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CAPOEIRA: LIVRO SOBRE MESTRE PASTINHA

14/12/2009

Capa do livro que traça o perfil de Mestre Pastinha, escrito por Otto Freitas e José de Jesus Barreto

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Novos perfis de 

Gente da Bahia 

  

O capoerista angoleiro Mestre Pastinha, o mestre das artes plásticas Juarez Paraíso, o abade beneditino Dom Timóteo, o deputado do divórcio Nelson Carneiro e o estudioso do afrobaiano Édison Carneiro: esse é o elenco de personalidades perfilados no novo pacote editorial da Coleção Gente da Bahia bancada pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALB), com lançamento marcado para essa terça-feira, dia 15 de dezembro, a partir das 16h30 no saguão Deputado Nestor Duarte, da ALB. 

O Mestre Pastinha, sem dúvida o menos ilustrado dessa turma, deixou uma herança angoleira que se espalhou pelos cinco continentes e também ensinamentos de um sábio mulato nascido e criado nas ruas e becos do centro histórico de Salvador. Sua academia de Capoeira Angola foi uma referência no Pelourinho: 

Tudo o que penso da capoeira, um dia escrevi naquele quadro que está na porta da academia. Em cima só essas três palavras: Angola, Capoeira, Mãe. E embaixo, o pensamento: Mandinga de escravo em ânsia de liberdade; seu princípio não tem método; seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista. 

Os jornalistas Otto Freitas e José de Jesus Barreto traçaram o perfil do filósofo popular e mestre maior da capoeira angola da Bahia, Vicente Ferreira Pastinha. 

O perfil do professor Juarez Paraíso, um ícone de inquietação e modernidade durante décadas no âmbito das Belas Artes baianas é de autoria do jornalista e escritor Claudius Portugal; Fabiano Viana Oliveira escreveu sobre o abade Dom Timóteo Amoroso Anastácio, figura corajosa, serena e marcante que dirigiu o mosteiro de São Bento de Salvador durante os anos mais duros da ditadura militar. O mesmo autor escreve o perfil do político Nelson Carneiro.  

Em parceria com Luis Alberto Couceiro, o jornalista Biaggio Talento assina o perfil de Édison Carneiro, uma indispensável referência para os estudiosos das raízes africanas que forjaram a identidade baiana. 

Dessa turma de personalidades – a grande maioria nascida e alguns adotados pela Mãe Preta Bahia –, todas marcantes dentro do mundo cultural baiano destas seis/sete últimas décadas, apenas Juarez Paraíso continua em plena atividade, pintando, criando, dando aulas, orientando gerações. 

Ler esses perfis é mergulhar na compreensão da história dessa terra tão singular, sobretudo pela mistura de tantos signos culturais. Esses eleitos foram/são protagonistas, cada um no seu fazer, do cabedal baiano que tanto nos orgulha e diferencia.  

OUTROS 

A Coleção Gente da Bahia foi lançada em 2008, com os livros: Carybé – Um capeta cheio de arte, de José de Jesus Barreto e Otto Freitas; Gordurinha – Baiano burro nasce morto, de Roberto Torres; Riachão – O cronista do samba baiano, de Janaína Wanderley da Silva; Guido Guerra – O papagaio devasso na casa dos sem jeito, de Luiza Torres; e Mulher de Roxo – A dona da rua Chile, de Patrícia Sá Moura.  

Já estão previstos os próximos lançamentos, para 2010: Calazans Neto – O gravador de Itapuã, Lindembergue Cardoso – Réquiem para o sol, Walter Spinelli – O alfaiate que Adão não conheceu, Carlos Lacerda – Um piano da Bahia e Milton Santos – Reflexões póstumas de um livre pensador.  

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(zédejesusbarrreto – 15dez/2009.) 

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CARYBÉ, VERGER E CAYMMI – MAR DA BAHIA

28/11/2009

A Fundação Pierre Verger, a PricewaterhouseCoopers (PwC) e a Solisluna Design Editora vão lançar, em Salvador, o segundo livro da trilogia Entre Amigos, Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, no dia 2 de dezembro, às 19h, no Palacete das Artes, em Salvador (BA). O livro celebra a arte e, sobretudo, a grande amizade entre esses personagens e criadores do século XX que escolheram a Bahia e o jeito de viver de sua gente como motivo e cenário para suas obras.

O mar da Bahia foi o grande inspirador, quiçá uma fonte de encantamento determinante para as artes, odes de amor à terra e ao povo baiano dessas três personalidades de origens distintas, mas com olhares e percepções convergentes: o fotógrafo e pesquisador francês Pierre Verger; o argentino-baiano pintor de múltiplos fazeres Carybé e o músico baiano, também pintor nas horas vagas, Dorival Caymmi.

É um orgulho e uma honra apresentar esse trabalho sobre os três baianos fundamentais que desenharam, fotografaram e cantaram a Bahia de uma forma indelével – afirma Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger.

Em Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, o leitor irá perceber o colorido das fotos em preto e branco da velha rolleiflex do gênio Verger, bem como toda a riqueza dos traços singulares de Carybé, prenhes de movimento e poesia que retratam o cotidiano da época em que as velas dos saveiros enfeitavam o azul das águas da Baía de Todos os Santos e ainda se presenciava a pesca do xaréu nas praias do litoral norte da histórica Salvador. Tudo isso embalado pelas magníficas canções praieiras de Caymmi, poesia pura na sua voz grave e num violão com sonoridade de ondas na praia.

Não é um livro de arte, e sim da amizade entre três artistas – define bem o editor Enéas Guerra, idealizador da publicação da série Entre Amigos e responsável pela concepção, edição e design do livro.

Do ponto de vista editorial, o texto indica os caminhos que levarão o leitor ao encontro dos três personagens e suas criações em torno da magia do mar.

A ideia do escrito é incitar o leitor a vivenciar como foi a intensa relação entre eles e relatar, de forma leve e bem humorada, os encontros, as curiosidades e os olhares convergentes destes símbolos da baianidade – conta o jornalista José de Jesus Barreto[*], autor do texto que é fundamentado em pesquisas do acervo da Fundação Pierre Verger, da família Carybé, entrevistas e depoimentos.

Capa do livro “Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia”

O diálogo das imagens captadas pela rolleiflex de Verger e pelos traços de Carybé, produzidos entre os anos 40 e 60 do século passado, está cerzido pelos poemas de Caymmi.

O pescador cantado por Caymmi é o mesmo fotografado por Verger, desenhado por Carybé. Os saveiros que chegam e saem do cais e rasgam as águas da baía, as festas para Iemanjá, o Bom Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição da Praia servem de inspiração para as canções-poemas, as pinturas e as fotos dos artistas – conteúdo desse trabalho.

O mar é o caminho, elo, destino e musa. O livro pretende ser uma celebração de amizade e da criação deles diante dos mistérios do reino de Iemanjá.

Como o primeiro volume Carybé & Verger – Gente da Bahia, lançado em 2008, o volume dois Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia é um projeto editorial da Solisluna Design Editora e Fundação Pierre Verger, que contou, desta vez, com o apoio da PricewaterhouseCoopers. A concepção, edição e design ficaram a cargo de Enéas Guerra e Valéria Pergentino. A redação do texto é de José de Jesus Barreto.

A apresentação musical de Marilda Santana cantando canções compostas por Dorival Caymmi vai embalar o lançamento do segundo volume. O evento terá a presença ilustre da esposa de Carybé, Nancy Bernabó, e seus filhos Solange e Ramiro, além do sócio-presidente da PwC, Fernando Alves, e do presidente da Fundação Pierre Verger, Gilberto Sá.

O livro estará à venda em todas as livrarias do Brasil por R$ 90, porém no dia do lançamento sairá pelo preço promocional de R$ 70.

No dia 9 de dezembro, será a vez de São Paulo lançar a obra, na Livraria da Vila, no Shopping Cidade Jardim, às 19h30. O terceiro livro desta Trilogia já está confirmado para o ano que vem e terá como tema o Candomblé.

A Baía de Todos os Santos desenhada por Carybé e fotografada por Verger, nas páginas 30 e 31 do livro que será lançado em Salvador nesta quarta-feira 2 de dezembro e em São Paulo uma semana depois, no dia 9

O encontro

Salvador é uma cidade-porto, eterno cais. Tanto geográfica quanto historicamente, esta Cidade da Bahia é filha do mar, nele foi gerada. Construída e fundada sobre uma nesga de terra que adentra o oceano, no abrigo das águas mornas da Baía de Todos os Santos, a cidade tem suas portas abertas para o Atlântico.

Nessa terra, o mar é começo de tudo, caminho sem fim, poço de fartura, infinito azul de mistérios, tormentas, magia e beleza. O povo desse pedaço de mundo foi gerado e forjado, por séculos, na quentura, no aconchego e rebuliço de suas águas.

Na década de 30 do século XX, o jovem mulato Caymmi pegou um Ita no porto de Salvador e foi parar no Rio de Janeiro, a capital cultural e política do país, no intuito e sonho de cantar o mar, as coisas de sua terra e o jeito de sua gente. Carybé conheceu Caymmi no final dos anos de 1930, no Rio. Verger conheceu Carybé em 1946, também no Rio. O interesse comum pelas coisas da Bahia e o amor ao belo os uniram.

Em Salvador, no final de 1946, o fotógrafo Verger e o músico Caymmi se encontraram diante da luz e do intenso azul do mar. Os três, amigos, irmãos baianos confirmados no Ilê Axé Opô Afonjá, o terreiro keto-nagô de São Gonçalo do Retiro, reino de Xangô, acolhidos por Mãe Senhora, e depois por Mãe Stella de Oxóssi.


*NOTA DO EDITOR – O autor do texto dos dois primeiros livros da série Entre Amigos é o nosso zédejesusbarrêto, conselheiro editorial e colaborador do blog Jeito Baiano.


MENSAGEM AO AMIGO CARYBÉ

02/06/2009

Monumento à Cidade da Bahia, por Mário Cravo Jr

Monumento à Cidade da Bahia, por Mário Cravo Jr - Foto: Fernando Vivas / Agência A Tarde

No ontem hoje amanhã eterno

MÁRIO CRAVO JR

Cobrimo-nos com o pó das estradas e com a lama entranhada nos poros a arrecadar ex-votos, esculturas vivas dos sertões, juntos, irmão Caryba, enchemos os corações com o mistério do sol escaldante da infindável caatinga.

Vimos, amigo, a mensagem nos olhos baços do cego andarilho aos pés de Monte Santo. Do Conselheiro Cruz em Canudos,

Antonio Conselheiro, escultura de Mário Cravo Jr, MAM-BA

Antonio Conselheiro, escultura de Mário Cravo Jr, MAM-BA - Foto: Fernando Vivas / Agência A Tarde

rolamos por vezes até as catadupas de Paulo Afonso inda virgem na poderosa magnificência de suas quedas.

Viste, Carybé, na procura do cerne de nosso caboclo, as barrentas águas do São Francisco, e nas carrancas estáticas namoramos o cântico que o homem dedica ao rio.

Cortamos os canaviais de Pernambuco e raspamos por miríades de capelinhas quietas e adormecidas… Sergipe, Alagoas, Piauí, Pernambuco e Bahia.

Os santos povoam a trajetória do homem na sua procura.

Percebo, parceiro velho, sua presença inconfundível no meio dos capoeiristas, nas deferências aos Pais e Mães-de-Santo dos terreiros da Bahia; assim estás, como poucos, nas águas de Janaína e por dentro das palhas do velho Omolu.

Trouxeste, amigo Carybé, o sangue de homem e nos servistes em taça feita de folha de fruta-pão. No cântico de amor e vida, praticas, colega dos colegas, oblação de Oxalá na Ribeira que viu nascer e que em noites de lua cheia oferece véus de espuma à praia noiva, e deixou em tua alma, irmão, o sinal negro do Abaeté, por isto, desenhas poemas.

Morre Bugalho, crucificado em berimbau, enquanto Onça Preta salta numa perna só, qual saci redivivo, herói da liberdade.

Todas as imagens vêm a mim, quando com palavras tento situar o que não tem tempo e que já existia antes e depois de nós.

Ao despontar brancos e risonhos cabelos sobre os sucos acentuados que marcam anos de paixão colhemos frutos sazonados, maduros, a marcarem a compreensão dos homens; nossos amigos e irmãos são agradáveis, a aragem é benfazeja, mesmo fosse ela gerada por lágrimas e noites insones.

Na terra, na madeira, na água, no sal, na noite, no sol e nos homens estás, Carybé, como homem inseparável desta Cidade de Salvador, para agora e sempre.

Mário Cravo Jr - Foto: Elói Corrêa/ Ag. A Tarde, em 5.2.2007

Mário Cravo Jr - Foto: Elói Corrêa/ Ag. A Tarde

(Texto escrito pelo artista plástico/escultor baiano Mário Cravo e lido pelo artista no seminário ‘Encontro com Carybé’ realizado no MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, em 22 de maio de 2009, evento paralelo à exposição em comemoração aos 70 anos da chegada primeira de Carybé à Bahia. Participaram do seminário, além de Mário Cravo, Dona Nancy Bernabó – mulher do argentino/baiano, Ramiro e Solange – filhos, Dr. Gilberto Sá – presidente da Fundação Pierre Verger, a escritora Myriam Fraga – diretora da Fundação Casa de Jorge Amado e o jornalista/escritor José de Jesus Barreto)

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A CHAVE

Para abrir as Sete Portas da Bahia

Largo do PelourinhoTexto de CARYBÉ

A Bahia não é uma cidade de contrastes. Não é não. Quem pensa assim está enganado.

Tudo aqui se interpenetra, se funde, se disfarça e volta à tona sob os aspectos mais diversos, sendo duas ou mais coisas ao mesmo tempo, tendo outro significado, outra roupa, até outra cara.

Me explico?

Quero dizer que aquela ruma de São Jorge que Alfredo Simões, o santeiro, esculpe e encarna é São Jorge mas ao mesmo tempo é Oxóssi; um era capadócio, o outro das terras de Ijebu Ode, cada qual andou sua distância e aqui na Bahia, ou Roma Negra, ou Cidade do Salvador, ou simplesmente Salvador, se irmanaram, viraram carne e unha e ali estão, em cores fulgurantes na prateleira do Simões, ou em forma de arco e flecha de ferro na barraca do Camafeu, no Mercado.Carybé - Junto à Rampa do Mercado

Quando chegam reis à Bahia, ou presidentes ou personalidades mundiais, é de praxe oferecer-lhes um almoço em palácio. Aí o rei come caruru e caruru é amalá, comida de Xangô, come acarajé que é de Iansã, come pipocas que são de Omolu e assim o rei faz um almoço litúrgico conversando de política ou do grande prêmio de Long-Champs.

De contrastes seria se fosse uma cidade com coisas que uma nada tem a ver com a outra, mas aqui tudo tem a ver. Tudo está alinhavado, tudo surge de seu bojo mágico com grossas raízes, profundas raízes que se alimentam de rezas, ladainhas, orikis, alujás, farofas de azeite o ano todo, bacalhau na semana-santa, trêmula luz de velas nos altares e água fresca nas quartinhas dos pejis. Tudo misturado.

Tudo misturado: gente, coisas, costumes, pensares. Vindos de longe ou sendo daqui, tudo misturado. O político consulta Ifá e faz promessa ao Senhor do Bomfim para ser eleito; o doente entra na sala de operações ao mesmo tempo em que se faz Ebó para que o cirurgião corte o mal com precisão absoluta.

Além da terra onde um dia descansaremos, há duas coisas: o preto e o branco. Havia.

A loura de biquíni tem uma estrutura de ombros formidável, genuinamente sudanesa. A vendedora de mingau, escura como a noite, tem um holandês nos olhos. Tudo misturado.

A Bahia, cidade gorda, farta de cacau e fumo, está debruçada sobre o mar, fingindo não saber de nada, tomando a fresca, vendo a lua se escamando na maré de enchente, vendo a descaração na Ladeira da Misericórdia, vendo os saveiros serenos.

Se fosse outra noite, se fosse uma noite de trovoada, por uma boca tiraria ladainhas a Santa Bárbara e pela outra cantaria para Iansã, bonita como o quê, enfrentando coriscos com seu alfanje de ouro. Dançando ao som dos pipocos, porque ela não tem medo de relâmpagos nem de Eguns do outro mundo. Dança levando na cabeça o fogo que roubou a Xangô enquanto a chuva derrete o barro vermelho que vira sangue vale abaixo até tingir o começo do mar.

Verdes e doces vales da Bahia. Divisores das colinas coroadas de conventos, de sobrados multicores, de mosteiros e fortes, e enlouquecidas de torres sonoras de sinos, que cantam aleluia ou reboam soturnos toques de finados. Reboam também os couros de bode dos atabaques chamando deuses africanos. Oxum para as coisas do amor, Omolu para as doenças ou Oxalá em sua infinita pureza, e, como eu estava dizendo, Oxalá é o Senhor do Bomfim. Outras colinas mais novas dão onde morar aos pobres, são colinas franciscanas que dão tudo o que é seu, chão para sustentar pequenas casas agrupadas e alegres como colegiais, mangueiras, jaqueiras e tamarindeiros imensos para que os garotos façam um pouco de cultura física e se alimentem, bananeiras e as tetas douradas dos mamoeiros para menino pequeno e velha sem dente. Dão sua carne, seu barro, para fazer as paredes de sopapo, manacás e jasmineiros para perfumar a noite.

De tardinha os fifós vão abrindo quadros familiares na escurama. Modestos jantares servidos, ampliações de retratos de casamento, máquinas de coser e gente, muita gente fazendo coisas, representando a vida nos pequenos teatros das janelas e portas iluminadas.

Uma densa sombra engoliu o verde das bananeiras, as jaqueiras, os coqueiros, o povo. Só ternos brancos e vestidos mal-assombrados sobem e descem as ladeiras como se não tivessem ninguém por dentro ou passam cachorros silenciosos como que voando na noite. E os jasmineiros aromando.

Carybé - Festa do BonfimDetrás do samba fanhoso do alto-falante do armazém, palpita o som gordo dos atabaques. Exu recebe oferendas, canta-se o padê. Ao mesmo tempo sobem aos céus os cânticos dos Filhos de Jeová tentando salvar o mundo. Dona Frutuosa Ferreira de Aragão acende as lamparinas à santa de sua devoção, a Senhora Sant’Anna, que ao mesmo tempo é Nanã Burucu, pelo menos para Lindaura, a cozinheira, que salva dizendo: ‘Saluba!’

O Manacá aromando, misturado com perfume de namorada.

Há muita confusão aqui, Senhor! Os sinos badalam nas torres cor de osso, São Lázaro come pipocas, há anjos de madeira com asas de arara e Oxês escuros empapados de azeite. Incenso, mirra, ouro e munguzá; ouro nas farofas e nas enlouquecidas naves barrocas, mirra e incenso não faltam, estão no ar transparente, nas brisas que vêm de tão longe, no aromado passar de uma crioula.

Carybé - Largo de Santana, Rio Vermelho

(A Chave, texto do primeiro capítulo, abertura do livro As Sete Portas da Bahia: textos e desenhos de Carybé, prefácio de Jorge Amado, 4ª edição, Editora Record, Rio de Janeiro, ano de 1976)

GENTE DA BAHIA – CARYBÉ

19/05/2009
"Mulata Grande" - obra exposta no MAM de Salvador em homenagem aos 70 anos da chegada de Carybé à Bahia

"Mulata Grande", 1980, óleo sobre tela de 61 x 45 cm - obra exposta no MAM de Salvador em homenagem aos 70 anos da chegada de Carybé à Bahia

70 ANOS DA CHEGADA À BAHIA

O artista enfeitiçado
pela luz e pela gente baiana

ZÉDEJESUSBARRETO*

Há 70 anos, num longínquo agosto do ano de 1938, aportou na cidade do São Salvador da Bahia um jovem artista das formas, dos traços e das letras chamado Hector Júlio Páride de Bernabó, ou simplesmente Carybé. Argentino de nascimento, italiano de herança, brasileiro de criação e baiano por escolha de vida.

À época era um moço jornalista de um diário recém inaugurado em Buenos Aires chamado ‘El Pregón’. Tinha a missão de ir desbravando a costa atlântica de sul a norte, a bordo de precários navios cargueiros de cabotagem, e, de cada parada, mandar via correio para a redação suas impressões, escritas e desenhadas, dos lugares e das gentes vistos e contactadas.

A Bahia para ele era um sonho, uma meta, desde que lera o romance Jubiabá, de Jorge Amado, lançado na primeira metade dos anos 30. Perguntava-se sempre, intrigado, se aquela gente e aqueles lugares descritos pelo romancista realmente existiam. Queria ver para crer.

Mais tarde, quando aqui chegou para viver como baiano, em 1950, Carybé escreveu sobre aquele definitivo agosto de 1938, assim:

“O gosto da Bahia, como um vinho, vinha-se sazonando dentro de mim há doze anos, desde o primeiro encontro em 1938, numa clara manhã de agosto, dia mágico em que, de um risco verde no horizonte, a Bahia surgiu no mar.
A cidade veio vindo ao meu encontro, cada vez mais luminosa, cada vez mais definida, veio vindo, veio vindo, até que atracou toda no Itanagé.
Nesse ano, fui definitivamente tarrafeado por sua luz, sua gente, seu mar e sua terra”
(Carybé)

Itanagé era o nome do navio.

Por sorte, destino ou feitiço dos deuses, orixás, caboclos e encantados que habitam a misteriosa Baía de Todos-os-Santos, a passagem pela Bahia alongou-se por seis meses.

Sem grana no bolso, logo ficou sabendo que o ‘El Pregón’ fechara as portas, falido. Para sobreviver, foi necessário descobrir o que era aquela Bahia. Trabalhou no cais, trocou prosa com os mestres de saveiros, aprendeu a tocar berimbau e a jogar capoeira com a malandragem, dormiu em armazéns das docas, frequentou os bregas do Taboão e do Maciel, disputou merenda nos tabuleiros de rua, filou muito cafezinho conversando com as putas, encantou-se com o ritmo, os costumes e as cerimônias dos terreiros de candomblé, misturou-se ao povo mais simples, pongou em bondes, conheceu as sete portas da cidade, bebeu muita cachaça de raiz com a negrada, xamegou mulheres, abaianou-se de vez e desenhou tudo o que viu.

Jamais seria o mesmo depois daquela experiência.

A luz, o traçado, o movimento, os fazeres e, sobretudo, a herança africana daquela gente da Bahia mudaram o destino de sua vida. Descobriu que ali era o lugar para se viver de arte, desenhando, pintando… com alegria. Não queria mais ser jornalista. Gostaria de retratar aquele povo, misturar-se nele.

E assim foi. Com os desenhos ‘baianos’ fez exposições, ganhou prêmios, dinheiro e caiu no mundo a percorrer toda a América do Sul, dos Andes à Amazônia, passando pelo São Francisco e a caatinga do nordeste brasileiro.

Estreitou os laços com o Brasil e a Bahia, em particular, nos 10 anos seguintes.

"Bahia", 1971, óleo sobre tela de 46 x 55 cm - obra exposta no MAM de Salvador

"Bahia", 1971, óleo sobre tela de 46 x 55 cm - obra atualmente exposta no MAM de Salvador

Quando aqui chegou em definitivo, para trabalhar para o governo da Bahia contratado pelo secretário de Educação e Cultura Anísio Teixeira, já era um pintor consagrado e conhecido nos meios artísticos do continente.

Mas foi na Bahia, a partir dos anos 50, que ele renasceu, floriu.

Jorge Amado escreveu:
…’Carybé plantou raízes tão fundas na terra baiana como nenhum outro cidadão aqui nascido e amamentado. Bebeu avidamente essa verdade e esse mistério, fez da Bahia carne de sua carne, sangue de seu sangue, porque a recriou a cada dia com maior conhecimento e amor incomparável’.

Carybé participou – ao lado de Jorge Amado, Mário Cravo, Carlos Bastos, Jenner Augusto, Floriano Teixeira e outros tantos artistas do traço, da goiva, do pincel, das mãos, das letras, da música, das artes cênicas, interagindo com eles – de um período de renascença das artes e da cultura baianas: as décadas de 50 e 60. Foi um ator, autor, um motivador, um transformador.

Salvador, nesse tempo, transbordava novas idéias. A Universidade recém-criada abrigava talentos e mestres vindos de vários pontos do planeta, atraídos pela musicalidade, pela dança, pela religiosidade, pelo fazer cultural e o modo de viver do povo. A capoeira deixava os guetos transformando-se numa manifestação de arte. Os candomblés passaram a ser motivo de estudo antropológico e as grandes senhoras da sabedoria dos terreiros baianos começaram a ser respeitadas e ouvidas.

A festividade, a mistura de raças, credos e cores de nossa gente faziam da Bahia, enfim, um lugar diferente, afirmativo da diversidade humana.

Essa Salvador do início dos anos 50 possuía bondes elétricos em trilhos e menos de 500 mil habitantes; os saveiros com seus panos brancos estendidos em altos mastros cortavam as águas azuis da baía, abarrotados de mercadorias ligando a capital aos recantos do Recôncavo; os trens saíam de 15 em 15 minutos da estação da Calçada com destino ao interior e a outros estados vizinhos; os pescadores ainda cantavam puxando a rede do xaréu nas praias; os vales eram mata virgem e os bairros cheios de árvores frutíferas; a grande feira de Água de Meninos, o principal centro de abastecimento da cidade e o Pelourinho era o umbigo da noite com suas prostitutas, boêmios e histórias de encantamento sem fim.

Essa era a Bahia de então. A mesma já cantada por Caymmi, descrita por Jorge Amado, reportada por Odorico Tavares, fotografada por Pierre Verger e desenhada, pintada, esculpida, retratada por Carybé.

O artista Mirabeau Sampaio, contemporâneo, escreveu:
‘Nasci e me criei aqui em Salvador e posso lhe afirmar: na Bahia não existia um negro, era coisa que ninguém tinha visto aqui, até a chegada de Carybé’

Exagero? Então leiam um trecho de um artigo do jornalista e contista Rubem Braga, escrito na década de 50:
‘Carybé não se inspira na Bahia: Parece que é a Bahia que se inspira em Carybé. De repente, a gente vê um negro de camiseta branca ou uma baiana de saia rodada, ou um sobradinho de telhado escuro ‘pintando’ os desenhos de Carybé’

A obra de artistas como Jorge Amado, Caymmi, Mário Cravo, Verger e Carybé extrapola suas artes. Seus legados são, de fato, uma contribuição histórica, um registro antropológico de um tempo, de uma época única, de um povo e de uma cultura diferenciados.

Pode-se até dizer que essa tal ‘baianidade’, esse jeito de viver e ver o mundo não mais existe, que essa Bahia já não mais existe. Claro, a vida é um pulsar constante e tudo se transforma, perenemente. Mas o encantamento, a sofrência e a poesia desse tempo é história. E História não se apaga assim da memória de um povo.

Uma mostra dessa Bahia antiga e mágica, tão viva ainda nalguns recantos da cidade, como nos terreiros de santo, em tradições e festas como a Lavagem do Bonfim e a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira…

Carybé posa com uma de suas obras em foto de Carlos Santana / Agência A Tarde, 14/05/1997

Carybé posa com uma de suas obras em foto do repórter Carlos Santana / Agência A Tarde, 14/05/1997

Pois quem quiser conhecer um pouco, um capítulo da história desse povo de tantas misturas e magias, que vá, logo, ao MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, no Unhão, avenida Contorno, em Salvador. Lá estão expostos mais de 250 dos cerca de cinco mil trabalhos do genial pintor, desenhista, escultor, muralista, escritor, e arteiro baiano Carybé. O gradil da entrada/descida para o Unhão é arte dele. Aprecie.

A exposição é uma comemoração dos 70 anos de sua chegada à Bahia pela primeira vez, quando foi definitivamente tarrafeado pela luminosidade desta terra abençoada.
Não carece de pressa diante da delicadeza e parcimônia dos traços, da luz, o vazio, as formas, as cores, a grandeza da arte do mestre de riso largo, olhar sedutor, camisa de botões aberta, chinelos e alma de criança. Um dos maiores artistas do século XX.

A bênção Obá Onã Xocum, servo de Xangô.
A bênção Iji Apogã, de Omolu
A bênção filho de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá
A bênção Carybé!

(Carybé nasceu em Lanus, subúrbio de Buenos Aires, em 7 de fevereiro de 1911, mas só foi registrado no dia 9. Morreu em 1º de outubro de 1977, no terreiro do Opô Afonjá, em Salvador)

FotoBarreto*zedejesusBarreto, jornalista, é baiano de Salvador. Escreveu e editou os textos do livro Carybé e Verger – Gente da Bahia, selo Entre Amigos da Fundação Pierre Verger, editado pela Solisluna Design Editora. É também autor, com o jornalista Otto Freitas, do livro/perfil Carybé, Um capeta cheio de arte, da coleção Gente da Bahia, editado pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia.

MOQUEQUINHAS

10/05/2009

Anuncio agora o que vem aí neste blog, as ideias e os posts em gestação.

GENTE DA BAHIA

Esse é o título de uma nova seção, que já tem texto pronto, de ZédejesusBarrêto, sobre o argentino Carybé, um baiano autêntico.  ZédejesusBarrêto certamente tem muito a contribuir para esta seção. Ele poderá escrever de maneira caracteristicamente apaixonada também sobre outro imigrante ilustre, o franco-baiano Pierre Verger.

 

 

CARYBÉ

Como prévia do tema, sugiro a leitura do texto sobre Carybé escrito por Matilde Matos, crítica de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte, publicado na Revista Afro-Ásia nº 29-30 (2003), do Centro de Estudos Afro-Orientais  (CEAO-UFBA – instituição fundamental como consulta para os objetivos deste blog), sob o título  “A BAHIA VISTA POR CARYBÉ (1911-1997)”

disponível no endereço:

http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n29_30_p389.pdf

 

NOVOS  COLABORADORES

Convidei algumas pessoas a colaborar com textos para o Jeito Baiano, como o jornalista e grande expert em comunicações Vander Prata, a escritora Cléo Martins (sotero-paulistana com ampla cultura religiosa e décadas de experiência na vida baiana), as repórteres Eduarda Uzeda (com vivência e conhecimento das artes cênicas da Bahia) e Mary Weinstein (jornalista combativa voltada para questões ambientais e urbanísticas da Cidade da Bahia), ambas do jornal A Tarde, de Salvador, e mais o comunicólogo Marlon Marcos, estudioso do trabalho de grandes cantoras como Maria Bethânia, além de blogger do Memórias do Mar (aqui indicado como site, veja lá no alto à direita).

Pois o novo colaborador Marlon Marcos já prepara dois textos para a seção Gente da Bahia, um sobre o sambista Batatinha e o outro dedicado a Mãe Valnizia de Aiyrá, a yalorixá do Terreiro do Cobre, no Engenho Velho da Federação, em Salvador, que ontem (9/5/09), no Solar do Ferrão, no Pelourinho, lançou sua autobiografia, “Resistência e fé – Fragmentos da vida de Valnizia de Aiyrá”  (edição independente de 500 exemplares).

 

MÃE VALNIZIA DE AIYRÁ

Sobre Mãe Val, pretendo também reproduzir aqui a matéria da minha amiga Cleidiana Ramos – colega de A Tarde e blogger do Mundo Afro (veja link na lista de sites no alto à direita) –, publicada neste sábado dia 9 no Caderno 2 desse jornal. Como prévia indico estes dois posts do Mundo Afro:

– A Bênção: Hora do livro de Mãe Valnizia (8/5/09)

– Boas notícias para o Terreiro do Cobre (6/5/09)

 

MANUEL QUERINO

A seção Gente da Bahia em breve fará referência a um expoente histórico e pioneiro da baianidade, Manuel Querino (1851-1923), negro de Santo Amaro da Purificação, escritor, artista plástico, político, professor, funcionário público. A referência será o livro lançado em 18 de março deste ano reunindo seus artigos na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

 

CIDADE DO SALVADOR

A Bahia não é uma só, são muitas. Embora seja arriscado relacioná-las pois sempre vão aparecer algumas delas – com o justo orgulho dos baianos de todas as regiões – queixando-se por não terem sido citadas. Mesmo assim ouso, como paulistano ainda aprendiz de baiano, fazer uma lista:

Existe a Bahia de Juazeiro e da região do Rio São Francisco. Existe a Bahia de Lençóis e da Chapada Diamantina. Existe a Bahia de Ilhéus e Itabuna  e a região Sul do estado. Existe a Bahia de Porto Seguro e Eunápolis  e o Extremo-Sul. Existe a Bahia de Paulo Afonso e o Semi-Árido. Existe a Bahia da Feira de Santana, a das portas do Sertão. Existe todo o Sertão baiano. Interessa muito a este blog retratar e estudar as manifestações do jeito baiano nessas e outras cidades e regiões.

Mas a Cidade da Bahia e o Recôncavo baiano têm mais destaque neste blog por ele ser gerado em Salvador, onde reside este blogueiro. Muito se pretende falar aqui de tudo o que envolve a Cidade da Bahia, sob os pontos de vista da história, das tradições, cultura e costumes, política, economia, e os problemas do cotidiano soteropolitano, as condições de vida, a falta de infraestrutura urbana, a defesa da cidadania, os planos de desenvolvimento local, a situação social, a violência, a miséria, o racismo, a homofobia e tanta outras questões essenciais e urgentes.

 

CIVILIDADE BAIANA

Um tema para muitas polêmicas:

Como incorparar na vida da Cidade da Bahia padrões europeus de civilidade sem que os baianos percam a sua ginga e a sua alegria?