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WALY, A FERA FAISCANTE

13/06/2010

Caricatura de WALY SALOMÃO criada por GENTIL

Minha admiração por Waly [Salomão] é imensa […] Daí a felicidade em ver homenagens como a biblioteca de Ribeirão Preto e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae. Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly?

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Em 2004, andando por Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, sob a fuligem de canaviais queimados, vi à distância uma construção de arquitetura inconfundível. Um prédio de João Filgueiras Lima, Lelé. Curioso, fui ver o que o prédio abrigava. E tive uma surpresa que me deixou especialmente alegre. Era a Biblioteca Waly Salomão. Uma homenagem de Ribeirão Preto ao inventivo poeta-guerreiro nascido em Jequié, na Bahia. É claro que Waly mereceu a homenagem.

Meses atrás, no jornal O Globo, vi que estavam na reta final as obras do Centro Cultural Waly Salomão, agora inaugurado, na favela de Vigário Geral, no Rio. E, mais uma vez, Waly merece a homenagem. Pelo que fez e por ser quem foi.

O poeta-escritor que nos deu a prosa de Me Segura Queu Vou Dar um Troço. O poeta-letrista que nos deixou canções como Mel, Cabeleira de Berenice e Vapor Barato.

O poeta-editor que trouxe à luz a revista Navilouca e Os Últimos Dias de Paupéria, reunindo escritos de Torquato Neto.

O poeta-produtor cultural que, com Antonio Cícero, organizou os debates do Banco Nacional de Ideias, trazendo ao Brasil personalidades intelectuais como Horty, Gellner e Todorov, com o qual tive o prazer de debater em São Paulo sobre diversidade cultural.

O poeta-executivo, administrador público, que coordenou aqueles que talvez tenham sido os últimos carnavais baianos culturalmente relevantes.

O poeta-artista visual que nos brindou com a série colorida dos Babilaques.

O poeta que queria ultrapassar barras e bordas, não ser “si-mesmo”, mas tudo que fosse ou significasse um outro. O poeta que sabia e dizia que a memória não passa de uma ilha de edição.

Ao apresentar um livro seu, Armarinho de Miudezas (publicado por Myriam Fraga e Claudius Portugal, em importante coleção editorial da Fundação Casa de Jorge Amado) – cuja lembrança sempre me traz à mente o texto “Bahia Turva”, porrada na pasmaceira da província –, tentei fazer uma síntese de como eu o via, chamando-o “a fera faiscante” (àkàtà yeriyeri, nos orikis iorubanos), em referência ao orixá Xangô, dono de sua cabeça.

Curiosamente, aliás, Xangô é o orixá da retórica, do discurso, da eloquência. O senhor do axé na palavra. E, nesse sentido, Waly, que tinha uma capacidade oral extraordinária, era mesmo uma encarnação total da figura do filho de Xangô. Tinha o dom do improviso, da língua afiada, da frase desconcertante, do achado irônico-humorístico que levava todos às gargalhadas.

Naquela apresentação, entre outras coisas, escrevi: “Não há lugar aqui para o temor, a prudência, a reverência paroquial. Pensamento agudo, voz de trovão, o baianárabe Waly (de walid) é um happening ambulante. Um farsante declarado e colorido num ambiente cultural infestado de beletristas seriosos e cinzentos. Inimigo público número um do meio termo, da mesmice gustativa, Waly é uma verdadeira montanha russa de grossura e de finesse, indo das baixarias de botequim à suprema limpeza do construtivismo de Maliévitch. Sua figura é a hipérbole. O leitor de Rimbaud e Nietzsche circulando pelo morro do Estácio, da Mangueira, ou em meio aos tambores sagrados do candomblé. Curiosidade ibnkhalduniana. Estrada do excesso. Um homem livre como as formas de Arp”.

Minha admiração por Waly é imensa. Dos tempos de minha juventude, quando o conheci chez Caetano Veloso, aos dias em que trabalhamos juntos, com ele na direção do Instituto Nacional do Livro, em Brasília. Waly animava e alegrava nossas vidas na cidade de Lúcio Costa.

Daí a minha felicidade em ver obras-homenagens como a biblioteca de Ribeirão e o centro cultural no Rio, realização do grupo Afro-Reggae.

Mas e a Bahia? Existe alguma coisa feita aqui para Waly? Algum projeto, ao menos? Que eu saiba, não. Waly, na linha de um Gregório de Mattos, dizia, num texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, que a verdadeira padroeira de Salvador era “Nossa Senhora do Empata Foda”. Tudo aqui emperra, não anda, não acontece. Acho até que ele deve estar aí em alguma fila, aguardando que antes a Bahia faça uma Casa Dorival Caymmi.

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*Antonio Risério – Escritor

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CAETANO VELOSO: “OU NÃO?”

31/05/2010

Caricatura criada por CAU GOMEZ

Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração”

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texto de CAETANO VELOSO

(reproduzido do jornal A Tarde, que publicou este artigo simultaneamente com O Globo, em 30.5.2010)

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Mesmo que tenha sido uma confusão nascida da ignorância de alguns humoristas, é uma honra para mim ter herdado o bordão “ou não” de Walter Franco. Há quem diga que mereço, não a proximidade de Walter, mas as sugestões pejorativas do bordão. Muita gente vê indefinição suspeita no que para mim é independência política. Em tempos de eleição essas reduções tornam-se mais grosseiras. Pois bem: vou pensar em voz alta. Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração. Se tiver de escolher entre os outros dois, acho que prefiro Dilma, já que, como eu disse na entrevista ao “Estadão” (que ficou famosa por causa da palavra “analfabeto”), Serra está à esquerda da política econômica de Lula (a matéria no Globo com Serra dizendo a Miriam Leitão que “o Banco Central não é a Santa Sé” — com aquelas fotos apavorantes — poderia ser criticada pela “Caros amigos” como alarmismo suspeito, imposto pelo poder dos rentistas). Ou seja, eu prefiriria Dilma porque ela defende a independência do Banco Central.

Aconselho a leitura de “Aqui ninguém é branco”, de Liv Sovik. É a mais complexa e corajosa reflexão sobre raça no Brasil dentre as que vêm do lado dos racialistas. Mas meu comentário, dirigido a Felipe Hirsch, contrastando o racismo popular com o racismo de elite, eu o reenviaria a Sovik. Acabo de chegar da inauguração do Centro Cultural Waly Salomão, em Vigário Geral: grupos de garotas locais, pretas, mulatas e brancas, chegavam bem arrumadas e tomadinhas-banho, sorrindo entre si. Liv diz, com ironia, que “têm razão os que contrastam os EUA com o Brasil, valorizando o quadro brasileiro: para os brancos, especialmente, ele é muito melhor”. Nem uma gota de ironia em minha recomendação do livro. Leiam e verão que ela vai muito além dessa canelada.

Tenho 67 anos. Cresci, amadureci e envelheci ao som da “Aquarela do Brasil”, o nosso hino nacional oficioso, em cujo segundo verso o país é chamado de “mulato inzoneiro”. Nunca vi ninguém estranhar o uso da palavra “mulato” para definir o país. Mas nada me dizia que não houvesse brancos no Brasil. Meu pai era mulato. Minha mãe é branca. Sendo ela de extração mais humilde, era ela quem usava a expressão popular “eles que são brancos, que se entendam”, quando se alegrava por não ter de entrar em certas disputas. Mesmo que fossem entre meu pai e Luís de Gaspar, um preto retinto que era amigo dele. Gaspar era o português que tinha uma loja de ferragens onde Luís trabalhava. Depois Luís abriu a sua própria. Todos diziam “segunda é dia de branco” — quer dizer: dia de trabalharmos para os patrões. Isso independentemente da cor de quem dizia — e mesmo da dos patrões. A ideia arraigada de que somos um país mulato não nos impedia de distinguir explicitamente entre brancos e pretos, ou mulatos, caboclos, sararás. E sempre foi evidente que “branco” indicava vantagens estéticas, econômicas e sociais.


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Liv vai além do habitual: fala da invisibilidade do branco e analisa a mídia. Tudo bem que ela comente textos da “Veja”, mas por que nem ela comenta textos em que Paulo Francis, o mais adorado e imitado jornalista brasileiro, louvava a retomada do projeto de eugenia por trabalhos como “A curva do sino”, que diz provar ser a inteligência média dos estudantes negros americanos inferior à dos brancos? Exibir simpatia por coisas assim era reação aos movimentos negros. Esses movimentos eram necessariamente racialistas. Passou a haver, então, uma reação antirracialista, como, por exemplo, a de Antonio Risério, e uma reação racialista, como a de Francis. A menina que disse a Liv, em Salvador, “aqui ninguém é branco” tem posição próxima à minha, que é próxima à de Risério e avessa à de Francis.

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O presidente Lula ensaiou o anúncio de uma negociação de peso com o Irã. Vejo Lula como um grande personagem épico. Ele pode ser atraído pelas baixezas do populismo. Mas, até aqui, tem pesado mais sua vocação para representar o que o Brasil tem de original. Parte da sua euforia — que pode ser intragável — é reconhecimento disso. É narcisismo salutar, abençoada vaidade histórica. A tentativa de costurar um papo entre os aiatolás e a capitalistada tem, por mais que a analogia com Chamberlain (lembrada por Diogo Mainardi) proceda, mais peso do que todas as outras bolas na trave que ele e Amorim deram antes.


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Sou anticarlista, não fundaria a Embrafilme, não julgo Pinochet pelo que ele deu de útil ao Chile. “The Economist”, falando do óleo no Golfo do México, diz que “o congresso americano deve endurecer a vigilância e aumentar as penas para os faltosos. Mas, infelizmente, não haverá nenhum esforço para dar conta dos maléficos efeitos colaterais do petróleo. Pois vazamentos estão longe de ser o efeito mais deletério da dependência do petróleo de que sofrem os EUA: aquecimento global e financiamento de déspotas estrangeiros vêm no topo da lista”. Essas são palavras editoriais de uma revista liberal inglesa. É por coisas assim que os princípios liberais resistem mais em mim do que a hipótese comunista. O que se sobrepõe a ambas as visões é o sebastianismo de Agostinho da Silva. Este era claramente antiliberal em economia, mas tinha horror a regimes de força. Muitas das suas tiradas são espetaculares. A minha preferida é: “Portugal já civilizou Ásia, África e América — falta civilizar Europa”. Gosto porque falamos português. O mundo lusófono tem sido, há já séculos demais, um ridículo histórico. A mera existência do Brasil parece dizer “chega!”.

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PMDB: PARTIDO DE PROGRAMA

08/05/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

(transcrito de Opinião de A Tarde, de 17.4.2010

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Este é o título de um artigo do jornalista Fernando de Barros e Silva, publicado no jornal Folha de S. Paulo, que só agora li – para variar, com certo atraso: vou empilhando textos e livros que acho que preciso ler, mas o dia só tem 24 horas, de modo que ando sempre meio atrasado. Em todo caso, vou lendo e examinando o que é possível. E esse pequeno artigo do Fernando de Barros e Silva, cujo título é de dar inveja, merece destaque. É claro, lúcido e vai direto ao assunto, botando o dedo na ferida.

Barros e Silva comenta o fato de que o PMDB resolveu elaborar um “programa de governo” para contrabalançar o programa que o PT apresentou, ao lançar a candidatura de Dilma Rousseff ao Planalto. “O PMDB resolveu pensar. Eis aí uma notícia: o partido que se confunde com a política do pragmatismo cego está disposto a apresentar sua visão sobre o futuro do Brasil. A legenda que virou sinônimo de oportunismo e fisiologia no país teria percebido agora que lhe falta um lastro (ou lustro) doutrinário. Ora, o PMDB não precisa de um programa de governo, mas de um manual de conduta” – afirma, de cara e com absoluta precisão, o jornalista.

Acrescentando: “A escassez de ideias, de bandeiras e de lideranças não é, no caso do PMDB, um problema, mas a condição para que ele seja o que é”. Claro. Partidos como o PT ou o PCdoB mantém unidos seus quadros díspares em torno de um ideário comum, mesmo que vago, de socialismo. Mas o PMDB se guia, única e exclusivamente, por cargos e verbas. O “ideal” que une o partido é ter suas raposas nos mais diversos galinheiros. Ora, um partido assim não pode ter um pensamento, um ideário, um programa. Se quiser determinar um, explode em cacos para todos os lados. Ninguém ali está interessado em teses ou compromissos nacionais, mas em garantir sua fatia no bolo.

É assim que o partido se comporta internamente. É assim que conversa com outros partidos e políticos que quer trazer para o seu jogo. É assim que se conduz diante da mídia, tentando cooptar, a qualquer preço, quem dispõe de meios para se dirigir ao grande público. Vejam os exemplos disponíveis aí na Bahia. Já diante de quem está no poder, a moeda de troca do PMDB é poderosa: o número de quadros de que dispõe em câmaras, assembléias e no Congresso, garantia de “governabilidade”. E esta é a base da podridão do atual sistema político brasileiro.

Diante do eleitorado, claro, encenando o teatro mais sujo da política, o partido faz de conta que é partido – vestindo a capa e afivelando a máscara da defesa dos interesses nacionais e das aspirações populares. Quem quiser que conte outra… As reais motivações do partido estão anos-luz distantes de qualquer coisa que se pareça com interesse nacional ou desejos e necessidades da população. Mas, para encenar a farsa, fazer seu próprio teatro do absurdo, o partido precisa de alguma ferramenta. Daí essa história de fazer um programa de governo. Sem quadros capazes de elaborar qualquer coisa algo consistente, todavia, o PMDB se viu obrigado ao vexame de terceirizar a formulação do “seu” programa.

Ainda Barros e Silva: “Como o partido, à medida que engordou, perdeu sua massa crítica (e encefálica), teve que recorrer a um serviço de ‘sábios delivery’ para pensar o país. E nada sintetiza melhor o fundo farsesco desse esforço programático do que a presença de Roberto Mangabeira Unger entre os neopeemedebistas pensantes. Mangabeira – diga-se logo – é um intelectual de grande envergadura, criado no ambiente da esquerda liberal norte-americana. Mas suas ideias, embora originais, foram sendo tragadas pelo ridículo de suas incursões desastradas na vida política – uma mistura de voluntarismo ingênuo com oportunismo feroz”.

É com tristeza que tenho de concordar. Conheci, fascinado, as ideias originais de Mangabeira para o Brasil e o mundo. É um pensador respeitado internacionalmente. Mas sua prática política é um desastre. E Mangabeira virou então esse misto estapafúrdio de motivo de orgulho intelectual para todos nós – e motivo de vergonha política, também para todos nós. Ele também quer o poder pelo poder, ainda que não para encher o bolso de dinheiro. Mas virou mero anão amador, usado pelos altos profissionais do partido de programa.

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*Antonio Risério – Escritor

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RISÉRIO ENTRA NO DEBATE SOBRE A PONTE

21/02/2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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ENTRANDO NO ASSUNTO

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texto de ANTONIO RISÉRIO

(transcrito do jornal A Tarde)

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Este é o primeiro de uma série de artigos que pretendo publicar, em torno de um mesmo assunto, tendo em vista o projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica. Sei que vou frustrar ou decepcionar alguns amigos (meu querido e admirado João Ubaldo, em primeiro lugar) e agradar outros. Mas é que, apesar de ter tentado me persuadir do contrário, não consegui me convencer de que a ponte é condenável. E não consigo não dizer o que penso. De qualquer sorte, esperei a poeira baixar, a folia carnavalesca chegar ao fim, para, como se dizia antigamente, tecer considerações em torno do tema.

Antes de entrar na matéria, porém, quero logo dizer o seguinte. Acho maravilhoso que Ubaldo tenha aberto o debate. E concordo com algumas coisas que ele diz. Assim como considero fundamentais pontos do manifesto “Itaparica: ainda não é adeus”. Deixarei isso claro no momento em que chegar lá. Já as reações de secretários de Jaques Wagner, à postura de Ubaldo, me pareceram oscilar entre a tolice, a ignorância e a farsa (o governador, salvo raríssimas exceções, como a de um Fernando Schmidt, anda muito mal acompanhado). E dizer que Ubaldo não mora na Bahia não é coisa que se leve a sério. Passei boa parte de minha vida, até aqui, fora da Bahia. Estou, atualmente, em Brasília. E não sou – em princípio – contra a ponte.

A maior bobagem partiu de um secretário de Estado que, ao tentar sugerir que a ponte vai ser boa para Itaparica, deu o exemplo de Lauro de Freitas, que classificou como “cidade planejada”. Lauro de Freitas, a antiga Santo Amaro do Ipitanga, é um horror. E justamente por absoluta falta de planejamento. Pela ignorância dos mais elementares princípios do urbanismo. Bem, se for para Itaparica virar uma Lauro de Freitas (como já está acontecendo – e também por falta de planejamento) – aí, sim – fico definitivamente contra o projeto da ponte. Mas, como não acredito que o secretário expresse o ponto de vista do governador (toda administração estadual, hoje, no Brasil, é um saco de gatos), vamos adiante – e devagar – com o andor.

A conversa sobre a ponte Salvador-Itaparica me leva de volta a outro assunto que provocou polêmicas e paixões. A transposição do Rio de São Francisco. Por que uma coisa puxou a outra? Porque, no aceso daquelas discussões, em meio ao fogo cruzado de conceitos e números, costumava dizer a meus interlocutores mais próximos: acho que é preciso discutir com cuidado. A transposição, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer. Então, em vez de espernear contra, vamos dizer que espécie de obra nós precisamos e queremos ter. Minha sensação, diante do projeto da ponte, é a mesma. Mais cedo ou mais tarde, ela virá. Basta tentar imaginar o que será Salvador no ano 2050. Alguém acredita que a ilha se manterá distante dela? Que Itaparica não será incorporada à futura e imensa cidade? Enfim, penso que a ponte é inevitável. Que ela virá. E então acho que é melhor que a gente diga que ponte nós queremos. Que ilha queremos.

Lembre-se o caso do São Francisco. Num extremo, plantaram-se técnicos e cientistas, esgrimindo números. Em outro, ficaram os ambientalistas mais românticos – que, de certa forma, parecem querer atravancar o caminho da história, ou voltar a viver num mundo que há muito não existe – e o bispo da greve de fome. Bispo que agora aparece como que replicado no bispo que ataca o projeto da hidrelétrica de Belo Monte. Não posso concordar com essa turma. Eles querem que, enquanto a China e a Índia decolam, o Brasil estacione. Desça do bonde dos emergentes. E permaneça, biblicamente, olhando os lírios do campo.

Naquele caso, não dava para ficar de um lado, nem de outro. Entre dados estatísticos, informações técnicas, pregações catastróficas, indignações fáceis e humanitarismos paroquiais, era preciso andar com cuidado. Não quero dizer com isso que o texto de Ubaldo e o manifesto que o apoiou sejam devaneios românticos. Não. São consistentes. Mas não fecho totalmente com eles e vou trazer à luz o que penso. Como disse, acho que a ponte é inevitável. Mas acho, também, que não devemos aceitar uma ponte medíocre, quando, no mundo inteiro, elas recuperaram sua condição de objeto estético. E devemos pensar na dimensão ambiental. Com seriedade.

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OPINIÕES SOBRE O CARNAVAL BAIANO

15/02/2010
Ilustração de CAU GOMEZ

Seguem artigos dedicados à festa momesca, especialmente a da Cidade da Bahia, que foram publicados nos últimos dias na página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador.

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ENSAIO SOBRE O TRIO ELÉTRICO

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texto de PAULO COSTA LIMA*

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Pára o carro Olegário!! Não tá vendo que tá andando de banda? Mas Seu Osmar, o carro já quebrou há muito tempo, é o povo que está empurrando!

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O ensaio, como tradição literária, é esforço interpretativo. Mas o que dizer do trio? Tanta espetacularidade requer justificativa? Gostaria de fazer coincidir forma e conteúdo: um breve discurso com três pontas e uma síntese.

A primeira ponta é o frevo. Há uma ligação de umbigo entre trio elétrico e frevo. Dodô e Osmar tiveram a idéia de colocar a tal fubica na rua em 1951. Poucos dias antes, passara por Salvador o Clube Carnavalesco Vassourinhas de Recife, em direção ao Rio.

O frevo traz marcas afro-brasileiras indeléveis. Não tem nada de africano na melodia ou na harmonia, poderia ser tocado até como minueto! Mas os ritmos!!!

As idéias rítmicas impingem aos compassos da Europa acentos e tensões que são tipicamente brasileiros. Imprescindível para o espetáculo. Imagine se funcionaria com valsa? E a malandragem?

Mas aí surge um fino detalhe. E essa é a segunda ponta do argumento.

O carnaval que predominava nas ruas de Salvador até então era o do corso e dos préstitos — o desfile das beldades de elite com fantasias e acenos do alto de carros especialmente preparados para a ocasião. Consta que até ópera italiana rolou no Carnaval. O povo ficava na Barroquinha e na Baixa dos Sapateiros em cordões e afoxés.

Portanto, a presença da fubica, tocando frevo, era uma subversão enorme. E o cerne da subversão era que o frevo colocava como centro das atenções o próprio povo dançando. O corpo que todos têm.

Quem já assistiu à passagem de um trio elétrico trazendo em torno de si todo o repertório humano de um bairro popular saberá do que estou falando. Encantamento total na junção entre música e dança.

O calor e a euforia são tão grandes que alguns tiram a camisa pra rodar por cima da cabeça. Tem casais abraçados, crianças montadas no pescoço dos pais, gente de meia idade, mulheres em grupos, vendedores ambulantes vendendo e dançando, disputa pra ver quem faz a melhor pirueta, e aquele empurrão no meio do bolo… (era assim)

Os ritmos oferecem situações de equilíbrio e desequilíbrio, convocam o gingado — ‘só não vai quem já morreu’.

Portanto, naquela virada de 1951, algo mudava na Bahia do governador Octávio Mangabeira, figura ímpar de nossa vida política. Um ‘momento histórico’ proporcionado pela bolha democrática entre o Estado Novo e a ditadura de 64?

No modelo que daí surge, o espaço público vai ficar mais público. E essa energia vai favorecer uma qualidade musical diferenciada, embalada pelo virtuosismo do frevo, e pela “livre” aventura de botar uma música na boca do povo. Caetano, Tuzé, Moraes, Armandinho… E ecos mais recentes em Brown, Gerônimo e Lelis.

A terceira ponta relembra Manoel José de Carvalho. Para ele, as dinâmicas de rua são construções sociais com enorme peso histórico. Salvador teve 300 anos anteriores de cortejo de rua — com procissões e festas de paróquia.

O aparecimento do trio acaba mobilizando essa memória grupal histórica pela topografia da cidade. O trio se encaixa na dinâmica ancestral construída em torno do andor das procissões. É como se tudo estivesse pronto aguardando sua chegada.

Nos anos seguintes vai ocorrer um processo espetacular (e muito original) de design para a festa, da carroceria de um caminhão até os nossos fulgurantes monstrengos de hoje — grandes palcos ambulantes.

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Síntese: Hoje estamos em outro planeta: cordas, cachês e abadás. E mais: camarotes e celebridades. Ganhou-se em gestão, profissionalização e expansão. Perdemos em participação, diversidade e qualidade musical.

As músicas que ganham a mídia não ficam mais no ouvido durante anos, estão congeladas em sua funcionalidade do perímetro das cordas (raras exceções).

Será que o impulso democrático dos últimos anos, essa bolha que esperamos definitiva, vai ter a força e o discernimento para fazer brotar um outro modelo, com novos (e velhos) valores musicais?

Mais do que questão, uma demanda: multiplicar os ganhos (socializando-os) e potencializar a qualidade/diversidade cultural.

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*Paulo Costa Lima – Compositor, pesquisador-CNPq, professor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Letras da Bahia

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NOVOS REIS, NOVO CARNAVAL

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texto de UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO*

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No ano de 2008, meu amigo Clarindo Silva foi escolhido Rei Momo. A celeuma foi grande. Um rei momo magro, onde já se viu? Em 2009, o escolhido foi Gerônimo que, apesar de gordinho, nada tem do modelito Ferreirinha: indolente, beberrão e comilão.

Este ano, o novo rei é Pepeu Gomes, um elétrico guitarrista. Estas escolhas marcam a ruptura do carnaval baiano com Baco e suas bacanais. Os novos reis devem ser ativos, produtivos e performáticos.

Esta mudança corresponde às mudanças que, ano a ano, viraram o carnaval de ponta a cabeça. Os carnavais de minha infância eram realmente janelas de alegria e de descontração que se abriam em um quotidiano regulado por uma moralidade religiosa e por todos os freios do conservadorismo.

Imaginem que naquele tempo era impensável um homem ou menino usar roupas coloridas, camisa estampada ou qualquer peça cor de rosa. Certamente ele seria agredido nas ruas com adjetivos nada gentis: fresco, florzinha, Florípedes.

No carnaval valia tudo, tudo era fantasia, com máscara ou sem máscara. Valia até sair travestido de mulher, e mesmo de “nigrinha”.

A liberação dos costumes permitiu que, o ano inteiro, as meninas saíssem da janela e fossem a luta no entre-e-sai e no esfrega-esfrega.

Até na música o carnaval era a salvação. O ano todo ouvia-se Cauby cantando algum drama comovente, tal como “ Conceição” ou com “Tarde fria, sinto frio na alma”. Só no carnaval podia-se ouvir o “Índio quer apito”, a “lambretinha” e a “mulata bossa nova”.

Não leiam mais Bakhtin, o carnaval não é mais a inversão da ordem. O carnaval ganhou e na Bahia é a ordem o ano inteiro! Longe de sumir no quotidiano, o carnaval é a cerimônia frenética e em tempo integral para a celebração da nova ordem. O Olodum tem razão: “Olodum tá hippie, tá pop, tá reggae, tá rock. Olodum pirou de vez!”.

No nosso novo carnaval, Eros expulsou Baco. Em vez de contestar a quaresma católica e afrontar a quarta-feira de cinzas (quase ninguém se lembra dela), o carnaval é o espaço para se vivenciar a saúde, a vitalidade, o prazer do corpo, o que os antigos gregos chamavam de Erótica.

Nesta nova ordem, os mais velhos são rigorosamente excluídos; ou vão para Pelourinho, ou chegam até um protegido camarote, ou ficam em casa assistindo pela TVE. Para nós, o carnaval é o voyeurismo; o prazer de ver os jovens gozarem!

Nesse novo carnaval, o rei Momo deve representar esta vitalidade erótica. Que Exu proteja Pepeu para que ele represente dignamente o seu papel!

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*Ubiratan Castro de Araújo – historiador e membro da Academia de Letras da Bahia

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UM CARNAVAL SEM CARNAVAL?

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Cena número um: no estúdio da TVE, no Campo Grande, quinta-feira à noite, nove horas, eu e o Prof. Jaime Sodré já nos queixávamos dos não-acontecimentos da primeira noite de carnaval, quando à nossa esquerda, não mais que de repente, irrompeu aquele caminhão de luz, trazendo a dinastia Macedo, Armandinho à frente, e daí em diante foi contada a história do carnaval, através de todas as músicas que fizeram seu sucesso e glória. Pensei: “meu carnaval já está pago”.

Cena número dois: sábado, circuito Barra-Ondina. Os olhos já cansados de verem os mesmos blocos de trio – mudando apenas o cantor – já lá pras duas da manhã, se arregalaram em desmedida alegria quando despontou Luiz Caldas – o verdadeiro inventor dessa nova etapa do nosso carnaval. Vinha comandando o Trio Tapajós, como se um filme tivesse voltado trinta anos na minha memória. De repente, de novo, vejo um senhor de boné levantar-se com alguma dificuldade do andar superior do trio e acenar para mim: Orlando Campos, o homem que modernizou o “caminhão da alegria” e assegurou a festa do povo baiano, quando a festa ainda era de graça. Pensei: “agora já estou devendo ao carnaval”.

Cena número três: já pelas três da manhã, quando tudo parecia encerrado, um mar de gente negra, pobre, misturada – uma massa compacta em bloco que eu ainda não tinha visto até ali, invadiu o circuito da Barra vigiada fortemente pela Polícia e comandada pelo novo “Zumbi do carnaval”, Léo Santana. Parecia um quilombo de alegria vivendo sua apoteose no pedaço da classe média baiana. O Rebolation tomou conta de tudo e arrastou turistas, malandros, patricinhas, periguetes e avulsos, misturando arrocha e pagode numa música só.

Claro que vi também Ivete, Bell Marques, Timbalada, Daniela, e até recebi uma declaração de amor pública de minha ex-aluna Claudinha Leitte.

No dia seguinte soube de uma proposta que deseja privatizar o carnaval, em lugar fechado, com acesso apenas para a classe média alta e os turistas endinheirados. Mais parece uma volta aos bailes de salão, retomando a época do Baiano de Tênis e do Yatch.

Pensei: “vai ser uma festa sem Armandinho, Luiz, Orlando, Ilê, sem rebolation… e sem carnaval!

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*Jorge Portugal – Educador, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO, da TV Brasil

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O CARNAVAL DA DIVERSIDADE

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texto de CLAUDIA CORREIA*

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A Secretaria Municipal da Reparação (Semur-Salvador) lançou a quinta edição do Observatório da Discriminação Racial, em parceria com 30 órgãos e entidades. A intenção é distribuir material, observar e registrar casos de violência contra mulheres, negros, crianças e adolescentes e homossexuais.

Este ano o Observatório amplia sua ação incluindo atos de homofobia, devido às reivindicações do movimento que representa gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais. Uma conquista importante.

A presença de observadores sociais em postos de saúde, postos policiais, no carnaval de bairros e em hospitais de grande porte é uma novidade este ano. Além do posto central da Ladeira de São Bento, serão instalados mais três na Barra, em Ondina e no Campo Grande. O Disque 156 também receberá denúncias.

A ideia do Observatório foi inspirada numa ação do Movimento Negro para detectar situações de racismo durante o carnaval e subsidiar suas reivindicações junto ao poder público. No primeiro ano, foram registradas 128 denúncias de discriminação racial e de violência contra mulheres. Em 2007 o Observatório passou a identificar violações dos direitos da mulher, em parceria com a Superintendência de Políticas para Mulheres da Prefeitura.

Somos uma cidade plural, onde a diversidade enriquece a nossa convivência com os diferentes modos de vida. A intolerância e a violência ameaçam a democracia, violam direitos conquistados.

Os objetivos do Observatório Racial devem ser permanentes, seus resultados devem subsidiar programas de políticas públicas intersetoriais, o estatuto municipal da igualdade racial precisa ser criado, ações judiciais em defesa das vítimas de discriminação devem ser agilizadas, o projeto de lei que criminaliza a homofobia deve ser sancionado.

Assim, não só durante o carnaval, teremos uma política pública de reparação, uma cidade que se orgulha e respeita a diversidade. O Observatório é um passo importante neste processo.

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*Claudia Correia – Assistente social, jornalista, mestre em Planejamento Urbano e Regional

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SOBRE A FESTA

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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A festa é um fenômeno universal. Está presente em todas as épocas, sociedades, povos e culturas. É por isso mesmo que qualquer manual de antropologia sempre traz verbetes sobre cerimônias e rituais. Sobre a relação entre sacrifícios, oferendas e festas. Sobre a festa como parte do rito. Sobre os aspectos não-rituais e não-religiosos da festa. Sobre música e dança.

A festa é um hiato. É uma saída para fora da história. É uma quebra no encadeamento cotidiano das coisas do mundo. É uma suspensão delirante da rotina. É uma abertura, fenda ou brecha na sequência, na linearidade, no fio lógico da vida individual ou coletiva. São muitas, enfim, as definições, as interpretações que os estudiosos nos oferecem do fenômeno trans-histórico e transcultural da festa. Não raro, fazendo-a derivar do sagrado: a origem da festa estaria na religião, em tempos onde não havia uma separação entre festas sagradas e festas profanas.

Mas não vamos enveredar pelo mundo labiríntico das interpretações da festa. Fiquemos em plano mais simples, mais pedestre. O fato é que não há humanidade sem festa. Sem música, dança e canto. O amor da humanidade pelos floreios da voz e os meneios do corpo data de milênios. Sempre esteve presente em todos os cantos e recantos do mundo. Em todas as partes do planeta. Desse amor, nenhum povo ou comunidade escapou, escapa ou deseja escapar.

Bom exemplo disso são os índios que habitavam os trópicos atualmente brasileiros. Quando os europeus começaram a desembarcar aqui, às primeiras luzes do século 16, ficaram impressionados. Os tupis que circulavam pelos litorais brasílicos tinham, basicamente, duas preocupações: a guerra e a festa. Cabia às cunhas produzir o beiju de cada dia da aldeia. Porque os homens, quando não estavam trocando flechas e tacapadas, promoviam bailes. Com uma diferença fundamental. A guerra era empresa exclusivamente masculina. A festa, não. A festa era de todos.

Pero Vaz de Caminha, aliás, conta um episódio maravilhoso, ocorrido num domingo de abril de 1500, ao sol de Porto Seguro. Um grupo de índios dançava perto do rio, “sem se tomarem pelas mãos”. Diogo Dias meteu-se no meio deles e começou a tocar e dançar, fazendo com que todos se dessem as mãos. E assim se foi formando uma roda de dança, uma festa de mãos dadas, ao som da gaita medieval que ele tocava. Foi a dança do encontro. Neste bom sentido, podemos dizer que sim: o Brasil nasceu dançando.

Os africanos dançavam – e muito – na África Negra. E continuaram dançando do lado de cá do Atlântico Sul. De seus ritmos e coreografias nasceu o samba de roda do Recôncavo, que, por sucessivas estilizações, daria no samba raiado do Rio de Janeiro, uma das forças fundamentais da festa brasileira. Com os nagôs, vieram os orixás, descendo do orum para a Terra. Em dia de festa. É para isso que brilham os terreiros. Não há religião sem festa. Sem festa, os deuses não dançam entre os mortais. E os negros contribuíram ainda, aqui, para a articulação entre festa sagrada e profana. Como na festa do Senhor do Bonfim. No reinado de Iemanjá, na festa do Ano Novo, que se irradiou do Rio para todo o litoral do país. No Círio de Nazaré, o “carnaval devoto”, em torno da Virgem, em Belém do Pará.

Nossas grandes festas públicas, rituais coletivos de teatralização da sociedade, nasceram com essa mescla de sagrado e profano. Eram as festas barrocas dos séculos 17 e 18, que conheceram seu esplendor nas cidades do ouro, em Minas Gerais. Procissões de som e brilho, com carros alegóricos, alas disso e daquilo, ruas decoradas, que forneceram o modelo da grande festa pública brasileira. Especialmente, o modelo do carnaval, esplendorosa procissão neobarroca, como no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Mas nem só de grandes ritos coletivos vive a humanidade. Vive, também, de festas corriqueiras, de bailes “funks” a quermesses de cidades do interior. De um extremo a outro, estende-se a festa brasileira. Porque a festa é universal, mas tem seu modo de se manifestar em cada coletividade. E o nosso modo tem a ver com a nossa configuração cultural e formação genética. Com o nosso ambiente. Com o retrato que gostaríamos de fazer de nós mesmos. Com o nosso gregarismo. Com nosso corpo – e nossa alma.

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*Antonio Risério – Escritor

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RETRATO DE SALVADOR

25/10/2009
Ilustração: GENTIL

Ilustração: GENTIL

por ANTONIO RISÉRIO

 

Quando Antonio Carlos Magalhães decidiu construir o Centro Administrativo na Avenida Paralela, teve gente que achou que ele tinha enlouquecido. “O governador está louco, quer levar o governo pro meio do mato!” – era um dos comentários que então se ouviam. Mas não havia nada de louco na ideia. Era, simplesmente, a primeira vez que se pensava Salvador em termos metropolitanos.

O secretário de Planejamento, na época, era Mário Kertézs. E ele soube escolher com quem trabalhar. Mário procurou Lúcio Costa, o urbanista que projetou Brasília. E Lúcio (embora reclamasse da Paralela, uma avenida bonita, mas desconfigurando, desnecessariamente, o desenho topográfico da região, cortando colinas) fez o traçado da avenida do viaduto de acesso ao Centro. E de todas as avenidas do CAB.

Mais tarde, em meio ao processo de construção dos prédios, entrou em cena, por sugestão de Alex Chacon e Roberto Pinho, o arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé. Era uma dupla, Lúcio-Lelé, pra ninguém botar defeito.

Mas houve reação. Empreiteiros locais se rebelaram logo contra o projeto em pré-moldado de Lelé. Aquilo poderia ser até bonito, mas não seria assim tão lucrativo para eles. A verdade é que Lelé projetava obras nuas, a serem executadas por um sistema nada convencional de construção. Obras difíceis de sofrerem superfaturamento. E empreiteiros costumam não gostar disso. Mas o trabalho foi feito.

Com o CAB, houve um deslocamento do centro comercial da cidade. Na mesma década de 1970, tivemos a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari. Tudo mudou. Surgiram na cidade, inclusive, bairros novos.

Mas quero falar da Avenida Paralela hoje. O que era deserto apresenta agora congestionamentos de trânsito. Pessoas fazem exercícios físicos no canteiro central da avenida. A Paralela, como o CAB, passou a fazer parte de nossa paisagem e de nossas vidas. Mais que isso: a Paralela, hoje, nos oferece um retrato perfeito de Salvador.

A começar pelas construções religiosas. Temos a Igreja da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo. Mas temos, também, um templo evangélico. E diversos terreiros de candomblé, que se concentram na Invasão das Malvinas, também chamada Bairro da Paz. Terreiros pra tudo quanto é gosto, por sinal. E que se declaram de diversas “nações”: angola, ijexá, jeje, keto, etc. Até a umbanda se faz presente, no Centro Espírita Caboclo Tumba Jussara, na 7ª. Travessa Ubatã, número 12.

Vemos, na Avenida Paralela, os extremos reais e vitais desta nossa cidade. A sede administrativa estadual, com todas as suas muitas secretarias, e o comércio de “crack” e cds piratas. O prédio da Odebrecht, as jovens prostitutas e a favela sinuosa, com seus becos quase sempre perigosos. Um bairro confuso, cervejeiro e ruidista como o Imbuí. A revendedora de automóveis de luxo e a oficina furreca, reciclando fuscas. As novas faculdades particulares – que mais sugerem “shopping centers” supostamente pedagógicos – e o analfabetismo. Projeta-se um condomínio caro ao lado de um conjunto habitacional classemediano e perto de barracos precários, que se esforçam para se manter de pé.

Enfim, a Avenida Paralela, hoje, é um retrato concentrado de Salvador. Da vida atual da cidade que, bem ou mal, se metropolizou. Girando entre os camelôs do Iguatemi e os absurdos visuais de Lauro de Freitas, antiga Santo Amaro do Ipitanga.

É um espaço que fervilha e esfervilha, durante todos os dias da semana, entre passarelas, táxis, indigentes, engravatados, policiais, lojas, sobrelojas, sublojas e postos de gasolina, que se revelaram bares da madrugada, com seus cheiros e sons intoleráveis.

Acho que nossos jovens estudiosos e pesquisadores, economistas, sociólogos e antropólogos têm ali um prato feito. Mas não só para “cientistas sociais” – também para jornalistas, cineastas, etc.

Na verdade, a Avenida Paralela se converteu num segmento urbano altamente privilegiado para quem se disponha ao chamado “trabalho de campo”. Para quem queira ver de perto o que é, de fato, Salvador. Ou no que ela se transformou. Porque esta cidade não se resume à praia, nem se circunscreve ao seu centro histórico. É muito mais fragmentada e fragmentária do que nós, com todos os nossos clichês e estereótipos, costumamos imaginar.

TRIUNFO DA MEDIOCRIDADE ARQUITETÔNICA

17/08/2009
Fachada do Aero Clube Plaza Show. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde – 7.4.2008

Fachada do Aero Clube Plaza Show. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde – 7.4.2008

LÍDICE EXPLICA O LANCE DO AEROCLUBE

ANTONIO RISÉRIO

Em meio a um artigo indignado sobre a situação da cidade, que publiquei aqui neste jornal[*], no primeiro sábado deste agosto, bati pesado em minha querida Lídice da Mata, disparando de cara, sem maiores floreios: “Lídice deixou que fizessem aquela porcaria do Aeroclube”. Pois bem. Ela me enviou uma carta, respondendo. Ou, antes, esclarecendo o que aconteceu naquela parada. Desde que a carta não cabe neste espaço, faço um resumo do que li, com citações.

Lídice diz que, quando assumiu a prefeitura, a administração anterior já havia realizado um “concurso nacional de idéias” para ocupação da área do Aeroclube, com apoio de várias “entidades democráticas”, entre elas, o Instituto de Arquitetos do Brasil. “Dois famosos arquitetos baianos venceram a disputa”, informa Lídice. “Nosso governo teceu críticas ao projeto. Abrimos novo debate público. Mas nossa iniciativa provocou uma mobilização nacional dos IABs de diversos estados, além de sua diretoria nacional”. Todos se manifestaram contra a possibilidade de uma anulação do concurso. “Decidimos então apenas discutir os parâmetros de elaboração para o edital de concorrência pública nacional para a área”.

“Estabelecemos limites e garantimos que apenas um terço da área teria exploração privada. Claras determinações de formação do Parque Público dos outros dois terços restantes da área estão expressas no contrato realizado. Deixamos pronta na Prefeitura uma maquete de uma concha acústica projetada por Oscar Niemeyer para ser construída no local”.

Ainda Lídice: “Desde que a Câmara de Vereadores autorizou e o empreendimento vencedor foi lançado para o mercado, passamos a viver uma verdadeira guerra jurídica promovida por interessados em impedir que a obra fosse concluída em minha gestão. A batalha judicial arrastou-se por dois anos. Mesmo assim, realizamos, naquela área, obras de infra-estrutura para garantir a reconfiguração ambiental original e a recuperação dos pequenos morros existentes até hoje, além da macro-drenagem, ciclovia, grama, plantio de árvores, de acordo com o que era determinado pelo concurso nacional de idéias”.

E mais: “Terminamos a gestão com o impedimento legal da implantação do empreendimento pelo Tribunal de Justiça baiano, situação só superada na administração seguinte. Aliás, o fato curioso disto é que, já deputada estadual, tomei conhecimento de que o governo da época solicitou dos empreendedores que não citassem o meu nome durante a festa da inauguração”.

Situação desoladora no Aero Clube Plaza Show. Sem freguesia, lojas fecharam e algumas entraram em reforma. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

Situação desoladora no Aero Clube Plaza Show. Sem freguesia, lojas fecharam e algumas entraram em reforma. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

Bem. Fica aí o esclarecimento para quem, como eu, não sabia dessa história. Aquela porcaria do Aeroclube (tenho outros modos bem menos simpáticos e tolerantes de me referir àquilo) não é coisa de Lídice. Tem outro dono – ou donos. Mas gostaria, ainda, de fazer uns comentários laterais à carta.

Que uma coisa tão ruinzinha como aquela tenha vencido um “concurso nacional de idéias”, é atestado espetacularmente definitivo do triunfo da mediocridade arquitetônica em nosso país. Idéias? O que há, ali, é justamente a materialização mal ajambrada da falta de uma idéia! Quem terá participado do júri? Gostaria, também, de saber quem são os “dois famosos arquitetos baianos”, para a gente escolher o local mais adequado da cidade onde erguer um monumento a ambos. Por fim, esplêndido o lance da obra de Niemeyer. Se realizada, seria para a eterna humilhação estética do que foi feito.

No meu artigo, eu dizia também da existência de um projeto maravilhoso de João Filgueiras Lima, o Lelé, para o local. Lídice, em sua carta, disse que nunca teve conhecimento do projeto. É uma pena. O projeto é de 1986. Dá vontade de passar horas contemplando a maquete. Com uma cobertura de concreto e outra, bem maior, de lona translúcida, sustentada por cabos de aço ancorados em mastros metálicos.

Vista do mar, a figura total da edificação é como se a areia da praia se ondulasse numa duna alvíssima, high-tech. Um show de inserção ambiental. Delicadeza e precisão extremas. Com espaços para lazer, feiras, escritórios, etc. E um surpreendente Museu do Mar, completando-se num aquário com um túnel dotado de visores de vidro, permitindo curtições visuais sub-aquáticas. Isto, sim, é uma verdadeira e forte idéia arquitetônica. Dá para sentir a diferença?

*O artigo indignado de Risério, “Vamos mostrar ao prefeito a saída?”, foi publicado originalmente no jornal A Tarde em 1º de agosto de 2009 e reproduzido no Jeito Baiano:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/08/01/vamos-mostrar-ao-prefeito-a-saida/

CONSPIRAÇÃO DOS MULATOS BAIANOS

12/08/2009
Bloco Olodum Mirim desfila no Centro Histórico de Salvador durante o Carnaval de 1998 com o tema da Revolta dos Búzios. Na foto (esta, como as demais postadas no dia 9 passado e as de hoje foram cedidas por João Jorge, presidente do Olodum), jovens do bloco afro portam cartazes com as figuras de cada um dos quatro mártires da sedição de 1798.

Bloco Olodum Mirim desfila no Centro Histórico de Salvador durante o Carnaval de 1998 com o tema da Revolta dos Búzios. Na foto (esta, como as demais postadas no dia 9 passado e as de hoje foram cedidas por João Jorge, presidente do Olodum), jovens do bloco afro portam cartazes com as figuras de cada um dos quatro mártires da sedição de 1798.

     Hoje, 12 de agosto, é uma das duas datas marcantes na história da Revolta dos Búzios, ou Conspiração dos Alfaiates, ocorrida em 1798. A outra data é o dia 25 do mesmo mês. Quem me chamou a atenção para isso foi o grande líder e presidente do Bloco Olodum, João Jorge Rodrigues, na convocação para festa e seminário, no Pelourinho (Salvador-Bahia), em homenagem aos mártires desta sedição de 211 anos atrás, acontecida nesta mesma Cidade da Bahia. A convocação de João Jorge está reproduzida no Jeito Baiano poucos posts abaixo:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/08/09/olodum-e-a-revolta-dos-buzios/

     Fui conferir as dicas em dois livros grossos e pesados com os quais ando debaixo do braço desde a inauguração deste blog: História da Bahia, de Luís Henrique Dias Tavares, e Uma História da Cidade da Bahia, de Antonio Risério. E agora, para transcrever trechos desses livros, passo a aplicar minha técnica de digitação rápida, desenvolvida primeiro como aluno de piano clássico quando eu era pequeno, depois como datilógrafo ultraveloz num escritório de contabilidade e finalmente como jornalista nestes 41 anos, metade dos quais pilotando uma Olivetti ou Remington e a outra metade, silenciosos teclados de computador.

     Comecemos por Luís Henrique:

 

     A sedição de 1798 se inaugurou na História do Brasil com dois episódios: a divulgação de onze boletins manuscritos na madrugada de 12 de agosto, quando foram colados na fachada de casas que ficavam em locais de passagem obrigatória para centenas de moradores da cidade, e a reunião [dos rebeldes] na noite de 25 desse mês no Campo do Dique do Desterro.

 

     Pulo 12 páginas para mostrar a origem de um dos nomes dados à sedição, Revolta dos Búzios, que é o adotado pelo Olodum:

 

     Brás do Amaral e Francisco Borges de Barros [historiadores] se irmanam nas referências ao uso “de um búzio pendente das cadeias do relógio” como forma de identificação entre os “conjurados”. A propósito, existe uma frase de José de Freitas Sacoto que merece atenção. Está nos autos da devassa feita pelo desembargador Costa Pinto. Sacoto teria escutado o ourives Luís Pires dizer que “os sinais distintivos de todos aqueles que se alistavam no partido da revolução” eram “brinquinhos na orelha, barba crescida até o meio do queixo, com hum búzio de angola nas cadeias do relógio”. Sacoto falou desses “sinais distintivos” num interrogatório de 18 de outubro de 1798 (…)

Placa em homenagem a João de Deus do Nascimento, heroi nacional do Brasil

Placa em homenagem a João de Deus do Nascimento, herói nacional do Brasil

 

     Agora vamos à obra do meu querido amigo Risério:

 

                  A CONSPIRAÇÃO MULATA

     Na madrugada do dia 5 para o dia 6 de novembro de 1799, o alfaiate mulato Manuel Faustino dos Santos Lira, nascido escravo, tentou pela terceira vez o suicídio. Na primeira tentativa, bebeu veneno. Na segunda, esforçou-se para enterrar um prego de quatro polegadas no coração. Finalmente, tentou a asfixia – dar “a si mesmo o garrote”, como escreveu frei José d’Monte Carmelo, carmelita descalço, em seu relato dos fatos –, apertando no pescoço uma tira de pano. Também Lucas Dantas do Amorim Torres, soldado Mulato do Regimento de Artilharia, tentou cair fora da vida, enfiando pela garganta, repetidas vezes, uma colher de prata. Não, não estavam brincando. Era a luz do desespero que os arrastava, descontroladamente, para além da vida.

     Ambos, Santos Lira e Lucas Dantas, pareciam querer se antecipar a uma sentença que, estavam certos, os condenaria à morte, juntamente com dois outros mulatos pobres de Salvador – o alfaiate João de Deus do Nascimento, de 27 anos de idade, natural da Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, e o soldado Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, de 37 anos, nascido na Cidade da Bahia, neto de um branco português, Manoel Gomes da Veiga, e de uma africana escravizada, a negra Helena. De fato, no dia 8 de novembro, dia áspero e plúmbeo, daqueles em que o tempo fecha sem retorno, os quatro foram conduzidos à Praça da Piedade. Luiz Gonzaga e João de Deus, em palanquins abertos; Lucas Dantas e Santos Lira, a pé. Chegando à praça, o ritual se consumou. Foram, os quatro, enforcados e esquartejados. Corpos despedaçados, repartidos, expostos em lugares públicos. A cabeça de Lucas Dantas ficou espetada no Campo do Dique do Desterro. A de João de Deus, na Rua Direita do Palácio. A de Santos Lira, no Cruzeiro de São Francisco. A de Luiz Gonzaga, juntamente com as mãos, na Piedade. Terminava assim, de modo tenso e fúnebre, o episódio que passou à nossa história sob o rótulo de “Revolução dos Alfaiates”.

     Uma denominação absolutamente imprópria, por sinal. Em primeiro lugar, porque não chegou a acontecer revolução alguma. O plano de uma sublevação, que realmente existiu, não passou da luz do sonho à luz do sol. Em segundo lugar, porque as pessoas presas e processadas, em consequência do anseio subversivo, não eram, em sua maioria, alfaiates. Havia escravos, oficiais militares, soldados da tropa e até mesmo um cirurgião, Cipriano Barata, que se tornaria uma figura quase lendária das movimentações sociopolíticas ocorridas no Brasil entre os séculos XVIII e XIX. Se houve um traço dominante, naquele agrupamento rebelde, foi o da cor da pele. Os mulatos – fossem escuros, claros, trigueiros ou fuscos – somavam o dobro do número de brancos e pretos envolvidos. E a verdade é que esse território mestiço ou interétnico, então em seus momentos iniciais de difícil afirmação, não pode ser deixado de parte em nenhuma leitura que se faça daquela turbulência baiana. Os rebeldes que foram à forca eram mulatos – e eram pobres.

LUCAS DANTAS

     Mas vamos aos fatos. Tudo pipocou no dia 12 de agosto de 1798. Aquela manhã trouxera uma surpresa para a população da Cidade da Bahia. As pessoas iam acordando e encontrando papéis manuscritos, cartazes artesanais, fixados em diversos pontos da cidade. Nas proximidades de São Bento, na esquina da praça do palácio, às portas do Carmo, nas paredes da cabana da preta Benedita, etc. – lá estavam eles. Eram os pasquins da sedição, falando ou refalando temas da Revolução Francesa, ainda que aqui e ali relidos de uma perspectiva mestiça e tropical.

MANOEL FAUSTINO DOS SANTOS

     “Animai-vos Povo Bahinense [sic] que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais”, dizia um dos pasquins. E os demais seguiam mais ou menos na mesma batida. Falavam de revolução (“quer o povo que se faça nesta cidade e seu termo a sua memorável revolução”), de liberdade (“…estado feliz… estado livre do abatimento… doçura da vida…”), do fim da dominação colonial (“para que seja exterminado para sempre o péssimo jugo reinável da Europa”… “a total Liberdade Nacional”), de regime republicano, de abertura dos portos ao comércio internacional, de “meritocracia”. Prosaica e candidamente, atribuía-se ao povo o desejo de que os soldados tivessem aumento salarial. Uma carta ao prior do Carmo acenava com a fundação de uma igreja baiana (a “Igreja Bahinense”), livre do jugo papal. E – risco dos riscos – apontava-se para a abolição da escravidão, ao lado da promessa de proteção ao comércio e de respeito à propriedade privada. Mais: quem ficasse contra o projeto revolucionário seria morto. Uma ousadia e tanto. Na verdade, uma provocação. Como dizer coisas de tal teor explosivo numa colônia organizada em cima do trabalho escravo – e dominada por um reino em que vigorava a velha monarquia absolutista? Era cutucar o cão com vara curtíssima.

     Esses pasquins manuscritos, aparecendo em pontos variados de Salvador como um desafio frontal à autoridade reinante, foram, evidentemente, uma iniciativa isolada. Individual. Ato intempestivo de alguém que se engajara no movimento revolucionário – e que, impaciente, ingênuo, irresponsável ou destemperado, pôs a perder o que parece ter sido um constante trabalho proselitista e todo um movimento que ia se articulando clandestinamente nas diversas camadas de nossa sociedade setecentista, incluindo-se aqui, de forma historicamente inédita entre nós, pessoas escravizadas.

[…]

LUIZ GONZAGA DAS VIRGENS

     Pois bem. Com a aparição dos pasquins, o Governo reagiu. A bem da verdade, o próprio governador da Bahia, Fernando José de Portugal, tinha já notícias das conversas subversivas que aqui iam se sucedendo (e se desdobrando), na década de 1770. Sabia de “reuniões secretas” realizadas em residências particulares. Mas nunca deu maior importância a elas. O que foi um equívoco, já que a Bahia setecentista vivia dias férteis para ideias de transformação social e política.

 

     Vou parar minha digitação por aqui, esperando que já seja suficientemente estimulante para as pessoas prosseguirem a leitura diretamente no livro de Riso. Neste blog mesmo há mais sobre a Sedição de 1798 em citações do livro do Prof. Luís Henrique Dias Tavares, no seguinte post:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/04/independencia-do-brasil-na-bahia-4/

 

VAMOS MOSTRAR AO PREFEITO A SAÍDA?

01/08/2009

joao_do_postepor ANTONIO RISÉRIO

Gostei muito – muito mesmo – do artigo que Paulo Ormindo publicou aqui(*), neste jornal, no dia 23 de julho. Paulo Ormindo é sério, sabe do que está falando e apresenta dados numéricos para comprovar suas afirmações. Bem que podia ser nosso prefeito. Mesmo porque o que temos hoje, em tal cargo, é um sonâmbulo que mal tem alguma ideia de si mesmo. Da cidade, não entende nada. Em vez de encarar seus problemas, brinca de fincar postezinhos azuis. Como se isso aqui fosse um joguinho qualquer. E nós fôssemos idiotas.

Quando Paulo Ormindo diz que, hoje, temos mais de quatro mil habitantes por km², me fez lembrar do Mike Davis de Planet of Slums. Porque a grande densidade demográfica de Salvador está nas favelas (já não distingo hoje, praticamente, entre favela e bairro popular – e a favelização dos conjuntos habitacionais é evidente), com casas enganchadas umas nas outras. E a verticalização, que substituiu o “puxadinho” pela laje. Enquanto isso, os mais ricos se esparramam em seus condomínios. Basta comparar o fim de linha de Pernambués com o Encontro das Águas, por exemplo (e nem venham me falar que este condomínio fica em Lauro de Freitas: precisamos, hoje, de uma autoridade metropolitana).

O que Mike Davis faz é uma previsão lógica. Ele indica ou descortina, nas favelas, a característica dominante do futuro urbano no hemisfério sul – no mundo externo ao círculo das democracias ricas do Atlântico Norte. Nas cidades e megacidades dos países pobres ou em desenvolvimento, as invasões de terras para autoconstrução de moradias, os assentamentos informais da “urbanização pirata”, cresceram, crescem e estão crescendo a uma velocidade estonteante. Mike Davis lembra que, desde 1970, o crescimento das favelas tem ultrapassado a urbanização “per se”. Não sei os dados exatos de Salvador. Gostaria de saber. Mas basta olhar em volta.

Sei, o problema não é somente nosso. Na Índia e na China, o crescimento das favelas é espantoso. Na África, a situação é extrema: as favelas crescem duas vezes mais rápido do que as cidades do continente. Luanda e Lagos são, sem tirar nem pôr, dois grandes favelões.

Mas aqui mesmo, no Brasil, vejam os casos de São Paulo e da Amazônia. Até a década de 1970, a população favelada de São Paulo era pouco mais do que estacionária, crescendo vegetativamente. De lá para cá, a coisa disparou. Na Amazônia, urbanização e favelização são sinônimos. E nada disso livra a cara da gente. Salvador poderia ter crescido de um modo harmônico. O problema é que a cidade está entregue, há anos, a quem não sabe como administrá-la e a quem só pensa em lucrar com a nossa degringolada urbana.

Isso aqui, hoje, é uma vergonha. E é muita cara-de-pau alguém ter a coragem de dizer que é o seu prefeito. Prefeito de que? Lídice deixou que fizessem aquela porcaria do Aeroclube (e havia um projeto maravilhoso de Lelé para o local, uma espécie de duna “high-tech”). Já Imbassahy só se empenhou em fazer coisitas de fachada. Colocava papel de parede em muros rachados. E, com esse cara que está aí, a coisa só fez piorar. Contamos, hoje, com o pior prefeito que esta cidade já teve. Se vocês o elegeram, problema vosso. O diabo é que eu e Paulo Ormindo também moramos aqui, nesse arremedo encalacrado de região metropolitana.

As favelas proliferam, com a sua “arquitetura possível” (Ermínia Maricato), configurada em situação de dominação social e opressão cultural. Tomam a parte baixa do Bonfim (olhem desde a igreja, por favor), ocupam expansivamente o Calabar, estiram-se por Pernambués, avançam pela Avenida Paralela. Diz Paulo Ormindo que a nossa carência habitacional é de cem mil moradias. A prefeitura tem algum projeto para isso? Não. Nem a prefeitura, nem os nossos (vossos) vereadores. Longe estão, ambos, de ter vergonha na cara. Se um brinca de pauzinhos azuis, a outra entrega a cidade à especulação imobiliária.

Pelo andar da carruagem social e política, só nos vai restar cumprir a antevisão de Mike Davis. Hoje, Bombaim (Mumbai) é a capital mundial das favelas. Salvador, com suas ruas esburacadas, desfazendo-se a cada chuva, corre atrás. Vamos mesmo de mal a pior. Sem prefeito que saiba ser prefeito e sem vereadores que mereçam esse título. Sem cidadãos?

(*) Transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde de 1.8.2009. O texto de Paulo Ormindo a que Risério se refere, “Salvemos Salvador enquanto é tempo”, foi publicado também neste blog:

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/07/24/salvemos-salvador-enquanto-e-tempo/

CIVILIDADE BAIANA EM QUESTÃO

29/07/2009

lengalenga02

 

É SÓ O JEITO BAIANO DE SER?

 

por EDMUNDO CARÔSO*

 

Baianos. Nossa fama de preguiçosos e indolentes vai longe, o que é uma injustiça. Trabalhamos feito mulas, mas o jeito baiano de ser, e quanto a isso eu concordo, não só dá margem para especulações descabidas desse tipo como torna, por exemplo, o serviço que oferecemos aqui muitos níveis abaixo da maioria dos estados do Brasil. A urgência na Bahia é quase uma utopia. E aí reside o problema.

Algumas coisas são muito estranhas para quem não vive aqui.

Por exemplo. Você chega numa lanchonete, se acerca do balcão e lá só tem uma atendente conversando com alguém. Em qualquer lugar do mundo, ela iria parar a conversa, atender o cliente e depois voltar para seu lenga-lenga. Em outros, como São Paulo, nem direito a conversar teria sob pena de ir para o olho da rua. Mas aqui não. Você vai ficar plantado ali feito uma jaca mole até que ela termine de contar a sua amiga como foi a gravação do DVD do Chiclete ou coisa que o valha. E não adianta sacar da cartola seus ares de contrariado pois cara feia pro baiano é fome, faz o mesmo efeito que um placebo.

Se a mocinha gostou do show, você vai ter de esperar. Veja se tem cabimento a sua fome ou a perspectiva de lucros do dono do negócio (e até mesmo a manutenção de seu padrão de qualidade) sobrepujarem em prioridade o show do Chiclete ou mainha, lá deles, abaixando e levantando numa letra de pagode? E não adianta interferir, perguntar nada. Pois ela vai lhe fulminar com um olhar de desprezo diante de tanta inconveniência. Você não tem educação? Será que não vê que ela e sua amiga estão conversando?

Se você for paciente e souber das coisas vai esperar quietinho até que ela termine, quando então, se der sorte e caso ela não tenha levantado com o pé esquerdo, vai se surpreender com o tratamento carinhoso e atenção redobrada que terá.

Dois exemplos práticos que definem o jeito baiano de ser podem ser dados explicando o uso das expressões VUMBORA (contração de vamos embora) e AONDE!!!! (assim mesmo, com várias exclamações). As duas são sinônimos de nunca, aplicadas de formas diferentes.

Vumbora, em uma de suas utilizações práticas não quer dizer absolutamente nada o que – pelo menos aqui – é o mesmo que dizer muita coisa desde quando você seja bom leitor de entrelinhas. Por exemplo.

*Edmundo Carôso é letrista e poeta baiano, parceiro de geração de Carlinhos Brown, Luiz Caldas e Daniela Mercury, com quem trabalhou até seu mega sucesso em O CANTO DA CIDADE. Vive em Salvador, já colaborou para jornais do interior e capital, publicou dois livros de poesia. Tem perto de 100 músicas gravadas em sua discografia, sendo a mais conhecida delas o clássico de carnaval, há mais de 20 anos feito com Carlos Pita: COMETA MAMBEMBE.

COMENTÁRIO DE JARY CARDOSO 

O texto “É só o jeito baiano de ser?”, primeiro de uma série, foi postado em 17.11.2008 no blog de Edmundo Carôso, DE MIM E DAS COISAS, que vale a pena visitar:

http://blogs.abril.com.br/edmundocaroso/

A questão tratada por Edmundo Carôso neste texto é parte de um amplo debate que o blog Jeito Baiano pretende desenvolver na busca de uma definição de civilidade autenticamente baiana, que incorpore padrões de comportamento social dos povos mais desenvolvidas, mas sem perder a ginga, a alegria, o bom humor e a maneira saudável de os baianos viverem.

João Gilberto dizia que o povo da Bahia não precisa de psicanálise. E talvez isso seja verdade justamente porque aqui as pessoas conversam tanto, se abrem tanto umas com as outras, comentam tanto a própria vida e a vida alheia, é tanto fuxico, tanta fofoca psicoterapêutica que não sobra espaço para as neuroses.

Antonio Risério uma vez comentou que os baianos chegam atrasados aos compromissos por causa das longas e boas conversas que não podem ser interrompidas sem mais nem menos. Mas a conversa é assim tão sagrada a ponto de prejudicar a prestação dos serviços e o atendimento da freguesia? É o que Edmundo Carôso está questionando.

Esta discussão sobre (in)civilidade baiana foi iniciada neste blog pelo post-hit “Mijar ou não mijar na rua, eis a questão”: 

https://jeitobaiano.wordpress.com/2009/04/17/mijar-ou-nao-mijar-na-rua-eis-a-questao/