MARIA SAMPAIO – GENTE DA BAHIA

13/06/2010

MARIA SAMPAIO em sua casa, no bairro do Itaigara, em Salvador. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 19.6.2008

Brincou de carrinho, de escrever, de picula, de desenhar e pintar, de tirar retrato. Passada dos 30, assume a fotografia profissionalmente. Aos 50 escreve”

Maria Guimarães Sampaio

Autodefinição em seu blog CONTINHOS PARA CÃO DORMIR [http://continhosparacaodormir.blogspot.com/], criado em 2008

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FICAM AS IMAGENS,

OS LIVROS, A SAUDADE…

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texto de RONALDO JACOBINA*

[publicado no jornal A Tarde do dia 3 de junho de 2010]

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Após dez anos de luta contra um câncer de mama, a fotógrafa e escritora Maria Sampaio morreu ontem [2.6.2010], aos 62 anos, no Hospital Português, onde esteve internada nos últimos dez dias. O corpo será cremado hoje [3.6.2010], no Cemitério Jardim da Saudade (Brotas).

De acordo com o único irmão, Artur Sampaio, a pedido dela, as cinzas deverão ser distribuídas entre o túmulo dos pais (o artista plástico Mirabeau Sampaio e Norma) e os rios Subaé, em Santo Amaro da Purificação (Bahia), e Sena, em Paris.

Vamos fazer a vontade dela. Era uma pessoa muito especial e valente, deixou tudo organizado antes de partir.

Considerada uma das mais importantes fotógrafas da Bahia, a partir dos anos 1970, Maria Sampaio registrou com o seu olhar sensível importantes momentos da história cultural do Estado.

Muitos desses registros permanecerão eternos, como as imagens que fez para capas de discos e livros ou para as publicações que lançou, como Recôncavo, editado pelo Desenbanco em 1985.

Dona de um rico acervo da família Velloso, de quem sempre foi muito amiga, Maria foi a autora das fotos que ilustram as capas dos discos Cores & Nomes, de Caetano Veloso (1982), e Olho d’água, de Maria Bethânia (1992).

Não sei como viverei a partir de agora sem a amizade de Maria. Ela era mais que uma irmã para nós, uma filha para minha mãe – diz, emocionada, Mabel Velloso.

Fotografia

A menina que um dia sonhou ser cantora ganhou admiração e prestígio em outras artes. Primeiro como fotógrafa, depois como escritora.

Não podia nunca ser cantora porque era muito desentonada – revelou em julho de 2008 à revista “Muito” [suplemento dominical de A Tarde].

Apesar de não ter enveredado pelo caminho da música, foi uma amante da canção popular, especialmente do fado, ritmo português que a uniu à cantora Jussara Silveira.

Há 15 dias, ela me disse que ficaria boa para irmos a Lisboa ouvir fados juntas – diz Jussara.

Como a natureza a desproveu dos atributos necessários para cantar, o talento a transformou numa artista. Visual e literária.

Maria foi uma profissional de extrema importância para a história da fotografia na Bahia – declara o colega Aristides Alves.

Foi a pedido dele que ela escreveu um texto para o livro A fotografia na Bahia, lançado em 2006.

Companheira de muitas décadas, a fotógrafa Célia Aguiar realizou vários trabalhos em parceria com Maria.

Era minha melhor amiga, minha companheira. Vivemos muitas coisas juntas: moramos juntas, viajamos juntas e fotografamos juntas. Tivemos uma vida juntas.

Para Célia, Maria sempre gostou de trabalhar coletivamente.

Ela agregava suas ideias às dos colegas de profissão, uma das pessoas mais generosas que conheci.

Literatura

Nos últimos anos, Maria passou a se dedicar cada vez mais à literatura. Desde que escreveu seu primeiro livro Estrela de Ana Brasila (2004) e, depois, Rosália Roseiral (2006), ambos pela Record, a escritora descobriu esta nova vocação. Tanto que, no ano passado, o editor Claudius Portugal, admirador e amigo de longa data, a convidou para publicar Continhos para cão dormir, pela editora P55.

Menos de um ano depois, mais um livro: Continhos para cão dormir II.

Maria era uma grande contadora de histórias e conhecia como ninguém os hábitos da sociedade baiana. Ela escrevia sobre isso com muito humor.

Foi em Maria que a dramaturga Aninha Franco se inspirou para escrever a personagem Guima do livro As Receitas de Mme Castro (Ed. P55).

Maria era uma amiga generosa, bem-humorada, ela é aquela personagem. Fiz o livro para ela e sobre ela.

E é assim que Guima (ela se chamava Maria Guimarães Sampaio) será lembrada: baiana arretada, bem-humorada, generosa e, sobretudo, amada.

MARIA SAMPAIO. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 19.6.2008

  

NOTA DO EDITOR – Ao visitar hoje o blog de Maria Sampaio [http://continhosparacaodormir.blogspot.com/] CONTINHOS PARA CÃO DORMIR, encontrei este lindo e emocionante comentário assinado por Jorge Velloso:

 

Tucão está em novo estúdio

 

Se fossem reveladas fotografias de nossos corações hoje, com certeza sairiam sem cor, sem preto nem branco. Afinal, nossa fotógrafa, nossa companheira de farra, nossa tia, nossa amiga, nossa Maria Sampaio se despediu. Cansou, se retou (como ela mesmo gostava de falar) e foi fazer novos retratos, num estúdio lá por cima.

Se a internet do Céu estiver em boas condições, com certeza logo veremos fotos de São Jorge passeando de cavalo no blog de Maria. Com certeza veremos fotos de São Francisco brincando com Tieta e outros cachorros no Continhos para Cão Dormir. Veremos fotos de Dona Zélia com Jorge ao lado de Dona Norma e Dr. Mirabeau…

Ah! Com certeza, essa hora Maria está toda enturmada. Já deve ter arranjado um monte de empregos free lancers e está todaserelepe fazendo até foto 3×4 de Jesus Cristo, enquanto Voltaire Fraga faz de São Benedito.

Lá por cima deve estar um salseiro, porque do jeito que Maria era aqui embaixo, ela já deve ter contado um monte de casos engraçados que ela ouvia em Santo Amaro e claro, já deve ter mandado um monte de anjo chato à merda, porque muito puritanismo com ela não cola.

Só espero que ela não olhe aqui para baixo porque Maria vai seretar se vir que estamos todos tão tristes, tão saudosos e com a fotografia da saudade estampada no peito. Ela pediu que os amigos estivessem reunidos na hora que ela mudasse para o estúdio do primeiro andar, e aqui estamos, mas é nosso dever fazermos o possível para colocar pelo menos um pouco de cor no retrato deste adeus.

Uma boa saída é lembrarmos as gargalhadas de Maria. Assim, instantaneamente já vamos ser contagiados com o flash da felicidade e colocaremos um pouco de cor na foto de um dia tão triste.

Siga em paz, Tucão, e obrigado por ter dado tanto bem-querer a mim e à minha família. Ah! Quando eu te encontrar no novo estúdio vou querer que você faça fotos minhas tão bonitas como as que fez no meu casamento.

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Jorge Velloso

2 de junho de 2010

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A BAHIA NO NORDESTE

13/06/2010

Ilustração de GENTIL

No meu tempo de aluno, a Bahia e Sergipe formavam o Leste. Até início do século XX, da Bahia para cima tudo era Norte

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texto de EDIVALDO BOAVENTURA*

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Desde que fui funcionário da Sudene que sinto a dificuldade de a Bahia ser plenamente Nordeste. A intensa comunicabilidade entre os estados nordestinos não inclui a Bahia. Se os indicadores econômicos a aproximam da região, a antropologia a diferencia. Ao Recôncavo úmido e negro junta-se a região verde do cacau e do extremo sul. É um cenário bem distinto do nordestino.

A cultura negra, que tanto marca a Bahia, tem aqui a melhor expressão nacional. É a diferença que conta e sou bem mais pela diferença do que pela identidade. Temos bem mais consciência da nossa negritude do que da nordestinidade. O contingente afrodescendente, à semelhança do dendê, dá a cor da Bahia.

A bem da verdade, o soteropolitano não tem nenhum orgulho em ser nordestino. O slogan de um supermercado “orgulho de ser nordestino”, do ponto de vista do marketing, na Bahia, não funcionou.

Temos, sim, um tremendo orgulho místico de sermos baianos com o Dois de Julho, as nossas festas, a nossa culinária, o nosso passado, a nossa música. É preciso não esquecer que já fomos corte!

No meu tempo de aluno, a Bahia e Sergipe formavam o Leste. Anteriormente, até início do século XX, da Bahia para cima tudo era Norte. Gilberto Freyre e depois Celso Furtado formularam a criação social, política e econômica do Nordeste. Embora não participando inteiramente da região, as mais das vezes a usamos politicamente.

A Bahia pertencia à Sudene, mas era Nordeste? O governador ou seu representante frequentava o seu Conselho Deliberativo, uma espécie de pequeno parlamento nordestino. Houve até um superintendente da Sudene baiano, Paulo Souto. Do que eu sei, foi o único dentre muitos em toda a história desse organismo regional.

A participação da Bahia nos demais órgãos regionais tem sido muito reduzida. Quem se lembra de um baiano presidindo o Banco do Nordeste? Além de Oliveira Brito e Aleluia, qual o outro baiano que dirigiu a Chesf, no Recife? E o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas?

A Bahia não é sede de nenhum organismo regional importante. O Banco do Nordeste está suntuosamente instalado em Fortaleza. Aliás, quando da sua criação, no Congresso Nacional, poucos deputados baianos se pronunciaram a favor. Aliomar Baleeiro, por exemplo, foi contra, enquanto outros irmãos nordestinos, cearenses, pernambucanos e paraibanos lutaram pela sua institucionalização.

Em compensação, Recife funciona muito bem como capital regional. Assim procede e tira vantagens da sua liderança. A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), a Sudene e um Tribunal Federal da 5ª Região, dentre outras instituições, localizam-se na capital pernambucana. Além do serviço que prestam, agregam fluxos de emprego e renda. Não obstante as barragens e a hidrelétrica terem sido instaladas no lado baiano do Rio São Francisco, Pernambuco com agressividade empresarial soube carrear muito antes do que nós a força e a energia da hidrelétrica. Pioneiramente, no distrito do Cabo, o governo pernambucano criou um sistema de incentivos fiscais com a energia de Paulo Afonso.

Todavia, historicamente, a Bahia sempre foi Recôncavo e Sertão. A dualidade básica da nossa história. E os sertões de Teodoro Sampaio e Euclides da Cunha nos aproximam da contingência nordestina. Os sertões nordestinos começam em Feira de Santana, que responde ao chamado de Rui Barbosa: “Princesa do Sertão”. Hoje é bem mais rainha do que princesa. À entrada dessa cidade encontra-se o “Portal do Sertão”.

Todo baiano nascido nas interioridades tem orgulho de ser sertanejo (Atenção: o vocábulo interior referente às pessoas é pejorativo, aconselho a não usá-lo). O sentimento de pertença aos sertões é forte. Com mais de 45% do extinto Polígono das Secas, a Bahia possui a maior porção do semiárido nordestino. A dinâmica das migrações sertanejas criou centros populacionais importantes como Vitória da Conquista e Juazeiro. O complexo agricultor Juazeiro-Petrolina foi o Nordeste que deu certo. A pouca consciência nordestina dos baianos é compensada pela força de recriar, interiormente, a Bahia.

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*Edivaldo Boaventura – Educador, ex-secretário de Educação e Cultura do Estado da Bahia, escritor, diretor-geral do jornal A Tarde.

O Professor Edivaldo é pai de outro baiano ilustre, o ator e cantor DANIEL BOAVENTURA

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DIRETO D’ÁFRICA, NA CIDADE DA BAHIA

12/06/2010

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(escrito em 6.6.2010)

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Estou aqui esperando começar a Copa do Mundo. Tenho andado pela cidade e visto coisas alarmantes. Para principiar ontem assisti a um ladrão de galinha ser espancado até a morte por populares que já estavam na campana fazia dias. Pelo menos uma vez por semana ele pulava o quintal de alguém e bafava uma penosa. Segundo um conhecido dele, que fez questão de não o reconhecer, para também não ser confundido como cúmplice, o homem era miserável, estava desempregado havia mais de um ano e era o único jeito de dar comida para a prole de seis meninos e duas meninas. Não se sabe o que será dos filhos.

Encontrei um casal de amigos que estava parado numa avenida. Marido e mulher presenciaram o absurdo de dois jovens fazendo o “tradicional” pega. Invadiram o sinal, subiram o passeio e mataram um garoto que andava de bicicleta. O casal até hoje, lá se vão três dias, não consegue comer nada, do nojo que ficou da cena e dorme com remédios tarja preta.

Leio nos jornais que no final de semana foram mais de 20 mortos – a maioria absoluta de jovens negros – pela polícia que assegura ter sido em confronto direto com traficantes; mortos por traficantes que cobram dívidas, embora as famílias garantam que os meninos não consumiam drogas e um pai que matou a ex-mulher e o bebê e depois tentou se suicidar o que não deu certo.

Ontem à noite vi uma cena lamentável, diversas mulheres e crianças brigavam na porta de um minimercado, num bairro nobre da cidade, disputando frutas apodrecidas, frios com data de validade já ultrapassada, pão duro e hortaliças murchas. Remexiam o lixo desesperadamente e guardavam a coleta em sacos que eram entregues a crianças para que tomassem conta e não deixassem que os outros famélicos roubassem. Na porta de uma farmácia um garoto com idade estimada em 12 anos me abordou e pediu parta que eu comprasse para ele uma lata de leite em pó para recém-nascido. Quando já ia comprar o balconista me chamou num canto e disse que não comprasse, pois o garoto iria trocar o leite – de fácil revenda – por pedras de crack. Não comprei e o garoto me ameaçou e ao farmacêutico. Não volto mais lá.

Na TV assisti ao jornalismo dizendo que mais de dez estudantes morreram num choque com uma carreta pois o motorista não tinha sequer Carteira de Habilitação e no mesmo instante entra outra notícia de uma chacina numa ilha próxima da cidade, sem falar da mãe que queimou a mão do filho de cinco anos porque ele queria comer bolacha no que ele considerava fora de questão, pois não havia bolacha e ele chateava por querer e querer.

Caiu uma chuva forte e na invasão formada por milhares de casas pongadas sobre as encostas, lonas pretas mostram que se trata de uma queda anunciada. Outro dia morreram várias pessoas com a terra que desceu e cobriu uma faixa imensa de casebres. Enquanto os familiares choravam seus mortos, uma quadrilha entrou no velório e assaltou todo mundo. É a vida.

É muita pobreza por aqui. A população negra não tem emprego e as escolas públicas não oferecem condições de competitividade com os alunos mais abastados (notadamente brancos de estabelecimentos particulares), embora tenha também um montão de brancos na absoluta linha da miséria. A polícia parece que caça os negros e pardos. Mora-se mal, perto de esgotos e buraqueiras. E quem precisa de atendimento médico tem de amargar longo tempo nas filas. E se for para tomar vacina, nem todo mundo consegue. Depende da faixa etária. Assinado: eu, Jolivaldo Freitas, repórter e cronista, direto desta África que é Salvador.

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*Jolivaldo Freitas – Escritor e jornalista

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COPA E OLIMPÍADAS À VISTA

12/06/2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

(publicado originalmente na seção de Opinião do jornal A Tarde, em 6.6.10)

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Os organismos internacionais, que sempre serviram às grandes potências, estão em baixa. A ONU não tem autoridade para nada. Sua força de paz, os capacetes azuis, é expulsa ou executada na África. O FMI, além de inócuo, pede fiado ao Brasil e a Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA não consegue evitar a proliferação atômica nos países nanicos, enquanto Obama pede a Lula para convencer os iranianos a fazerem o dever da AIEA.

Neste quadro, é surpreendente a força da FIFA, que nunca fez nada pelo futebol amador ou educação esportiva. Exigir que a África do Sul construísse cinco mega-arenas, quando se sabe que a crise que ameaça o euro e o mundo se deve, em grande parte, aos gastos extraordinários da Grécia nas Olimpíadas de 2004, é um absurdo. Pior ainda é admitir que o Brasil, pentacampeão e com a melhor infraestrutura de futebol do mundo, aceite construir ou reformar doze estádios no estilo jockey club, com áreas para cartolas, museus, camarotes, restaurantes finos, estacionamento, escadas rolantes, e ingresso de US$ 40.

Numa época de TV de alta definição e 3D, é discutível a capacidade desses eventos de atrair milhares de turistas, como ocorre na Europa dotada de trens a autopistas velozes e hotelaria de ponta. A pouca afluência à Copa sul-africana parece desmentir essa premissa. Cerca de 40 mil torcedores em uma semana não vão fazer nenhuma diferença a Salvador, acostumada a receber 300 mil foliões no Carnaval. Mas a Copa pode ser um pretexto para arrancar dinheiro do governo federal e implementar melhorias urbanas. E aí varia muito o tratamento dado ao tema em cada cidade. São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba não aceitaram fazer novos estádios, senão reformar os existentes. As sete cidades restantes, de menor peso político, capitularam ás exigências da FIFA e vão bancar arenas novas.

Salvador é uma delas, preferindo desembolsar R$ 1,6 bilhão nos próximos quinze anos para construir e gerir uma arena em vez de reciclar a Fonte Nova a um custo de R$ 150 milhões (A Tarde 30/01/10). Além do mais, demolir e reconstruir um estádio naquela área pode trazer muitas surpresas, por estar sobre um antigo lago; por ser parte do entorno do Dique do Tororó, do Desterro e da Casa de Anfrísia Santiago tombados pelo IPHAN, por sua história ligada ao futebol, à natação e ao atletismo e por não sabermos o que fazer com o entulho. Ao contrário do Vitória, que aproveitou um lixão para construir o Barradão, estaríamos demolindo a Fonte Nova para criar um lixão.

Dezessete das mais representativas entidades profissionais, ambientalistas e sociais baianas, entre os quais o CREA-BA, o IAB-BA, o SENGE, o Germem e a FABS, enviaram ao governador, no último dia 18, um Posicionamento que entre coisas afirma:

1 – Não cabe a destruição de um complexo olímpico composto de estádio, ginásio e piscina para substituí-lo por uma arena exclusiva para futebol justamente no momento em que o Brasil se prepara para sediar, pela primeira vez, os Jogos Olímpicos…

2 – A estrutura principal (…) atualmente existente do estádio é perfeitamente aproveitável, como afirmou o especialista em estruturas Eng. João Leite no 1º Debate da Copa 2014, realizado no CREA-BA em 2009. A execução de novas fundações terá um alto custo, visto que a Fonte Nova está apoiada, em boa parte, em área embrejada…

5 – Até o momento não está claro como se dará a demolição e a posterior retirada das milhares de toneladas de escombros resultantes da demolição…

Temendo a não conclusão das obras a tempo e transferência dos jogos para outra cidade, o Posicionamento sugere a paralisação da demolição e início da recuperação do atual estádio.

Reconhece-se que implementar as propostas aqui elencadas não se constitui em tarefa fácil, por exigir uma profunda mudança de rumo. Porém ainda há tempo e, certamente, a população baiana saberá reconhecer esse gesto do governo do Estado em favor do cuidado com a coisa pública, especialmente avaliando o quanto do orçamento do Estado se vai comprometer para esta e para as gestões futuras e sobretudo o quanto de retorno social será garantido pelos recursos aplicados.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, professor titular da Universidade Federal da Bahia

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ROBIN HOOD X A CULTURA NA BAHIA

09/06/2010

Ilustração de GENTIL

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Não existe cultura sem memória, nem consciência de nação e de cidadão sem o conhecimento histórico. (…) E nós? Como está a nossa cultura?

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texto de CONSUELO NOVAIS SAMPAIO*

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Enganam-se os que pensam não existir comprovação da existência de Robin Hood. O mito foi criado através dos séculos, baseado num personagem histórico. Não se comprovou ainda se ele viveu suas aventuras na floresta de Sherwood, condato de Nottingham, na de Wakefield, ou na de Yorkshire. Este personagem tornou-se realidade histórica a partir de pesquisas realizadas por paleontólogos, arquivistas e historiadores.

O seu nome está gravado em diversos sítios históricos, abadias e conventos, em tempos diferentes, sugerindo que outros bandoleiros (heróis?) usaram a alcunha que o identificava, não só para honrá-lo, mas também valorizarem-se. Ele foi identificado num registro cronológico que lista os “fora da lei”, desde o século XII.

O seu nome aparece, pela primeira vez, entre os anos de 1227 e 1229. No decorrer do século XIII e seguintes, foram encontrados outros Robin Hood(s). O de 1299, por exemplo, e outros que se seguiram foram descartados, por se dedicarem a “furtos comuns”, que não se ajustavam aos registros feitos nos poemas épicos, gestas e baladas medievais. O cruel xerife também foi real e perseguiu Robin Hood desesperadamente, através das florestas. Contudo não se pode ainda comprovar o seu nome.

É claro que este não é o mais antigo documento da história inglesa. Eles remontam a períodos A.C., quando da ocupação celta, viking, romana etc. A Inglaterra foi bombardeada durante a 2ª Guerra, mas preservou seus documentos e estimula as reconstruções históricas. De igual modo, parte da história humana está sendo preservada pelos mórmons no fantástico arquivo que construíram nas Montanhas Rochosas.

Não existe cultura sem memória, nem tão pouco consciência de nação e de cidadania sem o conhecimento histórico. Não é à toa que na Disneylândia, CA, antes de entrar no fantástico mundo de diversões, você deve passar por amplo salão-museu dedicado a Abrahão Lincoln, onde conhece a sua história e, em seguida, por um cine-teatro no qual você assiste a belo filme sobre a guerra de independência norte americana. É de causar inveja ver os cidadãos dos USA saírem desta sala orgulhosos, peito estufado…

Não vou me alongar com outras referências porque o leitor sabe como é bem preservada a história em outras nações, inclusive latino-americanas…

Esses comentários levam a uma pergunta: E nós? Como está sendo tratada a cultura na Bahia? O que se tem feito parece tão instável, tão circunstancial e inconsistente! Transmite a sensação de negligência e mesmo desprezo por nossos bens culturais, por nossa história. Os jornais estão fartos de registrar esta situação; os responsáveis pela manutenção de instituições culturais e ligadas à história, cansados de reclamar, pedir providências.

No dia 16 deste A Tarde publicou ampla reportagem focalizando a situação em Salvador. Documentos preciosos, do século XVII deteriorados. Não existe projeto nem sequer para digitalizá-los. Os jornais? Esfacelados. Embora não tenhamos sofrido bombardeio durante a 2ª Guerra, muitos estão pulverizados. Em boa hora, A Tarde tomou a iniciativa de digitalizar a sua coleção, remontando ao ano de 1912. O que impede o Estado de fazer o mesmo? Como entender que, para ter acesso às Mensagens governamentais do séc. XIX, tenhamos de recorrer ao acervo da Universidade de Chicago, USA.? É constrangedor, para não dizer vergonhoso.

Entende-se que esta situação resulta da parca alocação de recursos financeiros, fruto de interesses políticos imediatistas. Para trabalhar na publicação das cartas que o governador Octávio Mangabeira recebeu no exílio, e elaborar o Dicionário Biográfico-Histórico da Bahia, o Centro de Memória da Bahia (CMB) da Fundação Pedro Calmon teve de recorrer à bancada baiana na Câmara Federal. Sensíveis ao apelo para a preservação cultural e histórica da Bahia, os deputados Lidice da Mata, Jutahy Magalhães Jr., João Almeida, José Rocha, Emiliano José, Felix Mendonça e Jorge Khoury fizeram dotações individuais que, logo liberadas, permitirão a realização desses projetos.

Além do CMB, a Fundação Pedro Calmon teve outra pedra fundamental, quando criada em 1986: o Memorial dos Governadores. Até a recente reforma do Palácio Rio Branco, onde se situava, prestou grande beneficio à conscientização histórica da nossa população, através de visitantes, muitas escolas e turistas que, monitorados, recebiam explicações sobre o período republicano na Bahia, ao passarem pelas vitrines com objetos pessoais e documentos dos seus diversos governadores.

Corre o rumor que o Memorial dos Governadores será contextualizado. O que isto significa, não sei. Ouvi dizer que as vitrines desaparecerão. Prefiro não acreditar, porque nem a era da cibernética que vivemos justificaria o aniquilamento de mais um pedaço da nossa história. Ao contrário, deveria enriquecê-la. Negligência? Ignorância? Que falem os nossos “agentes culturais”.

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*Consuelo Novais Sampaio – PhD em História pela The Johns Hopkins University

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GINGA FUTEBOL ARTE

09/06/2010

Ilustração de GENTIL

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A recriação do futebol [no Brasil] começa com a participação do negro. Faz com que a linguagem do futebol seja envolvida por valores procedentes de culturas milenares

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texto de MARCO AURÉLIO LUZ*

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O célebre Mario Filho, autor do livro O negro e o futebol brasileiro, observa a reação dos jornais ingleses referindo-se à Seleção brasileira em excursão na Europa em 1956 as vésperas da conquista da Copa do Mundo de 1958: “O futebol brasileiro tinha tudo de um circo: o comedor de fogo, o engolidor de faca, os acrobatas, os trapezistas, até os palhaços. Só não tinha essa coisa elementar que era um time”.

Para muitos o futebol brasileiro é incompreensível. Isso porque a fonte de sua inspiração nasce da civilização africana que sofre de forte recalcamento pelos sistemas neocoloniais europocêntricos. Essa recriação do futebol começa com a participação do negro. Faz com que a linguagem do futebol seja envolvida por novos valores procedentes de culturas milenares.

O jogo que era uma elaboração das formas técnicas industriais de produção, a divisão de funções do trabalho a serem cumpridas da melhor maneira visando unicamente o gol, que significa objetivo, produtividade, tem agora uma nova pedra angular, isto é a noção de odara que em língua yoruba significa bom e bonito simultaneamente.

Nessa bacia semântica de formas e movimentos o técnico não se separa do estético é uma e mesma coisa. Então a ocupação do tempo e do espaço do jogo sofrerão mudanças radicais. A mesma indagação sobre a capoeira para os de fora da roda, se é dança, se é luta, se é religião, se é jogo, acontece com o que viemos a chamar de futebol arte.

Assim como a capoeira, a base do jogo é a ginga. A ginga é o movimento que incorpora a síncopa, o vazio que constrói a esquiva que torna o jogador invisível para o adversário. Esse movimento se faz ao sabor do ritmo do balanço, que os afro-americanos chamam de suingue. O nome ginga creio eu deriva como homenagem à Rainha Ginga Ngola Bandi Kiluanji. Ela que enfrentou os colonialistas escravistas de Portugal e é considerada a rainha invisível por suas táticas de deslocamentos, conseguindo manter o reino do Ndongo (Angola) independente, é lembrada nos autos de coroação dos reis de Congo nas congadas do Brasil.

Outra referência importante se desdobra da noção do espaço sagrado. Nas tradições cristãs o espaço celeste é o lugar do sagrado. Toda uma estética se constitui dessa noção, desde as narrativas celestiais às pinturas das igrejas e sua arquitetura se projetando para o alto. Assim como a dança “clássica” o ballet com seus saltos para o alto, o futebol inglês não foge desse valor, bola para cima e a cabeçada faz da cabeça o lugar onde o espírito se separa ou controla a matéria ou pecado de onde deve sair o gol.

Muito diferente é a noção do espaço sagrado nas culturas afro-brasileiras. Aqui é o interior da terra que guarda e contém o mistério da criação, de onde se celebra a ancestralidade. Então toda uma estética está voltada para baixo, em termos de rituais, complexas danças com gestos simbólicos, onde todo o corpo e os pés em contato com o solo sacralizado realizam a comunicação entre esse mundo e o além.

Assim como a capoeira original se faz ao rés do chão o futebol arte evolui rente ao gramado.

Por fim, tendo na origem o livro sagrado, a comunicação exigindo a concepção do corpo ascético, do corpo inerte, educado para obter conhecimento apenas através da leitura ou de imagens, exacerbando a relação olho cérebro, característica das culturas europeias, faz com que se desdobre na formação de jogadores de futebol o que chamamos de cintura dura.

Por outro lado, nas culturas afro-brasileiras o acesso ao saber faz um apelo a todos os sentidos, promovendo a sinergia entre eles e ao mesmo tempo exigindo uma comunicação direta intergrupal, onde se dá e se realiza o desejo de estar junto, em interação grupal se fortalecendo, podendo se divertir e manifestar a alegria. A música percussiva, a dramatização que envolve a estética do sagrado fazem do corpo em movimento um caminho de adoração de entidades ancestrais.

Daqui se desdobra também essa característica lúdica do nosso futebol arte, e através dela somos o país com mais conquistas da Copa do Mundo.

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*Marco Aurélio Luz – Doutor em Comunicação, licenciado em Filosofia, professor, escritor, escultor

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AS BAIANAS (DO ACARAJÉ) PAULISTANAS

09/06/2010

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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Tá pensando o quê? Lá não é como aqui, não! Tem não esse negócio de “olá baiana, bote aí pra mim com bastante pimenta, com vatapá e camarão”. Tem não. O paulistano, mesmo quando ele é raciado com baiano por avó ou avô nascido tempos idos e migrado, tem a maior má vontade para com o baiano. Quem trampou por lá uns tempos viu como todos tratam todo baiano. Para eles, qualquer nordestino é “paraíba” e se o Zé Mané reage vira mais motivo de chacota e pirraça.

Lá não tem disso não, de deixar correr solto as coisas nas ruas, os camelôs e os vendedores ambulantes. Pessoal que vende cachorro-quente tem de ter licença. Oferece churrasco grego ou pastel tem de estar municiado de documentos. Quem vende bugigangas a mesma coisa, e não podia ser diferente com as baianas que fugiram da concorrência difícil de Salvador para tentar o eldorado.

Alguns itens do costume baiano, em se tratando de vendedoras de acarajé, abará, punheta, cocadas e afins (“No tabuleiro da baiana tem”) por lá são considerados fora do tom. Por mais que as autoridades sanitárias soteropolitanas tentem (e olha que elas não tentam muito não) e as entidades de classe delas, as baianas, se esforcem para dar treinamento, qualificação e discernimento (também não há um esforço tão grande assim não, é bom que se diga), quem tem a mania, hábito ou vício de degustar um bolinho de feijão fradinho passado na máquina (coisa de antigamente e na verdade não se faz mais, comprando tudo pronto na Feira de São Joaquim, já que as herdeiras das baianas famosas ficaram preguiçosas) e fritado no dendê (não mais na flor do dendê, que ficou caro e difícil de achar) e muito menos com água-de-cheiro, sabe que está correndo risco.

Basta ver que a absoluta maioria não usa luva. Boa parte de quem usa luva é para proteger a mão, pois com a luva fazem tudo que não devem, desde coçar as partes pudendas a assoar o nariz. Além de pegar qualquer coisa que caia no chão e não se troca a luva. Com isso – já que ninguém faz a pesquisa, nem a Vigilância Sanitária e muito menos outros órgãos afetos à saúde do consumidor – o que comemos quando compramos um abará, por exemplo, é a exata mistura de Vitamilho com feijão fradinho, sal, cebola, coentro e coliformes fecais.

Quem quiser que me venha dizer que está comendo o produto com todos os itens de segurança no fazer. Já visitei casa de baiana famosa onde mais de dez ajudantes faziam a massa em cima de uma pia imunda. Já vi acumulado junto ao galinheiro do quintal as folhas de bananeiras que seguram a massa do abará no cozimento. Já apreciei de perto baiana arrancando a cabeça do camarão, colocando na boca e com a mesma mão pegar outros condimentos e enrolar tudo. Mas o que invoca mesmo é a cocadinha.

Na Barra, perto da Marques de Leão, havia uma baiana que a princípio era preciso coragem de enfrentar os seus quitutes. Ela suava e passava o dedo na testa, para retirar as gotículas e limpava a mão na saia rendada, nada impecável. Suas unhas eram imensas e de vez em quando ela passava a ponta da faca por baixo para retirar o acúmulo de massa. Mesmo assim, às cinco da tarde havia uma fila imensa. O acarajé cheirava de longe e devia ser pelo “aditivo”.

Agora as baianas que foram para São Paulo vender seus bocados queixam-se que estão sendo escorraçadas das ruas pela Secretaria de Saúde e pelo rapa. Argumentam que o acarajé é patrimônio da humanidade e não apenas dos baianos e que merece respeito. Acontece que o patrimônio precisa ser respeitado por todos. Me diga aí, meu rei, quando foi que você soube ou viu aferição de qualidade de acarajé e abará na Bahia? Minha vizinha, que é viciada em acarajé, diz que não receia, pois a pimenta malagueta mata os micróbios. Tomara.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista e escritor

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CAETANO VELOSO: “OU NÃO?”

31/05/2010

Caricatura criada por CAU GOMEZ

Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração”

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texto de CAETANO VELOSO

(reproduzido do jornal A Tarde, que publicou este artigo simultaneamente com O Globo, em 30.5.2010)

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Mesmo que tenha sido uma confusão nascida da ignorância de alguns humoristas, é uma honra para mim ter herdado o bordão “ou não” de Walter Franco. Há quem diga que mereço, não a proximidade de Walter, mas as sugestões pejorativas do bordão. Muita gente vê indefinição suspeita no que para mim é independência política. Em tempos de eleição essas reduções tornam-se mais grosseiras. Pois bem: vou pensar em voz alta. Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração. Se tiver de escolher entre os outros dois, acho que prefiro Dilma, já que, como eu disse na entrevista ao “Estadão” (que ficou famosa por causa da palavra “analfabeto”), Serra está à esquerda da política econômica de Lula (a matéria no Globo com Serra dizendo a Miriam Leitão que “o Banco Central não é a Santa Sé” — com aquelas fotos apavorantes — poderia ser criticada pela “Caros amigos” como alarmismo suspeito, imposto pelo poder dos rentistas). Ou seja, eu prefiriria Dilma porque ela defende a independência do Banco Central.

Aconselho a leitura de “Aqui ninguém é branco”, de Liv Sovik. É a mais complexa e corajosa reflexão sobre raça no Brasil dentre as que vêm do lado dos racialistas. Mas meu comentário, dirigido a Felipe Hirsch, contrastando o racismo popular com o racismo de elite, eu o reenviaria a Sovik. Acabo de chegar da inauguração do Centro Cultural Waly Salomão, em Vigário Geral: grupos de garotas locais, pretas, mulatas e brancas, chegavam bem arrumadas e tomadinhas-banho, sorrindo entre si. Liv diz, com ironia, que “têm razão os que contrastam os EUA com o Brasil, valorizando o quadro brasileiro: para os brancos, especialmente, ele é muito melhor”. Nem uma gota de ironia em minha recomendação do livro. Leiam e verão que ela vai muito além dessa canelada.

Tenho 67 anos. Cresci, amadureci e envelheci ao som da “Aquarela do Brasil”, o nosso hino nacional oficioso, em cujo segundo verso o país é chamado de “mulato inzoneiro”. Nunca vi ninguém estranhar o uso da palavra “mulato” para definir o país. Mas nada me dizia que não houvesse brancos no Brasil. Meu pai era mulato. Minha mãe é branca. Sendo ela de extração mais humilde, era ela quem usava a expressão popular “eles que são brancos, que se entendam”, quando se alegrava por não ter de entrar em certas disputas. Mesmo que fossem entre meu pai e Luís de Gaspar, um preto retinto que era amigo dele. Gaspar era o português que tinha uma loja de ferragens onde Luís trabalhava. Depois Luís abriu a sua própria. Todos diziam “segunda é dia de branco” — quer dizer: dia de trabalharmos para os patrões. Isso independentemente da cor de quem dizia — e mesmo da dos patrões. A ideia arraigada de que somos um país mulato não nos impedia de distinguir explicitamente entre brancos e pretos, ou mulatos, caboclos, sararás. E sempre foi evidente que “branco” indicava vantagens estéticas, econômicas e sociais.


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Liv vai além do habitual: fala da invisibilidade do branco e analisa a mídia. Tudo bem que ela comente textos da “Veja”, mas por que nem ela comenta textos em que Paulo Francis, o mais adorado e imitado jornalista brasileiro, louvava a retomada do projeto de eugenia por trabalhos como “A curva do sino”, que diz provar ser a inteligência média dos estudantes negros americanos inferior à dos brancos? Exibir simpatia por coisas assim era reação aos movimentos negros. Esses movimentos eram necessariamente racialistas. Passou a haver, então, uma reação antirracialista, como, por exemplo, a de Antonio Risério, e uma reação racialista, como a de Francis. A menina que disse a Liv, em Salvador, “aqui ninguém é branco” tem posição próxima à minha, que é próxima à de Risério e avessa à de Francis.

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O presidente Lula ensaiou o anúncio de uma negociação de peso com o Irã. Vejo Lula como um grande personagem épico. Ele pode ser atraído pelas baixezas do populismo. Mas, até aqui, tem pesado mais sua vocação para representar o que o Brasil tem de original. Parte da sua euforia — que pode ser intragável — é reconhecimento disso. É narcisismo salutar, abençoada vaidade histórica. A tentativa de costurar um papo entre os aiatolás e a capitalistada tem, por mais que a analogia com Chamberlain (lembrada por Diogo Mainardi) proceda, mais peso do que todas as outras bolas na trave que ele e Amorim deram antes.


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Sou anticarlista, não fundaria a Embrafilme, não julgo Pinochet pelo que ele deu de útil ao Chile. “The Economist”, falando do óleo no Golfo do México, diz que “o congresso americano deve endurecer a vigilância e aumentar as penas para os faltosos. Mas, infelizmente, não haverá nenhum esforço para dar conta dos maléficos efeitos colaterais do petróleo. Pois vazamentos estão longe de ser o efeito mais deletério da dependência do petróleo de que sofrem os EUA: aquecimento global e financiamento de déspotas estrangeiros vêm no topo da lista”. Essas são palavras editoriais de uma revista liberal inglesa. É por coisas assim que os princípios liberais resistem mais em mim do que a hipótese comunista. O que se sobrepõe a ambas as visões é o sebastianismo de Agostinho da Silva. Este era claramente antiliberal em economia, mas tinha horror a regimes de força. Muitas das suas tiradas são espetaculares. A minha preferida é: “Portugal já civilizou Ásia, África e América — falta civilizar Europa”. Gosto porque falamos português. O mundo lusófono tem sido, há já séculos demais, um ridículo histórico. A mera existência do Brasil parece dizer “chega!”.

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WILSON MELO – GENTE DA BAHIA

31/05/2010

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 23.5.1986

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Wilson Melo e nós

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texto de EDSON RODRIGUES*

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Centenas de atores, diretores e artistas de teatro jovens, que hoje constituem a diversificada cena local, foram batizados em mesas de bar por Wilson Melo. Primeiro, faziam lá as audições para o Curso Livre do Teatro Castro Alves, para o mesmo curso depois deslocado para a Escola de Teatro da Ufba, para os cursos regulares oferecidos por esta faculdade, ou mesmo, como eu, entravam na cena por outros caminhos. Isso era a parte “acadêmica” do início da viagem.

Adentrado ao barco, ao visitante ainda carecia um outro encontro, que mais cedo ou mais tarde iria acontecer em alguma mesa de bar da cidade. Um encontro com Melão. E era ali, cercado por garrafas de cerveja e risos estrondosos, que o postulante a homem ou mulher de teatro passaria a sentir o vigor de outras energias que movem o artista: a da constante renovação, da alegria, da repulsa ao status quo e às sádicas convenções do cotidiano. Melão era o melhor professor que o teatro baiano contemporâneo conheceu nestes quesitos.

Melão morreu na manhã de um sábado [29.5.2010], dia que costumava sorver por inteiro por conta de sua opção de vida boêmia e festiva. Mas seria muito limitado lembrar desse ator apenas pela sua grande amizade com Dionísio, o deus grego que entre os romanos era conhecido como Baco. Tal qual essa figura mitológica, Melão também adorava os líquidos inebriantes, as festas, o divertimento; mas, por outro lado, era um ator de currículo extenso e admirado, um conselheiro sem vestes de professor dos artistas mais jovens, um filósofo da vida. E também era, aqui é bom frisar, um marido e pai atencioso, o que reforçava seu posto de exemplo para os mais jovens, como que a mostrar que é possível fazer rimar divertimento com responsabilidade na vida.

WILSON MELO como Quincas Berro D'Água. Foto de ADRIANA CAMPELO SANTANA – 29.5.2003

Entrevistei Wilson diversas vezes na função de repórter e outras tantas viabilizei entrevistas com ele nas posições de pauteiro e editor. Isso em jornais e na tevê. Também troquei tantas e tantas ideias sobre arte e vida com ele, em mesas de bar. De uns tempos para cá, estávamos mais ausentes, mas sempre que nos víamos, era como se tivéssemos tomado um porre juntos no dia anterior. Melão não foi o que muito estraga uma grande parte das pessoas que fazem arte hoje em dia: não era pretensioso, não era o dono da verdade, não era ganancioso, não achava que a história do teatro baiano havia começado por ele.

O currículo de Melão é enorme. De minha parte e até onde vi seu desempenho, não esqueço de seu duo com a tão enorme quanto Nilda Spencer em Lábios que beijei, peça na qual os dois importantes atores, em um ato de demonstração do caráter renovador da arte, emprestaram seus prestígios ao projeto de um diretor e dramaturgo então desconhecido e iniciante, Paulo Henrique Alcântara. O resultado foi um marco para quem teve a oportunidade de assisti-lo.

Há também Horário de visitas, de Ewald Hackler, interpretação que deveria ter lhe rendido, à época, o título de melhor ator da temporada pelo então prêmio Braskem de Teatro. Não levou, mas foi um erro daquela comissão que até hoje deve penitenciar-se pelo equívoco. Seus Quincas Berro D’água (fez esse personagem em três montagens, em três décadas diferentes, sob o comando de três diretores) são sempre lembrados. Trabalhou com outros tantos diretores, tantos atores, em tantos projetos… seu currículo é tão extenso que é melhor dispensá-lo desse texto, para que haja mais espaço para conversar sobre o homem e o ator.

WILSON MELO em O Cego. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 7.9.1989

A saída de Wilson Melo da cena deixa uma lacuna no teatro baiano. Seu exemplo de dedicação sem vaidades à arte do teatro é seguido por poucos. Mas a morte de Melão deixa-nos também a pensar sobre que tipo de valorização nós, jornalistas, dedicamos às pessoas que constroem a cena artística local.

Wilson Melo era um gigante, assim como Nilda Spencer, João Augusto, Carlos Petrovich e Mário Gusmão, dentre outros, o foram; e Yumara Rodrigues, Harildo Deda, Mário Gadelha, Sônia Robatto, Cleise Menses, Ewald Hackler, dentre outros, o são. Isso falando de teatro, pois ainda há a dança, o cinema, o circo, a música. Com suas histórias, um bom número de artista baianos coloca nosso Estado na história do teatro e das artes do Brasil. Para falar outro exemplo, Nélson de Araújo (morto em 1993) também não é lembrado como merecia, posto que é o autor de um dos mais importantes estudos sobre a trajetória do teatro, no mundo e no Brasil, já publicados por um autor em português. E isso não é culpa de um jornal ou de um programa de tevê; não é culpa de um grupo de pesquisadores ou jornalistas. É resultado, sim, de uma forma adotada tacitamente, em que se ama o que é longínquo, no que não há nenhum pecado, mas se minimiza o poder do que está próximo, e reside aí o erro.

Em tempos nos quais o jornalismo da Bahia segue cada vez mais comandado por pessoas de formação longínqua às nossas fronteiras, e aqui não vai nenhuma crítica, mas uma constatação (e isso acontece na tevê, no rádio e nos impressos), restam as questões, no tangente ao conteúdo: vamos valorizar nossas origens ou nos transformaremos na geleia geral onde qualquer coisa tem o mesmo valor das nossas coisas?; daremos em nossos noticiários espaço àqueles que fazem a diferença dentro de nossas fronteiras ou vamos esperar, da melhor forma provinciana, que alguns desses valores tenham o crivo dos intelectuais, críticos e jornais do Rio de Janeiro e São Paulo para, aí sim, “redescobri-los”?; seremos autênticos valorizando os nossos esforços, nossos talentos e nossas produções, ou adotaremos a postura de sempre dar maior dimensão e valor ao que vem de fora?

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 24.2.1980

Faça uma experiência. Jogue o nome Wilson Melo no Google e veja o que você recolhe. Adianto-me: irá conseguir muito pouco sobre a vasta história desse grande artista, porque, a bem da verdade, nós falamos muito pouco sobre os nossos grandes artistas.

Vejo você mais adiante, amigo Melão. Certa vez, fui um Castro Alves tendo você no papel de Fagundes Varela. Naquela experiência eu, vindo do teatro feito em escolas, comunidades e igrejas, senti-me ator profissional pela primeira vez. Não pelos meus dotes de interpretação (que sempre foram pequenos), não por estar realizando aquela montagem em um teatro com aparato profissional; mas sim porque contracenava com dois verdadeiros atores – Yumara Rodrigues interpretava a atriz Eugênia Câmara, amante de Castro Alves. E se aqueles atores me olhavam tão confiantes, trocavam diálogos tão compenetrados e interessados comigo, acreditavam tanto em mim como parceiro de cena, era porque eu também era ator. Ou estava sendo ator. Tenho ainda hoje a lembrança daquele sentimento que se achegou em meio à cena e isso me fez aprender que não se tem só saudade de pessoas e de fatos; tem-se também saudade de um sentimento.

Ergam-se as taças: um brinde ao grande homem Wilson Melo! E obrigado, Melão.

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*Edson Rodrigues – Jornalista

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WALTER SMETAK – GENTE DA BAHIA

30/05/2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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MAIS UM PATRIMÔNIO CULTURAL

BAIANO ESTÁ EM RISCO

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texto de ENIO ANTUNES REZENDE*

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Dia 30 de maio, há 26 anos atrás, falecia Anton Walter Smetak. Apesar de ter nascido em 1913 na Suíça, este violoncelista virtuoso, compositor, luthier, escultor, escritor, inventor de instrumentos e “plásticas sonoras” (cerca de 150); viveu o auge de sua carreira em Salvador, trabalhando como professor na Escola de Música da UFBA desde 1957 até a sua morte, em 1984.

Sua obra inscreve-se em uma linhagem que inclui E. Varèse, J. Cage, A. Schoenberg e J. Carrillo – compositores que tiveram uma contribuição-chave na difusão do atonalismo, dodecafonismo e microtonalismo.

Ao buscar romper com as bases rítmica, harmônica e tonal predominantes na música “erudita” europeia de sua época, e incorporar timbres e outros sons pouco usuais às suas composições, Smetak foi vanguarda na Bahia e da Bahia, pois também integrou de maneira genial a música à escultura.

Focando seus esforços no estudo da atomização microtonal e do “som prolongado” através de instrumentos experimentais produzidos com cabaças e outros recursos naturais nativos – inclusive através de instrumentos produzidos por indígenas brasileiros – Smetak não estava apenas pesquisando novos sons e revalorizando sons tidos como “corriqueiros”. Seu objetivo foi o de ampliar a consciência auditiva dos indivíduos como um passo necessário para o despertar de novas faculdades sensoriais e valores sociais.

Para Smetak a função da música é a de celebrar o presente, não em seu sentido festivo, alienante e reificado da nossa sociedade on line, tão dependente de eventos impactantes sucessivos e cujo efeito principal é ignorar o passado, a própria história e a possibilidade de mudanças no futuro. Ao contrário, a sua forma criativa de celebrar o presente através do exercício musical pode ser entendida como um método revolucionário e necessário para a reinvenção de novas formas de se viver, socialmente mais justas e generosas.

A importância do seu legado é que ele não foi apenas um homem com preocupações estéticas, mas também sociais e espirituais. Afinal, como a expressão musical é a forma de arte mais abstrata, ele acreditava que caberia à nova música dar vazão a um ímpeto criador capaz de plasmar novos homens e também uma nova sociedade.

De Caetano a Gil, passando por Tom Zé, Rogério Duarte e Tuzé de Abreu a genialidade das suas contribuições inspirou e inspira muitos artistas e intelectuais. No entanto, seu legado material está inacessível ao público de hoje, e inclusive, corre sério risco de se perder.

Até 2007, grande parte das suas obras encontrava-se em uma sala da Biblioteca Central da UFBA, mas com o término da Exposição “Smetak – Imprevisto” no Museu de Arte Moderna, a Biblioteca decidiu dar novo uso ao espaço, e não se dispôs a receber o acervo de volta. A única opção restante foi alojá-lo temporariamente em uma sala nos fundos do Museu de Arte da Bahia, uma sala precária, que não oferecia condições minimamente adequadas.

Com as chuvas torrenciais deste inverno soteropolitano a situação agravou-se, e as caixas (molhadas e mofadas) com as obras de Smetak foram levadas em caráter emergencial para o Museu de Arte Moderna.

Esse caráter provisório e mambembe do “depósito” das obras de Smetak revela que há muito pouco o que comemorar nessa data, uma vez que a situação perdura sem qualquer manifestação das autoridades responsáveis, e sendo veladamente consentida com o silêncio dos agentes culturais.

Isso reflete o triste quadro de desvalorização da memória cultural em nosso estado. Afinal, o legado de outros baianos ilustres como Dorival Caymmi Glauber Rocha, Hansen Bahia, Emanoel Araújo e Jorge Amado também padece com a falta de uma política cultural que encampe a preservação e a utilização dos acervos dos nossos grandes artistas.

Não se trata apenas de dar um lugar adequado para estas obras repousarem cristalizadas. Mais do que um gesto político, trata-se de acompanhar o gesto de um conjunto de iniciativas coordenadas e continuadas que lhe deem vida. Boas práticas de gestão do patrimônio cultural que permitam que esses objetos perdurem, sejam apreciados, conhecidos e divulgados por toda a sociedade.

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*Enio Antunes Rezende – Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana

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