IDEIAS PARA O CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

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Seguem dois textos de DIMITRI GANZELEVITCH, francês nascido no Marrocos e radicado na Bahia desde 1975. Dimitri fundou a Associação Viva Salvador, que desenvolve ações de educação para a arte. Colecionador de peças de arte popular, ele transformou sua residência, situada no Centro Histórico de Salvador, na Casa Museu Solar Santo Antônio, que reúne seu acervo particular.

Crítico contumaz das ações e omissões dos governantes em relação à Cidade da Bahia, nestes dois textos Dimitri apresenta propostas para um melhor uso do Centro Histórico.

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VIVER NO CENTRO HISTÓRICO

DE SALVADOR

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Voltando ao mau uso do Centro Histórico de Salvador. A rejeição deste bairro pela classe média baiana é uma realidade cultural. Ninguém quer saber se aqui moraram os poderosos, clérigo e nobreza de outras épocas. Nem os responsáveis pela conservação do bairro, seja de primeiro ou segundo escalão, nem o próprio arcebispo, apesar do magnífico palácio arquiepiscopal da Praça da Sé.

Quem manda seus filhos passar férias em Miami e Orlando dificilmente aceitará viver em moldura histórica sem o glamour dos condomínios com playground, zelador e garagem de controle remoto. O escudo invocado sempre é “por causa dos filhos”. Mas lamentar não adianta.

O Centro Histórico necessita de leque sociocultural mais amplo se quiser sobreviver. Há muitos anos defendo a implantação de repúblicas de estudantes, como houve antes da reforma, antes das vaias a um irascível governador. Sangue novo, risos, violões, atitudes rebeldes fazem parte da qualidade de vida de antigos bairros onde espíritos irrequietos e contestadores encontraram refúgio.

Que seria de Salamanca sem suas tunas ou de Coimbra sem suas estudantinas?

Que também fique aqui registrada minha sugestão aos governantes de atribuir, talvez na forma de prêmio, uns ateliês amplos e arejados a alunos recém-diplomados das Escolas de Música, Dança, Antropologia, Belas-Artes etc. Poderia ser sob forma de convênio para um mínimo de dois ou três anos, sem ônus para o contemplado, incluindo luz e água. Uma bolsa-artista. Por que não? Sairia muito mais barato que campanhas publicitárias na televisão e outdoors na Paralela.

Pequenos eventos com programação regular como feiras livres de produtos orgânicos no Terreiro de Jesus e no Largo de Santo Antônio, apresentações semanais de mamulengos e tantas outras formas de atrair e manter uma qualidade de vida diferenciada poderiam mudar os preconceitos da sociedade soteropolitana.

Precisamos reintegrar o Centro Histórico à cidade que dele nasceu. O que não se pode é imaginar que a abertura de um shopping no Santo Antônio ou shows de rock ou de pagode no Pelô solucionarão a previsível decadência do bairro.

Tombado pela Unesco no final do século XX, ou tombando pela falta de visão nos primórdios do século XXI?

(Salvador, 7 de abril de 2010)

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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UM CENTRO DE CONVENÇÕES

NO CENTRO HISTÓRICO

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Na década de 90 discordei do espírito que liderou a restauração do Centro Histórico de Salvador. Continuo discordando do aproveitamento leviano que ainda vitimiza este pedaço de cultura e história, ora confundido com um banal Wet’n Wild, ora palco de folclorizações para turismo de massa.

Não me conformo com as “baianas de receptivo”, suas roupas e torços, verdadeira traição à elegância das vestimentas tradicionais. Você conhece cariocas, sevilhanas ou cusquenhas de receptivo? Não me conformo com um monte de erros de como se deve usar este bairro.

Há uns dois anos mandei pela internet uma sugestão de centro de convenções no Pelourinho. Receptividade excelente. De que se trata? Simplesmente de mapear e usar as possibilidades – e são numerosas – para atrair um público variado de profissionais oriundos de todas as partes do mundo.

Temos salas de reunião e auditórios suficientes, hotéis e pousadas para todos os bolsos, restaurantes, bares, sorveterias e teatros para o laser. E mais: não será preciso construir um monstrengo de ferro e concreto para abrigar seminários e congressos. Por que concentrar todos os serviços no mesmo espaço?

Em 1999, fui convidado pela Unesco a um congresso sobre Turismo Cultural em Puebla, no México, cidade tombada como patrimônio mundial. O centro de convenções fica a cinco minutos a pé do Zócalo, coração da cidade. Adaptaram, com desmedido talento, um conjunto de antigas usinas, respeitando os edifícios originais e até as ruínas, levando os participantes a andar de uma sala a outra por jardins, áreas descobertas e velhos depósitos. Passeios para ninguém criticar ou achar penoso. Muito pelo contrário, todos apreciam o aproveitamento da memória material e cultural da região.

Para mudar o perfil do mau uso de nosso Centro Histórico, basta fazer um levantamento exaustivo de suas possibilidades. Senac, Teixeira Leal, Faculdade de Medicina, Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia), igrejas…

E assim poderia também se programar a reabilitação dos cinemas Excelsior, Jandaia e Pax, espaços ideais para grandes audiências e exposições. Não, instrumentos de trabalho e bons operários não faltam. O que falta são bons empreiteiros.

(Salvador, 29 de março de 2010)

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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2 Respostas to “IDEIAS PARA O CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR”

  1. Lourenço Mueller Says:

    Os textos de Dimitri são um bom exemplo de como se pode participar do quotidiano do nosso bairro, criticar situações absurdas que ocorrem nesta cidade, digo nesta Baía de todos os demonios, com ponte ou sem ponte, porque nego quer mesmo é que a gente se ferre.

  2. Bernadette de Freitas Says:

    Sempre digo que o Centro Histórico é a alma da Bahia. Penso até que se não existisse o Pelourinho, Salvador seria sem graça. É um dos lugares que mais é conhecido por aí afora. O que falta no Pelô: que o povo e as autoridades tomem consciência do que ele foi e ainda o lugar onde o Brasil começou. Gostaria de vê-lo mais limpo, com mais segurança, com mais atrações culturais, com mais teatros, casas culturais. Fazer com que todos gostem, e não só dizer que ali tem influências negativas, que ali aconteceram coisas tristes. Lógico que todos nós sabemos disto tudo, mas podemos fazer com que se torne um dos lugares mais lindos de Salvador. Temos que fazer muitas coisas ali, mas mesmo assim já é lindo. Vamos fazer nos fins de semana feiras de antiguidades juntamente com uma feira de artesanato. Vamos trazer mais iluminação para se poder fazer espetáculos à noite. Vamos retirar a violência, a droga, os moradores de rua, que muitas vezes se tornam impertinentes com quem está chegando para conhecer. Vamos dar mais vida aos casarões que são tudo de lindo. Vamos fazer o povo sentir que todos adoramos, e fazer ser mais limpo. O Centro Histórico tem vida, não é um amontoado de casas velhas não, e onde no passado teve vida, só que a vida tem um passado, presente e futuro, e sendo assim o que prevalece agora é um presente e um futuro que poderá ser lindo.

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