Que viva São João, mas salvem o Pelô

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texto de zédejesusbarrêto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Acho correta a posição do IPHAN de não permitir grandes palcos no Terreiro de Jesus, no Largo do Pelô e também no Farol da Barra. Muito menos na Praça da Sé, entre o Palácio Arquiepiscopal e o Memorial das Baianas, encobrindo o monumento da Cruz Caída, obra genial de Mário Cravo que, parece, os baianos nem se deram conta.

O Pelourinho, o nosso Centro Histórico tem de ser revitalizado de outra maneira, valorizando sua cultura, sua gente, seus fazeres, templos, casarões, ritmos… Até cabem, aqui e ali, shows, ambientações, espetáculos, tudo dentro dos conformes.

Pode ter batuques sim, contanto que não daqueles de derrubar pilastras. Pode ser jazz, blues, reggae, ijexá, samba-reggae, sim. Cabe, sim, o bom forró pé-de-serra e temos também, sim, bons artistas que podem atrair público como Ademário Coelho, Virgílio, Fechinne, Amazon, Targino, Bule-Bule, um Xangai… entre tantos outros, também de fora.

Mas não precisa levar banda e potência de trio elétrico pra lá, pelamôdedeus! Chega de zoadeira, de pancadão o ano inteiro em todo o lugar, até nos fundos dos carros, furando os ouvidos!

São João é, sempre foi diferente. Ué, agora, pelaqui, pra se atrair gente… tudo tem de virar carnaval… por quê? Quem estabeleceu isso? Os grandes palanques acabaram com o carnaval do interior. Em Cruz das Almas um tal ‘Forró do Bosque’ (é isso?) detonou a festa, é só molecada, zoeira e violência. E assim por diante, sertão afora, feito uma tsunami do barulho.

Meteram na cabeça, de uns tempo pra cá, que São João tem de ter guitarras elétricas, teclados plugados, banda pesada, aquelas mulheres exibindo os fundos das calcinhas, machos duvidosos ciscando, tudo a pretexto de um forró moderninho, agudíssimo e com letrinhas fáceis. Estilo Mastruz com Leite, Calcinha Preta… uma praga. Ninguém mais se lembra de Luís… o gênio Gonzagão. Sem ele, o forró nem existiria. Acabaram com o baião, o xote, o xaxado, o resfolego do pé-de-bode, o rasta-pé. Tá tudo estilizado, plastificado, poluído.

A indústria nordestina do forró eletrônico vem dominando tudo, impondo, exigindo, destroçando… Pois, não aqui no Pelô! São João é roça, é reza, novena, cantoria, é fogueira, comida gostosa, sanfoninha chorada, é rela-bucho, é arraiá, licor de jenipapo, namorico, alegria, noite úmida quente de fogos e viva Xangô menino!

Ninguém quer ver o Pelourinho esvaziado, desmotivado, muito pelo contrário. Mas é preciso se pensar o que realmente cabe e valoriza aquele espaço rico e diferenciado da cidade.

E vamos cuidar do nosso patrimônio cultural, arquitetônico com carinho, antes que tudo desmorone de uma vez, como aliás já vem ocorrendo. Dos prédios e das pessoas (moradores, empresários, trabalhadores, visitantes, perambulantes…).

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Então, que sejam criados novos espaços na cidade para essas grandes festas de patrocinadores, que arrastam a massa sem cérebro. Vão lá para a área do antigo aeroclube, na Boca do Rio, sem serventia. Ou Parque de Exposições. Né dinheiro que querem?

Mas não no Pelô, não diante das centenárias igrejas, não derrubando a Cruz Caída, não rachando o Farol da Barra, um marco, não entupindo de lixo as águas plácidas do Porto da Barra! Parem com isso! Respeitem a Bahia!

Palmas para o IPHAN.

E vamos abrir os olhos, prefeitura, governo, autoridades… senão os empresários gananciosos enchem o rabo de dinheiro derrubando tudo pela frente. Vêm fazendo isso já há algum tempo, cada dia mais audaciosos e gritando alto.

 

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Microconto:

Atirou-se do oitavo, corpo estendido. Escondera de todos a avassaladora paixão. Cada novo encontro era um salto no desconhecido.

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (19mai/2010)

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Uma resposta to “Que viva São João, mas salvem o Pelô”

  1. Conceição Barreto Says:

    Ôxente gente!!! esse artigo traduz tudo que vem do mais profundo da minha alma baiana…!! ando mesmo estressada com esse “tsunami do barulho”. Esse carnaval eletrizado que dura o ano inteiro, que destrói toda a nossa cultura em nome de numseioquê… saudades do São João, cada dia mais distante… que Bahia é essa!???? Vamos salvar o Pelô, vamos salvar nossa cultura!!!!

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