AMARALINA SEGUNDO JOLIVALDO FREITAS

Banhistas na Praia de Amaralina. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde

Volta da pesca de rede em Amaralina. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde

O derrière das

baianas de Amaralina

perdeu o viço

.

texto de JOLIVALDO FREITAS

(especial para o Jeito Baiano)

.

O ponto mais famoso do romântico bairro de Amaralina – talvez o mais romântico de todos os logradouros soteropolitanos –, pelas histórias que contam e pelo que seu nome parece representar – embora sejam tantas as versões –, é o Quartel do Exército. Hoje um plácido hotel de passagem dos oficiais, e aberto aos civis. Por lá passaram nos anos de chumbo muita gente da esquerda que jamais irá esquecer os suplícios. Dizem que atualmente funciona entocado o serviço de inteligência do Exército.

Piscina de água salgada que fica dentro do quartel de Amaralina. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde

Quartel de Amaralina. Foto de XANDO PEREIRA | Agência A Tarde

Foi no local, e mais para frente vou contar uma história interessante que não vai do seu juízo, por envolver sangue, ação e heroísmo, que aconteceu um dos maiores momentos da história do Brasil e quiçá das Américas ou do mundo ou da Bahia.

Interessante ressaltar a realidade atual, contemporânea e de hoje e agora, que caracteriza o bairro, onde, segundo o noticiário, “acontece de um tudo”, como diz minha tia Aydil. Se você abre uma revista de turismo lá está uma reportagem linda e lúdica falando das belezas naturais, da praia única e de suas areias claras e as correntezas indecifráveis e surpreendentes que têm levado para os braços de Netuno e Iemanjá muitos banhistas abobalhados, incautos ou ousados e alguns tirados a bestas. Já folheando um jornal o que vem é assalto, espancamento, roubo e morte. Vá entender.

Minha tia estava justamente conversando sobre este assunto com o seu compadre Isaías Zóio-de-Bomba. Bom explicar que a alcunha ele ganhou por ter os olhos papocados, quase que saindo da órbita e que muitos dizem foi uma consequência do fato de ter o vício – pois é mesmo um vício de pescador preguiçoso – de pescar com bomba, e pelo que parece, cada estouro da bomba projeta seu globo ocular para a frente e – segundo minha tia Aydil – vai chegar o dia em que bastará uma tapa no cocuruto, na base de trás da cabeça para que os olhos dêm um pipoco e voem para longe. Ela já disse para o moço:

Ou você para de pescar de bomba ou vai perder os olhos.

Ele disse que vai parar e foi ele mesmo quem comentou depois com seu compadre Palma – renomado pescador de bagres de beira de mar com seu rico conjunto de vara importada, molinete italiano e outros breguetes – que tinha notado que minha tia não havia perdido o vigor da mocidade, embora já estivesse beirando os 40.

Você já viu que ela continua com as pernas roliças, os seios fartos e duros, tinindo, tipo avante Brasil e tem o bumbum duro e empinado? – perguntou e ouviu como resposta:

Compadre, não é por mal não, mas eu não troco esta coroa por nenhuma menina jovem. Aliás – fez um hiato para fazer suspense e completou –, “tô comendo”.

Zóio-de-Bomba fez ouvido de mercador, mostrando discrição e o outro prosseguiu:

Você tem razão compadre, veja que as meninas de hoje estão acabando com a fama das baianas de Amaralina. Você sabe que no Brasil e exterior, até lá longe em São Paulo a fama das meninas daqui é imensa. As moças são afamadas por terem as pernas torneadas e o traseiro largo, empinado e liso como um pedaço de jacarandá.. Mas, veja agora. Tudo flácido, parecendo feitos de matéria plástica.

O compadre parou para pensar, naquele seu jeito de pescador de jangada que depende do vento que vem do mar, pensou bastante enquanto o outro também pensava e vaticinou:

Nunca mais que veremos uma morena típica de Amaralina. Os cientistas dizem que a tendência é esta, de termos cada vez mais as moças com carnes moles por causa desse negócio de tomar Coca Cola, comer Miojo e dormir em cama macia.

No que Zóio-de-Bomba acrescentou:

Sem falar, compadre, que as morenas de Amaralina estão raciadas com gringos e gringos não têm sustância, a pele é branca e a carne mole. Tem gringo gaúcho, tem gringo paulista, tem gringo americano e até gringo polaco. Eles estão estragando a Bahia com suas presenças e Amaralina não podia ficar de fora.

Culpa das mulheres que estão trocando os daqui pelos de lá.

É, mas sempre foi assim, pois não é que as nativas sempre gostaram de português, francês, holandês e só não se trançavam com cobra por não saber o sexo.

É mesmo, desde os tempos de Caramuru, né?

Então Zóio-de-Cobra mudou o rumo da prosa e fez o compadre lembrar que tempo bom mesmo foi na época da segunda guerra, quando Amaralina era uma fazenda imensa. “Uma área pertencente ao fazendeiro Amaral que mandava e desmandava, onde cada um se conhecia e para onde ninguém ia ou saia e as moças se casavam ou rolavam na areia com gente dali mesmo e os meninos nasciam fortes e as meninas nasciam parrudas”:

Aliás, o nome do bairro vem a ser justamente por causa do fazendeiro que batizou a fazenda de Amaralina – procurou explicar para mostrar erudição..

O compadre Valmir replicou:

Nada disso: Amaralina é por causa de um moço de outro bairro, que se apaixonou por Alina. Ela era uma moradora que ninguém sabe e ninguém viu, e que de tanto dizer que estava indo “amar Alina”, fez com que o lugar passasse a ficar conhecido assim.

Zóio-de-Cobra não quis entrar em discussão. Não tinha certeza de nada e procurou aviar a conversa, puxando o tema para outra questão e fez o compadre rememorar novamente a época da Grande Guerra, quando o Quartel de Amaralina tinha sido armado pelos fuzileiros americanos com grandes canhões, que ainda estão lá sendo corroídos pelo tempo e pela força do salitre, para defender a Bahia contra os alemães.

A conversa fluiu novamente serena, um lembrando que certa vez as sirenes tocaram e todo mundo correu para casa apagando as luzes e nem acendendo sequer um fifó, com medo dos aviões alemãs que estavam passando pelo mar. Outro da outra vez que os canhões ribombaram por causa de um ataque de submarino alemão e até hoje ninguém sabe o que a alemãozada queria por alí, lugar que só tinha coqueiro, dendezeiro, anuns, carcarás, calangos e pescadores de rede, canoa e jangada e de vez em quando umas baleias que vinham dar perdidas na praia.

Foi aí que ele lembrou da história do sargento Godinho. Tido, havido e afamado como o maior artilheiro de canhão do Quartel de Amaralina, de fama que ia de Amaralina até o estrangeiro, embora ninguém nunca tivesse visto dar um tiro de mosquete que fosse. Dizia-se que era capaz de acertar com o canhão de não sei quantos milímetros e um bocado de toneladas, uma gaivota a mais de dois mil metros.

Mas, sua fama caiu por terra no dia em que os alemãs foram se aproximando com submarinos e um destróier e estavam prontos para abrir fogo quando um vigia notou e deu o alarme. A primeira coisa que tenentes, coronéis, estafetas, recrutas e taifeiros se lembraram foi de buscar correndo o sargento Godinho que dormia a sono solto na casa da baiana de acarajé Nildes de Maria..

Não deram tempo nem de botar a farda. Ele chegou, olhou, mirou, colocou a bala no canhão, todo mundo observando com silêncio e respeito sacros, foi quando o navio nazista deu um tiro seco. Todo o quartel olhando para onde a bala ia e os navios alemães e os submarinos alemães passando como se estivessem a passeio, olhando a paisagem. O tiro fez um barulho que despertou criança até no Rio Vermelho. Todos de olhos colados na trajetória da bala e nada da bala aparecer.

Um pergunta: – A bala passou?

Outro responde: – Se passou nem deu pra ver.

E enquanto os oficiais esperavam a explosão, cada se protegendo onde dava, fosse atrás do coqueiro, do tufo de capim ou uns atrás dos outros, jogados ao chão ou chamando por Deus, alguém gritou:

O sargento Godinho morreu.

Então se deram conta que o navio deu apenas um tiro seco, sem bala, apenas para chamar a atenção e mostrar sua superioridade. O sargento nem teve tempo de revidar. Morreu de susto, medo e cagaço, coisa que o Exército nega até hoje.

Depois da pirraça os alemães deram meia-volta e sumiram em direção a Itapuã.

A guerra acabou e o moral do Quartel de Amaralina também. O canhão está lá, onde de vez em quando um recruta leva uma morena de Amaralina para uns amassos. Elas com seus derrières sem a força da raça e o canhão inerte e sem glória. Culpa do sargento Godinho, pai da mulata Iraildes; das últimas baianas de Amaralina que têm canela fina, coxa grossa e bunda dura e que não gosta que relembrem o assunto.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista, escritor, editor do blog Joli: http://www.jolivaldo.blogspot.com/

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3 Respostas to “AMARALINA SEGUNDO JOLIVALDO FREITAS”

  1. giovanna Says:

    eu já fui no quartel e amei amei amei. lindo demais

  2. david freitas Says:

    n conheço muito o bairro, mas pelas fotos deve ser bonito lá

  3. celso Says:

    meu bairro querido, que eu amo demais!!!!

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