NO BANCO DO BUZU

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Aula de cidadania

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Um ‘rolê’ de buzu, de Vida Nova (bairro de Santo Amaro de Ipitanga) até a Estação da Lapa, em Salvador – via Itinga, São Cristóvão, orla –, de olhos e mente abertos, em horário de tráfego maneiro para que se possa bem apreciar as coisas, é uma aula.

A primeira lição é sobre a relatividade do tempo. O tempo, no volante de um carro, voa. Já dentro de um buzu os minutos se arrastam. São duas horas nesse roteiro, quando se pega um fluxo bom de tráfego. Dá para ler jornal, tirar soneca, trocar prosa, conhecer gente e até meditar… sem agonia.

De olho na janela, a diversidade de paisagens impressiona. Ali, resto de mata, lá roçados que parecem o interior sertanejo, acolá casebres, adiante lixões e invasões que lembram os ‘musseques’ de Luanda (Angola). Rodando mais, passamos por bairros superpovoados e moradas de laje batida e tijolo aparente, vielas espremidas e ruas esburacadas. Há tabuleiros e traquitanas de comércio informal por tudo que é canto. E meninos vagando, vagabundos, desocupados, cães atarantados e muita pobreza.

Movimento! Vida se mexendo de todas as formas. São variadas, múltiplas realidades, cidades dentro da Grande Cidade. Quando se destampa o mar, adiante, hora passada, em Itapuã, parece outra urbe, um outro mundo. Respiram-se novos ares, maresia, mesmo com os passeios esburacados, carências conhecidas.

Uma constatação importante clama: Somos um povo absolutamente mestiço, uma gente mulata, cabocla, mistura de cores e traços. Variados matizes. Nossa população não é em p & b, como querem alguns. Os branquelos são raros e os negões puros, bem poucos. Isso me faz pensar no mestre Cid Teixeira que sempre repete, sem pejo: ‘Somos mulataria!’

Retinto é o motô (motorista), paciente, impassível, atento… a enfrentar muitos buracos no percurso, lama, quebra-molas a rodo, aquele barulhaço aterrador às aceleradas, caminhões parados fechando passagem, carro particular ignorando o fluxo, parado na faixa, mal estacionado, manobrando errado e matracando o ritmo, falta de respeito e de educação geral sobre rodas.

E mais pedestres desastrados, ciclistas (até crianças) e motoqueiros imprudentes, dá até arrepios… Mas, juro, nada perturbou o motô, nem mesmo a quantidade absurda de idoso e ‘carteirante’ que entra pela dianteira; fora os pedintes, os deficientes, os ‘crentes’ pregando a bíblia e vendendo doces, os ex-drogados relatando dramas e arrecadando trocados para a salvação pela fé… Uma festa dentro do buzu que roda e ronca. O papo rola, a vida vai, o tempo corre.

O cobrêro (cobrador) puxa conversa passando o troco, de bem com a vida, pra se distrair, repetindo, no seu jeito baiano de se mostrar gentil: ‘Valeu, broder, obrigado’.

A brisa atlântica varre o bafo humano que vai se impregnando no interior do buzu e o vaivém das ondas atrai os olhares, descansa as vistas. E a vida segue aos trancos e arrancos, parando e seguindo, entrando e saindo, na baralhada do barulho de vozes, ranger de freios, roncar de motores e destinos. Fruição humana.

Nossos governantes deviam, vez ou outra, feito gente, andar de buzu. Faz bem.

Tornar-se-iam mais humanos.

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*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

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Mozart de rua

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texto de zédejesusbarreto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Paro numa rua enlameada da periferia e logo sou atraído por um som de uma ‘orquestra’ percussiva. Bato os olhos num garoto mulatinho de seus 10 anos, magrelinho, trajado de bermudinha jeans surrada, camiseta encardida sem mangas e sandálias de dedo meladas.

Seus olhos brilham, como se fosse um anjo, o corpo todo em majestosos movimentos.

Só, junto de um poste, com duas varetas nas mãos servido de baquetas, tira sons incríveis vergastando um tonel velho de lixo, meio virado, com caixas de papelão e um lata velha saindo pela boca. Ele usa cada pedacinho do sonoro tonel – boca, beirada, corpo –, da lata e do papelão para fazer sua música. Sério, bate com segurança como se estivesse estudando, pesquisando, experimentando as variações acústicas, criando repiniques, fraseados sincopados de uma samba-reggae tão baiano!

Seria uma homenagem, uma reencarnação de Neguinho do Samba, minha mãe? Filho de Carlinhos Brown?

Quedo-me a admirá-lo à distância. Ele nem me olha, concentrado, fazendo eco rua afora, solto, liberto, em plena aula, arte pura, apenas umas poucas crianças da mesma idade, sentadas ao chão à distância a apreciá-lo. A rua é sua escola livre, aberta. Sua escolha.

Não quero perturbá-lo, nem com meus pensamentos que, inquietos, perguntam: Terá família? Se frequenta escola, como poderia estar aqui a essa hora, no meio da manhã? E de que adiantaria uma ‘cela’ de aula para ele? Alguém, algum ‘professor’ dessas tais escolas formais compreenderia sua grandeza? Será que comeu um pão com café hoje? Com que sonha aquela cabecinha, além da música? Sua alma é sonora.

Peço que Deus o proteja do mundo das drogas, da violência, dos descaminhos. Imagino-o sentado à frente de uma bateria, diante de mil instrumentos de percussão, acompanhado de sopro, cordas… ou, num palco, diante de um piano de cauda.

Anônimo menino maestro. Um gênio perdido nessa rua de buracos e lama. Desatino de vida! Mais um Mozart assassinado.

Que os céus não permitam!

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zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (mai/2010)

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