Posts Tagged ‘Cid Teixeira’

NO BANCO DO BUZU

09/05/2010

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Aula de cidadania

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Um ‘rolê’ de buzu, de Vida Nova (bairro de Santo Amaro de Ipitanga) até a Estação da Lapa, em Salvador – via Itinga, São Cristóvão, orla –, de olhos e mente abertos, em horário de tráfego maneiro para que se possa bem apreciar as coisas, é uma aula.

A primeira lição é sobre a relatividade do tempo. O tempo, no volante de um carro, voa. Já dentro de um buzu os minutos se arrastam. São duas horas nesse roteiro, quando se pega um fluxo bom de tráfego. Dá para ler jornal, tirar soneca, trocar prosa, conhecer gente e até meditar… sem agonia.

De olho na janela, a diversidade de paisagens impressiona. Ali, resto de mata, lá roçados que parecem o interior sertanejo, acolá casebres, adiante lixões e invasões que lembram os ‘musseques’ de Luanda (Angola). Rodando mais, passamos por bairros superpovoados e moradas de laje batida e tijolo aparente, vielas espremidas e ruas esburacadas. Há tabuleiros e traquitanas de comércio informal por tudo que é canto. E meninos vagando, vagabundos, desocupados, cães atarantados e muita pobreza.

Movimento! Vida se mexendo de todas as formas. São variadas, múltiplas realidades, cidades dentro da Grande Cidade. Quando se destampa o mar, adiante, hora passada, em Itapuã, parece outra urbe, um outro mundo. Respiram-se novos ares, maresia, mesmo com os passeios esburacados, carências conhecidas.

Uma constatação importante clama: Somos um povo absolutamente mestiço, uma gente mulata, cabocla, mistura de cores e traços. Variados matizes. Nossa população não é em p & b, como querem alguns. Os branquelos são raros e os negões puros, bem poucos. Isso me faz pensar no mestre Cid Teixeira que sempre repete, sem pejo: ‘Somos mulataria!’

Retinto é o motô (motorista), paciente, impassível, atento… a enfrentar muitos buracos no percurso, lama, quebra-molas a rodo, aquele barulhaço aterrador às aceleradas, caminhões parados fechando passagem, carro particular ignorando o fluxo, parado na faixa, mal estacionado, manobrando errado e matracando o ritmo, falta de respeito e de educação geral sobre rodas.

E mais pedestres desastrados, ciclistas (até crianças) e motoqueiros imprudentes, dá até arrepios… Mas, juro, nada perturbou o motô, nem mesmo a quantidade absurda de idoso e ‘carteirante’ que entra pela dianteira; fora os pedintes, os deficientes, os ‘crentes’ pregando a bíblia e vendendo doces, os ex-drogados relatando dramas e arrecadando trocados para a salvação pela fé… Uma festa dentro do buzu que roda e ronca. O papo rola, a vida vai, o tempo corre.

O cobrêro (cobrador) puxa conversa passando o troco, de bem com a vida, pra se distrair, repetindo, no seu jeito baiano de se mostrar gentil: ‘Valeu, broder, obrigado’.

A brisa atlântica varre o bafo humano que vai se impregnando no interior do buzu e o vaivém das ondas atrai os olhares, descansa as vistas. E a vida segue aos trancos e arrancos, parando e seguindo, entrando e saindo, na baralhada do barulho de vozes, ranger de freios, roncar de motores e destinos. Fruição humana.

Nossos governantes deviam, vez ou outra, feito gente, andar de buzu. Faz bem.

Tornar-se-iam mais humanos.

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*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

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Mozart de rua

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Paro numa rua enlameada da periferia e logo sou atraído por um som de uma ‘orquestra’ percussiva. Bato os olhos num garoto mulatinho de seus 10 anos, magrelinho, trajado de bermudinha jeans surrada, camiseta encardida sem mangas e sandálias de dedo meladas.

Seus olhos brilham, como se fosse um anjo, o corpo todo em majestosos movimentos.

Só, junto de um poste, com duas varetas nas mãos servido de baquetas, tira sons incríveis vergastando um tonel velho de lixo, meio virado, com caixas de papelão e um lata velha saindo pela boca. Ele usa cada pedacinho do sonoro tonel – boca, beirada, corpo –, da lata e do papelão para fazer sua música. Sério, bate com segurança como se estivesse estudando, pesquisando, experimentando as variações acústicas, criando repiniques, fraseados sincopados de uma samba-reggae tão baiano!

Seria uma homenagem, uma reencarnação de Neguinho do Samba, minha mãe? Filho de Carlinhos Brown?

Quedo-me a admirá-lo à distância. Ele nem me olha, concentrado, fazendo eco rua afora, solto, liberto, em plena aula, arte pura, apenas umas poucas crianças da mesma idade, sentadas ao chão à distância a apreciá-lo. A rua é sua escola livre, aberta. Sua escolha.

Não quero perturbá-lo, nem com meus pensamentos que, inquietos, perguntam: Terá família? Se frequenta escola, como poderia estar aqui a essa hora, no meio da manhã? E de que adiantaria uma ‘cela’ de aula para ele? Alguém, algum ‘professor’ dessas tais escolas formais compreenderia sua grandeza? Será que comeu um pão com café hoje? Com que sonha aquela cabecinha, além da música? Sua alma é sonora.

Peço que Deus o proteja do mundo das drogas, da violência, dos descaminhos. Imagino-o sentado à frente de uma bateria, diante de mil instrumentos de percussão, acompanhado de sopro, cordas… ou, num palco, diante de um piano de cauda.

Anônimo menino maestro. Um gênio perdido nessa rua de buracos e lama. Desatino de vida! Mais um Mozart assassinado.

Que os céus não permitam!

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zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (mai/2010)

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SALVADOR COMPLETA HOJE 461 ANOS

29/03/2010

Foto de EDUARDO MARTINS | Agência A Tarde – 18.12.2009 | As fotografias utilizadas neste post são fruto da pesquisa feita no arquivo digital de A Tarde pelo diligente colega de redação LUIZ CRISTIANO V. PARAGUASSÚ

Palafitas na Invasão da Pedra Furada, Península de Itapagipe, Cidade Baixa. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde – 3.7.2009

O menino Luca Andrade, de 2 anos, na Praia da Barra. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 27.2.2010

Igreja da Conceição da Praia, aparecendo ao fundo o Elevador Lacerda. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 20.6.2008

Largo do Pelourinho. Foto de LÚCIO TÁVORA | Agência A Tarde – 12.01.2010

Porto da Barra – Em primeiro plano, à direita, o Marco da chegada de Thomé de Souza. O primeiro governador-geral do Brasil desembarcou ali em 29 de Março de 1549. Foto de EDUARDO MARTINS | Agência A Tarde – 18.12.2009

Estátua de Thomé de Souza na Praça Municipal. Foto de EDMAR MELO | Agência A Tarde – 27.4.2006

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São Salvador da Bahia

461 anos da Mãe Preta

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texto de zédejesusbarrêto

(especial para o blog Jeito Baiano)

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Era uma sexta-feira de dia claro, aquele 29 de março de 1549, quando despontou no azul infindo de céu e mar, na entrada norte da Baía de Todos-os-Santos, a armada portuguesa de três naus, duas caravelas e um bergantim com mais de mil pessoas a bordo, sob o comando do fidalgo Thomé de Souza, a serviço do rei D.João III.

Chegavam com uma missão estabelecida, a cumprir: a fundação de uma cidade, porto e fortaleza, planejada para ser (e seria) a primeira capital do Brasil-Colônia, sede do governo, base de toda a administração e do povoamento das terras portuguesas d’além mar recém descobertas nessa costa atlântica da América do Sul.

Tinham embarcado em Lisboa, com a bênção real, em 1º de fevereiro e vinham determinados, sabiam muito bem onde aportar e o que queriam. Entre a tripulação, alguns nobres, seis jesuítas, navegadores, mais de uma centena de artífices – entre pedreiros, carpinteiros, calafates, oleiros, ferreiros, serralheiros, barbeiros, até cirurgiões… –, trabalhadores braçais e degredados, homens fortes jovens e destemidos aventureiros.

Entre eles, destacava-se uma figura especial, pela missão que lhe fora confiada: o mestre de obras Luis Dias, que trazia consigo um esboço traçado em Portugal do que seria “a cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, que foi a Lisboa da América e competiu, como empório, com Goa e Malaca, erguida por ordem régia, pormenorizada e clara” (cito o autor português Luis Silveira, na obra ‘Ensaio de Iconografia das Cidades Portuguesas do Ultramar’).

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Monumento a Thomé de Souza, tendo ao fundo a primeira Casa Legislativa do país, que hoje abriga a Câmara de Vereadores. Foto de ELÓI CORRÊA | Agência A Tarde – 23.3.2007

A Chegada

Thomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil, trazia com ele também, naquele longínquo 29 de março, um roteiro detalhado, por escrito e datado de 17 de dezembro de 1548, do que fazer quando aqui chegasse. Todas as instruções de D. João III em forma de um Regimento.

Como estava previsto, Thomé de Souza desembarcou na enseada de águas mansas do Porto da Barra, onde foi recebido de forma cortês e pacífica por um grupo de algumas dezenas de moradores da Povoação do Pereira (ou Vila Velha) – um aldeamento que se estendia pela costa até o alto da Graça criado por Caramuru (Diogo Álvares Correia), seus amigos tupinambás, e pelo inábil capitão donatário Pereira Coutinho (da capitania hereditária da Bahia) que, à chegada da armada, já havia sido enxotado de lá pelos nativos.

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À frente do grupo receptivo estava o experimentado capitão-cavaleiro da Casa Real, Gramatão Teles, que já fora enviado antes por D. João III no intuito de preparar o ambiente para a chegada da armada real, ao lado de Caramuru – um portuga que aqui naufragou, bem jovem, por volta de 1510, deu na praia, caiu nas graças dos nativos, casou-se com uma filha do chefe tubinambá, estabeleceu-se e tornou-se um pioneiro no comércio ultramarino do Pau Brasil, dando início também ao processo de miscigenação dos baianos/brasileiros.

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O Local

Mas ali, naquele porto tão próximo da entrada norte da baía, não seria o local ideal para a construção da nova cidade – que haveria de ser um porto e fortaleza. Era preciso achar um local mais apropriado, mais protegido, mais estratégico, mais para o interior da baía.

O achado do local exato, hoje a rampa do antigo Mercado Modelo, aquelas águas diante de Igreja da Conceição da Praia, deu-se alguns dias depois do 29 de março de 1549.

Essa data que hoje se comemora, de fato, é a data da chegada de Thomé de Souza com sua armada e não a data da fundação do novo sítio, pois demorou meses até que se erguessem casas e fizessem os arruamentos pioneiros.

Elevador Lacerda, Cidade Baixa e Cidade Alta. Foto de HAROLDO ABRANTES | Agência A TARDE – 18.3.2010

A nova urbe seria, assim, construída bem no alto, no cume do morro, cimo de uma escarpa de mais de 60 metros acima do nível das águas, num local de onde se descortinava o horizonte do mar. O sítio escolhido foi cercado de uma forte paliçada de madeira, para evitar o ataque dos índios, e tudo foi erguido a mão em pedra, barro, cal e madeira, sob a diretriz do ‘arquiteto e engenheiro’ Luis Dias, tal e qual fora traçado em Lisboa.

Poderíamos dizer que o traçado original cercado tinha como limites: a Barroquinha, o rio das Tripas que hoje passa por baixo da Baixa dos Sapateiros, o Taboão e a escarpa, com o marzão batendo nas pedras, lá embaixo, onde hoje é o Comércio (o aterro foi feito bem depois).

Esse foi o traçado original da cidade.

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As Águas

E essa é a história verdadeira desta cidade-mãe que tem como referência o mar, as águas, o azul do céu, a luminosidade do infinito. Vocação de mar.

Cidade Baixa vista da Cidade Alta: Elevador Lacerda, Mercado Modelo e Praça Cairu. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A TARDE – 2.12.2009

Aqui nessa bacia kirimurê (o nome como os nativos tupinambás chamavam o caldeirão de águas da Baía de Todos-os-Santos) de águas limpas, tépidas e plácidas, doces e salgadas, misturadas, deu-se a grande mescla humana de caboclos nativos, negros africanos, brancos europeus… e depois asiáticos, árabes, judeus… todos que aqui aportaram e bem contribuíram com suas crenças, costumes e fazeres para essa nossa baianidade ou baianice, como queiram.

Porque a Bahia é fruto de mistura. Com muito tempero africano, porque tudo que aqui se fez tem o suor dos negros – construções, comida, hábitos, religião, alegrias, manhas…

A Cidade da Bahia tornou-se uma acolhedora mãe-preta (ou mulata) de colo farto e braços sempre abertos para o mundo. Uma cidade das águas, sempre porto e sempre fortaleza.

Como cantam Gerônimo e Vevé Calazans: ‘Nesta cidade todo mundo é d’Oxum’. Oxum, a divindade das águas doces, das nascentes, da fecundidade. Os aqui nascidos trazem em si a força, a luz, o axé das águas. Disso sejamos cientes. E cuidemos.

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O Porto

Durante séculos, Salvador foi o maior entreposto comercial do Atlântico Sul, parada obrigatória dos navegadores que faziam o Caminho das Índias, ida e volta, pelo entorno sul da África. A vida girava em torno do porto. Caravelas, naus de todas as bandeiras, saveiros, mercadorias das índias, novidades da Europa, especiarias, açúcar, fumo, frutas, pescados, a fartura do Recôncavo… E as notícias, as futricas, o sobe e desce dos carregadores, o suor e a sabedoria dos negros. A vida ocorria em função do porto, das águas e dos ventos do mar.

Assim foi se escrevendo a nossa história.

Salvador foi também o ponto mais concorrido da costa brasileira em função do tráfico de escravos africanos – ativo de 1551 à segunda metade dos anos 1800, três séculos desse comércio infame. No início do século XIX a população escrava e afrodescendente era absoluta maioria na cidade. Os negros formigavam pelas ladeiras. Daí ter sido chamada por muitos historiadores europeus de ‘a Roma Negra’ .

A escravidão foi uma ignomínia e deixou nódoas, ainda hoje indeléveis, bem visíveis. Mas, quem sabe, veio da Mãe África também a nossa graça, a nossa diferença, pois a negritude fez de nós uma gente muito especial. Malditas, benditas heranças.

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Sim sinhô, e que os orixás, inquices e voduns, divindades ancestrais, todos os encantados das matas e santos do céu nos guardem e protejam… E conservem sã essa Mãe tão amada e tão prenhe de pecados. Preservem suas coisas boas, quantas! Que ela seja sempre um abrigo de encontro das diversidades, todas. Seja essa a nossa singularidade, tão plural.

Espaço de respeitosa convivência humana, de fortes e igrejas barrocas, sobrados e casebres, terreiros e regaços, palácios e shoppings, modernidades e tradições, tantas traduções, quantos ritmos, cores, cheiros, crenças, sentimentos…

Que as diferenças e dessemelhanças aqui se achem em harmonia, sempre.

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O Espaço

A Salvador de hoje é uma metrópole. Mais de 3 milhões de habitantes. Uma cidade moderna e desigual. Opulenta para uns e injusta para muitos. A mancha urbana espalhou-se sobre toda a grande península, com duas faces: uma voltada para o mar aberto, atlântica; outra para as águas interiores da baía, maré mansa, áreas de mangue, cênica.

Invasão Quilombo, bairro de Paripe, no Subúrbio. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde – 28.9.2009

A velha cidade perdeu, sim, alguns encantos, mas preserva íntimos mistérios. Anda à volta com novos costumes, tormentos.

Sem mais espaço disponível ao tranquilo bem viver, sem ter mais para onde crescer, a histórica cidade enfrenta, aos seus 461 anos, todos os problemas de uma metrópole superpovoada, inchada, sem infraestrutura suficiente para todos os seus filhos e agregados, sem planejamento e pobre de recursos. Com muitos a padecer, por falta do que fazer, por não saber onde morar, por carência do que comer.

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A Pobreza

Cito o grande mestre Cid Teixeira (professor, historiador, escritor, jornalista, radialista e assumido mulato nascido em Salvador em 11 de novembro de 1924) – Entrevista concedida à Revista da Bahia, edição nº 29, de março de 1999, quando se comemoravam os 450 anos da cidade. Com sabedoria, ele disse ao repórter Nestor Mendes Jr.:

A grande tragédia de Salvador é que ela deixou de ter somente pobreza – e pobreza sempre existiu – e passou a ter uma coisa trágica que é a miserabilidade, que é a porta aberta da marginalidade.

Olha, eu não quero achar culpados. Essas coisas não são tão policiais para se indicar alguém e, a partir daí, transformar esse alguém em réu. Mas, realmente, nenhuma cidade do mundo aguenta uma curva de crescimento demográfico como a que incidiu sobre Salvador nos últimos 50 anos. Nenhuma cidade do mundo tem condições de suportar, de absorver o crescimento demográfico que nós tivemos, desordenado em todos os sentidos, seja no sentido físico de sua ocupação do espaço, seja no sentido sociológico do destino da força do trabalho”.

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Merece uma reflexão.

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A Poesia

Cidade amada. Canto meu.

Flocos alvos soltos, de toda forma e tamanho,

brincam de desenho no vazio azul do céu

e me enchem de paz.

Êpa Babá!

O corredor de bambuzal que dá acesso ao aeroporto

é um túnel de Axé do Pai, onde se passa em silêncio

na chegada e na saída, à espera da luz.

Oxalá seja Senhor do Bomfim

Coisas da terra.

As águas da Baía de Todos-os-Santos são mornas, sinuosas

e têm escamas que prateiam seu azul-esverdeado

único, profundamente belo!

Odoiá, rainha dos mares!

No escuro das águas do Dique, do Abaeté,

a princesa faceira dos fios dourados

pede agrados e enfeitiça os homens.

Ora Iêiê ô!

No tacho de azeite dourado,

as ‘bolas de fogo’ recendem a prazeres em chamas.

Senhora dos ventos e dos raios!

Êpa Hei!

Ah, cidade amada da Bahia!

Do branco, azul, dourado e encarnado.

Diante de tanta grandeza,

de tamanho mistério e tamanha beleza

seu filho chora e ora…

Feliz, prostrado.

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(zédejesusbarreto) .

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Texto:

zédejesusbarrêto – jornalista, escrevinhador, filho da Cidade da Bahia.

Mar/2010 (aniversário – 461 anos de Salvador)

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CRÔNICA DE CID TEIXEIRA

30/06/2009

O antropólogo Roberto Albergaria enviou mais uma colaboração, desta vez uma crônica do historiador Cid Teixeira, precedida do seguinte recado, irreverente como sempre:

Seu hômi,

Tô mandando aí um texto gostosinho pro seu jeitosinho blogue Jeito Baiano, uma crônica do velho Cid Teixeira (publicada no finado Jornal da Bahia), uma pérola rara do meu querido Mestre que serviu de inspiração para o Dicionário de Baianês de Lariú. Aliás, este seu criado se considera um afilhado intelectual dele. Pois o bigodudo professor de Cultura Baiana foi quem mais me influenciou no curso de História que fiz no TICO-TICO-NO-UFUBÁ (UFBa), no século passado.

Certamente, o “baianês” que ele cita já está meio datado – pois a crônica é dos anos 70 do século passado. Mas o texto do “homi” ainda vale, talvez como um documento já histórico. E valeria mais ainda como uma homenagem ao hoje bem velhinho & doentinho Mestre Cid.

Abração,

Alberguinha

 

Professor Cid Teixeira em ação. Foto: Carlos Casaes | Agência A Tarde | 22.11.2003

Professor Cid Teixeira em ação. Foto: Carlos Casaes | Agência A Tarde | 22.11.2003

EXERCÍCIO EM BAIANÊS – OPUS I

  

por Cid Teixeira

 

Nestes tempos computadorizados da comunicação de massa, em que a escolha de um simples vocábulo na redação de um texto de publicidade é objeto de complicados e eruditos estudos de “marketing”, nestes tempos em que as pessoas, inconscientemente, já conduzidas pelo “merchandising”, se esmeram em falar como o artista da novela da moda, ou com a inflexão do noticiarista mais ouvido na televisão, não vai mal que se lembre que aqui na Bahia já tivemos uma língua própria, um falar específico.

Não falo do “sotaque baiano” tão específico e tão peculiar que, também, vai se perdendo na aldeia global. Falo de palavras. De significações, de sobrevivências arcaicas, de assimilações de estrangeirices, de locuções com significado específico, só inteligível por gente local. Sobretudo da capital e do Recôncavo.

Era o tempo em que as pessoas se moravam junto umas das outras, não era no aptº 204, ou no aptº 702, eventualmente se encontrando no “play-ground”. Simplesmente moravam AO PÉ, e se eram realmente amigas, SE DAVAM MUITO LÁ EM CASA. Com discrição. COM MUITO MODO, até porque uma pessoa de respeito NÃO ERA DE FICAR PRA BAIXO E PRA CIMA CHEIA DE QUI QUI QUI CÁ CÁ CÁ. Claro que se havia alguma novidade, não faltava quem FICASSE NUMA LIDA, PRA DENTRO E PRA FORA PARA SABER DO QUE SE PASSOU. Os mais espertos, SABIDOS COMO ELES SÓ permaneciam BEM DO SEU, embora não deixassem de estar COM A PULGA ATRÁS DA ORELHA, esperando que alguém lhe contasse tudo TIM TIM POR TIM TIM.

O assunto podia ser qualquer: o TANGOLOMANGO DE ALGUM NOIVADO (também… com um BANGALAFUMENGA DAQUELES…), o agravamento da saúde de alguém que não se livrava daquela MACACOA que acaba virando DOENÇA INCRUADA. Ou podia ser que alguma vizinha já tivesse SE DESCANSADO e estivesse COMENDO GALINHA. Neste caso não era preciso esperar muito. Logo se ficaria SABENDO AO CERTO, quando um portador viesse avisar que havia MAIS UM CRIADINHO ÀS ORDENS. E os mais DESENSOFRIDOS logo perguntavam: QUAL É A SUA GRAÇA? Não era, entretanto de bom tom, embora precedido da desculpa: AINDA QUE MAL PERGUNTE. Isto era coisa de gente DESASSUNTADA, porque os outros se davam por cientes e FICAVAM QUIETOS QUE NEM TOUCINHO NO SAL.

Ninguém falava em traumas de infância, bloqueios mentais e outras psicologias. O que muita gente tinha era mesmo CALUNDU propriamente dito. Ou, então, AMANHECIA NOS AZEITES ao ponto de fazer os moderados TREMEREM AS CARNES, embora se esforçassem para não serem NEM SAL NEM PIMENTA, deixando pra lá as APERRIAÇÕES dos CHEIOS DE INHACA. Quem estivesse VENDENDO AZEITE ÀS CANADAS que SE FICASSE PRA LÁ.

Uns meninos ou umas meninas mais SEM MODOS PEGAVAM DESENCLAMADOS a alguém e faziam uma MALINAGEM qualquer. A vítima era aconselhada a TOMAR TENÊNCIA enquanto o autor ou autores, NEM COMO COISA, ficavam na verdade esperando a REBORDOSA que viria na certa. Se o castigo era oral, podiam contar que iam ficar MAIS RASOS DO QUE O CHÃO até porque não se deve XUETAR (ou CHUETAR?) de ninguém. É MELHOR PROCURAR O QUE FAZER. Mas havia sempre uns da PÁ VIRADA que passavam o tempo todo COMENDO DA BANDA PODRE: vivendo DE CANTO CHORADO. Embora muito pai e muita mãe ou não desse ouvido ao que lhe chegava dito pelos ONZE LETRAS ou, no fundo, não passassem de uns FREI TOMAZ QUE NEM TUDO QUE PROMETE FAZ.

Às vezes, uma surpresa. Alguém que VIVIA COM UMA MÃO ADIANTE OUTRA ATRÁS, de repente, APARECIA NO TRINQUE. E que, diziam logo as más línguas, tinha APROVEITADO ENQUANTO BRAZ ERA TESOUREIRO. Mas, logo acrescentavam os maus falantes: UM DIA VAI DAR COM OS BURROS N’ÁGUA. Isto faziam os maus falantes. Aqueles que OUVIRAM CANTAR O GALO MAS NÃO SABIAM ONDE.

Em vez de se METEREM NAS ENCOLHAS, como manda o bom senso desde O TEMPO EM QUE BERTA FIAVA e NÃO SE DAR POR ACHADO.

Éramos assim, falávamos assim. Mesmo quando BISPÁVAMOS alguma coisa de fora, conservávamos a nossa individualidade.

Claro que não é da nossa competência, nem do nosso propósito estudar linguística tendo mais quanto esta ciência tem entre nós o trabalho realmente universitário de quem já se ocupou com o “Atlas prévio dos falares baianos”.

Apenas estamos REZINGANGO. Apenas lembrando (com alguma tristeza) o quanto vamos, a cada dia, perdendo em identidade própria. E, por mais verdadeiras que sejam as teses da “aldeia global”, de MacLuhan, a verdade é que a nossa rendição cultural tem sido a preço muito baixo. E, dizendo isto não estou DESCOBRINDO O MEL DE PAU, pois não sou nenhum MITRADO QUE ENTENDA DO RISCADO. Mas é força reconhecer que populações muito mais atingidas em seus valores (e o exemplo da Suíça é clássico), longe de perdê-los, cada vez mais os afirmam.

USEIRO E VEZEIRO na referência ao passado desta terra, é com espanto que vejo desaparecer a sua fala própria. Que outros NÃO ESTEJAM PELOS AUTOS. Comigo, porém, FIA MAIS FINO. Espero, aliás, que este exercício comova alguns que queiram contribuir para o seu prosseguimento. Mandada que seja a contribuição não teremos qualquer dúvida em publicá-la. Isto é o que vos promete, aqui, ESTE SEU CRIADO MATIAS.