CAETANO PROVOCA DEBATE SOBRE O PELÔ

Pedras "cabeça de nego" formam o calçamento do Largo do Pelourinho. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 6.3.2008

Em sua estreia como colunista do Segundo Caderno de O Globo, no domingo 9 de maio, Caetano Veloso retomou a discussão sobre reforma, restauração e abandono do Pelourinho, nome dado à região do Centro Histórico da Cidade da Bahia que fica em torno do Largo do Pelourinho. O artigo, intitulado “Política: o Largo da Ordem” (referência ao largo situado no centro de Curitiba que foi recuperado pelo prefeito Jaime Lerner nos anos 70), teve forte repercussão na Bahia, provocando pronunciamentos de políticos da situação e da oposição. O blog Jeito Baiano participa do debate com um texto de zédejesusbarrêto e reproduz em seguida o próprio artigo de Caetano e depois as reações contrárias do governador Jaques Wagner e do secretário estadual de Cultura, Márcio Meirelles, conforme matérias publicadas no jornal A Tarde, de Salvador.

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O Pelô brega

morre chique

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texto de zédejesusbarrêto*

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Caetano, o Veloso, escreveu sobre a degradação do Pelourinho, ‘pós ACM’. Jaques, o Vagner, rebateu chamando-o de desinformado sobre o plano que ‘a gente está fazendo’ visando a recuperação do sítio, espaço que é ‘Patrimônio da Humanidade’, o mais portentoso conjunto arquitetônico colonial urbano do país. ‘Está fazendo’, ainda. Enquanto isso, o cidadão esperava do governo e da prefeitura cuidados com a manutenção da vida por lá, com respeito aos que ali moram, trabalham e transitam. Baianos ou não. Que se restaure a dignidade do Centro Histórico de Salvador!

Ora, se havia algo errado antes, então transformemos para melhor o projeto de restauração do sítio, que começou a ser pensado nos anos 1960 e a ser implantado na década seguinte, os anos de chumbo, dentro de metas governamentais que visavam a exploração do turismo como fonte de riqueza, aproveitando o potencial histórico da área. Afinal, ali é o umbigo da primeira capital do país. O que foi feito ali, então, não foi pouco nem mera pintura de fachadas como dizem alguns agora.

Vale relembrar que, à época, o Maciel era conhecido como ZBM (Zona de Baixo Meretrício). Pelo Julião não se passava. As ‘famílias’ não subiam a ladeira do Pelô, fazia medo descer a ladeira do Mijo e outras quebradas que dão na Baixa dos Sapateiros. Por risco de morte. Vi brigas, facadas, navalhadas em pleno dia, naquelas ruelas. Era muito lixo e fedor. Os casarões caíam aos pedaços, pardieiros usados como malocas de traficantes, drogados e marginais. Cafetões, rufiões disputavam espaço e controlavam as esquinas, nem a polícia ousava. Degradação humana total. Bêbados, crianças famélicas imundas e cães sarnentos catavam lixo pelas ruas. Qualquer baiano mais vivido sabe disso. Eram poucas as famílias pobres que ali resistiam, sem ter para onde ir, amedrontadas. O Pelô era o brega, a zona dos castelos, das mulheres de ‘vida (nada) fácil’.

Respeitemos a história. A restauração do Centro Histórico, com todos os seus equívocos, foi um avanço, uma redenção naquele instante. O Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural), órgão criado para cuidar do projeto e das obras, era um centro de estudos de excelência, tudo executado em cima de pesquisas, de planejamento, com obras de infraestrutura sustentadas, feitos os levantamentos, casa por casa, ouvindo os moradores. Claro, tudo obedeceu a diretrizes políticas, a ecos de modernidade de uma determinada época. Os militares, que mandavam nos anos 1970, pregavam o ‘milagre’ desenvolvimentista. A exploração do turismo, atividade-vocação de Salvador, apresentava-se como uma panaceia e o Pelourinho recuperado seria a concretização física visível de uma cultura da ‘baianidade’, signo de uma era.

O que foi feito em duas, três décadas no Centro Histórico não foi só pintura de paredes e janelas, isso é discurso de palanque. Fosse isso, tudo teria desabado nos torós de outono. A revitalização do Pelourinho tornou-se um exemplo, foi reconhecida pelo mundo, tornou o Pelô um dos pontos de turismo mais visitados do país, isso é fato. A revitalização, como foi feita, provocou bons e maus resultados, todos sabemos. Como qualquer intervenção urbana, qualquer acontecimento na vida. Pois, se houve equívocos, e houve, foram frutos da mentalidade ‘modernosa’ de uma época. Como há, hoje em dia, muita ‘modernosidade’ discutível, até reprovável. O Pelô ‘turístico’ aconteceu, foi importante num determinado período de nossa história. Debrucemos sobre a experiência real, avaliemos e avancemos! Hoje, a modernidade engajada dos tempos lulistas aponta novos caminhos. Sigamos, então, a construir nossa era, já! Não precisa gastar tempo e energia apagando rastros, rasgando páginas, deletando fotos, criando versões convenientes do que passou. Saímos já do atoleiro, ou apodrecemos no lamaçal do passado. O acontecido é história, parâmetro, que nos orgulha aqui e nos envergonha lá. Lendo sem rancores as páginas escritas, vamos digitar com mais clareza agora. Ação! ‘O nosso tempo é agora!’, diz a sábia Mãe Stella de Oxóssi.

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

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Largo do Pelourinho em 2003. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde – 22.9.2003

Política: o Largo da Ordem

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texto de CAETANO VELOSO

(publicado originalmente em O Globo e reproduzido por A Tarde em 15.5.2010)

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Quando disse a Leminski, no começo dos anos 70, que me encantava a recuperação do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: “Você adora enganações feitas para a classe média”. Respondi que adorava mesmo. Sempre à esquerda, Leminski via limpeza, iluminação, policiamento e restauração de prédios como maquiagem – e olhava com desconfiança meu interesse por Jaime Lerner, o então prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime – e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas não via o Largo da Ordem como enganação. Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia à classe média. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: “Eu sou classe média”. O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria – ou estaria mostrando que já decolara. Era sonhar demais.

Ainda nos 70, os sobrados da área estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados. Lembro duas reações negativas: Candice Bergen e Décio Pignatari. Em ocasiões diferentes, ouvi de ambos: “Parece a Disneylândia”. Eu próprio, diante das tintas plásticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby. Mas a verdade é que, tendo crescido em Santo Amaro, eu não achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, mês de Nossa Senhora da Purificação. Achei que Candice e Décio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. Décio, de Sampa, queria velharia mais “autêntica”. Candice, de Los Angeles, reviu o que expõe a artificialidade de sua terra natal: Disneylândia. Já eu só via o esboço de realização da promessa do Largo da Ordem.

Nos anos 90, toda a região do Pelourinho ganhou o tratamento que eu imaginara utópico em 1972. Há queixas contra os métodos usados para a retirada dos moradores. Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas”. Elas é que mantiveram de pé esse pedaço da cidade. Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em matéria deteriorada, eu me sentia fascinado também pela degradação dos habitantes. A prostituição mais anti-higiênica manteve os sobrados de pé. Casas sem moradores caem. As do Pelô exibiam as marcas da decadência da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.

ACM é um nome que se evita – a não ser que se queira xingá-lo ou adulá-lo. Medir objetivamente seu legado é anátema. Tou fora. Truculento, vingativo, populista, Antonio Carlos Magalhães era o tipo de político de que desejei ver a Bahia e o Brasil livres. Fiz-lhe sempre oposição. Cantei nos comícios de Waldir Pires, que se elegeu governador. Mas Waldir uniu-se com parte da oligarquia rural que odiava ACM desde sempre. O vice de Waldir era um representante dessa oligarquia. Waldir mal esquentou a cadeira: saiu para tentar ser vice na candidatura furada de dr. Ulysses. ACM voltou em glória nas eleições seguintes.

A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas. Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao Centro Histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova autoimagem.

O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime. A explicação dada é que as facilitações oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram são artificiosas. O secretário da Cultura, meu amigo Márcio Meirelles, é o responsável pelo destino da área. Diretor do Bando de Teatro Olodum, Márcio nos deu Ó Paí, Ó!. O elenco que ele reuniu é um espanto de vitalidade. Mas, nesse e em outros espetáculos do grupo, o sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho vinha colorir o ódio a ACM. Eu adorava a peça assim mesmo. Arte é coisa séria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira estão, na verdade, mais sintonizadas com as forças que fizeram possível a recuperação do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.

Depois vieram o Recife Velho, o Centro de São Luís, algo do Centro de São Paulo – e sobretudo veio vindo a Lapa. A iniciativa privada se achegou, a Sala Cecília Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, iluminação, policiamento – e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FH-Lula. O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveitável de ACM – e fazer melhor. Não é saudável fazer com os benefícios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme. Esse privatismo repentino soa suspeito. O abandono do Centro Histórico tem parte no aumento da criminalidade. Política, para mim, é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol – nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.

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Turistas espanhóis assistem a apresentação de Capoeira no Terreiro de Jesus, no Pelourinho. Foto de LÚCIO TÁVORA | Agência A Tarde – 27.3.2009

Wagner diz que críticas de Caetano

decorrem da falta de informação

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texto de BIAGGIO TALENTO

(Agência A Tarde – 13.5.2010)

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O governador Jaques Wagner (PT) entende ter faltado “informação” ao cantor Caetano Veloso ao escrever o artigo publicado na edição de domingo do jornal O Globo criticando o abandono do Pelourinho e atribuindo a situação a uma suposta retaliação ao Centro Histórico pelo governo petista, devido ao fato de a última grande reforma, na década de 1990, ter sido feita pelo falecido governador Antonio Carlos Magalhães.

Pedi que o Márcio (Meirelles, secretário da Cultura do Estado) mandasse para ele o plano que a gente está fazendo de recuperação do Pelourinho – declarou o governador, insinuando que as reformas anteriores não foram bem-feitas.

O problema é que, para fazer bem-feito, demora. Para pintar fachada, é rápido. O plano anterior, ao qual ele se refere, faliu todo, taí o Pelourinho nessa situação – criticou, ponderando o fato de o atual governo ter feito “um trabalho demorado, com assessoria e consultoria internacional” e anunciou que, no dia 3 de junho, vai lançar o Programa de Recuperação do Pelourinho.

O ex-governador Paulo Souto (DEM), vice de ACM durante a primeira grande reforma no Pelourinho, disse que “chega a ser leviana e irresponsável” a declaração de Wagner criticando as intervenções dos governos passados.

Houve todo um trabalho de infraestrutura, com troca das redes elétrica e hidráulica, construção de praças de lazer, uma revitalização completa, fundamental para aumentar o fluxo turístico na cidade – rebateu, apontando que a revitalização de Salvador virou modelo para outros sítios históricos, reforçando a tese de Caetano segundo a qual o abandono do Pelourinho pelo atual governo se deve ao desejo de atacar obra de adversários.

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Trabalho longo

Na visão de Souto, a revitalização de centros históricos é um trabalho longo e persistente, “que depende de vontade política e uma presença forte do governo no local”. E ironizou:

Muita gente famosa passou pelo Pelourinho após a revitalização e adorou: Paul Simon, Michael Jackson, entre outros.

Sem querer polemizar com Caetano, chamando-o diretamente de desinformado, Wagner disse que “cada colunista escreve o que quer”. E apontou como único pecado o suposto fato de o cantor não ter recebido as informações adequadas sobre o que a atual administração está fazendo no Centro Histórico.

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Ladeira do Carmo, ao fundo, vista do Largo do Pelourinho. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 6.3.2008


Meirelles, de Ó Paí, Ó,

reage a artigo de Caetano

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texto de BIAGGIO TALENTO

(Agência A Tarde – 15.5.2010)

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O secretário da Cultura da Bahia, Márcio Meirelles, diretor de teatro (criador da Trilogia do Pelô, da qual faz parte a peça Ó Paí, Ó), entrou na polêmica sobre a situação do Pelourinho iniciada com artigo de Caetano Veloso no jornal O Globo, domingo passado. Em carta, contesta as acusações do cantor, reforçando as declarações do governador Jaques Wagner (PT), segundo as quais Caetano estaria “sem informações” sobre as obras feitas atualmente no Centro Histórico, que os governos passados fizeram apenas “maquiagem” no local, razão pela qual os casarões estariam deteriorados.

Com seu artigo, Caetano involuntariamente pautou a campanha pela sucessão estadual, motivando manifestações dos adversários de Wagner, o ex-governador Paulo Souto (DEM) e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB).

Meirelles refere-se à alusão de Caetano de que nas peças da Trilogia do Pelô havia um “sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho” que “vinha colorir o ódio a ACM (o ex-governador Antonio Carlos Magalhães, que inaugurou a primeira grande reforma em 1992)”. E contesta o cantor, afirmando que “não havia ódio” e sim “indignação por ver um poder truculento promover uma limpeza étnica e social, expulsando os antigos moradores do Pelourinho e entregando as casas, que eles mantiveram de pé, a novos ocupantes”.

O dramaturgo tem uma interpretação diferente também da tese de Caetano sobre a reforma do Pelourinho ser motivadora de intervenções dos governos e da iniciativa privada. Para Meirelles, “diferente do exemplo da Lapa, no Rio, onde o poder público fez sua parte, e a iniciativa privada e a sociedade, as delas, aqui, o governo fez tudo, como um pai/padrasto, ‘com dinheiro numa mão e o chicote na outra’”. Reafirma não ser possível “revitalizar um território urbano sem a força de seus moradores, sem ações articuladas dos três entes federados” e que não seria conveniente “tratar o Pelourinho como uma área isolada, um (im)possível parque temático. A maioria das soluções está no entorno, para onde foram muitas das famílias retiradas da área, ocupantes agora de outras ruínas ou marquises, sobrevivendo do possível”.

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Uma resposta to “CAETANO PROVOCA DEBATE SOBRE O PELÔ”

  1. Ascom Says:

    Leiam o artigo completo do secretário Márcio Meirelles: http://bit.ly/bO5bXp

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