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OPINIÕES SOBRE O CARNAVAL BAIANO

15/02/2010
Ilustração de CAU GOMEZ

Seguem artigos dedicados à festa momesca, especialmente a da Cidade da Bahia, que foram publicados nos últimos dias na página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador.

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ENSAIO SOBRE O TRIO ELÉTRICO

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texto de PAULO COSTA LIMA*

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Pára o carro Olegário!! Não tá vendo que tá andando de banda? Mas Seu Osmar, o carro já quebrou há muito tempo, é o povo que está empurrando!

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O ensaio, como tradição literária, é esforço interpretativo. Mas o que dizer do trio? Tanta espetacularidade requer justificativa? Gostaria de fazer coincidir forma e conteúdo: um breve discurso com três pontas e uma síntese.

A primeira ponta é o frevo. Há uma ligação de umbigo entre trio elétrico e frevo. Dodô e Osmar tiveram a idéia de colocar a tal fubica na rua em 1951. Poucos dias antes, passara por Salvador o Clube Carnavalesco Vassourinhas de Recife, em direção ao Rio.

O frevo traz marcas afro-brasileiras indeléveis. Não tem nada de africano na melodia ou na harmonia, poderia ser tocado até como minueto! Mas os ritmos!!!

As idéias rítmicas impingem aos compassos da Europa acentos e tensões que são tipicamente brasileiros. Imprescindível para o espetáculo. Imagine se funcionaria com valsa? E a malandragem?

Mas aí surge um fino detalhe. E essa é a segunda ponta do argumento.

O carnaval que predominava nas ruas de Salvador até então era o do corso e dos préstitos — o desfile das beldades de elite com fantasias e acenos do alto de carros especialmente preparados para a ocasião. Consta que até ópera italiana rolou no Carnaval. O povo ficava na Barroquinha e na Baixa dos Sapateiros em cordões e afoxés.

Portanto, a presença da fubica, tocando frevo, era uma subversão enorme. E o cerne da subversão era que o frevo colocava como centro das atenções o próprio povo dançando. O corpo que todos têm.

Quem já assistiu à passagem de um trio elétrico trazendo em torno de si todo o repertório humano de um bairro popular saberá do que estou falando. Encantamento total na junção entre música e dança.

O calor e a euforia são tão grandes que alguns tiram a camisa pra rodar por cima da cabeça. Tem casais abraçados, crianças montadas no pescoço dos pais, gente de meia idade, mulheres em grupos, vendedores ambulantes vendendo e dançando, disputa pra ver quem faz a melhor pirueta, e aquele empurrão no meio do bolo… (era assim)

Os ritmos oferecem situações de equilíbrio e desequilíbrio, convocam o gingado — ‘só não vai quem já morreu’.

Portanto, naquela virada de 1951, algo mudava na Bahia do governador Octávio Mangabeira, figura ímpar de nossa vida política. Um ‘momento histórico’ proporcionado pela bolha democrática entre o Estado Novo e a ditadura de 64?

No modelo que daí surge, o espaço público vai ficar mais público. E essa energia vai favorecer uma qualidade musical diferenciada, embalada pelo virtuosismo do frevo, e pela “livre” aventura de botar uma música na boca do povo. Caetano, Tuzé, Moraes, Armandinho… E ecos mais recentes em Brown, Gerônimo e Lelis.

A terceira ponta relembra Manoel José de Carvalho. Para ele, as dinâmicas de rua são construções sociais com enorme peso histórico. Salvador teve 300 anos anteriores de cortejo de rua — com procissões e festas de paróquia.

O aparecimento do trio acaba mobilizando essa memória grupal histórica pela topografia da cidade. O trio se encaixa na dinâmica ancestral construída em torno do andor das procissões. É como se tudo estivesse pronto aguardando sua chegada.

Nos anos seguintes vai ocorrer um processo espetacular (e muito original) de design para a festa, da carroceria de um caminhão até os nossos fulgurantes monstrengos de hoje — grandes palcos ambulantes.

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Síntese: Hoje estamos em outro planeta: cordas, cachês e abadás. E mais: camarotes e celebridades. Ganhou-se em gestão, profissionalização e expansão. Perdemos em participação, diversidade e qualidade musical.

As músicas que ganham a mídia não ficam mais no ouvido durante anos, estão congeladas em sua funcionalidade do perímetro das cordas (raras exceções).

Será que o impulso democrático dos últimos anos, essa bolha que esperamos definitiva, vai ter a força e o discernimento para fazer brotar um outro modelo, com novos (e velhos) valores musicais?

Mais do que questão, uma demanda: multiplicar os ganhos (socializando-os) e potencializar a qualidade/diversidade cultural.

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*Paulo Costa Lima – Compositor, pesquisador-CNPq, professor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Letras da Bahia

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NOVOS REIS, NOVO CARNAVAL

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texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

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No ano de 2008, meu amigo Clarindo Silva foi escolhido Rei Momo. A celeuma foi grande. Um rei momo magro, onde já se viu? Em 2009, o escolhido foi Gerônimo que, apesar de gordinho, nada tem do modelito Ferreirinha: indolente, beberrão e comilão.

Este ano, o novo rei é Pepeu Gomes, um elétrico guitarrista. Estas escolhas marcam a ruptura do carnaval baiano com Baco e suas bacanais. Os novos reis devem ser ativos, produtivos e performáticos.

Esta mudança corresponde às mudanças que, ano a ano, viraram o carnaval de ponta a cabeça. Os carnavais de minha infância eram realmente janelas de alegria e de descontração que se abriam em um quotidiano regulado por uma moralidade religiosa e por todos os freios do conservadorismo.

Imaginem que naquele tempo era impensável um homem ou menino usar roupas coloridas, camisa estampada ou qualquer peça cor de rosa. Certamente ele seria agredido nas ruas com adjetivos nada gentis: fresco, florzinha, Florípedes.

No carnaval valia tudo, tudo era fantasia, com máscara ou sem máscara. Valia até sair travestido de mulher, e mesmo de “nigrinha”.

A liberação dos costumes permitiu que, o ano inteiro, as meninas saíssem da janela e fossem a luta no entre-e-sai e no esfrega-esfrega.

Até na música o carnaval era a salvação. O ano todo ouvia-se Cauby cantando algum drama comovente, tal como “ Conceição” ou com “Tarde fria, sinto frio na alma”. Só no carnaval podia-se ouvir o “Índio quer apito”, a “lambretinha” e a “mulata bossa nova”.

Não leiam mais Bakhtin, o carnaval não é mais a inversão da ordem. O carnaval ganhou e na Bahia é a ordem o ano inteiro! Longe de sumir no quotidiano, o carnaval é a cerimônia frenética e em tempo integral para a celebração da nova ordem. O Olodum tem razão: “Olodum tá hippie, tá pop, tá reggae, tá rock. Olodum pirou de vez!”.

No nosso novo carnaval, Eros expulsou Baco. Em vez de contestar a quaresma católica e afrontar a quarta-feira de cinzas (quase ninguém se lembra dela), o carnaval é o espaço para se vivenciar a saúde, a vitalidade, o prazer do corpo, o que os antigos gregos chamavam de Erótica.

Nesta nova ordem, os mais velhos são rigorosamente excluídos; ou vão para Pelourinho, ou chegam até um protegido camarote, ou ficam em casa assistindo pela TVE. Para nós, o carnaval é o voyeurismo; o prazer de ver os jovens gozarem!

Nesse novo carnaval, o rei Momo deve representar esta vitalidade erótica. Que Exu proteja Pepeu para que ele represente dignamente o seu papel!

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*Ubiratan Castro de Araújo – historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

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UM CARNAVAL SEM CARNAVAL?

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Cena número um: no estúdio da TVE, no Campo Grande, quinta-feira à noite, nove horas, eu e o Prof. Jaime Sodré já nos queixávamos dos não-acontecimentos da primeira noite de carnaval, quando à nossa esquerda, não mais que de repente, irrompeu aquele caminhão de luz, trazendo a dinastia Macedo, Armandinho à frente, e daí em diante foi contada a história do carnaval, através de todas as músicas que fizeram seu sucesso e glória. Pensei: “meu carnaval já está pago”.

Cena número dois: sábado, circuito Barra-Ondina. Os olhos já cansados de verem os mesmos blocos de trio – mudando apenas o cantor – já lá pras duas da manhã, se arregalaram em desmedida alegria quando despontou Luiz Caldas – o verdadeiro inventor dessa nova etapa do nosso carnaval. Vinha comandando o Trio Tapajós, como se um filme tivesse voltado trinta anos na minha memória. De repente, de novo, vejo um senhor de boné levantar-se com alguma dificuldade do andar superior do trio e acenar para mim: Orlando Campos, o homem que modernizou o “caminhão da alegria” e assegurou a festa do povo baiano, quando a festa ainda era de graça. Pensei: “agora já estou devendo ao carnaval”.

Cena número três: já pelas três da manhã, quando tudo parecia encerrado, um mar de gente negra, pobre, misturada – uma massa compacta em bloco que eu ainda não tinha visto até ali, invadiu o circuito da Barra vigiada fortemente pela Polícia e comandada pelo novo “Zumbi do carnaval”, Léo Santana. Parecia um quilombo de alegria vivendo sua apoteose no pedaço da classe média baiana. O Rebolation tomou conta de tudo e arrastou turistas, malandros, patricinhas, periguetes e avulsos, misturando arrocha e pagode numa música só.

Claro que vi também Ivete, Bell Marques, Timbalada, Daniela, e até recebi uma declaração de amor pública de minha ex-aluna Claudinha Leitte.

No dia seguinte soube de uma proposta que deseja privatizar o carnaval, em lugar fechado, com acesso apenas para a classe média alta e os turistas endinheirados. Mais parece uma volta aos bailes de salão, retomando a época do Baiano de Tênis e do Yatch.

Pensei: “vai ser uma festa sem Armandinho, Luiz, Orlando, Ilê, sem rebolation… e sem carnaval!

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*Jorge Portugal – Educador, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO, da TV Brasil

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O CARNAVAL DA DIVERSIDADE

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texto de CLAUDIA CORREIA*

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A Secretaria Municipal da Reparação (Semur-Salvador) lançou a quinta edição do Observatório da Discriminação Racial, em parceria com 30 órgãos e entidades. A intenção é distribuir material, observar e registrar casos de violência contra mulheres, negros, crianças e adolescentes e homossexuais.

Este ano o Observatório amplia sua ação incluindo atos de homofobia, devido às reivindicações do movimento que representa gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais. Uma conquista importante.

A presença de observadores sociais em postos de saúde, postos policiais, no carnaval de bairros e em hospitais de grande porte é uma novidade este ano. Além do posto central da Ladeira de São Bento, serão instalados mais três na Barra, em Ondina e no Campo Grande. O Disque 156 também receberá denúncias.

A ideia do Observatório foi inspirada numa ação do Movimento Negro para detectar situações de racismo durante o carnaval e subsidiar suas reivindicações junto ao poder público. No primeiro ano, foram registradas 128 denúncias de discriminação racial e de violência contra mulheres. Em 2007 o Observatório passou a identificar violações dos direitos da mulher, em parceria com a Superintendência de Políticas para Mulheres da Prefeitura.

Somos uma cidade plural, onde a diversidade enriquece a nossa convivência com os diferentes modos de vida. A intolerância e a violência ameaçam a democracia, violam direitos conquistados.

Os objetivos do Observatório Racial devem ser permanentes, seus resultados devem subsidiar programas de políticas públicas intersetoriais, o estatuto municipal da igualdade racial precisa ser criado, ações judiciais em defesa das vítimas de discriminação devem ser agilizadas, o projeto de lei que criminaliza a homofobia deve ser sancionado.

Assim, não só durante o carnaval, teremos uma política pública de reparação, uma cidade que se orgulha e respeita a diversidade. O Observatório é um passo importante neste processo.

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*Claudia Correia – Assistente social, jornalista, mestre em Planejamento Urbano e Regional

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SOBRE A FESTA

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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A festa é um fenômeno universal. Está presente em todas as épocas, sociedades, povos e culturas. É por isso mesmo que qualquer manual de antropologia sempre traz verbetes sobre cerimônias e rituais. Sobre a relação entre sacrifícios, oferendas e festas. Sobre a festa como parte do rito. Sobre os aspectos não-rituais e não-religiosos da festa. Sobre música e dança.

A festa é um hiato. É uma saída para fora da história. É uma quebra no encadeamento cotidiano das coisas do mundo. É uma suspensão delirante da rotina. É uma abertura, fenda ou brecha na sequência, na linearidade, no fio lógico da vida individual ou coletiva. São muitas, enfim, as definições, as interpretações que os estudiosos nos oferecem do fenômeno trans-histórico e transcultural da festa. Não raro, fazendo-a derivar do sagrado: a origem da festa estaria na religião, em tempos onde não havia uma separação entre festas sagradas e festas profanas.

Mas não vamos enveredar pelo mundo labiríntico das interpretações da festa. Fiquemos em plano mais simples, mais pedestre. O fato é que não há humanidade sem festa. Sem música, dança e canto. O amor da humanidade pelos floreios da voz e os meneios do corpo data de milênios. Sempre esteve presente em todos os cantos e recantos do mundo. Em todas as partes do planeta. Desse amor, nenhum povo ou comunidade escapou, escapa ou deseja escapar.

Bom exemplo disso são os índios que habitavam os trópicos atualmente brasileiros. Quando os europeus começaram a desembarcar aqui, às primeiras luzes do século 16, ficaram impressionados. Os tupis que circulavam pelos litorais brasílicos tinham, basicamente, duas preocupações: a guerra e a festa. Cabia às cunhas produzir o beiju de cada dia da aldeia. Porque os homens, quando não estavam trocando flechas e tacapadas, promoviam bailes. Com uma diferença fundamental. A guerra era empresa exclusivamente masculina. A festa, não. A festa era de todos.

Pero Vaz de Caminha, aliás, conta um episódio maravilhoso, ocorrido num domingo de abril de 1500, ao sol de Porto Seguro. Um grupo de índios dançava perto do rio, “sem se tomarem pelas mãos”. Diogo Dias meteu-se no meio deles e começou a tocar e dançar, fazendo com que todos se dessem as mãos. E assim se foi formando uma roda de dança, uma festa de mãos dadas, ao som da gaita medieval que ele tocava. Foi a dança do encontro. Neste bom sentido, podemos dizer que sim: o Brasil nasceu dançando.

Os africanos dançavam – e muito – na África Negra. E continuaram dançando do lado de cá do Atlântico Sul. De seus ritmos e coreografias nasceu o samba de roda do Recôncavo, que, por sucessivas estilizações, daria no samba raiado do Rio de Janeiro, uma das forças fundamentais da festa brasileira. Com os nagôs, vieram os orixás, descendo do orum para a Terra. Em dia de festa. É para isso que brilham os terreiros. Não há religião sem festa. Sem festa, os deuses não dançam entre os mortais. E os negros contribuíram ainda, aqui, para a articulação entre festa sagrada e profana. Como na festa do Senhor do Bonfim. No reinado de Iemanjá, na festa do Ano Novo, que se irradiou do Rio para todo o litoral do país. No Círio de Nazaré, o “carnaval devoto”, em torno da Virgem, em Belém do Pará.

Nossas grandes festas públicas, rituais coletivos de teatralização da sociedade, nasceram com essa mescla de sagrado e profano. Eram as festas barrocas dos séculos 17 e 18, que conheceram seu esplendor nas cidades do ouro, em Minas Gerais. Procissões de som e brilho, com carros alegóricos, alas disso e daquilo, ruas decoradas, que forneceram o modelo da grande festa pública brasileira. Especialmente, o modelo do carnaval, esplendorosa procissão neobarroca, como no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Mas nem só de grandes ritos coletivos vive a humanidade. Vive, também, de festas corriqueiras, de bailes “funks” a quermesses de cidades do interior. De um extremo a outro, estende-se a festa brasileira. Porque a festa é universal, mas tem seu modo de se manifestar em cada coletividade. E o nosso modo tem a ver com a nossa configuração cultural e formação genética. Com o nosso ambiente. Com o retrato que gostaríamos de fazer de nós mesmos. Com o nosso gregarismo. Com nosso corpo – e nossa alma.

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*Antonio Risério – Escritor

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O CARNAVAL DE RUA DA BAHIA

10/02/2010

Ilustração de SIMANCA

 

Um espetáculo de contradições

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texto de zedejesusbarreto

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O carnaval da Bahia sempre escancarou nas ruas de Salvador as nossas mazelas e delícias. As desigualdades e a alegria de nosso povo.

Uma anotação no diário do cientista Charles Darwin, em fevereiro de 1832, de passagem pela Bahia a bordo do famoso Beagle num domingo de carnaval, dá conta de um grupo de negros pintados de branco fazendo fuzarca nas ruas do Pelourinho, sacaneando e macaqueando os ‘patrões’.

Temos notícia das brincadeiras do corso e muito ‘mela-mela’ nos tempos do Império. Segundo estudos do saudoso Waldeloir Rego, ainda no século XIX já aconteciam os préstitos e desfiles de grandes clubes carnavalescos que perduraram até pouco mais da metade do século XX – como Fantoches da Euterpe, Cavaleiros de Bagdad etc…

Os jornais das primeiras décadas do século XX destacavam na cobertura da folia os desfiles na rua Chile, depois também na avenida Sete, e grandes bailes a fantasia nos clubes, enquanto ‘os pretos saracoteavam na Baixa dos Sapateiros’ (em nota de pé de pagina).

Macaqueávamos o Rio de Janeiro, a capital do país. As famílias colocavam suas cadeiras ao longo da avenida para ver os caretas, as fantasias dos endinheirados, a passagem dos ‘clubes carnavalescos’ com Nelson Maleiro e Gandhy à frente, e também o desfile das Escolas de Samba do Tororó, do Garcia, de Amaralina, da Liberdade…

A madrugada era das ‘lança-perfume Rodouro’, pierrôs e colombinas no salão ao som de marchinhas com orquestra ao vivo. Preto não entrava. O carnaval da negrada pobre (hoje chamada de afrodescendentes) era a batucada de rua, os cordões que saíam dos bairros populares, percussão pura, e alguns afoxés vinculados aos terreiros de candomblé.

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Atrás do Trio Elétrico

Só não vai quem já morreu

O carnaval de rua da Bahia se fez diferente a partir do Trio Elétrico, em 1950. Atrás do som eletrizado de Dodô, Osmar e Themístocles (depois Orlando Tapajós) foi a multidão, encantada. O preto e o branco, pobre e rico, grandes e pequenos, sem distinção, na enriquecedora mistura humana, em busca do prazer, fazendo e distribuindo alegria. Afinal, de que vale essa vida?

Nos anos 1950, com o advento do petróleo, do comércio, da Rio-Bahia, da Universidade, uma nova classe média assalariada e mulata fez-se ouvir, ocupando espaço, criando alternativas de vida e de folia, como os clubes populares (Comercial, Palmeiras da Barra, Periperi…) e ganhando as ruas com novas manifestações de brincadeiras de rua no embalo do trio, já com patrocínios da Fratelli Vitta, da cachaça Jacaré, etc…

A mestiçaria dos bairros populares criou os blocos de índio – Apaches, Comanches, Tupys. A brancalha metida tinha medo das flechadas, dos tacapes nas ruas. Como até hoje os poderosos de plantão temem a Mudança do Garcia e tentam amordaçá-la com a força dos cassetetes ou das ideologias militantes…

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Eu sou negão, sou negão e

meu coração é a liberdade

Outra grande virada no carnaval de rua baiano aconteceu na década de 70, definitivo. No embalo da Tropicália, do eco e da ânsia de liberdade dos anos 60, do aproveitamento do turismo como atividade lucrativa, do amadurecimento do movimento negro, ressurgiram os grandes afoxés, os trios tornaram-se grandes palcos de som e luz em movimento e apareceram os blocos afros – Ilê Aiyê e Badauê, os pioneiros. Black is beautiful!

Se os brancos de classe média tinham instituído entidades exclusivas, onde só podia desfilar gente de pele clara, morador de bairro chique – como Os Internacionais, os Corujas… – os negros também podiam, orgulhosos de sua cor, de seus cabelos, de suas origens. E assim criaram suas entidades, com seus tambores, suas histórias ancestrais, sua baianidade, sim sinhô!

E grandes multidões foram tomando, ano a ano, as ruas da cidade. O poder dos trios mostrava-se grandioso e magnético. O carnaval da Bahia exibia sua nova identidade para o país. Suas diferenças, peculiaridades, sua magia.

E logo começaram as rusgas por espaço na avenida: os grandes blocos, endinheirados, com seus trios privatizados, suas cordas, seguranças ameaçando, tentando esmagar os batuqueiros, afro e afoxés com seus alto decibéis e muito empurra-empurra.

A música iluminada de Gerônimo ‘Eu Sou negão’ é o registro do choque racial, cultural, econômico e social escancarado na rua.

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Fricote de bairro pobre

carimba o estilo ‘axé’

O nome ‘axé music’, criado na década de 80 a partir da reação preconceituosa de grupos de jovens roqueiros brancos aos batuques negros que ecoavam pelos becos e quebradas da cidade é bem a cara desse conflito étnico e cultural que Gerônimo cravou com a lucidez de sabido mulato do recôncavo.

O menino Luiz Caldas (recém-saído do Trio Tapajós, do grande Orlando) estourou no verão com uma música de rua parida de misturas rítmicas bem afrobaianas e uma letrinha ousada (parceria com Paulinho Camafeu), baseada numa brincadeira preconceituosa típica dos guetos da cidade, que dizia:

Nêga do cabelo duro/ que não gosta de pentear/ quando passa na Baixa do Tubo/ o negão começa a gritar/ pega ela aí, pega ela aí… pra quê?’ …

O bicho pegou, a galera dos bairros criou uma dança bem sacana para o canto do guitarreiro Luiz e o nome ‘axé music’ veio a calhar, começou a ser usado na grande imprensa e pegou. Foi um sucesso e um marco também. O tal ‘fricote’ foi pro Chacrinha, virou dança nacional, e a ‘axé music’ ganhou espaço, adeptos, cantores, compositores, sucesso. No embalo, a gravadora WR abriu as portas e investiu na sonoridade baiana, a novidade de então na pasmaceira da MPB.

Daí, nos anos seguintes, os músicos dos trios viram estrelas nacionais, os Trios Elétricos tornam-se definitivamente uma referência da arte e da cultura baiana, abrindo um flanco no mercado e alavancando artistas e bandas que até hoje fazem o carnaval da Bahia.

Os trios se aperfeiçoaram, atingiram uma sofisticação tecnológica impar, tornaram-se verdadeiros estúdios em movimento, transformaram-se em enormes máquinas de som, luz, alegria e dinheiro, muito dinheiro. Para alguns. A Avenida Sete ficou estreita para os ‘novos dragões’ que nem cabem, nem chegam mais à Praça Castro Alves. Como o luxo, a sofisticação dos grandes trios, hoje empresas, companhias a serviço de grandes blocos de ricos e turistas também não cabem mais na mistura popular da avenida, da praça do poeta e do povo. A ralé fica espremida a mercê do arrastão das grandes bandas que passam tremelicando os velhos sobrados do centro antigo da cidade.

Assim surgem os camarotes. Para que os abonados possam ver de cima os espetáculos das estrelas nos grandes trios, no conforto, no esbanjamento das regalias a que têm direito, porque têm dinheiro. Os camarotes do circuito Barra-Ondina significam mais um divisor. Como eram os clubes sociais chiques de antigamente. Segregação pura, dirão. Mas o retrato de nossa sociedade. Não?

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No carnaval 2010

o modelito passado

Na virada do século, o carnaval de rua da Bahia globalizou-se, internacionalizou-se. Hoje é a maior mercadoria baiana, que impulsiona a chamada indústria do turismo. Os hotéis estão cheios, cada ano.

Tem Internet, tudo em tempo real, transmissões ao vivo por canais de tevê abertos e fechados, o espetáculo ao vivo para o mundo, um grande festival de estrelas e magia com seis dias de duração, uma dinheirama incalculável girando, as atrações de sempre prevalecendo em função do mercado que é controlado pelos próprios. Entonces, pra que mudar?

As contradições e discrepâncias persistem e se aprofundam com esse modelo mais que excludente, onde o espaço popular se amiúda. As batucadas de bairro, os cordões sumiram. Os caretas, os foliões esconderam-se. Todos correm atrás de patrocínio público. Os privados já estão com os privados. Os blocos afro e afoxés mendigam trocados, espaço e horários dignos para mostrar suas artes nas ruas.

Já o povão… bem, esse trabalha duro, oprimido, espremido, explorado, agredido e ainda assim acha um jeito de se esbaldar. Afinal, baiano é baiano, pô!

O turista avermelhado pelo sol arregala os olhos e o nativo ‘na pior’ mira o celular de grife e o cordão de ouro dele, o outro olho na PM. Tem churrasquinho de gato empoeirado nas quebradas e também champã francês servido por garçom engravatado bem ali adiante. Sente o cheiro?

Esse é o modelito. Ainda não achamos ou não queremos (?) outro. Nem discutimos.

Estrelas brilhosas, astros internacionais, pagodeira infame, tambores dos deuses, politicagem nos camarotes oficiais, violência em cada metro quadrado, trambiques e grades, fartura e fome, todas as drogas, mil interesses, sexo a rodo, uma trabalheira dos diabos para muitos, arrogâncias e pobreza, beleza e insanidades, mijo na latinha e publicidade em cada poste… Uma festa! Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Dançamos e tropeçamos.

O nosso carnaval é de misturas e diferenças, desigualdades e celebrações.

Porque isso é a Bahia, está nas ruas, é história. Luxo e miséria, ali no Pelô, Patrimônio da Humanidade.

Na folia, tudo está explícito, nas fuças, caviar e crack, a servir. Paetês e bunda de fora. Heliporto próximo ao camarote e isopor imundo na cabeça, beijo na boca e bala perdida.

Senhor do Bonfim que nos cubra e nos proteja. Que os nossos orixás cuidem da alegria, não permitam o pior. Até a tarde de quarta-feira, quando tudo vira cinzas.

Laroiê!

Peço licença, com todo o respeito. Ele é o dono do furdunço.

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zedejesusbarreto, jornalista, baiano e escrevinhador.

zedejesusbarreto@uol.com.br

10fev/2010.