AS TAINHAS DO ENCLAVE DA RIBEIRA SE PICARAM

PORTO DOS TAINHEIROS

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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Os antigos – aqueles bem mais antigos –, garantem que a Ribeira nunca mudou nem vai se transformar. Sua vocação é mesmo insistir numa postura bucólica: gente contemplativa sentada em cadeiras à porta no lusco-fusco. Conversa longa e perdida, olhos na imensidão do mar emoldurado pelas ilhas de Itaparica e Maré.

Um orgulho do itapagipano (jamais chame o nativo de ribeirinho), que vem a ser quem nasce na Península Itapagipana (de Itapagipe) é a total independência que tem em relação às outras áreas da cidade. Digamos que o bairro da Ribeira é um enclave, e como, uma área de resistência ao próprio desenvolvimento e dinamismo da metrópole.

Agora fiquei sabendo que o povo local está retado. Sumiram as tainhas.

Quem gosta de tainha, mesmo com toda aquela espinha, se ressente. Se bem que dona Iaiá sabia e ensinou a muita gente boa, hoje ricos proprietários de restaurantes, como se tira o espinhaço da tainha. Também ensinou a temperar e fazer uma moqueca.

Coisa simples em sua sapiência: deixa a tainha descamada com um pouco de sal por meia hora. Coloca numa frigideira e deixa cozinhar na própria água do pescado. Depois é acrescentar leite de coco. Se for coco ralado e espremido no pano de prato deixe o leite cozinhar um pouco para não dar dor de barriga. Depois coloca rodelas de cebola, pimentão e tomate de forma a cobrir levemente o peixe. Vem e cobre com dendê. Quem gosta e tem coragem coloca pimenta de cheiro. Eu gosto de comer apimentada, com malagueta, arroz e farinha. Tem gente que prefere com pirão. Tudo ao gosto.

Moqueca de tainha

Mas as tainhas estão sumindo. Até mesmo na área do Porto dos Tainheiros, que fica ao lado do hidroporto. Muita gente não sabe que antes de a Bahia ganhar aeroporto internacional, os hidroaviões já desciam nas águas dos Tainheiros. Era uma festa. Quando se sabia, através dos bisbilhoteiros radioamadores, que estava chegando um voo, os moradores de posses botavam a roupa domingueira; homem de polainas, chapéu Panamá e colete; as mulheres com seus frufrus e chapéus de abas largas. Iam apreciar a planagem e o desembarque. Coisa muito fina o hidroporto que até hoje está lá esperando avião aquaplanar.

Quem começou a assustar as tainhas não foram os pilotos. Foi a pesca com uso de bomba. Foi a poluição gerada por indústria de produtos químicos e a expansão das invasões. Mesmo com a água do mar misturada com chumbo e soda cáustica o pessoal nunca deixou de fazer sua moquecada. E não adiantava jornal alertar para o perigo. Se dava dor de barriga a culpa era do dendê.

E foi por causa do dendê, dizem as más-línguas, que houve um dos maiores bafafás da história da Ribeira. E que acabou, por breves momentos, a tranquilidade, agitando o mormaço que vinha do perau onde muito mais antigamente caravelas e saveiros com suas velas triangulares árabes eram consertados em sua ribeira. Mozinho – um valentão temido da Penha até o Largo do Papagaio – pediu à baiana dona Preta um abará. Mordeu e caiu na besteira de perguntar se era feito de feijão fradinho ou flor de milho (baiana que tem vergonha na cara não usa Vitamilho).

A velha não titubeou e empurrou a panela com dendê fervente no pé do indigitado que pulou de banda, se livrou da queimadura e chutou o tabuleiro levando ao chão acarajé, punheta, cocada-puxa, quebra-queixo, queijadas, cocada de coco queimado, lelê, amoda e vatapá. Esparramou e quebrou a guia.

O filho de dona Preta, capoeirista também renomado pelas bandas da Ilha do Rato, deu dois aús e derrubou Mozinho, que já caiu dando uma rasteira e foi briga para mais de hora. Os antigos garantem que os dois saíram muito machucados e foram levados para o Hospital da Cruz Vermelha, por coincidência na Avenida dos Dendezeiros. E, pasme minha senhora e meu senhor: dia seguinte os dois se encontraram, apertam as mãos e ficam amigos.

Ah! Dizem que na Ribeira ainda podem ser vistas as almas penadas de velhos piratas ou o espectro do padre que se enforcou no sino da Igreja de Nossa Senhora da Penha. Basta uma noite chuvosa. Agora mesmo é temporada deles.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista, escritor, editor do blog Joli: http://www.jolivaldo.blogspot.com/

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Uma resposta to “AS TAINHAS DO ENCLAVE DA RIBEIRA SE PICARAM”

  1. jbarreto Says:

    joli, amigo véi

    uma delícia sua moqueca de tainha!
    o hidroporto dos tainheiros foi usado pra valer durante a segunda grande guerra (1940).
    hoje, por lá, tem muito é ‘traíra’ sujando a velha Ribeira!

    grande abraço

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