WILSON MELO – GENTE DA BAHIA

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 23.5.1986

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Wilson Melo e nós

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texto de EDSON RODRIGUES*

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Centenas de atores, diretores e artistas de teatro jovens, que hoje constituem a diversificada cena local, foram batizados em mesas de bar por Wilson Melo. Primeiro, faziam lá as audições para o Curso Livre do Teatro Castro Alves, para o mesmo curso depois deslocado para a Escola de Teatro da Ufba, para os cursos regulares oferecidos por esta faculdade, ou mesmo, como eu, entravam na cena por outros caminhos. Isso era a parte “acadêmica” do início da viagem.

Adentrado ao barco, ao visitante ainda carecia um outro encontro, que mais cedo ou mais tarde iria acontecer em alguma mesa de bar da cidade. Um encontro com Melão. E era ali, cercado por garrafas de cerveja e risos estrondosos, que o postulante a homem ou mulher de teatro passaria a sentir o vigor de outras energias que movem o artista: a da constante renovação, da alegria, da repulsa ao status quo e às sádicas convenções do cotidiano. Melão era o melhor professor que o teatro baiano contemporâneo conheceu nestes quesitos.

Melão morreu na manhã de um sábado [29.5.2010], dia que costumava sorver por inteiro por conta de sua opção de vida boêmia e festiva. Mas seria muito limitado lembrar desse ator apenas pela sua grande amizade com Dionísio, o deus grego que entre os romanos era conhecido como Baco. Tal qual essa figura mitológica, Melão também adorava os líquidos inebriantes, as festas, o divertimento; mas, por outro lado, era um ator de currículo extenso e admirado, um conselheiro sem vestes de professor dos artistas mais jovens, um filósofo da vida. E também era, aqui é bom frisar, um marido e pai atencioso, o que reforçava seu posto de exemplo para os mais jovens, como que a mostrar que é possível fazer rimar divertimento com responsabilidade na vida.

WILSON MELO como Quincas Berro D'Água. Foto de ADRIANA CAMPELO SANTANA – 29.5.2003

Entrevistei Wilson diversas vezes na função de repórter e outras tantas viabilizei entrevistas com ele nas posições de pauteiro e editor. Isso em jornais e na tevê. Também troquei tantas e tantas ideias sobre arte e vida com ele, em mesas de bar. De uns tempos para cá, estávamos mais ausentes, mas sempre que nos víamos, era como se tivéssemos tomado um porre juntos no dia anterior. Melão não foi o que muito estraga uma grande parte das pessoas que fazem arte hoje em dia: não era pretensioso, não era o dono da verdade, não era ganancioso, não achava que a história do teatro baiano havia começado por ele.

O currículo de Melão é enorme. De minha parte e até onde vi seu desempenho, não esqueço de seu duo com a tão enorme quanto Nilda Spencer em Lábios que beijei, peça na qual os dois importantes atores, em um ato de demonstração do caráter renovador da arte, emprestaram seus prestígios ao projeto de um diretor e dramaturgo então desconhecido e iniciante, Paulo Henrique Alcântara. O resultado foi um marco para quem teve a oportunidade de assisti-lo.

Há também Horário de visitas, de Ewald Hackler, interpretação que deveria ter lhe rendido, à época, o título de melhor ator da temporada pelo então prêmio Braskem de Teatro. Não levou, mas foi um erro daquela comissão que até hoje deve penitenciar-se pelo equívoco. Seus Quincas Berro D’água (fez esse personagem em três montagens, em três décadas diferentes, sob o comando de três diretores) são sempre lembrados. Trabalhou com outros tantos diretores, tantos atores, em tantos projetos… seu currículo é tão extenso que é melhor dispensá-lo desse texto, para que haja mais espaço para conversar sobre o homem e o ator.

WILSON MELO em O Cego. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 7.9.1989

A saída de Wilson Melo da cena deixa uma lacuna no teatro baiano. Seu exemplo de dedicação sem vaidades à arte do teatro é seguido por poucos. Mas a morte de Melão deixa-nos também a pensar sobre que tipo de valorização nós, jornalistas, dedicamos às pessoas que constroem a cena artística local.

Wilson Melo era um gigante, assim como Nilda Spencer, João Augusto, Carlos Petrovich e Mário Gusmão, dentre outros, o foram; e Yumara Rodrigues, Harildo Deda, Mário Gadelha, Sônia Robatto, Cleise Menses, Ewald Hackler, dentre outros, o são. Isso falando de teatro, pois ainda há a dança, o cinema, o circo, a música. Com suas histórias, um bom número de artista baianos coloca nosso Estado na história do teatro e das artes do Brasil. Para falar outro exemplo, Nélson de Araújo (morto em 1993) também não é lembrado como merecia, posto que é o autor de um dos mais importantes estudos sobre a trajetória do teatro, no mundo e no Brasil, já publicados por um autor em português. E isso não é culpa de um jornal ou de um programa de tevê; não é culpa de um grupo de pesquisadores ou jornalistas. É resultado, sim, de uma forma adotada tacitamente, em que se ama o que é longínquo, no que não há nenhum pecado, mas se minimiza o poder do que está próximo, e reside aí o erro.

Em tempos nos quais o jornalismo da Bahia segue cada vez mais comandado por pessoas de formação longínqua às nossas fronteiras, e aqui não vai nenhuma crítica, mas uma constatação (e isso acontece na tevê, no rádio e nos impressos), restam as questões, no tangente ao conteúdo: vamos valorizar nossas origens ou nos transformaremos na geleia geral onde qualquer coisa tem o mesmo valor das nossas coisas?; daremos em nossos noticiários espaço àqueles que fazem a diferença dentro de nossas fronteiras ou vamos esperar, da melhor forma provinciana, que alguns desses valores tenham o crivo dos intelectuais, críticos e jornais do Rio de Janeiro e São Paulo para, aí sim, “redescobri-los”?; seremos autênticos valorizando os nossos esforços, nossos talentos e nossas produções, ou adotaremos a postura de sempre dar maior dimensão e valor ao que vem de fora?

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 24.2.1980

Faça uma experiência. Jogue o nome Wilson Melo no Google e veja o que você recolhe. Adianto-me: irá conseguir muito pouco sobre a vasta história desse grande artista, porque, a bem da verdade, nós falamos muito pouco sobre os nossos grandes artistas.

Vejo você mais adiante, amigo Melão. Certa vez, fui um Castro Alves tendo você no papel de Fagundes Varela. Naquela experiência eu, vindo do teatro feito em escolas, comunidades e igrejas, senti-me ator profissional pela primeira vez. Não pelos meus dotes de interpretação (que sempre foram pequenos), não por estar realizando aquela montagem em um teatro com aparato profissional; mas sim porque contracenava com dois verdadeiros atores – Yumara Rodrigues interpretava a atriz Eugênia Câmara, amante de Castro Alves. E se aqueles atores me olhavam tão confiantes, trocavam diálogos tão compenetrados e interessados comigo, acreditavam tanto em mim como parceiro de cena, era porque eu também era ator. Ou estava sendo ator. Tenho ainda hoje a lembrança daquele sentimento que se achegou em meio à cena e isso me fez aprender que não se tem só saudade de pessoas e de fatos; tem-se também saudade de um sentimento.

Ergam-se as taças: um brinde ao grande homem Wilson Melo! E obrigado, Melão.

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*Edson Rodrigues – Jornalista

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