O URBANISMO HUMANIZANTE

Ilustração de GENTIL

.

texto de ANILTON SANTOS SILVA*

.

É uma concepção de urbanismo bastante debatida e pouco utilizada, não com esse conceito que estou introduzindo, mas decorrente da ideia de devolver a cidade a seus habitantes.

O urbanismo humanizante tem como foco uma relação harmônica e integrada entre a cidade e seus habitantes, o que passa necessariamente pelo combate à exclusão social urbana e políticas públicas eficientes, envolvendo saneamento básico, transporte público coletivo (com a redução do veículo individual que beneficia menos de 30% da população urbana), segurança, saúde, educação, preservação ambiental, enfim tudo que é fundamental para uma vida digna na cidade.

Nesse sentido, por que se pretende gastar bilhões no projeto Salvador Capital Mundial e não se resolve a questão da macrodrenagem da cidade?

É curioso que quando se levantam as questões urbanas, o seu foco principal passa ao largo, ou não é claramente expresso. Por exemplo: por que o capital exerce tanto poder, determinando o ritmo e a estruturação da cidade? Por que não se expõe claramente a raiz dos problemas urbanos?

Marx dizia que iremos sempre conviver com o dilema de educar os educadores e pensadores.

Talvez, a falta dessa prática, ao lado do poder grandioso e estratégico que o capital exerce sobre a cidade, esteja na raiz da questão urbana.

Quando irão reconhecer que a luta pelo direito universal à cidade é uma luta, sobretudo, contra o capital? Afinal quem elege os gestores públicos, não é o capital?

O direito de transformar a cidade é um direito legítimo de todos seus cidadãos. Entretanto, assistimos em Salvador a um conjunto de intervenções propostas que envolve desapropriações de milhões de metros quadrados, das áreas mais valorizadas da cidade, ignorando a participação da sociedade organizada nessa decisão. Portanto, trata-se de uma usurpação do direito universal à cidade.

Há um sentimento de impotência. Dificilmente teremos a capacidade de transformar a nossa cidade em mais humana, pautada pelo urbanismo humanizante, ela vista enquanto uma casa coletiva, cabendo aos seus habitantes (a coletividade) o direito de transformá-la e adequar sua expansão aos recursos tecnológicos, que toda grande cidade requer.

Assim, é imperativo fortalecer AS VOZES DA CIDADE, que se manifestam enquanto movimento livre que emerge da sociedade organizada. Se todos os movimentos não crescerem numa onda tsunami, os cidadãos soteropolitanos serão mais uma vez ignorados e avassalados, como já aconteceu com o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano.

Tenho a impressão que a cidade está fragilizada em termos de uma representação independente, apartidária e sem comprometimento com o capital. Um coração infartado que pede socorro e o que encontra em sua defesa ainda é muito pouco.

Tudo isso tem uma lógica: a maioria dos movimentos sociais da cidade, de esquerda (ainda existe isso?), sempre combateu a estrutura de poder, e com o poder conquistado calou sua voz. Aparentemente não tiveram o que combater ou foram cooptados pela estrutura de poder.

Acontece que a cidadania não tem partido, só uma ideologia – a defesa do cidadão e do direito universal à cidade.

O momento é delicado e não podemos assistir imobilizados a esse avassalamento urbano. É preciso reconhecer que a defesa da cidade é uma responsabilidade de seus habitantes.

Afinal, a quem pertence esta cidade? Ao capital imobiliário? Ao morador que constrói seu imóvel na forma que sua renda permite? Ao invasor, que ocupa ilegalmente o espaço que lhe é possível? Na verdade, a cidade pertence a todos seus moradores.

Tudo isso me faz lembrar uma antiga história de um pastor luterano que disse:

– Vi os judeus serem dizimados e nada fiz; percebo diariamente discriminações de grupos “minoritários” e nada faço. Assim, quando uma dessas mazelas se voltar contra mim, ninguém, absolutamente ninguém, nada fará por mim.

As desapropriações previstas no projeto Salvador Capital Mundial já foram lançadas e irão atingir muita gente. Pensando nisso, e na fábula de Esopo, que citei no último artigo(**), volto a perguntar: quem será o rato que a montanha da cidade pariu?

.

*Anilton Santos Silva – Arquiteto/urbanista, demógrafo e consultor

.

(**) O artigo citado pelo autor, “Salvador, a montanha e o rato”, publicado originalmente em Opinião do jornal A Tarde, em 8.4.2010, é reproduzido abaixo:


Ilustração de CAU GOMEZ

As tendências recentes de nossa urbanização sinalizam na direção de ampliar a concentração do capital imobiliário

.

SALVADOR, A MONTANHA E O RATO

POR UMA NOVA POLÍTICA URBANA

.

texto de ANILTON SANTOS SILVA*

.

O conjunto de projetos Salvador Capital Mundial, que compreende mobilidade e requalificação urbana, revitalização da orla e outros, transforma a face da cidade, caracterizando uma nova centralidade – Iguatemi/Paralela. Na orla, pressiona a expulsão das ocupações populares face à indicação de implantação de condomínios residenciais para as classes de média e alta renda sem estar embasado no Plano Diretor Urbano ou Lei de Uso e Ocupação do Solo.

Questionam-se as alterações dos índices urbanísticos e dos gabaritos nas áreas de implantação dos projetos, considerando que haverá uma valorização significativa dessas áreas, por conta dos investimentos públicos, porém com agregação de valor capturado pelo capital privado, o que os defensores do projeto ignoram.

Salvador enfrenta tensões críticas na sua ocupação e disputa do espaço urbano, portanto é preciso, antes de realizar essas intervenções, revisar fundamentos conceituais de política urbana que impliquem a eliminação desses conflitos e preparar a cidade do terceiro milênio, a partir dos reais interesses da população.

Toda e qualquer cidade é o “locus” da manifestação do inconformismo da sociedade civil organizada, que expõe um sentimento generalizado de que nem a macroestrutura do poder público nem a do poder privado respondem às necessidades prosaicas da sociedade, em termos de qualidade de vida, equilíbrio social, emocional e satisfação das demandas básicas de sua população. Dessa forma, ela se coloca como o centro estimulador da cultura da solidariedade social, sem a qual nem a economia nem a sociedade caminharão sempre juntas, na busca incessante de um futuro melhor para todos.

A problemática da cidadania é decorrente da cidade desde os tempos da polis grega, na aurora da democracia, quando surgiu a articulação cidade e Estado. Antes de cidadão de um país, somos membros de uma comunidade urbana/municipal, inserida no Estado. Assim, a gestão da cidade deve ser compreendida a partir de seus constantes desafios, que emergem das reivindicações geradas no seio da solidariedade social urbana, sendo o principal deles a crescente demanda por infraestrutura e serviços, normalmente além da real capacidade do poder público em atendê-la, em situações de crescimento acelerado.

Nesse sentido, é preciso compreender que quando lidamos com o crescimento rápido, a questão urbana começa no campo e sem uma política de orientação dos fluxos migratórios não há como neutralizar a expansão acelerada, que combina concentração de pobreza e concentração de riqueza.

No caso de Salvador, a trajetória do crescimento urbano aponta no sentido do aprofundamento da concentração populacional e de pobreza, haja vista que a cidade amplia o seu poder de atração, enquanto o nosso campo cada vez mais libera o seu contingente, considerando a modernização de nossa agricultura, que reduz a absorção de mão-de-obra e induz a população rural a migrar.

As tendências recentes de nossa urbanização, na linha contrária à natureza do nosso crescimento urbano, sinalizam na direção de ampliar a concentração do capital imobiliário, plasmado em investimentos nos condomínios residenciais de luxo, o que é decisivo para a periferização dos mais pobres, quando as intervenções resultam de expulsão e valorização de áreas de ocupações populares (caso da orla).

Salvador realmente precisa de um choque de intervenção e ordenação para orientar o seu crescimento rápido e universalizar o direito à cidade. Todavia, tais ações não devem emergir de um processo sem a participação da sociedade civil e reconhecimento da solidariedade social urbana. Entregar esta responsabilidade à exclusividade do capital imobiliário (as grandes corporações que dominam a ocupação/construção da cidade) é um grande risco de elitizar o espaço urbano.

Imagino que o projeto Salvador Capital Mundial parece uma das fábulas de Esopo que diz: “A montanha rugiu, tremeu e estremeceu, e quando todos esperavam que dela brotasse ouro, ela pariu um rato”. A montanha é a intensa verticalização, que já começou na Paralela, quem será o rato?

.

*Anilton Santos Silva – Arquiteto/urbanista, demógrafo e consultor

Anúncios

Tags: , ,

Uma resposta to “O URBANISMO HUMANIZANTE”

  1. Anilton Santos Silva Says:

    Legal a ideia! Seria bom envolver as questões urbanas com as questões políticas, afinal ambas andam sempre imbricadas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: