CANDOMBLÉ E MODERNIDADE

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texto de VILSON CAETANO DE SOUSA JÚNIOR*

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O tema candomblé e modernidade reabre a discussão em torno de algo de vital importância para a manutenção das religiões de matriz africana no Brasil: a tradição. Conceito erroneamente entendido como algo que “resiste ao tempo” e às mudanças. Já houve autores que nos anos 50 consideraram estas religiões como uma espécie de “ilhas” e desse isolamento dependia a sua sobrevivência.

Fato é que nas comunidades terreiros, o tema da modernidade embora não apareça de forma sistematizada está presente o tempo todo e é empregado utilizado em vários significados.

Para alguns tios e tias, a afirmação “hoje o candomblé está moderno” de um lado soa como crítica aos mais “novos”, que ignorando o aspecto secreto e iniciático destas religiões criam seus próprios modelos rituais, ignorando o tempo, mestre por excelência destas religiões onde nunca cessa o aprendizado. Por outro lado, esta fala também significa não apenas as mudanças pelas quais estas religiões passaram, mas também os “novos tempos”, quando não se é mais preciso passar, por exemplo, pelo constrangimento na Delegacia de Jogos e Costumes para se tirar uma licença para bater candomblé. Ou ainda pode significar a visibilidade que estas religiões alcançaram na mídia, resguardadas as críticas à mesma, que teima em lhes apresentarem como algo exótico.

Fato é que desde cedo africanos e africanas e seus descendentes expostos à escravidão, ao se depararem com universos simbólicos diversos ao invés de fecharem-se foram capazes de abrir uma série de diálogos, pois sabiam que disso dependia a manutenção de suas religiões tradicionais. O resultado foi a construção de modelos ritualísticos acertadamente chamados pelo Professor Doutor Vivaldo da Costa Lima de “nações de candomblé”, espécie de modelos onde questões étnicas reforçadas como motivo de separação dentre os diversos grupos africanos aqui entrados foram prescindidas por questões ritualísticas sem perder suas referências, ao contrário, no processo de constituição das religiões afro-brasileiras, elementos congo, angola, jeje, malês e nagôs se ajudaram mutuamente.

O resultado foi a construção de uma religião que se na maioria das vezes abriu mão da organização clânica, não abdicou, por exemplo, do conceito de família para manter-se viva no Novo Mundo. Assim estes homens e mulheres foram capazes de preservar rituais de iniciação, o espaço mato de vital importância para os terreiros, rios, uma língua ritual, cantigas, palavras de encantamento, uma culinária ritual, dentre outros elementos.

O que falar do diálogo estabelecido com o catolicismo português vindo da península ibérica já enriquecido pelos vários contatos ali realizados? Isso vale também para a série de diálogos realizados com os povos indígenas, sem falar nos judeus e ciganos. Assim, aos poucos a velha teoria da dissimulação, onde os santos católicos ganhavam máscaras africanas, foi substituída pela imagem de um catolicismo negro e ao mesmo tempo de uma religião onde estes mesmos santos são cultuados ao lado dos orixás, vodus e inkices, fato este que, contrariando o discurso anti-sincretista não torna estas religiões menos tradicionais, mas ilustra a capacidade que reis, príncipes, princesas, rainhas, sacerdotes e sacerdotisas tiveram de exercer a sua liberdade dentro dos limites possíveis.

Isso nos ajuda a pensar a tradição como algo aberto ao tempo e contemporâneo à modernidade. É essa abertura que faz das comunidades terreiros espaços de diálogo e da tradição mantida pelos mais velhos, algo dinâmico que resiste até às previsões que apostam no desaparecimento dessas religiões ante os modismos e tendências que não param de surgir.

Ante a redução do tempo nas grandes cidades, um Sagrado religião que demanda tempo para ser cultuado continua presente, reinventando-se e inventando-se a todo momento, não por ter perdido algo, nem por medo de afastar-se de seus princípios mantenedores de identidade, mas por entender que a melhor forma de estar no mundo é inserindo-se nele como sempre fez desde o início, sendo capaz de construir algo contemporâneo e dar respostas a questões humanas através de uma leitura sagrada, cumprindo, assim, uma de suas maiores funções: estreitar os laços entre a humanidade e o divino.

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*Vilson Caetano de Sousa Júnior – Antropólogo, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e pós doutor em Antropologia pela Unesp

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