tramassem fugas, assassinatos, quilombos e motins. Esta política senhorial vinha, há tempos, regendo o modo como os senhores distribuíam os escravos em suas propriedades. Mas não foi aplicada no caso dos nagôs. Eles permaneceram contactados – e souberam tirar proveito disso.

(e encerro as citações de Antonio Risério, com trecho de seu livro “Caymmi: Uma Utopia de Lugar” – Editora Perspectiva, 1993)

(…) Quando Caymmi desembarcou no Rio de Janeiro, pouco antes de completar os seus 23 anos de idade, com ele desembarcou um outro Brasil. Nem mais verdadeiro, nem mais falso – um outro. É preciso não perder de vista este constraste, se queremos, como sinalizei, apurar sentidos da presença estética caymmiana no terreiro da cultura brasileira. Projetando-se nacionalmente entre a Revolução de 30 e o “desenvolvimentismo” juscelinista, Caymmi levava consigo a cultura litorânea de uma cidade tradicional, principal agrupamento urbano do Recôncavo agrário e mercantil da Bahia. Uma cultura de traços próprios que se formara ao longo de mais de cem anos de solidão, no entrecruzamento constante de elementos, formas e práticas culturais de extração essencialmente luso-africana. E da qual Caymmi seria expressão estética concentrada.

(olhemos agora para a Cidade da Bahia, com amor e sarcasmo, através do verbo de Waly Salomão, em poema-crônica do livro “Armarinho de Miudezas” – Fundação Casa de Jorge Amado, 1993)

N. SENHORA DO DENDÊ E O “VIL MONTURO”

Tudo aperto e nada abarco, cheio de razão ardente, descarregado de mim ando no mundo. E este ar impregnado de dendê, de dendê, me faz gestar uma ideia maluca de uma Nossa Senhora d0 Dendê, dourada mulata que nem acarajé.

Tento recitar de cor o poema do jesuíta Hopkins “the blessed virgin compared to the air We breathe” mas não consigo.

Então principio a inventar uma Nossa Senhora do Dendê, dourada muqueca pairando sobre um pedestal de nuvens de El Greco.

Daqui deste “Vil Monturo”, epíteto exato dado por Gregório de Mattos, que usa em vão o santo nome do Salvador e pois suja a túnica inconsútil Dele; compadecei-vos de nós, oh! Senhora, de nossa tibieza, da moleza de nossa língua sem osso, da pobreza de nossos táxis sem pára-brisas – carcaças carcomidas pelo ferrugem das maresias –, das nossas secretárias que não transmitem recados e sofrem do mal geral de “me esqueci”, da nossa inaptidão total para romper o atraso, nós os impontuais por natureza e pois atrasados e atrasados e atolados na mais absoluta indigência, indigência maior do que o palude em que se afundou “the house of Usher”, e se duvidar que a nossa cárie é sem remédio descei a Ladeira da Palma e chegai até o Gravatá, até defronte o Corpo de Bombeiros e olhai aquele prédio com azulejo que era tão lusitano e belo e hoje não passa de uma postema cariada e sem obturação possível, nós os infestados de impaludismo alma a dentro, oh! Nossa Senhora do Dendê, compadecei-vos dos nossos garçons e garçonetes, risonhas bananas moles, afora os que por sorte cursaram o restaurante do Senac e que são tão peritos e bons e que depois desempregados sem solução porque o homem que manda no Turismo não olha para aqui em baixo e não vê passar a um palmo de seu nariz arrebitado de “status seeker” um Joel, uma Lucimar, um Otaviano qualquer, recém despejado do curso do restaurante Senac pois uma nova turma recrutada por Madre Tereza de Calicut já arrombou o ferrolho ou a taramela da pesada porta, oh! Nossa Senhora do Dendê, rogai, rogai, rogai por nós que recorremos a Vós.

Oh! Virgem abençoada comparada ao ar que respiramos! Vós que não fostes sequer imaginada pelo celestial pintor Fra Angélico que admiro e amo tanto e que neste “vil monturo” se conta nos dedos das duas mãos quem já ouviu falar, e cabe nos cinco dedos de uma só mão quem viu alguma tela dele.

Aqui campeia a mentira deslavada a que eles dão o nome de culhuda, de étimo indeterminado diria qualquer dicionário etimológico que fizesse o registro do termo. E os motoristas são os mais grosseiros e os pedestres os mais folgados do planeta, ambos campônios simplórios ilhados fazendo do trânsito um fliperama letal.

Emputecido estou, oh!! doce mãe do pão doce e do enjoativo cafezinho com três dedos de açúcar no fundo do copo, eu bem que tento mas caber não caibo na moldura deste quadro, não me enquadro por entre os caibros desta casa, gitano sou e madastra esta cidade onde reinais visível ao meu olfato e invisível aos vossos inconscientes adoradores, sois um bezerro de ouro fervente em cima dos fogareiros de latão batido.

Um olho agudo aguçado me diz que nem todos os santos e santas, que não há salvador que salve este armengue da sua paulatina ou desbragada corrosão. Não pressinto remissão possível, oh! sagrada senhora, para esta cidade-presépio da colina.

Rogai por nós, oh! Amarelo-gema de ovo do dendê.

Que tudo abarco e nada aperto.

Eia pois, advogada nossa! Salve Dona que se adonou do cocô da caganeira! Salve Rainha, Regina Coeli do torpor! Salve Soberana do empata-foda, da futrica, do fuxico, da fofoca e do banzo!