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DONA DALVA DAMIANA – GENTE DA BAHIA

16/04/2010

DONA DALVA DAMIANA

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Resquícios do religioso

na cidade de Cachoeira

 

Memória e história oral de vida

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texto de SEBASTIÃO HEBER*

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Estou fazendo uma pesquisa em Cachoeira que é para o meu pós-doutorado na PUC de São Paulo. O foco da pesquisa é em torno de Dona Dalva Damiana, fundadora do samba-de-roda Suerdieck, que já ultrapassou os 50 anos de existência.

Ela é detentora de uma sabedoria singular. Suas avós, materna e paterna, morreram com cerca de 90 anos. Toda a vivência de uma Cachoeira que não está escrita, mas que se conserva na mente e no coração dela, advém das informações que suas avós lhe deram. São, especialmente, preciosos os dados concernentes aos resquícios do religioso entre os anos 30 e 50, que suas avós vivenciaram.

Dona Dalva nasceu em Cachoeira em 27 de setembro de 1927, filha de Antônio José de Freitas e de Maria São Pedro de Freitas. O pai morreu cedo, com 51 anos, era sapateiro, e guarda municipal. A mãe foi mais longeva, morreu aos 97 anos.

Sua avó paterna chama-se Vicência Ribeiro da Costa. Dona Dalva não se lembra da data do nascimento dela, mas sabe que o aniversário era no dia de São José, isto é, 19 de março. Ela negociava com coco e peixe em Feira de Santana.

A avó materna, Maria Tereza de Jesus, faleceu no dia de ano novo, mas ela também não se lembra do ano. Ela lavava roupa no rio que passa no bairro do Caquende. “A roupa era bem lavada e até fervida”, conta ela, e tinha muitos fregueses.

Ambas as avós faleceram com mais de 80 anos – “talvez até mais”, acrescenta ela.

É a partir da perspectiva dos saberes locais que vem sendo desenvolvida essa pesquisa, tendo por base a história oral de vida. Sabe-se que nas sociedades ágrafas, a palavra assumia o valor que esses povos conferiam à transmissão dos conhecimentos por meio da oralidade, de cuja capacidade herdavam os conhecimentos e os costumes dos grupos.

Através dos relatos conservados por Dona Dalva, as avós mostram sua vivência naquela cidade e refletem as práticas sócio-religiosas de sua época. Esses elementos são uma moldura para se entender a própria cidade.

As avós participaram das atividades religiosas, especialmente como integrantes de irmandades, que são canais singulares de uma vivência religiosa portadora de uma sabedoria proveniente de espaços não-formais, além de serem um lócus de resistência.

As irmandades tiveram, desde as suas origens, um sentido social. Isto é, foram de expressão interétnica, com obrigações de colaboração mútua com os seus membros. Tudo isso seria para fins múltiplos: desde a compra de alforria, festejos, pagamentos de missa, caridade, vestuário, até a possibilidade de um funeral decente.

Isso tudo nos leva a crer e a constatar que a memória presente só pode ser reconstituída através do testemunho oral das pessoas mais idosas.

Muitas vezes encontram-se preconceitos contra os relatos orais: seriam por demais subjetivos, apenas refletem uma nostalgia do passado. Mas a memória não é apenas um mero voo que nos transporta para um passado nostálgico, mas ela traduz e aponta para o sentimento de pertença salvando a identidade.

O surgimento da história oral de vida tem despertado nos cientistas sociais, de modo particular, nos historiadores e antropólogos, um enorme interesse. Na verdade, esse método tem contribuído para ampliar as alternativas das pesquisas históricas na contemporaneidade e tem sido um amplo espaço interdisciplinar para o qual convergem inúmeros diálogos entre as Ciências Sociais.

A partir da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento de novas tecnologias – gravador, fita magnética de áudio, etc. –, ela teve uma evolução favorável, ganhou força e se expandiu com característica de ciência engajada e militante. Os movimentos contestadores, respaldados em Foucault, Goffmann, Clastres, Thompson e outros cientistas sociais e historiadores, delinearam-se por um viés que estava voltado para dar vez e voz aos excluídos e às minorias silenciosas.

Através desses relatos pode-se inferir quais foram as expressões religiosas mais marcantes naquele período em Cachoeira. Como esses grupos agiam e atuavam? Ficavam à margem da Igreja oficial, na sua expressão paroquial, tinham o controle dos vigários, ou gozavam de uma certa independência? Há elementos daquela vivência que ainda estão presentes, ou muitos se perderam, houve trocas de expressões religiosas?

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*Sebastião Heber – Professor adjunto de Antropologia da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e da Faculdade Dois de Julho, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris


GAIAKU LUIZA – GENTE DA BAHIA

02/09/2009
Imagem extraída do documentário Gaiaku Luiza – Força e Magia dos Voduns, com direção, edição e roteiro de Soraya Mesquita. Foto: Divulgação

Imagem extraída do documentário Gaiaku Luiza – Força e Magia dos Voduns, com direção, edição e roteiro de Soraya Mesquita. Foto: Divulgação

INSPIRAÇÃO DO DIVINO

 

por MARLON MARCOS*

 

Uma das mais importantes sacerdotisas das chamadas religiões de matriz africana do século XX, Gaiaku Luiza de Oyá, faria, se estivesse viva, 100 anos em 25 de agosto de 2009. O legado desta senhora se fundamenta num saber litúrgico impressionante acerca das várias nações de candomblé, o Angola, o Ketu, o Jeje, e nessa variância de complexa tradução, sua marca mais precisa, pode ser verificada na criação de um Terreiro inteiramente dedicado ao Jeje-Mahi, nos idos de 1959, na bela e negra cidade de Cachoeira da Bahia.

D. Luiza de Oyá, mãe de muita inspiração espiritual, faleceu no dia 20 de junho de 2005, em seu templo religioso, o Húnkpámè Ayíonó Huntóloji, casa que ilustra a grandeza desta sacerdotisa tão pouco conhecida dos baianos e brasileiros. Foi-se aos 95 anos de uma vida longeva, lúcida, comunicativa, criadora e sábia. A sabedoria foi a marca principal da Gaiaku que carregava o vodum das tempestades e do silêncio mortuário, rainha do branco na ligação da terra aos céus, morada dos nossos maiorais: Oyá, conhecida também, pelos filhos do Ketu, como Iansã.

Luiza Franquelina da Rocha viveu as delícias e agruras do povo-de-santo cachoeirano, nascendo no seio do candomblé, respirando os ares de uma recente abolição da escravatura, num universo racista que não respeitava as tradições religiosas de origem africana reinventadas no Brasil. Uma mulher nascida em 1909, de beleza e inteligência raras, que percorreu quase todo o século XX, salvaguardando a liturgia desta nação ritual tão pouco conhecida de nós todos.

Mais que baluarte, ela foi mestra pedagógica do que chamamos, em síntese, de candomblé. Recebia a todos em sua casa, sentada em sua cadeira, hospitaleira e majestosa, pra mim, foi a real imperadora desta religião tão rica de significados, porque abrigava como mãe, ensinava como mestra, distraía como amiga, aconselhava em sua sabedoria, enriquecia-nos com palavras e iluminava como sacerdotisa. Que tardes deliciosas ela nos proporcionava com sua memória prodigiosa; quantas histórias e quanta luz de uma intelectualidade construída fora das fôrmas das academias.

D. Luiza era uma espécie de tempero celeste que nos fazia imaginar outras senhoras do candomblé, como D. Aninha de Afonjá, a saudosa Obá Biyi, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá. Gaiaku Luiza corporificava sua cidade Cachoeira, com uma presença de espírito que a colocava como uma cidadã do mundo, que morou em outros lugares, como Salvador e Rio de Janeiro.

Oyá venta a memória de sua filha entre nós. Gaiaku, como era chamada respeitosamente, deixou seguidores; entre as mais coadunadas aos ensinamentos da grande mãe está Mãe Zulmira de Nanã, potentado de saber, ligação entre três nações de candomblé: o Jeje-Mahi, o Ketu, o Angola, nação pela qual Mãe Zulmira cultua em seu terreiro em Lauro de Freitas, as entidades legadas por nossos ancestrais africanos.

 

* Marlon Marcos é jornalista, antropólogo e blogueiro (http://www.memoriasdomar.blogspot.com/)

CACHOEIRA DA BOA MORTE

13/08/2009
Integrantes da Irmandade da Boa Morte no primeiro dia da festa deste ano, em Cachoeira. Foto: Reginaldo Pereira | Agência A Tarde 13.8.2009

Integrantes da Irmandade da Boa Morte no primeiro dia da festa deste ano, em Cachoeira. Foto: Reginaldo Pereira | Agência A Tarde 13.8.2009

por ZÉDEJESUSBARRÊTO*

 

É no presépio plantado às margens do Paraguaçu, recôncavo baiano, que se abriga uma das maiores relíquias afrobaianas:

A irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte.

Um exemplo de resistência e de identidade de um povo que, mesmo diante da voracidade destes tempos digitais, preserva seus costumes ancestrais à base da tradição oral.

Geração a geração.

Manifestação também do mais puro sincretismo religioso baiano, memória dos tempos de escravidão, quando os batuques da noite ecoavam nos altares das igrejas e os cânticos das procissões complementavam as obrigações dos terreiros jêje-nagôs, entre plantações de fumo e canaviais.

A secular irmandade da Boa Morte, de acordo com os estudiosos e os costumes, é uma confraria exclusivamente feminina fundada na Igreja da Barroquinha, em Salvador, ainda no século XVIII, por africanas libertas nagôs (iorubanas, vindas do Benim/Nigéria) e vinculadas ao candomblé.

O termo ‘Boa Morte’ é uma referência à crença católica de que Maria, a mãe de Jesus, não morreu, apenas dormiu e seu corpo teria sido levado aos céus pelos anjos de Deus.

Trata-se da chamada Assunção de Nossa Senhora, um mistério de fé que a igreja católica celebra com pompas litúrgicas no dia 15 de agosto, a data da missa solene e da grande procissão dos festejos da irmandade das negras de Cachoeira.

O culto à chamada ‘boa morte’ ou ‘dormição de Maria’ já existia desde as origens católicas no Brasil, trazido pelos portugueses e materializado em imagens e templos dedicados a Nossa Senhora da Glória ou da Vitória.

A ‘glória’ e a ‘vitória’ sobre a morte.

Para as negras nagôs, no entanto, o culto a Nossa Senhora, a Virgem Maria que não morreu e subiu aos céus, nunca significou uma negação da tradição e da fé ancestral nos Orixás (ketu/nagô) ou Voduns (jêje/nagô) africanos.

Tanto que, em torno de 1830, essas corajosas e libertárias mulheres (Yás) fundaram bem nos fundos próximos da igreja da Barroquinha um terreiro dedicado a Xangô (o rei de Oyó, sítio nigeriano), denominado Iyá Omi Axé Airá Intilé, considerado como um dos primeiros dos candomblés nagôs da Bahia, que deu origem à Casa Branca, ao Gantois e ao Axé Opô Afonjá.  

 A essa época, Salvador, a Cidade da Bahia, formigava de negros (boa parte nagôs, de língua iorubá) e os malês (nigerianos nagôs islâmicos) lideravam revoltas que inquietavam os poderosos da cidade, dando razões ao recrudescimento da intolerância étnica e religiosa, abrindo espaços e ‘justificando’ uma onda ainda maior de repressão contra os negros africanos escravizados e seus descendentes na capital baiana.

O quadro social de violência e de ameaças contra quaisquer manifestações dos negros tangeu mais tarde o terreiro de Xangô das proximidades da Igreja da Barroquinha e do centro da cidade, e dispersou muitos agrupamentos africanos em toda a área urbana. Assim, muitos desses afro-descendentes, os mais aquinhoados, retornaram à África. Outros, de pouca ou nenhuma posse, fugiram para o mato, esconderam-se nos arredores da urbe. Ou tomaram o rumo do recôncavo, onde se agregaram ao cultivo de roças, à labuta no cais e atracadouros de saveiros, puseram-se a serviço nas casas-grandes, nos engenhos de cana, no plantio do fumo, no serviço avulso de ganho, ou ainda sobreviveram no exercício de pequenos ofícios, aqui e acolá.

E teria sido assim, conforme relatos e estudos, que valentes mulheres nagôs, muitas de origem e herança jêje (de língua fon, do antigo Daomé, hoje Benim) levaram a devoção de Nossa Senhora da Boa Morte até vários sítios do recôncavo.

FESTA DA IRMANDADE DA BOA MORTE - Cachoeira. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

FESTA DA IRMANDADE DA BOA MORTE - Cachoeira. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

 

Somente resistiu ao tempo e preservou-se tão imponente até hoje a Irmandade da Boa Morte de Cachoeira, um dos maiores portos da região, escoadouro maior da riqueza do recôncavo para a capital.

Lá, à beira do Paraguaçu, nas encostas das suas margens, a fé em Maria e o culto jêje a Nanã (Vodum mais velho das águas, dos pântanos) e a Dã (a cobra, o arco-íris) permaneceram, lado a lado, bem vivos.

Como sempre aconteceu desde aqueles tempos, a prática dos rituais de devoção a Maria, mãe de Jesus, dormida e gloriosa, acontece todo mês de agosto e atrai muita gente, até do exterior, pela sua tradição e riqueza históricas.

Os rituais misturam reza de terço, ladainhas, cânticos, missas solenes, procissões, comilanças, danças e festanças populares com cerimônias, batuques e obrigações secretas nas madrugadas dos terreiros, cultuando com a mesma intensidade e fé em Maria, a Nanã Buruku, mãe de Exu e Omolu na tradição ancestral africana, e Dã, a serpente sagrada dos jêjes.  

O povo participa dos festejos onde acontecem jantares com comidas sagradas do culto afro; extasia-se com a beleza das cerimônias religiosas católicas de tons medievais, os trajes afro-tradicionais, os adereços ricos e raros das mulheres da irmandade garbosas em suas roupas ora brancas, ora coloridas, torços, colares, joias, balangandãs e panos da Costa. Um luxo!

São mulheres idosas, algumas com mais de 90 anos, todas descendentes de escravos.

Reza a tradição passada de mãe pra filha e cumprida rigorosamente, que só entram na irmandade mulheres acima de 45 anos, depois de arrefecido ‘o fogo’ da sexualidade.

A irmandade, que mantém sede, estatutos, regras, obrigações e hierarquia definidas sobrevive de doações arrecadadas na comunidade pelas iniciadas, de algum auxílio dos poderes públicos – que, afinal, se beneficiam da tradição que atrai turistas do mundo inteiro, principalmente dos Estados Unidos – e da ajuda de algumas organizações internacionais, como universidades que estudam/pesquisam essas manifestações históricas e populares.

As dificuldades para a preservação dos costumes são enormes e as relações com as autoridades da igreja católica nem sempre foram ou são fraternas, apesar dos anos de convivência.

Mas a Irmandade da Boa Morte resiste.

Como escreveu o antropólogo e professor Sebastião Heber Vieira Costa, autor do livro ‘A Irmandade da Boa Morte e o Ícone da Dormição de Maria’:

A expressão afro dessa festa, na sua interpretação da crença cristã, é exuberante, plástica e mística. As irmãs não se ‘apresentam’ apenas uma vez por ano, mas vivem o seu dia-a-dia em torno do evento, que se projeta nas suas vidas. É como se quisessem entrar, mergulhar no movimento morte-vida que a festa celebra. É como se todas tivessem celebrando as suas próprias ‘boas mortes’ que a primeira, a de Maria, quer, de algum modo, anunciar’.

 

Procissão em louvor a Nossa Senhora da Glória, em Cachoeira, Bahia. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

Procissão em louvor a Nossa Senhora da Glória, em Cachoeira, Bahia. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 15.8.2008

No final, como tudo nesta Bahia do bom Deus, tudo acaba numa grande festança pelas ruas de Cachoeira:

Exibições de manifestações folclóricas com capoeira e maculelê, muito samba-de-roda (patrimônio da humanidade) e chula de terreiro.

A ‘morte’ vira uma festa.

A Boa Morte!

*zédejesusbarrêto, jornalista e estudioso de baianices.

13 de agosto/2009

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA-4

04/07/2009
No desfile do Dois de Julho, a Cabocla sempre porta a bandeira da Bahia, enquanto o Caboclo leva a bandeira do Brasil. Foto: Lúcio Távora | Agência  A Tarde 2.7.2009

Durante o desfile do Dois de Julho, em Salvador, a Cabocla sempre carrega a bandeira da Bahia, enquanto o Caboclo, em outro carro, leva a bandeira do Brasil. Foto: Lúcio Távora | Agência A Tarde 2.7.2009

 por Jary Cardoso

     O Brasil precisa conhecer e cultuar a história de como se desenvolveu o movimento pela independência do país na Bahia, culminando no 2 de julho de 1823. Os baianos revivem todo ano com alegria e emoção o orgulho pelo heroísmo e bravura de seus antepassados, sentimentos que têm de ser compartilhados pelos demais brasileiros. É o que recomendo como brasileiro nascido em São Paulo e hoje morando em Salvador.

     Este ano tive o privilégio de aprender um pouco mais sobre os primórdios desse movimento e conhecer seu caráter libertário. Foi quando atendi ao convite de Jorge Portugal, poeta e educador, para ir à sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, no dia 14 de junho. Jorge disse que iria receber a Comenda Marquês de Abrantes na Câmara de Vereadores e gostaria da minha presença.

     Ao chegar a Santo Amaro em meu fusquinha, encontrei a cidade em festa cívica, com faixas saudando sua data magna. Como explicou Jorge Portugal, o movimento pela Independência da Bahia – que na verdade resultou na consolidação da independência de todo o País – começou a se esboçar justamente na Câmara de Santo Amaro, em 14 de junho de 1822.

     Cito o historiador Luís Henrique Dias Tavares, mestre de Jorge Portugal, em seu livro História da Bahia, anos 1821-1822:

     A Bahia aderira às cortes de Lisboa, elegera deputados para elaborar a futura Constituição do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve e desconhecera a regência do príncipe dom Pedro, instituída com o regresso do rei dom João VI para Lisboa (…)

     (…) a Junta Provisória de Governo da Província da Bahia atuava cada vez mais submissa a Lisboa (…)

     (…) A política das Cortes Gerais para o Brasil definiu-se no segundo semestre de 1821, dirigida a neutralizar qualquer mínima possibilidade de existência de um governo executivo central em alguma província brasileira.

     (…) [em fevereiro de 1822] chegou à cidade do Salvador a Carta Régia nomeando Governador das Armas o brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, em substituição ao brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães. Logo se instalou uma situação de conflito.

     (…) Em resposta, oficiais brasileiros (…) declararam que era ilegal aceitar um decreto de Lisboa sem a aprovação da Câmara. Não queriam Madeira de Melo no Governo das Armas e para tanto orientaram a resistência que envolveu militares e civis brasileiros contra a sua nomeação.

     (…) O dia 19 de fevereiro amanheceu com a ofensiva das tropas portuguesas.

     (…) Concluída a ocupação militar da cidade do Salvador, Madeira de Melo adotou uma linha política que visava (…) obter o apoio local para manter a Bahia unida a Portugal.

     (…) Número apreciável de famílias abandonou a cidade do Salvador e se dirigiu para Santo Amaro, São Francisco do Conde, Cachoeira e Maragogipe. Em abril já existiam várias conspirações contra o governo militar que o brigadeiro Madeira de Melo estabelecera.

     (…) A definição dos baianos ocorreu entre maio e junho de 1822 (…)

     [Agora se aproxima o momento de Santo Amaro]

     Os partidários do reconhecimento da autoridade do príncipe tentaram uma decisão na Câmara da cidade do Salvador. Marcada para se reunir no dia 12 de junho, as tropas portuguesas bloquearam as ruas (…) A reunião foi proibida.

     Dois dias depois (14 de junho) reuniu-se a Câmara de Santo Amaro (…) A Câmara decidiu: “Que haja no Brazil hum centro único de Poder Executivo; que este Poder seja exercido por sua Alteza Real o Príncipe Regente”.

     A partir dessa decisão é possível encontrar uma sequência de preparativos na Bahia para o reconhecimento da autoridade do príncipe dom Pedro (…)

     O episódio seguinte ocorreu pouco depois, no dia 25 de junho, que se tornou a data magna de Cachoeira, localidade vizinha de Santo Amaro. Lá também a Câmara reconheceu a regência de D. Pedro, e houve ainda luta contra portugueses e tiros, desencadeando uma série de episódios que ainda preciso conhecer melhor.

     Voltando ao 14 de junho de 2009 em Santo Amaro. Antes de começar a solenidade na Câmara, que teve a presença do ministro da Cultura, Juca Ferreira, procurei me informar com Jorge Portugal sobre os acontecimentos de 187 anos atrás. E ele me levou a recuar um pouco mais na História.

     Jorge Portugal disse que as lutas pela independência da Bahia foram precedidas, em 1798, por um movimento libertário em Salvador, a chamada “Revolução dos Alfaiates” ou “Revolta dos Búzios”, inspirado na Revolução Francesa e nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Seus ideais eram muito mais avançados que a Inconfidência Mineira.

     Luís Henrique Dias Tavares escreveu assim sobre a “sedição de 1798”:

      (Este importante movimento foi) amplo e singular, por seu ideário, pelo largo circuito social dos que dele participaram ou nele foram envolvidos, proprietários, oficiais e soldados do exército colonial português na Bahia, intelectuais, artesãos (alfaiates livres e escravos, cabeleireiro, ourives, pedreiro, carapina, ferreiro, bordador) e escravos, pela influência que recebeu das ideias humanistas de igualdade de todos os seres humanos e do exemplo da Revolução Francesa de 1789-1793, que degolara um rei e uma rainha, proclamara o regime republicano e extinguira o trabalho escravo.

     (Boletins sediciosos) foram colados na fachada de casas (…) Eles repetem itens e frases referentes ao soldo dos militares (…), aos padres, ao comércio monopolizado, à situação política da Europa, à condição da capitania da Bahia, que “sofria latrocinios, furtos com os titulos de impostura, tributos e direitos que são elaborados por ordem da Rainha”, às discriminações que os pardos (mulatos) sofriam por causa da cor da pele, às ideias de liberdade, república, democracia e igualdade sem diferenças de cor. Algumas das palavras mais repetidas pertenciam ao vocabulário entregue ao mundo pela Revolução Francesa: Povo, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Deputados, Republicanos, Entes e Dietas.

     Mesmo depois de sufocada essa rebelião e enforcados e esquartejados quatro de seus ativistas, os ideais libertários da Revolução Francesa continuaram gerando frutos na Bahia. A Guerra da Independência veio na sequência.

     Agora passo a palavra a Jorge Amado, que em seu Bahia de Todos-os-Santos dedicou alguns trechos ao Dois de Julho de 1823:

2 DE JULHO, FESTA CÍVICA E POPULAR

Foi um 2 de Julho”, se diz na Bahia quando se faz referência a uma coisa notável, grande, barulhenta, porreta. A festa do 2 de Julho tem um caráter cívico e patriótico que não lhe tolda a graça popular. Comemora-se a data da entrada triunfante dos exércitos libertadores na capital em 1823. O dia verdadeiro da Independência do Brasil (…).

Monumento a Maria Quitéria. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

Monumento a Maria Quitéria. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

MARIA QUITÉRIA

por Jorge Amado

O príncipe D. Pedro, no caminho de São Paulo, deu o grito da Independência. Depois foi dormir com a marquesa de Santos. Os Baianos então expulsaram os portugueses que ainda desejavam conservar a colônia. As tropas de Madeira foram batidas no Recôncavo, em Pirajá, em Itaparica. Um avô de Castro Alves, major das forças da Independência, comandava um batalhão. Foi o batalhão mais valente de toda a campanha. Puseram-lhe o nome de “Batalhão dos Periquitos” por causa da farda verde. Os “Periquitos” ficaram célebres, tais foram as suas façanhas na guerra da libertação. Entraram triunfantes na Bahia pelo caminho da Lapinha (…)

Certa moça baiana, de nome Maria Quitéria, de família pobre, não quis assistir de braços cruzados à libertação da sua pátria. Vestiu uma roupa de soldado, apresentou-se ao avô de Castro Alves, mostrou que sabia atirar e fez toda a campanha. Foi um soldado disciplinado, corajoso, capaz, consciente. Honrou o “Batalhão dos Periquitos” e sua tradição é orgulho da mulher baiana.

No entanto, a fama ficou para Joana Angélica, uma freira que defendeu a porta do seu convento. Não a moveu o patriotismo e sim, apenas, a defesa da clausura do tenebroso convento das “arrependidas”. Mas a heroína da Independência é a outra, a mulher que rompeu com os preconceitos terríveis da época, alistou-se como soldado, tomou do fuzil, matou inimigos, lutou de armas na mão, Maria Quitéria. Por isso mesmo injustiçada e esquecida.

CIDADE HEROICA DO RECÔNCAVO

22/06/2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas | AG. A TARDE | 18.2.2009

Cidade histórica de Cachoeira vista de São Félix. Foto: Diego Mascarenhas Agência A TARDE | 18.2.2009

OLHAR SOBRE CACHOEIRA

por MAÍSA PARANHOS

É impossível subir até a Cruz de São Félix, olhar em direção ao Rio Paraguaçu, para o outro lado de sua margem, sem conter a respiração diante de tanta beleza que emana da paisagem da cidade. Monumento histórico nacional, Cachoeira, no Recôncavo Baiano, jogou um papel importante na luta pela Independência da Bahia. Contam os antigos que as mulheres atravessaram o rio a nado, com punhal entre os dentes, para a expulsão do português colonizador. Daí a denominação de “Cachoeira, a Heroica”.

Quem a mira terá seus sentidos atingidos. Sente-se uma saudade de não sei o quê, uma sensação de pertencimento, uma intimidade que só seria possível com o nosso passado atávico, talvez. Nela, nos reconhecemos. Hoje, é portadora de uma rica vida cultural, tendo sido escolhida para abarcar a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Aonde chegamos, chegam as mudanças necessárias para a própria garantia dos nossos agrupamentos humanos. E assim, acreditamos, os espaços são modificados em função do homem. Tal vem ocorrendo em Cachoeira, possuidora de um calendário muito extenso em festividades e manifestações culturais, destacando-se a Festa da Boa Morte e o São João. Os festejos trazem admiradores e futuros moradores, e consequentes investimentos e empreendimentos.

A própria universidade aportou um contingente populacional maior para o espaço urbano, e é claro que este se modificará. A questão é justamente esta: de que forma este espaço, que é monumento histórico, portanto patrimônio público, vem sofrendo essas modificações? Cachoeira vem sendo tratada com a delicadeza e a importância necessárias? Sendo uma das maiores expressões da arquitetura colonial portuguesa em nosso País, exige um trato peculiar. Por ser uma cidade dona de um acervo cultural imenso, com seus museus e vasta produção artística, necessita de uma administração que dê conta de suas especificidades.

É com tristeza que observamos um desenho urbano se modificando nas encostas dos morros e nas margens dos rios sem o devido planejamento. É com melancolia que vemos seus artistas produzindo em espaços precários enquanto ocorrem construções desordenadas ao longo de seus riachos. É com indignação mesmo que vemos pouca, ou quase nenhuma, participação popular nas decisões que são ali tomadas para o “engrandecimento” cultural da cidade.

Preservar um monumento histórico é criar condições para a sua valorização, inclusive turística, e não transformá-lo em objeto de vitrine, cercada de uma população excluída da preservação daquilo que ela própria constitui. Monumento histórico é coisa viva. O seu sentido é dado no presente por quem o cerca e lhe dá sustentação material e simbólica. Desta forma, Cachoeira está merecendo, com certeza, um olhar mais apurado e efetivo.

Maísa Paranhos é professora de história

E-mail: msparanhos@uol.com.br