ROUBADA NO LARGO DE ROMA

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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O bizarro, estranho, estúpido

e peculiar roubo no Largo de Roma

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Tem coisas que ninguém acredita e se a gente conta parece lorota das grandes, mentira das boas ou conversa mole e a depender da repercussão o cabra fica que meio que desmoralizado para sempre. Mas, que acontece, acontece mesmo e não dá para deixar de se comentar, como aconteceu de verdade o assalto à mão armada, em plena manhã cedo e luminosa do Largo de Roma, que poucos conhecem como Praça da Bandeira, que já teve até minizoológico.

Para você que está chegando agora e não conhece muita coisa da cidade, basta saber sucintamente que o largo fica num ponto estratégico depois da Calçada. Indo daqui para lá pelo lado direito se alcança a Ribeira passando pelo Caminho de Areia, Jardim Cruzeiro, Massaranduba, Largo do Papagaio e Porto dos Tainheiros.

Pelo meio também vai dar na Ribeira, seguindo pela Avenida Dendezeiros, passando pelo Bonfim. E pela esquerda entra na Avenida Luiz Tarquínio, Largo da Boa Viagem. Se quiser sobe para o Mont Serrat e pega o Barreiro descendo pela Baixa do Bonfim e vai em direção ao Largo do Papagaio, passando pela Madragoa. Tudo leva à Ribeira.

Tanto que o Largo de Roma de antigamente, conforme li em algum lugar que não lembro e vi as fotos antigas e depois confirmei com os da área que ainda não foram desta vida para uma melhor, era ponto de passagem e centro de distribuição de transporte coletivo. Uma espécie de fim de linha para onde convergiam as carroças puxadas por cavalos, depois os bondes, os ônibus elétricos, lotações, ônibus mistos (carga e passageiros) e outros.

Pela direita a rota era classificada pela Prefeitura Municipal como Linha 20. Pelo meio Linha 19 e pela esquerda Linha 18, herança dos bondes. Era interessante o burburinho manhã cedo ou final da tarde de gente se movimentando, correndo atrás do transporte, descendo, se espremendo. Os punguistas faziam a festa. Era uma época em que malandro não usava arma de fogo, no máximo uma navalha Solingen ou um canivete automático Puma, e o que valia mesmo era o talento com os dedos para tirar a carteira de cédulas dos mais desligados, bem na hora de subir o degrau do veículo, fosse qualquer. De vez em quando se ouvia o apito de um oficial da polícia e o corre-corre. Como o larápio era também bom de pernas, já viu…

Bom mesmo era colocar nos trilhos dos bondes os coquinhos de dendê ou o licuri ou nicuri para quebrar e depois pegar a polpa e comer. Na verdade a gente, meninos de instinto ruim, queria mesmo era ver se o bonde descarrilava. Nunca aconteceu.

O mais grave que se viu por lá foi na década 1960 quando um lotação pegou fogo e teve gente morrendo e um monte ficou sem pele. Um horror que chocou toda a cidade. Nada tivemos a ver. A gente também brincava de tirar os ganchos dos trolebus. Os ônibus elétricos andavam em baixa velocidade, e mesmo assim em algumas curvas, os dois ganchos que pegavam nos fios de energia elétrica, e que faziam o motor trabalhar, se soltavam. Corríamos atrás para puxar o cabo de aço. O trolebus parava e a gente se picava, pois os motoristas já desciam com porretes na mão. Vez em quando havia um vizinho dedo-duro que viajava, via a cena e entregava aos pais, e a palmatória Mariquinha, com seu furo no meio, fazia sua função educativa. Apanhava mas não chorava. Só depois, escondido. E no dia seguinte lá de novo.

O porquê do Largo de Roma ter este nome ninguém sabe ao certo. Tem mais versão do que realidade. Uns historiadores dizem que é em homenagem a Nossa Senhora de Roma que ficava numa igrejinha perto do mar, construída pelas Carmelitas no século XVII. Só que não existe esta santa. Tem quem diga que o batismo foi dado por um comerciante de nome Anísio Gonçalves dos Anjos que tinha uma imagem de uma santa numa casa de nome Roma. Vá saber.

Para chegar a Roma basta perguntar onde fica o Cine Roma – antigo Círculo Operário – que lançou Raul Seixas, e até Roberto Carlos e Cauby Peixoto passaram por lá; ou o Abrigo Dom Pedro II ou o Hospital de Irmã Dulce. Antes dos tempos modernos era uma área erma em que os circos montavam suas lonas e os ciganos faziam morada. A gente trocava ingressos levando sacos de gatos para os leões. Mas nunca vimos nenhum sendo comido.

Tem gente de língua ferina que garante ter sido um cigano o responsável pelo bizarro assalto. Um dos mais estranhos já acontecidos nos anais desta cidade. Seu Celestino acordou cedo no Abrigo Dom Pedro II, colheu o que tinha de colher, colocou nuns potes, meteu num saco de papel pardo e foi em direção à Calçada, com seus passos lentos, como se tivesse engomando uma calça de linho, onde iria encontrar o médico.

No Largo de Roma foi ameaçado por mascarado que mostrou a navalha. Foi obrigado a entregar o embrulho. O ladrão sumiu no mundo e seu Celestino, depois do susto, começou a rir sem parar, deram água, mas não adiantou. O velho sofreu uma apoplexia e escafedeu-se… morreu. Foi com um sorriso grafado, típico de uma gargalhada final, sardônica.

Depois é que se ficou sabendo o que sucedera: Celestino tinha colhido cocô e mijo e levava para fazer os exames laboratoriais. O ladrão pensava que era coisa de valor, pois antigamente velho tinha a mania de colocar carteiras, documentos ou dinheiro em embrulhos. Seu Celestino morreu vítima de um assalto, digamos… mal sucedido. Pior foi a polícia catando o ladrão para tomar de volta os objetos da cobiça. Foi motivo de conversa para dias. O assunto rendeu até lá longe em Águas Claras. O assaltante nunca foi preso. Nem o fruto do roubo encontrado.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista, escritor, editor do blog Joli: http://www.jolivaldo.blogspot.com/

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Uma resposta to “ROUBADA NO LARGO DE ROMA”

  1. jbarreto Says:

    joli,
    o largo de Roma é encruzilhada, onde Exu sempre faz suas estripulias…

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