Posts Tagged ‘Estádio da Fonte Nova’

ESTÁ ERRADO DEMOLIR A FONTE NOVA

26/06/2010

Foto de FERNANDO VIVAS (Agência A Tarde) tirada em 21 de junho de 2010, o dia em que começou a demolição da parte inferior do Estádio da Fonte Nova, em Salvador

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texto de ANA FERNANDES*

(escrito em 25 de junho de 2010)

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Argumentos de toda ordem têm sido levantados por diversos autores e entidades para mostrar que a demolição da Fonte Nova é inadequada e descabida enquanto decisão de política pública para Salvador e para a Bahia. Projeto equivocado, produção desmesurada de lixo, desperdício de recursos públicos, comprometimento severo do tesouro estadual, afronta ao patrimônio histórico, cultural e ambiental, incompatibilidade do tipo de espaço proposto com o cotidiano social e esportivo da cidade são apenas alguns dos vários questionamentos já aventados.

Ou seja, para usar o jargão atual, o programa que ali se propõe construir é insustentável, com redução drástica da utilização esportiva do estádio, substituindo um complexo olímpico por uma arena de luxo.

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 21.6.2010

Vale lembrar o contexto no qual a Fonte Nova foi concebida.

Num dossiê do início dos anos 40, intitulado “Praça de Esportes da Bahia, Sugestões para a Organização do Departamento Estadual de Educação Física”, Mário Leal Ferreira, reconhecido por seu importante trabalho frente ao EPUCS (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador), assim escreve:

“As obras do Estádio em construção na capital da Bahia fazem parte de um conjunto de instalações destinadas ao desenvolvimento do programa de atividades educacionais a ser posto em prática por um novo órgão do governo, que será criado no devido tempo, sob a denominação de Departamento Estadual de Educação Física”.

Continua ele: o projeto, com a “firme determinação de assegurar, à educação física e à prática dos esportes, legítimas características cívico-sociais, visará o desenvolvimento harmonioso das qualidades físicas, morais e intelectuais do indivíduo – penhor de alegria, felicidade e eficiência, na paz, e de intrepidez e fortaleza de ânimo, nas grandes emergências. Procurará, assim, associar, intimamente, a recreação do espírito ao exercício do corpo, de modo a interessar indivíduos de todas as idades, condições sociais e educação, despertando neles o elevado e comum anseio de uma vida mais forte e digna de ser vivida.”

Embora bastante focada também em ideais de eugenia, que serão correta e severamente criticados nas décadas seguintes, há de se destacar três valiosos pontos nessa proposta.

Primeiro, ela insere o esporte na política de educação, integrando-o à política de desenvolvimento do estado.

Segundo, é universalista, e busca atingir toda a população.

Terceiro, introduz valores imateriais na condução da coisa pública, como alegria, felicidade, intrepidez.

Dessa política resultou uma feliz resolução plástica do estádio, particularmente em termos de sua integração à paisagem. União de espírito público com modernidade de pertencimento e sintonia com o mundo.

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde

Quais as justificativas que vêm sendo divulgadas para a demolição da Fonte Nova? Exigências da Fifa, criação de centro de negócios, construção de shopping center, centro empresarial, camarotes, salas e acessos vip, estacionamentos a granel, arena monofuncional.

Rigorosamente, um programa de obras, que, neste caso, nada tem a ver com o esboço de uma política pública para os esportes e para o desenvolvimento da Bahia.

A Copa pode também ser acolhida em Salvador, e com ela seu suposto corolário de investimentos, com a recuperação da Fonte Nova, ao invés de sua demolição. O plano de negócios e de compromissos certamente poderá ser refeito, tendo em vista o que está em vias de acontecer em outras cidades e tendo em vista o compromisso social e público das empresas envolvidas, como recorrentemente explicitado em colunas semanais desse mesmo prestigioso jornal.

E o Ginásio do Balbininho já veio abaixo. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 21.6.2010

Como educadora, resisto muito a utilizar o erro como classificação de propostas muitas vezes incongruentes dos estudantes, dado que o erro é uma forma legítima de exploração do aprendizado e, muitas vezes, de criação. No entanto, dado que no presente caso a experimentação é já a destruição, só me resta afirmar: está errado demolir a Fonte Nova. E perguntar: que legado público – e não apenas privado – se quer deixar para a cidade do Salvador e para a Bahia, no pós-2014?

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*Ana Fernandes – Professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia

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NOTA DO EDITOR – O artigo acima da Profª. Ana Fernandes foi publicado originalmente em Opinião de A Tarde neste sábado, 26 de junho de 2010. Já o texto abaixo, outro que enfoca o destino do Estádio da Fonte Nova, de autoria de zédejesusbarreto, também saiu dez dias antes nessa mesma página do jornal baiano.

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Nossa Copa já

começa em julho

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texto de zédejesusbarreto*

(escrito em 14 de junho de 2010)

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Vendo, por fanatismo, o ‘clássico’ Eslovênia x Argélia pela Copa da África, ‘babinha’ nada superior a um Feirense x Ipitanga – perdoem-me os simpatizantes desses timaços baianos –, dei-me conta de que são esses joguinhos classificatórios de tabela de Copa que presenciaremos na tal ‘Arena’ da Fonte Nova que está por vir.

Aliás, para melhor entendimento, vão demolir/implodir a Fonte Nova, arte do grande Diógenes Rebouças, com consultoria de Niemeyer, e gastar bilhão pra plantar no mesmo lugar uma tal ‘arena multiuso’, estilo holandês-germânico, com o fim de abrigar uns três ‘clássicos’ desse naipe, entradas a preço de Barcelona X Inter de Milão. É isso, não nos enganemos. Depois, fica o ‘colosso’ do elefante pra gente alimentar.

Falando em Copa, o secretário especial Ney Campello está na África do Sul. Diz ele que observando as coisas, o funcionamento dos estádios, comportamentos, para que a Bahia não faça feio em 2014. Tá bom! Quantos na comitiva? Quem banca o ‘rolê’?

O pessoal da natação espera a piscina olímpica prometida, para que possa treinar de olho nas Olimpíadas de 2016, no Rio. Porque o que fizeram até então na Fonte Nova foi desalojar Bobô e sua turma, fechar as piscinas e fazer um cercadinho no entorno do estádio pra dizer que há obras.

A questão da Fonte Nova ainda vai ‘render buxixo’ até a arena existir.

O que parece mais encaminhado em termos de projetos urbanos, visando a questões de infraestrutura e mobilidade/transporte, é a opção pelo sistema BRT-Bus Rapid Transit, de buzus articulados em vias segregadas rasgando o miolo da avenida Paralela, ligando o aeroporto ao Acesso Norte/ estação do Metrô.

Acordam os técnicos da prefeitura, governo e sindicato dos empresários de ônibus que é a solução mais barata e possível para resolver de imediato o gargalo Paralela-Iguatemi. Seria um começo de modernidade no âmbito do transporte de massa na cidade.

É só o que temos, por enquanto, para a Copa do Mundo 2014 na Bahia, que começa já, neste meado de julho próximo, quando acaba a Copa Africana. Ganhe ou perca a seleção do tenente Dunga.

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*zédejesusbarreto Jornalista e escrevinhador

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OUTRA NOTA DO EDITOR – O grande zédejesusbarreto já anunciava, em texto escrito em 25 de novembro de 2009, o “Réquiem do Estádio da Fonte Nova”, que foi publicado originalmente em Opinião de A Tarde e reproduzido pelo blog JEITO BAIANO. Veja o link:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/26/requiem-do-estadio-da-fonte-nova/

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O OLHAR CRÍTICO DE DIMITRI GANZELEVITCH

26/06/2010

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NOTA DO EDITOR – Seguem três textos em que o baiano-marroquino Dimitri Ganzelevitch lança sua visão crítica sobre a Cidade da Bahia de hoje em dia. Os artigos foram publicados originalmente em Opinião do jornal A Tarde.

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Para um Museu

de Cultura Popular

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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E nossa cultura popular? Alguém pode informar qual órgão se dedica especificamente a ela? Apostamos que não. Não existe, em todo o Estado da Bahia, um único espaço reservado à documentação, memória e resgate das expressões culturais do povo baiano. Em exposição encontrar-se-ão, talvez, umas poucas peças de caráter comercial no Instituto Mauá, muitas vezes sem especial relevância e com total deficiência de pesquisa.

A italiana arquiteta Lina Bo Bardi bem que tentou constituir, no início dos anos 60, um acervo de qualidade. A ditadura militar e o evidente desinteresse dos governantes locais por qualquer coisa que não tivesse o glamour europeu ou norte-americano relegaram o acervo aos porões do Solar do Unhão, e não se falou mais nisso.

Temos algo comparável à pernambucana Fundação Joaquim Nabuco, ao carioca Museu do Folclore Edson Carneiro, ao mineiro Museu de Artes e Ofícios? Nada! A coleção Pardal de carrancas hoje pertence a um colecionador português.

A maioria dos centros de olaria do Recôncavo e do Interior, fossilizada, está sobrevivendo no ostracismo. As rendeiras de Saubara só podem contar com uma Márcia Ganem, dentro de seu potencial de mercado. E os outros? Os que fabricam brinquedos, apetrechos de couro, cestas, mocós e balaios, montarias para jegues e cavalos, ferramentas? E as expressões e iniciativas privadas, que podemos rotular de artes espontâneas: gravadores, escultores e pintores que, sem o mínimo apoio, acabam massificando a produção para o predador mercado de turismo?

Precisamos documentar, sem mais demora, as danças, as procissões, as rezadeiras, as festas de largo, os curandeiros, os fazedores de máscaras, as lendas e crenças, o cancioneiro dos morros, das praias e da caatinga, os carnavais, as receitas tradicionais – passando por conventos, mosteiros, ocas e terreiros – as pinturas dos caminhões e carroças, o delicado e forte emaranhado dos vendedores ambulantes, tanto urbano como interiorano, os garimpeiros, pastores e boiadeiros.

Temos um material tão rico e tão ignorado! Respeitar um povo é também respeitar suas expressões. Sua essência.

Salvador, 21 de junho de 2010

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Entre cartão postal e entulho

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Não podemos sonhar em viver numa gravura de Debret ou num cartão postal do princípio do século XX. Seria pretensão desvinculada da realidade e em absoluta contracorrente à evolução da sociedade. No entanto, os marcos da história devem permanecer evidenciados, pontuando nossa memória e permitindo referências e símbolos civilizatórios.

Já beirava os quarenta anos quando cheguei a Salvador, mas logo edifícios e monumentos formaram à minha volta uma teia de fortes laços com a cidade. Como qualquer cidadão para quem a cultura é tão importante quanto comer e respirar – faço parte de uma espécie em via de extinção –, aprendi a reconhecer a individualidade desta cidade ao passar por seus pontos mais significativos.

E a cada derrubada, sofri como a morte de algum amigo. O belo templo anglicano do Campo Grande, os solares do corredor da Vitória, os casarões da Soledade, a mansão dos Correia Ribeiro e a Vila Serena na Ladeira da Barra… Mais tarde a descaracterização da residência do arcebispo – tiraram da fachada os azulejos do século XIX para colocar cerâmica de sanitário público! –, a derrubada da elegante torre que parecia benzer a Avenida Contorno e a violenta agressão, num fim de semana, à mansão Wildberger foram alguns dos tristes momentos que marcaram estes 35 anos.

Não pretendo falar de tantas outras agressões na Ribeira, Boa Viagem ou Saúde. Os furos na canoa são inúmeros. Será que a cidade não pode evoluir sem negar seu passado?

Agora temos o absurdo da demolição da Fonte Nova, obra ímpar de Diógenes Rebouças para um evento que deverá durar o tempo de uma rosa, deixando uma montanha de entulho em algum esconderijo dos arredores da capital e novas dores de cabeça em manutenção, segurança e transportes. Na mesma vassourada, pretendem eliminar sem remorso a piscina olímpica e o Balbininho.

Será que essa obra megalomaníaca [a nova Fonte Nova] é mesmo indispensável, ou é mera atitude de pretensa modernidade? Fora as costumeiras construtoras que, melhor que alquimista medieval, sabem transformar a areia em ouro, quem irá realmente lucrar com o gasto? O contribuinte soteropolitano?

Salvador, 7 de junho de 2010

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As lindas fogueiras

de São João

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Celebrando o solstício de verão nos países europeus, as fogueiras são muito anteriores à festa cristã de São João. Aqui, hemisfério sul, louvamos o solstício de inverno na noite mais longa do ano. A partir do dia seguinte, ela começará a encurtar, os dias a alongar.

As fogueiras têm sido, especialmente no Nordeste, elemento indispensável à festa. E como são gostosos os quitutes – canjicas, tortas e bolos, licores etc. – que cada família, mesmo a mais humilde, oferece ao visitante em torno da fogueira!

Mas vejamos o outro lado da medalha.

Pesquisadores avaliam a meros 20 milhões o número de habitantes no planeta, nos séculos X e XI. Densas florestas cobriam a quase totalidade do globo e, na Europa medieval, lobos e ursos rondavam os vilarejos. A neve, os ventos gelados e a fome, frequente até a descoberta do Novo Mundo, eram dura realidade. A partir do São João, voltava a esperança de colher frutos, semear, abrir as janelas e viver em harmonia com a natureza. Para festejar a noite de São João, era fácil encontrar galhos e troncos caídos.

Hoje temos quase 7 bilhões de habitantes devorando as reservas naturais do planeta, a maioria por necessidade de sobrevivência. Cada árvore tornou-se uma raridade digna de todos os cuidados. Então, como aceitar o massacre de resquícios de matas para alimentar milhares e milhares de fogueiras? Quem viajar pela Bahia afora, ficará assombrado ao constatar os montes de árvores, recém cortadas, comercializados na beira das estradas.

Nossa sociedade tem que se conscientizar: certas tradições, por lindas e poéticas que sejam, podem ter consequências desastrosas sobre o meio ambiente e afetar o futuro da humanidade.

E na cidade – estou pensando em particular no Centro Histórico de Salvador – as fogueiras ameaçam resultar em incêndios devastadores. Com a maioria das casas construídas em estrutura de madeira, a mais discreta faísca poderá acabar com um quarteirão inteiro em 15 minutos.

Vamos adequar estas tradições à nossa realidade?

Salvador, 20 de maio de 2010

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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A BAHIA VAI SE RENDER À FIFA?

23/06/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

Salvador terá que fazer duas gigantescas operações em lugar de uma só: demolir e construir um estádio”

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JEITO BRASILEIRO

DE JOGAR FUTEBOL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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O “remake” desnecessário da Fonte Nova é o retrato do desaparelhamento do Estado, que terá um preço muito elevado para a sociedade e para o próprio governo. A propaganda oficial diz que teremos uma arena semelhante à de Hanover, administrada pela mesma empresa do Ajax, de Amsterdã.

Será que a nossa realidade é a mesma desses países e temos que nos submeter cegamente ao soccerbusiness da FIFA? Afinal somos penta-campeões mundiais deste esporte, jogo que é aqui a alegria do povo, não dos barões do futebol mundial.

Os estádios da Copa do Mundo deverão estar prontos em 2012 para a Copa das Confederações. Pela opção adotada pela SETRE [Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia], Salvador leva uma tremenda desvantagem com relação a outras cidades. Terá que fazer duas gigantescas operações em lugar de uma só: demolir e construir um estádio.

Mesmo que o IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] permita sua implosão, pondo em risco monumentos vizinhos, triturar e transportar 70.000 m³ de entulho e reconstruir um estádio de 50.000 lugares em apenas dois anos e meio é missão praticamente impossível.

Para complicar, a Schulitz Architektur e o arquiteto Marc Duwe, autores do projeto, sem conhecer a geologia local, deslocaram o estádio, cópia do atual, inviabilizando a utilização de suas fundações e aumentando o movimento de terra. Aquele é um local pantanoso e fincar estacas em terreno minado por antigas fundações é tarefa cheia de surpresas que qualquer construtor evita.

Além disso, o projeto da nova arena tem falhas inexplicáveis.

A eliminação, não obrigatória, da pista de atletismo inviabilizará sua função multiuso. Sem ela, caminhões e gruas não poderão armar palcos e recobrir o gramado com placas e ambulâncias, carros policiais e de bombeiros não poderão entrar na arena durante acidentes e eventuais conflitos de torcedores. A entrada de caminhões sobre o gramado destruirá o sistema de drenagem e irrigação e o próprio gramado.

As duas mil vagas de estacionamento é outra exigência descabida da FIFA para um estádio central, servido por metrô e BRT, como se afirma. Não estamos na Europa com auto-pistas velozes. Que turistas virão de carro para assistir a três ou quatro jogos em Salvador?

Por esta razão, 17 das maiores entidades profissionais, ambientalistas e associações civis preocupadas com a aplicação dos parcos recursos públicos e temerosas dos impactos ambientais e prazo para a conclusão das obras, depois de tentar em vão o diálogo, entregaram ao governador uma carta aconselhando-o a recuperar o atual estádio, a um custo e tempo quatro vezes menor que a construção da nova arena.

Mas a questão de fundo é a sustentabilidade dessa arena chique para três ou quatro jogos, que atrairão no máximo 30.000 turistas, um décimo do que recebemos anualmente no Carnaval. Sem acordo com os dois maiores clubes, que já possuem estádios, quem irá utilizar esta arena, que mais parece uma ópera, com cem camarotes, sala e estacionamento VIP para cartolas, museu, restaurante panorâmico de 1.235 m², 39 quiosques, 81 sanitários e 12 elevadores?

Com uma superestrutura em aço carbono e cobertura de têxtil especial importado para produzir mormaço, sua manutenção será exorbitantemente cara. Nem na Europa essas arenas conseguem se manter.

Se o governo insistir nessa tecla, poderemos ficar sem a Copa e com um elefante branco que custará caro ao contribuinte. Estranha Parceria Público-Privada esta em que 70% dos recursos serão públicos e ainda teremos de pagar R$ 1,6 bilhão em 15 anos, a título de gestão, e entregar uma área central de 121.000 m².

O mais grave é que estaremos destruindo uma vila olímpica para termos apenas uma arena de futebol, renunciando a sediar jogos olímpicos em 2016 e privando a nossa juventude de ter uma piscina, pista de atletismo e um ginásio de esporte para treinar.

Pergunta-se: ainda há tempo para rever o projeto? A mudança unilateral da FIFA do jogo inicial da Copa, do Morumbi para outro estádio de São Paulo, mostra que sim. O presidente Lula reagiu tardiamente às exigências absurdas da FIFA e o governo de São Paulo já disse que não dará um real para a construção ou reforma de outro estádio, pois tem outras prioridades. Vamos pôr os pés no chão e fazer a coisa certa.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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COPA E OLIMPÍADAS À VISTA

12/06/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

(publicado originalmente na seção de Opinião do jornal A Tarde, em 6.6.10)

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Os organismos internacionais, que sempre serviram às grandes potências, estão em baixa. A ONU não tem autoridade para nada. Sua força de paz, os capacetes azuis, é expulsa ou executada na África. O FMI, além de inócuo, pede fiado ao Brasil e a Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA não consegue evitar a proliferação atômica nos países nanicos, enquanto Obama pede a Lula para convencer os iranianos a fazerem o dever da AIEA.

Neste quadro, é surpreendente a força da FIFA, que nunca fez nada pelo futebol amador ou educação esportiva. Exigir que a África do Sul construísse cinco mega-arenas, quando se sabe que a crise que ameaça o euro e o mundo se deve, em grande parte, aos gastos extraordinários da Grécia nas Olimpíadas de 2004, é um absurdo. Pior ainda é admitir que o Brasil, pentacampeão e com a melhor infraestrutura de futebol do mundo, aceite construir ou reformar doze estádios no estilo jockey club, com áreas para cartolas, museus, camarotes, restaurantes finos, estacionamento, escadas rolantes, e ingresso de US$ 40.

Numa época de TV de alta definição e 3D, é discutível a capacidade desses eventos de atrair milhares de turistas, como ocorre na Europa dotada de trens a autopistas velozes e hotelaria de ponta. A pouca afluência à Copa sul-africana parece desmentir essa premissa. Cerca de 40 mil torcedores em uma semana não vão fazer nenhuma diferença a Salvador, acostumada a receber 300 mil foliões no Carnaval. Mas a Copa pode ser um pretexto para arrancar dinheiro do governo federal e implementar melhorias urbanas. E aí varia muito o tratamento dado ao tema em cada cidade. São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba não aceitaram fazer novos estádios, senão reformar os existentes. As sete cidades restantes, de menor peso político, capitularam ás exigências da FIFA e vão bancar arenas novas.

Salvador é uma delas, preferindo desembolsar R$ 1,6 bilhão nos próximos quinze anos para construir e gerir uma arena em vez de reciclar a Fonte Nova a um custo de R$ 150 milhões (A Tarde 30/01/10). Além do mais, demolir e reconstruir um estádio naquela área pode trazer muitas surpresas, por estar sobre um antigo lago; por ser parte do entorno do Dique do Tororó, do Desterro e da Casa de Anfrísia Santiago tombados pelo IPHAN, por sua história ligada ao futebol, à natação e ao atletismo e por não sabermos o que fazer com o entulho. Ao contrário do Vitória, que aproveitou um lixão para construir o Barradão, estaríamos demolindo a Fonte Nova para criar um lixão.

Dezessete das mais representativas entidades profissionais, ambientalistas e sociais baianas, entre os quais o CREA-BA, o IAB-BA, o SENGE, o Germem e a FABS, enviaram ao governador, no último dia 18, um Posicionamento que entre coisas afirma:

1 – Não cabe a destruição de um complexo olímpico composto de estádio, ginásio e piscina para substituí-lo por uma arena exclusiva para futebol justamente no momento em que o Brasil se prepara para sediar, pela primeira vez, os Jogos Olímpicos…

2 – A estrutura principal (…) atualmente existente do estádio é perfeitamente aproveitável, como afirmou o especialista em estruturas Eng. João Leite no 1º Debate da Copa 2014, realizado no CREA-BA em 2009. A execução de novas fundações terá um alto custo, visto que a Fonte Nova está apoiada, em boa parte, em área embrejada…

5 – Até o momento não está claro como se dará a demolição e a posterior retirada das milhares de toneladas de escombros resultantes da demolição…

Temendo a não conclusão das obras a tempo e transferência dos jogos para outra cidade, o Posicionamento sugere a paralisação da demolição e início da recuperação do atual estádio.

Reconhece-se que implementar as propostas aqui elencadas não se constitui em tarefa fácil, por exigir uma profunda mudança de rumo. Porém ainda há tempo e, certamente, a população baiana saberá reconhecer esse gesto do governo do Estado em favor do cuidado com a coisa pública, especialmente avaliando o quanto do orçamento do Estado se vai comprometer para esta e para as gestões futuras e sobretudo o quanto de retorno social será garantido pelos recursos aplicados.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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TRISTE BAHIA, OH QUÃO DESSEMELHANTE

16/07/2009
Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

     O jeito baiano de ser, pelo menos o dos baianos de Salvador, aflorou e se desenvolveu intrinsecamente conectado a uma configuração especial de cidade. E hoje está ameaçado de morte pela degradação dessa mesma cidade, que “perdeu a essência”, como filosofou dia desses Aloísio, dono de barraca e figura histórica da Praia dos Artistas.

     Este blog quer botar a boca no mundo, conclamar todos os que amam a Boa Terra – não só os baianos – para salvarmos Salvador, para recuperarmos a essência perdida desta cidade mítica.

     Abaixo dois textos em destaque – a entrevista da repórter Katherine Funke com o arquiteto Pasqualino Magnavita para a revista Muito e o artigo do jornalista JC Teixeira Gomes para a página de Opinião, ambos publicados no jornal A Tarde, de Salvador, que trazem importantes subsídios para esta discussão.

     Antes, o pensamento imbatível de Antonio Risério sobre o mesmo tema, extraído de um artigo dedicado a Caymmi que ele escreveu para a Folha Ilustrada, com data de 18.8.2008:

Quando Caymmi soou no Brasil meridional, trazia a mensagem cálida e ecológica de um lugar idealizado, que parecia parado no tempo e viver em paz, imune a conflitos sociais. Caymmi reforçou assim, nacionalmente, o mito baiano. Era como se falasse de um espaço utópico: o lugar de nossa origem, premiado por belezas arquitetônicas e ambientais, onde vivia uma gente feliz, ensolarada e muito singular. Naquela época, o mito não deixava de encontrar alguma correspondência na Bahia real. Hoje, não. A Bahia de Caymmi ficou definitivamente para trás. É uma Bahia que soa atualmente, também para os próprios baianos, como uma espécie de utopia.

(Este post é continuação de um dos primeiros do Jeito Baiano, aquele intitulado “Cidade da Bahia, mais de cem anos de solidão”. Veja-o no endereço https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/03/29/cidade-da-bahia-mais-de-cem-anos-de-solidao/

 

DESRESPEITO E DEGRADAÇÃO

 

Entrevista com o arquiteto Pasqualino Magnavita

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

por KATHERINE FUNKE, revista Muito (5.7.2009)

 

Engenheiro formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBa) e doutor em arquitetura pela Universidade de Roma, artista plástico e designer de móveis. Aos 80 anos de idade, Pasqualino Romano Magnavita acumula todas essas qualificações – todas elas premiadas. Nem por isso se acomoda. Mantém-se em constante atividade.

Apesar de morar em Itaparica desde 1995, uma vez por semana deixa seu belo refúgio à beira-mar para passar um dia trabalhoso em Salvador. É vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura (CEC) e leciona na pós-graduação em arquitetura da UFBa.

Mesmo em casa, não sossega. Além de passar os dias entre pesquisas e no atendimento a alunos e visitantes, está construindo pouco a pouco um centro cultural.

Na porta do seu quarto, a foto dos pais italianos, tirada em 1915, denuncia o amor pela família. Tem 11 irmãos. Cinco já faleceram; os outros seis ainda moram no primeiro edifício projetado pelo arquiteto, em 1954, nos Barris.

Desde 1968, vem transformando uma ruína do século XIX em residência, repleta de obras de arte, livros e mirantes.

É ateu, apesar de colecionar miniaturas de igrejas e de ter criado o Axé Design – uma linha de móveis com referências ao candomblé.

E está de olho na chegada do progresso à ilha. Na capital baiana, já demoliram cinco casas projetadas por ele.

 

Por que o senhor mora em Itaparica?

Conheci Itaparica desde 1939, ainda menino. Meu pai comprou uma casa para veraneio que então era uma renomada estação hidromineral no Estado. Era um recomendável apelo para a saúde. Desde 1968, reconstruí uma pequena ruína, o Mirante do Solar, e desde então venho ampliando essa segunda morada. Com a aposentadoria, em 1995, fiz a opção de morar definitivamente aqui.

 

Agrada-lhe o projeto de construção de uma ponte entre a Ilha de Itaparica e Salvador?

A construção da ponte interessa às empreiteiras. A Ilha se tornaria um filé mignon da especulação imobiliária. Fora isso, há a possibilidade de cobrança de pedágio. A Ilha passaria a ser uma Salvador imensamente ampliada, com edificações de elevadíssimo gabarito, vista panorâmica voltada para a capital. Ao mesmo tempo, palco de uma ampliada e incontrolável ocupação informal, ou seja, uma experiência já conhecida. Com essa ponte, Itaparica seria uma Niterói.

 

Em 50 anos, a população de Salvador aumentou de tamanho quase dez vezes. Como o senhor interveio nesse crescimento?

Nas décadas de 70 e 80, a seção baiana do Instituto de Arquitetos do Brasil [IAB-BA] criou um trabalho conjunto com lideranças de movimentos sociais e associações de bairro. O objetivo era diagnosticar problemas e reivindicar soluções ao poder municipal. Participei ativamente. Também fui representante do IAB-BA na comissão paritária, em 1983, nas negociações com os ocupantes [Invasão] das Malvinas [hoje, Bairro da Paz]. Embora começada, a derrubada foi suspensa. Sob forte pressão, a população foi para Coutos. No governo de Waldir Pires, voltou a ocupar a área.

 

O senhor também participou do Conselho de Desenvolvimento Urbano, o Condurb, como representante da UFBa…

Mas, em decorrência da composição do conselho sob a presidência do “prefeito biônico“ de plantão, as minhas colocações e as do IAB-BA não tiveram ressonância. Mas tive uma grande oportunidade para contribuir na requalificação urbana da Praça Cayru, no Comércio, integrando a equipe do arquiteto Luiz Antônio de Souza. Trabalhamos por dois anos no desenvolvimento do projeto. Entregamos no início de 2002 para [o então prefeito Antonio] Imbassahy. Todavia, o projeto ainda jaz nas gavetas da prefeitura.

 

O senhor tem uma ativa participação social. De onde vem essa energia para o debate político?

Meus pais sempre manifestaram muita energia em suas vidas. Independentemente da genética, penso que a questão pode ser entendida em função de três variáveis: a primeira, minha experiência empírica, formada pelas inúmeras conexões e saberes que pude sedimentar. A segunda, a forma de pensar, a lógica e repertório conceitual. A terceira, a visão de mundo – e a adoção de uma ética/estética como professor e arquiteto. Passei pela forma de pensar dialética, uma lógica binária. Agora, com maior vigor, tenho adotado a lógica da multiplicidade, o pensamento rizomático, também conhecido como micropolítica. É uma vertente da filosofia contemporânea, que me mantém ainda mais antenado e participativo.

 

O Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

O Edifício Caramuru (1947) o estimulou a cursar engenharia e arquitetura. O que esse projeto ainda ensina?

Entre outros fatos, é o único prédio do Comércio com jardim suspenso [desenhado por Burle Marx], em lugar daquela cobertura com volumosos dispositivos do sistema de refrigeração e de reservatórios, como ocorreu em seguida. Caso todos os edifícios mantivessem o mesmo gabarito e seguissem esse exemplo, a visão da Cidade Baixa da Praça Municipal teria uma configuração interessante, em lugar do quadro degradante que presenciamos. E mais degradante será, com a irresponsável aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, o PDDU, que eleva o gabarito no Comércio.

 

Qual sua análise dessa lei municipal, sancionada pelo prefeito João Henrique (PMDB) em 2008?

Absolutamente, não aprovo. Há décadas, tanto o IAB quanto a Faculdade de Arquitetura da UFBa têm se posicionado contra a elevação de gabarito na orla. Os inúmeros exemplos existentes no País demonstram tratar-se de pura especulação imobiliária em benefício de poucos grupos sociais privilegiados. Além da descaracterização da paisagem marítima, exige investimentos públicos altíssimos, considerando a insuficiente infraestrutura existente – particularmente o sistema viário, que já se encontra próximo a um inevitável colapso e que será enormemente adensado com a elevação do gabarito da orla. Na minha opinião, o PDDU se revelou uma oportunidade perdida, pois minimamente contempla o atendimento aos problemas e soluções para a grande maioria da população e favorece, de forma incisiva, o capital imobiliário, desrespeitando o patrimônio histórico, a paisagem e o meio ambiente.

 

No debate na Câmara de Vereadores, a presença de pessoas contrárias ao projeto só foi maior no dia da votação, em dezembro de 2007. Por que isso ocorreu, na sua opinião?

Em primeiro lugar, quando se fala de Salvador, é preciso ter presente sua composição social. A grande maioria se encontra excluída dos benefícios econômicos, sociais, políticos e culturais. Em segundo lugar, o tipo de divulgação e formatação do projeto não motivou a população a interferir. Em terceiro lugar, há no plano muitas questões de entendimento puramente técnico. Contudo, representantes da sociedade civil e do Ministério Público estiveram sempre presentes nos debates. Mesmo antes de sancionada a lei, várias manifestações contrárias chegaram ao prefeito.

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

 

Nos últimos meses, cinco residências projetadas pelo senhor foram demolidas em Salvador. Como isso o afeta?

Está ocorrendo não apenas comigo, mas com colegas de geração, da geração anterior e, até mesmo, da mais nova. Muitas das residências projetadas pelo pioneiro da arquitetura moderna na Bahia, Diógenes Rebouças, já foram demolidas. Só restam duas, realizadas na década de 50, que estão ameaçadas de demolição. Seria desejável que o Ipac [Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia] promovesse de imediato o tombamento, já que uma de suas grandes obras, o Estádio da Fonte Nova, corre o risco de futura implosão, e isso, apesar do pedido de tombamento pela Faculdade de Arquitetura da UFBa. Igualmente, algumas residências projetadas por Assis Reis também foram lamentavelmente demolidas. Uma outra casa projetada por ele encontra-se na iminência de ser demolida. Provavelmente em função do ritmo acelerado dos interesses em jogo, torna-se possível afirmar que não restará registro, ou, melhor dizendo, não ocorrerá a desejável preservação da memória de arquiteturas residenciais representativas das décadas de 60 e 70 do século XX em Salvador.

 

Ao mesmo tempo em que isso acontece, a cidade ganha cada vez mais condomínios fechados, que reúnem no mesmo local atividades como trabalhar, morar e se divertir. Qual sua avaliação sobre o impacto urbano e social desse tipo de empreendimento?

É a expressão mais segregadora de uma configuração urbana. São os bolsões de riqueza da grande favela que é a Cidade do Salvador.

 

Nesse sentido, o senhor pode se dizer satisfeito com o que este século XXI está se tornando, na Bahia e no mundo?

Adotei o princípio da indeterminação, também denominado princípio da incerteza. Acredito que navegar no caos é preciso. Caos aqui entendido não como desordem, como geralmente se supõe, mas como lugar de todas as formas, de todas as partículas, lugar da criação, de novos acontecimentos, um oceano de dessemelhanças.

 

Como assim?

A vida como transformação permanente em sua percepção micro, molecular não tem princípio e nem fim. Encontramos-nos sempre no meio, entre situações, circunstâncias, contextos. Processamos uma multiplicidade e heterogeneidade de conexões ao longo de nossas existências. Sempre imagino que vou incorporando mutações e me transformando enquanto experiência empírica. E isso, simultaneamente, com uma nova forma de pensar, uma nova lógica, a da diferença. Superei a lógica binária adotando novos conceitos, proporcionando-me uma nova visão de mundo, ou seja, uma nova ética. Não é mais tempo de expectativa de grandes revoluções sociais, mas de “revoluções moleculares”, de microações individuais ou de grupos, objetivando contribuir, favorecer a construção da solidariedade e da emancipação social.

 

O senhor se considera jovem aos 80 anos?

A idade cronológica não tem sentido. As tão badaladas “crises”, em qualquer nível, são tempos de mutações, favoráveis à criatividade. Por mais adversas que sejam as questões da existência, não há lugar para desesperanças.

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam na Av. Estados Unidos, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio "50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX". Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam no Comércio, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX. Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

 

BAHIA, AMADA BAHIA

 

por JC TEIXEIRA GOMES*

 

O título deste artigo não se refere à Bahia atual (falo, claro, de Salvador), mas sim à Bahia antiga, que acabo de rever, encantado, num belo álbum das fotos de Voltaire Fraga adquirido há pouco na Pinacoteca de São Paulo. Aquela era a esplendorosa e poética cidade que seduzia gente da sensibilidade de Pierre Verger e do próprio Voltaire.

 

Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga  Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga (esta foto foi copiada de um site que informa sobre uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, mas não explica quem é esse rapaz e por que ele foi incluído na imagem)

 

Soube que no Dois de Julho vaiaram o prefeito. No entanto, ele foi reeleito, o que nos faz questionar a autenticidade do processo eleitoral nos dias atuais, dominado pelo poder da propaganda enganosa e do dinheiro. Hoje, estou convencido de que todo candidato a prefeito de Salvador deveria ser previamente sabatinado sobre as tradições urbanísticas e arquitetônicas do velho burgo. Quem as ignorasse pulava fora. Sem vacilações.

Já a Bahia de hoje é a cidade insegura, mal-administrada, de trânsito insuportável (há mais carros do que ruas), em acintoso processo de degradação urbana, fruto de um inchaço que gera bairros novos sem infraestrutura, e onde os prédios (de arquitetura discutível) florescem como cogumelos podres. É a triste e dessemelhante Bahia que clama por um novo Gregório de Mattos.

Aos candidatos ou aos prefeitos já no cargo, gostaria de recomendar, para que aprendessem a respeitar a imensa riqueza do nosso passado, além do conhecimento dos autores já citados, a reflexiva leitura da obra portentosa de Consuelo Novais Sampaio, 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX, editada em 2002 pela Odebrecht e somente agora à venda no Rio.

Não é preciso ser baiano para que alguém, diante da eloquência desse livro miraculoso no resgate de um tempo irremediavelmente perdido, se sinta arrasado com os exemplos da desfiguração de Salvador, cuja fisionomia histórica poderia ter coexistido com as imposições do progresso, pelo trabalho de administrações competentes.

 

Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht

 

Quem olha as fotos, os desenhos, os mapas, as reproduções paisagísticas, toda a rica documentação visual do livro de Consuelo, não deixa de fascinar-se, enfim, com a homogeneidade urbanística da velha Salvador.

Era uma cidade incomparável pelos simétricos detalhes do seu casario, da sua privilegiada localização no alto da montanha amuralhada, das múltiplas torres das igrejas varando os céus, da opulência do seu cais de amarras com a barreira dos edifícios densos, obras suntuosas que jamais deveriam ter sido demolidas. Somava-se à riqueza dos sobradões a rara topografia de duas cidades superpostas, numa visão inigualável para quem vinha do mar e não contemplava nada que se comparasse no mundo.

Tudo isto no embalo da baía imensa, concentração de águas diluvianas resguardadas pelo forte heroico e solitário, cuja simples localização atemorizava a presença de piratas de todo tipo, ávidos de se lançarem sobre as riquezas da América Portuguesa. Os piratas do mar já não ameaçam a cidade, mas o passar dos anos foi tornando cada vez mais evidente a devastação promovida pelos piratas imobiliários, apoiados pelos piratas da política.

Há sempre quem queira justificar as destruições como consequência do progresso. O argumento é falso. Não poucas cidades do mundo conciliam realidades urbanísticas moldadas por épocas distantes.

 

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro "50 Anos de Urbanização"

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro 50 Anos de Urbanização

 

Lembremos Jerusalém, eloquente exemplo. A cidade que viu Cristo pregando pelas ruas estreitas jaz praticamente intacta, ao lado da nova Jerusalém, metrópole dos tempos modernos. E não se diga que isto só foi possível por milagre de Deus. O que houve foi vontade política de homens competentes. Nem os bárbaros conseguiram destruir Roma inteiramente.

Já a pulverização dos monumentos e sítios históricos de Salvador é uma realidade permanente. No entanto, nenhuma outra cidade brasileira mergulha tanto na sua história e busca o passado com tamanha paixão para vivificar-se.

O prestigiado arquiteto Mário Mendonça revelou que as festas populares baianas, movidas a estrondosos decibéis, estão rachando até monumentos sólidos, como o Farol da Barra. É uma preciosa advertência, para que o registro da nossa vida coletiva não continue sendo apenas um inventário de perdas.

 

Joca 090508 FOTO03*JC Teixeira Gomes

Escritor, jornalista, foi editor-chefe do extinto Jornal da Bahia