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CAETANO VELOSO: “OU NÃO?”

31/05/2010

Caricatura criada por CAU GOMEZ

Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração”

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texto de CAETANO VELOSO

(reproduzido do jornal A Tarde, que publicou este artigo simultaneamente com O Globo, em 30.5.2010)

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Mesmo que tenha sido uma confusão nascida da ignorância de alguns humoristas, é uma honra para mim ter herdado o bordão “ou não” de Walter Franco. Há quem diga que mereço, não a proximidade de Walter, mas as sugestões pejorativas do bordão. Muita gente vê indefinição suspeita no que para mim é independência política. Em tempos de eleição essas reduções tornam-se mais grosseiras. Pois bem: vou pensar em voz alta. Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração. Se tiver de escolher entre os outros dois, acho que prefiro Dilma, já que, como eu disse na entrevista ao “Estadão” (que ficou famosa por causa da palavra “analfabeto”), Serra está à esquerda da política econômica de Lula (a matéria no Globo com Serra dizendo a Miriam Leitão que “o Banco Central não é a Santa Sé” — com aquelas fotos apavorantes — poderia ser criticada pela “Caros amigos” como alarmismo suspeito, imposto pelo poder dos rentistas). Ou seja, eu prefiriria Dilma porque ela defende a independência do Banco Central.

Aconselho a leitura de “Aqui ninguém é branco”, de Liv Sovik. É a mais complexa e corajosa reflexão sobre raça no Brasil dentre as que vêm do lado dos racialistas. Mas meu comentário, dirigido a Felipe Hirsch, contrastando o racismo popular com o racismo de elite, eu o reenviaria a Sovik. Acabo de chegar da inauguração do Centro Cultural Waly Salomão, em Vigário Geral: grupos de garotas locais, pretas, mulatas e brancas, chegavam bem arrumadas e tomadinhas-banho, sorrindo entre si. Liv diz, com ironia, que “têm razão os que contrastam os EUA com o Brasil, valorizando o quadro brasileiro: para os brancos, especialmente, ele é muito melhor”. Nem uma gota de ironia em minha recomendação do livro. Leiam e verão que ela vai muito além dessa canelada.

Tenho 67 anos. Cresci, amadureci e envelheci ao som da “Aquarela do Brasil”, o nosso hino nacional oficioso, em cujo segundo verso o país é chamado de “mulato inzoneiro”. Nunca vi ninguém estranhar o uso da palavra “mulato” para definir o país. Mas nada me dizia que não houvesse brancos no Brasil. Meu pai era mulato. Minha mãe é branca. Sendo ela de extração mais humilde, era ela quem usava a expressão popular “eles que são brancos, que se entendam”, quando se alegrava por não ter de entrar em certas disputas. Mesmo que fossem entre meu pai e Luís de Gaspar, um preto retinto que era amigo dele. Gaspar era o português que tinha uma loja de ferragens onde Luís trabalhava. Depois Luís abriu a sua própria. Todos diziam “segunda é dia de branco” — quer dizer: dia de trabalharmos para os patrões. Isso independentemente da cor de quem dizia — e mesmo da dos patrões. A ideia arraigada de que somos um país mulato não nos impedia de distinguir explicitamente entre brancos e pretos, ou mulatos, caboclos, sararás. E sempre foi evidente que “branco” indicava vantagens estéticas, econômicas e sociais.


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Liv vai além do habitual: fala da invisibilidade do branco e analisa a mídia. Tudo bem que ela comente textos da “Veja”, mas por que nem ela comenta textos em que Paulo Francis, o mais adorado e imitado jornalista brasileiro, louvava a retomada do projeto de eugenia por trabalhos como “A curva do sino”, que diz provar ser a inteligência média dos estudantes negros americanos inferior à dos brancos? Exibir simpatia por coisas assim era reação aos movimentos negros. Esses movimentos eram necessariamente racialistas. Passou a haver, então, uma reação antirracialista, como, por exemplo, a de Antonio Risério, e uma reação racialista, como a de Francis. A menina que disse a Liv, em Salvador, “aqui ninguém é branco” tem posição próxima à minha, que é próxima à de Risério e avessa à de Francis.

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O presidente Lula ensaiou o anúncio de uma negociação de peso com o Irã. Vejo Lula como um grande personagem épico. Ele pode ser atraído pelas baixezas do populismo. Mas, até aqui, tem pesado mais sua vocação para representar o que o Brasil tem de original. Parte da sua euforia — que pode ser intragável — é reconhecimento disso. É narcisismo salutar, abençoada vaidade histórica. A tentativa de costurar um papo entre os aiatolás e a capitalistada tem, por mais que a analogia com Chamberlain (lembrada por Diogo Mainardi) proceda, mais peso do que todas as outras bolas na trave que ele e Amorim deram antes.


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Sou anticarlista, não fundaria a Embrafilme, não julgo Pinochet pelo que ele deu de útil ao Chile. “The Economist”, falando do óleo no Golfo do México, diz que “o congresso americano deve endurecer a vigilância e aumentar as penas para os faltosos. Mas, infelizmente, não haverá nenhum esforço para dar conta dos maléficos efeitos colaterais do petróleo. Pois vazamentos estão longe de ser o efeito mais deletério da dependência do petróleo de que sofrem os EUA: aquecimento global e financiamento de déspotas estrangeiros vêm no topo da lista”. Essas são palavras editoriais de uma revista liberal inglesa. É por coisas assim que os princípios liberais resistem mais em mim do que a hipótese comunista. O que se sobrepõe a ambas as visões é o sebastianismo de Agostinho da Silva. Este era claramente antiliberal em economia, mas tinha horror a regimes de força. Muitas das suas tiradas são espetaculares. A minha preferida é: “Portugal já civilizou Ásia, África e América — falta civilizar Europa”. Gosto porque falamos português. O mundo lusófono tem sido, há já séculos demais, um ridículo histórico. A mera existência do Brasil parece dizer “chega!”.

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CAETANO PROVOCA DEBATE SOBRE O PELÔ

19/05/2010

Pedras "cabeça de nego" formam o calçamento do Largo do Pelourinho. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 6.3.2008

Em sua estreia como colunista do Segundo Caderno de O Globo, no domingo 9 de maio, Caetano Veloso retomou a discussão sobre reforma, restauração e abandono do Pelourinho, nome dado à região do Centro Histórico da Cidade da Bahia que fica em torno do Largo do Pelourinho. O artigo, intitulado “Política: o Largo da Ordem” (referência ao largo situado no centro de Curitiba que foi recuperado pelo prefeito Jaime Lerner nos anos 70), teve forte repercussão na Bahia, provocando pronunciamentos de políticos da situação e da oposição. O blog Jeito Baiano participa do debate com um texto de zédejesusbarrêto e reproduz em seguida o próprio artigo de Caetano e depois as reações contrárias do governador Jaques Wagner e do secretário estadual de Cultura, Márcio Meirelles, conforme matérias publicadas no jornal A Tarde, de Salvador.

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O Pelô brega

morre chique

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texto de zédejesusbarrêto*

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Caetano, o Veloso, escreveu sobre a degradação do Pelourinho, ‘pós ACM’. Jaques, o Vagner, rebateu chamando-o de desinformado sobre o plano que ‘a gente está fazendo’ visando a recuperação do sítio, espaço que é ‘Patrimônio da Humanidade’, o mais portentoso conjunto arquitetônico colonial urbano do país. ‘Está fazendo’, ainda. Enquanto isso, o cidadão esperava do governo e da prefeitura cuidados com a manutenção da vida por lá, com respeito aos que ali moram, trabalham e transitam. Baianos ou não. Que se restaure a dignidade do Centro Histórico de Salvador!

Ora, se havia algo errado antes, então transformemos para melhor o projeto de restauração do sítio, que começou a ser pensado nos anos 1960 e a ser implantado na década seguinte, os anos de chumbo, dentro de metas governamentais que visavam a exploração do turismo como fonte de riqueza, aproveitando o potencial histórico da área. Afinal, ali é o umbigo da primeira capital do país. O que foi feito ali, então, não foi pouco nem mera pintura de fachadas como dizem alguns agora.

Vale relembrar que, à época, o Maciel era conhecido como ZBM (Zona de Baixo Meretrício). Pelo Julião não se passava. As ‘famílias’ não subiam a ladeira do Pelô, fazia medo descer a ladeira do Mijo e outras quebradas que dão na Baixa dos Sapateiros. Por risco de morte. Vi brigas, facadas, navalhadas em pleno dia, naquelas ruelas. Era muito lixo e fedor. Os casarões caíam aos pedaços, pardieiros usados como malocas de traficantes, drogados e marginais. Cafetões, rufiões disputavam espaço e controlavam as esquinas, nem a polícia ousava. Degradação humana total. Bêbados, crianças famélicas imundas e cães sarnentos catavam lixo pelas ruas. Qualquer baiano mais vivido sabe disso. Eram poucas as famílias pobres que ali resistiam, sem ter para onde ir, amedrontadas. O Pelô era o brega, a zona dos castelos, das mulheres de ‘vida (nada) fácil’.

Respeitemos a história. A restauração do Centro Histórico, com todos os seus equívocos, foi um avanço, uma redenção naquele instante. O Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural), órgão criado para cuidar do projeto e das obras, era um centro de estudos de excelência, tudo executado em cima de pesquisas, de planejamento, com obras de infraestrutura sustentadas, feitos os levantamentos, casa por casa, ouvindo os moradores. Claro, tudo obedeceu a diretrizes políticas, a ecos de modernidade de uma determinada época. Os militares, que mandavam nos anos 1970, pregavam o ‘milagre’ desenvolvimentista. A exploração do turismo, atividade-vocação de Salvador, apresentava-se como uma panaceia e o Pelourinho recuperado seria a concretização física visível de uma cultura da ‘baianidade’, signo de uma era.

O que foi feito em duas, três décadas no Centro Histórico não foi só pintura de paredes e janelas, isso é discurso de palanque. Fosse isso, tudo teria desabado nos torós de outono. A revitalização do Pelourinho tornou-se um exemplo, foi reconhecida pelo mundo, tornou o Pelô um dos pontos de turismo mais visitados do país, isso é fato. A revitalização, como foi feita, provocou bons e maus resultados, todos sabemos. Como qualquer intervenção urbana, qualquer acontecimento na vida. Pois, se houve equívocos, e houve, foram frutos da mentalidade ‘modernosa’ de uma época. Como há, hoje em dia, muita ‘modernosidade’ discutível, até reprovável. O Pelô ‘turístico’ aconteceu, foi importante num determinado período de nossa história. Debrucemos sobre a experiência real, avaliemos e avancemos! Hoje, a modernidade engajada dos tempos lulistas aponta novos caminhos. Sigamos, então, a construir nossa era, já! Não precisa gastar tempo e energia apagando rastros, rasgando páginas, deletando fotos, criando versões convenientes do que passou. Saímos já do atoleiro, ou apodrecemos no lamaçal do passado. O acontecido é história, parâmetro, que nos orgulha aqui e nos envergonha lá. Lendo sem rancores as páginas escritas, vamos digitar com mais clareza agora. Ação! ‘O nosso tempo é agora!’, diz a sábia Mãe Stella de Oxóssi.

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

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Largo do Pelourinho em 2003. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde – 22.9.2003

Política: o Largo da Ordem

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texto de CAETANO VELOSO

(publicado originalmente em O Globo e reproduzido por A Tarde em 15.5.2010)

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Quando disse a Leminski, no começo dos anos 70, que me encantava a recuperação do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: “Você adora enganações feitas para a classe média”. Respondi que adorava mesmo. Sempre à esquerda, Leminski via limpeza, iluminação, policiamento e restauração de prédios como maquiagem – e olhava com desconfiança meu interesse por Jaime Lerner, o então prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime – e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas não via o Largo da Ordem como enganação. Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia à classe média. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: “Eu sou classe média”. O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria – ou estaria mostrando que já decolara. Era sonhar demais.

Ainda nos 70, os sobrados da área estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados. Lembro duas reações negativas: Candice Bergen e Décio Pignatari. Em ocasiões diferentes, ouvi de ambos: “Parece a Disneylândia”. Eu próprio, diante das tintas plásticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby. Mas a verdade é que, tendo crescido em Santo Amaro, eu não achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, mês de Nossa Senhora da Purificação. Achei que Candice e Décio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. Décio, de Sampa, queria velharia mais “autêntica”. Candice, de Los Angeles, reviu o que expõe a artificialidade de sua terra natal: Disneylândia. Já eu só via o esboço de realização da promessa do Largo da Ordem.

Nos anos 90, toda a região do Pelourinho ganhou o tratamento que eu imaginara utópico em 1972. Há queixas contra os métodos usados para a retirada dos moradores. Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas”. Elas é que mantiveram de pé esse pedaço da cidade. Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em matéria deteriorada, eu me sentia fascinado também pela degradação dos habitantes. A prostituição mais anti-higiênica manteve os sobrados de pé. Casas sem moradores caem. As do Pelô exibiam as marcas da decadência da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.

ACM é um nome que se evita – a não ser que se queira xingá-lo ou adulá-lo. Medir objetivamente seu legado é anátema. Tou fora. Truculento, vingativo, populista, Antonio Carlos Magalhães era o tipo de político de que desejei ver a Bahia e o Brasil livres. Fiz-lhe sempre oposição. Cantei nos comícios de Waldir Pires, que se elegeu governador. Mas Waldir uniu-se com parte da oligarquia rural que odiava ACM desde sempre. O vice de Waldir era um representante dessa oligarquia. Waldir mal esquentou a cadeira: saiu para tentar ser vice na candidatura furada de dr. Ulysses. ACM voltou em glória nas eleições seguintes.

A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas. Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao Centro Histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova autoimagem.

O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime. A explicação dada é que as facilitações oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram são artificiosas. O secretário da Cultura, meu amigo Márcio Meirelles, é o responsável pelo destino da área. Diretor do Bando de Teatro Olodum, Márcio nos deu Ó Paí, Ó!. O elenco que ele reuniu é um espanto de vitalidade. Mas, nesse e em outros espetáculos do grupo, o sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho vinha colorir o ódio a ACM. Eu adorava a peça assim mesmo. Arte é coisa séria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira estão, na verdade, mais sintonizadas com as forças que fizeram possível a recuperação do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.

Depois vieram o Recife Velho, o Centro de São Luís, algo do Centro de São Paulo – e sobretudo veio vindo a Lapa. A iniciativa privada se achegou, a Sala Cecília Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, iluminação, policiamento – e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FH-Lula. O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveitável de ACM – e fazer melhor. Não é saudável fazer com os benefícios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme. Esse privatismo repentino soa suspeito. O abandono do Centro Histórico tem parte no aumento da criminalidade. Política, para mim, é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol – nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.

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Turistas espanhóis assistem a apresentação de Capoeira no Terreiro de Jesus, no Pelourinho. Foto de LÚCIO TÁVORA | Agência A Tarde – 27.3.2009

Wagner diz que críticas de Caetano

decorrem da falta de informação

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texto de BIAGGIO TALENTO

(Agência A Tarde – 13.5.2010)

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O governador Jaques Wagner (PT) entende ter faltado “informação” ao cantor Caetano Veloso ao escrever o artigo publicado na edição de domingo do jornal O Globo criticando o abandono do Pelourinho e atribuindo a situação a uma suposta retaliação ao Centro Histórico pelo governo petista, devido ao fato de a última grande reforma, na década de 1990, ter sido feita pelo falecido governador Antonio Carlos Magalhães.

Pedi que o Márcio (Meirelles, secretário da Cultura do Estado) mandasse para ele o plano que a gente está fazendo de recuperação do Pelourinho – declarou o governador, insinuando que as reformas anteriores não foram bem-feitas.

O problema é que, para fazer bem-feito, demora. Para pintar fachada, é rápido. O plano anterior, ao qual ele se refere, faliu todo, taí o Pelourinho nessa situação – criticou, ponderando o fato de o atual governo ter feito “um trabalho demorado, com assessoria e consultoria internacional” e anunciou que, no dia 3 de junho, vai lançar o Programa de Recuperação do Pelourinho.

O ex-governador Paulo Souto (DEM), vice de ACM durante a primeira grande reforma no Pelourinho, disse que “chega a ser leviana e irresponsável” a declaração de Wagner criticando as intervenções dos governos passados.

Houve todo um trabalho de infraestrutura, com troca das redes elétrica e hidráulica, construção de praças de lazer, uma revitalização completa, fundamental para aumentar o fluxo turístico na cidade – rebateu, apontando que a revitalização de Salvador virou modelo para outros sítios históricos, reforçando a tese de Caetano segundo a qual o abandono do Pelourinho pelo atual governo se deve ao desejo de atacar obra de adversários.

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Trabalho longo

Na visão de Souto, a revitalização de centros históricos é um trabalho longo e persistente, “que depende de vontade política e uma presença forte do governo no local”. E ironizou:

Muita gente famosa passou pelo Pelourinho após a revitalização e adorou: Paul Simon, Michael Jackson, entre outros.

Sem querer polemizar com Caetano, chamando-o diretamente de desinformado, Wagner disse que “cada colunista escreve o que quer”. E apontou como único pecado o suposto fato de o cantor não ter recebido as informações adequadas sobre o que a atual administração está fazendo no Centro Histórico.

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Ladeira do Carmo, ao fundo, vista do Largo do Pelourinho. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 6.3.2008


Meirelles, de Ó Paí, Ó,

reage a artigo de Caetano

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texto de BIAGGIO TALENTO

(Agência A Tarde – 15.5.2010)

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O secretário da Cultura da Bahia, Márcio Meirelles, diretor de teatro (criador da Trilogia do Pelô, da qual faz parte a peça Ó Paí, Ó), entrou na polêmica sobre a situação do Pelourinho iniciada com artigo de Caetano Veloso no jornal O Globo, domingo passado. Em carta, contesta as acusações do cantor, reforçando as declarações do governador Jaques Wagner (PT), segundo as quais Caetano estaria “sem informações” sobre as obras feitas atualmente no Centro Histórico, que os governos passados fizeram apenas “maquiagem” no local, razão pela qual os casarões estariam deteriorados.

Com seu artigo, Caetano involuntariamente pautou a campanha pela sucessão estadual, motivando manifestações dos adversários de Wagner, o ex-governador Paulo Souto (DEM) e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB).

Meirelles refere-se à alusão de Caetano de que nas peças da Trilogia do Pelô havia um “sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho” que “vinha colorir o ódio a ACM (o ex-governador Antonio Carlos Magalhães, que inaugurou a primeira grande reforma em 1992)”. E contesta o cantor, afirmando que “não havia ódio” e sim “indignação por ver um poder truculento promover uma limpeza étnica e social, expulsando os antigos moradores do Pelourinho e entregando as casas, que eles mantiveram de pé, a novos ocupantes”.

O dramaturgo tem uma interpretação diferente também da tese de Caetano sobre a reforma do Pelourinho ser motivadora de intervenções dos governos e da iniciativa privada. Para Meirelles, “diferente do exemplo da Lapa, no Rio, onde o poder público fez sua parte, e a iniciativa privada e a sociedade, as delas, aqui, o governo fez tudo, como um pai/padrasto, ‘com dinheiro numa mão e o chicote na outra’”. Reafirma não ser possível “revitalizar um território urbano sem a força de seus moradores, sem ações articuladas dos três entes federados” e que não seria conveniente “tratar o Pelourinho como uma área isolada, um (im)possível parque temático. A maioria das soluções está no entorno, para onde foram muitas das famílias retiradas da área, ocupantes agora de outras ruínas ou marquises, sobrevivendo do possível”.

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A DIALÉTICA DE CAETANO EM LISBOA

05/12/2009

CAETANO VELOSO. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde

A matéria abaixo, distribuída pela agência espanhola Efe, é mais um capítulo da série que o blog Jeito Baiano vem acompanhando e que foi iniciada por uma conversa de Caetano Veloso com uma repórter do jornal O Estado de S. Paulo. Na entrevista publicada, o cantor e compositor baiano diz que Marina Silva, sua candidata à Presidência, seria uma mistura melhorada de Lula com Obama, sobrando para o presidente brasileiro a qualificação de “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”.

Em seguida, Caetano lançou carta reafirmando sua posição e atacando quem não quis entendê-la. O momento seguinte foi de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, que contestou Caetano amorosamente e exaltou Lula em tom glauberiano. Gilberto Gil, ouvido também pelo Estadão, comentou a entrevista polêmica, entre várias outras repercussões na mídia, nem todas reproduzidas pelo Jeito Baiano.

E veja agora Caetano se vangloriando de ter quebrado um tabu, o de não se poder criticar o presidente Lula.

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Falta de erudição de Lula

é  traço original do Brasil”

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da Efe, em Lisboa – 5.12.1009

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O cantor Caetano Veloso afirmou que a entrevista na qual teria chamado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “analfabeto” foi uma “edição sensacionalista” da “nova direita”, mas declarou ter gostado de “quebrar o tabu” de não criticar o chefe de Estado.

Há pouco, involuntariamente, quase causei um pequeno escândalo no Brasil por ter aparecido em um jornal dizendo que o presidente é analfabeto – disse Caetano, que neste fim de semana está em Lisboa para várias atividades sobre o Tropicalismo.

Realmente, é algo desagradável ver isso escrito na capa de um jornal. Em primeiro lugar, porque não é uma verdade de fato: Lula não é analfabeto. Em segundo, porque este tom se assemelha ao tom grosseiro que tanto me desagrada na nova direita que tem êxito na imprensa do Brasil – afirmou Caetano.

O cantor, no entanto, admitiu que “sequer” pensou em corrigir o que lhe pareceu uma “edição sensacionalista” de suas palavras, já que estava “mais interessado” em quebrar o “tabu” de não poder falar mal de Lula, líder com um alto índice de popularidade em seu país.

Na entrevista, concedida ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o artista teria chamado Lula de “analfabeto” e mostra sua inclinação por Marina Silva, provável candidata do Partido Verde nas eleições presidenciais do ano que vem.

Originalidade brasileira

Em outro momento de seu discurso na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, Caetano voltou ao assunto do presidente. O cantor comentou que os linguistas brasileiros fazem uma “grande defesa” do modo de falar de Lula, ao qual atribuem uma forte “significação social e histórica”. Porém o também compositor disse não compartilhar dessa visão.

O fato de Lula falar assim é uma coisa que (…) os linguistas louvam. Eu me contraponho ao elogio dos linguistas, mas eu mesmo o considero um sinal dessa originalidade brasileira, que vem de sermos portugueses, de termos colonizados dessa maneira – acrescentou Caetano.

O baiano tornou a falar dos poucos anos de estudo de Lula. Ele comentou que o Brasil é um país peculiar em vários sentidos, inclusive no de escolher um presidente com essas características.

Eu não me imagino com muita facilidade em outro lugar em que é eleito um presidente que sequer conjuga os artigos com os substantivos – disse.

O artista, que discorreu sobre a influência da obra Mensagem, do poeta português Fernando Pessoa, sobre o movimento Tropicalista, desta vez também elogiou Lula.

Lula é um sujeito idolatrado no Brasil. Ele tem uma carreira política brilhante e está fazendo um governo importante e bom, apesar de haver coisas ruins, mas essas são complicações políticas nas quais eu não quero entrar – disse diplomaticamente o músico baiano.

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NOTA DO EDITOR – Confira cada capítulo desta série em seus respectivos posts, na ordem cronológica:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/06/as-ultimas-de-caetano-veloso/

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/09/la-vem-de-novo-o-mano-caetano/

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/11/ze-celso-se-opoe-a-caetano-com-amor/

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/24/entrevista-de-gilberto-gil-ao-estadao/

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OS SESSENTA CARNAVAIS DE ORLANDO

01/12/2009

ORLANDO CAMPOS DE SOUZA, o ORLANDO TAPAJÓS, criador do trio elétrico Caetanave no carnaval baiano de 1972. Foto: XANDO PEREIRA | Agência A Tarde 15.2.2006

de JORGE PORTUGAL*


Foi emocionante demais. Acho até que há muito tempo não vivia uma emoção daquele tamanho.

Cena: Luiz Caldas, no estúdio da TV Bahia, preparava-se para gravar o seu depoimento sobre os 60 anos do trio elétrico. Eis que, de repente, chega “seu” Orlando Tapajós, convidado para a mesma finalidade e, ao encontrá-lo exclama:

Meu Deus, meu filho está aqui! Meu filho adotivo que eu não via há muito tempo!

Os dois se abraçam e logo depois Luiz pega o violão e sola um dos grandes hinos do carnaval baiano, dos áureos tempos do Tapajós. Orlando apoia-se na bengala que lhe garante o precário equilíbrio e, com os olhos perdidos em algum lugar imaginário, gesticula, solfeja, quase dança, e entrega sua emoção a um momento que já não estava ali, mas que permanecia em todos nós, eterno, como um tesouro escondido no fundo de nossas melhores saudades.

Choramos todos. Eu, Sérgio Siqueira, Isabela, Fred Góes, todos os cinegrafistas e técnicos presentes naquele instante.

Em seguida, o nosso querido “velho” deu fortes asas à prodigiosa memória e passou a nos contar, com surpreendentes detalhes, a história do Trio Elétrico, a mais genial contribuição da civilização baiana para a alegria do mundo.

Falou-nos do período heroico, que vai da invenção, por Dodô e Osmar, em 1950 até 1959, quando a famosa dupla retira-se do carnaval por um bom tempo. Daí em diante, coube a ele, Orlando, assegurar a alegria do povo com o seu trio elétrico Tapajós, patrimônio da memória afetiva de dez entre dez baianos que tenham mais de quarenta; relembrou a importância do frevo Atrás do Trio Elétrico, de Caetano, projetando o trio em todo o país e trazendo de volta Dodô e Osmar ao carnaval das ruas; a homenagem que Caetano receberia dele, Orlando, com a construção da Caetanave, mistura de disco-voador e usina de som, que superaria em muito as nossas mais loucas visões lisérgicas.

Orlando, juntamente a Dodô e Osmar, deveria ter estátua em alguma praça da cidade. Mas não têm.

Que, pelo menos, no ano que vem, Luiz, Orlando, Armandinho e Moraes tenham um digno direito às ruas e possam mostrar à turma da “alegria ensaiada” a grandeza de um carnaval, hoje transformado em grande negócio.


*Jorge Portugal – Educador e compositor

secretaria@jorgeportugal.com.br


ENTREVISTA DE GILBERTO GIL AO ESTADÃO

24/11/2009

21 de novembro de 2009

VISÕES DE UM PASSAGEIRO DA POLÍTICA


Em turnê pela Europa, compositor diz que Brasil é um país menos preconceituoso, elogia FHC, Lula e Marina


por IVAN MARSIGLIA, do jornal O Estado de S.Paulo


Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui (…)/ Naquela ausência/ De calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir. Os versos do rock Back in Bahia, de Gilberto Gil, sobre o sentimento do exílio entre 1969 e 1972, não definem seu estado de espírito na última semana, quando revisitou a capital inglesa. Instalado no hotel Renaissance Chancery Court, tinha à mesa da suíte um exemplar da revista britânica The Economist, cuja capa traz o Cristo Redentor transformado em foguete, anunciando que o Brasil decolara de vez no mundo.

Por onde passou na turnê de seu novo CD, o acústico Bandadois – em que se apresenta em dobradinha com o filho Bem, mais o violoncelista Jaques Morelenbaum –, cumprindo uma agenda de shows na França, Inglaterra, Alemanha e Espanha, o assunto foi o mesmo.

Os repórteres só me perguntam disso, o Brasil, o Brasil. Fico pensando: “O que dizer?” – ri, satisfeito.

Aos 67 anos, o compositor baiano, que passou cinco anos e meio à frente do Ministério da Cultura do governo Luiz Inácio Lula da Silva, diz não ter saudades da política.

Está de bom tamanho – resume a experiência vivida em Brasília, que, além de um bocado de tempo e energia criativa, tirou-lhe parte do brilho da voz, desgastada nas intermináveis conversações ministeriais.

Por conta disso, diz ele nesta entrevista concedida ao Aliás [caderno do jornal O Estado de S.Paulo], tem feito exercícios diários de fonoaudiologia. Mas não se furta a falar quando o tema é o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado sexta-feira, no aniversário da morte do herói Zumbi dos Palmares.

Embora considere que a inclusão do negro na sociedade brasileira avançou desde a década de 60 – quando, aos 23 anos e já formado em economia, foi contratado como estagiário pela Gessy Lever, numa espécie de “experimento racial” –, Gil avalia que “é tijolo sobre tijolo, pedra sobre pedra, que essas coisas vão sendo construídas”.

A favor da política de cotas para negros nas universidades brasileiras, não concorda que elas estimulem visões antiquadas que dividem a raça humana em negros, brancos, amarelos. Vê nesse tipo de ação afirmativa uma técnica de reparação já testada em outros lugares. Então, por que não aplicá-la no Brasil, por um período?

Pelo caleidoscópio com que enxerga o País, Gil defende o filme Lula, o Filho do Brasil – “é a cultura que está pegando o bonde da popularidade dele, não o contrário” –, mas critica a falta de visão estratégica do presidente em relação aos temas de cultura e meio ambiente.

Faz um malabarismo conciliatório ao sair em defesa do amigo Caetano Veloso, que semanas atrás chamara Lula de analfabeto e grosseiro:

Caetano se referiu a uma coisa da qual todos nos orgulhamos, o fato de um homem não letrado ter chegado à Presidência com tanto êxito.


Sexta-feira foi o Dia Nacional da Consciência Negra. Celebrar esse tipo de data faz diferença?

Há uma percepção na humanidade inteira de que essas coisas, de modo geral, adiantam. Na década de 80, fui fazer um show em Washington e me telefonaram dizendo que Stevie Wonder queria me ver. Saímos para jantar juntos e perguntei o que ele tinha ido fazer na capital americana. “Estou batalhando pelo Martin Luther King Day”, ele respondeu, referindo-se à implantação de um feriado devotado à causa negra. O dia de homenagem a Martin Luther foi de fato oficializado (em 1986). E, anos depois, temos a eleição do primeiro presidente negro americano. Você pode me dizer que não teve nada a ver, mas no final das contas é tijolo sobre tijolo, pedra sobre pedra, que essas coisas vão sendo construídas.


Muito de sua obra musical vem da mistura de costumes, ritmos ou signos de que o Brasil é feito. Compartimentalizar o debate político entre ‘brancos’ e ‘negros’ pode vir a restringir as trocas culturais?

Essa não é a única compartimentalização que se nota dentro das totalidades. Compartimentalizações existem porque existem desigualdades, que precisam ser atacadas. E diferenças, que precisam ser respeitadas. Unidade não é uma abstração, é feita de partes que têm vida própria. Elas devem respeitar o sentido das totalidades, dos interesses comuns, então a política é feita disso. Se não existissem interesses particulares, não existiria política.


Como o senhor se posiciona a respeito da política de cotas para negros nas universidades?

Eis uma questão política, o ideal contemporâneo de fazer reparações, de refazer o equilíbrio que foi rompido em momentos específicos da história – como a escravidão. São técnicas de reparação. Sou a favor e tenho reiterado isso. Cotas já foram experimentadas em outros países, com êxitos e fracassos, e podem ser aplicadas no Brasil, parcialmente, periodicamente, até o momento em que funcionem ou deixem de funcionar. Experimenta, não custa nada.


Mas críticos dizem que essas ações podem reforçar a velha ideia de que a humanidade se divide em raças.

A questão não é racial, é social. São grupos humanos historicamente discriminados por alguma razão. No caso é “raça”, mas há tantas outras! As políticas compensatórias da pobreza, tipo Bolsa-Família, existem por isso, por causa de desigualdades e diferenças que precisam ser atacadas por uma visão mais aprofundada de humanismo, de republicanismo, de compromisso com a democracia, com a ideia do oferecimento de oportunidades mais ou menos iguais para todos. O argumento de que essas políticas podem intensificar processos racialistas… Sim, mas aí cabe a vigilância, cuidar para que o efeito colateral do remédio não seja mais forte do que seu efeito curativo.


Em entrevista de 2005, o senhor falou de sua passagem pela Gessy Lever, na década de 60, aos 23 anos. Disse que era uma espécie de “experimento racial” da empresa. De lá para cá, a inserção do negro na sociedade brasileira mudou?

Era um experimento que tinha esses componentes sociais e raciais. Eles queriam dar chance a setores das classes médias brasileiras que emergiam, para que viessem a ocupar postos de destaque, de comando, na empresa. A inserção do negro é um processo um tanto ambíguo, mas a situação tem melhorado, no estilo dois passos para frente, um para trás: se você somar, há um avanço, um deslocamento mínimo positivo. Você vê que a presença do preconceito, que era uma coisa muito forte e determinante das relações sociais no Brasil, tem se atenuado, diminuído. Estava lendo ontem mesmo sobre o ministro Joaquim Barbosa. Ele é um exemplo, é o negro que chegou ao Supremo pela primeira vez.


O Brasil é um país preconceituoso?

Não creio que seja mais do que o conjunto da sociedade humana. Está na média. De certa forma há até mais cordialidade, compreensão, interracialidade e intersociabilidade na sociedade brasileira do que em outras.


Mas a cultura afro-brasileira é reconhecida como deveria no País? Grupos evangélicos de Salvador, por exemplo, estão tentando substituir o termo “acarajé” por “bolinho de Cristo” ou “acarajé de Jesus”.

Isso é, de novo, questão política. Quarenta anos atrás era a Igreja católica que, de certa forma, tentava se opor à proliferação e disseminação dos cultos de origem africana. E se associava ao Estado nessa tentativa de interdição do candomblé e da umbanda. Depois a igreja cedeu espaço, assim como o Estado: em 1972, na Bahia, caiu a lei que interditava os candomblés e os obrigava a tirar licença municipal para funcionar. E passaram, como qualquer outra religião, a ter garantido o seu direito de liberdade de culto. Agora os evangélicos, na sua emergência e luta por espaço político, se opõem aos católicos, aos cultos afro-brasileiros, etc. São grupos com novos apetites políticos.


Apetites que representam alguma ameaça?

Ameaças há. No candomblé da minha mulher em Salvador houve um dia em que ela teve que confrontar um grupo de evangélicos que foi lá para a porta do terreiro e se pôs a gritar. Coisas assim acontecem. Agora, na perspectiva do deslocamento histórico, o candomblé já foi absorvido pela sociedade brasileira. E mais: está além-fronteiras, com presença forte no Uruguai, na Argentina, no Paraguai e outros países da América do Sul, tem milhões de adeptos, é respeitado. Fica restrito ao frisson político, à luta encetada por esses segmentos religiosos emergentes.


A umbanda e o candomblé perderam terreno nas favelas, onde proliferam igrejas evangélicas…

É que o garimpo dos evangélicos se faz nas classes populares, onde há uma forte presença do negro e das religiões afro-brasileiras. É por isso que atacam especificamente esses setores e recrutam contingentes para as suas igrejas.


Nos cinco anos e meio em que o senhor esteve no Ministério da Cultura, não foram poucos os que lhe perguntaram se sentia saudade da música. Tem saudade da política?

Saudade, propriamente, não. Tenho lembranças boas e um sentimento de que foi um serviço prestado com muita dedicação e alguma relevância do ponto de vista da percepção da sociedade. Foi interessante servir a um presidente que marca um momento histórico da vida republicana brasileira, que é Lula. Foi um período da minha vida pensado para ser curto e que durou quase seis anos. Está de bom tamanho (risos).


Na época, o senhor declarou que sua frustração foi não ter conseguido elevar a fatia do orçamento federal para o MinC de 0,5% para 1%. Com toda essa pujança da economia brasileira hoje, o País não aprendeu a valorizar sua cultura?

Ainda não. No sentido de alçá-la a um patamar de instituição estratégica, prioritária, com quadros, com orçamento e atenção governamental, ainda não. É preciso ir além: pensar a cultura como elemento fundamental para o desenvolvimento, para a economia e para a cidadania. Cultura já é hoje um setor importante nos PIBs de vários países. No caso do próprio Brasil, entre 5% e 7% vêm do setor. E isso vai crescer com a migração da economia do hardware para o software, dos setores pesados para os setores leves. É preciso, portanto, prestar atenção nessa tendência. Nos EUA, a maior exportação já não é de armamento, mas de produtos culturais: filmes, jogos eletrônicos, música. O Brasil se ressente de não ter uma língua de ponta para lastrear suas investidas internacionais. Mas vai melhorando diante do enfraquecimento da hegemonia dos produtos culturais de língua inglesa no mundo. Estou vendo aqui na capa da The Economist, o Cristo decolando. E também no filme 2012, sobre o fim do mundo, o Cristo surge como ícone de civilização, tanto para o bem quanto para o mal. O Brasil está chamando a atenção do mundo.


Falando em cinema, o filme Lula, o Filho do Brasil será lançado com ingressos populares e todo um esquema de divulgação em massa, mas críticos têm apontado sua vocação como peça promocional…

Mas é promocional de quem? O filme foi feito por quem? Algum partido político ou algum ministério? É um filme que resolveram fazer sobre Lula. É a cultura que está pegando o bonde da popularidade dele, não o contrário. Óxente, estão fazendo um blockbuster com um tema popular! Agora mesmo foi lançado um filme chamado Besouro, também desenhado para ser um estouro do de bilheteria, com boa realização técnica. Ainda não o vi, mas até canto uma canção nele. Besouro é outro exemplo disso, um ídolo popular, negro, mitológico capoeirista que existiu na Bahia e é transformado em super-herói. Essa é uma tendência e o Brasil terá interesse de ocupar os espaços do grande cinema popular de massas, na linha de Os Dois Filhos de Francisco. Também no cenário musical não é mais a classe média que domina a produção. São as favelas de São Paulo e do Rio, as periferias de Salvador e Recife, que estão criando novos gêneros, ditando novas modas.


No dia de seu desligamento do ministério, o senhor disse que cederia a canção Refazenda para divulgar “o avanço da agricultura familiar com os biocombustíveis”. Com a euforia do pré-sal, pouco se fala do assunto. Isso o preocupa?

Me preocupa sim. É aquela mania: acharam uma pepita de ouro, então não precisa mais trabalhar, plantar algodão, cebola. Vai viver da pepita de ouro. Não é assim. Nós estamos com a Convenção do Clima de Copenhague, que vai tratar do aquecimento global, batendo à porta. O petróleo, os combustíveis fósseis, são datados na história, ou seja, não são inesgotáveis. Está lá a luta de Obama, dos setores avançados do empresariado americano e da academia, em prol da prevalência das fontes alternativas. Não podemos nos descuidar disso. A instituição do meio ambiente no Brasil precisa ser fortalecida. É a mesma questão da cultura: o Ministério do Meio Ambiente ainda não está à altura, não tem orçamento, quadros, prestígio ou espaço no gabinete da Presidência, do jeito que deveria ter. Lula não dá a importância que deveria dar ao Ministério do Meio Ambiente.


O senhor diria que o pré-sal é uma bênção ou uma maldição?

Nem bênção nem maldição. É um recurso adicional num setor que ainda significa riqueza. Mas é só isso. O Brasil vai ter uma folga em combustível fóssil – e isso ajuda o País a pesquisar novas alternativas energéticas. Vai inclusive poder investir mais em pesquisa.


A senadora Marina Silva deixou o PT para ingressar em seu partido, o PV, e lançar-se candidata à Presidência da República. O senhor vai mesmo apoiá-la?

Já estou na campanha dela. Não preciso nem explicar o que ela significa. É como Caetano disse: politicamente e socialmente, Marina é um Lula, é um Obama. É uma mestiça brasileira que emerge, é mulher também, preparada, sensível, culta no sentido da vida e das coisas que circulam na periferia da política, é imersa nisso tudo desde a adolescência. Gosto muito dela. Nós trabalhávamos no mesmo prédio em Brasília, convivemos muito, temos afinidades. Confio nela.


Politicamente, ela significa o novo?

Sem dúvida. É um deslocamento no sentido do avanço. Assim como Fernando Henrique foi um belo presidente para o País e deixou espaço para que Lula o sucedesse de forma ainda mais interessante, uma presidência com Marina Silva seria um avanço ainda maior para o País. Do ponto de vista simbólico e, estou seguro, também do ponto político e pragmático. Pois ela seria hábil o suficiente para se cercar do que pode haver de melhor hoje no País, estabelecer diálogos com áreas importantes do pensamento brasileiro e do empreendedorismo.


E o que o senhor achou do complemento da frase de Caetano: “Marina não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro”?

Caetano disse claramente nas explicações que deu depois da entrevista, que foi apenas descritivo. Quis dizer uma coisa que é pública no Brasil: os linguistas aplaudem e o próprio Lula gosta do fato de ser visto como uma pessoa iletrada que chegou lá. Só que Caetano usou os termos mais chulos (risos) para se referir a uma coisa que todo o mundo admite, e da qual todos nos orgulhamos, o fato de um homem não letrado ter chegado à Presidência com tanto êxito.


Os discursos que fez e as conversas que teve em Brasília danificaram a sua voz. Como ela está?

Está indo bem. Voltei a cantar mais do que falar e tenho mantido cuidados fonoterápicos permanentes. Faço exercícios de voz diários para fortalecimento do aparelho vocal. Então minha voz tem estado bem melhor do que à época em que estava no ministério.


E que tal está o novo CD e DVD, o acústico Bandadois?

Havia uma demanda por parte de muita gente, fãs e amigos, para que eu me dedicasse a esse modelo simples, suave, do projeto acústico. Desde o disco Gil Luminoso (1999), que foi um projeto de voz e violão, tenho me dedicado a incursões por esse formato. Juntei-me a meu filho Bem, no Bandadois, e agora veio o Jaques Morelenbaum. Então, é um “bandatrês”. Um modelo que me dá tranquilidade, é mais manso, o uso da voz é mais moderado e não tenho que brigar com a intensidade timbrística das percussões ou instrumentos elétricos. Propicia uma expressividade mais sob meu próprio domínio e batuta. Mas também gosto das performances “stoneanas”, tão típicas de Londres (risos).


Hoje o senhor revê Londres com alegria ou melancolia?

A lembrança daqui é boa. Ainda hoje saí à rua com a Gilda (Mattoso, assessora do cantor), vendo as pessoas, os prédios, as ruas, a arquitetura, ônibus específicos… Londres é um lugar diferente, tem sua marca própria. Dizem que a Inglaterra é a China do Ocidente.


Na entrevista que deu ao “Aliás” quatro anos atrás, o senhor disse que seus filhos não iriam viver dos seus direitos autorais. Vimos, de fato, a autoria ser colocada em questão no mundo da internet. Qual é sua visão hoje?

De fato, há um desmantelamento, uma desconstrução do modelo clássico de autoria, que estava em vigência até agora. E muita coisa vira escombros, ruína, com prejuízos a grupos de interessados e titulares de direitos que viviam disso. Mas há um segundo aspecto importante no princípio do direito autoral, que é o acesso à obra, e que vem emergindo. Uma extensão imensa da acessibilidade e da própria autoralidade: falo das novas mini e microautoralidades que são proporcionadas pelo mundo digital. Todas as formas artísticas vão passar a ter uma dimensão mais pública mesmo. E para o atendimento dessa dimensão será preciso redesenhar todo um sistema legal e de direitos.


O que a sua parabólica anda captando em termos de cenário político para o Brasil?

Os fatos e os gestos internos, do próprio Brasil e do mundo, falam de forma mais eloquente do que eu poderia falar. Hoje o País é reconhecido e Lula é uma liderança mundial. Viajo pelo mundo todo e fico vendo: os repórteres só me perguntam disso, o Brasil, o Brasil. Eu fico pensando: “O que vou dizer a eles?” Não tenho nada a dizer. Eu sou o Brasil (risos).


ZÉ CELSO SE OPÕE A CAETANO, COM AMOR

11/11/2009

Maísa Paranhos, colaboradora do Jeito Baiano, chama a atenção para o texto que o diretor teatral, dramaturgo, fundador e líder do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, escreveu comentando a mais recente entrevista de Caetano Veloso.

Zé Celso se diz surpreso com a interpretação que “meu adorado Poeta Caetano” deu a Lula ao abrir seu voto a Marina Silva. Mas para o Zé o contraditório é bem-vindo – “que surjam perspectivas opostas” –, ainda mais partindo de Caetano, seu companheiro do movimento Tropicália, a quem agradece no final pela oportunidade de expor tudo que sente “do que estamos vivendo aqui agora no Brasil”.

O texto de Zé Celso foi extraído do blog da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona 50 anos:

http://blog.teatroficina.com.br/

ze_celso

JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA

7 de novembro de 2009

TROPICÁLIA

SOB O SIGNO DE ESCORPIÃO


por JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA

No mesmo dia que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no “Caderno de Cultura do Estadão”, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na sessão Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da Cultura, como Estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca. Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto.

Por outro lado meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto pra Marina Silva.

Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.

Percebi isto ao prefaciar a tradução em português criolo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: “Brutality Garden”, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira na Tulane University de New Orleans.

Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente Antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetês, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.

Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das relações exteriores, Marina Silva para o meio ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.

Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado Oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a “res pública”. Tudo dentro dum futebol democrático admirável de cintura. Lula não para de carnavalizar, de antropofagiar, pro país não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.

Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo quando convoca os jornalistas da Folha de São Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A Interpretação da Editoria é a do Jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí, quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.

Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num Teatro Grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, Lula é um Intérprete dela: a Vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômemos da escrita viva do mundo diante de seus olhos?

Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação.

Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarto grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na “Estrela Brasyleira a Vagar – Cacilda !!” para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendo este programa tétrico.

Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. “Amor Ordem e Progresso”. O Amor guilhotinado de nossa Bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.

Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta calegoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos como a sagração da natureza, a liberdade e a Paixão pelo Amor Energia, Santíssima Eletricidade. Sinto que nestas duas pessoas que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram.

A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai decicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega a hierarquia máxima do Teatro: a que corresponde ao Papa no Catolicismo: o Palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é a toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.

Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Esta “estasia”, Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que Exista!

Lula faz Política Culta e com Arte. Sabe que a Cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é Super, é Infra Estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazileiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um País de Poesia de Exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:

Vício na fala

Pra dizerem milho dizem mio

Pra melhor dizem mió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhado”


Zé Celso

SamPã, 6 de novembro

sob o signo de Escorpião

sexo da cabeça aos pés

minha Lua de Ariano

EVOÉROS


NOTA DO EDITOR – Este post liga-se diretamente a dois outros que estão mais abaixo:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/06/as-ultimas-de-caetano-veloso/

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/09/la-vem-de-novo-o-mano-caetano/

LÁ VEM (DE NOVO) O MANO CAETANO

09/11/2009

caetano_div

Caetanista antenado, o jornalista Vander Prata viu a notícia distribuída pela Agência Estado e a mandou para nós do blog Jeito Baiano (eu, Jary Cardoso, e zédejesusbarrêto): a notícia é a carta enviada por Caetano Veloso, indignado com o destaque dado pela mídia ao trecho de sua entrevista ao Estadão em que ele chama o presidente Lula de analfabeto e cafona. A carta esclarece o contexto em que isso foi dito, mas em nenhum momento Caetano retira a declaração. Pelo contrário, classifica esse trecho pinçado do seu comentário sobre Marina Silva da mesma forma que o Jeito Baiano o havia qualificado na apresentação da entrevista: trata-se do “óbvio” – e o óbvio ululante! Ou melhor: uLULAnte.

Veja o e-mail de Vander Prata contendo a carta de Caetano (P.S. – O título deste post é de autoria de Vander):

bARRETIM/ jARY

PÔ o cara teve que dar um depoimento por escrito pra entenderem sua fala?

Mais didático, impossível.

abrações aos manos,

Vander

09/11/2009 | 20:07 | Agência Estado

Caetano esclarece entrevista em que chamou Lula de “analfabeto”

“Ressaltei essa diferença entre Lula e Marina para explicar por que eu dizia que ela é também um fenômeno tipo Obama”, disse o cantor

O compositor Caetano Veloso se referiu ao presidente Lula com expressões como “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro” ao anunciar preferência pela eventual candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência, durante entrevista a Sonia Racy, no Caderno 2 do jornal “O Estado de S.Paulo”, no dia 2. “Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem”, disse na entrevista. A declaração provocou reações no meio político. Na sexta-feira, o próprio Lula reagiu. “Tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Não tem nada mais burro do que isso.”

Veja a íntegra da carta de Caetano Veloso:

“O que mais me impressiona é as pessoas reagirem diante da manchete do jornal, tal como ela foi armada para criar briga, sem sequer parecerem ter lido o trecho da entrevista de onde ela foi tirada. É um país de analfabetos? A intenção sensacionalista da edição tem êxito inconteste com os leitores. Pobres de nós.

Sonia Racy sabe que eu ressaltei essa diferença entre Lula e Marina para explicar por que eu dizia que ela é também um fenômeno tipo Obama (coisa que Racy e Nelson Motta não entenderam). Marina é Lula (a biografia) e é Obama (a cor escura e o modo elegante e correto de falar – e escrever). Li aqui que Lula disse que é burrice minha dizer isso. É. Serve para Berzoini contar alegremente votos migrando de Serra ou Aécio para Marina, não de Dilma. Ainda mais que toca nesse ponto óbvio (que para mim tem todas as vantagens e desvantagens, não sendo um aspecto meramente negativo) da fala pouco instruída e frequentemente grosseira e cafona de Lula. Todos sabem disso. Ele próprio se vangloria. Os linguistas aplaudem. E todos têm razão: ele é forte inclusive por isso. Fala “bem”: atinge a maioria dos ouvintes. Sua fala tem competência – e ele, como eu próprio disse na entrevista, é um governante importante. Mundialmente está reconhecido como alguém que chegou lá e foi além do esperado. Quisera Obama estar na mesma situação. Querer dizer que FH era mau governante e Lula é bom é maluquice. Ambos foram conquistas brasileiras importantes. Marina seria um passo à frente. Simbolicamente ao menos. Não creio que ela seria um entrave às pesquisas de células-tronco e à união civil de homossexuais. Se for, eu estarei aqui para me opor a ela. Aborto, união gay, embriões são matéria do Legislativo. O Executivo pode influir? Pode. Mas Marina seria uma presidente do tipo autoritário? Não creio. Criacionismo? Ela jamais cairia na confusão de ensino religioso com ensino científico. Ela é racional, atenta, dialoga com calma. Todos esses assuntos podemos debater com ela como com ninguém: ao menos estaremos certos de que ela não será hipócrita. Se houver candidatura e campanha, teremos tempo para isso. Não penso tanto como Marina sobre a Amazônia. Penso mais como Mangabeira. Já disse. Mas forças políticas surgem assim. Marina chegar a ser candidata é notícia grande. Não posso fingir que não é. E detesto essa mania de que nada se pode dizer que não seja adulação a Lula. Não estamos na União Soviética. Eu não disse nenhuma novidade. Nem considero ofensivo. É descritivo. E a motivação era esclarecer a parecença de Marina com Obama (que me interessa muito). E todos os entendidos me dizem que os banqueiros estão com medo é de Serra: adoram Lula. Então por que a demagogia de dizer que FH era pelos de poder aquisitivo? Até os programas sociais que Lula desenvolveu nasceram no governo FH. O Fome Zero naufragou. Eles se voltaram, espertamente (e felizmente), para o Bolsa-Escola de dona Ruth. Eu ter mencionado a fala analfabeta de Lula não é bom para a campanha de Marina. Mas ainda não estamos em campanha. Eu acho”.

NOTA DO EDITOR – A entrevista de Caetano Veloso ao Estadão está postada aqui no Jeito Baiano:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/06/as-ultimas-de-caetano-veloso/

AS ÚLTIMAS DE CAETANO VELOSO

06/11/2009

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Antes de voltar a Sampa com o show Zii e Zie, o cantor e compositor baiano falou sobre Brasil, violência e eleições numa entrevista exclusiva ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 5.11.2009.

Mais uma vez declarações de Caetano Veloso provocam críticas e protestos de todas as correntes de opinião. Desta vez se destacou o trecho em que ele chama o presidente Lula de analfabeto. Como sempre também, Caetano disse muito mais do que o óbvio ululante, vale a pena conferir:


por SONIA RACY, repórter do “Estadão”

RIO – À exceção de alguns momentos mais incisivos, Caetano Veloso deixou claro, na entrevista ao Estado, semana passada, na sede da Natasha Produções, no Rio, que a maturidade lhe subiu à cabeça. Uma boa sabedoria emerge, fácil, da sua tranquilidade interior.

O posicionamento rebelde do início da carreira, que às vezes assumia as cores da esquerda, deu lugar, hoje, a um discurso racional, realista. Que nada tem, no entanto, das desilusões de quem perdeu a esperança – e isso transparece, com força, quando anuncia sua opção pela candidatura de Marina Silva.

– Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.

Sobre as mudanças propostas na Lei Rouanet, Caetano se esquiva: “Eu sou daquelas moças… não estudei direito”, diz o artista que, na era da tecnologia, não usa sequer o celular, não gosta do Twitter, mas se comunica sempre por e-mail.

E cadê as novas pessoas com a força do talento de um Caetano, um Gil ou Chico? O mundo hoje é de gente pré-fabricada pelo marketing e meios de comunicação? Nada disso. Para Caetano, houve uma mudança tecnológica imensa e também desdobramentos históricos.

– Fico me perguntando: aqueles pintores que ficaram famosos foram mais sagazes em seduzir príncipes ou reis, ou eram mesmo os mais talentosos? Ou foram os que combinaram melhor as duas coisas? Ou os que tiveram a sorte de encontrar um príncipe que gostou deles? A diferença hoje passa por outros canais.

E isso é bom ou é ruim? “Nem bom nem ruim, é o que é.”

Caetano volta a São Paulo amanhã (6.11) – por três dias – para seu show Zii e Zie, no Citibank Hall. Que depois, em 2010, transformará em turnê internacional: março pela América Latina, abril nos EUA, julho Europa e talvez Austrália e Ásia em setembro. Só ao final dele é que pensará no futuro de seu futuro. Aqui, trechos da conversa.


Como você vê o Brasil?

Acabei de ler no New York Times que, possivelmente, o Brasil é o País mais importante do mundo para o qual estão voltados todos os olhos do mundo. Não que o artigo todo seja a favor, é até crítico e contra. Mas parte do pressuposto de que o Brasil é um êxito histórico aos olhos deles, estrangeiros, muito maior do que a gente imagina. Partem do pressuposto de que o Brasil é algo grandioso e falam justamente sobre as provas de que o País não superou o que há de horrendo nele. Se referindo à derrubada daquele helicóptero por traficantes no Rio, à violência, e a uma passividade do Brasil em relação às finanças internacionais, como que dizendo que o País deveria liderar uma virada nessa questão.


E você, o que acha?

Sempre achei que o Brasil é um país com destino de grandeza e uma originalidade fatal.


O que é uma “originalidade fatal”?

Somos um país de dimensões continentais, cujo povo fala português nas Américas, com uma população altamente miscigenada… São muitos fatores estranhos… O português é considerado assim o “túmulo de espírito”. O próprio padre Antônio Vieira disse isso da língua. No entanto, essas desvantagens apontam para uma originalidade enorme, que a gente pode ou não aproveitar. Então eu gosto, por exemplo, de uma entrevista do (ex-ministro) Mangabeira (Unger) no Estadão sobre a Amazônia, em que ele diz que o Brasil devia fazer dela uma experiência de vanguarda tecnológica e de desbravamento de atitudes com relação ao desenvolvimento sustentável. Uma coisa de grande ambição, experimental. Acho que essas visões é que apontam para a verdadeira vocação do Brasil. É assim que eu penso. E olhe que minha candidata à Presidência é Marina Silva.


Você já escolheu?

Pode botar aí. Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem. Mas olha, eu concordo com o Mangabeira sobre a vanguarda tecnológica e o desbravamento. Parece uma contradição? Mas é assim.


Talvez não seja. Em nenhum momento o Mangabeira fala em destruição, em uso não sustentável…

Não sei se a Marina diria dessa forma. E acho que há, sim, uma tensão da posição dela em relação à de Mangabeira, embora ela seja a minha candidata. Se ela for, voto nela, com a esperança de que ela, com sensatez que sempre demonstra, acolha a complexidade da realidade. E, no poder, seja mais pragmática que Lula. E mais elegante, o que já é.


A Marina teria condições de gerir um país deste tamanho?

Acho que ela é muito responsável e muito sensata. Se empenhar as energias para ganhar e se tornar capaz disso, ela levará a sensatez ao ponto de poder gerir. Suponho que agora ela não parece ter essa capacidade, com as coisas como estão.


Serra faria um bom governo?

Pode fazer. O Serra foi um excelente ministro da Saúde. Agora, ele é o tipo do cara que, se tivesse ganho no lugar de Lula, em 2002, teria trazido mais problemas à economia brasileira. Ele teria feito um governo mais à esquerda e a economia talvez tivesse problemas que não está tendo porque o Lula fez a economia de direita. E ouve os conselhos de Delfim Neto, que o Serra não ouviria. O Lula foi mais realista que o rei. Foi bom, a economia deslanchou.


E Dilma?

Não tenho ideia. Ela tem um trabalho de pura gestão, mas sem experiência de poder político direto. Ela nunca foi eleita a coisa nenhuma.


A Marina tem?

Ela tem. Os candidatos são todos de nível bom. Vou falar em Aécio, de quem eu gosto muito. Talvez seja meu favorito entre os gestores. Porque acho que o Serra talvez ficasse mais isolado que o Aécio. E a Dilma talvez ficasse muito presa ao esquema estabelecido de ocupação dos espaços estatais pelo governo do PT.


Qual a função do Estado no processo de desenvolvimento?

Não tenho uma ideia precisa. Simpatizo muito com a tradição liberal inglesa e anglófona. Mas não me identifico plenamente com a ideia de Estado mínimo, de liberdade para as transações.


Antes da crise econômica, você era a favor do Estado mínimo?

Não. Eu tinha uma certa raiva daquela onda de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, embora simpatize com o liberalismo de língua inglesa. Sempre me vem à cabeça a ideia de que a Margaret Thatcher estaria dizendo algo do tipo “eu privatizaria o ar, se pudesse…” Acho que ela chegou mesmo a dizer isso, pelo menos corre a lenda a respeito. E quando eu vejo essa gente dizer que a única coisa que deve mover as pessoas é o desejo de lucro tenho vontade de me agarrar em São Francisco de Assis, entendeu?


O Estado tem que mexer na Lei Rouanet?

Não sou muito bom nesse negócio. Sou como umas moças que eram bonitas e apareciam nuas nos filmes, e tinham de ter uma opinião política. Eu sou assim. Não sei se tem que mudar. Fico com pena do leitor de jornal, quando sai assim “a excursão de tal cantora foi recusada”, ou “foi aprovada”, ou ainda “pode captar”. Para música popular, o máximo da captação é 30%. Mas 30% de quê? O público lá sabe o que é isso? Para música clássica, pode chegar a 100%… Mas repito: eu sou daquelas moças… não estudei direito.


Mas voltando ao Estado brasileiro, ele é eficiente?

Meu pai foi funcionário público, dedicadíssimo à sua função. Embora estatísticas provem o contrário, ele contrariava as estatísticas. Então eu tenho uma ideia de que o serviço público pode ser amado, a pessoa pode dar todo seu sangue àquilo. E que não apenas o lucro capitalista é a única motivação.


O Estado deve ser um regulador…

Justamente, a ideia é essa. Que ele seja o regulador do equilíbrio de forças. Os governos têm de se submeter à lei, para estar representando o Estado.


Mas é o problema: cumpre-se a lei?

Não, muitas vezes não. Mas esse negócio de Estado muito forte não me atrai. Acho que ele tem de ser firme, mas não tem de ser um Estado de força. A lei tem de ser nítida, obedecida por todos, em primeiro lugar por quem manda. Ele não tem de se meter, tem de regular, para criar um equilíbrio. Agora, é preciso saber se os seres humanos têm essa saúde mental para querer que as coisas funcionem assim. A vida é complicada, dolorosa, difícil, as pessoas na verdade vão para atitudes muito irracionais… Sabe quem eu acho que tem o discurso mais interessante sobre como a gente, em coletividade, se comporta e como é complicado ter esperança? Freud. Acho que Freud fala de modo mais interessante sobre possibilidades do homem como ser social, do que os marxistas e do que muitos liberais. Pessoas não podem ter esses poderes enormes.


E o que acha da América Latina? No que ela está se transformando com pessoas que têm esses poderes enormes?

Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista – uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático – mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.


O Rio tem um desafio, de se pôr em ordem até 2016. Vai dar?

Ele tem de conseguir alguma coisa. Eu li na semana passada, no The Economist, que um dos agravantes para o Rio é o relativo igualitarismo da economia do tráfico. A revista não dá ênfase à derrubada do helicóptero, falam é da economia do tráfico. Que os drug lords do Rio não têm aquela vida de carrões, dinheiro, mulheres… diferentemente do resto da sociedade, onde as diferenças são abissais. A gente devia atentar pra isso.


Algum dia pensou em se mudar?

Não, nunca.


A violência o assusta?

Sempre assusta, até em filmes. Mas não vivo com medo.


As pessoas perderam a capacidade de se indignar?

Não acredito muito nisso. Hoje as pessoas aceitam a violência, o Congresso com essa corrupção toda… O povo não é tolo assim. Hoje há mais exposição dessas coisas. Então não é que as coisas mudaram, é que elas vieram à tona. Suponho que o povo percebe. Passei um ano no Rio e vi como eram as coisas, não se pode dizer que era melhor. E não se falava muito do assunto. Ele apenas veio à tona. Mas olha, vir à tona é uma melhoria.


Como você se relaciona com a tecnologia?

Sou um pouco parcimonioso. Por exemplo, não tenho celular. Nunca tive. Vivo como se estivesse em 1957. Sei que o celular veio bem depois, mas eu ajo com relação a isso como se fosse 1957. Escolhi esse ano porque é um ano que eu gosto.


E o Twitter?

Twitter não. Eu gosto muito de e-mail.


VIVA CAETANO VELOSO!!!

07/08/2009

Aproveito a data, dia do aniversário de Caetano Veloso, para desovar, digo postar dois textos que estavam para ser publicados no Jeito Baiano desde maio, mas que por uma conjunção dos astros – ou trama de orixás – só agora será possível. Os artigos de Marlon Marcos e Jorge Portugal foram motivados pela intervenção leonina de Caetano nos festejos deste ano do Bembé do Mercado, que acontecem todo 13 de Maio em Santo Amaro.

Caetano deu vivas à Princesa Isabel, atitude chocante para o Movimento Negro. Mas chamo a atenção para este trecho do texto de Jorge Portugal que é uma importante revelação e que antecipo aqui:

“(…) ouvi da boca de Dr. Samuel Vida, para mim o mais competente quadro do movimento negro na atualidade, que ‘já estava mais do que na hora de se repensar a rejeição ao 13 de Maio’, bandeira assumida pelo movimento nesses últimos 30 anos”. 

Festa do Bembé do Mercado. Foto: Prefeitura de Santo Amaro | Divulgação

Festa do Bembé do Mercado. Foto: Prefeitura de Santo Amaro 13.5.2009

 

CAETANO VELOSO

E NOVAS ASSERTIVAS

SOBRE O 13 DE MAIO

  

por MARLON MARCOS*

 

Em 7 de agosto de 1942, na cidade de Santo Amaro da Purificação, polo de efervescência cultural do Recôncavo Baiano, nasceu Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso, internacionalmente conhecido como Caetano Veloso, um dos mais representativos artistas do cancioneiro brasileiro. Divisor de águas no cenário cultural deste país, além de cantor (hoje o melhor do Brasil) e compositor, Caetano se destaca entre nós como um formulador de idéias provocativas e instigantes. Cria canções com a mesma habilidade que desfia leituras polêmicas sobre o “ser Brasil”, fazendo incursões em áreas especializadas do saber acadêmico e, às vezes, enfurecendo historiadores, antropólogos, sociólogos, linguistas, literatos e seus eternos “amores”, os jornalistas.

Foi no mês de maio do corrente ano, no dia em que se comemora a Abolição da escravatura, em Santo Amaro, que Caê tornou a irritar seus espectadores, desta vez, afirmando: “o 13 de maio é da Princesa Isabel e é burrice se negar a importância histórica da abolição”. Essa deixa inflamada ocorreu numa noite de reflexões sobre os 120 anos do Bembé do Mercado, festa religiosa do candomblé santo-amarense em comemoração ao fim da escravidão, que sempre tem sua culminância, no dia 13 , com a oferta de um grande presente à Senhora das águas salgadas, o orixá Iemanjá. O evento-seminário foi organizado pela Secretaria de Cultura daquele município, que tem como secretário Rodrigo Velloso, um dos irmãos do cantor, e contou com a participação de Zulu Araújo, presidente da Fundação Palmares, com a historiadora Profª. Ana Rita Araújo Machado, entre outros discursadores.

 

 

Durante a festa dos 120 anos do Bembé do Mercado, a historiadora Ana Rita Machado faz sua exposição em seminário de que participaram Rodrigo Velloso, Mabel Velloso, Zulu Araújo, o prefeito Ricardo Machado e Caetano, entre outros. Foto: Toinho Simões | Agência A Tarde 13.5.2009

Durante a festa dos 120 anos do Bembé do Mercado, a historiadora Ana Rita Machado faz sua exposição em seminário de que participaram Rodrigo Velloso, Mabel Velloso, Zulu Araújo, o prefeito Ricardo Machado e Caetano, entre outros. Foto: Toinho Simões | Agência A Tarde 13.5.2009

 

 

As falas de Ana Rita Machado e de Zulu Araújo foram na direção de se recuperar a memória popular, negra e religiosa do Bembé do Mercado e assim, minimizar a mitificação em torno do nome da Princesa Isabel, vista pelas historiografias oficiais como a redentora dos negros no Brasil, e negar o projeto abolicionista efetivado com a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, sem garantir cidadania e inclusão social aos negros tornados livres.

A partir destas falas, consideradas eloquentes e inteligentes por Caetano, que o nosso autor de Trilhos Urbanos despejou seu discurso eloquente e criticou os movimentos negros brasileiros, apontando-os como meras cópias da negritude “norte-americana”, falou em atraso, em um aprisionamento ideológico datado nos anos 70 e que para se prosperar é preciso se fazer uma leitura mais ampla da Abolição, um fenômeno histórico considerado pelo cantor, como instrumento vital de emancipação sociopolítica dos humanos negros no Brasil, e que se deve falar em 13 de maio como conquista sem negar a importância da princesa Isabel neste processo.

Em entrevista coletiva para divulgar em Salvador seu trabalho mais recente, Zii Zie, um dia após as polêmicas desferidas em sua cidade natal, o compositor afirmou que os impedimentos de avanços e inclusão dos negros neste Brasil se devem muito mais a limitações da República do que um possível descaso legal por parte da Monarquia naquele período: “Se os negros não avançaram a culpa foi da República”.

Na órbita das revisões históricas em torno da Abolição, quem se filia a muitas impressões de Caetano Veloso é o seu conterrâneo, o poeta Jorge Portugal. Portugal acha que ao superestimar o papel de Isabel no 13 de maio, Caetano se lança numa provocação, mas não deixa de apontar reflexões muito relevantes para que tenhamos uma compreensão mais nítida da importância desta data na história brasileira.

Jorge Portugal comenta também outras reflexões que são emblemáticas e estão em sintonia com Veloso, as de Cristovam Buarque que afirmou: “O dia 14 de maio já foi melhor que o dia 12”; e do lustre militante do movimento negro Samuel Vida, advogado e professor universitário, que também defende uma releitura do 13 de maio para destacar os avanços que esse evento ocasionou aos nossos ancestrais de origem africana.

Hoje, Caetano faz 67 anos de vida, mais de quarenta de carreira, e com certeza, quase todos de polêmica e muita vanguarda, haja vista, reza a lenda, que foi ele quem escolheu o nome Maria Bethânia para sua irmã recém-nascida, quando ele tinha 4 anos; criou polêmica em casa, e ganhando na sugestão, acertou em cheio ao ajudar na afirmação de um nome artístico, o de sua irmã, como uma das marcas mais importantes do canto feminino no mundo contemporâneo.

 

*Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

 

OFERENDA DOS PRESENTES - Cena da festa de tradição religiosa afro-brasileira. O BEMBÉ DO MERCADO é a festa popular que comemora a Abolição da escravatura, com apresentação de danças religiosas do Candomblé em louvor aos Orixás das Águas (Oxum e Iemanjá) em um caramanchão em frente ao Mercado Municipal de Santo Amaro. Há também exibições de maculelê, capoeira, afoxé e entrega do presente de Iemanjá. Tem grande significado para a afirmação da cidadania negra no Brasil. Foto: Joa Souza | Agência A Tarde 13.5.2007

OFERENDA DOS PRESENTES - Cena da festa de tradição religiosa afro-brasileira. O BEMBÉ DO MERCADO é a festa popular que comemora a Abolição da escravatura, com apresentação de danças religiosas do Candomblé em louvor aos Orixás das Águas (Oxum e Iemanjá) em um caramanchão em frente ao Mercado Municipal de Santo Amaro. Há também exibições de maculelê, capoeira, afoxé e entrega do presente de Iemanjá. Tem grande significado para a afirmação da cidadania negra no Brasil. Foto: Joa Souza | Agência A Tarde 13.5.2007

 

CAETÂNICOS ZUMBIS

 

por JORGE PORTUGAL

 

Um amigo santamarense que possui veleidades aristocráticas me disse – à beira das lágrimas emocionadas – do viva de Caetano à Princesa Isabel, no dia 13 de Maio, no Bembé do Mercado.

Certamente que um aguerrido militante como o professor Carlos Moore, ou mesmo Vilma Reis iriam à loucura ao ouvir uma coisa dessas. Eu, nem tanto. Aliás, lá mesmo em Santo Amaro, numa mesa de debates no sábado, ouvi da boca de Dr. Samuel Vida, para mim o mais competente quadro do movimento negro na atualidade, que “já estava mais do que na hora de se repensar a rejeição ao 13 de Maio”, bandeira assumida pelo movimento nesses últimos 30 anos.

Óbvio que enaltecer desmedidamente o papel da Princesa Isabel para negar o que os negros em movimento fizeram a partir de 1978 é mais uma provocação caetânica. Não rima nem de longe com o pensamento de quem escreveu a letra de Haiti – para mim, o mais contundente libelo contra o racismo e seus derivados em nossa contemporaneidade.

Mas, desde longe que me pus a pensar se não era exagero do MNU (Movimento Negro Unificado) descartar simplesmente tudo que significou – e levou – ao 13 de Maio de 1888.

No movimento abolicionista tivemos a presença de negros combativos e heróicos como o poeta Luís Gama, e tivemos também brancos sinceramente engajados com a causa como Joaquim Nabuco e outros tantos. Apagar-lhe a participação só porque tinham a pele clara e não propunham “enforcar o último branco nas tripas do último nobre”?

Sei também que o “13 de Maio” nos deu liberdade sem cidadania, a raiz profunda da sociedade excludente e injusta em que vivemos hoje. Contudo, como me disse o sempre iluminado Cristovam Buarque, “o dia 14 de Maio já foi melhor que o dia 12”.

Sei, por fim, que durante os últimos 30 anos, para construir e afirmar a história do movimento negro, foi preciso negar a Lei Áurea e colocar Zumbi no nosso altar-mor.

Entretanto, passados justamente os 30 anos, e com as primeiras vitórias colhidas pelo movimento (ações afirmativas e cotas, principalmente) já podemos assumir sem medo e sem culpa os parceiros de ontem e de hoje dessa luta comum. Aqueles a quem chamo de “negões da pele branca”.

Se Caetano deu vivas à Princesa Isabel, deveria ter dado vivas também à Condessa de Barral, conterrânea dele e amante do Imperador D. Pedro Segundo, abolicionista desde a primeira hora e que exerceu forte influência sobre o monarca e sua filha com suas idéias sobre a libertação dos escravos.

Digo tudo isso com a serenidade de quem coordenou na Bahia, na sede do Ylê Aiyê, a sessão histórica do senado em que os senadores Rodolpho Tourinho, relator, e Paulo Paim, autor da proposta, discutiram com o movimento negro da Bahia os termos finais do Estatuto da Igualdade Racial, que viria a ser aprovado dias depois na câmara alta.

Portanto, chega de posições excludentes e exclusivas. Na minha militância sócio-poética, continuo brandindo meu verso-enigma: minha pele é linguagem e a leitura é toda sua!

 

13 DE MAIO

 

Dia 13 de maio em Santo Amaro

Na Praça do Mercado

Os pretos celebravam

(talvez hoje inda o façam)

O fim da escravidão

Da escravidão

O fim da escravidão

Tanta pindoba!

Lembro do aluá

Lembro da maniçoba

Foguetes no ar

Pra saudar Isabel

Ô Isabé

Pra saudar Isabé

(CaetanoVeloso- Noites do Norte/2000)

TUZÉ DE ABREU VÊ CAETANO VELOSO

06/06/2009

Tuzé de Abreu voltou do show de Caetano na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, nesta sexta-feira dia 5, e, ligeiro, enviou este recado por e-mail:

Depois de já ter escutado várias vezes o CD Zii e Zie, fui ver o show na concha acústica. Como tive que tocar com a orquestra da Ufba na reitoria cheguei atrasado, na sexta música (vi a ordem depois no camarim dos músicos), tendo perdido não apenas Perdeu, atualmente a minha favorita no CD, como a abertura, que todos dizem ter sido antológica, onde Caetano homenageia, muito merecidamente, o Psirico, que ao lado do Fantasmão foi a coisa mais nova apresentada no carnaval de Salvador de 2009. Saí do show com a minha sensação favorita de “o melhor show que vi em minha vida”. Certamente já tive essa sensação antes, e espero voltar a tê-la. Quando era adolescente, escrevi sobre alguma coisa chamando-a de “tecido cinematosfônico”. Zii e Zie é ainda mais que isso. Foi emocionante ver uma garota de seus 17 anos, que estava junto de mim na plateia, cantando Eu Sou Neguinha, inteira, junto com Caetano. Aliás, esse momento do show é o máximo.

Veja neste link extraído do site da Muito, revista dominical do jornal A Tarde, o ótimo relato da repórter Katherine Funk sobre o show:

http://revistamuito.atarde.com.br/?p=1808

A matéria de Katherine contém o link pelo qual se pode escutar todo o CD Zii e Zie e acompanhar as músicas com as letras:

http://www.umw.com.br/artistas/caetano_veloso/zii_e_zie/

Veja o YouTube de Perdeu, a atual favorita de Tuzé, gravada em show do Obra em Progresso:

Agora, Sem Cais, também gravada em show do Obra em Progresso: