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OS SESSENTA CARNAVAIS DE ORLANDO

01/12/2009

ORLANDO CAMPOS DE SOUZA, o ORLANDO TAPAJÓS, criador do trio elétrico Caetanave no carnaval baiano de 1972. Foto: XANDO PEREIRA | Agência A Tarde 15.2.2006

de JORGE PORTUGAL*


Foi emocionante demais. Acho até que há muito tempo não vivia uma emoção daquele tamanho.

Cena: Luiz Caldas, no estúdio da TV Bahia, preparava-se para gravar o seu depoimento sobre os 60 anos do trio elétrico. Eis que, de repente, chega “seu” Orlando Tapajós, convidado para a mesma finalidade e, ao encontrá-lo exclama:

Meu Deus, meu filho está aqui! Meu filho adotivo que eu não via há muito tempo!

Os dois se abraçam e logo depois Luiz pega o violão e sola um dos grandes hinos do carnaval baiano, dos áureos tempos do Tapajós. Orlando apoia-se na bengala que lhe garante o precário equilíbrio e, com os olhos perdidos em algum lugar imaginário, gesticula, solfeja, quase dança, e entrega sua emoção a um momento que já não estava ali, mas que permanecia em todos nós, eterno, como um tesouro escondido no fundo de nossas melhores saudades.

Choramos todos. Eu, Sérgio Siqueira, Isabela, Fred Góes, todos os cinegrafistas e técnicos presentes naquele instante.

Em seguida, o nosso querido “velho” deu fortes asas à prodigiosa memória e passou a nos contar, com surpreendentes detalhes, a história do Trio Elétrico, a mais genial contribuição da civilização baiana para a alegria do mundo.

Falou-nos do período heroico, que vai da invenção, por Dodô e Osmar, em 1950 até 1959, quando a famosa dupla retira-se do carnaval por um bom tempo. Daí em diante, coube a ele, Orlando, assegurar a alegria do povo com o seu trio elétrico Tapajós, patrimônio da memória afetiva de dez entre dez baianos que tenham mais de quarenta; relembrou a importância do frevo Atrás do Trio Elétrico, de Caetano, projetando o trio em todo o país e trazendo de volta Dodô e Osmar ao carnaval das ruas; a homenagem que Caetano receberia dele, Orlando, com a construção da Caetanave, mistura de disco-voador e usina de som, que superaria em muito as nossas mais loucas visões lisérgicas.

Orlando, juntamente a Dodô e Osmar, deveria ter estátua em alguma praça da cidade. Mas não têm.

Que, pelo menos, no ano que vem, Luiz, Orlando, Armandinho e Moraes tenham um digno direito às ruas e possam mostrar à turma da “alegria ensaiada” a grandeza de um carnaval, hoje transformado em grande negócio.


*Jorge Portugal – Educador e compositor

secretaria@jorgeportugal.com.br