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ESTÁ ERRADO DEMOLIR A FONTE NOVA

26/06/2010

Foto de FERNANDO VIVAS (Agência A Tarde) tirada em 21 de junho de 2010, o dia em que começou a demolição da parte inferior do Estádio da Fonte Nova, em Salvador

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texto de ANA FERNANDES*

(escrito em 25 de junho de 2010)

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Argumentos de toda ordem têm sido levantados por diversos autores e entidades para mostrar que a demolição da Fonte Nova é inadequada e descabida enquanto decisão de política pública para Salvador e para a Bahia. Projeto equivocado, produção desmesurada de lixo, desperdício de recursos públicos, comprometimento severo do tesouro estadual, afronta ao patrimônio histórico, cultural e ambiental, incompatibilidade do tipo de espaço proposto com o cotidiano social e esportivo da cidade são apenas alguns dos vários questionamentos já aventados.

Ou seja, para usar o jargão atual, o programa que ali se propõe construir é insustentável, com redução drástica da utilização esportiva do estádio, substituindo um complexo olímpico por uma arena de luxo.

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 21.6.2010

Vale lembrar o contexto no qual a Fonte Nova foi concebida.

Num dossiê do início dos anos 40, intitulado “Praça de Esportes da Bahia, Sugestões para a Organização do Departamento Estadual de Educação Física”, Mário Leal Ferreira, reconhecido por seu importante trabalho frente ao EPUCS (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador), assim escreve:

“As obras do Estádio em construção na capital da Bahia fazem parte de um conjunto de instalações destinadas ao desenvolvimento do programa de atividades educacionais a ser posto em prática por um novo órgão do governo, que será criado no devido tempo, sob a denominação de Departamento Estadual de Educação Física”.

Continua ele: o projeto, com a “firme determinação de assegurar, à educação física e à prática dos esportes, legítimas características cívico-sociais, visará o desenvolvimento harmonioso das qualidades físicas, morais e intelectuais do indivíduo – penhor de alegria, felicidade e eficiência, na paz, e de intrepidez e fortaleza de ânimo, nas grandes emergências. Procurará, assim, associar, intimamente, a recreação do espírito ao exercício do corpo, de modo a interessar indivíduos de todas as idades, condições sociais e educação, despertando neles o elevado e comum anseio de uma vida mais forte e digna de ser vivida.”

Embora bastante focada também em ideais de eugenia, que serão correta e severamente criticados nas décadas seguintes, há de se destacar três valiosos pontos nessa proposta.

Primeiro, ela insere o esporte na política de educação, integrando-o à política de desenvolvimento do estado.

Segundo, é universalista, e busca atingir toda a população.

Terceiro, introduz valores imateriais na condução da coisa pública, como alegria, felicidade, intrepidez.

Dessa política resultou uma feliz resolução plástica do estádio, particularmente em termos de sua integração à paisagem. União de espírito público com modernidade de pertencimento e sintonia com o mundo.

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde

Quais as justificativas que vêm sendo divulgadas para a demolição da Fonte Nova? Exigências da Fifa, criação de centro de negócios, construção de shopping center, centro empresarial, camarotes, salas e acessos vip, estacionamentos a granel, arena monofuncional.

Rigorosamente, um programa de obras, que, neste caso, nada tem a ver com o esboço de uma política pública para os esportes e para o desenvolvimento da Bahia.

A Copa pode também ser acolhida em Salvador, e com ela seu suposto corolário de investimentos, com a recuperação da Fonte Nova, ao invés de sua demolição. O plano de negócios e de compromissos certamente poderá ser refeito, tendo em vista o que está em vias de acontecer em outras cidades e tendo em vista o compromisso social e público das empresas envolvidas, como recorrentemente explicitado em colunas semanais desse mesmo prestigioso jornal.

E o Ginásio do Balbininho já veio abaixo. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 21.6.2010

Como educadora, resisto muito a utilizar o erro como classificação de propostas muitas vezes incongruentes dos estudantes, dado que o erro é uma forma legítima de exploração do aprendizado e, muitas vezes, de criação. No entanto, dado que no presente caso a experimentação é já a destruição, só me resta afirmar: está errado demolir a Fonte Nova. E perguntar: que legado público – e não apenas privado – se quer deixar para a cidade do Salvador e para a Bahia, no pós-2014?

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*Ana Fernandes – Professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia

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NOTA DO EDITOR – O artigo acima da Profª. Ana Fernandes foi publicado originalmente em Opinião de A Tarde neste sábado, 26 de junho de 2010. Já o texto abaixo, outro que enfoca o destino do Estádio da Fonte Nova, de autoria de zédejesusbarreto, também saiu dez dias antes nessa mesma página do jornal baiano.

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Nossa Copa já

começa em julho

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texto de zédejesusbarreto*

(escrito em 14 de junho de 2010)

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Vendo, por fanatismo, o ‘clássico’ Eslovênia x Argélia pela Copa da África, ‘babinha’ nada superior a um Feirense x Ipitanga – perdoem-me os simpatizantes desses timaços baianos –, dei-me conta de que são esses joguinhos classificatórios de tabela de Copa que presenciaremos na tal ‘Arena’ da Fonte Nova que está por vir.

Aliás, para melhor entendimento, vão demolir/implodir a Fonte Nova, arte do grande Diógenes Rebouças, com consultoria de Niemeyer, e gastar bilhão pra plantar no mesmo lugar uma tal ‘arena multiuso’, estilo holandês-germânico, com o fim de abrigar uns três ‘clássicos’ desse naipe, entradas a preço de Barcelona X Inter de Milão. É isso, não nos enganemos. Depois, fica o ‘colosso’ do elefante pra gente alimentar.

Falando em Copa, o secretário especial Ney Campello está na África do Sul. Diz ele que observando as coisas, o funcionamento dos estádios, comportamentos, para que a Bahia não faça feio em 2014. Tá bom! Quantos na comitiva? Quem banca o ‘rolê’?

O pessoal da natação espera a piscina olímpica prometida, para que possa treinar de olho nas Olimpíadas de 2016, no Rio. Porque o que fizeram até então na Fonte Nova foi desalojar Bobô e sua turma, fechar as piscinas e fazer um cercadinho no entorno do estádio pra dizer que há obras.

A questão da Fonte Nova ainda vai ‘render buxixo’ até a arena existir.

O que parece mais encaminhado em termos de projetos urbanos, visando a questões de infraestrutura e mobilidade/transporte, é a opção pelo sistema BRT-Bus Rapid Transit, de buzus articulados em vias segregadas rasgando o miolo da avenida Paralela, ligando o aeroporto ao Acesso Norte/ estação do Metrô.

Acordam os técnicos da prefeitura, governo e sindicato dos empresários de ônibus que é a solução mais barata e possível para resolver de imediato o gargalo Paralela-Iguatemi. Seria um começo de modernidade no âmbito do transporte de massa na cidade.

É só o que temos, por enquanto, para a Copa do Mundo 2014 na Bahia, que começa já, neste meado de julho próximo, quando acaba a Copa Africana. Ganhe ou perca a seleção do tenente Dunga.

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*zédejesusbarreto Jornalista e escrevinhador

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OUTRA NOTA DO EDITOR – O grande zédejesusbarreto já anunciava, em texto escrito em 25 de novembro de 2009, o “Réquiem do Estádio da Fonte Nova”, que foi publicado originalmente em Opinião de A Tarde e reproduzido pelo blog JEITO BAIANO. Veja o link:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/26/requiem-do-estadio-da-fonte-nova/

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ESCOLAS ESPREMIDAS

26/04/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de NELSON PRETTO*

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Tenho saudade de uma Salvador dos espaços generosos. Não imagino que o tempo tenha que parar, que o chamado progresso e o avanço do cimento e do asfalto tenham que ser contidos na marra. Mesmo que nestes últimos tempos de chuvas fortes eles tenham dificultado o movimento da água para seu lugar natural, longe de mim pensar em simplesmente voltar para o passado.

Também não quero falar do tempo das praças sem grades, dos chafarizes, fontes de água, casas sem muros ou com eles ainda baixinhos, onde podíamos sentar para prosear e matar o tempo. Para estes temas, os arquitetos, urbanistas, engenheiros, todos os articulistas de várias áreas já vêm escrevendo em A Tarde desde muito.

Quero falar, no entanto, de um espaço que para mim é muito caro: o das escolas.

Nossas escolas encolheram. E muito. Acabaram-se os  amplos campos para o futebol, babas, garrafão ou similares, acabaram as áreas para o tão esperado recreio, também esse espremido entre os poderosos 50 minutos da sequência de aulas. Aulas que normalmente acontecem em salas que, praticamente, mantêm a mesma configuração de muitos anos, quem sabe séculos, e, o que é pior, também elas encolhidas.

São os mesmos móveis, a distribuição das cadeiras, o quadro negro – depois verdes e, nas mais modernas, até digitais –, estes quase todos colocados na frente, para que uma “plateia” de estudantes possa acompanhar as “emissões” dos professores.

No campo de interseção da arquitetura com a educação pouca coisa mudou e Bahia é repleta de experiências nessa área.

De um lado, com a triste proposta de se construir grandes escolas, todas iguaizinhas, replicadas pelo interior do Estado, e ainda por cima com o mesmo nome, antecedido do terrível adjetivo “modelo”. Nada a ver com educação, que precisa mesmo é ir para além dos modelos e caminhar em busca da criação.

De outro lado, tivemos uma rica experiência que não deveria ser esquecida, como a Escola Parque, implantada no bairro da Caixa D’Água por educadores e arquitetos baianos. Idealizada pelo educador Anísio Teixeira em conjunto com o arquiteto Diógenes Rebouças e o engenheiro Hélio Duarte, ali podemos ver, de forma cristalina, uma clara compreensão da importante relação da educação com a arquitetura. Relação essa que nós, da Faculdade de Educação da UFBA, insistimos ser básica para pensarmos a educação no presente e para o futuro.

Tentamos – com sucesso muito pequeno, é bem verdade – uma maior aproximação com a nossa Escola de Arquitetura, para montar um grande projeto para se estudar a relação entre essas duas grandes áreas. Um programa que fosse buscar em Anísio, Diógenes e Hélio inspiração e resgate histórico. Mas que não ficasse só neles. Que fosse também estudar e aprender, por exemplo, com Charles Mackintosh, o arquiteto da Escola de Artes de Glasgow, idealizador de um projeto de escola básica denominado Scotland Street School, hoje belíssimo museu sobre a história da educação na Escócia, onde é possível ver como eram as salas de aula e o funcionamento da escola ao longo dos anos naquele país.

A Escola Parque, pensada por Anísio – que hoje também está aqui em A Tarde na [revista] Muito –, era um conjunto generoso de espaços livres, que incluía, com uma incrível centralidade, um enorme campo de futebol, rodeado de um teatro a la Teatro Castro Alves, uma magnífica biblioteca a la Brasília, um pavilhão para oficinas, repletos de obras de arte de Jenner Augusto, Carybé, Mario Cravo (aliás, como estão esses painéis, alguém sabe?!) e uma ala administrativa com refeitório, padaria e espaço para professores e alunos. Tudo, absolutamente tudo, imerso numa área verde de frondosas mangueiras que, felizmente, ainda lá estão.

Nesse complexo educacional, dizia Anísio, os filhos dos pobres teriam acesso àquilo que os filhos dos ricos têm nas suas casas. Ali estaria sendo formada uma juventude para fazer diferença.

Aqui, num hoje espremido no tempo e no espaço, nossa juventude é deformada para caber, literalmente, nas grades, curriculares e das salas de aulas. Quebrar estas amarras, na busca de uma formação mais ampla, é algo que demanda ações mais corajosas. E isso, não pode mais ser protelado para amanhã.

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*Nelson Pretto – professor da Faculdade de Educação da UFBA – http://www.pretto.info

(artigo publicado originalmente na editoria de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador-BA, em 25.4.2010)

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SALVEMOS O HOTEL DA BAHIA

14/03/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de NIVALDO ANDRADE*

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Quando foi governador da Bahia, entre 1947 e 1951, Octávio Mangabeira executou inúmeras obras de porte na capital do Estado, como a Praça de Esportes e a estrada Pituba-Itapuã (que posteriormente tiveram seus nomes alterados para homenageá-lo), o Aeroporto Dois de Julho e o Fórum Ruy Barbosa, e deu início às obras de construção do Teatro Castro Alves.

Neste conjunto de grandes iniciativas, merece destaque o Hotel da Bahia, finalizado na gestão de Mangabeira – ainda que inaugurado somente em 24 de maio de 1952 – e que rapidamente se consolidou como o principal espaço de encontro da high-society baiana e dos vips de passagem por Salvador.

O Hotel da Bahia, projetado pelos arquitetos Diógenes Rebouças e Paulo Antunes Ribeiro, teve sua construção financiada “meio a meio” por empresários locais e pelo governo Octávio Mangabeira, tendo como objetivo dotar a capital do Estado de um hotel que pudesse receber de forma adequada empresários, políticos e artistas vindos de outras capitais brasileiras e do exterior.

Cenário de importantes acontecimentos na afirmação da arte moderna baiana, como o I Salão Baiano de Belas Artes e a primeira exposição individual de Mário Cravo Junior, ambos realizados em 1949 no edifício ainda em obras, o Hotel da Bahia foi a residência, nos anos 1950, de ilustres personagens da nossa história, como o próprio Octávio Mangabeira e a arquiteta Lina Bo Bardi, então diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Além disso, o Hotel da Bahia é um dos mais importantes marcos arquitetônicos e urbanos da paisagem de Salvador. Poucos edifícios brasileiros tiveram o mesmo reconhecimento nacional e internacional: foi divulgado nos principais periódicos especializados brasileiros e estrangeiros da época e só na prestigiosa revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui foi publicado duas vezes, em 1949 e 1954.

Na década de 1970, visando adaptá-lo às novas demandas do turismo, foi executado um primeiro projeto de reforma no hotel, que incluiu a construção de duas piscinas e a renovação da decoração. Esta reforma não foi, contudo, capaz de evitar o processo de decadência do hotel, que foi fechado em 1978.

Entre 1980 e 1984, Diógenes Rebouças e Lourenço do Prado Valladares foram contratados para elaborar um projeto de reforma e ampliação do edifício, tendo como objetivo atualizar a sua estrutura física para que pudesse ser reaberto na categoria “cinco estrelas”.

O hotel foi reinaugurado em 1º de dezembro de 1984 com área construída praticamente duplicada: haviam sido construídos três pavimentos de apartamentos, previstos no projeto original, bem como de uma garagem coberta com dois andares e diversas salas de convenções.

Além disso, passava a oferecer aos seus hóspedes uma série de comodidades, como ar condicionado central e sistema de aquecimento solar para água. Com novas obras de arte integradas assinadas por Carybé, o Hotel da Bahia voltava a ser um dos mais importantes e exclusivos empreendimentos hoteleiros de Salvador.

Nas últimas décadas, Salvador voltou seu crescimento urbano e desenvolvimento econômico para a Orla Atlântica, onde foram inaugurados diversos hotéis, com maior número de vagas de estacionamento, de salões de eventos e de equipamentos de lazer e mais próximos do aeroporto e das praias mais visadas. Perdendo em competitividade, o Hotel da Bahia foi, pouco a pouco, perdendo também seu papel de destaque no cenário turístico. No último dia 7 de março, o golpe de misericórdia: o seu repentino fechamento.

A população baiana espera que este segundo fechamento seja temporário, como foi aquele de 1978, e que os órgãos e associações de empresas de turismo, os proprietários do imóvel e o IPAC (responsável pela preservação do mural tombado de autoria de Genaro de Carvalho, localizado no restaurante do hotel) se articulem e encontrem, com brevidade, uma saída que evite o desaparecimento definitivo do Hotel da Bahia e que o permita renascer uma segunda vez, de preferência mantendo o uso hoteleiro, fundamental em uma cidade que se pretende turística.

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Arquiteto NIVALDO ANDRADE

*Nivaldo Andrade – Arquiteto, vice-presidente do Departamento da Bahia do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-BA)

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CARTA A DIÓGENES REBOUÇAS

13/12/2009

Arquiteto DIÓGENES REBOUÇAS (1914-1994). Foto: Arquivo A Tarde

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de HELIODORIO SAMPAIO*

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Sem buscar o sucesso efêmero, mestres, como Diógenes Rebouças, se cercaram de atitudes firmes e discretas no ato do “saber fazer” coisas do ofício. As raras entrevistas, a ausência nas colunas sociais, a fuga ao sucesso fugaz, às comendas e atos correlatos atestam o modo de vida quase monástico, deste arquiteto-urbanista pioneiro do modernismo baiano.

Para Diógenes, a boa arquitetura tem capacidade de absorver mudanças no tempo. Repetia:

– Papel pintado se rasga e joga fora, se faz outro desenho; mas a obra não, ela estará lá sempre a espiar os nossos equívocos.

Três ideias-força circunscrevem a obra de Diógenes: a implantação no sítio geográfico; concepção generosa dos espaços de convívio – públicos ou semipúblicos; e estética austera, vincada numa espacialidade fiel à concepção estrutural.

Escola Parque, Hotel da Bahia, Fonte Nova, Politécnica, Faculdade de Arquitetura, antiga Rodoviária, avenidas Contorno e Centenário, casas, igrejas etc. contemplam suas ideias-força.

Em carta imaginária inédita, de 6.12.2007, tentamos mostrar o espírito guia da nossa cinquentenária escola, no que ela tem de melhor: a disposição para defender a cidade do desastre em curso; que atinge em cheio as obras do EPUCS, de Diógenes Rebouças e vários outros modernistas.

(Seguem trechos da carta):

Mestre,

Faz tempo que nos falamos, desculpe o silêncio. Ando perplexo com velhas ideias que voltam a circular na nossa Salvador, mostrando o descuido com o sítio geográfico e a história do modernismo baiano no século XX, no qual o senhor foi um protagonista maior, exemplar. (…)

Na esteira de uma modernização caolha continuam a raspar do território as sobras da arquitetura e urbanismo do século passado. Persiste o equívoco de que “memória urbana” diz respeito apenas aos espaços do século XVIII para trás, em guetos turísticos. Seu livro e quadros certamente adornam prateleiras da mesma elite que destroça os vestígios da Salvador antiga. Só a arte de um Diógenes – o pintor e aquarelista – possibilita, ao lado de Munlock, Ferrez, Verger e outros artistas sensíveis, aferir os estragos causados pelo Urbanismo Demolidor que transpõe o século passado e nos alcança em cheio. (…)

Sua obra, ao lado de outros grandes arquitetos baianos, encontra nas picaretas o golpe que derruba edifícios, mas pouco alcança o silêncio de parte da mídia, conivente, cooptada. Tudo converge para os desígnios da cidade-mercadoria, espetaculosa, anunciando um futuro estarrecedor para a cidade herdada do EPUCS. (…)

Neste viés urbanístico, ideologicamente “progressista”, esquecem das experiências recentes desastradas, pelas consequências provocadas na decadência do Centro Histórico, e dos vazios no entorno da Paralela. Continua em curso a ênfase na centralidade da Paralela, congestionada, alimentando um processo que desde o século passado se revela desastrado. As eleições apontaram mudanças, outros quadros assumiram o poder político-administrativo – substituindo um ciclo esgotado –, mas o discurso urbanístico continua muito igual. A frase emblemática na placa no CAB: “Aqui se constrói o futuro sem destruir o passado”, continua firme na Paralela. Mas a qual passado se refere? Se o Centro Histórico continua problemático, cidade alta e baixa aos pedaços. Subúrbio e miolo, nem se fala. (…)

No seu livro, a tensão entre o velho e o novo retoma Augusto de Campos:

eu defenderei até a morte o

novo por causa do antigo e até a

vida o antigo por causa do novo.

o antigo que foi novo é

tão novo como o mais novo.

(…)

Mestre, até mais ver.”

A relação dialética entre o novo e o velho é essencial às cidades históricas. Já disse o poeta maior: “O valor das coisas não está no tempo em que duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Diógenes Rebouças é ímpar e também o par; indissociável desta cidade. Se o projeto demolidor ainda é papel, deve ser mudado. Como pedem Faufba, IAB, Crea, Conselho de Cultura, e nós cidadãos.

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*Heliodorio Sampaio – Arquiteto, professor da Universidade Federal da Bahia

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TRISTE BAHIA, OH QUÃO DESSEMELHANTE

16/07/2009
Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

     O jeito baiano de ser, pelo menos o dos baianos de Salvador, aflorou e se desenvolveu intrinsecamente conectado a uma configuração especial de cidade. E hoje está ameaçado de morte pela degradação dessa mesma cidade, que “perdeu a essência”, como filosofou dia desses Aloísio, dono de barraca e figura histórica da Praia dos Artistas.

     Este blog quer botar a boca no mundo, conclamar todos os que amam a Boa Terra – não só os baianos – para salvarmos Salvador, para recuperarmos a essência perdida desta cidade mítica.

     Abaixo dois textos em destaque – a entrevista da repórter Katherine Funke com o arquiteto Pasqualino Magnavita para a revista Muito e o artigo do jornalista JC Teixeira Gomes para a página de Opinião, ambos publicados no jornal A Tarde, de Salvador, que trazem importantes subsídios para esta discussão.

     Antes, o pensamento imbatível de Antonio Risério sobre o mesmo tema, extraído de um artigo dedicado a Caymmi que ele escreveu para a Folha Ilustrada, com data de 18.8.2008:

Quando Caymmi soou no Brasil meridional, trazia a mensagem cálida e ecológica de um lugar idealizado, que parecia parado no tempo e viver em paz, imune a conflitos sociais. Caymmi reforçou assim, nacionalmente, o mito baiano. Era como se falasse de um espaço utópico: o lugar de nossa origem, premiado por belezas arquitetônicas e ambientais, onde vivia uma gente feliz, ensolarada e muito singular. Naquela época, o mito não deixava de encontrar alguma correspondência na Bahia real. Hoje, não. A Bahia de Caymmi ficou definitivamente para trás. É uma Bahia que soa atualmente, também para os próprios baianos, como uma espécie de utopia.

(Este post é continuação de um dos primeiros do Jeito Baiano, aquele intitulado “Cidade da Bahia, mais de cem anos de solidão”. Veja-o no endereço https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/03/29/cidade-da-bahia-mais-de-cem-anos-de-solidao/

 

DESRESPEITO E DEGRADAÇÃO

 

Entrevista com o arquiteto Pasqualino Magnavita

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

por KATHERINE FUNKE, revista Muito (5.7.2009)

 

Engenheiro formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBa) e doutor em arquitetura pela Universidade de Roma, artista plástico e designer de móveis. Aos 80 anos de idade, Pasqualino Romano Magnavita acumula todas essas qualificações – todas elas premiadas. Nem por isso se acomoda. Mantém-se em constante atividade.

Apesar de morar em Itaparica desde 1995, uma vez por semana deixa seu belo refúgio à beira-mar para passar um dia trabalhoso em Salvador. É vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura (CEC) e leciona na pós-graduação em arquitetura da UFBa.

Mesmo em casa, não sossega. Além de passar os dias entre pesquisas e no atendimento a alunos e visitantes, está construindo pouco a pouco um centro cultural.

Na porta do seu quarto, a foto dos pais italianos, tirada em 1915, denuncia o amor pela família. Tem 11 irmãos. Cinco já faleceram; os outros seis ainda moram no primeiro edifício projetado pelo arquiteto, em 1954, nos Barris.

Desde 1968, vem transformando uma ruína do século XIX em residência, repleta de obras de arte, livros e mirantes.

É ateu, apesar de colecionar miniaturas de igrejas e de ter criado o Axé Design – uma linha de móveis com referências ao candomblé.

E está de olho na chegada do progresso à ilha. Na capital baiana, já demoliram cinco casas projetadas por ele.

 

Por que o senhor mora em Itaparica?

Conheci Itaparica desde 1939, ainda menino. Meu pai comprou uma casa para veraneio que então era uma renomada estação hidromineral no Estado. Era um recomendável apelo para a saúde. Desde 1968, reconstruí uma pequena ruína, o Mirante do Solar, e desde então venho ampliando essa segunda morada. Com a aposentadoria, em 1995, fiz a opção de morar definitivamente aqui.

 

Agrada-lhe o projeto de construção de uma ponte entre a Ilha de Itaparica e Salvador?

A construção da ponte interessa às empreiteiras. A Ilha se tornaria um filé mignon da especulação imobiliária. Fora isso, há a possibilidade de cobrança de pedágio. A Ilha passaria a ser uma Salvador imensamente ampliada, com edificações de elevadíssimo gabarito, vista panorâmica voltada para a capital. Ao mesmo tempo, palco de uma ampliada e incontrolável ocupação informal, ou seja, uma experiência já conhecida. Com essa ponte, Itaparica seria uma Niterói.

 

Em 50 anos, a população de Salvador aumentou de tamanho quase dez vezes. Como o senhor interveio nesse crescimento?

Nas décadas de 70 e 80, a seção baiana do Instituto de Arquitetos do Brasil [IAB-BA] criou um trabalho conjunto com lideranças de movimentos sociais e associações de bairro. O objetivo era diagnosticar problemas e reivindicar soluções ao poder municipal. Participei ativamente. Também fui representante do IAB-BA na comissão paritária, em 1983, nas negociações com os ocupantes [Invasão] das Malvinas [hoje, Bairro da Paz]. Embora começada, a derrubada foi suspensa. Sob forte pressão, a população foi para Coutos. No governo de Waldir Pires, voltou a ocupar a área.

 

O senhor também participou do Conselho de Desenvolvimento Urbano, o Condurb, como representante da UFBa…

Mas, em decorrência da composição do conselho sob a presidência do “prefeito biônico“ de plantão, as minhas colocações e as do IAB-BA não tiveram ressonância. Mas tive uma grande oportunidade para contribuir na requalificação urbana da Praça Cayru, no Comércio, integrando a equipe do arquiteto Luiz Antônio de Souza. Trabalhamos por dois anos no desenvolvimento do projeto. Entregamos no início de 2002 para [o então prefeito Antonio] Imbassahy. Todavia, o projeto ainda jaz nas gavetas da prefeitura.

 

O senhor tem uma ativa participação social. De onde vem essa energia para o debate político?

Meus pais sempre manifestaram muita energia em suas vidas. Independentemente da genética, penso que a questão pode ser entendida em função de três variáveis: a primeira, minha experiência empírica, formada pelas inúmeras conexões e saberes que pude sedimentar. A segunda, a forma de pensar, a lógica e repertório conceitual. A terceira, a visão de mundo – e a adoção de uma ética/estética como professor e arquiteto. Passei pela forma de pensar dialética, uma lógica binária. Agora, com maior vigor, tenho adotado a lógica da multiplicidade, o pensamento rizomático, também conhecido como micropolítica. É uma vertente da filosofia contemporânea, que me mantém ainda mais antenado e participativo.

 

O Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

O Edifício Caramuru (1947) o estimulou a cursar engenharia e arquitetura. O que esse projeto ainda ensina?

Entre outros fatos, é o único prédio do Comércio com jardim suspenso [desenhado por Burle Marx], em lugar daquela cobertura com volumosos dispositivos do sistema de refrigeração e de reservatórios, como ocorreu em seguida. Caso todos os edifícios mantivessem o mesmo gabarito e seguissem esse exemplo, a visão da Cidade Baixa da Praça Municipal teria uma configuração interessante, em lugar do quadro degradante que presenciamos. E mais degradante será, com a irresponsável aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, o PDDU, que eleva o gabarito no Comércio.

 

Qual sua análise dessa lei municipal, sancionada pelo prefeito João Henrique (PMDB) em 2008?

Absolutamente, não aprovo. Há décadas, tanto o IAB quanto a Faculdade de Arquitetura da UFBa têm se posicionado contra a elevação de gabarito na orla. Os inúmeros exemplos existentes no País demonstram tratar-se de pura especulação imobiliária em benefício de poucos grupos sociais privilegiados. Além da descaracterização da paisagem marítima, exige investimentos públicos altíssimos, considerando a insuficiente infraestrutura existente – particularmente o sistema viário, que já se encontra próximo a um inevitável colapso e que será enormemente adensado com a elevação do gabarito da orla. Na minha opinião, o PDDU se revelou uma oportunidade perdida, pois minimamente contempla o atendimento aos problemas e soluções para a grande maioria da população e favorece, de forma incisiva, o capital imobiliário, desrespeitando o patrimônio histórico, a paisagem e o meio ambiente.

 

No debate na Câmara de Vereadores, a presença de pessoas contrárias ao projeto só foi maior no dia da votação, em dezembro de 2007. Por que isso ocorreu, na sua opinião?

Em primeiro lugar, quando se fala de Salvador, é preciso ter presente sua composição social. A grande maioria se encontra excluída dos benefícios econômicos, sociais, políticos e culturais. Em segundo lugar, o tipo de divulgação e formatação do projeto não motivou a população a interferir. Em terceiro lugar, há no plano muitas questões de entendimento puramente técnico. Contudo, representantes da sociedade civil e do Ministério Público estiveram sempre presentes nos debates. Mesmo antes de sancionada a lei, várias manifestações contrárias chegaram ao prefeito.

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

 

Nos últimos meses, cinco residências projetadas pelo senhor foram demolidas em Salvador. Como isso o afeta?

Está ocorrendo não apenas comigo, mas com colegas de geração, da geração anterior e, até mesmo, da mais nova. Muitas das residências projetadas pelo pioneiro da arquitetura moderna na Bahia, Diógenes Rebouças, já foram demolidas. Só restam duas, realizadas na década de 50, que estão ameaçadas de demolição. Seria desejável que o Ipac [Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia] promovesse de imediato o tombamento, já que uma de suas grandes obras, o Estádio da Fonte Nova, corre o risco de futura implosão, e isso, apesar do pedido de tombamento pela Faculdade de Arquitetura da UFBa. Igualmente, algumas residências projetadas por Assis Reis também foram lamentavelmente demolidas. Uma outra casa projetada por ele encontra-se na iminência de ser demolida. Provavelmente em função do ritmo acelerado dos interesses em jogo, torna-se possível afirmar que não restará registro, ou, melhor dizendo, não ocorrerá a desejável preservação da memória de arquiteturas residenciais representativas das décadas de 60 e 70 do século XX em Salvador.

 

Ao mesmo tempo em que isso acontece, a cidade ganha cada vez mais condomínios fechados, que reúnem no mesmo local atividades como trabalhar, morar e se divertir. Qual sua avaliação sobre o impacto urbano e social desse tipo de empreendimento?

É a expressão mais segregadora de uma configuração urbana. São os bolsões de riqueza da grande favela que é a Cidade do Salvador.

 

Nesse sentido, o senhor pode se dizer satisfeito com o que este século XXI está se tornando, na Bahia e no mundo?

Adotei o princípio da indeterminação, também denominado princípio da incerteza. Acredito que navegar no caos é preciso. Caos aqui entendido não como desordem, como geralmente se supõe, mas como lugar de todas as formas, de todas as partículas, lugar da criação, de novos acontecimentos, um oceano de dessemelhanças.

 

Como assim?

A vida como transformação permanente em sua percepção micro, molecular não tem princípio e nem fim. Encontramos-nos sempre no meio, entre situações, circunstâncias, contextos. Processamos uma multiplicidade e heterogeneidade de conexões ao longo de nossas existências. Sempre imagino que vou incorporando mutações e me transformando enquanto experiência empírica. E isso, simultaneamente, com uma nova forma de pensar, uma nova lógica, a da diferença. Superei a lógica binária adotando novos conceitos, proporcionando-me uma nova visão de mundo, ou seja, uma nova ética. Não é mais tempo de expectativa de grandes revoluções sociais, mas de “revoluções moleculares”, de microações individuais ou de grupos, objetivando contribuir, favorecer a construção da solidariedade e da emancipação social.

 

O senhor se considera jovem aos 80 anos?

A idade cronológica não tem sentido. As tão badaladas “crises”, em qualquer nível, são tempos de mutações, favoráveis à criatividade. Por mais adversas que sejam as questões da existência, não há lugar para desesperanças.

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam na Av. Estados Unidos, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio "50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX". Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam no Comércio, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX. Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

 

BAHIA, AMADA BAHIA

 

por JC TEIXEIRA GOMES*

 

O título deste artigo não se refere à Bahia atual (falo, claro, de Salvador), mas sim à Bahia antiga, que acabo de rever, encantado, num belo álbum das fotos de Voltaire Fraga adquirido há pouco na Pinacoteca de São Paulo. Aquela era a esplendorosa e poética cidade que seduzia gente da sensibilidade de Pierre Verger e do próprio Voltaire.

 

Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga  Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga (esta foto foi copiada de um site que informa sobre uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, mas não explica quem é esse rapaz e por que ele foi incluído na imagem)

 

Soube que no Dois de Julho vaiaram o prefeito. No entanto, ele foi reeleito, o que nos faz questionar a autenticidade do processo eleitoral nos dias atuais, dominado pelo poder da propaganda enganosa e do dinheiro. Hoje, estou convencido de que todo candidato a prefeito de Salvador deveria ser previamente sabatinado sobre as tradições urbanísticas e arquitetônicas do velho burgo. Quem as ignorasse pulava fora. Sem vacilações.

Já a Bahia de hoje é a cidade insegura, mal-administrada, de trânsito insuportável (há mais carros do que ruas), em acintoso processo de degradação urbana, fruto de um inchaço que gera bairros novos sem infraestrutura, e onde os prédios (de arquitetura discutível) florescem como cogumelos podres. É a triste e dessemelhante Bahia que clama por um novo Gregório de Mattos.

Aos candidatos ou aos prefeitos já no cargo, gostaria de recomendar, para que aprendessem a respeitar a imensa riqueza do nosso passado, além do conhecimento dos autores já citados, a reflexiva leitura da obra portentosa de Consuelo Novais Sampaio, 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX, editada em 2002 pela Odebrecht e somente agora à venda no Rio.

Não é preciso ser baiano para que alguém, diante da eloquência desse livro miraculoso no resgate de um tempo irremediavelmente perdido, se sinta arrasado com os exemplos da desfiguração de Salvador, cuja fisionomia histórica poderia ter coexistido com as imposições do progresso, pelo trabalho de administrações competentes.

 

Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht

 

Quem olha as fotos, os desenhos, os mapas, as reproduções paisagísticas, toda a rica documentação visual do livro de Consuelo, não deixa de fascinar-se, enfim, com a homogeneidade urbanística da velha Salvador.

Era uma cidade incomparável pelos simétricos detalhes do seu casario, da sua privilegiada localização no alto da montanha amuralhada, das múltiplas torres das igrejas varando os céus, da opulência do seu cais de amarras com a barreira dos edifícios densos, obras suntuosas que jamais deveriam ter sido demolidas. Somava-se à riqueza dos sobradões a rara topografia de duas cidades superpostas, numa visão inigualável para quem vinha do mar e não contemplava nada que se comparasse no mundo.

Tudo isto no embalo da baía imensa, concentração de águas diluvianas resguardadas pelo forte heroico e solitário, cuja simples localização atemorizava a presença de piratas de todo tipo, ávidos de se lançarem sobre as riquezas da América Portuguesa. Os piratas do mar já não ameaçam a cidade, mas o passar dos anos foi tornando cada vez mais evidente a devastação promovida pelos piratas imobiliários, apoiados pelos piratas da política.

Há sempre quem queira justificar as destruições como consequência do progresso. O argumento é falso. Não poucas cidades do mundo conciliam realidades urbanísticas moldadas por épocas distantes.

 

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro "50 Anos de Urbanização"

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro 50 Anos de Urbanização

 

Lembremos Jerusalém, eloquente exemplo. A cidade que viu Cristo pregando pelas ruas estreitas jaz praticamente intacta, ao lado da nova Jerusalém, metrópole dos tempos modernos. E não se diga que isto só foi possível por milagre de Deus. O que houve foi vontade política de homens competentes. Nem os bárbaros conseguiram destruir Roma inteiramente.

Já a pulverização dos monumentos e sítios históricos de Salvador é uma realidade permanente. No entanto, nenhuma outra cidade brasileira mergulha tanto na sua história e busca o passado com tamanha paixão para vivificar-se.

O prestigiado arquiteto Mário Mendonça revelou que as festas populares baianas, movidas a estrondosos decibéis, estão rachando até monumentos sólidos, como o Farol da Barra. É uma preciosa advertência, para que o registro da nossa vida coletiva não continue sendo apenas um inventário de perdas.

 

Joca 090508 FOTO03*JC Teixeira Gomes

Escritor, jornalista, foi editor-chefe do extinto Jornal da Bahia